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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Clínica do Povo

Por iniciativa da L.U.A.R. (Liga de União e Acção Revolucionária) e com o apoio e "empurrão" do povo, o palácio de José Gomes, na Cova da Piedade, foi tomado. No desabitado e inútil palácio foi instalada uma clinica comunitária materno-infantil ao serviço das massas trabalhadoras mais desfavorecidas.

Fachada do palácio tomado pela L.U.A.R. (detalhe).
portadaloja

A Cova da Piedade e mais concretarnente o Palácio de José Gomes foi escolhido entre os muitos palácios abandonados, desabitados ou subaproveitados, que ainda existem por este País para a instalaçãoo da primeira clínica popular materno-infantil do País.

Concordamos que a designação que transformou uma desabitada e requintada construção do século XIX num edifício para exclusivo serviço das massas trabalhadoras é capaz de ferir sensithlídade das opulentos do século XX.

Fachada do palácio tomado pela L.U.A.R. (detalhe).
portadaloja

José Gomes, o homem que o engenho e a "eterna" gratidão perpetuou em estátua de bronze no pequeno jardim no Largo 5 de Outubro  — em frente seu palacete  — se deixasse o céu (deve ser lá que se encontram os que suavizaram os "pobres" explorados), teria certamente agradecido L.U.A.R. por ter salvo o seu palácio da ruína, talvez mesmo da pilhagem e com certeza da escandalosa inutilidade.

Os seus herdeiros — cidadãos de um País que segundo as vozes oficiais e oficiosas não possui instalações suficientes e apropriadas para que as reformas (do ensino, da saúde, da habitação...) se possam iniciar com "a urgèncra e necessidades desejadas", — tinham há 14 anos abandonado o senhoril palacete, sem contudo renunciarem ao requintado recheio, como fiéis e legitimos prolongadores de uma herança acumulada numa zona habitada por trabalhadores.

Foi este palácio, de 32 salas com 3 pisos e uma pequena e bem tratada quinta —  nurna vila onde apenas existe um hospital — com urna população de 20 mil crianças e igual número de mulheres casadas. que. no dia 28, pelas 17 horas e 30 minutos, a L.U.A.R. (Liga de Unidade e Accão Revolucionária) tomou com o apoio e "empurrão" da população trabalhadora.

Esta foto não foi tomada no Museu dos Coches...
portadaloja

Estava dessa forma aplaudida a concretização de uma ideia nascida pela visão da opulência e do esbanjamento e pela vivéncaa de carências e exploração humana. 

São de Ferrando Pereira, responsável da L.U.A.R. na zona, as palavras que transcrevemos: 

"A acção que reabrimos nasceu de uma conversa que tive no Verão passado, com um casal francês que nos visitou. A construção do palácio prendeu-lhes a atenção, e, quando. souberam que estava desabitado, a senhora exclamou: "Que magnifíca clínica para parturientes." A partir dessa altura comecei a convencer os colegas da L.U.A.R. e a espalhar a ideia entre algumas pessoas da populacão".

Se a adesão dos militante da organização foi rápida, pois todas as outras alternativas que surgiram se enquadravam na linha da utilização do edifício para servir o povo trabalhador, já um pouco mais moroso foi no respeitante a uma parte da população. 

Para os privilegiados eram já conhecidos os possíveis destinos do glorioso palacete.

À herdeira, Fernanda Faria de Carvalho, uma senhora que mora na Avenida Sidónio Pais, de Lisboa, era-lhe mais grato saber que a sua herança iria servir para Museu, residència de embaixador ou para Paços do Concelho.

Mas não eram esses os desígnios dos homens que sentem e vivem no pulsar acelerado de uma vila de trabalhadores óptimas condições para ali serem implantados os alicerces do um serviço de saúde voltado para as reais necessidades dos moradora e não para a "massa" dos trabalhadores-habitantes. 

Nesta cozinha se prepararam fartos e opíparos manjares. Agora preparam-se refeições para o pessoal em serviço.
portadaloja

Num comunicado divulgado à população a L.U.A.R. clarifica as intenções e objectivos revolucionários da tomada do palacete: 

O objectivo é transformar este magnífico palácio, inútil e amplo, numa clínica comunitária materno-infantil administrada exclusivamente pelos populares.

Boletim informativo da LUAR n° 1, outubro 1975.
1969 Revolucão Ressaca

Com os recursos precários de que se dispunha, foi posto a funcionar, tendo acorrido pessoas com crianças, que foram atendidas gratuitamente por alguns médicos que apoiam esta iniciativa. 

Pretende-se com esta acção lançar as ideias básicas de um Serviço Nacional de Saúde ao serviço das massas trabalhadoras mais desfavorecidas e controlado por elas. 

É evidente que acções como esta náo terão significado se não se alargarem à populaçáo de todo o País, se não assumirem uma forma poder popular (contra-poder popular).

Para que o povo futuramente ganhe o Poder é necessário para já, a n´vel político e económico, haver um controlo efectivo por parte das massas trabalhadoras. 

É aqui que surge a necessidade dos contrapoderes populares, significando isto que ern regime da exploração cápitalista quem comanda o Poder não pode servir o povo..."

"SERVIR O POVO" 

A clínica cornunitária materno-infantil já está a funcionar. Diariamente, aproximadamente 20 pessoas são gratuitamente recebidas pelos serviços clínicos — pediatria e clínica geral — assegurados por 4 médicos e enfermeiros que livremente puseram as suas horas disponíveis e os seus recursos ao serviço da revolução económico-social.

O dr. Açucena, pediatra que aderiu, ainda no tempo da incubação do ideia, à tomada do palácio e desde e primeira hora presta assistência clínica disse-nos: 

Como médico municipal que sou tinha de aderir e sempre aderi a iniciativas de carácter humanitário. Não sou um militante da L.U.A.R. mas sim um médico progressista.

Dr. Açucena numa consulta de pediatria na clínica popular materno-infantil ao serviço exclusivo das massas trabalhadoras.
portadaloja

A uma pergunta que lhe fizemos sobre a viabilidade de urna assistência médica contínua e progressiva — o que implica maior aderència da parte de médicos que queiram pôr verdadeiramente a medicina ao serviço do povo — disse-nos: 

Há ainda alguns médicos que põem certas reticências em virtude do modo como os serviços foram iniciados, preferindo aguardar uma legalizaçáo.

De qualquer modo contamos para já com médicos suficientes para não só dar concretização a urna ideia que nasceu de uma organização revolucionária mas também para alargar a clínrca a outros serviços médicos indispensáveis nesta zona. O que está em jogo nesta altura é querer ou não servir o povo trabalhador.

Por enquanto apenas as salas do rés-do-chão estão a ser utilizadas. Brevemente outras salas serão utilizadas para instaurar um serviço de obstetrícia e ginecologia.

O recheio, revelador ainda de uma opulência ali vivida, está devidamente inventariado e guardado em salas fechadas.

Interior de uma das salas requintadas do palácio que foi pertença de José Gomes.
portadaloja

Os militantes da L.U.A.R. esperam, e fazem esforços nosso sentido, que no prazo de uns mês a população da vila, em Assembleia, nomeie uma Comissão que tome conta de clinica comunitária materno-infantil e vigie para que ela cumpra a missão a que está destinada. 

"Os dados foram lançados".  É ao povo da Cova da Piedade que cumpre assumir e desenvolver contra a exploração Capitalista, que tem sido longa e tudo nos leva a supor que será dura.

Se podemos dizer que a L.U.A.R. deu o exemplo, é ao povo que compete extirpar do seu seio as formas parasitárias e exploradoras que continuam e travar e marcha para o socialismo. 

Joaquim António Aguiar, sentado de fronte da estátua de bronze do benemérito José Gomes, tentando recuperar as energias gastas ao longo dos seus 75 anos do vida, revelou-nos as suas impressões que coincidem com muitas outras opinióes que auscultámos.

Isto foi muito bem feito. Não se admite que uma casa destas estivesse aos ratos. Mas ainda aí há mais casas que precisam do ser arejadas. 

De facto outros casas já foram arejadas e transformadas em instalaçõeses de serviço público. Na Parede, no Barreiro o ern Lisboa o exemplo dado pela L.U.A.R. em conjunto com a pooulacão do Cova da Piedade produziram fruto  um fruto que é bem digerido pela debilitada população. 

Ouçamos alguns dos depoimentos que recolhemos durante uma consulta na clinica popular materno-infantil da Cova da Piedade, que tem funcionado diariamente das 16 às 20 horas. 

Sala de espera da nova clínica materno-infantil da Cova da Piedade.
portadaloja

Luísa Miranda do Jesus tem 23 anos e veio há dois meses de Mocambique:

Cheguei há pouco tempo de Moçambique e como a vida está cara e eu estou sem dinheiro trouxe o rnenino aqui para ser consultado. 

Maria de Lourdes Pires chegou há dois meses de Angola. Tem 26 anos e 2 filhos:

A criança estava tratamento em Angola, mas quando cheguei tive de parar o tratamento. Não me era possível recorrer aqui a um especialista de pele, que não são tão baratos como isso. 

Estrudes Maria Tavares explica porque optou pela clínica popular:

Anteriormente ia a urn consultório, era atendida à pressa e pagava 150$00 cada consulta. É a segunda vez quo trago aqui o meu filho e além de ser de graça parece-me que consultam melhor. 

Maria Amélia tem 46 anos. Disse ser doméstica e mal atendida nas "Caixas":

Vim aqui porque o meu marido não pode pagar para eu levar o filho a um medico particular. Na Caixa não nos atendem como deve ser. Passam o tempo a fazer croché. A minha filha já por três vezes que tirou análises, mas nunca mais aparecem. O médico bom a, pode, mas elas não as conseguem encontrar.

Felicidade Mendes, com o mais novo dos 3 filhos ao regaço, contou-nos: 

Estou cheia de ir aos médicos. Agora venho aqui para ver se me curam a menina. Tirei-lhe análises na Estefânia e disseram-me que tinha uma inflamação. Só mandam mudar do leite o mais nada. Fui a um médico particular. paguei 200$00. pata me dizer: "Não encontro nada, não sei porque não come". 

portadaloja

O que eles querem é servir-se dos nossos filhos para estudarem. Façam isso com os filhos deles. (1)

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Os estrangeiros que vieram para Portugal no pós-25 de Abril participaram nas mais diversas actividades. Lembro-me, por exemplo, que a certa altura o grafismo e a paginação do jornal do MES (Movimento de Esquerda Socialista) foram obra de um artista gráfico inglês, ou que na Clínica Popular da Cova da Piedade (freguesia do concelho de Almada), havia vários médicos estrangeiros voluntários. 

Cova da Piedade, palacete António José Gomes (detalhe).

Esta Clínica foi criada em Setembro de 1974 por militantes da LUAR e do PRP, mas dela faziam parte sobretudo independentes, em particular estrangeiros.

A Clínica, instalada num antigo palacete abandonado pelos donos, começou como centro de planeamento familiar que dava informação e aconselhamento sobre medidas anticoncepcionais. Tinha uma permanência aberta 24 horas por dia e acorriam ali muitas pessoas da zona, sobretudo mulheres, muitas das quais puderam resolver gratuitamente os seus problemas, e em 1975 começou a ter consultas de medicina e abriu um infantário. 

As pessoas pagavam apenas, numa caixa de papelão à saída, o que achavam que podiam e deviam pagar, e alguns dos médicos, sobretudo os estrangeiros, estavam ali alojados em instalações improvisadas. 

Tal como muitas outras iniciativas semelhantes, a Clínica foi encerrada por imposição militar após o contragolpe do 25 de Novembro. 

A cineasta Margarida Gil, em 1975, fez o seu segundo filme sobre essa clinica, intitulado Clinica Comunal Popular de Cova da Piedade, e teve grandes elogios no festival de cinema de Leipzig, na Alemanha. (2)

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Clinique Populaire de Cova da Piedade 

L'occupation s'est faite après une intense campagne de popularisation sur le quartier. L'occupation elle-même a été faite par 150 militants de la L.U.A.R. et la participation des habitants du quartier.

Critique Socialiste 25, Paris, Syros, 1976
Gallica

L'aménagement de la clinique, les réparations ont été effectuées par des gens du quartier, des usines avoisinantes et des militants.

Le jour même de l'occupation, une imprimerie fournissait à la clinique enveloppes et ordonnances à en-tête de la clinique populaire.

Le matériel de radioscopie a été payé par les travailleurs de la Lisnave, celui d'anesthésie par les travailleurs de la mairie. Pour faire fonctionner la clinique, il est demandé aux utilisateurs une cotisation de 30 escudos par mois (une consultation en médecine libérale coûte 150 escudos). Ensuite tous les soins sont gratuits. Ils sont assurés par 12 médecins et infirmières qui travaillent bénévolement. Il était prévu par la suite un salaire égal pour tous.

Les médicaments sont fournis par la population ou par les travailleurs des laboratoires pharmaceutiques.

Les habitants du quartier sont très vite venus consulter à la clinique qui assurait au mois de juillet 60 à 90 consultations par jour.

Au cours de la consultation, on explique au malade les causes de sa maladie, la nature des médicaments qui lui sont prescrits.

Toutes les consultations de gynécologie sont suivies d'un entretien entre la malade et une assistante sociale. Il existe une équipe de planning et d'hygiène. Elles se déplacent dans les usines et les bidonvilles. Enfin dans le cadre de la consultation de planning, il est pratiqué la pose de stérilet, des avortements et la prescription de pilules.

Sur le plan de la gestion, il y avait au mois de juillet une réunion par semaine entre les médecins, le personnel et des militants de la L.U.A.R.

La commission de gestion était composée de militants de la L.U.A.R. Nous ne savons si le projet d'élection d'une commission composée de travailleurs et d'habitants a été réalisé. Mais il semble que le projet initial d'intervention populaire n'a pu se développer conformément aux espoirs des promoteurs et que l'action de la clinique soit restée dans les schémas classiques. (3)


(1) Joaquim Gaio, Século Ilustrado, 15 de março de 1975 (ref. portadaloja)
(2) Os estrangeiros na revolução social do 25 de Abril
(3) Parti socialiste unifié (France), Critique Socialiste, Paris, Syros, 1976


Informação relacionada:
Syringues are the new weapons in the Portuguese revolution, New Scientist, 11 March 1976
Margarida Gil, Clínica Comunal Popular de Cova da Piedade, documentário, P/B, 16 m.

sábado, 19 de março de 2016

Da Ramalhinha aos Crastos

A Ramalha situa-se na margem esquerda de uma antiga linha de água, sendo Miocénicos (22.5 milhões de anos a 5 milhões de anos) os terrenos do planalto e Plio-Plistocénicos (5 milhões de anos a 10 mil anos) os da zona mais próxima da linha de água.

Lugar da Ramalha, restauro da capela e edifício (infantário e creche), 2007.
Imagem: Guias de Arquitectura

As diversas estações arqueológicas existentes na zona, localizam-se desde o alto do planalto até à zona de planície e foram identificadas quer através de prospecção sistemática (que vimos fazendo de alguns anos a esta parte), quer pela observação de taludes junto a velhos caminhos ou novas vias, remoção de terrenos para obras diversas, etc.

As construções na Ramalha.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em 1976 Carlos Tavares da Silva escavou, de colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Assembleia Distrital de Setúbal, a estação Neolítica da Ramalha, trabalho que, contrariamente à vontade de todos, não foi ainda possível tornar público.

Aspecto da intervenção arqueológica na estação neolítica na Ramalha, 1976.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Já em 1983, a estação foi soterrada por algumas toneladas de terra sobre as quais se construiu um parque de estacionamento.

Pela mesma data (1976) e sob a orientação de elementos do Grupo para o Estudo do Paleolitico Portugués (GEPP). realizou-se uma sondagem em área onde se tinham recolhido à superfície alguns instrumentos líticos. 

Porém, as expectativas em relação a esta sondagem, cujos resultados publicaremos brevemente, foram também elas goradas pelas terraplanagens levadas a cabo em 1984 — a estação desapareceu na totalidade. 

Mas outros vestígios foi possível detectar. Assim, da Idade do Bronze encontraram-se alguns materiais num talude à beira da estrada, no local mais elevado do planalto. São na maioria fragmentos de cerâmica de formas carenadas e de grandes vasilhas de armazenamento. 

No mesmo talude eram visíveis restos de estruturas de habitat (fundo de cabana). O talude tem vindo a desmoronar-se por acção das intempéries. Do período Romano foram recolhidos materiais em dois taludes situados a meia encosta — sigillata cinzenta estampada, opus signinum, cerâmica comum, etc. 

Na área atrás referida mas num outro talude. detectaram-se vestígios de construções, inúmeros fragmentos de cerâmica pintada e restos alimentares (cascas de bivalves e ossos de diversos animais), espólio que pensamos poder atribuir-se ao período de ocupação Muçulmana. 

Também os restos de algumas edificações da Quinta dos Castros poderão ter pertencido à antiga ermida de Sto. Antào (Séc. XIV) de que resta hoje, na capela de S. João, uma lápide, dedicatória de um nobre e sua mulher. 

Lápide na parede exterior da capela:
À honra de Deus e Santo Antão,
este Oratório mandou fazer Fernão Gomes
e Mexia Vasques Farinha, no ano de 1456

Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em face do exposto e porque passou já à fase de execução o plano de urbanização da Ramalha. parecem-nos pertinentes algumas considerações. A Ramalha foi até há pouco tempo uma área suburbana e agrícola, uma comunidade cheia de tradições, perfeitamente distinta de outros núcleos populacionais do Concelho.

Aí poderíamos encontrar, como em nenhum outro local, uma forte consciência do passado, uma consciência orgulhosa da ancestralidade da terra e das suas gentes; um passado em que a lenda e a História se confundem na memória colectiva, materializadas em tradições seculares de que são exemplo as festividades de S. João Batista, misto de paganismo e religiosidade.

Uma tarde na Ramalha.
Imagem: José Pereira

Hoje, porém, se a alguns interessa saber "quem fomos", destrinçar a lenda da História, conhecer essas "raízes" de que justamente se orgulham as populações, enfim enriquecer a nossa vivência pelo contacto com a experiência de outros homens que aqui viveram, a outros, pelo contrário, não só tal preocupação é alheia como parecem apostados na eliminação pura e simples de todos os vestígios materiais desse nosso passado, comprometendo assim irremediavelmente o seu conhecimento.

Discursos de gente importante (vinda do "senso comum" tal opinião seria compreensível), veiculam a ideia de que do Passado nada de importante (leia-se "monumental") sobreviveu em Almada [...]

No caso da Ramalha, o projecto de urbanização implica a sua destruição histórica. paisagística e ecológica! Mas este não é um caso isolado da alteração de fachadas pela utilização de materiais inadequados. corno o aluminio, à destruição de estações arqueológicas, vai acontecendo de tudo um pouco [...]

Vestígios de balneário romano na antiga Quinta da Ramalha, 1947.
Imagem: Fundação Mário Soares

A situação criada na Ramalha é já irreversível. Julgamo-nos. no entanto. na obrigação de. pelo menos, recuperar os vestígios do passado desta terra cada vez mais "sem rosto". Por esse motivo solicitámos uma reunião com responsáveis camarários e autorização de escavação ao organismo competente (IPPC). Aguardamos as respostas [...] (1)

Capela da Ramalha, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

--ooOoo--

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal [paródia ao castigo aplicado ao marido submisso] (ler mais...) (2)

A jornada de um heroi moderno para a ilha de Elba,, gravura de 1814.
Imagem: British Library


(1) Em Almada cf. Ana Luisa Duarte, Revista Al-Madan nº 3, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, maio/novembro de 1984
(2)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Informação relacionada:
Oratório de Santo Antão da Ramalha

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O morro do moinho

Bem perto das Margueiras, existiam terras de cultivo, que garantiam a sustentabilidade dos ocupantes do espaço.

Vista poente de Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante séculos, o trigo, o milho, a cevada e outros cereais, chegavam ao morro sobranceiro ao Tejo, onde os moinhos aí existentes cumpriam a sua função de fornecer aos habitantes a farinha, tão necessária à confecção do pão e de outros alimentos de uso quotidiano [...]

Vista nascente de Almada e Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Para facilitar a ligação entre o cais de Cacilhas e a Margueira existia um túnel, que passava por baixo do morro, logo a seguir à Lapa.

Junto à Lapa, encostado ao morro, existia um mirante, que se destacava pela sua altura a par do morro, cuja existência alimentou durante muitos anos a imaginação popular [...]

Detalhe da torre e mirante (arquvivo "O Século", Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono), 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No início dos anos 50 instalou-se aí a fábrica de Manilhas do senhor Patraquim, na sequência do qual foi derrubado o muro existente que delimitava a propriedade e impedia o seu livre acesso, e abriu espaço à instalação de famílias no morro do Moinho.

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Este local era conhecido de forma carinhosa por ilha do Papagaio Cinzento [...]

Construções no morro do moinho, c. 1950.
Imagem: Bildarchiv Foto Marburg

Como se torna evidente as habitações eram bastante modestas, sem electricidade, água canalizada e saneamento. 

Porém, no núcleo do moinho, algumas delas estavam acabadas com algum esmero, onde não faltava um pátio de entrada, perfeitamente delimitado com gradeamentos de madeira e passadiço do mesmo material até à porta de entrada das casas, onde pontificavam caramanchões e outras plantas ornamentais [...]

O abastecimento de água era feito através de chafarizes públicos. Inicialmente os habitantes do núcleo norte, desciam a encosta e recolhiam-na num chafariz existente no início do Beco do Bom Sucesso, os habitantes do núcleo do moinho transportavam-na do chafariz que também abastecia a Vila Brandão.

Chafariz de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna,
roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Mas no início dos anos sessenta a CMA com trabalho voluntário dos moradores levou a água ate à "Rocha", designação também dada à quinta da "Margueira Velha", onde foram implantados dois chafarizes, um no cimo do caminho por onde se acedia ao morro através do então Largo Costa Pinto que servia o núcleo norte e outro junto ao moinho, a poente, que servia esse núcleo.

Miúdos do Moinho, fotografia de Hélio Quartim, 1976.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Por esta altura foram também construídos balneários públicos com duas ou três cabinas de duche (água fria), um luxo [...]

Demolição de algumas barracas no morro de Cacilhas, c. 1970.
Imagem: Lurdes B. Ferreira

Porém, a centralidade da "Rocha" era, e ainda hoje é, o seu moinho de vento. Ao tempo deste relato era habitado pelo sr. João (João do moinho).

Solteirão, com várias namoradas, recriminado por isso pela sua "velha" mãe quando o visitava. (1)


(1) Farol, O, Associação de Cidadania de Cacilhas, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013, 248 págs.

Artigos relacionados:
O torreão e a Lapa
O incendio da fabrica da Margueira
A menina do mirante




Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

História alternativa

Plano de Urbanização de Almada Nascente — Cidade da Água já se encontra concluído e aprovado pela Assembleia Municipal. O próximo passo é o da sua publicação em Diário da República, altura em que passará a ter força legal.

Barracas junto aos armazénss do Caramujo, 2009.
Imagem: Vítor Cid Fotografia no Facebook

Recorde-se que a elaboração do plano decorreu do encerramento da Lisnave, em 2000. Durante as várias fases, foram diversos os momentos de participação da população para a construção do futuro desta área do concelho.

Corte do canal.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Guia de Desenho Urbano

O Plano de Urbanização constitui o documento de gestão do território necessário para que se possa avançar para os projectos e, posteriormente, para as obras. Espera-se que nos próximos três a quatro anos se verifiquem já obras no terreno.

Praça do Tejo.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Guia de Desenho Urbano

Assim que estiverem criadas e a funcionar as sociedades gestoras locais previstas no projecto do Arco Ribeirinho Sul, existem condições para se iniciar a operacionalização do plano.

Uma cidade da água

Fazendo parte de uma estratégia do Município de planeamento inovador, adaptado às novas necessidades e gerador de maior qualidade de vida, a Visão desta "nova cidade" assenta em cinco variantes principais:

— Um lugar para trabalhar, através das condições para a instalação de actividades diversas, comércio, serviços e equipamentos de apoio à comunidade local.

Corte entre o Complexo Multiusos e a Praça do Tejo.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Guia de Desenho Urbano

— Um lugar de relação com a água, potenciando a proximidade com o rio. Um terminal de cruzeiros, uma marina, um museu do Estuário do Tejo e um museu nacional da Indústria Naval são alguns exemplos.

Corte da Praça Lisnave e do Museu da Indústria Naval.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Guia de Desenho Urbano

— Um lugar para habitar, valorizando a arquitectura bioclimática, a diversidade da oferta residencial e o desenvolvimento de espaços exteriores.

The Long Tomorrow, argumento Dan O'Bannon, desenho Moebius, Metal Hurlant, 1976.
Imagem: mindless ones

— Um lugar de cultura, tirando partido das condições naturais e apostando nos festivais, eventos e exposições, na arte pública e nos museus.

Vista da Praça da Cova da Piedade e dos silos.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Guia de Desenho Urbano

— Um lugar de conhecimento, com a instalação de um pólo universitário, desenvolvimento do Parque Tecnológico da Mutela e a criação de um centro de Ciência e Tecnologia, entre outras infra-estruturas.

Defender o ambiente

Almada Nascente - Cidade da Água é sinónimo de inovação e sustentabilidade. O Plano de Urbanização estipula uma série de medidas que vão traduzir-se num maior respeito pelo ambiente, diminuindo a "pegada ecológica" desta nova cidade. Desde a forma como serão concebidos os edifícios até ao tipo de iluminação pública, nada será deixado ao acaso. (1)

Cova da Piedade, ETAR da Mutela.
Imagem: INFINITO'S

O "Estudo de Caracterização Ambiental, Geológica e Geotécnica (ECAGG) e Plano de Urbanização (PU) da Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada" foi adjudicado pela Câmara Municipal de Almada ao Consórcio formado pela Atkins, Richard Rogers Partnership e Santa-Rita Arquitectos.


Assumindo a abordagem integrada e articulada de componentes de carácter ambiental e urbanística, este estudo incide sobre uma área de 115 ha que se estende entre Cacilhas, a norte, e Cova da Piedade, a sul, abrangendo o antigo estaleiro naval da Margueira.

Uma abordagem e análise integrada das condições existentes na cidade de Almada
poderão dar indicações para estabelecer novas metas para Almada Nascente.
Imagem: Almada Nascente, PUAN, Visao Estrategica Frente Ribeirinha Nascente

O documento que agora se apresenta corresponde ao primeiro resultado desta integração propondo-se desenvolver uma Visão Estratégica para a Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada [...] (2)

Vision of San Francisco, Alexander Weygers, 1950.
Imagem: WebUrbanist


(1) Boletim Municipal, Camara Municipal de Almada, outubro 2009
(2) Almada Nascente - Documentos

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Clube Desportivo da Cova da Piedade

Na Cova da Piedade, tinham sede no jardim central , em torno do qual se erguem dois edifícios monumentais — o palácio neoclássico da família Gomes e um Chalet romântico onde viveu o gerente da fábrica de moagens — , a Cooperativa Piedense, a Sociedade de Socorros Mútuos Piedense, a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP), o Clube Recreativo Piedense e o Sporting Clube Piedense. (1)

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

O Sporting Clube Piedense, da Cova da Piedade, acaba de se filiar na Associação de Foot-ball de Setúbal, pelo que se encontra regular, podendo efectuar jogos com todos os filiações de qualquer associação do paíz [jornal "O Sado", edição de 17 de março de 1935].

in Futebol Saudade

A fundação do Clube Desportivo da Cova da Piedade, em 28 de Janeiro de 1947, foi resultante da fusão entre o União Piedense Futebol Clube (também conhecido pelo epíteto de "Espanhóis", devido às cores do seu equipamento), fundado em 16/04/1914 e o Sporting Clube Piedense [filial nº 67 do Sporting Clube de Portugal].


União Piedense Futebol Clube, "Espanhóis".
Imagem: Dina Teresa

Para a formação do novo Clube foi constituída uma comissão organizadora, composta por Domingos Cabrita Júnior (Presidente), Manuel Palmeira Barbosa, Pedro Lopes Rodrigues, Augusto José Batista, Filipe Andrade Moreira, José Ribeiro de Sousa, Salvador Marques de Assunção, Carlos de Matos Flores, Carlos Peres e Antónia Moreira da Costa.

Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: Voz Desportiva

Durante estes anos da vida da colectividade, houve dirigentes que, pela sua acção, se salientaram, como por exemplo, o Dr. José Malheiro (Director do Boletim Mensal), José Cardoso Rosa e o Dr. Castro Rodrigues, entre outros. 

Os factos mais relevantes da História do Clube, são os seguintes:

No campo cultural, ter mantido, desde sempre, escolas pré-primárias, onde milhares de crianças receberam as primeiras luzes da instrução.

Sorteio Páscoa a favor da ecola pré-primária, 1953.
Imagem: João Gabriel Isidoro

[...] os dirigentes do clube, muitos deles oriundos da classe operária, aperceberam-se da necessidade em receber crianças com idades compreendidas entre os três e os seis anos de idade, não só para ajudar as mães trabalhadoras, como ministrar os primeiros ensinamentos, rumo ao ensino oficial.

Inauguração da escola do Clube Desportivo Cova da Piedade.
Imagem: João Gabriel Isidoro

Nasceu, assim, na Estrada das Barrocas, a primeira escola pré-primária do país que manteve actividade regular, apesar das perseguições políticas aos seus dirigentes e professores.

Alunos da escola do Clube Desportivo Cova da Piedade, 1961.
Imagem: Ana Maria Almeida

Em Novembro de 1963, abriram as aulas nocturnas destinadas a preparar adultos que pretendessem completar o actual 9º ano de escolaridade ou, simplesmente, melhorar a sua cultura geral.  Em paralelo realizaram iniciativas complementares, tais como: exposições de artes plásticas, visitas de estudo e debates com figuras da Cultura, com a presença dos escritores Ferreira de Castro, Bernardo Santareno, Matilde Rosa Araújo, Assis Esperança e os actores Fernando Gusmão, Morais e Castro e Joaquim Benite (encenador).

No ano de 1967 Almada enfrentou a repressão do regime salazarista e as Escolas foram particularmente visadas.

Programa do 10° Aniversário das escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade (excerto), 1973.
Imagem: Fernando Cruz


in Boletim Municipal, Camara Municipal de Almada, outubro 2007

No campo desportivo, a participação de uma equipa de ciclismo numa prova internacional, disputada em Espanha, na qual averbou o 1º lugar individual e colectivo e, ainda, a participação na XII Volta a Portugal em Bicicleta, conquistando o 10º lugar individual e o 4º lugar por equipas. (2)

Cova da Piedade, a multiddão aguardando os ciclistas da 7a Volta a Portugal em 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Fundado a 28-1-1947 teve como actividades de início, o ciclismo, futebol, handebol, voleibol, campismo e ténis de mesa. No desporto-rei, o futebol, conquistou o campeonato nacional da 3a divisão, na época de 1948, ingressando, então. na divisão secundária, onde se manteve só por dois anos.

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: Futebol de Outros Tempos

Finalmente, em 1960, regressou  à 2a Divisão Nacional, cotando-se, desde então, como um dos principais animadores do torneio, dispondo firmemente a guindar-se a um plano ainda mais alto.

Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Aspecto geral do campo de jogos do clube, denominado Parque Silva Nunes, com lotação para 10 000 espectadores, pelado e com iluminação eléctrica. Os seus lugares são, por vezes, insuficientes para os espectadores que, frenéticos, aplaudem o Desportivo, sonhando vê-lo embrenhado em mais altos voos.

Campo de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade, Parque Silva Nunes, Quinta das Farias, década de 1960.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Fotografia de alguns elementos do clube, envergando as suas camisolas de cor "grenat", e alinhando o guarda-redes, normalmente de preto e amarelo. (3)

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Salientaremos, de entre o seu lote de jogadores, os nomes de: Pimenta, Castro, Assis, Simões, Sim-Sim, Rui Silva, Laranjeiro, Jurado, Torres, Vitorino, Pedro Silva, Bambo, Tito e José Alberto.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Em futebol, o nosso Clube conquistou em 1947/48 e 1970/71 o título de Campeão Nacional da 3ª Divisão e foi finalista na época de 1976/77.

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da piedade, época de 1970 - 1971.
Em cima: Portela, Saturnino,  ? (Director), Salvador (Treinador), Durães, Pinhal, Carlos Cunha, Artur Jorge Quaresma, Franklin, Helder, Casimiro, Jesus e Cardoso (Massagista).
Em baixo: Adanjo, Vitorino, Victor Manuel, Necas, Victor Lopes, Adriano, Vieira, Ramusga, Vilarinho e Belo.
Imagem: Armando Ribeiro

Clube Desportivo da Cova da Piedade, aspecto dos festejos da subida à 2a divisão em 16 de maio de 1971.
Imagem: Carlos Castanheira

Conseguiu, também, 5 títulos de Campeão Distrital da 1ª Divisão [...]

Como jogadores mais salientes, entre outros, passaram pelo nosso Clube nomes como Móia, Rendeiro e Luís Boa Morte. 

Já treinaram o Cova da Piedade Mário Wilson, Jacinto Carmo Marques, Alexandre Peics, etc. (4)

Jacinto do Carmo Marques.
Imagem: Ser Benfiquista


(1) Pereira, Joana Dias, A produção social da solidariedade operária: o caso de estudo da Península de Setúbal, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 2013
(2) Clube Desportivo da Cova da Piedade
(3) CADERNETAS E CROMOS
(4) Clube Desportivo da Cova da Piedade

Informação adicional:
Futebol em Portugal
Museu do Futebol
Futebol de Outros tempos

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação, Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Informação relacionada:
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