segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um romance da vida real (deambulações de Childe Harold...)

Mr. Glenville e Amelia, tête-à-tête nas ruinas do Castelo de Almada...

Childe Harold, veio a Lisboa, para escrever um poema, ao qual deu o nome "Portugal"; para a informação que prestou sobre o país, cujo nome tem, poderia muito bem ter sido escrito em Grub Street; pois depois de um rápido olhar para a Nova e a Velha Lisboa, instalou-se num antigo convento de Sintra, e, fechado do mundo, começou e terminou seu poema em seis meses.

Historical military picturesque..., George Landmann, Sintra (onvento da Pena).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Começou por descrever a sepultura de Fielding, o romancista, e terminou com a informação, que a Colina de Almada foi o assunto de algumas linhas escritas por Mickle, tradutor do Lusíadas [...]

Vista de Lisboa tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Byron, Childe Harold's Pilgrimage..., London, John Murray, 1869

Amélia, que ele imaginara estar a sofrer de uma recaída na sua indisposição, reclinou-se descuidadamente sobre o ombro do honorável Mr. Glenville, que lhe lia o seu interminável poema, que ela ouvia com aparente prazer. 

,
Amelia Osborne (1754–1784) por François-Hubert Drouais.
Marquesa de Carmarthen, Baronesa de Darcy, Baronesa de Conyers, Condessa de Mértola.
Primeira esposa de John "Mad Jack" Byron, pai de Lord Byron.
Imagem: Wikipedia

Um ruído, que Freeman fez ao tropeçar em algumas pedras soltas, fez com que se levantassem e Glenville colocasse o braço dela no seu; dirigiram-se para a praia, entraram num barco, e partiram para Belém [...]

Historical military picturesque..., George Landmann, Torre de Belém.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Embora Harold lhe perguntasse se tinha saído, Amelia nunca lhe disse que tinha ido à Colina de Almada; e Glenville, que o chamou para lhe dar boas-vindas a casa, queixou-se que lhe não tinha sido possível acompanhá-la nos seus costumados passeios nocturnos. Havia decepção e dissimulação nisso, o que Harold não gostou; não havia necessidade de manter em segredo que ela tinha saído com Glenville, e assim, fez Harold suspeitar que nem tudo estava certo [...]

Harold não veio para jantar, nem para dormir: Amelia esperou ansiosamente até à meia-noite, quando um criado lhe trouxe uma carta, como a seguinte:

"Braganza Hotel [rua Do Thezouro Velho, 36], Lisboa

Senhora,

A sua decisão de embarcar para Inglaterra tem toda a minha aprovação, e onde quer que vá, leve consigo os meus melhores votos de saúde e felicidade. Admito que o seu desejo súbito de deixar Lisboa me surpreendeu e teria feito muito mais, se eu não estivesse preparado para uma mudança nos seus sentimentos, ao tê-la visto com o seu amigo entre as ruínas do Castelo de Almada, num momento em que me tinha escrito a dizer que estava muito doente. 

Embarcações no Cais da Misericórdia. Aspecto do Hotel Bragança, ao fundo, na metade esquerda da imagem.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Durante toda a vida tenho tido por costume dar as minhas opiniões livres de disfarces, e se eu a tivesse deixado de a amar, ter-lho-ia dito sem hesitação. Onde não há confiança mútua, não pode haver real afeição, e quando a senhora se inclinou à dissimulação, perdeu tudo, excepto a minha amizade [...]" (1)


(1) John Harman Bedford, Wanderings of Childe Harolde: A Romance of Real Life..., London, Jones & Co., 1825

Artigos relacionados:
Colina de Almada
Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron
Castelo de imagens e fantasia
Margens do Tejo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

sábado, 3 de dezembro de 2016

Em landaulet pela Outra-banda

Ao meio dia, embarcávamos, eu e um amigo, no Caes do Sodré. 

O "landaulet" entra facilmente para a coberta do vapor, que faz a travessia entre Lisboa e Cacilhas, de meia em meia hora. 

Lisboa, Estação da Parceria, c. 1900
Imagem: Delcampe

Dia de Reis, festivo, lindo creador!

O barco larga da ponte, numa trepidação agradável, corta as aguas, aproando ao pontal da outra banda. Gaivotas abanam-se com seus leques de pennas brancas, ou estendem as guias nos voos largos. Pairam umas, outras embicam á babugem da pescaria incauta, outras, ainda, descançam da faina no balançar suave das gordas ondulações do Tejo, que, áquella hora, rebrilha, como cristal liquido num tanque immenso.

Lisboa, canoas junto ao cais da Parceria.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da curta viagem atraca o Lisbonense, e, após o desembarque dos passageiros, o "landaulet" subiu a prancha e seguiu num andamento modesto, emquanto cobriamos os joelhos e se marcava a hora — doze e vinte minutos.

— Extraordinário dia! Glorioso dia! exclamámos. Eu, não sei com que expressão ; a do meu amigo era radiante.

— Dias como este — proseguiu elle — nunca os vi, nem na Europa nem na America!

Não se imagine que a apreciação é d'um portuguez.

A pouco e pouco, a marcha do vehiculo augmenta. Passada a Cova da Piedade, a paisagem attrahe, exuberante de viço e de frescura.

Brasier Landaulet 1908 por Alfredo Roque Gameiro ou Santos Silva, c. 1909.
Imagem: Hemeroteca Digital

A estrada, como faixa de linho crú, serpenteia pelo meio de perfis que projectam sombras caprichosas. Por toda a parte, sob o azul immaculado e luminoso do ceu, matizes de harmoniosidade ténue, sem perderem a intensidade dos seus grandes valores. De um lado, serras alcantiladas, gigantescas e avermelhadas saibreiras, sulcadas d'alto abaixo; do outro, terras quentes, verduras baixas. Oliveiras de um verde acinzentado, em disposição casual, descem as collinas, e, nos promontórios, perto como longe, erguem-se pinheiros, perfilados como columnas de exercito.

Esta symphonia de cambiantes, luz e sombras dá refracções opalinas, como seda furta-côres. 

Mas logo outros aspectos surprehendem, tão rapidamente, como rápida é a velocidade do transporte, furando a paisagem intima com a rapidez de uma flecha expedida pela expansão de forte e opprimido arco, emquanto, ao longe, o panorama se deixa admirar sem turbações, o Tejo, a alvejante casaria de Lisboa, aldeias e logarejos, isolados ou reproduzíndo-se nos espelhados braços do rio, que entram no Seixal, na Arrentella, povoações mais abundantemente banhadas, quando nas aguas vivas. 

Palácio da Quinta da Amora, Cheira-ventos, 1899.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois, nas planícies, vastos pinheiraes, dando arrendadas sombras, derramando pura seiva, ou choupos altos, ladeando rectos kilometros de planos e suaves caminhos, cuja perspectiva parece observar-se atravez d'um cano de espingarda, e que o automóvel transpõe como uma bala, para caminhar mais veloz, em campo aberto.

A vista percorre os campos; não ha terras maninhas; tudo arroteado. Raro vêr selvas bravias, raro as que ficam de pousio, raro o arbusto maninho; tudo cresce e se avantaja. 

Com suas casitas brancas, dominadas por campanários brancos, lá se vêem a Aldeia de Paio Pires, Coina, Corroios e outros grupos de albergues ruraes, cercados de arvoredo e palissadas, tal qual repregos scenographicos.

Seis de janeiro, e já, nos prados, precoces florinhas amarellam e branqueiam, como prenuncio de primavera! O ambiente ri, com um riso que convida a viver risonhamente. E serem tão poucos — digamol-o — os lisboetas que conhecem e gozam os variados aspectos d'esta estranha e empolgante paisagem, a pouca distancia da capital!

— Ó alfacinhas, isto de "fazer" a Avenida periódica. e obrigatoriamente, numa atmosphera poeirenta, exhalando aromas de excremento de bestas e de censura pegada, é asneira, faz mau sangue, irrita o espirito e enruga a testa. Vós, que tendes magníficos meios de transporte, tirados por soberbos cavallos e possantes motores, largae o picadeiro e vinde vêr a natureza purificadora e bem criada, pois, ahi, até a passarada vos desconsidera...

Corroios, Cheira-Ventos, fotografia de Penha Lopes, 1921.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nestas considerações nos levava o automóvel intruso, producto moço do engenho humano, e se internava, pesquizando o que o mundo tem de mais velho, com roncos d'um som inarticulavel com a sua mocidade, prevendo e prevenindo, arrogantemente, numa curva, algum viandante serrano, alheio ao progresso e despreoccupado.

O meu companheiro mandou parar. Estávamos em Azeitão.

Villa Nogueira (Azeitão), Antigo Palácio dos Duques de Aveiro.
Imagem:  Fundação Portimagem

Subimos alguns degraus, que dizem para o terreiro do velho palácio dos duques de Aveiro, com seu pelourinho. 

Uma hora de historia, de profundas recordações! Foi aqui preso, numa negra noite de novembro, D. José Mascarenhas, oitavo duque de Aveiro, decapitado no caes de Belém, no janeiro seguinte de 1759, como se sabe.

Lá está na fachada principal do palácio, sobre a janella predominante e central, arrasado, o escudo da nobre familia, que tinha o direito de nomear, senhores de baraço e cutello, e que, por implicada no attentado contra a vida de D. José I, Pombal tentou exterminar. Na sala de baile e no guarnecimento de interessantes azulejos, talvez dos fins do século XVI, ha, num dos vãos, entre duas janellas, a falta de nove azulejos, que completavam a parte central da composição, onde presumo estaria, antes do sinistro espectáculo de Belém, o escudo a que alludi.

A caracteristica vivenda, que tem passado por differentes vicissitudes, pertence actualmente ao sr. Oliveira Boal, cujos filhos nos receberam com amabilidade e nos mostraram os azulejos d'aquella e das mais salas do histórico palácio.

D'aqui mais uma vez os cumprimento, muito agradecido.

Nessa Cintra do Alemtejo, como lhe tenho ouvido chamar, com acerto, está a decrépita Bacalhôa, antigo e solarengo retiro dos Condes de Mesquitella, hoje vasio d'almas, mas ainda cheio de arte. A este museu cerâmico de azulejos e esculpturas, ao palácio do sr. Boal, á artística vivenda que habitou o grande homem de sciencia, Manuel Bento de Sousa, conservada por seu filho, o dr. António Formigai de Sousa, e cujos azulejos que decoram as salas são notáveis; á casa de Galhariz, e outras mais, perímetro que comprehende a Villa Fresca e a Villa Nogueira, para onde, outr'ora, nobres de Portugal iam abrigar-se e descançar, fugidos aos calores da capital e ás cerimonias da corte, juntem-se extensas e bem amanhadas terras, arvores de fructos finos, arvoredos sombraes de grandiosa ramaria, e veja-se quanto é aprazível a extremenha e dominadora Azeitão.

De novo nos installámos na commoda "carrosserie", subindo a manta sobre os joelhos. Á cautella, concheguei o chapéu, e, emquanto o meu amigo praticava os mesmos cuidados, o pelludo "chauffeur" punha em andamento o automóvel, com três roncos de corneta, para afastar do trilho uma "pennosa", amarella e estúpida.

Proseguimos, cortando o ar, ao mesmo tempo que a paisagem corria para nós, com reciproca ancia.

De Azeitão a Setúbal, desce-se, mais ou menos. Á mão sinistra, sobre a montanha, a capellinha das Necessidades, branca como veste de noiva, e, num plano mais afastado, sobre o pincaro d'outra montanha, o Castello de Palmella, ostentando as suas ruínas, envolto numa meia tinta azulada.

Villa e Castello de Palmella, ed.Mendes Estafeta, 20.
Imagem:  Fundação Portimagem

D'este ponto, o mais elevado da estrada, vê-se uma vez mais Lisboa, agora coroada pela serra de Cintra, num tom fulvo, que parece vêr-se por transparente gaze d'um azul claro. 

Á mão direita, o inconfundível sello da paisagem portugueza, num que outro cabeço, como cristas brancas, velas em cruz, gordas de vento, moendo pachorrentamente o pão de cada dia, ao som de harmoniosa e interminável zoada.

O caminho ajuda; e, tão depressa como o dizer, se transpõe o Valle de Alcube.

Rápido, começam a apparecer vestígios d'agglomeração humana, modestas notas de civilisaçao: — adultos, creanças, estendaes de roupas variegadas, animaes domésticos á gandaia, que se assustam e balburdam; o gallinaceo, azas abertas, corre indeciso ; os condemnados grunhem; os cães ladram e levam-se como lebres, á estribeira do automóvel ; começam a apparecer vendas escancaradas, o bulício augmenta, vêem as ruas, a cidade — Setúbal!

Esta é atravessada em solavancos, voltas rápidas, curvas apertadas, que os pneumáticos suavisam, com a sua elasticidade. A corneta ronca com teimosia, a garotada grita, gesticulando, atirando com os "bonnets" e barretes á passagem do vehiculo e com tal expressão o faz, que deixa em duvida se a manifestação é amiga, se hostil!

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Imagem: Provocando

O "chauffeur", sem hesitar, enfia pela estrada que leva a a Outão.

Quando nos defrontámos com a magestosa e tranquilla bahia do Sado, que parecia dormitar sob uma cobertura de vidro coalhado, o meu solicito amigo, de pé, braço estendido, indicou meio circulo, com que abrangia todo o scenario, e gritou:

— Qual Nice ou Route da Comiche, qual lago de Como, qual phantasia, qual historia! Isto é uma parte do Paraiso, isto é, simplesmente, a gloria, num clima de 15 graus em Janeiro!

E, com duas palmadinhas da sua mão esquerda no meu hombro direito, accrescentou:

— Vocês nem sabem o que teem!

E o incansável "Brazier" [Brasier] com força de vinte cavallos e fôlego de outros tantos gatos, cortava a pittoresca paisagem, pela estrada, a meia encosta, que margina docemente o lindo Sado.

Setúbal, Palácio da Comenda (Conde Armand).
Imagem: Delcampe

Depois, numa situação invejável, sobre as aguas, a Casa da Commenda, a que o seu proprietário, o conde de Armand, chama: "Mon Paradis", cujas galerias alpendradas dominam o grande lago numa ampla expansão de horizonte. Nas, terras adjacentes, logradoiros ajardinados e um vasto viveiro de palmeiras, verdes, com reflexos frios, azulados.

Após mais algumas curvas pela declividade da estrada, estávamos em Outão, "terminus" da nossa ida.

A volta fez-se d'uma só tirada. Logo ao primeiro kilometro, cruzámos com um "Peugeot" cheio de senhoras, e fora, ao lado do machinista, um senhor. Estavam como numa tribuna, admirando o supresito glorioso que o Creador deixou ás creaturas, com a sua grande obra — Agua, Terra e Luz!

O meu instruído amigo, que rende culto á Arte, que entende de medicina e de mechanica, disse:

— São galantes, o homem é medico, a machina de força superior á do nosso Brazier — trinta cavallos. Vieram de Lisboa e voltam para lá, como nós.

— Quanto a ter o motor mais força, pouco importa; se não tem "fôlego de gatos", não passa adiante! Estive para responder, o que não fiz por prudência...

Num estremecimento quasi ligado, os pneumáticos rolavam pelo macadam tão acceleradamente, que davam a illusão de tambores mechanicos a puxarem por larga correia d'anta, a cujas orlas se prendia toda a paisagem próxima.

E assim corriam para a minha observação, invertidamente, os motivos aldeãos e campestres que, pouco antes, se tinham insinuado tão grandemente. Ao fundo, o Tejo e toda a sobranceira casaria, esse vasto burgo, o meu burgo, scintillante de vidrarias, dispunham-se para vir ao nosso encontro, como columna de couraceiros, num sopeado e surdo passo, sobre tapete azulado.

Quando deixávamos Villa Nogueira e desciamos para os brejos de Azeitão, senti que a velocidade do automóvel era desusada e que tendia a accelerar-se ainda mais. Com a expressão d'um fugitivo, o "chauffeur" olhou para traz. De tal maneira me impressionou o seu olhar, que me voltei, cheio de curiosidade. 

Era o automóvel com que havíamos topado á sahida de Outão que nos seguia, e se propunha tomar a dianteira. Então, nas rectas, nos caminhos planos e pelas descidas, tive a impressão de que o nosso "landaulet" não tocava no solo, voava! Horrorisei-me tremendamente! Lembrei-me de que o travão podia partir-se, os pneumáticos podiam rebentar e, de que, em qualquer d'estes casos nem a alma se me aproveitava, e maldisse o ter-me conciliado com tal meio de transporte! Recordei a minha recusa ao automóvel e á companhia de Frederico Bettencourt, quando este amigo, amavelmente, veio a Lisboa, para me levar para Santarém, e eu, por precaução, optei pelo ronceiro mixto das 9 e 20 da manhã. 

Aterrorisado por uma sobreroda, que me deslocou desagradavelmente, balbuciei: 

— Ai! meu rico Pai do Ceu, Nossa Senhora, valhame Deus! Jesus, Maria José! E, por achar insufficiente a minha breve e atrapalhada supplica, evoquei o dia um de novembro, com exaggerado requerimento. 

Brasier 16 20 HP de, landaulet de 1906.
Imagem: Delcampe

Convencido do grande susto em que eu ia suspenso, de repente, com uma cotovellada, o meu amigo berrou:

— Um azulejo naquella parede: 1751, Corroios. Tome nota!

E continuou a troçar de mim com judiarias, concluindo por attribuir o meu receio á minha fraqueza. Que o que eu tinha era fome, e, certo da recusa, passou-me para as mãos o cartucho das "brioches" inda por encetar, que, com surpresa sua, eu — esperando a morte — comi, desde a primeira á ultima!

Quando acabei de devorar os apetitosos e fofos bolos venezianos, declarei ao meu amigo:

— Isto é de familia. Houve uma senhora da minha gente que, quanto maior era o desgosto, mais a apoquentava a vontade de comer!

O destro "chaffeur" volta-se uma vez mais, procurando ver atravez da nuvem poeirenta que a vertiginosa carreira do vehiculo levanta, e nada de "Peugeot"!

Momentos depois, o furioso "Brazier" encosta os pneumáticos á cancella do embarcadoiro de Cacilhas. 

Ao entrarmos no vapor, o radiante sol, o sol portuguez — o meu sol, como eu lhe chamo, porque nunca o vi tão resplandecente e meigo fora de Portugal — descia a beijar o Oceano; e, quando o Lisbonense se poz em marcha, atravessando o soberbo Tejo — na imponente Natureza dois quadros surprehendiam, deslumbravam.

Á esquerda, o horizonte, como um diadema de fogo, marcado ao centro por um rubi enorme, sanguíneo, de brilhantes e trémulos raios, reproduzia-se em cada ondulação do mar palpitante, numa orgia d'oiro derretido!

Vista panorâmica de Lisboa ocidental, Maria Guilhermina Silva Reis.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Á direita, a lua, pálida, contrastava, sahindo vagarosa das aguas. Parecia uma medalha de prata fosca com lavores foscos, desprendendo-se de um comprido fio de pérolas, que se balouçava á tona d'agua, descrevendo uma entrecortada recta, do disco até ao costado da embarcação. O espectáculo era tão grandioso, que até os aturdidos fazia exaltar. 

O vapor Victória.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Uma passageira, que decerto jantara de garfo na Cova da Piedade, dizia para os seus alegrados companheiros, num riso alvar, gargalhado até ás orelhas:

— Isto é munto ca... ti... ta! (1)


(1) José Queiroz, Da minha terra: Figuras Gradas, impressões de arte, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1909

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Esta obra mandou fazer hvm devoto 1715

Sobre o pontal de Cacilhas, afogada de casario pombalino, ergue-se, maciça e tristonha, esta Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso que tomou o nome da confraria de maritimos que nela elegeu sua sede religiosa.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

É de uma só nave e apresenta as paredes, até um terço de altura, vestidas de azulejos de pintura monocromica, a azul, que devem datar do decénio 1750-1760.

O revestimento está repartido em 14 painéis, cada um emmoldurado na sua cercadura rocaille, provido de altas cabeceiras recortadas e separado dos contíguos por colunas encimadas por Vasos com flores.

Desfia-se mais uma vez nesses painéis a vida da Virgem, enaltecida nos sucessos maravilhosos anteriorese posteriores ao nascimento do menino.

Igreja da N. Sra. do Bom Sucesso, J. M. dos Santos Simões, ficha do inventário de azulejaria.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

A pintura é perfeita, a cor firme, o esmalte dos azulejos admirável. A parede fundeira do coro possue também um rodapé alto de azulejos do começo do século XIX, que concordam no estilo com a pintura do teto da igreja, lançada nos moldes "império".

Para alcançar esse coro atravessa-se um corredor estreito que acompanha a parede esquerda do templo. De um lado e outro da passagem corre um rodapé de azulejos pintados a azul, no gosto de António de Oliveira Bernardes, e onde em certa altura se encontra a inscrição da figura [...]

Imagem: Internet Archive

São também referentes á Virgem os quadrinhos que se seguem a este lambris entre anjos e folhagem. (1)


(1) Vergilio Correia, Azulejos datados, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1923

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O papá

O papá, o conhecido Vitorino Custódio, estava no apogeu do negócio: trens de aluguer na praça de Cacilhas. Os melhores veículos, os mais procurados, eram os seus. O papá vestia como um janota da época: chapéu à Mazzantini, calça justinha à perna, uma corrente de oiro, de bolso a bolso do colete, da grossura do dedo mínimo, bota de calf abotoada ao lado — sempre a rigor.

Vista panorâmica dos antigos trens de aluguer puxados por cavalos. Em 2.° plano, o marégrafo para medição de marés. Finais do séc. XIX ou início do XX. No início do séc. XX (1907), os forasteiros encontravam à saída da estação fluvial, trens ou carruagens que pelo preço de 500 a 700 réis, os transportavam a Almada, ao Alfeite e Cova da Piedade. Existiam as estalagens com trens dos cocheiros-proprietários: José Ribeiro, Narciso José, António Francisco da Silva Júnior, "Pouca Tripa", Francisco Pereira dos Santos, Domingos Manta.
in Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

O papá não guiava os trens; tinha quatro cocheiros: o Filipe, o Carvalho, o Domingos e o Severino. Em Almada, possuia uma cocheira onde guardava os carros e os animais, e onde o Américo dormia, o moço que dava as rações e lavava as viaturas [...]

Uma tarde, à hora do jantar, ainda o papá não tinha chegado, recebemos a visita de um dos nossos cocheiros: o Severino. Ouvimos da sua boca, com pasmo, que se despedia de nós, pois os seus serviços haviam sido suspensos.

Perguntámos o motivo. Ele deu aos braços, resignado: Minhas senhoras, os trens passaram de moda; agora, com a história dos automóveis americanos, tudo que seja puxado a animais vai pela água abaixo. Era a primeira vez que ouvíamos falar no prejuízo que os automóveis nos causavam

Podíamos lá supor que aquelas carripanas tão engraçadas, que uma vez por outra passavam ali pela rua, fossem a causa da tristeza do papá e da desgraça de todos nós! Que grande desgosto, ao tomarmos conhecimento da venda da primeira parelha! E quando mais tarde soubemos que a outra tinha tido o mesmo destino! Então, a nossa casa, sempre tão farta, tão feliz, transformou-se! Creio que, em toda esta fatalidade, o papá foi um fraco; não reagiu, não teve o expediente de que parecia dotado.

Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Só agora vejo bem que outro qualquer, na sua situação, ter-se-ia adaptado ao veículo que despontava, e resignado com o fatal progresso das coisas. O papá não. (1)


(1) Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992 cf. Romeu Correia

Sobre os animais que nos ajudam a viver

Embora a industrialização fosse uma realidade em vários países ocidentais, no século XIX, a mecanização dos veículos ainda não era uma prática corrente, pelo que toda a sociedade se estruturava forçosamente a partir da força animal, quer a nível dos processos agrícolas, quer no transporte de bens e pessoas.

Trens de aluguer em Cacilhas, c. 1907.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

A estes animais de tração era exigido um trabalho e um esforço muito superior às suas capacidades físicas, sendo muitas vezes mantidos em condições impróprias e tratados pelos seus proprietários com violência.

O excesso de carga, a permanência durante longos períodos de tempo a temperatu ras excessivas, a carência alimentar e hídrica por largas horas correspondiam a situações correntes no quotidiano urbano e rural [...]

As constantes inquietações com o bem-estar animal refletem-se na implementação de um conjunto de disposições destinadas a minorizar o sofrimento inerente ao trabalho quotidiano. 

Neste sentido, a Sociedade Protetora dos Animais cedeu diversos fontanários a algumas câmaras municipais, em especial na área de Lisboa e Porto, para que os animais de tração podessem saciar a sede.

Sede compassivos para com os pobres animais que vos ajudam a viver, lê-se, à esquerda da imagem, na placa aposta ao bebedouro para os animais, Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Curiosamente, após colocação destas infra-estruturas, a população com frequência furtava as torneiras e os baldes colocados nos diversos locais [...] (1)

A Sociedade Protectora dos Animais considerava maus tratos infligidos a animais não humanos os seguintes (artigo 1º, ponto 1º, Sociedade Protectora dos Animaes do Porto, 1911):
a privação de limpeza, alimentos, ar, luz e movimento em relação às leis naturais e sociais da saúde pecuária;
o trabalho excessivo sem descanso ou transporte de cargas excessivas; o obrigar a levantar os animais que caíam com chicotadas;
a exposição ao calor ou ao frio excessivo;
a aplicação de instrumentos que causassem feridas;
a utilização no trabalho de animais feridos ou famintos; 

o transporte de animais para alimentação em condições geradoras de sofrimento; 
a manutenção de animais fechados sem que possam respirar ou movimentar-se, sem comida ou água;
o depenar e esfolar animais vivos ou o seu abate através de métodos que provoquem sofrimento;
a engorda mecânica de aves;
o atiçar de animais uns contra os outros ou contra pessoas;
a exibição de animais magros em sítios públicos;
o abandono na via pública de animais domésticos feridos ou cansados;
a destruição de ninhos;
o cegar de aves canoras;
o atar aos animais objetos que os enfureçam ou causem sofrimento;
o queimar com água ou materiais inflamáveis;
o lançamento em casas de espetáculos de pombas ou outras aves;
a prática de diversões que causem ferimentos ou morte e ainda, a implementação de qualquer ação violenta que conduza a sofrimento por diversão ou maldade 


in Alexandra Amaro e Margarida Felgueiras, op. cit.


(1) Alexandra Amaro e Margarida Felgueiras, Perspetiva Histórica Sobre a Educação e o Movimento de Defesa dos Animais, Escola Superior de Educação de Coimbra, 2013

Informação adicional:

2014-08-29 | Lei (Publicação DR)

Lei 69/2014

Título: Procede à trigésima terceira alteração ao Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de setembro, criminalizando os maus tratos a animais de companhia, e à segunda alteração à Lei n.º 92/95, de 12 de setembro, sobre proteção aos animais, alargando os direitos das associações zoófilas [DR I série N.º166/XII/3 2014.08.29 (pág. 4566-4567)]

in Assembleia da República

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe; mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante [ler mais...] (1)

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

Era magro [o mestre Damião], afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. (2)
No "Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894", aparece a pequena pintura Rua da Judiaria (em Almada) (19x13 cm) como pertença do sr. Bernardo Pinheiro (Pindella), conde de Arnoso, secretário pessoal do Rei D. Carlos.

Trata-se, de uma anotação de formas, cores e luminosidade que Silva Porto eventualmente usaria numa composição maior e mais elaborada. A silhueta humana que o pintor esboça ao centro é voluvel e inacabada. Poderia ser o vendedor de peixe transportando no ombro as canastras enfiadas numa vara, ou, o aguadeiro e o burro transportando os barris com água, sugerido pelos meios-tons da sombra atrás. Os edifícios representados no primeiro plano à esquerda e no segundo à direita ainda existem.

Hoje, esta representação rápida , uma pochade, inclui-se na significativa colecção de obras de Silva Porto, adquiridas por José Relvas. Encontra-se exposta na Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça, cujo curador, Nuno Prates, teve a cortesia de nos ceder a imagem em vista deste apontamento.

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Assinalam-se a branco, na Rua da Judiaria, as fachadas de alguns edifícios viradas a poente.

Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da "gaiola pombalina" na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca [e Largo Boca de Vento] onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976
(3) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX

Informação relacionada:
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa...,, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A Arte da Guerra e o Castelo de Almada

No alto de um pittoresco monte sobranceiro ao Tejo, fica o castello, que foi construído no reinado de D. Manuel ampliado em 1666 por mandado de D. Affonso VI [...]

Fort d'Almade, 1685, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre, Alain Manesson Mallet, 1696.
Imagem: Columbia University

As principais obras aqui realizadas estavam associadas a períodos de instabilidade política, como por exemplo a Guerra da Restauração (1640-1668), quando o Castelo de Almada foi reparado entre 1658 e 1666; (1)

Painel de azulejos na rua da Quinta da Horta, no Pragal, em Almada.
Imagem: Rui Coutinho

Alain Manesson estuda matemática e geometria com o engenheiro militar Philippe Mallet, que ensina desde 1654 no colégio de Bourgogne. Manesson Mallet seguidamente torna-se mosqueteiro no regimento da guarda de Louis XIV. 

Em 1663, por instância de Pierre de Massiac, parte para Portugal, então empenhado na ultima fase da Guerra da Restauração (1640-1668) para entrar ao serviço de Afonso VI.

Método para fortificar as Cidades com uma nova Muralha, em aí encerrando a Antiga

Vista do castelo de Almada e de Lisboa, 1663 (detalhe).
Imagem: Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars, ou l'art de la guerre

Da Ortografia; Perfil ou Representação da Altura dos Terraços; e das Larguras e Profundidades dos Fossos

Fort d'Almade, 1685, Op. Cit.
Sob as ordens do marechal Schomberg, serve como engenheiro de campo e armas do rei e depois como sargento-mor de artilharia na província do Alentejo. Fortifica nomeadamente os castelos de Arronches (1666) et de Ferreira (1667) e estabelece reparações nos sistemas defensivos de Évora e Estremoz.

Após a assinatura do tratado de Lisboa (1668), Manesson Mallet regressa a França [...] (2)

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no fim do século XVIII, num período conturbado da política europeia, o Castelo de Almada (fig. 6), que fora severamente danificado com o terramoto de 1755, foi totalmente reedificado com o apoio da população almadense em 1797, segundo projecto de Francisco d’Alincourt, também responsável por um projecto de uma nova fortificação da Torre Velha da Caparíca e respectiva bateria baixa de 1794 e 1796, e só em parte construído, o qual fora ordenado pela rainha D. Maria I ao Marechal General Duque de Lafões, sendo inspector Guilherme Luís António de Valleret, no ano de 1794. (3)

Planta do castelo de Almada em 1772.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes.

O rio Tejo, abaixo e oposto a Lisboa, é ladeado por rochas íngremes e grotescas, particularmente no lado sul. Essas no arco sul, são geralmente mais altas e muito mais magníficas e pitorescas que os penhascos de Dover. Sobre uma das mais altas dessas rochas, e diretamente opostas a Lisboa, permanecem as ruínas planas do Castelo de Almada.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Em dezembro, 1779, como o Autor deambulava entre estas ruínas, foi atingido pela ideia, e formou o plano do seguinte poema; uma ideia que, pode permitir-se, foi natural para o Tradutor dos Lusíadas, e o plano pode, até certo grau, ser chamado como um suplemento a esse trabalho [...] (4)

Vista geral de Lisboa, tomada perto de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa
Será contudo no período da Guerra Peninsular, que se verificará o conjunto mais vasto de obras de fortificação quer da Linha de Defesa da Margem Sul, quer do Castelo de Almada (1814, fig. 6), as quais foram decididas pelo Gen. Wellesley (futuro Duque de Wellington) e conduzidas por militares britânicos, nomeadamente o Eng.° Goldfich e o Tenente Coronel Richard Fletcher dos "Reaes Engenheiros Bretanicos", assim como pelo Major Neves Costa.

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante a Guerra Civil realiza-se em 1833 uma nova campanha de obras no Castelo de Almada por iniciativa de D. Miguel, e presumivelmente conduzidas pelo Eng.° Louis Mounier, nas quais o castelo foi ampliado. (5)

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia


(1) Rui M. Mesquita Mendes, Obras Pública nos Concelhos de Almada e Seixal..., Centro de Arqueologia de Almada, 2015
(2) Wikipédia
(3) Rui M. Mesquita Mendes, idem
(4) William Julius Mickle, Almada hill: an epistle from Lisbon, Oxford, W. Jackson, 1781
(5) Rui M. Mesquita Mendes, idem, ibidem

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Gallica, Biblioteque nationale de France:
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre

Artigos relacionados:
Defesa de Lisboa em 1810
Defesa de Lisboa em 1834

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Alfeite em 1881, a pintura naturalista ao ar livre de António Ramalho

Em 1880, ainda aluno das Belas-Artes, nas suas peregrinações artísticas em companhia do mestre Silva Porto descobrem um determinado recanto da praia do Alfeite, na margem fronteira a Lisboa. Trata-se de uma pequena enseada bordejada por falésias, com o casario de Almada recortado ao fundo na linha do horizonte.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Ambos irão pintar o local, colocando o cavalete em pontos próximos. Ramalho retomará, ao longo dos meses seguintes, o mesmo ponto de vista em diversas versões, utilizando quer o óleo quer a aguarela, de que desde cedo se tornou exímio executante [...]

Praia do Alfeite, aguarela, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Com o recuo do ponto de vista, o volume dos rochedos e da massa do casario perde peso no interior da composição, que, entretanto, ganha uma nova espacialidade interior, através do prolongamento da extensão do areal [...]

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Guiado pelo exemplo tutelar de Silva Porto, através do seu convívio e ensinamentos, António Ramalho enfrenta o tema da paisagem, procurando-se a si próprio. A lição do paisagismo francês e dos pintores de Barbizon só a conhece por intermédio das notícias e dos trabalhos do próprio Silva Porto [...]

Paisagem na Real Quinta do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Quase despercebida entre os troncos e as sombras, deparamo-nos com a figura do pequeno cavador que trabalha para manter aberto e limpo o canal de rega, veio de vida neste espaço cultivado [...]

Pomar do Antelmo, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

O tema da paisagem com laboriosas lavadeiras [...] parecia agradar ao público e à crítica. As comuns tarefas quotidianas, desempenhadas por homens e mulheres do povo, passavam a constituir motivo de interesse para os pintores.

Lavadeiras na Romeira, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

A Ramalho não interessava, porém, registar o aspecto documental dessas cenas mas antes reforçar a sua valorização poética. (1)


(1) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004 

Artigos relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1881
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira