Mostrar mensagens com a etiqueta 1842. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1842. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Entrada em Lisboa no dia 24 de julho de 1833

Segundo Eschwege [Wilhelm Ludwig von], e Chaumeil de Stella [Essai sur l'histoire du Portugal...], o exercito de D. Miguel compunha-se neste tempo de 5 divisões, e de uma columna movel:  

D. Miguel de Bragança (detalhe) por Johann Nepomuk Ender, 1827.
Google Arts & Culture

a 1.ª divisão occupava Lisboa sob o commando do Visconde do Pezo da Regua;
a 2.ª estava acantonada em Alcobaça e Caldas, e apoiava o seu flanco esquerdo em Torres Vedras: obedecia ao general Povoas;
a 3.ª occupava Torres Vedras e Cintra, sob as ordens de Pinto, e estendia-se além daquellas duas povonções;
a 4.ª, capitaneada pelo Visconde de Santa Martha, existia no Porto e margens do Douro;
a 5.ª divisão estava posta á disposição do governador do Algarve Visconde de Modelos;

Le Portugal et l’Europe en 1829.
Du Tage à l'Eridan épouvantant les Rois / Fait crouler dans le sang les Trônes et les lois!
La fortune toujours du parti des grands crimes / Les forfaits couronnés devenus légitimes!

Google Arts & Culture


ao sul de Lisboa entre Almada e Setubal, manobrava a columna movel, que era cumposta de milicianos.

O exercito permanente era formado das tropas seguintes: 

3 regimentos de artilheria com 29 peças e 7 obuzes; 8 regimentos de cavallaria e 5 esquadrões de policia (5:346 homens com 2:852 cavallos), 
16 regimentos de infanteria, 4 ditos de sapadores, e a guarda da policia (24:136 homens), 
e além disto 49 batalhões de realistas (18.336 homens e 209 cavados), 
e 50 regimentos de milícias (27:508 homens), os quaes se não serviam muito para o serviço do campo, podiam comtudo ser aproveitados para guarnições. (1)

Bandeira de Caçadores n° 7 com legenda.
Elucidário Nobiliarchico

A conhecida diversão para o Algarve, que elle imaginou, e tão felizmente conduzio, é um dos períodos mais brilhantes da carreira militar do actual Duque da Terceira.

Duque da Terceira (detalhe) por John Simpson, após 1834.
Imagem: Parques de Sintra

Desembarcou á testa de 2:500 homens em Cacella na costa do sul do Algarve a 21 de Junho de 1833;

Historical military picturesque..., George Landmann, Faro.
Biblioteca Nacional de Portugal

atravessou velozmente esta província, e o Alemtéjo, e por meio de um rápido movimento illudio o general Mollelos, que o aguardava em Beja com 6:000 homens, e obteve deste modo sobre elle um avanço de dois dias;

accommetteu Setúbal;

Historical military picturesque..., George Landmann, Setúbal.
Biblioteca Nacional de Portugal

bateu a 21 de Julho a divisão do brigadeiro Freitas, e a 23 Telles Jordão em Cacilhas; 

e na manhã do dia 24 entrou em Lisboa, a qual tinha abandonado poucas horas antes o duque de Cadaval [v. Rezumida noticia da vida de d. Nuno Caetano Alvares Pereira de Mello...] com forças quatro vezes superiores, apesar de que a largura do rio, e uma numerosa artilheria facilitavam tanto a defeza, que a menor resistência de Cadaval teria posto o duque da Terceira na impossibilidade até de ousar um attaque sobre Lisboa.

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Biblioteca Nacional de Portugal

Mau grado lodos estes obstáculos, o general de D. Pedro estava tão seguro do resultado, que na vespera, quando ainda as tropas de Cadaval guarneciam Lisboa, escreveu ao Imperador annunciando-lhe a tomada da Capital.

Tenho em meu poder o original desta carta memorável; é o seguinte o seu contheudo: 



— Senhor! Tenho a honra de annunciar a Vossa Magestade, que neste momento acabo de bater completamente as tropas de Telles Jordão. 3 esquadrões, 15 peças, e 700 homens d'infanteria acham-se em meu poder.

O comportamento das forças do meu commando fica acima de todo o elogio. Espero datar do Castello de Lisboa o meu proximo bolletim. 

Beijo respeitosamente as mãos de Vossa Magestade.

— Duque da Terceira. — Cacilhas em 23 de Julho de 1833.


Sobre este officio, que tem o cunho da modéstia, e da simplicidade dos antigos, escreveu a rogos meus a formosa Duquesa da Terceira o seguinte sobrescripto: — Carta do Duque da Terceira ao imperador ua vespera da entrada em Lisboa.

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Maria João Vieira Marques

Tomei a liberdade de lhe propôr que substituísse por tomada a palavra entrada, ao que retorquiu immediatamenle o Duque "Tomada tido, porque o inimigo náo sustentou a sua posição; foi unicamente uma entrada", o Quantos aflatuados redactores de bulletins seriam capazes de dar uma resposta semelhante? (2)


(1) Felix Lichnowsky, Portugal. Recordações do anno de 1842, Lisboa, Imprensa Nacional, 1845

Alguns artigos relacionados:
23 de julho de 1833, a Batalha da Cova da Piedade, por Charles Napier
Derrota dos Miguelistas em Cacilhas

Wikipédia:
Duque da Terceira
António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha

Mais informação:
Elucidário Nobiliarchico, Apontamentos àcêrca das Bandeiras e Estandartes regimentais...
Arquivo Municipal do Porto (Documentos com referência a Cerco do Porto...)
Portuguese Civil Wars (facebook)
Portuguese Civil Wars (facebook): files
Portuguese Civil Wars (facebook): photos

sábado, 12 de dezembro de 2015

Importância relativa

O valor e o interesse da Torre Velha como fortificação já estavam definitivamente liquidados em meados do século XIX.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

A defesa próxima de Lisboa estava ultrapassada pelo aumento do alcance e da eficácia da artilharia [...]

Torre Velha, Lisbonne (detalhe), François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

A partir de então ficou como simples depósito e alojamento, anexo ao depósito de munições do Porto Brandão de onde igualmente se retirara a bateria. (1)

Torre Velha, Lisbonne (detalhe), François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's


(1) Pereira de Sousa, R. H., Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1997

Artigo relacionado:
Príncipe de Joinville

Tema:
Torre Velha

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lagoa de El-Rei

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposía do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos. Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V.

Mappa das vizinhanças de Lisboa (detalhe), 1842.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. Não obstante, o auctor d'estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira e do terreno adjacente, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro V matava-os na carreira, á bala, com notável pericia.

Projecto de ampliação da casa da Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas. (1)

Lagoa de Albufeira, ex Lagoa de El-Rei.
Imagem: HDBeachcam

Sua Alteza o Duque de Bragança [príncipe D. Carlos] e vários convidados foram hontem caçar na lagoa de Albufeira.

Conductor, embarcação a vapor construida em 1880.
Parceria dos Vapores Lisbonenses de Frederico Burnay.
Imagem: ALERNAVIOS

Sua Alteza embarcou ás 5 horas da manhã a bordo do vapor "Conductor" no caes de Belém. (2)


(1) Ortigão, Ramalho, As praias de Portugal; guia do bahista e do viajante, com desenhos de Emilio Pimentel, Porto, Magalhães & Moniz, 1876
(2) Diário Illustrado, 24 de dezembro 1886

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville