Mostrar mensagens com a etiqueta Porto Brandão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Porto Brandão. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Barca Isabel

Impedidos por negocios de momento, não podemos corresponder ao obsequioso convite do Sr. José Antonio Pereira Serzedello, distincto e mui estimado negociante desta praça, proprietario da barca Isabel, que da praia de Porto-Brandão, onde acabava de ser construido, devia correr para as aguas do Téjo no Domingo passado, 8 deste mez.

Barca Isabel, 1851.
"Janêllos" da História: Os Serzedello

Não presenceámos, portanto, o luzido espectaculo, a numerosa concorrencia, que appresentou nesse dia aquella parte da margem do sul do rio , e de que fizeram individuada relação alguns jornaes da capital, como a Lei e a Nação.

Constou-nos que não faltára coisa alguma ao esplendido da funcção, realçada pela afabilidade do proprietario do navio, que fez servir uma copiosa e variada collação aos seus amigos e convidados , não obstante o desgosto causado pela suspensão da barca na carreira, contra toda a expectativa.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Museu de Lisboa

Oxalá que fosse este o unico dissabor! Porém, somos informados de que no dia immediato, tentando-se dar impulso ao navio por meio da força braçal, rebentou o aparelho, ficando tão maltratados quatro homens, que ainda se acham em perigo de vida.

Porto Brandão, à esquerda do Tejo.
Ateneu Livros

O Sr. Serzedello sentiu-se tão commovido, que perdeu os sentidos, mas, tanto elle, como pessoas de sua familia, desveladamente se empenharam em prestar os auxilios ao seu alcance neste desastroso successo.

Barca [Brigue] Viajante (João Pedroso, atrib.).
Invaluable

Por conta do Sr. Serzedello se está construindo, no mesmo local de Porto-Brandão, um brigue, que será denominado Viajante. (1)


(1) Revista Universal Lisbonense, 12 de setembro de 1850

Artigos relacionados:
A casa da Quinta da Oliveira
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

sábado, 12 de agosto de 2017

Lisboa vista do Porto Brandão por James Holland

James Holland (1800-1870), pintor de aguarelas, nasceu em Burslem em 17 de outubro de 1800 onde o seu pai, e outros membros da família, trabalhavam na fábrica de cerâmica de William Davenport. 

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em idade precoce trabalhou em pintura de flores de cerâmica e porcelana, tendo partido para Londres, em 1819, para praticar pintura de flores e frequentar aulas de desenho de paisagem, arquitetura e temas marinhos. 

Lisbon from Porto Brandão, James Holland, 1845 1838 ou 1847.
[v. art authority]
Imagem: Art UK (ex BBC Your Paintings)

Expôs pela primeira vez na Royal Academy em 1824, e em 1830 visitou a França e fez estudos sobre a arquitetura desse país. Em 1823,exibiu uma imagem de "Londres vista de Blackheath". Em 1835, tornou-se expositor associado da (agora Royal) Society of Painters in Water-colours, mas deixou essa sociedade em 1843 e juntou-se à (agora Royal) Society of British Artists, na qual permaneceu membro até 1848. 

Regressou à Society of Painters in Water-colours em 1856 e foi eleito membro de pleno direito dois anos depois. Trabalhou muito em desenho para anuários ilustrados [The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839]  e, nesse propósito, visitou Veneza, Milão, Genebra e Paris em 1836 e Portugal em 1838 [1837, chegou em julho e partiu no outono desse mesmo ano, cf. Walker Art Gallery].

Vista do Porto tomada do Convento da Serra do Pilar em Gaia, James Holland, 1838.
[incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Palácio do Correio Velho

Em 1839 expôs na Royal Academy uma bela pintura de Lisboa.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Em 1845, foi para Roterdão, em 1850, para Normandia e Norte do País de Gales, em 1851 novamente para Genebra e, em 1857, novamente para Veneza.

No South Kensington Museum [Victoria & Albert Museum] há uma série de esboços em Portugal datados de 1847, dos quais parece que ele visitou o país pela segunda vez. 

Lisboa, Parte do Tesouro Velho; James Holland, 1837.
Imagem: Victoria & Albert Museum

Ao longo da vida, exibiu, além de suas contribuições para a Water-colours Society, trinta e duas imagens na Royal Academy, noventa e uma na British Institution, e cento e oito na Society of British Artists. 

Ruínas do Convento de S. Francisco, James Holland, 1837.
Imagem: Peppiatt Fine Art

Embora geralmente classificado como um pintor de aguarelas, era igualmente hábil na pintura a  óleo. Foi um dos melhores coloristas da Escola Inglesa, e as suas imagens, especialmente as de Veneza, embora negligenciadas durante a sua vida, são agora ansiosamente procuradas e obtêm avultados preços. 

Uma vista de Coimbra, James Holland, 1837 ou 1838.
 [incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Christie's

Parece ter deixado de exibir em 1857. Morreu em 12 de dezembro de 1870. 

No Greenwich Hospital, há uma pintura sua de Greenwich, e no South Kensington Museum estão duas pequenas imagens a óleo e algumas aguarelas, mas não existe um bom exemplo do seu trabalho nas coleções nacionais [britânicas]. (1)


(1) Wikisource cf. Redgrave's Dict.; Bryan's Dict. (Graves); Graves's Dict...

Mais informação:
Victoria & Albert Museum
Art UK (ex BBC Your Paintings)

James Holland na Biblioteca Nacional de Portugal

Leitura relacionada:
W. H. Harrison, The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Procissão

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia — que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1929.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o sol-e-dó.
Quando o regente lhe acena co'o braço,
Logo o trombone faz pó-pó-pó-pó.

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Olha os bombeiros, tão bem alinhados
Que se houver fogo, vai tudo num fole!
Trazem ao ombro, luzentes machados
E os capacetes a rebrilhar ao sol.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, vista tomada do antigo quartel para o rio.
Imagem: Mário Feio

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes, nas opas vermelhas!
Ninguém supunha que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Costa da Caparica, procissão com a imagem do Menino Jesus do Sarrico ou da Praia, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que sobem ao Céu!

Costa da Caparica, procissão do Senhor dos Passos, década de 1940.
Imagem: Sandra Barros Simões

Com o calor, o Prior vai aflito
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

O padre Baltasar pregando à multidão na praia da Costa da Caparica, 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia  que Deus a proteja!
Já passou a procissão. (1)



(1) Antóno lopes Ribeiro, A Procissão ou Festa na Aldeia

terça-feira, 12 de abril de 2016

Indústria química

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica. 

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (1)

Fábrica de Química Aplicada às Artes
Propriedade: Agostinho Joaquim Ferreira
Produtos: Cremor tártaro; tártaros vermelho e branco
Local: Porto Brandão
Referências: Estatística Industrial de 1852

Planta de uma instalação química em Portugal no início da segunda metade do século XIX. A planta pertence ao processo preliminar de licença de conservação de uma fábrica de produtos químicos situada no Porto Brandão, concelho de Almada, pedida por Agostinho Joaquim Ferreira, em 24 de Abril de 1857.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.

Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

No topo da imagem, o 1.º piso, parte reservada à habitação; no piso térreo, destinado à fábrica, destacam-se ao centro os espaços dos fornos, circundados inferiormente pelas áreas de fabricação, armazenagem e cais.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.
Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Fábrica de Química Aplicada às Artes produzia o cremor tártaro ou bitartarato de potássio, um produto utilizado na medicina e na tinturaria. (2)

Fábrica de dinamite da Trafaria
Propriedade: ... privilégio de Alfred Nobel
Produtos: Dinamite
Local: Trafaria
Referências: O Economista

Fábrica de dinamite na Trafaria, anúncio do Diário Illustrado, 1888.
Imagem: Biblioteca nacional de Portugal

Fábrica de guano artificial no forte da Trafaria
Propriedade: Jorge Croft & C.ª
Produtos: Guano químico; ácido sulfúrico
Local: Trafaria
Referências: MR - PPL, 1857

Fábrica de produtos químicos
Propriedade: Júlio César de Andrade & C.ª
Produtos: Essência de terebentina; breu e resina hidratada
Local: Almada
Referências: Exposição Internacional do Porto de 1865 (3)

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática..., Universidade de Évora, 2016
(2) Idem
(2) Idem, ibidem

Informação adicional:
Revista Universal Lisbonense, A Indústria Nacional e a Exposição de 1849

Artigo relacionado:
O laboratório químico da Margueira

terça-feira, 9 de junho de 2015

Planos inclinados de 1865

Esta verdadeira doca de querenagem está optimamente estabelecida ao sul do Tejo, no sitio de Porto Brandão.

Plano inclinado, Porto Brandão, 1865, "... na occasião em que um navio subia o plano, alado a vapor."
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi construida pelo bem conhecido engenheiro hydraulico Thomaz [sic, i. e. Thomas] White [projecto de lei n.º 34/XIII/2.ª].

É para dois planos inclinados; um capaz de receber navios de 3:000 toneladas; e outro para embarcações de 700. Este está concluído; e d'elle tem saído já alguns navios concertados. 

O sr. Almada [António José de Sousa e] foi o principal emprezario; e, á custa de muitas fadigas e sacrificios, conserguiu pôr em exploração o segundo plano. Para restabellecer o primeiro, destinado a navios de maior lote, e assentar outro na cidude do Porto, vae formar uma companhia do capital 500:000$000 réis, en 5:000 acções de 100:000$000 réis, vencendo o juro de 6 por cento durante a construcção dos planos.

É empreza de lucros seguros e avultados. O successivo incremento do commercio externo em ambas as cidades, que de anno para anmo accusa o rendimento das alfandegas, e a exportação dos nossos productos agrícolas, facilitada pelos camunhos de ferro, abonam já o futuro da nova companhia dos planos inclinados.

E sobre tudo, o porto de Lisboa, verdadeiro emporio marítimo da Europa, pela sua situação geographica, consegue o que lhe faltava para bem merecer o titulo que tanto o afama desde as nossas gloriosas navegações. (1)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1865, n° 33, pág. 257

sábado, 11 de abril de 2015

Nossa Senhora do Cabo

Nossa Senhora do Cabo (do Espichel) — famoso santuário da Extremadora, ao S. do Tejo, na freguesia de Santa Maria do Castello da villa e concelho de Cezimbra, commarca d'Almada.

Sesimbra, Cabo Espichel, vista aérea.
Imagem: Delcampe

Fica o templo, no Cabo do Espichel, a que os romanos chamavam Promontório Barbarico [...]

Sobre um rochedo do Cabo, se vé uma ermidinha, denominada Miradouro, que, segundo a lenda, memora o sitio onde appareceu a Senhora, por isso, chamada do Cabo.

Outros, porem, affirmam que a Senhora foi achada na praia, inferior ao dito rochedo, e que apparecéra sobre uma jumentínha, que subira pela rocha, deixando n'ella impressos os vestígios das suas pegadas — que o tempo fez desapparecer, mas que os mordomos da Senhora fizeram de novo gravar. 

Chegando a este sitio vem com admiracao sobir a Sra pela rocha,
painel de azulejos do interior da Ermida da Memória.
Imagem: O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar e o modo de os dar-a-ver

Diz-se que uns velhos de Caparíca, que vinham a estes sitios cortar lenha, foram os primeiros que acharam a santa imagem da Virgem, e por isso, foi o povo de Caparica o primeiro que festejou a Senhora do Cabo, hindo todos os annos com o seu cirio, em Romaria á Senhora, no primeiro domingo de maio.

A fama dos milagres obrados pela Senhora do Cabo, em breve se propagou por estas redondezas e as offértas e esmolas, foram em tanta quantidade, que, próximo á ermidinha (edicola) primitiva, se construiu o sumptuoso templo que hoje alli admiram.

Não se destruiu a ermidinha, e juncto a ella foi construida (1671) uma fortaleza, para proteger os povos d'estes sítios, das invasões inopinadas dos castelhanos, sendo regente, o infante D. Pedro, depois rei, D. Pedro II, do nome.

Ignora-se o anno em que a Senhora appareceu, só se sabe que foi no principio do reinado de D. João I.

Em 18 de novembro de 1428, Diogo Mendes de Vasconcellos, senhor do terreno em que estavam as ermidas da Senhora, fez disto doação aos frades dominicos de Bemfica, por escriptura publica, lavrada nas notas de Affonso Martins, tabellião publico da villa de Cezimbra.

Era o doador, cavalleiro e commendador de Coimbra e Ourique.

N'esta escriptura se dá ao sitio da ermida, a denominação de "Santa Maria da Pedra de Múa" [...]

A imagem da Senhora do Cabo (a que appareceu no século XIV) é de bôa esculptura, mas tem apenas um palmo d'altura, e está em uma ambula de crystal dentro de um sacrário.

Imagem de N. Sr.a da Pedra Mua.

São muitos os cirios que de varias partes concorrem ao santuário da Senhora do Cabo.

Os giros principiaram em 1430. Os de Caparica, vão todos os annos festejar a Senhora, no primeiro domingo de maio.

À memória do amigo , José Alves Martins (Papo-Seco), o organizador do último "Círio" que saiu da Costa de Caparica para o Cabo Espichel [...]

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: Costa da Caparica no Facebook

O "Círio" tinha muita grandiosidade, e chegou a ter como juiz monarcas, e quando desembarcava em Porto Brandão ou Banática, as populações acorriam a receber os visitantes com
foguetes e música enquanto os sinos repicavam.

À frente, homens cavalgando, cavalos brancos, e vestidos com trajes romanos que anos depois. passou a ser três garotos que cantavam as "loas" (quadras alusivas ao acto) acompanhados pela música. 

Atrás do carro com os filarmónicos a seguir a berlinda (que se encontra no Museu dos Coches em Lisboa) com
a Imagem. acompanhada por carros de todo o feitio e tamanho, repletos de pessoas. e grande cavalgada com que fechava o cortejo.

O Círio de Nazaré em Belém do Pará, revista Puraqué, 1878.
Imagem: Biblioteca do Círio

Era assim, antigamente, o "Círio do Cabo", e a propósito dele, o britânico Beckford, descrevia o regresso do Marquês de Marialva, no "Cirio" em 3 de Junho de 1787, dizendo cheio de pasmo: "Vinham acompanhados o Marquez de Marialva e o filho D. josé duma multidão de músicos, poetas, toureiros, lacaios, macacos, anões e crianças de ambos os sexos fantasiosamente vestidas".

O inglês que nunca tinha visto um espectáculo daquela grandeza dizia ainda que os criados conduziam gaiolas com pássaros, lanternas, cabazes com frutos e grinaldas de flores.

Seguiam alegres e saltando com grande alegria dos garotos. os quais com as suas vestes, mais pareciam habitantes do Céu do que da Terra, levando casinhas presas aos ombros.

Diz ainda o escritor: "Alguns destes "anjinhos" de teatro eram extremamente formosos e tinham o cabelo garridamente disposto em anéis".

Todo este cortejo quando vinha da margem norte desembarcava em Porto Brandão ou Banática como iá dissemos anteriormente era na capela do lugar que ouviam a primeira missa.

No concelho de Almada, só a freguesia de Caparica fazia o Círio, mas sem a imagem.

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: ed. desc.

Mas o cortejo tinha o mesmo aparato dos de Lisboa, e contavam os velhos, que num círio, do Porto Brandão, num ano saiu, um barco catraio dos que faziam as carreiras entre Belém - Porto Brandão, em cima de uma galera puxada por seis animais, levando dentro a fílarmónica da Sociedade Marítima da localidade. (4)

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

in Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Alem dos cirios comprehendídos no giro vão todos os annos mais os seguintes, que não entram no giro — Lisboa, no 3.° domingo depois do Espirito Santo — Seixal e Arrentella, na 2.a oitava do Espirito Santo — Almada, no domingo da Trindade — Palmella, a 15 d'agosto — Azeitão e Cezimbra, no 1° domingo de setembro. 

Ao principio todas as romarias eram annuaes, e cada uma tinha uma grande tocha (cirio) que accendla durante a sua festa.

É por isso que a estas romarias se dá o nome de cirios.

São 26 os cirios que entram no giro: — Alcabideche, Carnaxide, Tojalinho, Penaferrim, Bellas, Loures, Carníde, Barcarena, Louza, Santo Antão do Tojal, Oeiras, Bemfica, Rana, S. João das Lampas, Monte Lavar, Rio de Mouro, Belém, Cascaes, Odivellas, S. Martinho de Cintra, Almargem do Bispo, Santo Estevam das Gallés, Egreja Nova, Terrugem, Fanhões, e Santa Maria e S. Miguel de Cintra.

Foi instituída a confraria da Senhora do Cabo, pouco depois da construcção do novo templo, mas os seus estatutos só foram approvados em 1672. (Pelo capitulo 2° d'estes estatutos eram excluídos da irmandade o homem que tenha raça de judeu ou de outra infesta nação, e os mulatos. Esta exclusão era imposta em quasi todas as irmandades, até ao fim do século XVIII.)

Também n'este compromisso se determina que, no sabbado posterior á Ascenção, haja na egreja do Cabo, officio de nove lições de canto e orgam, missa cantada e sermão. De tarde procissão e vésperas, e no domingo de manhan, outra procissão, antes da missa.

O capellão da Senhora do Cabo, não pôde intervir nas romarias dos cirios, por lhe ser prohibiáo pelos estatutos.

As freguezias do giro, andam á "compita", a ver qual fará a festa com mais estrondo e magnificência.

Antes de 1710 o arraial estava cercado de casas para abrigo dos romeiros, mas sem ordem nem alinhamento; mas n'esse anno, se deu o risco para o novo arraial, e em 1715, se constrairam hospedarias com dous pavimentos.

O arraial é quadrilongo, com 140 metros de comprido, pelo N., e 100 peio S. com 44 de largo. É aberto pelo E., e fecbado a O. pelo templo. Ao N. e S., estão as hospedarias e mais accommodações, lado com uma arcada geral, onde estão as lojas, podendo chegar-se por baixo d'ella à egreja, ao abrigo do sol e da chuva. Do lado do S. é a residência do capellão.

Do lado do N. ha 63 arcos e 11 escadas de pedra, 21 sobrados, com 46 janellas de frente, e 22 lojas, cada uma com sua janella.

Do lado do S. ha 47 arcos, 9 escadas, 18 sobrados, com 36 janellas, e 18 lojas, cada uma com sua janella.

Cada sobrado e loja, tem uma cosinha, com sua fornalha, uma grande meza, dous bancos e nm cabide.

O senhor d'este terreno (o já referido Diogo Mendes de Vasconcellos) foi o fundador da ermida primitiva, concorrendo para isso o povo de Caparica.


Templo da Senhora do Cabo

Em 1490 se lançou a primeira pedra n'este ediflcio, á custa dos habitantes do termo de Lisboa, e das esmolas e offertas dos fieis. Tendo-o os temporaes damnificado muito, a casa do infantado, padroeira da egreja, desde a extincçâo do ducado d'Aveiro mandou demolir a antiga ermida, e construir o grandioso templo que hoje alli se admira, concluindo-se as obras em 1707. Nos dias 7, 8 e 9 de julho d'este anno, se fez a trasladação com grande pompa, assistindo o infante D. Francisco filho de D. Pedro II, que então era o senhor da casa do infantado. Só nas festas da trasladação, gastou o infante réis 1:660$000.

[Os bens do duque d'Aveiro e seus cumplices, lhes foram tirados, formando-se com elles a casa do infantado, a favor do infante D. Pedro (depois, D. Pedro II) e dos mais Infantes filhos segundos dos nossos reis.]

É um templo magestoso, tendo na frontaria, trez portas e trez janellas que dão luz ao côro. Sobre a cimalha está a estatua da Senhora, feita de mármore branco, dentro de nm formoso nicho.

Tem duas torres, sendo a do N. para o relógio (hoje arruinado.) A do S. tem dous sinos. Á entrada da porta ha um guarda-vento, de bella madeira do Brasil, de boa esculptura. No coro ha am óptimo orgam. As paredes interiores da egreja, são revestidas de mármore branco e preto (extrahido das pedreiras da Arrábida) até à cimalha real.

Tem seis tribanas, e entre ellas, quadros representando scenas da vida da Senhora. O tecto é de abobada, tendo no centro o quadro da Assumpção da Senhora; obra de Lourenço da Canha (pae do famoso José Anastácio da Canha) pintado em 1740. Ao N. (também no tecto) estão pintadas as armas de Portugal, e ao S. as da cidade de Lisboa.

Tem altar-mór, e dez lateraes, sendo estes últimos, feitos á custa de differentes cirios. Em 20 de maio de 1780, houve aqui um desacato. Um monge, natural da Catalunha, roubou a pixide, com as sagradas formas, mas o próprio sacrílego confessou o crime e restituiu a pixide, que foi reposta no seu logar. Em 1770 foi todo o templo restaurado, por ordem de D. José I.


Foi então construida a grande janella da capella mór, fronteira á tribnna real.

As paredes interiores são revestidas de formosos azulejos, e n'elles pintados os emblemas Quasi palma, quasi oliva.

A imagem da Senhora está dentro do sacrário, em um relicário de prata sobre-doirada que foi dado pelo cirio de Lisboa, em 1680.

Tem a Senhora muitas jóias, entre ellas, um ramo de jasmins, de brilhantes, com as folhas de esmeraldas — duas corôas d'ouro, cravejadas de brilhantes: ambas estas jóias, dadas por D. José I. — Tem mais, um ramo de brilhantes e nm manto bordado a ouro, dados por D. Maria I — um manto branco, bordado a ouro, também dado por D. José I — um manto azul, bordado a ouro dado pela rainha D. Carlota Joaquina, mnlber de D. João VI — e, finalmente, um rico manto, dado em 1809, por José Anionio Queiroga e sua mulher. Alem d'estes, outros muitos objectos de muito valor, ainda que inferiores aos mencionados.

Tem o templo duas sachrístias com serventia para a capella-mór, e ambas muito aceiadas.

O templo não preciza de armação, porque os mármores que o revestem, valem mais do que os melhores cortinados.

O throno illumina-se com 60 luzes. Ha dez lustres, de seis luzes cada um: cada altar tem seis castiçaes; e o altar-mór, seis tocheiros — de maneira que nos dias de festa ha duzentas luzes no templo.

A ermida da Memoria, em que já fallei, está próxima e ao N. da egreja. Tem um adro quadrado e o interior da ermida, é lageado de pedra. O tecto é de abobada.

Ermida da Memória.
Imagem: ed. desc.

Em frente da porta, ao E., tem, perto do chão, uma pedra lavrada e apainelada, com esta inscripcão:

CONSTA POR TRADIÇÃO SER ESTE O PROPRIO LUGAR ONDE A MILAGROSA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO CABO APPARECIA, E SE MANIFESTOU AOS VENTUROSOS VELHOS HE CAPARICA E ALCABIDECHE: MOTIVO PORQUE SE FEZ AQUI ESTA ERMIDA, EM QUE PRIMEIUO FOI VENERADA, ATÉ QUE SE TRASLADOU A OUTRA MAIOR, E D'ESTA, Á MAGNIFICA EGREJA EM QUE HOJE EXISTE, NO ANNO DE 1707.

Sobre esta pedra, ha um painel, representando, do alto, sobre nuvens Nossa Senhora com o menino nos braços, e em baixo, os velhos, reclinados, em acção de dormir.

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

A ermidinha é interiormente ornada com dez quadros, em azulejo, representando a historia do apparecimento de Nossa Senhora do Cabo; tendo cada quadro uma inscripção explicativa.

Do adro d'esta ermida se descobre um magnifico panorama, tanto para terra, como para o mar.

No fundo do rochedo, por este lado, ha uma enseada, onde já tem chegado botes e canoas, com romeiros de Oeiras, Paço d'Arcos e outros logares; mas é muito perigosa.

Próximo à ermida, do lado do O. existem, as ruínas do antigo forte da Senhora do Cabo, principiado em 1672, na regência do infante D. Pedro, depois, D. Pedro II. — Foi construído quando se augmenuram as fortificações das barras do Tejo e do Sado.

Tinha as armas de Portugal, sobre o arco da poria, e por cima d'ella, a casa da guarda. Era defendido por cinco peças de calibre 24.

Ainda em 1800 existia este forte, em bom estado, porem, o tempo, o mar, e o abandono o toem arruinado, e apenas d'eile hoje restam as ruinas.

Fora do arraial, e alem das casas que ficam descriptas, ha outras edificações, que são dependências da casa da Senhora — são — a casa do fôrpo — a casa da lenha — a casa da opera (que fui construida pelo cirio de Lisboa); teve nma ordem de camarotes, mas hoje tem uma galeria geral. A caixa é espaçosa. Teve bom cenario e vestuário, mas hoje tudo está gasto e velho.

Na casa da fabrica do cirio saloio, fronteira á sacristia da egreja, ha grandes armários, onde se guardam vários objectos de copa e cosinha, e de serviço da mesa, para serviço do cirio que entra e do que sáe. Há também uma casa para os pregadores e mais padres que concorrem à festa; e um grande armazém onde se guarda a berlinda, e o carro triumphal.

São notáveis, a casa da agua, e o pharol. Antes de subir à casa da água, ha uma alameda, com cinco ruas, orladas d'arvores, e no fim d'ellas, duas mezas de pedra, com assentos em volta, também de pedra. É n'esta alameda que os romeiros passam grande parte do tempo, em banquetes, danças e descantes [...] (1)

Nossa Senhora do Cabo — No cabo de Espichel (Promontório Barbarico).

Sobre a apparição da imagem veja-se o livro: "Memoria da prodigiosa imagem da Senhora do Cabo; descripção dn triumfo com que os Festeiros, e mais Povo de Benfica, a conduzirão à sua Parrochia em 1810, para a festejarem em 1817," etc, por Frei Cláudio da Conceição — Lisboa, na Impressão Regia. Anno 1817.

O templo é uma fabrica magestosa, com trez portas e duas torres. Ao norte, e perto do templo, está a ermida da Memoria, em cujo sitio é tradição que Nossa Senhora appareceu.

A imagem tem o Menino nos braços. O manto foi bordado pela rainha D. Maria I. A ermida doou-a Diogo Mendes de Vasconcellos, em 1428, aos dominicanos de Bemfica que a habitaram e por fim a abandonaram em razão da aspereza do clima.

Depois passou a administração para a camara de Cezimbra, começando então o cyrio do termo de Lisboa, chamado dos saloios. Um dos duques de Aveiro pediu licença para ir casar ali; desde esse tempo ficou a ermida isenta de direitos parochiaes. (2)

A SAíDA DO CYRIO

PRIMEIRO ANJO

Mãe de Deus! Virgem Santíssima!
Rosa Mystica da aurora,
Estrella da madrugada,
Da terra e dos ceus Senhora!

Porto Brandão, capela da Nossa Senhora do Bom Sucesso, inaugurada em 1864.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Da egreja do nosso Monte,
Vamos, piedosos romeiros,
Levar-te ao Cabo, onde guias,
Alta noite, os marinheiros!

Que tu dás, Virgem Maria! —
Entre sorrisos e flores  —
Esperança aos desgraçados,
E perdão aos peccadores!

SEGUNDO ANJO

Um dia, sobre uma cruz,
Beijaste teu filho morto!
Conheces todas as dores,
Para todas tens conforto!

A mãe que vê nos seus braços
Um filhinho moribundo,
Se não se apéga ao teu manto,
Quem lhe ha de valer no mundo?!

Agora, mais do que nunca.
Necessita Portugal,
Que lhe protejas seus filhos,
Padroeira celestial !

Portugal, onde tens sempre
Teus floridos sanctuarios!
Portugal, ameaçado
Pelos herejes corsários!

CORO DOS ANJOS

Romeiros, avante, avante!
Na piedosa romaria.
Levamos por companheira
A Virsem Santa Maria!

Charneca de Caparica, Quinta da Regateira, local de passagem do círio, c. 1900.
Imagem: João Gabriel Isidoro

CHEGADA AO CABO

PRIMEIRO ANJO

Ó mar das aguas sem termo,
Do constante labutar!...
Só tu és fanal, Senhora,
De todo este vasto mar!

Só tu, com teu manto azul,
Morenita, morenita,
Sorrindo, as ondas acalmas!
Bemdita sejas, bemdita!

Nasce do lado do norte
Sempre o musgo no pinheiro!
Também dás norte, na terra,
Ao perdido forasteiro!

PARTIDA DO CABO

CORO DOS ANJOS

Adeus, Senhora do Cabo!
Fica-te agora em teu ermo,
Vigiando os navegantes,
Por essas aguas sem termo!

Adeus, adeus! Voltaremos
Outra vez em romaria,
Nós, teus filhos, teus escravos,
Ó Virgem Santa Maria ! (3)

in Bulhão Pato, Raimundo António de, Nossa Senhora do Cabo, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.


(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,
(2) Pimentel, Alberto, História do Culto da Nossa Senhora em Portugal, 1899, Guimarães, Libânio & C., Lisboa

Informação relacionada:
O Occidente
Wikipédia
Santuário de Nossa Senhora do Cabo
A Senhora do Cabo, História e Culto
Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel
O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar ...
Os mistérios do santuário de Nossa Senhora de mua

quinta-feira, 19 de março de 2015

2 de fevereiro de 1926

O GOVERNO
CONTA DOMINAR
O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
DURANTE ESTA NOITE

Cacilhas, movimento de dois de Fevereiro de 1926, major Faria Leal.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O sr. Governador Civil declarou-nos, ás 18,30,  que até agora não há suspensão de garantias.
Aconselhamos a população amanter calma, e a recolher cedo a casa, embora não haja intimação para isso.
O Governo conta dominar os elementos revolucionarios de Almada durante a noite. (1)

Movimento de dois de Fevereiro em Almada, forças de infantaria 16 e GNR após o desembarque em Cacilhas, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O CASO DE ONTEM

Por muito habituados que todos estejamos a aventuras sem consistência nem finalidade, a que mereça a pena sacrificara tranquilidade pública, não deixamos de nos confessar surpresos com o movimento de ontem.
É mais um caso de sentimentalidade politica.
Em boa verdade, descontentes que todos estejamos com a marcha dos negócios públicos e o descontentamento não vem do agora, não vemos, sinceramente, imparcialmente, conscientemente, razão para se pretender levar a cabo um golpe de Estado contra a actual situação politica.
Um estrangeiro que entre nós vivesse para estudar a nossa psicologia politica e social não seria capaz de compreender o movimento de ontem. Nós proprios, um pouco mais familiarizados com o caracter politico e partidario da nossa gente, não encontramos explicação directa.
lndirectamente, como dizemos, o acontecimento, tão lamentável, fundamenta-se em razões platónicas de sentimetalismo.

Cacilhas, largo do Costa Pinto, forças da GNR preparando-se para o ataque aos revoltosos, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Mas esse sentimentalismo de revolta não tem raízes na alma popular. Não significa isto que o pais reconheça como perfeito o estado actual de coisas.
Mas as revoluções estäo desacreditadas, e muito mais o estão os movimentos isolados, sem preparação séria, sem ambiente, sem condições de qualquer sorte.
São aventuras, símpáticas a alguns, mas antipáticas ai grande maioria da Nação.
Este governo, que está constituído em condições normais, não será melhor do que os antecedentes, segundo o pensamento dos seus adversários.
Mas não é peor do que os outros, e antes oferece garantias — as garantias possíveis n nossa indisciplinada sociedade-de realizar uma obra lenta e serena de reconstrução. Os seus componentes são honrados, patriotas, decididos a uma obra de purificação.
As divergências politicas, de resto, repetimo-lo, resolvem-se dentro da legalidade.
E os republícanos não devem nunca afastar-se deste campo, por maiores que sejam, e mais fundas, e mais patrióticas, as suas incompatibilidades pessoais e partidárias.

Cacilhas, rua Cândido dos Reis, forças da GNR assestando uma metralhadora, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O governo dominou a situação. Que a aventura de ontem, que algumas vítimas causou, estragos materiais e péssimo ambiente moral, sirva de lição — quantas vezes temos escrito isto! — é o nosso desejo, e certamente o de toda a Nação.

Uma granada dos revoltosos cortou ao meio o pau de bandeira da Cadeia de Almada.
Na Outra Banda, não caiu nenhuma granada atirada de Lisboa, parece que em virtude dos propósitos da artilharia do Castelo.

Auto-retrato (detalhe), 1929.
Imagem: Tamara de Lempicka
Uma senhora estrangeira, ontem, à noite no Avenida Palace:
— E ganham os revolucionários?
— Não minha senhora, não têm probabilidades.
— Pobre familias deles, que vão ficar presos por toda a vida!
Ninguem retorquiu nada.


O CHEFE DO DISTRITO
FALA
AO DIÁRIO DE LISBOA

 
Ás 16 horas, o sr. dr. Barbosa Viana entre no seu gabinete do governo civil.
Pouco depois, chega o sr. dr. Crispiniano da Fonseca.
O sr. dr. Barbosa Viana recebe-nos:
— Há duas noites que não sei o que é dormir!
— Como teve v. exa. conhecimento da revolução?
— Pela polícia de informação. Imediatamente avisei os ministros da Marinha e da Guerra.
— Soube logo no dia 1, do plano dos revolucionários?
— Tinha apenas vagas informações. Ontem, de manhã, é que soube que eles haviam ido sublevar as forças que se encontravam em Vendas Novas.
— Tinham possibilidades do vencer?
— Não há nenhum movimento revolucionário que tenha possibilidade do triunfar. desde que as autoridades constitucionais tomem logo providências enérgicas e adoptem uma acção decisiva.

Almada, o acampamento dos revoltosos após a rendição às tropas sitiantes, revista Ilustração n.° 4, 16 de fevereiro de 1926.
Imagem: Hemeroteca Digital

Continuando:
— As revoluções são sempre iniciadas por meia duzia de audaciosos. e so os deixarem tomar posições à vontade e ganhar terreno podem vencer.
— Diz-se que a Marinha se recusou a combater os revoltosos?
— Creio que tal não se deu. O quo posso afirmar, com enorme satisfação, é que o Exército e a Guarda procederam com a maxima disciplina, não se poupando a sacrifícios para a manutenção da ordem. (2)

Os revolucionários presos, conduzidos, entre a escolta, para o Porto Brandão.
Imagem: Hemeroteca Digital

GOVERNE!

Agora o Governo que Governe.
O incidente passou e, feitas as declarações necessárias no Parlamento, o acontecimento deixa o rescaldo para os jornaes, e o resto será com a justiça.

Os revoltosos de Almada, dirigindo-se para o Porto Brandão a fim de embarcarem para o navio onde ficarão detidos.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Simpatias, antipatias, ódios, se os ha, lamentações, aplausos e críticas — deve a eles ser o Governo alheio.
E é, com certeza.
Não suponha o sr. Antonio Maria da Silva que só são seus amigos e confiantes da sua obra aqueles que o incensam. Não creia o sr. presidente do Ministerio que são mais patriotas e mais republicanos os que andam cerca dos seus gabinetes. A posição de independência de um jornal, como de um individuo, não lhes arrebata o sentimento de justiça.

Dr. Lacerda de Almeida e Martins Júnior, chefes dos revoltosos posando para O Século em Porto Brandão, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Com a sua experiencia, honradez, decisão e prudência reconhecidas, continue o sr. Antonio Maria da Silva imprimir ao seu Governo uma orientação de trabalho ponderado e constante. Alguns dos seus colaboradores bem merecem por sua inteligência e boa vontade.
 Há muito que fazer. Preparar a proposta da questão dos Tabacos. É uma questio aberta do Governo — disse-nos o sr. ministro das Finanças. Mas tem que haver uma base. Ela que surja.
Qualquer solução nos interessa, desde que ela seja a mais favoravel e ao interesse do Estado. O Monopólio é antipático. A Regie — pela qual não quebramos lanças — tem defensores, entre os quais o próprio ministro das Finanças, e muitos adversários. O regime de liberdade e concorrência parece preferível. O governo que se habilite, sondando a opinião pública autorizada.

Porto Brandão, movimento de 2 de Fevereiro, os revoltosos subindo para bordo do Pêro de Alenquer, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A obra de reconstrução financeira e económica deve merecer a este governo atenção "imediata". O "deficit", se não é relativamente grande, tem de ser combatido.
Não pode este governo considerar-se desapoiado. Adversários todos os governos os têm. Alguns honram. Para deante!

Diário de Lisboa, 5 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Para o caso da ordem publica — da qual é preciso não fazer espantalho — tem o ministro do Interior os seus delegados indicados.
Estas palavras escrevemo-las com simplicidade, sem afectação nem reservados intuitos.
Por pouco que valha o apoio de um jornal modesto corno o nosso, não trocamos a sinceridade dos nossos escritos por mercê alguma da terra.

Diário de Lisboa, 8 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Governe o governo do sr. Antonio Maria Silva! (3)


(1) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 2 de fevereiro de 1926
(2) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 3 de fevereiro de 1926
(3) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 4 de fevereiro de 1926