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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Tristezas não pagam dívidas

Cacilhas e Almada foram outras estâncias onde os "ruços" se aproveitaram para as folgas divertidas dos lisboetas. Cacilhas ganhou até foros de Universidade pela abundância de "bacharéis" que se estadeavam no seu largo, oferecendo-se ao apetite viajeiro da estúrdia elegante primeiro, de patuscada popular depois. A burricada perdeu com o tempo os seus pergaminhos de elegância.

Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Roque Gameiro.org

D. Fernando 1.° era amador estreme dêsse divertimento cacilheiro. Quando a política zumbia muito e os generais e os políticos fervilhavam no paço à volta da rainha, o rei preferia os burros aos cortesãos guerrilheiros e, com três ou quatro âulicos, cavalgava os jumentos da Outra-banda e ía divertir-se a Almada, à Cova da Piedade, ao Monte ou ao Alfeite.

A preferência régia impôs como moda a burricada de além-rio, e esta tornou-se um dos passeios obrigatórios de Lisboa para os seus naturais e até para os estrangeiros. Visitar então Lisboa e não andar de burro na Outra-banda, era como hoje não ir ao Jardim Zoológico ou à Estufa-fria do Parque da Avenida.

Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

O negócio dos burros cresceu: quási que se formaram emprêsas, companhias, trusts de jumentaria que alargavam a sua exploração até os confins de Caparica.

Groupe d'indigènes des déserts du Sud du Portugal faisant la promenade en âne; je suis à l'extrême droite.
— Costa da Caparica. Jour de Pâques Année 1907 —.
Delcampe

Era por isso freqüente os estrangeiros alcandorarem-se até Almada a ver a vista sôbre a cidade, e a marujada inglêsa não faltava a essas excursões de turismo obrigatório, equilibrando-se sôbre o tombadilho extravagante e movimentado das albardas mal seguras das cilhas.

Hoje a própria burricada de Cacilhas caíu em desuso. As camionetas, em vez dos ruços, é que enchem o largo e o negócio faliu inteiramente.

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
Museu da Cidade de Almada

É mais um costume popular que se arquivou no sótão das recordações, e só andam de burro os donos dos burros, até que um dia, dispensado mesmo tal auxílio, êste prestante animal se arquive numa mangedoira de museu. (1)


(1) Roque Gameiro, Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., Lisboa, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Artigo relacionado:
Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

Informação relacionada:
Roque Gameiro.org: Costumes antigos, Os / Portugal de algum dia (1931)

domingo, 19 de maio de 2019

Dornier Do X1 no areal do Alfeite em janeiro de 1931

Para apresentar o avião ao potencial mercado dos Estados Unidos o Do X descolou de Friedrichshafen na Alemanha a 3 de novembro de 1930, sob o comando de Friedrich Christiansen, para um voo de teste transatlântico até Nova Iorque.

Dornier X no areal do Alfeite para limpeza em Janeiro de 1931, aquando da passagem por Lisboa...
Museu de Marinha

A rota levou o Do X à Holanda, Inglaterra, França, Espanha, e Portugal. A viagem foi interrompida em Lisboa a 29 de novembro, quando um oleado entrou em contacto com um tubo de escape quente e começou a arder, consumindo a maior parte da asa esquerda.

Dornier X frente ao Mosteiro dos Jerónimos.
Vela de bombordo do Dornier DoX na sequência do fogo ocorrido quando o aparelho estava atracado em Lisboa em 29 de novembro de 1930.
age fotostock

Depois de ter estado parado no porto de Lisboa durante seis semanas, enquanto novas peças foram fabricadas e os danos reparados, o hidroavião continuou (com posteriores adversidades e atrasos) pela costa ocidental de África e a 5 de junho de 1931 chegou às ilhas de Cabo Verde, donde cruzou o oceano até Natal no Brasil [...] (1)

Hidrovião DO X1 na baía de Alfeite perto de Lisboa, Portugal:
Escadas até a fuselagem, levantadas na popa; Vista oblíqua de trás para a porta.
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon

A aeronave tinha 41 metros de comprimento por 48 metros de envergadura e 10 metros de altura. Possuía doze motores radiais Bristol Jupiter, fabricados sob licença pela Siemens, com 524 HP cada um, montados em tandem em seis naceles duplas, tendo, assim, seis hélices tratoras e seis hélices impulsoras. 

Hidrovião DO X1 na Baía de Alfeite em Lisboa, Portugal:
Vista de homens e meninos indígenas.
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon

A fuselagem era em duralumínio, e as asas, com uma superfície de 450 metros quadrados, possuíam estrutura em alumínio e aço, revestidas em tela pintada em cor alumínio. 

Hidrovião DO X 1 na baía de Alfeite perto de Lisboa, Portugal:
trabalhador esfregando e escovando o casco a bombordo, homens de pé ao redor com boina de marinheiro...
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon



O peso máximo de descolagem era de 56 toneladas, e a velocidade de cruzeiro era de 109 MPH. Tinha capacidade para 66 passageiros com todo o conforto, em voos transoceânicos, ou até 100, em distâncias mais curtas.

 

Tendo os primeiros voos demonstrado que os motores Jupiter, refrigerados a ar, tendiam a superaquecer e não conseguiam erguer a aeronave além de 1.400 pés em velocidade de cruzeiro, altitude insuficiente para realizar voos através do oceano Atlântico, a partir de 1930, a Dornier substituiu-os por 12 motores americanos "Curtiss Conqueror", de 12 cilindros em "V" e refrigerados a líquido, eliminando assim os problemas de superaquecimento. 


Com 610 HP cada um, esses motores podiam fazer o avião alçar-se a 1650 pés, suficiente para cruzar o Atlântico com segurança. (2)


(1) Wikipedia (en)
(2) Wikipédia (pt)

Mais informação:
1929-1932 The Dornier Do-X
A flight aboard the DoX - 1930 (youtube)
Delcampe

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Duas Uniões Victoriosas, de Jaime Ferreira Dias

"Duas Uniões Victoriosas" estreou-se, ainda manuscrita, no teatro Garrett, da Cova da Piedade, em 24 de Maio de 1931, de-sempenhada pelo grupo dramático "A Juventude', cujos papeis foram assim distribuidos: Mestre Macedo — Leonel Borges, Angela — Dorinda de Carvalho, D. Martinho — José Coelho, Mario — José da Cruz, Raul —João Miguel Pereira.

Duas Uniões Victoriosas, edição do autor, 1931.
InfoGestNet


Sebastião Lopes e Artur Ramos, que representavam respectivamente "O Almadense" e "Republica Social" na primeira representação fizeram ao original e ao seu autor referências extremamente lisongeiras que agradecemos num sincero abraço.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

DUAS  UNIÕES VICTORIOSAS

PERSONAGENS

Mestre Macedo, 60 anos, cego,
Angela, 19 anos, operária filha de Macêdo
D. Martinho, jovem rico.
Mario, jovem operario
Raul, 35 anos, ex-companheiro de Macédo.

Actualidade

ACTO ÚNICO

Num quarto andar. Sala pobremente mobilada: ladeada por algumas cadeiras, a desconjuntar-se, uma pequena mêsa coberta por um pano já desbotado, tendo em cima um candieiro acêso, costura e alguns jornais operarios. Uma cadeira de repouso e nas paredes alguns quadros alusivos á causa do proletariado. Dez horas da noite.

SCENA I

MARIO e ANGELA (que estão sentados á mesa conversando).

MARIO — (tomando as mãos de Angela que chorou) — Sim, minha Angela. Verás que havemos de ser felizes. Mas é preciso que afastes de ti esses pensamentos que te entristecem e acredites só, minha querida, no nosso amôr... Ainda duvidas da nossa felicidade?

ANGELA (Reanimada). — Duvidas... dizes-me tu. Como se eu não cresse cegamente no que tu me tens dito... Não és tu, Mário a minha unica esperança, todo o meu amôr?! Eu sei que não és como os outros, que cultivam o amôr como uma banalidade desta época. Nem eu seria também, como tantas das minhas pobres companheiras de oficina, um objecto de frivolidade perigosa. Compreendi desde o primeiro instante os teus sentimetos generosos. E tu, Mário, que és digno, que sofres com a dôr dos nossos irmãos de oficina, compreendes também todo o meu entristecimento. Bem vês. Não tenho mãe, uma irmã.... (Comovida). Resta-me apenas o meu velho pai, trôpego, e cego, a quem tenho que sustentar com o meu magro salario. E só tenho a proteção dele e o teu amor.

MARIO. — E eu não te exijo outra fortuna. Dentro de bem poucas semanas as nossas existencias ter-se-hão ligado no mais enternecido sonho. Viveremos um para o outro e gosarêmos, querida, a felicidade sadia dos pobres. Que aspiras mais?...

ANGELA. — E como havemos de ser felizes!

MÁRIO. — Então não terás que preocupar-te tanto com a exploração de que és vitima nem com o trato grosseiro dos mandões [...]

*
*     *

D. MARTINHO (continuando cinicamente). — Mas, não teem que surpreender-se. Mário, esse fami-gerado socialista que anda a sublevar os meus operários com utopias subsersivas, êsse terá um passaporte para a África. E não me esquecerei de si, descance, sr. Raul.

RAUL. — Canalha! Tudo há a esperar do seu estofo moral. Mas nada receio de si, miserável. Eu tenho, tambem, uma recompensa para esta pobre gente que o sr. persegue. Ei-la: é o seu último recibo. (Entrega-o a Macedo). E agora, miserável, sáia! imponho eu. Sáia!

D. MARTINHO (Fixando o recibo). — E' falso esse recibo. Exijo-o. Você é um falsificador.

RAUL. — É assinado por seu pai e foi o sr. que o perdeu há instantes, colérico, por certo, com o insucesso das suas diligências donjuanêscas.

(já se tem houvido, da rua, o rumar da multidão que canta a Internacional e que passa sob a janela)
.

A pé, ó victimas da fóme!
A pé, famélicos da terra!
Da ideia a chama já consome
A crôsta bruta que a soterra!
Cortai o mal bem pelo fundo!
A pé! A pé! não mais senhores.
Se nada somos em tal mundo,
Sejamos tudo ó produtores!
Bem unidos façamos,
nesta luta final
duma terra sem amos
a Internacional! [...]

*
*     *

MACEDO (Voltado para a plateia). — É a inexoravel justiça da rua, meus filhos. Os burguêses e senhores inventaram-na com os pelourinhos e a igrêja com os autos de fé. E o povo não soube subtraír-se ainda a essa ferocidade, e quere ser tombem juiz. (Vai cessando o ruído e as personagens afastam-se da janela).

RAUL. — Passou, victoriosa, a união dos trabalhadores. E agora meu querido méstre, deixe que eu denuncie uma outra união não menos fervorosa e indivizível que existe há muito entre dois jovens que se amam: Mário e Angela. Graças ao amôr dêles, a virtude triunfou, como nos romances, tornando fortes e arreigadas as convicções emancipadoras d'este moço idealista.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

MACEDO. — Mas, meus filhos. Eu sinto-me venturoso por vos saber amados. Sède pois muito felizes, mas com uma condição: não desampareis este velho cego como dois egoistas tontos de felicidade.

ANGELA e MÁRIO. (acercando-se mais dele e afagando-o). — Oh não, meu pai, nunca nos separaremos.

MÁRIO. — Sim. E de hoje em diante, consinta que, em vez de méstre vos chame pai. Seremos cada vez mais unidos.

RAUL. — Pois sim, mas não vão esquecer-se da bôda...

OS NOIVOS (Reconhecidos). — Pois não...

MACEDO (Contente). — Assisto, meus filhos, depois de tantas vicissitudes que tenho sofrido, a duas uniões que tornam felizes os meus últimos dias: — a victória d'ideia libertadora e o triunfo do vosso amôr. Elas viverão em meu coração de pai afectuoso e de velho idealista como duas uniões victoriosas... (Tem-se ouvido rumores da Internacional cantada pela multidão).

TODOS (Dirigindo-se para a janela). — Viva União dos Trabalhadores!... (O pano baixa lentamente, continuando a ouvir-se o cobro até este cair definitivamente).

FIM (1)


(1) InfoGestNet

Artigos relacionados:
O pequeno operário
SFUAP, origens, teatro e escola

Leitura relacionada:
La cultura obrera en Portugal, TEATRO Y SOCIALISMO DURANTE LA PRIMERA REPÚBLICA (1910-1926)
Les mythes et les légendes bibliques dans le théâtre portugais à thématique ouvrière

sábado, 16 de abril de 2016

Buques de arrasto

Quem sai a barra de Lisboa apercebe, nos confins do horizonte, uma fileira de velas triangulares minúsculas, que ora alvejam como asas de gaivotas batidas pelo sol ora se confundem com a poeirada cinzenta do mar.

Os pescadores da barra do Tejo,o barco pairando para efectuar a pesca, 1931.
Imagem: Hemeroteca Digital

À medida que nos aproxima-mos desses flocos de neve flutuantes as suas proporções aumentam e os seus contornos se detalham com nitidês, podendo-se já distinguir a azáfama que lá vai por bordo.

— São os buques de arrasto — elucidam-nos. 

Meia hora depois, afastados já algumas milhas, os pequenos triângulos brancos parecem lenços a agitar-se cm despedida. Fica-nos en-tão uma vaga saüdade que o poeta soube tio bem cantar:

Oh enxame alado e nevado das velas!
Quem te póde esquecer se alguma vez te olhou?!

Os buques de arrasto, que vieram substituir os antigos barcos de muleta, são a nota característica da entrada do Tejo. Quando do mar largo se avista a barra alvacenta dos pequenos barquinhos, sabe-se que se está defronte da barra de Lisboa. 

Os pescadores da barra do Tejo, de regresso depois da pesca realizada, 1931.
Imagem: Hemeroteca Digital

Eles constituem uma referência para os navios estrangeiros que demandam o nosso pôrto. À segunda visita do navio, quando o timoneiro, atento à agulha e ao horizonte, vê germinar sobre o azul do oceano essas flores de açucena, já sabe que a uma dúzia de milhas encontra a foz do Tejo. 

Despreza então a bússola e apita à inofensiva esquadra que, ao sabor das ondas, vai aprisionando o peixe nas rêdes.

Daí a pouco o navio, rápido e imponente, passa junto dos barquinhos, fumegando e cindindo as águas que se afastam num torvelinho doido, sobrepondo-se furiosas com receio do monstro. De bordo a marinhagem saüda os pescadores, cá em baixo, sôbre os buques sacudidos raivosamente pela ondulação do navio.
— Ben die! — dizem alguns que já ouviram o saüdar português. Outros proferem a saudação nas suas línguas arrevezadas.
— Salve-os Deus! — correspondem cá do buque os pescadores agitando os braços.
Durante um bocado as tripulações do navio e dos barcos olham-se com curiosidade e simpatia. Depois, quando o vapor é já unia mancha negra empenachada de fumo, torna-se à faina.

Cada um dos pequenos barcos de. pesca da barra de Lisboa é tripulado por uma dezena de homens. 

A maioria deles são velhos, curtidos da ardência do sol do estio e das friezas das nortadas hibernais. Os seus rostos morenos estão engelhados como velhas folhas de pergaminho amarrotadas e engelhadas têm também as mãos ossudas e ásperas dos milhares de braças de cabo que têm puxado. 

Quasi todos começaram ainda meninos a trabalhar sóbre o dórso encrespado do oceano e raros são aqueles que o abandonam para se dedicar a outro modo de vida. Amam o mar com uma ternura infinita que se lhe adivinha na nostalgia com que, cá em terra, o seu olhar prescrita a planície azul nos dias tempestuosos em que esta é sacudida pela violencia dos tufões que a varrem furiosamente corno o simum africano lambe, com o seu hálito destruidor, as areias dos desertos. 

Aí pelo dobrar das quatro horas, quando as estrelas ainda se reflectem vaidosamente nas águas obscuras, largam para o mar os buques. Içam as suas velas, a latina e a polaca, e ao sópro do vento amigo, lá vão, barra em fora, com um farol à próa, avisadouro da navegação.

O velho arrais, de mão fincada na cana do leme, vai governando o barquinho enquanto o resto dos tripulantes, embrulhados em mantas, completa o sono interrompido a meio da noite.

Quando o sol começa a empurpurar as águas já os buques pairam lá no mar, a umas oito milhas da costa. O vento muda então de quadrante e os pescadores, depois de se orientarem, a fim de evitar as rochas submarinas e as carcassas das navios afundados, ali por alturas da barra, lançam a rede a umas setenta braças de água.

Dão-lhe depois uma folga de duzentas braças e carregam o pano, que tinha sido recolhido, a fim de o vento impulsionar o barco, pois sem a colaboração do mitológico Eolo a pesca não se poderia efectuar.

A rede, que não é de grandes proporções, apresenta a forma de. um triângulo isósceles. No vértice tem um saco com uma armadilha onde o peixe entra mas de onde não pode sair. Quando a rede está já no fundo a pressão de água abre uma das portas de madeira e a entrada do peixe fica livre.

Na parte que se arrasta pelo fundo do mar há uns pesos de chumbo que não deixam vir a rede acima. Na parte superior há bóias de cortiça e de vidro que mantém aquele pano da rede elevado acima do outro alguns metros. Fica assim uma vasta guela aberta que vai absorvendo tudo que encontra no seu rasteio.

O pescador depois descansa na coberta, dormitando ou conversando, atento aos navios que constantemente cortam o oceano. Apenas o timoneiro, enconchando a ossuda mão sôbre o rosto engelhado, vai prescrutando a terra que se avista ao longe e procurando as marcas para não dar com a rede na rocha ou noutro obstáculo que a rasgue.

Embalado pelo mar, naquela indolència contemplativa, sob o azul do céu e o brilho intenso do sol, o pescador parece lançar ao vento, num desafio ao mundo, aquela quadra de Espronceda:

Que es mi barco mi lesara,
Que es mi Dios la liberlad,
Mi ley la fuerza y el viento,
Mi unica pátria la mar.

Ai por volta das 15 horas, depois de seis ou sete horas de arrasto, o buque chega defronte do farol da Guia. Inicia-se então o trabalho mais árduo, o virar da rêde com o guincho manual. Todos os tripulantes se lançam às manivelas a içar o valioso saco. Os músculos sitos sob a pele encortiçada dos velhos pescadores, retezam-se e tornam-se-lhes mais nodosos os braços. Os rostos contraem-see a pele morena parece que vai estalar, deixando a descoberto os sulcos de carne viva e sangrenta. 

Ao incitamento do arrais os esforços unificam-se num valente impulso e o guincho ferrugento começa a ceder, chiando uma arrastada cantilena que compassa o vociferar dos pescadores, em cujos rostos começam a scintilar grossas bagas de suor. Este esfôrço extenuante dura mais de meia hora.

Por fim aparecem à superfície do mar as duas portas, que alguns pescadores vão recolher. Em seguida surgem as "malhetas", que são os cabos que estão ligados à rede, e depois de mais umas voltas do guincho gemedor aparecem as malhas desta. 

Os pescadores da barra do Tejo, puxando as redes carregadas, 1931.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os pescadores abandonam então as manivelas ferrugentas e dirigem-se para a borda do barco a puxar a rede, cujo saco, já à flor da água, vem inchado de peixes que se debatem numa luta doida para se libertarem das malhas que os aprisionam. 

O espectáculo que até aqui era monótono e rude toma um aspecto festivo e colorido. As mãos ansiosas dos pescadores agarram num talhão do saco e despejam-no na coberta. Milhares de peixes, aos quais o sol arranca scintilações de prata polida, saltitam e se contorcem na coberta, verdascando-se com os rabos e ensanguentando-se com as barbatanas. 

Os pescadores da barra do Tejo, a companha mostra-se contente com a pesca que foi boa, 1931.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma santola trucida uma pescadinha já morta e um grande exército de caranguejos de armaduras côr de lama vai devorando os pequenos peixinhos. Outro talhão do saco é despejado, com grande reboliço, sobre a coberta, que écoa cavernosamente à queda dc alguns búzios de arestas agressivas. 

Outros talhões vão sendo recolhidos até que a rede é metida toda a bordo. Na coberta eleva-se um gratule monte policromo de peixes de várias espécies, sabre o qual os caranguejos repelentes passeiam, como abutres por um campo dc batalha. 

Os pescadores da barra do Tejo, as mãos ansiosas dos pescadores agarram num talhão de um saco e despejam-no, 1931.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os pescadores, porém, não lhe dão tempo a inchar o estômago com o lauto banquete. Apanham-nos e esmigalham-nas entre os dedos, atirando-os depois para o mar.
— Raça malvada! Dão-nos cabo do peixe! Mestre Francisco da Maria Inês, que é o arais do buque Joana, a bordo do qual na encontramos, toma a cana do leme para dar direcção ao barco.
— Então, mestre Francisco, que tal é a pesca ?
— Não é má, não senhor!
— É todos os dias é assim?
— Qual! —exclama éle, fazendo uma carêta de enfastiado.
— Há dias que não apanham nada?
— Sempre vem alguma coisa búzios e caranguejos — responde-nos com um sorriso bom humor.
O barco, já com o pano carregado e as velas enfunadas, aprôa à barra. A bordo continua a acólita do peixe: os caranguejos e pequenos peixinhos são atirados ao mar e o resto é metido em cabazes para ser apresentado na lota. Escolhe-se a caldeirada para o nosso barco e despedimo-nos das simpáticos pescadores:
— Boa tarde! Obrigado! 
— Vão com Deus! — respondem-nos de bordo.
E o nosso barco, uma pequena lancha impulsionada por dois valentes moços, apresa ao "Comandante Milheiro" que por ali paira ao sabor das ondas mansas.

Comandante Milheiro, embarcação a vapor da Corporação de Pilotos do Rio e Barra de Lisboa, construída em 1928.
Imagem: Navios e navegadores

O buque lá vai mar em fora escoltado por urna patrulha de gaivotas e alcatrazes que, de vez em quando, mergulham na água para comer os peixinhos inúteis que os pescadores atiram pela borda.  Lá ao longe, pela nossa prôa, surge uma esquadra de buques, que regressa também da pesca. Sobre eles uma nuvem de aves marinhas sôlta gritos festivos esperando o lauto bôdo de peixe. 

Na ponte do comando, António Santos, piloto da valente estirpe de pescadores do sul, vai indicando-nos os nomes dos buques: o "Homem ao leme", o "Camela", o "Orca", o "Almazorra", o "Pardal", o "Rata" e, lá ao fundo, o "Salta à lua". 

Dal a pouco a esquadra, a todo o pano, desfila por nós. Um dos barcos, porém, vem atrasado e pede a ajuda de mestre José Lopes Terramoto, o encarregado do "Comandante Milheiro".  Como todo o bom algarvio, não recusa auxílio nos pescadores e passa um cabo ao buque que, daí a pouco, já próximo de Cascais, desfralda as velas e, com a ajuda do vento, lá vai mar em fora.
— Obrigado! — agradecem os pescadores. 
— Boa tarde! —respondem-lhes.
Transporte da sardinha na Trafaria, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Os bons pescadores lá vão contentes, naturalmente convencidos que o mundo não é tão mau como afirmam os homens que vivem cá em terra a degladiarem-se e a pelejarem numa luta quási sempre inglória.  (1)


(1) José Barão, Illustração n.° 130, 16 de maio de 1931

Artigo relacionado:
Jimmy Green's, a muleta do Tejo

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Museu de Bombeiros

Antigo quartel, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1960 (?).
Imagem: ed. desc.

O antigo e legítimo desejo de os bombeiros possuírem no Concelho de Almada um museu que mostrasse a sua evolução ao longo dos tempos e que fosse um local onde toda a sua história iconográfica fosse objecto de visualização e de estudo, até agora, por vários motivos, não tem passado de uma repetida promessa.

O garbo da formatura, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011

[Francisco Inácio Lopes.] Funda o Serviço de Socorros de Incêndios em 1850 [...] só muito mais tarde aparecem os Bombeiros Voluntários de Cacilhas (15/01/1891) e as corporações de Almada (26/08/1913) e Trafaria (25/06/1931).
Cremos tratar-se de uma primitiva brigada de bombeiros municipais.

in Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

15 de janeiro de 1891 — A Associação de Beneficência Serviço Voluntário de Incêndios, com sede em Cacilhas, no Concelho de Almada, foi fundada oficialmente nesta data na barbearia de Guilherme Silva, no Largo do Poço, onde foi assinada a acta inicial.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foram os seus fundadores os seguintes cacilhenses: António Augusto Figueiredo Feio, António Thomaz de Carvalho Serra, Thomaz Wenceslau de Carvalho Serra, Guilherme Silva, Thomaz da Costa, Wenceslau Francisco da Silva, Raymundo Francisco da Silva, Guilherme Augusto Paiva, Avelino Emydio de Queiroz, Artur José Evaristo, Paulo Sauchner, Diogo António da Silva Reis, Júlio César da Silva, João Baptista da Silva, João Augusto dos Reis, José Henrique Correia, Augusto José de Melo Júnior, José Júlio Teixeira de Almeida.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1920 — 1930.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Resolvido, o pequeno de quatro anos montado na sua bicicleta: — O meu pai é bombeiro!
Sabendo a resposta que se seguiria, perguntei: — E tu, também és bombeiro?

Viaturas, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 1958.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Pausou, encheu o peito de ar e respondeu: — ... não, mas um dia vou ser.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Pedalando com firmeza, afastou-se. Dias mais tarde voltou à carga: — Os bombeiros vão tocar hoje à noite na festa!

Ambulâncias, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1970.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Desta vez não quis fazer perguntas: — Não sabia que os bombeiros tinham fanfarra.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1980.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

— Os carros!... Os carros é que vão tocar.
Respondeu impaciente com a minha ignorância. Afinal que percebo eu de bombeiros.

Auto Transporte de Pessoal n° 3, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Autocarro Magirus Deutz, dito Tarolas e Pandeiretas", motor arrefecido a ar.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Neste momento, o museu dos bombeiros que está patente ao público resume-se a uma sala do 1.º andar do quartel em Cacilhas, onde estão expostos alguns objectos e relíquias de um passado glorioso, mas cujas condições de conservação, iluminação e arranjo exposicional não são as mais adequadas, situação que seria ultrapassada com a existência de um espaço bem organizado noutro local. (1) 

Clarim antigo, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011


(1) Neto, Victor M., Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011, Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011, 224 págs.

Informação relacionada: Bombeiros Voluntários de Cacilhas: equipamentos museulógicos

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Construção naval tradicional no lugar da Mutela

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Alfeite, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1891
Imagem: Museu Municipal de Coimbra, colecção Telo de Morais

Desconhecem-se por quanto tempo estas instalações se mantiveram na posse da família após a morte de António José Sampaio, tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.

Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.

Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931
Imagem: Museu José Malhoa

Vista geral da Mutela, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (1)

Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

  1. Estaleiro e oficina do Peres
  2. Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
  3. Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
  4. Muralha da Luíza da água
  5. Cais da fábrica Ramos (cortiça)
  6. Cais do Martins (vinhos)
  7. Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
  8. Fábrica da farinha
  9. Clínica António Elvas
  10. Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
  11. Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
  12. Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
  13. Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
  14. Ferraria do Chouffer em brasa
  15. Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
  16. Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
  17. Cavalariça do André
  18. Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
  19. Esplanada do liberdade
  20. Estaleiro do Chico Cavaco
  21. Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
  22. Ferraria do Fialho
  23. Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
  24. Estaleiro do Joaquim Picadeiro
  25. Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
  26. Largo da Mutela
  27. Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
  28. Taberna do Adelino Baeta
  29. Taberna da Emília da Praia 



(1) Grupo parlamentar do PCP, Deputados do, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.




Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.


O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.

O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.

O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…

Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.

Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro (*)


(*) Artigos do jornal João Semana Fragateiros de Ovar