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terça-feira, 2 de março de 2021

Almaraz e Cacilhas, vestígios arqueológicos de actividades portuárias

Vista parcial, do lado direito, da colina do Almaraz, Almada, voltada para o estuário do Tejo...
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. ... 2004

Almada

Posição geográfica: Margem esquerda do Tejo, na parte vestibular do estuário.
Coordenadas geográficas: N. 38 ° 41’ W. 9 ° 09’
Localização: Morro sobranceiro ao Tejo
Contexto geomorfológico: Insere-se no Esquema 2 de N. Flemming apresentado no II Capítulo e na Fig.13. Observou-se continuidade na posição de litoralidade.


Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...

Fontes antigas: São abundantes as referências ao ouro extraído das areias do Tejo emautores antigos tais como os poetas Catulo (XXIX, 20), Juvenal (III, 54-55), Silicio Italico (Punicorum, XVI, 560), Lucano (Pharsalia, VII, 755). Relativamente a época posterior, lembramos a conhecida relação entre o topónimo árabe Al-madan com o significadode "a Mina" e a tradição ligada à exploração de ouro no Tejo (Cardoso, 1995, p. 53).
Fontes cartográficas: João Teixeira (1648) — Descripção dos Portos Marítimos do Reino de Portugal, reproduzido em Cortesão e Mota (1987, vol. IV, Estampa 510 A).

Vestígios arqueológicos e actividades portuárias

Almaraz:

O esporão rochoso de Almaraz tem fornecido documentos arqueológicos que confirmam o povoamento do local durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

No caso do povoado de Almaraz datável da Idade do Ferro, registaram-se testemunhos de importações directas de produtos de fabrico mediterrânico, com origem no Mediterrâneo Oriental e datáveis do século VII a.C. (Cardoso, 1995, p. 47).

Essas importações de formas e técnicas poderão ter produzido fenómenos de aculturação como certas produções cerâmicas locais deinspiração oriental parecem sugerir a J. L. Cardoso (1995, p. 49).

Entre os artefactos de importação presentes em Almaraz figuram as cerâmicas de verniz vermelho, ânforas fenícias, pithoi decorados com bandas pintadas e cerâmicas cinzentas (Cardoso, 1995).

Cacilhas:

O achado subaquático, durante operações de dragagens fluviais, de umaespada pistiliforme datável do Bronze Final e a relação desse artefacto com “um comércio trans-regional, atlântico-mediterrânico”surgem em paralelo com uma eventual interpretação como objecto votivo relacionável com um ritual dedicado a divindades aquáticas (Cardoso,1995, p. 42).

As escavações na parte ribeirinha de Cacilhas levadas a cabo por Luís de Barros puseram a descoberto uma estrutura em pedra interpretável como um cais com evidências de contacto prolongado com a água, e associada a materiais pré-romanos (séculosVII-VI a.C.)18 e a tanques de salga.

É igualmente no sopé do esporão de Almaraz que continuou a fazer-se a travessia do Tejo em época romana, verificando-se continuidade nesta utilização desse ponto até à actualidade (Alarcão, 1992b, apud Cardoso, 1995, p. 45).

Cacilhas apresenta um complexo industrial de salga de peixe da época romana(século I a.C. — meados do século I d.C.).

A área das cetariae revelou sete níveis de ocupação, incluindo uma reutilização durante a época islâmica e registando-se ocupações posteriores relacionadas com a expansão urbana de Cacilhas (século XVI-século XIX) (Barros, 1982). Cerâmicas de importação: sigillata itálica e sud-gálica, cerâmica de paredes finas (Cardoso, 1995).

Utilização do litoral

A ocupação do morro de Almaraz denuncia contactos antigos com rotas marítimas longínquas através de um ponto de contacto com a navegação situado na área actualmente correspondente a Cacilhas. Terão operado em conjunto, constituindo um pólo de difusão e de escoamento quer de sal, quer de produtos mineiros, além de produtos agrícolas e agro-pecuários.

Almada insere-se num contexto geográfico especialmente privilegiado pela presença do estuário do Tejo na sua parte mais propícia à instalação de indústrias directamenterelacionadas com o meio marinho: salicultura, unidades fabris de transformação de pescadoe olarias com produção de contentores destinados aos preparados piscícolas durante a época romana.

Almada aparece referida em 1640 como uma vila:

"A la otra parte de Lisboa, distancia de una legua que la anchura do Tajo occupa, yaze la villa de Almada, comarca de Setubal, en lugar alto con 450 vezinos, 2 Parroquias y un convento de frayles" (Biblioteca Nacionalde Paris, Manuscrits espagnols, códice 324, fol. 31, apud Serrão, 1994, p. 198). (1)


O foral de Lisboa de 1179 e o foral de Almada de 1190, que privilegiam as tripulações das embarcações com foros de cavaleiros, são documentos reveladores da importância que, já naprimeira dinastia, era atribuída ao porto de Lisboa, embora a primeira referência explícita ao"porto de Lisboa" só tenha ocorrido em 1305, na época de D. Dinis.

No século XIV, a descrição que Fernão Lopes faz deste porto, embora aparentemente anterior a instalações portuárias construídas, e de relevo, não deixa dúvidas acerca da capacidade navegável da parte vestibulardo estuário do Tejo:

"carregavam de Sacavem e ponta de Montijo, sessenta a setenta navios de cadalogar, carregando sal e vinhos"(Fernão Lopes, apud Ramos, 1994, p. 724), embora, por ausência de cais adequados, fosse natural que se recorresse aos ancestrais serviços de embarcaçõesde transbordo, pois "por a gramde espessura de mujtos navios que assi jaziam ante a cidade, como dizemos, hiam ante as barcas Dalmadaa aportar a Santos, que he hum gramde espaço da çidade,nom podemdo marear perantrelles” (Fernão Lopes, apudRamos, 1994, p. 724). (2)


(1) Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...
(2) Idem


Mais informação:
Ana Olaio, O povoado da Quinta do Almaraz... 2018
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. até à Chegada dos Romanos: um Ensaio de História Regional... 2004
Luis Barros, João Cardoso, Fenícios na margem sul do Tejo... 1993
ResearchGate (search)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Almada no mapa do rio Tejo e da cidade de Lisboa em 1663 por Dirk Stoop

Chegaram esta manhã as gravuras do rio Tejo e da Cidade de Lisboa, que mediu com a sua própria mão e imprimiu por ordem do rei. My Lord agrada-se com isso, mas eu penso que deveria ter sido melhor feito se não tivesse sido um trabalho ocasional. Além disso, informei-o da tiragem sobre cetim branco, que ele logo encomendou. (1)  

Map of the river Tagus and the city of Lisbon (detail), Dirk Stoop, 1663.
British Museum

O primeiro conjunto de gravuras que Stoop produziu em 1662 após a sua chegada a Inglaterra foi uma série muito rara de oito longas vistas horizontais que mostram cada etapa da viagem de Catarina a Londres, desde a chegada de Lord Montagu ao Tejo, com a frota inglesa enviada para a transportar, até à procissão triunfal ao longo do Tamisa (Hollstein 31-8). 

Cada gravura tem textos em inglês e português, e cada um deles é dedicado a uma pessoa diferente, desde Lord Montagu (o Conde de Sandwich) e ao rei Charles, ao Mayor da Cidade de Londres.


A água-forte exibida aqui mostrada foi feita no ano seguinte e destaca-se da série anterior. A história encontra-se no diário de Pepys de 24 de Agosto de 1663 [v. acima ...]

Esta é a única impressão sobrevivente da água-forte e está impressa em cetim branco, como sugeriu Pepys. A falta de editor mostra que se tratava de uma água-forte particular não comercial. A cota de armas real dedica-a ao rei, enquanto as armas de Sandwich acima da cártula do título mostram seu papel no assunto.

Map of the river Tagus and the city of Lisbon, Dirk Stoop, 1663.
British Museum

O canto inferior esquerdo mostra o retrato de Sandwich a segurar a sua régua de medição, e o modo incompleto como o plano foca o estuário do Tejo prova que foi tirada do seu plano feito no local.

Map of the river Tagus and the city of Lisbon (detail), Dirk Stoop, 1663.
British Museum

Uma nota de rodapé de Sir Oliver Millar ao diário de Pepys (IV p.286) sugere que a fonte é um plano no diário de Sandwich, no qual ele registrou 'O restante das minhas observações do rio de Lisboa são aperfeiçoadas e impressas na minha gravura de cobre sobre a orientação de Kinges.' Evelyn regista que Sandwich também era um gravador amador ('Sculptura' p.131).


A depreciação de Pepys da água-forte como meio de impressão é uma expressão típica da preferência estética contemporânea em favor da gravura. Assim como seu desejo de vê-las impressos em seda em vez de papel. (2)


(1) The Diary of Samuel Pepys, Monday 24 August 1663

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O fim do neo-realismo: António Lobo Antunes e o elogio do subúrbio

A ter de extrair, da vasta obra romanesca do escritor, um excerto passível de configurar um manifesto do “ser português”, quer pelos componentes tradicionais que retoma, quer pelas sugestivas modulações que lhe imprime, a opção terá de recair sobre este desabafo de Alice, personagem de "O Manual dos Inquisidores", em cujo nome ressoa, em modo paródico, um país que não será o das "maravilhas":

António Lobo Antunes e José Cardoso Pires na década de 1980.
Luar de Janeiro

se houvesse menos mar sempre tínhamos um bocadito de espaço para umas nabiças e umas couves, se houvesse menos mar plantávamos batatas e jantávamos, existindo nesta terra um Governo inteligente vendia logo a porcaria do mar e do calor aos suíços que são ricos ou aos ciganos que são espertos e arranjavam maneira de se livrar das ondas a retalho, vendia o mar aos suíços que se pelam por iodo e comprava uma postazinha de bacalhau do alto para a gente, a minha prima Alda que preferia a Cova da Piedade ao Paraíso 


Cova da Piedade, avenida da Fundação, 1973.
Maria Alfreda Cruz, A Margem sul do estuário do Tejo

— Ai quem me dera em Almada quem me dera no Feijó Alice [O Manual dos Inquisidores, 212].

* * *

De "Tratado das Paixões da Alma", onde esse espaço periférico surge amplamente descrito, vamos colher uma passagem significante, dada por meio de um esquema de lateralizações sucessivas. 

Numa disposição gráfica que sugere uma carta (nunca escrita), o espião Alberto, personagem que encaixa no tipo cómico do "marido traído/corno manso", vai evocando episódios de vida em comum, numa espécie de devaneio poético, e ensaiando as palavras que nunca dirá à ex-mulher, Manuela, cuja traição surpreendeu, em flagrante. 

Tudo isso representa, na economia narrativa, matéria excrescente, mas alimenta generosamente a atmosfera cómica do romance: 

Almada, Manuela, esconde-se inteira atrás dos recessos dos pilares de cimento da estátua do Cristo Rei, e é uma espécie de enorme Santa Iria da Azóia invadida pelos assopros do Tejo, com gaivotas à deriva que os anúncios dos restaurantes e as cores dos semáforos alucinam, a impedir-lhes o rastro de alface, sopa de grão e óleo dos cargueiros, compelindo-as a inundar as cervejarias em crocitos desesperados de fome, tentando pousar na espuma das canecas como no visco da margem, à cata dos pequenos caranguejos que trotam entre os seixos. 

Vista parcial de Almada, década de 1970.
Delcampe

Os edifícios e as árvores esbarram em bombas de gasolina, sucursais de banco e moradias de gárgulas no telhado, nas quais um braço de rio vem espichar nos lavatórios quebrados a sua fetidez de peixe. 

Edifício Meia-Proa, na Costa da Caparica, onde num dos apartamentos José Cardoso Pires escrevia.
Delcampe

Em Almada até o centro é subúrbio [Tratado das Paixões da Alma, 94].


(1) Susana Carvalho,  A ficção de António Lobo Antunes: os mecanismos do cómico, 2018

Artigos relacionados:
Neo-realismos
Costa da Caparica de José Cardoso Pires
A janela de José Cardoso Pires
O anjo ancorado

Leitura recomendada:
António Lobo AntunesO Manual dos Inquisidores, 1996
António Lobo AntunesTratado das Paixões da Alma, 1990

Leitura relacionada:
O "Zé" por António Lobo Antunes
José Cardoso Pires: um escritor não chora

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Almada em 1760

Lançando hontem á noite os olhos, por acaso, sobre um livro portuguez, e vendo o frontispicio que fora impresso em Lisboa occidental, perguntei o que significava aquelle "occidental", e responderam-me que esta Lisboa aqui, situada na margem direita do Tejo, é assim chamada, para se distinguir de outra Lisboa, que está do outro lado do rio, à qual as escripiores portuguezes dão a denominação de oriental 

Vue de l’entrée d’un port animé, Alexandre Jean Noel (1752-1834).
Cappriccio Lisbonne, la tour de Belem.
De Baecque

[o erro em que, de certo, involuntariamente cahiu aqui o estimavel auctor das Cartas Familiares encontra facil correcção nas breves palavras que da Mappa de Portugal 5.ª parte, cap II, pag. 247 de João Baptista de Castro, transcrevemos em seguida: "Querendo o fidelissimo rei D. João V promover e exaltar com ardentissimo zelo o maior culto de Deus e o esplendor da sua egreja, impetrou do summo pontifice Clemente XI a bulla aurea, que começa: In supremo apostolatas solio, expedida nos 7 de novembro de 1716, pela qual fiz erigir na conllegial insigne da real capella uma cathedral metropolitana e patriarchal, dividindo para este effeito a cidade de Lisboa, e seu arcebispado em duas metropeles, com territorios distinctos, ficando os que pertencem à linha devisoria da parte do nascente sujeitos ao prelado de Lisboa Oriental, e os que olhavam para o poente ao patriarcha de Lisboa Occidental..."]

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Biblioteca Nacional de Portugal

e accrescentaram que "in dirbus illis" a cidade era toda para além do Tejo; mas que, com o decorrer dos annos, se descobriu ser mais commodo habitar da parte de cá, de sorte que a pouco e pouco se fez esta grande Lisboa, que antes de destruida pelo terremoto devia ser uma cousa estupenda, e a antiga Lisboa do lado de lá a pouco e pouco se reduziu a quasi nada.

Este "quasi" quiz eu ver logo; por isso esta manhã aluguei ás horas um bote de dois remos, e em menos de uma hora lá me achei. Ambas as margens deste rio são, pela maior parte, altas e penhascosas, mas a oriental ou esquerda especialmente, é toda ella uma collina mais alta que a nossa dos Capuchinos [colina próximo de Turim, assim chamada por causa de um convento de frades d'aquella ordem, que tem no cimo]; e a subida é tão difficil e aspera que faz suar a medulla dos ossos, quando o sol queima, como fez todo o dia de hoje.

Almada, brasão de armas no anno de 1760.

Mas, meus irmãos, bem sabeis que a curiosidade me faria andar descalço sobre espinhos, quanto mais ao sol. O certo é que, desta vez, a curiosidade teve pouco pasto, porque aquella Lisboasinha não contem senão dois logaritos de nenhuma importancia, um chamado Almada, outro Cacilhas [no texto vem "Castiglio"].

Em Cacilhas nada vi de notavel, a não serem os pouquissimos restos de um pequeno forte situado sobre urna eminencia bastante alta, e que de certo, não custou muito ao terremoto demolir.

Em Almada visitei um pequeno convento de dominicos, chamado de S. Pauto, cujas paredes interiores são forradas de azulejos muito luzentes, que só de os ver refrescam a gente. Este convento já não tem egreja, porque abateu de uma vez com o terremoto, ficando esmagado um frade que estava celebrando missa, e bem assim todas as pessoas que se achavam na egreja, sem escapar uma só.

E o padre que me acompanhava nesta visita disse me que debaixo das ruias foram depois tirados os cadaveres de mais de cincoenta mulheres, todos aos pedaços, sem contar os homens, que não chegavam a vinte, cousa digna de todo o credito. porque em toda a parte os homens são muito menos inclinados ã devoção, e cuidam muito menos da salvação da sua alma do que as mulheres. 

Nós, os homens, podemos dizer o que quizermos; mas, por bondade de animo e por virtude, reunidas, as mulheres approximam-se tanto do caracter dos anjos, quanto os homens se avisinham ao de certos senhores de pontas, de garras e de cauda, que por delicadeza, não quero aqui nomear.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII (detalhe).
Museu de Lisboa

Não é porque eu ignore que no mundo existem mulheres de caracter iniquissimo, as quaes por soberba, avareza ou luxuria poriam fogo por assim dizer a um sanctuario, e muitas hei conhecido que, para enganarem o proximo, ainda que sem grande proveito proprio, teriam deitado a barra adeante d'aquelle que entrou na serpente para enganar a mãe de genero humano; mas, pelo amor de Deus não me obrigueis, meus senhores, a entrar a dizer a verdade, e a pôr a calva á mostra aos homens, pois que, por um bom ou mediocre que me deis, eu vos apresentarei logo dez mulheres.

E notae que, por uma que corrompa a mente de um homem, cem mulheres são corrompidas por um só destes traidores, o qual, tingindo atfficção e desesperação mortal por amor invencivel, faz emfim tanto com o auxilio do diabo, que desperta immensa piedade no coração credulo e compassivo de uma innocente e digna creatura feminina, e d'ella se torna senhor absoluto primeiro que a misera e mesquinha caia em si de ter sido vencida pela sua natural bondade e ternura mais que pelo seu appetite e concupiscencia.

Por isso, minhas senhoras, podeis estar certas, e recordae-vos sempre de que o maior inimigo que tendes é a vossa mesma bondade, que vos faz obrar a maior parte dos despropositos que fazeis, os quaes despropositos, para vosso maior pesar, e para vossa maior vergonha, são quasi sempre praticados a favor de um ingratíssimo patife, que, quando de vós houve o que desejava, vos despreza, vitupera e aborrece, ou vos trata deshumana e cruelmente, apenas vos entregastes a elle sem nenhuma reserva.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Museu de Lisboa

— Mas, volte-mos a Lisboa oriental. O desmoronamento da egreja de Almada tornou aquelle logar pobrissimo de habitantes. O convento não fez companhia á egreja, pois ficou de pé, de maneira que nenhum dos frades morreu, excepto o que referi, e um leigo.

Das janellas desse pequeno convento se desfructam as mais bellas vistas do mundo, porque de uma parte se avista toda Lisboa, e Belem, o rio, o mar, infinitas embarcações, differentes castellos e fortalezas, que defendem a foz do Tejo, e da outra lindissimas collinas verdejantes e bem cultivadas; por maneira que este, quanto a mim. e um panorama muito superior ao famoso promontorioo, em que já vos fallei, o monte Edgecumbe, perto de Plymouth, em Inglaterra.

Satisfeita a minha curiosidade pelo que respeita a Lisboa oriental, desci a collina, voltei ao bote, e mandei aproar ao hospital dos inglezes, que tira do mesmo lado do rio, para baixo, para a banda do mar; mas não vi lá cousa nenhuma que parecesse extraordinario, excepto um medico já velho do hospital, um urso, que, tendo recebido aos setenta annos uma rapariga de dezoito, tornou-se, apesar de inglez, tão bestialmente ciumento, que se poz a olhar muito para mim de soslaio, quando viu que me dirigia para o jardim do hospital, porque sua mulher alli estava n'aquelle momento colhendo figos e uvas para o jantar.

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

Contudo, mesmo nas suas bochechas, fui entrando, sem lazer reparo na sua mulhersinha, porque não tenho prazer nenhum em causar aborrecimento a outra pessoa; e antes tenho dó dos velhos, que estão no caso d'aquelle senhor doutor, reflectindo que talvez haveria mister da compaixão dos outros n'aquella edade, se lá chegar, e se então perder o juizo, como succedeu ao pobre homem.

Não creio que a ternura do coração e o amor ao sexo feminino se apartem jámais dos homens educados, se Deus os não ajudar com uma graça especial, e lhes não apagar da fantasia a esperança do supremo contentamento que é produzida pela idéa incessante da posse completa da belleza feminil.

E é por isso que os homens de educação devem, especialmente quando são solteiros ou viuvos, arreceiar-se sempre de cair na rede em que o referido doutor cahiu; porque um quarto de hora de violenta agitação do pensamento é muitas vezes bastante para vencer toda a prudencia humana e todas as resoluções mais fortes de um homem considerado circumspecto, e leva-o a praticar um erro grande que precisa de ser sustentado depois com outros muitos erros; e talvez fosse este exactamente o caso do meu pobre velho doutor do hospital inglez donde voltei, rio acima, para casa de um irlandez que negoceia em vinhos por grosso, esperando induzil-o, com dinheiro ou com boas palavras, a dar-me algum por miudo, tendo com effeito tanta necessidade d'elle como os meus catraeiros.

E foi uma felicidade que aquele senhor negociante de vinhos que se chama O'Neal, usasse para commigo de tanta cortezia quanta vilania tinha praticado o velho doutor da tal mulher nova, o qual apenas quiz consentir que eu depenicasse um cacho das suas vinhas, que todavia estavam carregadíssimas d'elles.

Retrato de Giuseppe Baretti (1719-1789) por Joshua Reynolds.
Wikipedia

Deu-me com liberalidade o sr. O'Neal a beber quanto eu quiz, e fez-me provar mais qualidades de vinhos muito estimados, e aos meus suados barqueiros deu tambem um garrafão, pondo ainda dificuldade em deixar metter algum dinheiro no bolso de um seu pequeno.

Aquelle cavalheiro tem a sua casa protegida do rio por uma espécie de molhe construido de grossos penedos, e, tendo eu subido a esse molhe, recreei-me de ver dois escravos da Guiné, mais pretos do que pez nadarem no rio, e darem viravoltas e saltos na agua, e mergulhos, que era um regalo vel-os; e, a troco de alguns cobres que lhes dei, armaram uma dança sobre as ondas, cantando á sua moda, ora mergulhando, ora pulando de todo no ar. de modo tão assombroso, que seria mais facil agarrar uma enguia pelo rabo. 

Da canção do baile, que me cantaram em lingoa africana só comprehendi que era uma rima, nem mais nem menos do que a de Lourenço de Medicis e do Policiano.

Alguns modernos inimigos da rima teem dito e continuam a dizer que essa futilidade foi inventada pelos frades nos seculos barbaros, e em apoio da sua opinião citam os versos leoninos; mas eu achei que os americanos do Mexico e de outras partes do novo mundo usavam das rimas antes do nascimento de Christovam Colombo, e é claro que faziam uso d'ellas por serem proprias da poesia, fosse esta o que fosse, boa ou má.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

E pela mesma razão os mouros da Guiné, e provavelmente de toda a Africa. empregam a rima em todas as suas poesias, sem haverem tido por mestres os inventores do verso leonino. Custa-me bastante não saber musica para apanhar as poucas e solemnes notas d'aquella canção africana; e quando figuei satisfeito, voltei a prôa para Belem, e fui visitar o convento dos Jeronvmos. (1)

Lisboa, 5 de setembro de 1760

Cartas Familiares de José [Giuseppe] Baretti, traduzidas do italiano [por Alberto Telles], VII


(1) Occidente n.° 625, 5 de maio de 1896.

Artigos relacionados:
Mappa de Portugal antigo e moderno
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura relacionada:
Francisco de Almeida Mascarenhas, Codex titulorum S. patriarchalis ecclesiae Lisbonensis... 1746
Pe. João Baptista de Castro, Mappa de Portugal antigo e moderno, Lisboa, Off. de Francisco Luiz Ameno, 1762-1763

Informação relacionada:
Lugares de Almada: Da Fonte da Pipa à Arialva, passando pelo Olho de Boi

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O casamento de Elvira e Bordallo

Apesar das determinações paternas, Raphael Bordallo continuou sempre desenhando tudo que lhe apparecia: e em 1857, pequenote ainda, estando em Cacilhas, fugido da febre amarella com sua familia, pintou um quadrito a oleo, que existe hoje no Alemtejo, em casa de uma tia sua, cópia — o quadro, não é a tia — de uma lithographia representando uma família de camponezes á espera de um filho ausente, todos sentados á beira-mar; composição em que se notou desde logo sentimento e gosto... (1)

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869.
amazon

Conhece-se o amor no muito que se sacrifica; é talvez uma das differenças mais intimas que ha entre elle e a amizade: a amizade faz sacrificio de muitas cousas, o amor sacrifica-se muito a si. Por isso na hora em que Raphael Bordallo se apaixonou pela senhora [Elvira Ferreira e Almeida] com quem veio a casar [no dia 15 de setembro de 1866], cortou logo por todo o genero de prazeres e de divertimentos que lhe tornavam a vida agradavel, e foi viver uns poucos de mezes na Outra-banda, onde essa menina estava a banhos.

Viria como um assassino, como um malfeitor, como um homem muito facinoroso, sempre escondido, sempre disfarçado, por causa da mãe da menina, que costumara reprehendel-a asperamente quando o avistava. O primeiro amor ó muilo cantado, mas não lhe fazem n'isso favor nenhum, porque realmente o merece; basta ser o unico tão isento de amor proprio quanto o amor póde chegar a sel-o! 

Raphael Bordallo Pinheiro, 1876.
Museu Bordalo Pinheiro

No fim de um anno d'aquella vida quasi melodramatica, pela fórma, resolveu casar-se, casar-se ou morrer. 

Pede-se a noiva; mas ha recusa; elle tira-a aos patrios poderes por meio de justiça; o casamento faz-se em 13 dias; a noiva, menina. gentilissima, é depositada em Cacilhas; o casamento tem logar em Almada. Se quasi toda a gente se casa moça, muito moça, é provavelmente por ser essa a idade da audacia, da coragem, estavam com medo que eu dissesse, das loucuras? nunca! 

Elvira Ferreira de Almeida.
Museu Bordalo Pinheiro

No dia do seu casamento fazia uma ventania que ia tudo pelos ares. Elle passeava no caes de Cacilhas, vestido como é proprio nas grandes occasiões, casaca, gravata branca, esperando pessoas de amisade que deviam ir de Lisboa...

O tempo a passar, o vento cada vez mais rijo, e elle passeando, passeando...

Antes que cases, olha o que fazes.
Raphael Bordallo Pinheiro, Album de caricaturas

Já se dizia que não queria casar. Perguntava-se por elle a quem se encontrava:
 
Que é do homem?
Qual homem?!
O noivo?
— O Bordallo?
Ainda não veiu?   
Não. Vossê viu-o?
— E vossê?
Quem o viu?
É celebre!...

Veiu o padrinho por alli abaixo procural-o, e queria que elle fosse n'um burro para chegar mais depressa:

— Monte no burro, avie-se!
— Não vou, não vou; no burro, não vou! retorquiu Raphael com dignidade.
— Estamos ha que tempos na egreja á sua espera!
— Pois agora vamos; mas vamos a pé; é só mais um instante...

O janota de chapeu alto, Raphael Bordallo Pinheiro.
Bordallo Pinheiro

Escapou do burro, mas não poude fugir ao chapeu de chuva, e marchou para Almada, "en grand tenue", de guarda-chuva aberto. 

Chega emfim a S. Thiago de Almada, tranquillisa pela sua presença os animos agitados dos circumstantes, fecha o chapeu de chuva; momentos depois, tudo está dito: casou. 

Roque Gameiro.org

Aquelle acontecimento tinha para elle todas as seducções da liberdade, tinha até certo encanto phantastico; realisar o seu ideal, alcançar a escolhida do seu coração, tudo isso longe de Lisboa e podendo dizer ao padrinho como nos melodramas;

Diante de nós o mar, ao nosso lado o mar, em redor de nós o mar! 

Porque Raphael Bordallo é uma imaginação para tirar partido de tudo, não brincando como se poderá julgar, mas a serio, extremamente a serio, com todo e, enthusiasmo de um temperamento em que as tristezas, as alegrias, e as exaltações são sempre subtis, imprevistas, ardentes, febris. 

Lisboa vista de Almada, J. Laurent (1816-1886), c. 1870.
Archivo Ruiz Vernacci


Diziam-lhe á volta para Cacilhas:

O mar está horrivel! Isto vai ser agora um pouco desagradavel!...
Qual desagradavel! É uma viajata. É tempo de que os portuguezcs comecem a ter estimação pelo movimento, pela novidade, pelo sair da toca!
Pois sim, mas póde a gente sair da toca n'um dia ameno. 
Nada; não senhor. Isso é desconhecer o gosto pelas viagens. As viagens exigem, para serem em termos habeis, commoções, surprezas, perigos. Entre nós ainda nem se percebe isto correntemente porque ha horror a separar-se um homem do Chiado, ou do Rocio. Os portuguezes, ainda teem medo de sair da sua rua. E querem dizer que já isto vae melhor. D'antes acham-se de alguma vez um ou outro, por casos políticos, na França ou na Inglaterra, emigrado. Agora nem isso! E não ê senão pela teima de se deleitarcm em viver quietos, contentando-se com o seu bairro [...]

O vento soprava rijo...

Rafael Bordalo Pinheiro e familia em 1879.
Museu Bordalo Pinheiro (Flickr)

Como elle assovia! diziam os circumstantes segurando os chapeus.
Deixe assoviar. É o modo d'elle de celebrar meus louvores!

Havia uma tempestade.
Os noivos deviam partir para Belem, onde ficariam residindo.
O mar estava medonho.

Retrato de Elvira Bordalo Pinheiro, Columbano, 1883.
MNAC

Ninguem se atrevia a embarcar; quando se consultava os barqueiros, os honestos homens respondiam torcendo o barrete:

Está picadito, o mar está picadito!
—  E se formos a remos?
Vamos metter muita agua!
O melhor é esperar pelo vapor.
O vapor virá só de tarde, e não atraca, provavelmente.
Vamos embora!

Não houve remedio.
Embarcaram [...]

—  Não está mau torrão! dizia o padrinho, embrulhando-se no toldo, em quanto a noiva ria, ria [...]

Ih! Cuidado! O bote vai a metter a quilha na agua...
Não ha novidade! dizia o homem do leme.
Então posso continuar? perguntava Raphael ao padrinho.
Tomára-me eu em terra!

E o noivo, olhando para a noiva, e meigamente:

Tambem eu! 

Zé Povinho e Maria Paciência.
Museu Bordalo Pinheiro (Flickr)

Depois, n'outro tom para o padrinho: 

—  Mas, como eu dizia, deixemo-nos de historias, nada d'isso é tão digno de estimação como passar as aguas, separar-se da cidade, da Lisboa querida, nossa patria e nosso enlevo, e ir de viagem casar a Almada! É ou não é? (2)


(1) Raphael Bordallo Pinheiro, Album de caricaturas, Lisboa, 1876, cf. prefácio de Julio Cezar Machado
(2) Idem

Artigos relacionados:
Egreja de S. Thiago em Almada
Quarentena

Informação relacionada:
Centro Virtual Camoões: Rafael Bordalo Pinheiro
O amor italiano de Bordalo Pinheiro
Bordalo na Gare Rodoviária do Oeste
Museu Rafael Bordalo Pinheiro (Flickr)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Trio Manuel Mestre: Almada Cidade Jovem

Trio Manuel Mestre.
Discos de Vinil Repetidos

Trio Manuel Mestre.
Discog
A Manel Das Cebolas
B1 Almada, Cidade Jovem 



B2 Portugal É O Mais Lindo

Trio Manuel Mestre.
Discogs

A1 A Franguinha Da Vizinha 
A2 Almada Cidade Jovem 
A3 Vai Ao Minho 
A4 Aldeia Serrana 
A5 Estudantina Portuguesa 
A6 Portugal É O Mais Lindo 

B1 Manel Das Cebolas 
B2 Mineiro Por Natureza 
B3 Truca Laruca 
B4 Regresso 
B5 Viva O Alentejo

Trio Manuel Mestre.
Discos de Vinil Repetidos

A1 Truca Laruca
A2 Mineiro Por Natureza

B1 Estudantina Portuguesa
B2 Regresso

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Grande Parada dos Bombeiros Portugueses

16 de Junho de 1935

A parada teve como pano de fundo as principais artérias da Baixa de Lisboa, sendo assistida, ao longo de todo o percurso, por enorme multidão, desperta pela vistosidade dos fardamentos e das viaturas, para além dos estandartes e das bandas de música que marcaram a cadência das garbosas e disciplinadas formações de bombeiros. O número de participantes saldou-se num verdadeiro êxito: 2488 homens e 114 viaturas (15 carros de pessoal, 110 carros de combate, 2 ambulâncias e 17 auto-macas).

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
InfoGestNet

Em termos organizativos, as forças motorizadas concentraram-se em Belém, na Avenida da India, dirigidas pelo comandante do então Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, major Frederico Vilar, enquanto as forças apeadas, sob a orientação do comandante dos Bombeiros Voluntários Portuenses, major Gabriel Cardoso, reuniram entre a Praça de D. Pedro IV e a Praça dos Restauradores [...]

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Almada na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
InfoGestNet

Numa tribuna instalada na Avenida da Liberdade, assistiu à parada o Presidente da República, general Óscar Carmona, acompanhado do ministro do Interior, Manuel Rodrigues Júnior, e do governador civil de Lisboa, tenente-coronel João Luís de Moura, entre outras altas entidades do Estado. (1)

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
InfoGestNet

À noite

As viaturas concentraram-se às 22 horas na avenida da India e cada bombeiro recebeu uma provisão de fogo de artifício. Uma hora depois o cortejo pôs-se a caminho. Ao chegar ao Terreiro do Paço a iluminação do percurso imediato foi atenuada e principiou a queima de fogo, dos veículos em marcha.


Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
InfoGestNet

O aspecto feérico da longa fila de carros, donde jorravam fachos de luz, era deslumbrante. A todo o momento subiam no ar foguetes que se derramavam depois em lágrimas refulgentes de luz ante os olhares da multidão maravilhada. (2)


(1) Bombeiros de Portugal
(2) Ilustração N.º 229, 1 de julho de 1935

Artigo relacionado:
Museu de Bombeiros

Mais informação:
O Noticias Ilustrado n.° 367, 1935, cf. A voz dos egrégios avós

Leitura relacionada:
Victor M. Neto, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir..., Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011


Informação relacionada:
Liga dos Bombeiros Portugueses, Núcleo de História e Património Museológico

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Entrada em Lisboa no dia 24 de julho de 1833

Segundo Eschwege [Wilhelm Ludwig von], e Chaumeil de Stella [Essai sur l'histoire du Portugal...], o exercito de D. Miguel compunha-se neste tempo de 5 divisões, e de uma columna movel:  

D. Miguel de Bragança (detalhe) por Johann Nepomuk Ender, 1827.
Google Arts & Culture

a 1.ª divisão occupava Lisboa sob o commando do Visconde do Pezo da Regua;
a 2.ª estava acantonada em Alcobaça e Caldas, e apoiava o seu flanco esquerdo em Torres Vedras: obedecia ao general Povoas;
a 3.ª occupava Torres Vedras e Cintra, sob as ordens de Pinto, e estendia-se além daquellas duas povonções;
a 4.ª, capitaneada pelo Visconde de Santa Martha, existia no Porto e margens do Douro;
a 5.ª divisão estava posta á disposição do governador do Algarve Visconde de Modelos;

Le Portugal et l’Europe en 1829.
Du Tage à l'Eridan épouvantant les Rois / Fait crouler dans le sang les Trônes et les lois!
La fortune toujours du parti des grands crimes / Les forfaits couronnés devenus légitimes!

Google Arts & Culture


ao sul de Lisboa entre Almada e Setubal, manobrava a columna movel, que era cumposta de milicianos.

O exercito permanente era formado das tropas seguintes: 

3 regimentos de artilheria com 29 peças e 7 obuzes; 8 regimentos de cavallaria e 5 esquadrões de policia (5:346 homens com 2:852 cavallos), 
16 regimentos de infanteria, 4 ditos de sapadores, e a guarda da policia (24:136 homens), 
e além disto 49 batalhões de realistas (18.336 homens e 209 cavados), 
e 50 regimentos de milícias (27:508 homens), os quaes se não serviam muito para o serviço do campo, podiam comtudo ser aproveitados para guarnições. (1)

Bandeira de Caçadores n° 7 com legenda.
Elucidário Nobiliarchico

A conhecida diversão para o Algarve, que elle imaginou, e tão felizmente conduzio, é um dos períodos mais brilhantes da carreira militar do actual Duque da Terceira.

Duque da Terceira (detalhe) por John Simpson, após 1834.
Imagem: Parques de Sintra

Desembarcou á testa de 2:500 homens em Cacella na costa do sul do Algarve a 21 de Junho de 1833;

Historical military picturesque..., George Landmann, Faro.
Biblioteca Nacional de Portugal

atravessou velozmente esta província, e o Alemtéjo, e por meio de um rápido movimento illudio o general Mollelos, que o aguardava em Beja com 6:000 homens, e obteve deste modo sobre elle um avanço de dois dias;

accommetteu Setúbal;

Historical military picturesque..., George Landmann, Setúbal.
Biblioteca Nacional de Portugal

bateu a 21 de Julho a divisão do brigadeiro Freitas, e a 23 Telles Jordão em Cacilhas; 

e na manhã do dia 24 entrou em Lisboa, a qual tinha abandonado poucas horas antes o duque de Cadaval [v. Rezumida noticia da vida de d. Nuno Caetano Alvares Pereira de Mello...] com forças quatro vezes superiores, apesar de que a largura do rio, e uma numerosa artilheria facilitavam tanto a defeza, que a menor resistência de Cadaval teria posto o duque da Terceira na impossibilidade até de ousar um attaque sobre Lisboa.

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Biblioteca Nacional de Portugal

Mau grado lodos estes obstáculos, o general de D. Pedro estava tão seguro do resultado, que na vespera, quando ainda as tropas de Cadaval guarneciam Lisboa, escreveu ao Imperador annunciando-lhe a tomada da Capital.

Tenho em meu poder o original desta carta memorável; é o seguinte o seu contheudo: 



— Senhor! Tenho a honra de annunciar a Vossa Magestade, que neste momento acabo de bater completamente as tropas de Telles Jordão. 3 esquadrões, 15 peças, e 700 homens d'infanteria acham-se em meu poder.

O comportamento das forças do meu commando fica acima de todo o elogio. Espero datar do Castello de Lisboa o meu proximo bolletim. 

Beijo respeitosamente as mãos de Vossa Magestade.

— Duque da Terceira. — Cacilhas em 23 de Julho de 1833.


Sobre este officio, que tem o cunho da modéstia, e da simplicidade dos antigos, escreveu a rogos meus a formosa Duquesa da Terceira o seguinte sobrescripto: — Carta do Duque da Terceira ao imperador ua vespera da entrada em Lisboa.

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Maria João Vieira Marques

Tomei a liberdade de lhe propôr que substituísse por tomada a palavra entrada, ao que retorquiu immediatamenle o Duque "Tomada tido, porque o inimigo náo sustentou a sua posição; foi unicamente uma entrada", o Quantos aflatuados redactores de bulletins seriam capazes de dar uma resposta semelhante? (2)


(1) Felix Lichnowsky, Portugal. Recordações do anno de 1842, Lisboa, Imprensa Nacional, 1845

Alguns artigos relacionados:
23 de julho de 1833, a Batalha da Cova da Piedade, por Charles Napier
Derrota dos Miguelistas em Cacilhas

Wikipédia:
Duque da Terceira
António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha

Mais informação:
Elucidário Nobiliarchico, Apontamentos àcêrca das Bandeiras e Estandartes regimentais...
Arquivo Municipal do Porto (Documentos com referência a Cerco do Porto...)
Portuguese Civil Wars (facebook)
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Portuguese Civil Wars (facebook): photos