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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (II de II)

Estamos em 1868, em Lisboa. A época não é das mais propícias ao florescimento das artes, o que ninguém deve estranhar, porquanto impera um gosto acentuadamente provincial nos costumes, nos trajos, no jornalismo, nos interiores das casas, no teatro, na literatura, em toda a vida citadina. 

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.

Não interessa averiguar se este gosto é bom ou mau. Os vindouros que se deem, querendo, a esse trabalho crítico, aliás desprovido, quanto a nós, senão de significado, pelo menos de eficácia. O que dá encanto e razão de ser às modas e aos estilos de vida social, é justamente aquilo que melhor distingue as épocas umas das outras:  quase sempre; os traços mais exorbitantes, os pormenores mais caricatos. 

Quem sabe se no século XX, por exemplo (aí por 1946) as lisboetas elegantes não se atreverão a exibir uma indumentária mais aparentemente ridícula do que esta, em uso nos nossos salões e avenidas?... Todas as épocas têm os seus grotescos, as suas manias, os seus telhados de vidro. E é isso mesmo que lhes confere, meu caro leitor, nitidez, graça, distinção. 

Panorama n.° 30, 1946

Mas íamos dizendo que estamos em 1868  exactamente no dia 13 de Março. Como densa e escura núvem que de súbito cobrisse uma paisagem primaveril, acaba de espalhar-se pela cidade a notícia da morte de Nogueira da Silva. O leitor não ignora, decerto, de quem se trata, nem quanto o país fica devendo ao fino espírito, ao poderoso talento e à infatigável capacidade de trabalho do malogrado artista que esse nome usou:  nem mais nem menos do que centenas de admiráveis desenhos e gravuras em madeira.

Sim, muitas centenas! Paisagens, retratos, composições livres, ilustrações, caricaturas, cópias rigorosas (e quantas de inestimável valor documental!) de monumentos arquitectónicos, de esculturas, de peças de ourivesaria, de tábuas e azulejos dispersos pelo país - tudo atraía e impressionava a sensibilidade plástica de Nogueira da Silva, e era por ele interpretado ou transposto para o papel e a madeira com uma destreza inexcedível e uma graça inimitável.

Panorama n.° 30, 1946

Merecia a pena que alguém, algum dia, preenchesse os lazeres de umas férias com o benemérito labor de contar e classificar esses trabalhos, insertos na "Revista Popular", no "Jornal para rir", nas "Celebridades contemporâneas" e, principalmente, nos numerosos volumes do "Archivo pittoresco".

Claro está que nem todos os desenhos e gravuras do ilustrador das Obras completas de Nicolau Tolentino têm o mesmo interesse, a mesma altura.

Panorama n.° 30, 1946

Deve mesmo dizer-se, por respeito à verdade e à sua memória, que as produções de Nogueira da Silva são de irregularíssima qualidade. Nem todos os géneros se quadravam à sua vocação e ao seu temperamento. 

Na interpretação da figura, por exemplo (e particularmente no retrato) foi, por vezes, deplorável. No entanto, não era por gosto de contrariar-se nem por doentia atracção abísmica que o artista insistia nesse cultivo; - era, sem nenhuma dúvida, por mera necessidade, por obrigação profissional. 

Panorama n.° 30, 1946

Aqui temos um traço bem distinto da personalidade de Nogueira da Silva: num país em que são raros os artistas profissionais, e sobretudo na sua época, ele nada tinha de amador. Quem sabe, mesmo, se não terá sido o primeiro desenhista português verdadeiramente profissional  menos livre do que nenhum outro de satisfazer os imperativos do seu temperamento, mais vítima da fatalidade de ser "pau para toda a obra?"

A infelicidade obstinou-se em perseguir e ensombrar a sua estrela, que tinha brilho bastante para resplandecer no pardo firmamento da arte nacional. Quase não houve revez que não o afligisse, injustiça que não o ofendesse, miséria que não o ameaçasse.

Panorama n.° 30, 1946

Desde a incompreensão paterna à quase cegueira, desde a fome ao vexame de ser acusado de curandeiro, Nogueira da Silva conheceu e suportou, com um estoicismo exemplar, as maiores adversidades - inclusivê a de ter prestado as melhores provas num concurso para a regência da cadeira de Desenho da Escola Politécnica, e ficar aguardando ein vão (por razões que nunca se chegaram a apurar) a decisão do juri...

A arte venceu, mais uma vez, mas também mais uma vez saíu mal-ferida da batalha. As mutilações que sofreu esta forte e singular personalidade, são. bem notórias e confrangedoras. No entanto, cabe ao laborioso artista o mérito de ter reformado e desenvolvido, entre nós, a gravura em madeira, até então só apreciàvelmente cultivada por Manuel Maria Bordalo Pinheiro e José Maria Batista Coelho.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

É aí, repetimos, que se encontra o maior número de trabalhos de Nogueira da Silva, atestando, além da espantosa multiplicidade do seus recμrsos técnicos, a penetrante acuidade do seu espírito de observação e o afinado gosto do seu humorismo  virtudes às quais não foi estranha a influência dos mais famosos desenhadores e gravadores franceses contemporâneos, sobretudo de Gavarni. 

Panorama n.° 30, 1946

Como ilustrador, julgamos possível e justo que algum cronista do próximo século (aí por volta do ano de 1942...) afirme que o volume das Obras completas de Nicolau Tolentino é "uma das raras edições portuguesas do século XIX que, não sendo classificável como livro de arte  por excesso de tiragem e modéstia de materiais  é, todavia, um espécime perfeito de livro ilustrado. Pois onde se vê, como nele, uma harmonia tão grande entre o espírito do autor e dp ilustrador da sua obra?" 

— "Nogueira da: Silva não ilustrou mais nenhum livro. Sete anos depois, morreu. Faz de conta que tivemos dezenas de Nogueiras da Silva. Vale lá a pena recordar o seu nome?"


Panorama n.° 30, 1946

Como caricaturista, Francisco Augusto (iamo-nos esquecendo de dizer que eram estes os seus prenomes) foi dos mais engraçados que desde sempre se contam na história da arte nacional. O "D. Quichote" do século XIX e muitas das caricaturas que publicou  acompanhadas de biografias, crónicas e legendas humorísticas da sua autoria  nas "Celebridades contemporâneas", no "Jornal para rir", no "Archivo pittoresco" e noutros periódicos da época, deram brado e fizeram escola. 

A ironia do seu traço, apontada aos ridículos da baixa burguesia, aos narizes-de-cera, às vaidades balofas, era por vezes contundente, mas nunca grosseiramente ofensiva. É que o seu humor provinha menos de ressentimentos, do que de uma visão mais evoluída, ·mais urbana dos homens e das coisas.

Panorama n.° 30, 1946

Nogueira da Silva foi um artista da cidade. Por isso lhe repugnava, mais do que tudo, o "arrivismo", o recem-chegadismo provinciano. E afinal, feitas bem as contas, talvez tenha sido essa pecha da vida portuguesa — tão evidentemente acentuada no seu tempo — a causa fundamental das suas vicissitudes.


(Conforme com o original).

CARLOS QUEIROZ (1)


(1) Panorama n.° 30, 1946

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (I de II)

Fica esta villa fronteira á cidade de Lislooa na outra margem do Tejo. São duas irmãs apartadas que folgam de se estar vendo, assentadas no alto uma e outra e ambas namoradas dos navios que vêm de todo o mundo, rio acima, lançar ferro por entre ellas.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Lisboa, a morgada, não tem mais escondida, em sombra e fabulas a sua origem, de que. Almada a sua. 

Sôa porém, e se crê, haver esta sido fundada imoles inglezes de Guilherme de Longa-espada, do quem D. Afonso. Henriques se ajudou no arrancar Lisboa oro mouros; e que nome de Amada lhe ficara por corrupção de Vimadel; que na linguagem de então significava povoado grande; nome que da terra se pegou a um nobre seu morador, de quem descende, ao que rezam genealogicos, a esclarecida familia dos Almadas; ainda que outros querem que Almada se appellidasse o sitio, por ser esse. ou com esse parecido, o nume de um arabe (Almades ou Almadão) que alli dominava. 

Conjectura-se todavia que a primeira fundação do logar fôra muito mais antiga, existindo já elle em tempo dos romanos dos romanos com a denominação Caetobrix ou Caetobrica. 

Em nossos dias, na guerra civil em que se pleitearam e sentenciaram a final os direitos da dinastia representou Almada e Cacilhas, que sob dois nomes são uma e mesma povoação, um papel que a historia, seja quem for que a escrever, ha de sempre qualificar por guapamente heroico: d'alai arrancou vôo de águia sobre Lisboa o duque da Terceira, coroando-se com a mais brilhante fortuna a temeridade mais inaudita. 

Ares puros, aguas doces e salubres, abundância de todo o necessario, prospectos infindos terras e mar, tornam Almada sitio mui cobiçado para saude e para regalo, é para as calmas do verão um suplemento de Cintra, se o póde haver, e com duas vantagens: a da economia e da facil e continuada comunicação com Lisboa, por via dos vapores que sem descanso, vão e vêm.

Possue também a sua gloria literária: alli nasceu, viveu, se finou, e jaz sepultado o nosso poeta latino Diogo de Paiva de Andrade. (1)


(1) Archivo Pittoresco n.° 37, 1859

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Frei Luiz de Souza

DRAMA

Apresentado pela primeira vez em Lisboa, por uma sociedade particular, o teatro da quinta do Pinheiro em 4 de Julho de 1843.

Lugar da scena — Almada

Casa da Cerca em Almada.
Imagem: Geni

ACTO PRIMEIRO

Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa:

entre as janellas o retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.

Defronte e para a bôcca da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores.

Algumas cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior.

É no fim da tarde [...]

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Gravura Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

Magdalena so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem descahiu da leitura na meditação.

MAGDALENA, repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler

"N'aquelle ingano d'alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito..." [...]

TELMO

Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?

Que o pobre de meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois... mas amor! [...]

MAGDALENA

Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis...

Almada, Seminário [antigo Convento Dominicano de S. Paulo], ed. J. Lemos, 3, década de 1950.
Imagem:

TELMO

Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!... quatro passadas.

MAGDALENA

E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. 

(Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!... quasi que não ha vento, é uma viração que affaga... Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas — n' aquella tam bonita — venha Manuel de Sousa.

Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas!

Que elle é tam bom mareante... Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares... E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.

Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.[...]

JORGE, alto

Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para côrte e "buen-retiro" dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares lavados e graciosa vista.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Imagem: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

MAGDALENA

Deixá-los vir.

JORGE

Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro, presidente do govêrno.

Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe secular... o mais, paciencia. Peior é o vosso caso...

MAGDALENA

O meu!

JORGE

O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro governadores — e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de Lisboa — dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria. [...]

ACTO SEGUNDO

É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal.

Frei Luis de Sousa pelo Grupo Boa Vontade,na década de 1950.
Imagem: O Cine Teatro de Moçâmedes (Namibe)

Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. 

São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde.

No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.

TELMO

Menina!...

MARIA

"Menina e môça me levaram de casa de meu pae:" é o principio d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o eu.

Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é."

E não me repliques, que então altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite que dorme com socêgo. 

Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o rebate dos sinos, aquella scena toda... oh! tam grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro de egual majestade!... á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com furia infernal [...]

No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio. É alta noite [...] (1)


O retratto de meu pae, aquelle do quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem, vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito--aquelle retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se queimásse alli. [...]

TELMO

Sim é: Deus o defenda!

MARIA

Deus o defenda! amen. E elles, os tyrannos governadores ainda estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das diligências do tio Frei Jorge? 

TELMO

Ja, sim. Vão-se desvanecendo — ainda bem!— os agouros de vossa mãe... hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem. 


MARIA

Meu nobre pae! Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio? Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo! [...]

MAGDALENA

E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger...

ROMEIRO

Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

MAGDALENA

Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

ROMEIRO

Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.--Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê. [...]

MAGDALENA, aterrada

E quem vos mandou, homem?

ROMEIRO

Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

MAGDALENA

Como se chama?

ROMEIRO

O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

MAGDALENA

Mas emfim, dizei vós...

ROMEIRO

As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu... e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras. [...]

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

JORGE

Se o vireis... ainda que fôra n'outros trajes... com menos annos — pintado, digamos — conhece-lo-heis?

ROMEIRO

Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

JORGE

Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

ROMEIRO, sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João

É aquelle.

D. João de Portugal de Miguel Angelo Lupi, inspirado em Almeida Garrett.
Frei Luís de Sousa (cena XIV do 2° acto)
Imagem: MNAC

MAGDALENA, com um grito espantoso

Minha filha, minha filha, minha filha!... (em tom cavo e profundo) Estou... estás... perdidas, deshonradas... infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!... (Foge espavorida e n'este gritar.) [...]

ACTO TERCEIRO

Cena da peça Frei Luís de Sousa, no teatro Príncipe Real (posteriormente Teatro Apolo), 1909.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada:

é um casarão vasto sem ornato algum.

Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. 

Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem, e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. [...] (1)


(1) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Livraria Chardron

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Convento Dominicano de São Paulo de Almada
Embrechados (4 de 5)

Informação adicional:
Visita conventual ao Seminário Maior de Almada

sábado, 26 de dezembro de 2015

Embrechados (4 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Embrechados no Seminário de Almada, antigo Convento de S. Paulo.
Imagem: Alexandra Lopes

Agora um drama verdadeiro. 

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticismo e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez. Inutil portanto recordal-o.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu. D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convenceram o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. 

Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. 

Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. 

E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjuges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. 

E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.

Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. 

Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". 

E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? 

Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado.

N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? 

Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. 

E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. 

A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-hia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, ondeveiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol".
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.
Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

Annos depois, diz-se, esteve ali também o Duque de Bragança, mas com o intuito de ás occultas vir entender-se com os conjurados que em 1640 o acclamaram Rei com o nome de D. João IV. (1)

(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Convento Dominicano de São Paulo de Almada

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra". (1)

O Seminário de São Paulo de Almada foi fundado como seminário do Patriarcado de Lisboa no ano de 1935, mas já antes a casa contava com um rico historial, de grande relevo na vida de Portugal e de toda a zona circundante de Lisboa.

Assim, a vida desta belíssima casa começa no já longínquo ano de 1569, com a fundação do Convento Dominicano de São Paulo de Almada por Frei Francisco Foreiro, insígne teólogo que se distinguiu no Concílio de Trento, e então Provincial da sua Ordem no nosso país, que nele viria a falecer e ser sepultado em 1581, onde ainda hoje se encontra.

Em 1755, o Convento sofre grandes danos, e só a Igreja é restaurada quase de imediato, motivo pelo qual passa a sede da paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo, cuja igreja havia caído com o sismo.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Dez anos depois, e porque as condições nunca mais foram as mesmas desde aquele catalismo, os Frades Pregadores abandonam o Convento de São Paulo. Começa aqui o rol das muitas tribulações e mãos pelas quais o Convento passou.

Em 1775, os Dominicanos vendem a quinta a um industrial francês, François Palyart (1726 - 1816), e a casa conventual, em 1776 aparece já na posse das Ordens Militares, que por sua vez, e ainda no mesmo ano, a tornam a vender, desta feita ao mesmo francês que já tinha comprado a quinta.

A igreja e uma das alas do convento ficaram para a paróquia.

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com o decreto de extinção das Ordens Religiosas de 1834, os bens dessas instituições passam a fazer parte do património estatal, mas isso em nada afecta a Igreja de São Paulo, que era paroquial e não de ordem religiosa.

Mas no ano seguinte, perde esse carácter, pois a paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo foi definitivamente incorporada na de Santiago de Almada, ficando a igreja entregue aos cuidados de uma das suas irmandades, a do Rosário.

Segue-se uma fase extremamente confusa, com vendas e contravendas, falências e casos mal esclarecidos.

Chegamos, entretanto, a 1855 com uma situação no mínimo caricata: a quinta e a casa eram de um proprietário, mas o corredor da Sacristia era de outro.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, desenho de Nogueira da Silva, gravura de Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

E assim se foi caminhando, com tudo a ameaçar derrocada total. A irmandade da Assunção, para não deixar que a igreja se danificasse, fez restauros em 1897.

[...] reproduziremos uma noticia que vem avivar-nos a saudosa lembrança de Liberato Telles, ha pouco fallecido. 

Este distinctissimo conductor de obras publicas, ultimamente agraciado com a promoção ao honroso cargo de conductor principal, organizara uma monographia interessante, como outras que elle deu à estampa, ácerca do edificio e egreja do antigo convento de S Paulo, em Almada, cujas obras de restauração foram, durante bastante tempo, dirigidas por aquclle illustre e benemerito funccionario.

Esta memoria, porém, infelizmente ficou manuscripta, e foi pelo auctor offerecida e enderessada ao conselho superior dos monumentos nacionaes, acompanhada de um magnifico album contendo photographias das fachadas, planta e corte do edificio, onde repousam entre outras, as ossadas de fr. Francisco Foreiro, qualificador do Santo Officio, e confessar de D. Joäo lll, que alli falleceu em 1581, e de D. Alvaro Abranches da Camara, um dos mais valorosos campeões da independencia, em 1640, e heroe das luctas com os hollandezes no Brazil. 

Armas Abranches, segundo a lápide da sepultura da Igreja de São Paulo em Almada.
Imagem: TRAVESSA DOS CONJURADOS

O fallecido Liberato Telles, cujo dedicado amor pelas cousas nacionaes e pelos assumptos artisticos e archeologicos era bem conhecido, pedia que o antigo convento de S. Paulo, theatro do pungente drama da vida de fr. Luiz de Sousa, fosse considerado monumento nacional.

Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva.

Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.

ver artigo relacionado:  Almada em 1897

Ainda ha pouco, um dos nossos mais illustres investigadores, que tantos e tão relevantes serviços tem prestado à historia da arte nacional, o sr. dr. Sousa Viterbo, chamara sobre este ediñcio antiquissimo as attenções dos estudiosos, na sua interessantisstma Memoria, publicada na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias, intitulada: D. Manuel de Sousa Coutinho (fr. Luiz de Sousa) e sua mulher D. Magdalena Tavares de Vilhena (op. de 60 pg. — 1902).

ver artigo relacionado:  Liberato Teles


Em 1913 está danificada grandemente, tendo sido as imagens atiradas pela ravina ou queimadas. Alguma coisa escapou, mas nada ficou incólume.

Popular "Tio" Resgate explicando a Bíblia no adro da egreja do extincto convento de S. Paulo em Almada, 1911.
Imagem: Illustração Portugueza, Hemeroteca Digital

Em 1934, o Patriarcado de Lisboa adquire a Quinta e o Convento, por intermédio do Cónego José Falcão, para instalação do Seminário Menor, sendo este inaugurado no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1935, pelo então Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, com 41 seminaristas.

O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira ao inaugurar o novo seminário de S Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O seu primeiro Reitor foi Monsenhor Francisco Félix, e o primeiro Vice-Reitor, o Padre António de Campos, mais tarde ordenado Bispo.

Por o espaço ser relativamente exíguo para o que se necessitava, logo em 1936 começam obras de ampliação, que foram terminadas e inauguradas em 1938.

Seminário de Almada, Pavilhão novo 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

Cumpridas que foram, em 1960, as Bodas de Prata do Seminário, este preparava-se para atravessar o Concílio Vaticano II. No fim deste, em 1965, surgiu uma novidade: o Patriarcado de Lisboa iria criar três zonas pastorais — Santarém, Oeste e Setúbal — com vista à sua elevação a Diocese.

O Seminário de Almada ficou assim plenamente integrado na Zona pastoral de Setúbal.

Os acontecimentos, no entanto, não tomaram um rumo linear:

Seminário de Almada, Um dormitório
Imagem: Delcampe, Oliveira

nas conversações e nas reuniões havidas no seio da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a criação e os limites das novas dioceses, o Cardeal Cerejeira opôs-se a que o Santuário do Cristo-Rei e o Seminário de Almada fossem integrados no território da nova Diocese de Setúbal. 

Seminário de Almada, Vista geral 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

A votação então havida foi inconclusiva, com a diferença de um voto a separar os bispos secundantes desta opinião e os seus opositores, para quem tudo o que estava abaixo da linha do Tejo no território do Patriarcado devia fazer parte da nova Diocese de Setúbal.

Vista do Seminário de Almada, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

E assim, a 16 de Outubro de 1975, pela Bula Studentes Nos, do Papa Paulo VI, era criada a Diocese de Setúbal, sem o Seminário de Almada e o Santuário de Cristo-Rei.

No entanto, mercê das insistências do Cónego João Alves, antigo Vice-Reitor do Seminário, que viria a ser Bispo de Coimbra e Presidente da Conferência Episcopal, a Bula trazia a clausula de que as duas instituições só ficariam em administração do Patriarcado "enquanto não se pode providenciar doutro modo". [...] (2)

O interior de um dos pátios do novo seminário de S. Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Sabugosa, Conde de, Almada pelo conde de SabugosaSerões: revista mensal ilustrada, n° 2, Lisboa, 1905.
Fonte: Hemeroteca Digital 

(2) Seminário Maior de São Paulo.

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