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terça-feira, 8 de março de 2016

Ponte dos vapores da Trafaria

Effectua-se hoje, como ha dias dissemos, a inauguração da ponte na Trafaria para serviço dos vapores do sr. Burnay, que actualmente fazem carreiras para aquella aprazível praia; por este motivo será offerecido um "copo d'agua" ao sr. Frederico Burnay, e haverá uma regata na qual tomam parte dezeseis senhoras.

Trafaria, Entrada da ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Além das carreiras ordinarias ha para ali um vapor extraordinario, que parte ao meio dia e volta depois da regata. (1)

A regata na Trafaria

Nâo faltariam attractivos para que a regata nada deixasse a desejar aos mais exigentes: 3 escaleres tripulados por senhoras; oito guigas, e balieiras, de que eram tripulantes diveraos banhistas; aspirantes de marinha, e socios da real associação naval.

Trafaria, Ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 10, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Havia tambem muitas embarcações de vélla, de differentes lotações, que partiriam da Trafaria á 1.a baliza, em frente do Bico da Terra Alta, proximo da Gollada, e dahi á 2.a, em frente do Dafundo, voltando ao ponto de partida.

Programa da regata na Trafaria, 12 de outubro de1890.
Imagem: Remo História

Logo de manha, porém, o vento Norte começou a refrescar, e á 1 hora da tarde, havia um temporal desfeito.

Apezar do perigo que ameaçava os que se aventurassem a embarcar n'aquella occasião, nem as senhoras nem os cavalheiros tripulantes das embarcações, desistiriam de tomar parte na regata, se o presidente da commissão os nâo persuadisse da necessidade absoluta de addiar esse certamen.

Aspecto da praia da Trafaria.
Imagem: Remo História

Uma canoa grande, do arraes João Ferreira, que ia servir de baliza, esteve em perigo, e voltou logo para a Trafaria com a verga partida; atravessou-se na praia, enchendo-se d'agua, uma barca das armações de pesca; o bote de Antonio Tourinhas, que vinha de Porto-Brandão com muitos passageiros, correu risco de se despedaçar na praia, e se nâo houve victimas, deve-se, exclusivamente, á dedicação de grande numero de pessoas que, mettendo se á agua, pegaram no bote e o puzeram em secco.

Igual soccorro foi necessário prestar a dois marinheiros que imprudentemente se fizeram de vélla n'uma canoa, suppondo que mettiam uma lança em Africa.

Proximo á Torre do Bugio, que annunciou embarcação em perigo por meio de 3 tiros de peça, esteve prestes a ir a pique uma muleta de pesca.

A concorrência de gente, tanto de Lisboa, como de todas as povoações próximas, foi enorme; e se o tempo nâo abonançasse ás 6 horas da tarde muitos centenares de pessoas tinham de ficar na Trafaria, pela impossibilidade d'atracar á ponte o novo vapor Victoria.

Trafaria, Praia de banhos, ed. Manuel Henriques, 2, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

É digno do maior louvor o cabo do mar, sr. Antonio Cosme de Paiva, antigo capitão da marinha mercante, pelas acertadas providencias que tomou para evitar qualquer desastre marítimo.

Trafaria — Praia de banhos, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A intimação feita aos donos de embarcações de fundo chato para nào as alugarem a pessoas estranhas ás lides marítimas, sem serem acompanhadas por indivíduos d'esta profissão, tornou-a extensiva, aos donos de quaesquer outras embarcações. Que lhe sigam o exemplo todos os cabos do mar, porque com essa medida muito lucrará a humanidade. (2)

——ooOoo——

Teve hontem lugar a inauguração da ponte dos vapores, na Trafaria. A bordo do vapor Victoria ia a sr. Frederico Burnay, que foi recebido pelos banhistas e habitantes d'aquella povoação, com vivas demonstrações de regosijo.

O vapor Victória.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No club, onde lhe foi offerecido um copo d'agua, achava-se toda a colonia balnear, muitos aspirantes de marinha e socios da Real Associação Naval.

REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

O menu foi variadissirno, e fizeram-se muitos brindes, especialmente a Frederico Burnay, e Jayme Arthur da Costa Pinto, que teve uma recepção brilhantissima.

Trafaria — Vista geral da praia, ed. J. Quirino Rocha, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Durante a refeição, uma banda de musica tocou á porta do club, e foi lançado ao ar grande numero de foguetes. (3)


(1) Diário Illustrado, 19 de setembro de 1889
(2) Diário Illustrado, 1 de outubro de 1889
(3) Idem

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Na Trafaria, cena da borda-de-água

Não — tinha eu dito comigo logo de manhã cedo, ao abrir a minha porta e ao contemplar o mar —, com um tempo destes é que eu não vou trabalhar. Para onde eu vou é para a pesca.

Trafaria, ilustração Roque Gameiro, 1899.
Imagem: Hemeroteca Digital

E, trazendo o cesto com os aparelhos para a beira da água, sentado no chão, em mangas de camisa, arregaçado até os joelhos, com os pés nus na tépida consolação da areia, abri a minha faca e pus-me a cortar sardinha e a iscar os anzóis. A melhor camada é o casulo; mas nem sempre se pode ter casulo e nestes casos é preciso cortar a sardinha em regra, diagonalmente, e saber metê-la no anzol, enfiando-a na metade do lado da cabeça por um dos olhos, dando-lhe uma volta com a espinha na outra metade. É um trabalho engenhoso.

Balançando na água, o meu bote esperava por mim amarrado à fateixa. Uma intensa luz de um azul de turquesa envolvia a grande natureza ridente, salgada das exalações da água, cheirando aos mexilhões frescos que dois barcos saveiros em forma de meia-lua estavam pescando no Calhau, a trinta metros da praia para o lado do Bugio.

Os primeiros bandos de rolas, picadas pelo vento leste, cortavam o espaço num voo doce, fazendo tremular na areia reluzente da vazante a sombra pardacenta e fugitiva das asas. Alguns maçaricos reais debicavam a salsugem da maré em pulos esbeltos, prateados pelo sol.

— Vê aquela rapariga que vai saltar com um pequeno ao colo para o bote branco que está amarrado ao nosso? — disse-me o pescador José Pirralho, que iscava também um aparelho, acocorado no chão ao pé de mim.

Aquela é a Rita Carrã que vai a Lisboa ver o marido, o João Galhote, do brigue Ligeiro, que entrou hoje de madrugada. É um brigue que anda no mar há perto de um ano.

O João Galhote embarcou logo depois de casar. Esteve apenas três meses com a mulher e vai ver agora o filho nascido, que ele ainda não conhece...

— Olá, ó tia Rita! se o seu José vier logo consigo para baixo faça sinal do bote com o lenço, que é para lhe botarmos um foguete e para repicarmos o sino.

E ela, em pé na embarcação, rindo, vestida de festa, com o pequeno rechonchudo e louro sentado no braço, agradecia dizendo adeus com a mão — Até logo! até logo!

Portugese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Deitado o aparelho, lancei a minha bênção à boia e remei para terra. Boa coisa, remar! De calças arregaçadas e pernas nuas, com o peito ao vento, a elasticidade de um bom remo espadeirando a água comunica-se ao nosso arcaboiço, e parece que nesse exercício triunfal todos os ossos cantam como canta o estorvo de couro cru amarrado ao tolete quando se pica a boia.

Dizem os do Algarve, que, para remar, tudo puxa desde as unhas dos pés até às pontas dos cabelos. Quando se rema estirado, pranchando o corpo todo no mergulho do remo, o esforço empregado distribui-se igualmente por todos os músculos das pernas, dos braços, do tórax e dos rins, dando a máxima plenitude da força, a mais intensa sensação de poder e de vitória.

Remar é dizer ao oceano — Chegue-se para trás que vai aqui um homem! — e ver o oceano obedecer.

Tinha vindo para casa almoçar e esperar à sombra a maré para levantar o aparelho, quando ouvi gritar por socorro na praia. 

Chego à janela e vejo na água límpida e serena, beijada do sol do meio-dia, as duas mãos de um homem que se afundia junto de um bote amarrado a oito ou dez braças da terra.

Alguns pescadores saltam num saveiro varado na praia e remam para o ponto em que se tinham submergido as duas mãos que eu vira agitarem-se no ar. Sonda-se o lugar; procura-se por toda a parte, com cabos, com remos, com varas; lança-se uma rede. É tudo inútil. O afogado desapareceu.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era um operário padeiro, de vinte e três anos de idade, o José da Viúva, que sustentava a mãe, paralítica, e duas irmãs. Fora banhar-se ao despegar do trabalho antes de ir jantar, e estava já em terra quando se lembrou que enchia a maré e que deixara longe o bote de que se servira para saltar de mergulho no mar.

Entrara na água outra vez para alar o bote, e foi então que lhe faltou o pé, que o arrastou a corrente, que se afundiu. Falou-se do caso uma hora entre os grupos dos marítimos deitados na praia ao sol.

— Aquilo não foi senão coisa que lhe deu pela cabeça...
— Ou dor!
— Que ele diz que falou ao vir acima...
— Pois sim; mas nada explicou. Mãe! mãe! foi a única coisa que ele disse.
— Com o que a água puxa para cima o corpo vai lá dar para o Porto Brandão ou para Cacilhas...

E depois, a pouco e pouco, como vinha chegando a hora de levantar os aparelhos e de recolher as redes, os botes começaram a largar para o mar, uns depois dos outros, e a praia ficou deserta sob a grande alegria do céu, no suave rumor da vaga, entrecortado de espaço a espaço pelo gemer dos moinhos e pelo cantar dos galos.

Sentia consideravelmente atenuado o meu apetite aos chamirros e aos robalos a que deitara o aparelho, e uma atração magoada prendia irresistivelmente os meus olhos ao ponto do mar em que eu acabara de ver aquelas duas mãos brancas agitando-se convulsas ao lume de água, como as asas de uma gaivota ferida.

Foi a olhar para esse ponto que descobri de repente, ao pé da praia, o bote branco que levara para Lisboa a Rita Carrã. Lembrou-me o sinal do lenço, mas o bote não deu sinal.

Barcos junto à torre do Bugio, Alfredo Keil (1850 - 1907).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Além do remador, que vinha deitado à popa, segurando a escota da vela, o bote não trazia mais ninguém senão a Rita com o filho nos braços.

O José Galhote morrera tísico na torna-viagem do brigue Ligeiro.

O bote branco, que saíra da Trafaria com a festa da esperança e que voltava com a desolação da viuvez, deixou cair a vela como uma continência funerária sobre o mesmo lugar em que se submergira o José da Viúva, e esta bela e comovente cerimónia do acaso fez-me ter inveja ao destino do morto.

Pobre José da Viúva! o teu modesto nome, triste e simpático, não será repetido em artigos banais pela Imprensa, nem figurará em epitáfios idiotas nos mausoléus do cemitério dos Prazeres.

O prior da tua freguesia, ultimamente acusado de ter morto com uma paulada na cabeça uma das ovelhas do seu rebanho, não veio grunhir o latim da agonia sobre a tua última hora.

Trafaria, Vista parcial e estrada da Costa, ed. J. Quirino Rocha, 2, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Invocando o nome da tua mãe, expiraste na mais doce e na mais incontestada das religiões, a religião do amor.

Sepultando-te no mar, libertaste-te dos gatos-pingados, dos chantres, dos veludinhos pretos franjados de galões amarelos, dos pingos das tochas, do badalar dos sinos nas torres, do pregar dos alfinetes na mortalha, de tudo enfim quanto desnatura a morte, tornando lúgubre e repulsiva a doce passagem da luta inclemente da vida para o repouso do nada.

Trafaria, a praia.
Imagem: Delcampe

Nessa noite o chinchorro do tio António Janeiro trouxe para terra um cadáver de envolta com os linguados que foi pescar à meia-noite, e o tio João Loira, velho fadista, foi mais uma vez requisitado em nome da caridade para depor por alguns minutos a sua guitarra no chinquilho do Marcelino e ir, piscando os seus olhinhos vermelhos e cantarolando o Quizumba, abrir a cova e enterrar o José da Viúva debaixo dos três ciprestes que ensombram o cemitério da aldeia. (1)


(1) Ortigão, Ramalho, As Farpas

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Juncal

O dia oito de setembro era o escolhido por Bulhão Pato para a abertura das suas caçadas do inverno no sul do Tejo, e o sitio preferido o Juncal da Trafaria. (1)

Trafaria, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Aquella charneca do Juncal, descoberta, erma e agreste, onde, no verão, dardeja o sol implacável, e no inverno sopra o sudoeste, ouvindo-se ao longe o rolar das ondas, é uma paizagem profundamente triste, mas que não deixa de ter encantos. A solidão do deserto está alli, fronteira e contraposta ao bulicio da cidade !

A maré era boa, e aproámos ao Torrão, evitando o fadigoso transito pelo areal.

Costa da Caparica, passeio de barco, embarcação Zinha, 1922.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Um areal enorme, cortado de pequenos médãos, coberto duma alta, espessa, e hirta vegetação de juncos verde-negros, entresachados de raras moitas de joina. Arvores ... apenas algumas figueiras na horta do Miranda, á beira do rio! Isto e uns canteiros de morangos, eram os únicos signaes da vida vegetativa, naquelle chão árido e inhospito! A vinha, que elle alli plantara, agonisava, rasteira, enfesada e rachitica.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A gente pouca, pallida, anémica, dizimada de continuo pelas febres. As aguas do inverno, estagnadas em charcos, tornados paúes, fermentando-as o sol ardente da canicula, evolavam de si miasmas mortaes, que o vento não varria, e que não poupavam nem as creanças, nem os adultos.

Em dias de sol, com o ar parado, aquelle ermo descampado é uma amostra da paizagem africana  ! Ao fundo, para o lado do Oceano, as cabanas de colmo dos pescadores, baixas e negras, e perto d'ellas a capellinha branca; defronte o cemitério, com os cyprestes esguios, balouçando — como nós — entre a vida e a morte ; á esquerda o Monte — árida rocha a pique, com o seu aspecto de fortaleza ; á direita a praia e o mar ...

Nada mais triste! Um dia, em que lá fiquei, ouvindo, ao sol posto, o toque das Ave-Marias, deu em mim tal melancolia, que desatei a chorar!

Não era ameno o sitio, tampouco o foi, em tempos, a fama dos seus moradores.

— Anda fugido na Costa — era uma phrase corrente na boca do povo, quando se falava de algum criminoso façanhudo, que desapparecera de Lisboa.

Transposto o Tejo, ladrões e assassinos alli se acoitavam e escondiam nas companhas dos barcos de pesca. Assim escapavam no mar aos quadrilheiros de Lisboa, quando lá iam perseguil-os. Uma visita da justiça á Costa — quando a policia estava longe de ser o que é hoje — era uma expedição arriscada, e quasi sempre inútil.

A civilização já lá chegou, e, se não mudou a natureza, mudaram os costumes. Ainda assim não podemos dizer que reina alli sempre uma paz octaviana. Um dia, logo depois de saírem de lá os nossos amigos, um homem, chamado Damião, foi esfaqueado.

A casa da sr.a Maria do Adrião — o nosso hotel — era respeitada, e nós, saindo de lá, não faziamos detença na povoação.

O poeta, installado no seu quartel general venatorio, em casa da sr.a Maria do Adrião, na Costa, havendo caça e dias amenos, deixava-se lá ficar, até que algum sudoeste bravio, dos que costumam açoitar aquella planície d'areia, o forçava a levantar vôo e recolher aos abrigos da cidade [...]

Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, C. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Voltara o silencio áquclles logares. A nuvem negra, que de repente surgiu, a turvar-nos a limpida atmosphera daquelle formoso dia, desapparecera, varrida pela voz do poeta.

Dalli a pouco estávamos todos reunidos na casa de jantar da sr.a Maria do Adrião. Ao lado, na sala, de paredes estucadas, e tecto com relevos — uma surpresa para nós aquella restauração — a menina Gazimira extrahia das gavetas das suas bellas commodas de polimento, e mostrava ingenuamente ás senhoras, as riquezas e os primores da sua guardaroupa — chalés, vestidos de cores garridas, saias com rendas finas, camisas bordadas, lenços de seda de ramagens, que tão bem ficam, e tanto realce dam áquelles rostos campesinos, já illuminados de tons quentes pelo ar do campo e pelo sol.

Uma figura gothica — esta menina Gazimira. Alta e delgada de corpo, nem pallida, nem corada, a voz d"um timbre algo dorido, avara de palavras, os olhos sempre postos no chão, e um não sei que de triste e enigmático, davam-me a impressão de quem não anda satisfeito cá na terra...

Estas figuras, quando teem uma plástica individual, e caracteristica, por apagada que seja nellas a expressão da vida, são, como as estatuas, suggestivas.

Imprimem-se indeléveis na memoria, e entram na galeria do nosso mundo interior. E com estas imagens, cujos contornos o tempo vae esbatendo, que os artistas e os poetas compõem os seus quadros, os seus romances, e os seus poemas.

Vanidade ou vaidade, Hans Memling,
Musée des Beaux-Arts de Strasbourg, c. 1485.
Imagem: Wikipédia

Aquella donzella, serena e silenciosa, recortava-se alli, aos meus olhos — destacando do discorde scenario, e parecia ter saído d'algum velho painel flamengo, de Van Eyck ou de Memling — interior de cathedral gothica, ou comitiva castellã, em caçada fidalga, com pagens, lebreus e falcões [...]  

Os pescadores, pobre gente, quando ha peixe andam na sua faina ; quando elle falta vêem-se á porta das choças, ou na praia, olhando, tristes e sombrios, para o mar alto. E d'alli que lhes vem a ventura e a desgraça. Aquella vida, que para nós tem uma grande poesia, traz-lhes sempre deante dos olhos duas sombras negras — a fome em terra, quando escasseia o peixe, e a morte, quando os surprehende o vendaval !


Praia do Sol, Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe, Bosspostcard




Sérios e concentrados, mantinham um discreto silencio, quando appareciam onde nós estávamos. Com os rostos semi-occultos, os gabões caídos em largas pregas, tinham um quer que de sombras, movendo-se lentamente naquelle fúnebre scenario.

A nota alegre, única, mas esta vivíssima, eram as creanças. Essas, sim, que vinham sempre visitar-nos. Nós, para elles, éramos a novidade — com os nossos trajos, armas, e perdigueiros. Elles — o bando buliçoso, saltão e gárrulo — corriam para nós, cheios de pittoresco e de vida. Uns de gabõesitos pardos outros de camisolas riscadas, brancas, azues, vermelhas ; alguns semi-nús, mostrando pelos rasgões da fato a pelle trigueira, com os seus tons fulvos ; todos descalços; os cabellos, pretos, loiros, arruivados, crespos e revoltos ; queimados os rostinhos pelo sol, e crestados pelo nordeste.

Costa da Caparica, crianças brincando na praia.
Imagem: Carlos Caria

Algum, mais atrevido, colleava, lenta e sorrateiramente, até á casa do jantar ; os outros miravamnos de longe por entre as portas, com os olhos vivos, esperando a saída. Poderia a vista satisfazer-lhes a curiosidade, mas nós, a este prazer, puramente óptico, ajuntávamos alguma coisa mais tangível.

Os primeiros a receber os nossos dons eram os mais velhos, os que nos tinham prestado algum serviço, que elles, no acto, não se esqueciam de allegar. A esta distribuição seguia-se outra, que era geral. Atirávamos para o monte.

Tinha que ver então ! O bando precipitava-se, ávido e furioso, sobre as mealhas esparsas na arêa. Era uma confusão vivíssima de corpos ás rebatinhas, de cabecitas resfolegantes e afogueadas, de mãos aduncas, luctando, qual de baixo, qual de cima, pela posse do metal. Aqui e alli, d'entre a revolta mole, erguiam-se alguns, cheios de alegria e de poeira, mostrando orgulhosos o premio da lucta. E ella repetia-se, se um olho mais agudo descobria no chão algum cobre, que aos outros escapara.

Depois os vencedores dispersavam. Alguns, raros, paravam nos limites da povoação, levando as mãos aos barretes ; outros iam-se logo, retouçando, aos pulos, pelo areal. Mas alguns ainda nos acompanhavam. Não era o amor, nem a gratidão ...

Costa da Caparica, crianças filhas de pescadores, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Não tinham apanhado nada, e vinham lastimando-se, até que alguma alma, impaciente ou apiedada repartia com elles os últimos miúdos. Um vintém para cinco, dez réis para três ... Contas difficeis de fazer, mas que elles lá resolviam com a sua arithmetica de pequeninos.

Eram os prémios de consolação.

Com titulos bastantes para ser procurado pelos mestres da venatoria, não os tinha eguaes este sitio para ser frequentado por senhoras. Quem alli as levava, não era a fama das amenidades do logar, éramos nós, os caçadores, auxiliados por um certo estimulo artístico, o da curiosidade do contraste — ver a povoação dos pescadores, com as suas casas de colmo, armadas sobre os barcos!

Bellas Artes, 16, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

Um trecho da Africa, á vista, e a dois passos de Lisboa !

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

Das classes populares também alguns alli iam fazer as suas ágapes campestres. Mas essas, não raro, tinham um epilogo cómico, quando não trágico. Vinho quasi sempre, e, ás vezes, sangue. Casas de cal e arêa havia lá então duas ou três. Na parede exterior d'uma d'ellas lia-se uma inscripção, em grossas lettras d'almagre, commemorando que a modesta vivenda fora honrada, tal dia, por um rei nosso. Se bem me recordo, foi D. João VI. E também me mostraram o tinteiro de faiança nacional, pintalgado de amarello, vermelho e verde — tons crus — de que elle se serviu para escrever ou assignar não me lembro o que.

Este sertão, inhospito para gente civilisada, foi, durante muitos annos, talvez pelo seu estado de natureza primitiva, um paraiso para os caçadores! Um completo mattagal, alto, denso, e espinhoso. Invernos havia, porém, abençoados, em que parecia ter-se alli aberto a arca de Noé! A caça de arribação em bandos! 

Uma d'essas gravuras — tirada da Chasse illustrée de 1867 — e que está deante de mim, traz-me viva á lembrança, com todos os seus episódios, uma das melhores caçadas que fizemos [...]
Imagem: Fédération Cynologique Internationale

Eram abibes, tarambolas, narcejas, patos, maçaricos reaes, gallinhas d'agua, borrelhos, toirões, codornizes, e depois lebres, e até gallinholas e perdizes, que desciam do monte — tudo com o seu acompanhamento de aves carniceiras, corvos, grifos e milhafres !

Trafaria, Vista dos Moinhos, ed. Manuel Henriques, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Quando Bulhão Pato começou a frequental-o com os seus amigos, ainda o Juncal era isto. Hoje lembra o "locus ubi Troja fuit" ... Aqui foi o Juncal ! ... (2)

Trafaria, Vista dos Moinhos, ed. Manuel Henriques, 08, década de 1900.
Imagem: Delcampe


(1) Aça, Francisco Zacharias d', Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo, Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898
(2) idem

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Costa da Caparica
Trafaria

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Trafaria e Cova do Vapor em 1946

A Trafaria é uma capital de freguesia de que depende também a Costa de Caparica.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Esta localidade tinha, em 1940, 1716 habitantes, repartidos em 679 lareiras e cerca de 700 famílias, das quais hoje [1946] apenas 40 vivem bem.

Há na Trafaria 330 famílias indigentes, o que quer dizer que cerca de 50% da população se encontra nesta má situação económica.

A localidade foi, na sua origem, uma aldeia de pescadores.

Aproximadamente no ano 1914, vieram instalar-se nela 3 fábricas de conservas de peixe.

Nesta altura, o peixe abundava na costa da Trafaria, de tal modo que as fábricas empregaram, além dos homens locais, operários que ali chegaram de fora.

Transporte da sardinha na Trafaria, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Mas actualmente, como já o dissemos, não se acha peixe nenhum perto da costa. Ora, os pescadores não estão apetrechados para poder pescar ao largo da costa.

Trafaria, João Ribeiro Cristino da Silva, 1933.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De maneira que a base económica da Trafaria deixou de existir.

As duas fábricas de conservas não trabalham senão por intermitência, e a população local caiu na miséria.

O único expediente da localidade reside no facto de o desembarcadouro para os turistas da Costa de Caparica estar neste ponto da margem Sul do Tejo.

Les amants du Tage, Henri Verneuil , 1954.
Imagem: CAIS DO OLHAR

A Trafaria é portanto um lugar de trânsito e de estacionamento para os autocarros desta carreira.

Trafaria, paragem de autocarros, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Existem em volta do embarcadouro vários cafés e restaurantes que servem principalmente os turistas de Lisboa e que estão particularmente frequentados nos domingos de Verão quando multidões enormes se encaminham para a grande praia da Caparica e inundam mesmo a praia local.

A praia da Trafaria não é conveniente para os banhos de mar, pois que as correntes do Tejo trazem para cá e acumulam em frente dela todos os despejos dos esgotos de Lisboa.

A primitiva aldeia nasceu de um triângulo natural disposto entre o Tejo e as duas encostas de um vale que aí desemboca; as casas mais antigas, por vezes muito pitorescas, estão aí agrupadas.

A localidade cresceu depois mais para o fundo do vale e ao longo da estrada (ramal da E.N. nº. 76-2ª) que liga com a Costa de Caparica.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Construiu-se tudo em grande desordem.

Há um número exagerado de ruas, muitas das quais são demasiado estreitas, e todas elas (ou quase) não tem arranjo nenhum, nem são conservadas de qualquer maneira.

Reina em muitos sítios um cheiro desagradável por falta de instalações sanitárias nas casas.

Há horríveis barracas, feitas com pranchas e com ferro-velho, e um grande número de casebres de todas as espécies que servem como habitação para uma grande parte da população, que por causa disso sofre de todos os danos físicos e morais.

A tuberculose reina aí.

Ouvi dizer que não era raro verificar que numa destas barracas minúsculas habita uma família numerosa composta por 12 ou 13 pessoas, o que cria uma porcaria inimaginável e uma promiscuidade depravadora.

Felizmente, a Trafaria possui uma boa escola primária e um bonito mercado.

Trafaria — Avenida Florestal, ed. Alberto Aguiar, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Está actualmente em obras um pequeno "bairro para pobres".

As suas casas são bem pequenas, mas a sua criação respondeu a uma necessidade imperativa e deve ser considerada como o primeiro passo para o melhoramento da saúde física e moral dos indigentes da Trafaria.

O bairro contém 36 casas com 3 divisões, e 14 casas com 4 divisões.

As casas estão dispostas numa parte da mata do Estado e estão rodeadas de árvores que será preciso conservar na medida do possível.

Na parte Este da Trafaria, num terraço acima do rio, há uma cadeia militar e, na parte Sudoeste do vale, um quartel.

Nos pontos altos que dominam a região estão instalados dois fortes, e a maior parte da mata que veste os declives do planalto é pertença do Ministério da Guerra (zona militar).

No entanto, há também atrás da estrada nacional, uma linda encosta arborizada que não constitui parte deste domínio militar e do alto do qual se disfruta uma vista esplêndida sobre o Tejo e sobre as vastas paisagens da banda oposta.

Trafaria, Valle da Enxurrada, ed. J. Quirino Rocha, 3, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Algumas pessoas muito espirituosas colocaram ali umas casinholas de fim-de-semana.

O sossego, a frescura e a beleza da vista de que elas gozam são objecto de inveja.

Grandes e lindas matas estendem-se ao pé desta encosta e a Oeste da Trafaria e pertencem ao Estado e à Companhia das fábricas de Explosivos.

Nos domingos de Verão, estas matas estão cheias de pessoas que aí resolveram fazer um pic-nic, vindas de Lisboa, o que é muito natural, visto estas florestas serem as mais acessíveis aos habitantes da capital, entre todas as dos seus arredores.

Com efeito, a passagem do Tejo num barco é muito agradável e não custa caro.

Infelizmente, o facto de haver nesta mata duas fábricas de explosivos, com os seus respectivos depósitos, constitui um perigo para toda esta gente, perigo que se agrava à medida que cresce o número da população local e dos passeantes.

Não devemos perder de vista a possibilidade de qualquer falta de cuidado da parte dos fumadores ou das mães de família que trazem consigo pequenos fogões para poderem cozinhar durante estes dias feriados.

Ora, vemos ao longo da praia da Trafaria uma verdadeira muralha contínua, feita de pedaços de madeira: são as barracas fixas para o “camping”, quase encostadas umas às outras, cuja construção foi autorizada pela Direcção do Porto de Lisboa, sem que tivesse sido aplicada uma regulamentação severa.

Trafaria, Praia dos Banhos, ed. J. Quirino Rocha, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

É fácil imaginar que um incêndio venha, num dia qualquer, a estalar neste agrupamento perigoso, transformando-se forçosamente num braseiro que porá fogo à mata.

Este poderá chegar até aos depósitos de explosivos, que se encontram nela e mesmo bastante perto das ditas barracas.

Nestas condições é lógico preconizar o afastamento das fábricas de dinamite para fora deste sítio já tão povoado.

[...] a "Cova do Vapôr", um pequeno porto formado por uma enseada entre as dunas, perto da embocadura do Tejo.

Trafaria, Ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Sobre a língua de areia que se formou entre o rio e o mar, ergueram-se minúsculas barracas de madeira, sobre estacaria, construídas nas parcelas das dunas que alugou aos seus proprietários a direcção do Porto de Lisboa. São casas de fim-de-semana ou de "camping".



Trafaria, casa na Cova do Vapor, 1949.
Imagem: Público

Lamento ter de dizer que tudo isto foi construído na maior desordem possível: as casinholas estão demasiado perto umas das outras e apresentam, no seu conjunto, o aspecto de uma aldeia de pretos.

Trafaria, casa na Cova do Vapor, 1952.
Imagem: Público

Não têm nem água, nem esgotos. As águas usadas e tudo o resto deita-se na areia, que se torna progressivamente insalubre e de mau cheiro. (1)


(1) Gröer, Etienne de, Plano de Urbanização do Concelho de Almada, PUCA, Análise e Programa, Relatório, 1946, mencionado em Anais de Almada, 7-8 (2004-2005), pp. 151-236.

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Costa da Caparica — urbanismos
Mata do Estado e Quinta de Santo António


Leitura relacionada:
Restos de Colecção

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

[...] nenhum carreiro desta vila assim como do seu termo passe com o seu carro carregado, nem vazio pela calçada de Mutella e São Simão, salvo quando fizerem tão notaveis atolleiros que não possão hir por outra parte  [...]

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

[...] quem tiver vinhas e herdades que entestarem nos caminhos do concelho que fação as testadas dos seus valados e cortem os seus silvados e mattos de maneira que os caminhos sejam livres e dezempachados [...]

[...] os caminhos do concelho, e nos vallados das ditas havia muntos mattos silvados de maneira que tapão os caminhos e o sujão de maneira que não podem andar neles [...] (1)


A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A situação de Portugal nesta epocha [1807] era bem lastimosa; não havia estradas; o estado dos caminhos, em geral, mau ou pésssimo, tinha-se tornado perigoso pelo rigoroso inverno; chuvas copiosas, tresbordo de rios e ribeiras, grandes innundações haviam assolado o paiz, tornando difficil, penosa e arriscada a marcha das tropas; (2)

Carta militar das principaes estradas de Portugal (detalhe), Lourenço Homem da Cunha de Eça, 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 A cituação e a commodidade que offerece o porto de Cassilhas de toda a hora se encontrar maré, condição unica que não acha nos outros portos da margem esquerda do Tejo

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

fariam da Villa de Almada hum ponto mais interessante para a circulação do commércio interior do Alentejo do que Mouta ou mesmo Aldea Gallega, 

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa  (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

se as estradas fossem melhores, ou antes se houvessem estradas de comunicação, pois que passado o recinto da Villa, os caminhos para toda a parte são pessimos, não offerecem senão estorvo ao transporte, por serem antes trilhos do que estradas reais. (3)

Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no Diccionario Chorographico publicado em 1878, Agostinho Rodrigues de Andrade estabelece uma classificação das diferentes vias.

Assim, são de primeira ordem as estradas reais (de primeira e segunda classe), enquanto nas de segunda ordem inclui os caminhos municipais e vicinais.

No concelho de Almada este autor identifica estradas de segunda ordem que ligam a vila a Sesimbra à Trafaria e esta à Costa. 

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Já no Seixal, apenas refere a estrada que liga a povoação a Sesimbra passando pela Arrentela.

Companhia de laníficios da Arrentela, desenho Nogueira da Silva, gravura João Pedroso,  1858.
Referências: Lugares do concelho do Seixal, Restos de colecção 
Imagem: Hemeroteca Digital

Embora se concentre na freguesia de Caparica, a obra de Vieira Júnior, datada de 1897, refere diversas vias de comunicação, designando estradas reais e distritais. azinhagas e caminhos. sem no entanto as caracterizar.

Identifica como real a já referida estrada para a Trafaria, passando pelos lugares de Casas Velhas, Torrinha, Costas de Cão, Cova, Pêra e Valle de Meirinho.

Referindo as estradas distritais, o autor salienta a que atravessa a Chameca vinda do Arieiro como: "sendo esta o melhor lanço de estrada que existe em todo o concelho de AImada", de onde também parte a estrada para a Costa.

A caminho da Costa da Caparica, João José Penha Lopes, 1921.
Imagem:Arquivo Municipal de Lisboa

No lugar da Torre entroncam as estradas que conduzem a Almada, à Charneca, ao Porto Brandão e à Trafaria.

No vale da Sobreda passa, segundo o mesmo texto, um caminho que conduz à estrada real, passando em Casas Velhas. 

De Murfacém saem para a Trafaria "dois caminhos principaes, a estrada velha e o moderno accrescente da estrada districtal".

Por último, são ainda registadas duas azinhagas, uma "que do Salgado vae á Seixeira, Silveira, Urraca, e Ginjal (Monte), até ao Bicheiro pela estrada real" e outra "de Poçolos ao sitio das Casas Velhas, pelo caminho a da 'Formiga',  se volta ao 'Monte' propriamente dito". (4)


Em 1862, a rede de estradas existente e projectada é classificada em 1.ª classe, estradas reais (com origem directa ou indirecta — travessias fluviais p. ex. — em Lisboa), 2.ª classe, estradas distritais, e estradas municipais, estas últimas geridas pelos munícipios.


Estudo, construção, reparação e conservação das
estradas ordinárias, Escola do Exército, 1897 — 1898

Com a abolição da monarquia em 1910, as estradas Reais foram renomeadas estradas nacionais.


Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Em 1913, as estradas distritais foram também renomeadas estradas nacionais. (5)


(1) Posturas da Câmara Municipal de Almada, 1750, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(2) Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

(3) AHMOP, Memoria Económica da Vila d'Almada, e seu Termo, 1835, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(5) Fonte: Wikipédia


Referências:

Andrade, Agostinho Rodrigues de, Dicionário corográfico do reino de Portugal, Coimbra, Imp. da Universidade, 1878, 254 págs.

Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.