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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Almeida Garrett

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco [...]

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do dolce far niente, que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçarle na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

Iconografia do Romantismo, O deambulador sobre o mar de névoa (detalhe), Caspar David Friedrich, 1818.
Imagem: Wikipedia

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me

Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1)

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro!

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados [...]

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.

Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Julie ou la Nouvelle Héloïse, o primeiro beijo.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" [...]

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora [...]

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !


Almeida Garrett, Pedro Augusto Guglielmi, 1844.
Imagem: Wikipédia

O risco é inevitável; a perdição está por um fio! (2)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Artigo relacionado:
Barca Bela


Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal
Obras de Almeida Garrett em archive.org
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Nas arribas do mar

Na margem esquerda, encontra-se a modesta estação da Trafaria, ao mesmo tempo povoação de pescadores. Bulhão Pato, que habita perto d'ahi, em Caparica, dá-nos uma viva descrição de uma pesca de sardinha, cheia de pitoresco local. (1)

O poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Há dias, abrindo o jornal — "A Caça" — deparou-se-me um artigo intitulado: Législation sur la chasse. Dizia: ..."Je revois encore les dunes sauvages qui s’étendent de Trafaria à Costa, où j’ai fait ma première chasse avec Bulhão Pato; les rizières et les côtes boisées du vallon d’Apostiça, etc."

O artigo era de Sampayo Osborne, que esteve em Portugal cerca de 25 annos; rapaz muito intelligente, illustrado, da família do conde da Povoa e primo da casa Palmella.

Caçador de sangue. Um desastre varou-lhe com um tiro, em França, uma das mãos, não sei se a direita, se a esquerda. Continuou, apesar d'isso, a ser espingarda de primeira ordem e, o que é mais, ao piano primoroso artista.

Durante largo tempo bateu as tapadas e montados com os reis do throno e os reis da caça. É provável que não o torne mais a vêr. D'aqui lhe envio um cordial e saudoso aperto de mão.

Em 1859 José Augusto Sacotto Galache e eu principiámos as nossas caçadas no Juncal da Costa. Pelas arribas as perdizes saltavam aos bandos; na planura as codornizes, as narcejas e outra caça de arribação abundantíssima. Vivíamos em Buenos-Ayres [à Lapa, Lisboa].

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica,
George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Sotheby's

No inverno, noite ainda, Lourenço da Pinha estava no caes de José António Pereira [freg. de Santos-o-Velho, anterior ao aterro da Boavista, actual Beco da Galheta], com os seus três filhos: o mais velho José, o segundo João, o terceiro Francisco, este muito mocinho ainda para as fainas da travessia do Tejo, às vezes bravias. 

É piloto da Barra há já muitos annos. Lourenço da Pinha nascera em Olhão, terra de marítimos, que folgam com o esbravejar das ondas como as aves marinhas.

Moço, veio para Belem e, ora com a mão no leme e na escota, ora no punho do remo, sempre de ânimo folgazão, coartada pronta e verboso como algarvio, lá foi mareando o barco, sustentando a mulher e criando os filhos.

Torre de Belém,
Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

Morreu há bastantes annos, mas por todo o bairro de Belem e por todo este almaraz lhe relembram o nome honrado e benquisto.

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Valle de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. 

A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Sant'Anna foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.

Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. 

Lisboa, Sol Nascente,
Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Tempo sêcco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:

— Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.

Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.

Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pae ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beiramar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. 

Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça.

Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num médão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

Entrámos na povoação. Tudo choças de colmo; muitas levantadas sobre o arcaboiço de um velho barco. 

Uma casa de um só andar, com armas reais, bojudas como o abdómen do ladino e bondoso monarca D. João VI, que foi alli por mais de uma vez. De pedra a cal meia dúzia de casitas mais, quando muito. 

Íamos andando por aquele labyrintho de cubatas e à porta de um ferrador demos com uma rapariguinha dos seus dez annos, de cara insinuante, vestido de chita, meias muito brancas, socos, cabello em trança e bem tratado.

— Ó pequena, olha lá. Haverá aqui alguma casa onde se possa ficar e se coma alguma coisa?

— Pois não há, meus senhores!... É a tia Maria Rita do Adrião — acrescentou, dando à sua voz crystallina certa expressão que indicava a grandeza da personagem a quem se referia.

Levou-nos à tia Maria, e tal foi o agasalho que por mais de trinta annos frequentei aquela casa com o melhor dos meus amigos. 

A Claudina, a rapariguita que fora a nossa salvação e a nossa guia, passados tempos casou e, já mãe de filhos, depois de eu estar n'este Monte, morreu, coitada, de uma pneumonia. 

Maria Rita do Adrião vive ainda; há dois annos que veio visitar-me, na sua burrita, muito lépida, com os seus noventa e três. 

Costa da Caparica,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Teve sempre boa estrella; até na sua visita a minha casa o azar apenas lhe deu um rebate falso. Quando voltava para a Costa perdeu um objecto de certo valor, creio que um brinco, que mão piedosa achou e foi logo anunciar no Século.

Caparica, convento de Santo António,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Depois de devorarmos o jantar e pelos barqueiros mandar aviso aos nossos, sol alto ainda, sahimos até à praia. Era véspera de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa annual da terra. 

Os habitantes é que estavam descoroçoados e tristes; a sardinha, a famosa sardinha da salga, não tinha dado nada ou quase nada. Mais uns dias de escassez e lá se iam as esperanças... o pão por muito tempo! 

Mar calmo. Na crista dos médãos, homens, mulheres, rapazes, mudos, immoveis, olhos cravados na companha, que lá muito ao largo vinha regressando. 

De manhã os alcatrazes [gansos-patola], de aza fechada, cahindo do alto como raios, picavam a flor das águas, indício de  grandes negras de sardinha. Pelo cariz do tempo, o lanço devia de ter sido grande. Chegaria a salvamento ou rebentaria o sacco?!

Silêncio profundo nos de mar e nos de terra. O silêncio é signal certo de grande preoccupação de espírito nos moradores de povoações marítimas, tão vivos e loquazes.

Ao rés do mar grandes grupos moviam-se visivelmente inquietos. Com o sol, que já no ponente batia o areal, aquelas figuras pareciam tomar proporções gigantescas, cingidas de nimbos de oiro. 

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, as montanhas, o mar, as soberbas e solemnes paizagens, em vez de apoucarem o homem, engrandecem-no. 

Numa linha de fortificações ondulada de montes e crespa de píncaros, antes de romper o assalto, os ajudantes-de-ordens, cruzando-se na carreira, a dois exércitos podem afigurar-se hipogrifos phantasiados pela veia fecunda de Boiardo ou de Ariosto [in Orlando Innamorato e Orlando Furioso resp.].

A paizagem parece dar e receber, às vezes, commoções trágicas. O facto é que exerce nos espíritos acção profunda, embora ignota. Uma tempestade, nas serranias ou no oceano, improvisa heroes, como os relâmpagos das espadas e o trovão das baterias no campo da batalha.

À beira de água principiou a correr um torvelinho, levantando pyramides de areia. De repente uma lufada súbita correu violenta.

Os prodromos do furacão têm rugidos dolorosos como os do leão na entrada da febre. Daria numa tempestade? Quantos corações ficaram apavorados em tal momento!

Os barcos aproximaram-se de terra. A multidão silenciosa. A vaga alta como de mar movido ao longe, embora não arrebatada. Num ai tudo salvo ou tudo perdido!

O sacco... a montanha de prata, estava a salvamento na praia. Raros olhos ficariam enxutos vendo rebentar a alegria d'aquelle povo!

Costa da Caparica, Praia do Sol, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, disco de fogo, tocava a superfície das águas, que serenavam, passada a borrasca ephemera, permitindo que olhos humanos se cravassem no seu ocaso esplêndido.

Em breve a linha arenosa e já desmaiada, que segue até o Cabo, a bahia de Cascais, os picos de Cintra, os montes e povoações do norte, o Tejo dormente, desvaneciam-se no breve crepusculo das tardes de inverno.

O pharol do Espichel, girando as suas aspas de fogo intermittentes, parecia abrir sulcos luminosos pelo mar levemente enrugado. 

Bugio e São Julião accendiam-se. As estrellas estremeciam no firmamento límpido. Noite coroada de lumes.

Bugio e Forte de São Julião da Barra.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A aragem era um alento virgínio, e a vaga na praia um suspiro amoroso. As redes voltaram ao mar. A companha bradou a uma voz:

Bulhão Pato,
Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

— Avé, Maria puríssima! (2)



(1) Teixeira Judice, Antonio Arroyo, Notas sobre Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1894


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O Juncal

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Romãosinho

Quando uma pessoa vae pela primeira vez a Cacilhas, no louvavel e innocente proposito de subir a encosta do Ginjal, para do alto do Castello de Almada se extasiar na contemplação do soberbo panorama da cidade, talvez o mais bello do mundo, fica surprehendida e atordoada no meio de uma horda e selvagens indigenas que a agarram ao desembarcar e não deixam dar um passo sem pagar o pesado tributo de ser transportada.

Panorama de Lisboa visto do Tejo, ed. Costa, 465, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Esses selvagens dividem-se em duas tribus, a dos cocheiros e a dos burriqueiros. A primeira aspira simplesmente a desconjunctar-nos os ossos, dentro d'umas caixas immundas a que da o nome de trens; a outra contenta-se em nos bifurcar n'uma enxerga enorme, debaixo da qual apparece a cabeça melancolica d`um burro paciente e resignado; e n'essa posição ridicula e em passo cadenciado passeiar-nos pelas ruas da villa no meio das chufas e dichotes dos seus naturaes.

Trem, veículo de tração animal.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Longe porem d'essa turba assustadora, que nos aperta, acotovella, ensurdece e esfarrapa, ve-se um homem alto e magro, figura robusta e valida, os olhos encovados, a côr terrena e palida; os cabelos crespos; a boca negra, os dentes amarellos, como a miniatura do inconsolavel Adamastor, ou como uma personagem transportada para a vida real, d'uma das telas sublimes de Goya.

É o Romãosinho.

E o aspecto d'aquelle todo que desagradavelmente nos impressiona á primeira vista, sem pretenções a homem, sem correcção de postura, sem vislumbres de alegria, sem ambição de adquirir e sem receio de perder, traduz as estancias dolorosas e sentidas que dilaceraram aquella alma candida e pura, quando o tufão da desgraça lhe apagou a estrella luminosa que o guiava na vida sonhadora da sua mocidade.

Aquella barba incorrecta. aquelle olhar abstracto. como quem procura o que já não póde achar, aquella expressão fria e desdenhosa, aquella figura exotica e repellente, aquelle homem, emfim, aspero e rude que afugenta e enffastia, lembra as ruinas amarellecidas e abandonadas d'um formoso edificio que d'antes tivesse abrigado a alma inspirada d'um poeta, ouvindo-o contar os magicos encantos das rubras alvoradas, os longos desmaios  dos crepusculos nas tardes amenas do estio e as indefinidas tristezas das noites frias e luminosas. em que as aves caladas se aconchegam nos ninhos e a lua se revê nas aguas azuladas d'um lago transparente e calmo.

Pobre Romãosinho

De tantos que por ahi passam, poucos ha que fossem capazes e sentir os echos tristes d'esse amoroso coração na hora angustiosa da sua desventura indefinida.

E, se acaso alguem lhes contar a causa da tua desalentada magua, responderão com um sorriso imbecil e desdenhoso por esse grande sentimento do amor que tu possuiste e que elles não comprehendem, porque Deus não o concede aos infimos grilhetas da materia.

E como é simples a historia d'este paria! E como se conta em duas palavras um longo drama de angustias!

Fora de pequeno creado no mar. Aos vinte annos era dos trabalhadores mais estimados e respeitados do sitio.

Pharol de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 3, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Vestia com um primor e graça pouco usado então na sua classe, e aos domingos nenhum dos seus collegas, assistia com mais donaire á missa parochial, nem passeava depois pelas ruas, attrahindo com e e os olhares sofregos das raparigas d'aguelle tempo, por quem parecia ter uma grande indifferença.

Amava o mar, seu mestre na lucta, e a canóa, a melhor garantia da sua independencia.

Cacilhas, Caes e Pharol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Mas um dia viu descer até elle o olhar meigo e acariciador d'uma formosa mulher que lhe offerecia com os labios sensuaes e sequiosos de beijos os delicados perfumes das flores de laranjeira da sua corôa de noivado, e um rinho futuro de sonhos voluptuosos, de francas alegrias sinceras, de ineffaveis encantos dulcíssimos, de tudo emfim que constitue a felicidade suprema na vida.

E na doce contemplação d'esse formosíssimo vulto elle sentia o seu espirito inundado de toda a santa poeira do ceu.

E o seu braço forte de athleta invencível, e a sua alma generosa embalada desde a infancia pelas infinitas harmonias do mar, uniram-se para dar áquella adorada creatura todo o bem estar e felicidade de que se achava digna. E ella em paga murmurava-lhe ao ouvido com a sua voz enamorada umas phrases tão meigas que lhe fortaleciam o espirito e alegravam o coração.

Pouco durou esse amoroso idyllio.

The Laughing Woman.
Imagem: Skagway Stories
Essa adorada mulher que elle tinha engrinaldado com as mais delicadas flores da santa poesia da sua alma, desappareceu-lhe um día. inesperadamente... como viera... qual branca visão d'uma ballada de Ossian!...

O que se passou então n'aquelle coração dilacerado, não ha palavra humana que o exprima. Elle proprio não o soube contar; d'aquelles labios contrahidos nunca sahiu uma queixa... d'aquelles olhos abstractos nunca rolou uma lagrima.

O mundo passou a ser para elle um arido deserto, onde se sentia morrer á mingua d'uma consolação e d'uma esperança.

O mar,  o seu velho amigo, a quem d'antes contava os segredos íntimos se sua alma, radiante de felicidade, ao percorrer-lhe o dorso dourado pelas tremulas scintillações do sol; a aragem que lhe enfunava o latino branco de seu barco, os amigos íntimos que encontrava, os perfumes dos campos por onde vagueava dias inteiros, os murmurios das aguas, os cantos das aves, a felicidade dos ninhos, o sussurro do vento, os echos sonoros das grandes solidões, as emanações balsamicas das flôres que se misturam na athmosphera, tudo emfim que a natureza nos offerece nas alegres palpitações da vida, tudo lhe trazia á memoria essa divina imagem de que jámais se podia esquecer.

Ás vezes entrava no templo, e os cirios fulgorantes dos altares, e os canticos tristes das cerimonias e as preces cadenciadas que sobem ao ceo entre nuvens de incenso, e toda aquella uncção religiosa, combinava-se já tão pouco com a sua descrença atroz, que sentia o coração estalar mais, fibra a fibra, como as cordas metallicas d'um salterio em tristes vibrações harmoniosas.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto (detalhe), ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Um dia bebeu, e o vinho fel o perder por alguns momentos a consciencia da sua desgraça.

Desde então nunca mais deixou de pedir a esse liquido que alegra e entristece. que inspira e desvaira, que arrebata e narcotiza, o lenitivo supremo d'uns minutos de inconsciente alegria, prologo de horas beneficas de descuidado e profundo adormecimento.

E assim se vae finando dia a dia, n'um suicidio lento, esse grande desgraçado. Como eu te comprehendo bem, meu pobre Romãosinho!

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Tu és uma bella estrophe realista do eterno poema da desgraça e do amor. (1)


(1) Ferreira, Libanio Baptista, O Occidente, n° 562, 1894

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Música velha, música nova

Em 1846, reinava ainda D. Maria II, havia na vila de Almada, num pátio chamado da Boca de Vento, uma sociedade musical conhecida pela dos Cabralistas.

Pátio do Prior, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Corriam os tempos impetuosos para a politica em que Cabral governava absoluto e tirânico e os partidos monárquicos agitavam-se convulsionados.

Saldanha, que era contrário à politica daquele João Franco doutras eras, fora a Almada, afim de preparar com os seus amigos e influentes, uma manifestação popular, em harmonia com as suas ideias e princípios.

Agitaram-se as multidões, houve quase lutas com os partidos oposicionistas, quando alguém se lembrou de ir com os seus partidos pedir a Cabralista para acompanhar a manifestacão.

Esta, obedecendo à politica interna dos seus influentes, negou-se, mas à noite, como se visse coagida por outros elementos, apareceu a tocar na antiga praça ou largo de Almada, hoje praca de Camões.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Assim que começou tocando, houve grande tumulto, choveram as pedras sobre os executantes, e a música teve de fugir, acabando os sócios com a Cabralista, pouco depois, para evitar novos dissabores.

Dois anos se passaram e, em princípios, de 1848, diversos rapazes principiaram a falar em fundar uma sociedade musical, mas lutavam com falta de dinheiro. Compraram uma cautela de sociedade, saiu com o mesmo dinheiro e com este compraram outra que saiu branca. Começaram então a cotizar-se semanalmente e foram fazendo o pé de meia, até que em 1 de Outubro, inauguraram uma sociedade musical. Faltava o titulo e uma vez, em converse, um dos assistentes mais cepticos disse:
— Uma sociedade em Almada?! Não vai avante!... Era uma coisa incrível!....
— Pois há-de ser esse o titulo — respondeu um dos seus fundadores. Fica sendo a Incrivel Almadense!

Sociedade Filarmónica Incrível Almadense.
Imagem: Restos de Colecção

E com este nome ficou até o presente. Foi seu primeiro regente o mestre da banda de Caçadores 5, sr. Pavia, que criando amor a sociedade, em pouco tempo a tomou florescente. Os partidários e influentes politicos da terra, como quisessem servir-se dela para fins eleiçoeiros, e como fossem banidos, porque a politica tinha sido posta de parte desde a sua fundação, reuniram-se e deliberaram formar em Cacilhas uma outra sociedade, o que fizeram, intimando os seus operários a deixarem a Incrível, sob pena de despedimento das suas oficinas e obrigando-os a entrarem na Cacilheira.

Foi um golpe quase de morte para a Incrível. Ficaram apenas com 11 sócios, sendo 7 da música e 4 contribuintes...

Quando todos esperavam vê-la morrer, aparece, mesmo doente, o mestre Pavia que enche os lugares vagos de rapazes, ensina-lhes música, ensaia-os, e, num domingo de Ramos, quando na procissão devia aparecer pela primeira vez em público a banda Cacilheira, aparece de repente a Incrível, com fardamenfos novos comprados a expensas do seu mestre, tocando e desafiando, com mocidade e amor próprio dos executantes, os transfugas que a queriam aniquilar. Mas para chegar a esse ponto o que não custou!... Havia da parte desses 7 homens, que se tinham mantido fiéis, abnegação de não arriar a bandeira da Incrível; e, para iludir a toda a gente, davam ensaios à noite, tocando instrumentos diversos, fazendo barulho, enquanto os rapazes não sabiam solfejar!...

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

E venceram. Até que um dia, a Sociedade dos ricos, a de Cacilhas, morreu pela falta de capricho, pois que só fora fundada com intuitos malévolos. Os músicos e sócios que então a tinham abandonado, forçados pela ameaça, tornaram a entrar novamente na sua Incrível, mas desta vez para sempre com firmeza e dignidade.

Vinte e dois anos depois, uma nova cisão se dá na banda. Saem sócios executantes também e funda-se em Almada, desses elementos dissidentes, a Academia Instrução e Recreio Familiar Almadense, que actualmente conta 30 anos de existência.

E nesta data que a Incrível começa a ser apelidada pela Sociedade Velha, enquanto que a Academia é conhecida pela Sociedade Nova. (1)

[...] por volta de 1894 (tinha José Maria de Oliveira 41 anos de idade), um conflito que originou uma cisão entre os associados da Incrível Almadense. Mas explica-se porquê:

José Maria de Oliveira (1853 - 1898).
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

O nosso biografado e outros incríveis opinavam pela obtenção de um novo edifício para sede social da colectividade. As instalações utilizadas há anos eram exíguas para novos e urgentes empreendimentos. Havia um prédio que interessava. Mas esse edifício era igualmente disputado pela direcção da Cooperativa Almadense (esta fundada em 1891). E quando José Maria de Oliveira. que tinha o prédio apalavrado com o proprietário em nome da Incrível, se dirigiu com o dinheiro para efectuar a transacção, verificou que o edifício pertencia já à Cooperativa, constituida, na sua maioria, por associados da Incrível...

Após a tradicional procissão da Senhora do Bom-Sucesso, em Cacilhas. a 1 de Novembro de 1894, José Maria de Oliveira e outros associados da velha colectividade, uma vez cumpridos todos os compromissos assumidos perante a banda musical, abandonaram a Incrível.

Daqui resultou a fundação da Academia de Instrução e Recreio Familiar AImadense. Assim, a 27 de Março do ano seguinte (cinco meses depois), nascia em Almada uma nova e importante colectividade [...]

Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense.
Imagem: A.I.R.F.A.

Quando a banda da Academia saiu pela primeira vez [22 de março de 1896] e foi cumprimentar a congénere mais velha encontrou todas as janelas e portas cerradas.

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

Edifício sede da Incrível Almadense — Sede da colectividade situada na avenida Gomes Neto (actual av. Heliodoro Salgado), fazia esquina com a actual rua Carvalho Serra,  em 1898.

Edifício sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Castanheira, Alexandre, Romeu Correia, Memória Viva de Almada

Este corte de relações iria durar 53 anos. A reconciliação das duas colectividades teve lugar no dia 1 de Outubro de 1948, ano do Centenário da Incrível. (2)

Almada, Edifício do Cine Teatro Incrível Almadense, Mário Novais,1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A aula de mestre Damião era um cubículo da velha Incrível, lugar dos armários do arquivo da Banda, anexo ao bulhento gabinete da Direcção. As terças e sábados. o septuagenario subia a escada no seu passo alquebrado, estacionando no primeiro patamar, a renovar fôlego para trepar os restantes degraus. Raramente faltava. E, quando o rapazio pressentia que passavam alguns minutos da hora marcada, repetia logo: "O velhadas está pior da quebradura!".

Banda da Incrível Almadense com o maestro Manuel da Silva Dionísio, nas comemorações do 100º aniversário, em 1948.
Imagem: Restos de Colecção

Era magro, afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. O banco de carpinteiro servia muitas vezes de mesa de cozinha, de refeitório, de cabide para roupas — e era lá que lia também o jornal e tratava da gaiola do pássaro. Vivia rodeado de recordações: fotografias e programas encaixilhados, suspensos das paredes-relíquias amarelecidas. Enviuvara há muito. Filhos, perdera-os tambem na voragem do tempo. Restava a sua arte, a menina dos seus olhos, a paixão de uma vida toda: a Música.

A ela dedicara o melhor do seu entusiasmo, todo o seu vigor. A Incrível tinha-o desde catraio. Quase medrara sob os seus tectos. Seu pai, executante da Banda, logo o metera ao solfejo, antes de as suas maos manobrarem a plaina e o formão. Durante largos anos, cumpriu a tradição da familia. Foi contramestre, director da Banda, e ocupou numerosos cargos no quadro directivo da colectividade. Mas, mais do que tudo isto um motivo havia que o tornara venerávei no meio associativo: ser o único sobrevivente da famigerada cisão — a rixa que originara a fundação da Outra. Damião fora dos teimosos, dos poucos do finca-pé ao Zé Maria d'Oliveira e quejandos. Dias heroicos, inesquecíveis!

Desfalcada, sem recursos, a colectividade estivera prestes a soçobrar. Meses de comédia, de vida artificial— mesmo depois de a Academia surgir pelas ruas, com pessoal fardado e a tocar. Debelada a crise, regressados alguns desavindos, novos candidatos preencheram a proposta... E a vida associativa serenou.

Morreram companheiros, amigos, discípulos. Melhoraram-se instalações, ampliaram-se beneficios — caprichando-se sempre por fazer mais do que na Outra. Grupo cénico, escola de músisa, orfeão, concertos, arraiais, passeios terrestres e marítimos — assinalavam actividades memoráveis. O cunho familiar predominava no espirito de associação. E, embora as relações entre as rivais fossem tensas, o movimento associativo criava ramificações por toda a vila. Recreio, cooperativismo, socorros mútuos, humanitariamo, desporto — borbotaram a cada necessidade da grei.

Envelhecido. pálida sombra do que fora, Damião entregara o instrumento e a farda, incapaz de aguentar o andamento de uma marcha. Caducara, é certo, mas jamais abandonaria a menina dos seus olhos... Os seus ensinamentos, a sua paciência, seriam preciosos para a gente nova. Enquanto as secas pernas lhe permitissem sair de casa para vir aturar os rapazes, a sua contribuição não cessaria. E, naquela noite, subiu a escada com muito esforço; fez paragens, resfolegou, mas ainda entrou a horas:
— Boa noite.
Os aprendizes vieram da sala de Jogos e corresponderam a saudação:

José Carlos Lírio (1870 - 1954), o mestre Damião em Os Tanoeiros de Romeu Correia.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

— Boa noite, mestre Damião! (3)


(1) Francisco José da Silva (1884 - 1949) citado em Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(3) Correia, Romeu, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Decauville Cacilhas Lazareto em 1894

Foi pedida pelo sr. Garland a concessão de uma linha ferrea de via reduzida, 60 centimetros, systema Decauville, entre Cacilhas e Lazaretto,

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

com uma estação na Piedade e paragens nos pontos de cruzamento de localidades intermédias, como Caramujo, Mutela etc.

A construção entre Cacilhas e Piedade, 3 kilometros, começará assim que o projecto seja aprovado.

Aqui está uma linha que promette ter um bello rendimento. (1)

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

[Paragens propostas:] largo Costa Pinto [actual Largo Alfredo Diniz], rua Direita [actual rua Cândido dos Reis], rua da Oliveira [actual rua Cmdt. António Feio],

Vila Brandão, azinhaga da Margueira, actual rua Liberato Teles, Hélio Quartim, 1976
Imagem: Museu da Cidade de Almada

estrada de Mutela [actuais ruas D. Sancho I e Manuel Febrero],

Rua Manuel Febrero, largo da Mutela (designação não oficial)
Imagem: ed. desc.


Tramway Decauville de Royan
Imagem: Delcampe

largo da Piedade [largo 5 de Outubro], rua do Tenente Valadim,

Cova da Piedade, Largo 5 de Outubro e rua Tenente Valadim
Imagem: ed. desc.

rua da Romeira [rua Francisco Ferrer],

As cheias na Cova da Piedade, rua Francisco Ferrer, 1945
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

e largo da Romeira. (2)

Romeira, Lavadeiras no Rio das Rãs, início do século XX
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

O caminho de ferro Decauville foi uma das atracções da Exposição Universal de Paris em 1889.

O percurso, aqui feito, do Largo de Cacilhas ao Largo da Romeira, passou por locais cuja toponímia foi mudando ao longo do tempo.

O comboio de 1894, nunca chegou ao Lazareto. Nem à Piedade, nem a lado algum.

Em 1960, sessenta e seis anos depois, o sistema Decauville destinado ao transporte de passageiros reaparecia no concelho com a inauguração do Transpraia, na Costa da Caparica.


(1)
Pedido de concessão de linha, Gazeta dos Caminhos de Ferro, 16 de Agosto de 1894
Imagem: Hemeroteca Digital

(2) Pereira, Hugo José Silveira da Silva, A política ferroviária nacional, anexo 26, Porto, Faculdade de Letras, 2012