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sexta-feira, 5 de julho de 2019

As praias obscuras

Junto de Lisboa, na margem esquerda do Tejo, encontram-se ainda alguns logares de banhos onde a vida é mais barata que na margem de cá. Taes são:

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposta do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Arquivo Nacional Torre do Tombo


A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. 

Não obstante, o auetor d' estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. 

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro v matava-os na carreira, á bala, com notável perícia.

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Cabral Moncada Leilões

O Alfeite, perto da quinta real do mesmo nome, junto de Cacilhas e da Cova da Piedade. É o mais pittoresco sitio da margem do sul do Tejo.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

A Fonte da Pipa. Logar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços. (1)


(1) Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal..., Porto, Magalhães & Moniz, 1876

Artigo relacionado:
Lagoa de El-Rei

terça-feira, 12 de abril de 2016

Indústria química

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica. 

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (1)

Fábrica de Química Aplicada às Artes
Propriedade: Agostinho Joaquim Ferreira
Produtos: Cremor tártaro; tártaros vermelho e branco
Local: Porto Brandão
Referências: Estatística Industrial de 1852

Planta de uma instalação química em Portugal no início da segunda metade do século XIX. A planta pertence ao processo preliminar de licença de conservação de uma fábrica de produtos químicos situada no Porto Brandão, concelho de Almada, pedida por Agostinho Joaquim Ferreira, em 24 de Abril de 1857.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.

Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

No topo da imagem, o 1.º piso, parte reservada à habitação; no piso térreo, destinado à fábrica, destacam-se ao centro os espaços dos fornos, circundados inferiormente pelas áreas de fabricação, armazenagem e cais.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.
Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Fábrica de Química Aplicada às Artes produzia o cremor tártaro ou bitartarato de potássio, um produto utilizado na medicina e na tinturaria. (2)

Fábrica de dinamite da Trafaria
Propriedade: ... privilégio de Alfred Nobel
Produtos: Dinamite
Local: Trafaria
Referências: O Economista

Fábrica de dinamite na Trafaria, anúncio do Diário Illustrado, 1888.
Imagem: Biblioteca nacional de Portugal

Fábrica de guano artificial no forte da Trafaria
Propriedade: Jorge Croft & C.ª
Produtos: Guano químico; ácido sulfúrico
Local: Trafaria
Referências: MR - PPL, 1857

Fábrica de produtos químicos
Propriedade: Júlio César de Andrade & C.ª
Produtos: Essência de terebentina; breu e resina hidratada
Local: Almada
Referências: Exposição Internacional do Porto de 1865 (3)

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática..., Universidade de Évora, 2016
(2) Idem
(2) Idem, ibidem

Informação adicional:
Revista Universal Lisbonense, A Indústria Nacional e a Exposição de 1849

Artigo relacionado:
O laboratório químico da Margueira

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

1876, um eremita

O reverendo padre Hughes é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Igreja do Corpo Santo, fachada principal, Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Hughes fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

O rio Tejo e a igreja de São Paulo, no Largo do Corpo Santo, Francesco Rocchini, finais do século XIX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

S. Paulo tinha por habitação uma caverna anteriormente habitada por um moedeiro falso do tempo da rainha Cleópatra, tinha a pura fonte cristalina brotando do seu rochedo, óptimas tâmaras para a sua sobremesa, e meio pão, o qual, segundo se lê em S. Jerónimo e em S. Atanásio, era trazido fresco ao santo eremita, em cada manhã, por um corvo.

Por ocasião da visita piedosa de Santo António [Santo Antão] a S. Paulo, o corvo, vendo que havia uma boca a mais no santo deserto, começou a apresentar-se em cada dia com um pão inteiro suspenso do bico.

S. Paulo vestia uma túnica feita de folhas de palmeira, a qual veio a ser herdada como relíquia por Santo António no dia em que S. Paulo expirou, aos 112 anos de idade, havendo comido com resignação e fervor todos os meios pães que sucessivamente lhe haviam sido levados pelo corvo.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Não é de presumir que, além da água da Fonte da Pipa, o reverendo Hughes tenha enctontrado na Outra Banda os elementos da vida retirada e contemplativa que S. Paulo gozou na Tebaida. 

Para o efeito dos alimentos e do vestuário o reverendo Hughes ter-se-á visto obrigado, talvez, a substituir o corvo por um padeiro e a palmeira por um algibebe, o que todavia não obsta a que ele esteja do mesmo modo livre, como S. Paulo, dos furores de Décio, o tirano.

Graças à Fonte da Pipa e aos seus respectivos cabos de polícia, os dias do eremita Hughes tão serenos e pacíficos têm decorrido na Outra Banda que o ilustre sacerdote resolveu atravessar as águas do Tejo e vir por meio de práticas na igreja de S. Paulo convidar a acompanhá-lo às doçuras do ermo os cristãos da banda de cá, que não quisessem prestar a cerviz ao alfanje do bárbaro imperador Décio Pereira de Melo.

Fontes Pereira de Melo, por Raphael Bordallo Pinheiro.


O reverendo Hughes determinou subir, pois, na  semana passada ao púlpito da igreja de S. Paulo e começar a série das suas práticas tendentes a convencer os cristãos dos perigos que deles correm no meio da vida mundanal, e bem assim dos santos prazeres que os esperam na paz dos cenóbios, se eles se resolverem a ir à Outra Banda e entregarem-se à penitência, ao jejum e ao burro de Cacilhas, desviado pelo reverendo Hughes da carreira da Cova da Piedade para a da terra da Promissão.

Sabe-se quanto os nossos templos modernos estão longe do frio desconforto das primitivas catacumbas, das criptas e das cavernas sepulcrais em que os primeiros cristãos se refugiavam para escaparem à perseguição dos Governos, para celebrarem as belas cerimónias do culto primitivo e para enterrarem os seus mortos santificados pelo martírio.

A Igreja tem sido verdadeiramente incansável nos últimos tempos em atrair a piedade ou em a conservar por meio das sucessivas comodidades e dos prestígios espectaculosos.

Há os órgãos, em que por ocasião dos santos sacrifícios se tocam os trechos sentimentais de Verdi e de Bellini. As epistolas de S. Paulo e o evangelho de S. Mateus acompanham-se, para recreio aos fiéis, com os suspiros de Margarida Gautier e com a romança de Armand Duval. As palavras da confissão casam-se com o cancã da "Bela Helena", e a hóstia sagrada eleva-se ao som da ária "Rien n'est sacré pour un sapeur".

Além disso há os tapetes, há as jarras da Índia, há as almofadas de veludo, os belos quadros de virgens louras, de simpáticos santos romanescos, como S. Francisco Xavier, de fidalgo perfil e fino bigode, de Nossa Senhora de la Salette, representada de pequenina touca encanudada, saia curta e avental guarnecido de pompons, como as travessas "soubrettes" de Molière.

Temos as devoções de recreio em comboio expresso a preços reduzidos para Notre-Dame de Lourdes, milagre e jantar por cinco francos, de carne ou de jejum, vinho à parte.

Há, mais em moda, ainda, recentemente, as piedosas romagens a S. Dinis, que tem uns poucos de corpos, um na igreja de Paris, um na de Ratisbona, um julgado autêntico por Leão IX, um mandado ter como genuíno por Inocêncio III, e outros, entre os quais pretendem alguns arqueólogos que se achará o do deus Baco, chamado Dionisius, de cujo culto cristianizado na Gália proveio a legenda de S. Dinis.

Os conventos pela sua parte abandonaram também a confeccção dos milagres e das tradições maravilhosas e tremendas para empregarem todos os esforços da sua química na especialidade dos mais saborosos e estomacais licores : o dos Beneditinos, o Kermann, o Chartreuse, e outros.

A Semana Santa, destinada a comemorar o lance mais dramático e mais sublime da história de Jesus, converteu-se num pretexto de viagens ã Andaluzia, às famosas touradas em que Sevilha reúne os primeiros espadas e os primeiros aficionados ao "boi de morte", e à celebre feira em que o velho salero revive um momento, sorrindo sob o véu mourisco, ao vago rufo longínquo de históricos pandeiros.

Em Lisboa o mesmo tempo é um abismo de amêndoas, de "bons-bons fondantes", de "croquettes ã la vanille", de rebuçados de ovos, e de outras doçuras com que a Confeitaria Italiana e os bufetes de Baltresqui celebram a Paixão.

Os livros da oração e da missa converteram-se em obras-primas de tipografia e de cartonagem, de tão altos preços que não permitem que ninguém reze com decência por menos de duas libras.

As igrejas são, como os clubes, o prazo dado à reunião por categorias das diferentes classes sociais.

No Loreto, à missa da 1 hora, reúne-se a burguesia frequentadora do Passeio do Rossio e dos bailes do Clube.

A nobreza de "l'ancien régirne" vai à Graça, aos Anjos e ao convento de Santos, onde na penúltima sexta-feira da Quaresma há procissão de senhoras, com rifa e chá.

No convento da Encarnação, pelo oitavado do Corpo de Deus, há igualmente rifa, chá e recepção à noite.

Lisboa, portal do convento da Encarnação,
Alfredo Roque Gameiro, 1925.
Imagem: www.roquegameiro.org

A alta finança tem procurado pôr em moda com as suas novenas Santa Isabel e a Lapa.

A aristocracia oficial, a nobreza militante, a fina flor da moda, não vai senão aos Inglesinhos e a S. Luís dos Franceses.

Os devotos escolhem nestes quatro círculos a missa que convém à sua educação, ao seu nascimento, à sua fortuna e à ordem das relações que cada um deseja cultivar.

Com a religião em tal estado é realmente preciso ser-se bem indiferente aos atractivos do luxo, da elegância, da moda, da convivência e da boa companhia para se não ser um firme e fiel católico!

Ter uma religião fácil, elegante, alegre, ao abrigo de toda a perturbação, mantida pela Carta, vigiada pela polícia, defendida pela guarda municipal; ter ao mesmo tempo uma porta aberta para a sociedade, para a consideração, para a estima pública, para os altos cargos do Governo, para as finas festas e para os belos salões escolhidos, e outra, porta aberta para o céu, para Deus, para a bem-aventurança; estar provido de orações e de indulgências para cada pecado, de sorte que se pode, ao fim de cada ano de vida, receber carta de limpeza para urna eternidade de promissão; ser, graças à confissão, tantas vezes delinquente quantas vezes amnistiado; olhar em volta de si, na humanidade, ver milhares de milhões de almas perdidas por falta de padres, de indulgências plenárias, e de bulas pontifícias, e ponderar que o Inferno tem muito em que se entreter para queimar competentemente os outros, enquanto nós estivermos consoladinhos, na comedidade celestial, como assinantes antigos do Paraíso, binoculando dos nossos "fauteuils" as trágicas visagens carbonizadas dos bárbaros e dos hereges rechinando  no fogo eterno!... 

Que mais pode exigir ao mundo e ao céu, ao tempo é à eternidade, o profundo e imenso egoísmo do homem?

O programa do mais humilde e obscuro beato deixa a perder de vista os sonhos mais excessivos em gozo de Nero e de Sardanagalo — uns pobres diabos a quem ali o sineiro das Mercês, uma vez na eternidade, terá o direito de torcer uma orelha a troco de um simples padre-nosso!

O clero porém continua a recear que todas estas vantagens não cheguem para preencher a aspiração dos entes bem formados, e todos os dias continua ainda a acrescentar tanto quanto pode os interesses e os atractivos do culto.

Assim, quando o reverendo Hughes se apresentou, acolheu-o o mais vivo e simpático alvoroço. Um enorme êxito estava destinado a saudar a sua aparição na Igreja de. S. Paulo. Ele não tocava órgão de uma maneira sensivelmente arrebatadora; ele não possuía absolutamente para a execução dos sagrados motetes a fina voz preciosa dos antigos mutilados das reais capelas; ele finalmente não tinha à primeira vista nenhum dos belos talentos em que se fundam as reputações de sacristia.

Igreja do Corpo Santo, altar-mor,
Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Todavia a sua origem irlandesa havia-o dotado com a especialidade impagável da pronúncia dos ingleses de farsa, e não poderiam deixar de produzir o mais alegre efeito nas consciências as suas piedosas aplicações do "Amor Londrino" a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

Efectivamente à primeira prática do reverendo Hughes a Igreja de S. Paulo teve uma casa cheia, e nunca a palavra de Deus foi escutada nos templos cristãos com mais patente manifestação de alegria.

Estátua de Girolamo Savonarola (1452 - 1498) em Ferrara, Italia, por Enrico Pazzi, 1872.
Imagem: Flickr

Somente como um espectador interrompesse a ilimitada satisfação do auditório com uma tosse importuna, um padre português que assistia à prática descarregou algumas bengaladas no fiel cristão constipado.

Daqui, tumulto e desordem. Fervem os canelões e os murros, os chapéus-de-sol floreteiam no ar cruzando-se em golpes às cabeças, os homens praguejam, as mulheres gritam, as crianças choram, o reverendo Hughes desce amedrontado do púlpito, e os fiéis, que tinham ido ao templo pedir as unções da fé, acham mais urgente ir pedir tintura de arnica na botica ao lado.

Então a mesa da confraria de S. Paulo protesta contra as práticas do padre Hughes, comentadas à bordoada pela galeria. O Sr. Patriarca de Lisboa [Inácio do Nascimento Morais Cardoso, 11º Cardeal-Patriarca de Lisboa, 1871 - 1883] intervém, e eis o que Sua Eminência resolve:

"Sendo o catolicismo a religião do Estado, o Sr. Cardeal-Patriarca, autorizando a pregar o reverendo Hughes, declara que, com a intervenção da força armada, fará manter na igreja de S. Paulo o respeito devido à palavra de Deus."

Inácio do Nascimento Morais Cardoso,
11° Cardeal Patriarca de Lisboa, entre 1871 e 1883.
Imagem: Wikipédia

O caso do reverendo Hughes não teria grande importância, nem nós o haveríamos referido nestas páginas, se ele não houvesse dado origem a esta  declaração do Sr. Patriarca, publicada na maior parte dos jornais de Lisboa, sem todavia haver suscitado nem da parte da imprensa nem da parte do Parlamento os comentários que merece.

As palavras do Sr. Patriarca passaram despercebidas, certamente porque se não viu que elas encerram a ameaça de um acto de natureza inteiramente análogo ao da carnificina de Saint-Bartheliemy.

Carlos IX dizia: "A missa, ou a morte!" — o Sr. Cardeal-Patriarca diz: — "O sermão, ou a força armada!"

Há uma leve diferença nos vocábulos, mas o sentido jurídico das duas frases é absolutamente o mesmo. Por mais arcaica, por mais obsoleta, por mais absurda que pareça a cominação do Sr. Patriarca, ela é no entanto a consequência lógica da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal mantida em pleno século XIX pela Carta Constitucional da monarquia.

As palavras do Sr. Patriarca provam patentemente que dentro da lei portuguesa um príncipe da Igreja está no pleno direito de decretar a Saint-Barthelemy.

O facto é de tal maneira expressivo e flagrante que, se em Portugal houvesse um Parlamento dotado de algum simples respeito pelo senso comum, bastaría enunciar aas palavras proferidas pelo Sr. Cardeal-Patriarca para que pelo voto unânime dos legisladores fosse de uma vez para sempre riscado da Carta o artigo sexto.

Enquanto ao clero católico não compreendemos qual é definitivamente a sua opinião acerca da intervenção da força nas relações do homem com Deus. Na Alemanha, quando Bismarck submete o clero católico à inteira vontade do Governo do império, o clero apela para as garantias espirituais, distingue os poderes, declara-se fora da lei civil, e os mais ardentes ultramontanos refugiam-se no principio de Cavour, e pedem em brados de justiça Igreja livre no Estado livre.

Em Portugal o mesmo clero perfilha a opinião do chanceler do império, ri com ele dos invioláves direitos da consciência, e pede a força armada para sustentar um sermão!

O clero, representado nas pessoas dos seus chefes mais augustos e mais conspícuos, não vê que se combate a si próprio e se dilacera a si próprio. No meio da crise suscitada pela ameaça do Sr. Patriarca o procedimento sublimemente filosófico do reverendo Hughes é superior a todo o elogio.

As suas meditações de eremita haviam-no instigado a vir da Outra Banda ensinar o caminho do aprisco a algumas ovelhas tresmalhadas pelo Aterro. As ovelhas não quiseram ouvi-lo e preferiram furar os olhos umas das outras com as ponteiras dos guarda-sóis.

O Sr, Patriarca ofereceu-se-lhe para mandar degolar pela polícia o rebanho inquieto.

O bom homem, que vinha como pastor e não vinha como magarefe, recusou a oferta, e a única coisa que fez vendo que lhe saíra o gado mosqueiro, foi cumprimentá-lo de longe, dirigindo-se à ponte dos vapores, sacudir o pó dos seus sapatos com o lenço destinado a receber no púlpito de S. Paulo o catarro da sua eloquência, e regressar para CaciIhas.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Se alguma das andorinhas do nosso telhado se quiser encarregar de levar estas linhas à Tebaida do reverendo Hughes, pedimos a sua reverência que olhe de lá para a janela da nossa água-furtada, de onde lhe enviaremos as saudações mais simpáticas. (1)

Aforamento terreno com edificado,
Diário Illustrado, 9 de abril 1882.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

Artigos relacionados:
A costa no século XIX

Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lagoa de El-Rei

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposía do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos. Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V.

Mappa das vizinhanças de Lisboa (detalhe), 1842.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. Não obstante, o auctor d'estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira e do terreno adjacente, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro V matava-os na carreira, á bala, com notável pericia.

Projecto de ampliação da casa da Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas. (1)

Lagoa de Albufeira, ex Lagoa de El-Rei.
Imagem: HDBeachcam

Sua Alteza o Duque de Bragança [príncipe D. Carlos] e vários convidados foram hontem caçar na lagoa de Albufeira.

Conductor, embarcação a vapor construida em 1880.
Parceria dos Vapores Lisbonenses de Frederico Burnay.
Imagem: ALERNAVIOS

Sua Alteza embarcou ás 5 horas da manhã a bordo do vapor "Conductor" no caes de Belém. (2)


(1) Ortigão, Ramalho, As praias de Portugal; guia do bahista e do viajante, com desenhos de Emilio Pimentel, Porto, Magalhães & Moniz, 1876
(2) Diário Illustrado, 24 de dezembro 1886

terça-feira, 21 de outubro de 2014

SFUAP, origens, teatro e escola

Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, desde 1889.

Cova da Piedade, piscina da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, c. 1970.
Dimensões, em metros: comp. máx., 25; larg. máx., 21; larg. mín., 16; prof. mín., 1,20; prof. máx., 5,40; alt. máx. das pranchas de salto, 15.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

A Sociedade Filarmónica União Artística Piedense é a segunda mais antiga do concelho, e foi fundada a 23 de outubro de 1889.

Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, 23-10-1889.
Imagem: AVM

Foram seu fundadores: Domingos da Saúde, Daniel Andrade, José António Gomes, António Pais Padrão, Manuel Tavares, António Xavier de Araújo, Carlos Ayrens [Ahrens], António Pedroso, Francisco Caramelo e Artur Ferreira Paiva.

Decorridas algumas semanas foi inaugurada a primeira sede instalada no sul do Jardim Público da Cova da Piedade, na chamada "Casa do Freitas". (1)

As origens desta colectividade remontam à velha colectividade "Sociedade Filarmónica União Artística do Caramujo" *  [...] com sede na Rua Direita do Caramujo.
* Sociedade Filarmónica 23 de Julho Caramujense, c. 1876, cf. Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.
Neste local funcionou também o antigo "Theatro do Caramujo".

Por volta de 1890, fundava-se o "Theatro Almeida Garrett", também conhecido por "Theatrinho na Cova da Piedade" [...]

Situado onde hoje está instalado o actual Cine-Teatro da "Sociedade União Piedense", tinha sido antes uma adega, propriedade de Pompeu Dias Torres, dono do "Hotel Club" e da maior parte dos terrenos da comunidade piedense. [...]


Hotel Club da Cova da Piedade
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade

José Joaquim Correia, ao instalar naquele local uma casa de pasto, que passou a ser conhecida pelo "75", teve a feliz ideia de aproveitar a retaguarda para montar o teatro.

Para isso foi constituída uma sociedade por acções populares, de que foram principais accionistas: António José Gomes. José Joaquim Correia, José Vicente Gomes Cardoso, Joaquim Caetano Veríssimo, José Figueiredo, Manuel Marques "das C"aeiras", Joaquim José Vieira, Sargento Paulo (dos torpedeiros), António Vicente Pais Padrão (industrial corticeiro), mestre António Maria Ribeiro, Carlos Ahrens, António Gonçalves, Joaquim Gonçalves e Alfredo Sandeman.

O primeiro espectáculo no "Theatro Garrett" foi composto pelo drama "O Gaspar Serralheiro" e a comédia "Por causa dum clarinete". [...]

Cova da Piedade, Cine-Teatro da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

António José Gomes comprou o referido edifício em 1898 e alugou-o à Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (desde 1901), com a renda mensal de 10$00 [sic] a troco de uma quota associativa daquele. Consta que a casa foi alugada por António José Gomes a um cunhado seu, Carlos Ahrens (também fundador da S.F.U.A.P.), na condição da colectividade manter a Banda Filarmónica. [...]

Alguns anos mais tarde, face às inúmeras carências de instrução que afligiam a população, a colectividade enveredou pela instrução, criando uma escola primária [na antiga Cardosa do Caramujo, actual rua Tenente Valadim,] com aulas diurnas para as crianças (na sua maioria, filhos de operários cortíceiros) e nocturnas para adultos. [...] (2)

Alunos da Escola União Piedense, inaugurada em outubro de 1904 na Cardosa.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

[...] Três semanas após a abertura desta escola, as aulas tinham uma frequência de 110 alunos, lecionados pelo saudoso professor José Martins Simões. Esta obra realizou-a o esforço de alguns ardorosos sócios. A escola possuiu um estandarte próprio, que era o enlevo da garotada, e um grande benemérito desta terra, que foi António José Gomes, de tal modo perƒilhou esta obra, que vestiu mais uma centena de alunos, dando-lhes um ƒardamento.

Os filhos da Piedade, que hoje são homens, devem a esta escola a instrução que disfrutam! António José Gomes patrocinou a escola que aquele punhado de homens criou, e sendo exígua já a capacidade das salas da Sociedade para a regular frequência escolar, edificou aquele benemérito a escola situada na Avenida que tem o seu nome e que é a melhor de todo o concelho!

António José Gomes, década de 1890.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

Este estabelecimento de ensino, foi. pois inspirado pela iniciativa que teve o seu campo de ensaio — e que profícuo ensaio! — na Sociedade Filarmónica União Artística Piedense. (3)

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

(2) Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.

(3) Dias, Jaime Ferreira, citado em Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901

In Memoriam: Henry Bailey Maria Hughes (1833 — 1887)

Costa da Caparica, Manhã na praia da Caparica, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Ao norte lá está a egreja, simples e singella, como são também os costumes d’aquella boa gente hospitaleira, e ao lado da capella, mas mais para nor-noroeste., o chamado convento, onde está aula, mandado construir em 1870 pelo reverendo padre Hughes [...]

Costa da Caparica, em segundo plano o Colégio do Menino Jesus e a igreja, década de 1900.
Imagem: Arlindo Pereira

Estava então na Costa o reverendo padre Hughes, e o Tio Alfama, que pelos modos lhe pesavam na consciência uns certos e determinados peccaditos, procurou este ver o sacerdote para que o ouvisse de confissão.

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

É então desde essa data que aquelle homem começa a derramar sobre a povoação da Costa benefícios sem número. (1)

O reverendo padre Hughes  é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Huggs fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

in Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

Conquanto Costa de Caparica seja a mais nova Freguesia do concelho de Almada [em 1973], pode e deve-se orgulhar de ter sido das primeiras terras de Caparica a ter uma escola primária. Pois ela apareceu em 1876, mercê da iniciativa do Reverendo Padre Henrique Bailie Hughes.

[...] Ramalho Ortigão, em um dos seus livros [As Farpas, A Religião e a Arte], embora a ele se faça larga referência, não nos diz que o Padre Hughes e não Huggs, como ele escreveu, com o castigo que lhe foi imposto, deu motivo a que fosse o principal obreiro da instrução primária em Costa de Caparica.
Então tivemos notícias dele no Colégio Dominicano de Lisboa, onde, depois de completar o curso que estudou, se tornou professor.

Durante esta parte da sua carreira diz-se que objectou a ordenação de um candidato a padre argumentando publicamente em resposta à questão da capacidade deste durante o serviço.

Com isto criou inimigos, e estando em perigo de vida, encondeu-se entre a população marítima de Lisboa, trabalhando com grande esforço na salvação destes, por quem era muito amado.

in The TABLET: The Island Recluse

Junto do local onde se encontra a actual Igreja, que nesse tempo se dizia Capela, existiu um vasto edifício Casa de Repouso (?) ou Convívio para reunião e meditação dos habitantes dos conventos que existiam em Caparica, edifício esse que mais tarde passou a ser escola primária e centro religioso — e nunca convento, como o povo erradamente lhe chamou, e ainda hoje é conhecido o local.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O Padre Hughes, foi pelo seu dinamismo. o fundador do Colégio do Menino Jesus, cuja imagem se encontrava à entrada da escola, e da qual existe imagem igual mas de tamanho reduzido na igreja da Costa de Caparica, a que o povo chama o Menino Jesus da Praia por ter na mão uma rede a que os pescadores chamam ganha-pão ou chalavar, como ainda hoje se usa em determinadas pescarias.

Menino Jesus, madeira policromada, José Risueño, séc. XVIII.
Imagem: V&A

Desse colégio que existiu até 1901, foram seus professores, José Reis, Pedro Nolasco de Oliveira, José Lima, Francisco e António Calderon. Conquanto se diga que outros foram lá também professores, a verdade é que só estes figuram na Relação do Colégio do Menino Jesus da Costa de Caparica.

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim como também é possível que outros padres tivessem lá passado como directores da escola, mas a Relação apenas nos fala além do padre Hughes, dos Reverendos Padres António Rodrigues de Campos e Patricio Russuel [Patrick Bernard Russell ou Patricio Bernardo Russell], além do Irmão Laico Frei Martinho José Nogueira.

Esta escola, que era apenas para rapazes, chegou a ter em aula mais de meia centena, o que era muito para a época.

Costa da Caparica, crianças filhas de pescadores, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Até à data, que se saiba, ainda não se conseguiu localizar onde se encontram enterrados os restos daquele que foi o pioneiro da instrução primária em Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Areal, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)
Hughes, Henry Bailey (1833 — 1887), padre católico romano; nascido em Caernarvon [hoje Caernarfon, país de Gales] em 1833, onde o seu pai, Howell Hughes, foi cura e depois reitor de Trefriw (1833 — 1839), e de Rhoscolyn, Anglesey (1839 — 1848).

Henry Bailey Hughes entrou para a Igreja Católica Romana, quando tinha cerca de dezesseis anos.

Estudou no Colégio Dominicano de Lisboa e, depois de entrar no sacerdócio, viajou em missionário na Europa, África e Estados Unidos. 

De regresso ao País de Gales, viveu por uns tempos na ilha de S. Tudwal, ao largo da costa Caernarvonshire, tendo pregado em Llyn e outros lugares de Caernarvonshire.

Escreveu hinos galeses e baladas. Faleceu a 16 de dezembro de 1887.

in Welsh Biography Online

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

Dele apenas existe um ou outro apontamento dispersos em livros ou jornais e a recordação do povo com que ele passou à história: — o Monge da Costa! (2)

Costa da Caparica, pescadores octogenários, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.

(2) Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Artigo relacionado:
A costa no século XIX


Leitura adicional:
The TABLET: Et Cietera
The TABLET: The Island Recluse