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sábado, 17 de abril de 2021

Gregório, do Cacilhense...

Gregório
Revista Stadium n° 345, 1949
Cacilhas, a vila da outra margem do Tejo, que amorosamente fita Lisboa. O alfacinha que por ela nutre particular admiração e estima, não se furta o grato prazer de a visitar da quando em vez, animando-lhe buliçosamente as ruas e retiros nos domingo e dias feriados.

No recuado ano de 1930, nas ruas menos concorridas, sobre o basalto, a miudagem que rondava pelos 13 anos, dava largaa à inontida fúria pela bola, disputando interminavelmente desafios que, geralmente, só findavam devido à intervenção dosprogenitores da policia ou da guarda republicana.

Entre os pequenitos Gregório Gonçalves dos Santos nascido em 26-1-1917, distinguia-se pela vivacidade endiabrada, pelo fôlego inexgostavel, pela indiferença com que sacrificava a biqueira das botas... até que o pai resolveu não as deixar ao alcance do azougado garoto... que jogava descalço, então, sacrificava os dedos dos pês à alegria de jogar com uma bola de borracha ou de trapo... embora, depois, ao chegar a casa, o pai jogasse com ele de maneire diferente...

O número de miúdos cresceu de tal forma que chegou um dia em que resolverem, multo simplesmente, fundar um clube. Apareceram vários nomes, mas só um deles mereceu aprovação unanime, pelo seu simbolismo: "Cacilhense".

Criado o clube, faltava uns bola de coiro, igual ou parecida com as dos jogadores de verdade. Qual a solução?

Todo o dinheiro obtido pelaa dádiva dos pais ou dos amigos era empregado na compra de rebuçaods,— daqueles que tinham concurso dos emblemas dos principais clubes. E, assim, foi resolvIdo tão magno problema!

Teve, porém, efémera duração o grupo. Na ano seguinte, já com os miúdos na idade de 14 a 15 anos, novo clube surgiu em substituicão do primeiro o "Bombense".

Os jogos passaram a realizar-se no Campo do Ginásio Clube do Sul, com bola de cautechu, pagando cada miúdo dez tostões para o aluguer. Claro que, os desafios não tinham hora certa de duração.

Aos 16 anos, Gregório, ingressava no Ginásio, proprietário do campo onde começara a revelar a sua intuição futebolística, participando em vários desafios... já a valer, mas com carácter particular. Alinhava também, visto que não assinara ficha, no Pedreirenee F. C. hoje fusionado com o Atlético Clube de Almada e no União Piedense, hoje Clube Desportivo da Cova Piedade, entre outros. (1)


(1) Stadium n.° 345, 13 de julho de 1949

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Clube Recreativo José Avelino

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O edifício da União Eléctrica Portuguesa

O antigo edifício da União Eléctrica Portuguesa, projectado pelo Arquitecto Francisco Keil do Amaral, surgiu da necessidade que a Companhia Nacional de Electricidade tinha de estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Entrada Conjunto Pormenor.
Arquivo Municipal de Lisboa

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo que integrava a subestação tinha um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. No entanto, era ainda neste local que se situavam todos os serviços de apoio ao transporte de energia.

Em termos da evolução histórica da zona a intervir, pode-se claramente distinguir quatro fases, todas elas temporalmente situadas no século XX.

A fase inicial, realizada entre 1930 e 1940, traduziu-se num pequeno edifício residencial, de autor desconhecido, característico da arquitectura do regime de então. 

Almada, geradora eléctrica, localizada no Campo de S. Paulo, ed. desc., década de 1930.
Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

A segunda fase foi já protagonizada pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, em 1940. O edifício em forma de L e a sua torre vertical ficaram acabados em 1945 e tinham como fim alojar os escritórios da União Eléctrica Portuguesa.

Almada, rua Bernardo Francisco da Costa, ed. desc., década de 1960.

Com o passar do tempo foi necessário expandir os escritórios e criar armazéns, tendo-se assim dado início à terceira fase. Grande parte desta inter- venção constava já do projecto original de Keil, ao qual foi apenas necessário acrescentar a casa do Guarda e a conexão com o edifício pré-existente.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Escada Fachada.
Arquivo Municipal de Lisboa

A quarta e última fase consistiu numa série de adições necessárias de re- alizar, tal como o novo volume em betão que servia para estacionamento. Na construção e no acabamento da obra de Keil foram usadas paredes duplas de tijolo, rebocadas com argamassa de cimento e areia ao traço de 1x4 e pintadas com “aquella”. Ao nível dos pavimentos, foram colocados mosaicos de “marmorite” e de cimento com óxido de ferro.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Sala de vendas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Adicionalmente, nesta obra usou-se ainda um vasto conjunto de materiais, nomeadamente socos de cantaria bujardada provenientes de Sesimbra, caixilharias de pinho pintadas a esmalte, com uma vidraça mecaniza- da nacional de 4mm, e ainda telha “marselha”, em lugar da tradicional telha “lusa”. (1)


(1) Reabilitação da antiga subestação da união eléctrica portuguesa, em Almada (abstract)

Mais informação:


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O papá

O papá, o conhecido Vitorino Custódio, estava no apogeu do negócio: trens de aluguer na praça de Cacilhas. Os melhores veículos, os mais procurados, eram os seus. O papá vestia como um janota da época: chapéu à Mazzantini, calça justinha à perna, uma corrente de oiro, de bolso a bolso do colete, da grossura do dedo mínimo, bota de calf abotoada ao lado — sempre a rigor.

Vista panorâmica dos antigos trens de aluguer puxados por cavalos. Em 2.° plano, o marégrafo para medição de marés. Finais do séc. XIX ou início do XX. No início do séc. XX (1907), os forasteiros encontravam à saída da estação fluvial, trens ou carruagens que pelo preço de 500 a 700 réis, os transportavam a Almada, ao Alfeite e Cova da Piedade. Existiam as estalagens com trens dos cocheiros-proprietários: José Ribeiro, Narciso José, António Francisco da Silva Júnior, "Pouca Tripa", Francisco Pereira dos Santos, Domingos Manta.
in Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

O papá não guiava os trens; tinha quatro cocheiros: o Filipe, o Carvalho, o Domingos e o Severino. Em Almada, possuia uma cocheira onde guardava os carros e os animais, e onde o Américo dormia, o moço que dava as rações e lavava as viaturas [...]

Uma tarde, à hora do jantar, ainda o papá não tinha chegado, recebemos a visita de um dos nossos cocheiros: o Severino. Ouvimos da sua boca, com pasmo, que se despedia de nós, pois os seus serviços haviam sido suspensos.

Perguntámos o motivo. Ele deu aos braços, resignado: Minhas senhoras, os trens passaram de moda; agora, com a história dos automóveis americanos, tudo que seja puxado a animais vai pela água abaixo. Era a primeira vez que ouvíamos falar no prejuízo que os automóveis nos causavam

Podíamos lá supor que aquelas carripanas tão engraçadas, que uma vez por outra passavam ali pela rua, fossem a causa da tristeza do papá e da desgraça de todos nós! Que grande desgosto, ao tomarmos conhecimento da venda da primeira parelha! E quando mais tarde soubemos que a outra tinha tido o mesmo destino! Então, a nossa casa, sempre tão farta, tão feliz, transformou-se! Creio que, em toda esta fatalidade, o papá foi um fraco; não reagiu, não teve o expediente de que parecia dotado.

Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Só agora vejo bem que outro qualquer, na sua situação, ter-se-ia adaptado ao veículo que despontava, e resignado com o fatal progresso das coisas. O papá não. (1)


(1) Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992 cf. Romeu Correia

sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato

A evocação de Bulhão Pato (1829-1912)

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Quando Bulhão Pato veio para a Torre de Caparica em 1890 já eu por cá andava, á roda dos 33 de idade, e o poeta com os seus 60 já cumpridos em boa graça. Que homem! Que figura!

D. Francisco recorda que seu avô, D. José Maria Carlos de Noronha e Castilho, foi governador militar desta região.

"Eu pertenço um pouco a Almada, e aqui hei-de morrer, com a minha modestia e aquilo a que chamam a minha originalidade. A verdade é que vivo entre livros e recordações".

— Bulhão Pato...

— Naquele tempo convivia-se, e, fosse qual fosse a idade, fazia-se o possível para se ser rapaz. Bulhão Pato, que fora muito de Herculano, em cuja casa da Ajuda viveu ai por 1847-48, faz agora um século — imagine! — casa para onde depois foi viver Garrett, veio para a Torre já com a sua obra literária afamada.

 Palácio d'Ajuda, c. 1900. À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Ele principiara a "Paquita" em 1851 mas veio aqui acabá-la. A casa de Pato era maneirinha; o poeta pontificava em familia. Vinham — eu era mais novo do que eles — Urbano de Castro, que tinha uma casa em Costas de [do] Cão, o meu parente D. João da Camara, o Zacarias de Assa [d'Aça], o Henrique Lopes de Mendonça.

D. João da Câmara (1852-1908).
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi a estes que Bulhão Pato leu os ultimos versos da "Paquita"; eu não assisti. João Barreira, que era médico na freguesia, relacionou-se por essa época. Lembro-me destes homens. 

E apareciam também o grande João de Deus, Rangel de Lima e Marcelino Mesquita, ás vezes. Um grande companheiro de Bulhão Pato, foi o Eduardo Ferreira Pinto Basto, mas este era só para passear. Outro: o Teodoro Ferreira Pinto.

E volta ao poeta do "Livro do Monte".

— Era uma pessoa admirável. Trabalhava quando para tal sentia disposição. Não tinha horas formais. Passeava muito a pé por essas quintas, e imagino que, quando sózinho, compunha, a andar, versos ou tecia memórias.

Descendia dos Pereiras Patos Moniz, de Alcochete, e dos Alvares de Bulhão Eu tenho muitos anos de vida, corri algum mundo em Portugal e lá fora; dei-me com belos espiritos. Pois nunca encontrei melhor cavaqueador, mais fino e travesso. Era um gosto ouvi-lo. Nunca o ouvi falar de politica, e mesmo de polémicas literárias pouco dele discorria.

Lembra-se do "Lázaro Consul", resposta a uma suposta alusão do Eça, nos "Maias"? Eu nunca escutei nada da sua boca a este respeito... D. Francisco de Noronha lembra que Bulhão Pato tinha, apesar de romantico uma certa veia sarcástica. "De quem ele gostava muito era do Eduardo Schwalbach, que ás vezes aparecia, e pernoitava mesmo na casa da Torre. O Eduardo também vinha por minha casa. Era da minha idade, pouco mais, muito mais novo que o Pato. Tinha muita graça..."

Eduardo Schwalbach (1860-1946).
Imagem: Livreiro Monasticon

O fidalgo de Almada — que é ribatejano, da raia da Beira Baixa — esclarece-nos que Bulhão Pato nunca abandonou Lisboa, ao contrário do que se supõe. Ia lá quase todas as semanas. Almoçava então numa casa de pasto da Travessa dos Remolares, com o António Covas [Tovas], seu afilhado, deambulava pelo Rossio e Chiado, e regressava á tarde. E evoca:

— O poeta era muito de patuscadas inocentes e campestres, e de caçadas, mais inocentes ainda. Eu ás vezes aparecia. Ora uma vez...

— Mas o senhor deve saber...

— Diga... diga...

— Vem nos livros. O Bulhão Pato enviou urna vez ao Urbano de Castro um presente de urna pescada, com pimentos, que era de se lhes tirar o chapeu. Logo Urbano de Castro replicou por um bilhetinho:
Tem boa pinta a pescada,
são famosos, os pimentos...
A mana, muito obrigada,
envia os seus cumprimentos.

No Monte de Caparica,
termo e concelho de Almada,
há um Pato — coisa rica —
um Pato que dá pescada.
— Isto são recordações de velho. Eu não era ainda deste mundo, mas sei: Uma das primeiras poesias de Bulhão Pato foi a famosa "Se coras, não conto...", mais tarde reunida num livro de poesias. E ele ás vezes repetia, com saudades dos seus dezoito anos. A poesia é de 1847! Isto é: há um século...

E continua:

— Outro que era muito de Bulhão Pato, posto que não intimo, era o Manuel de Arriaga. Um irmão, mais novo deste, chamado Miguel, tinha em Almada uma quinta no Vale das Flores, Bulhão Pato ia por lá. E Manuel de Arriaga, quando foi eleito presidente da Republica, logo foi visitar o poeta de "Sob [os] Ciprestes", à casa da Torre, onde; agora vamos, pôr uma lápide.

Olhe, por coincidência: o actual presidente da Camara de Almada, o Luís Arriaga [de Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada (1947-1951)], é sobrinho de Manuel de Arriaga, filho de uma irmã deste, D. Maria Adelaide Sofia, se bem me recordo. Isto é o meu tempo de rapaz a desfiar...

O Manuel de Arriaga a mim tratava-me por "Francisquinho". Está aqui nas dedicatórias dos livros.

E conclui:

— Por tudo isto eu associo-me á ideia da lápide, da qual tive a iniciativa em Setembro de 1912. Ainda bem que vocês, rapazes, com o Luís de Arriaga tomaram isto a peito. Eu não posso talvez lá ir. As minhas pernas vergam, e como a memória está fresca, receio emocionar-me.

D. Francisco de Noronha, com a sua barbicha, a sua mão em concha, porque o ouvido já o atraiçoa, a sua camisa gomada sem colarinho, o seu olhar azul pisco, a sua andaina de andar na horta, com uns "sobrinhítos" que tem em casa, o seu chapeu rustico cozido a cordeis, o seu abraço muito largo, "do tamanho do mundo" — mostra-nos os seus formosos e poeirentos livros de boa biblioteca clássica, a par de livros de Antero e de tomos de transcendente filosofia. Vai-nos conduzindo ao portal, onde uma cadela céguinha faz as honras de porteira.

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas.

— Pois no domingo eu estarei com o Bulhão Pato. Aonde não sei. E se o virem — façam-lhe lembranças minhas... Há cem anos: "Se coras, não conto".

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: Pintar a Óleo

O descerramento da lápida

O descerramento da lápida efectua-se amanhã, ás 17 horas, no prédio onde morreu Bulhão Pato, faz agora 36 anos. O elogio literário do poeta será feito pelo professor dr. João Barreira, já octogenário, um dos raros sobreviventes do grupo que mais conviveu com o poeta na Torre da Caparica, de 1890 a 1912. 

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

Assistem representantes da familia de Bulhão Pato e de outras que foram do convivio do poeta os vereadores de Almada, um vereador da Camara Municipal de Lisboa, autoridades de Setubal e do concelho.

Norberto de Araújo discursa, tendo ao seu lado direito, a 11ª Condessa dos Arcos, D. Maria do Carmo Giraldes Barba Noronha e Brito, e ao seu lado esquerdo, o médico e historiador de Arte – Professor Dr. João Barreira, que fez o discurso evocativo, D. Margarida Bulhão Pato, sobrinha do Poeta, o Comandante Sá Linhares, Presidente da Câmara Municipal de Almada e o jornalista e director do jornal «A Voz», Pedro Correia Marques.
in Norberto Araújo (1889-1952)

Serão lidas palavras do dr. Julio Dantas, traçando o perfil de Bulhão Pato, e usará da palavra o presidente da Camara de Almada, comandante Arriaga de Sá Linhares.

Podem aproveitar-se camionetas de Cacilhas à Torre, das 15 e 40 e 16 e 25. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1948

Artigo relacionado:
Largo Gil Vicente


Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Art Deco

Das recentes dissertações que nos referem (1 de 2)

Art Deco: estilo que surgiu na década de 1920 ganhando força nos anos 30 na Europa e na América do Norte e do Sul e que abrangeu a moda, a arquitectura, as artes plásticas, o design gráfico, a tipografia e o design industrial.

Ilustração de Cassiano Branco, L'Illustration 4963, 16 April 1938.
Imagem: Old french Adverts

O estilo deve o seu nome à Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais modernas (em francês: Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes), realizada em Paris, em 1925.

Fasten Your Seat Belt, Stephan Paris, 2010.
Imagem: DeviantArt

Essencialmente era um estilo decorativo que combinava luxo, e ornamentação formal, e que apresentava cores discretas, traços sintéticos, formas estilizadas ou geométricas.

Costa da Caparica, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A aproximação da construção à área costeira limitou a forma de ver a possibilidade e potencialidades locais de crescimento urbano, resultando em aglomerados habitacionais próximos da praia, por vezes até de uma forma potencialmente perigosa.

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Por estas razões talvez o plano de Cassiano Branco fosse utópico para a época mas também será verdade afirmar que seria em muitos aspectos um plano actual, realista caso tivesse sido implementado, atribuído um rumo bem diferente àquela região.

Breakwater Hotel, South Miami Beach.
Imagem: Art Deco Tours

Observemos então a proposta de Cassiano Branco ou o postal e, a partir dele, desenvolvemos algumas reflexões, necessariamente especulativas essencialmente porque não existem textos que acompanhem a reflexão sobre o território, que pretendem descodificar as motivações, compreender os enquadramentos e comentar um desejo de uma nova cidade.

Hotel, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

O postal que representa uma proposta utópica para a Costa da Caparica, que seguramente não é somente um simples postal, prefigura uma cidade de lazer, particularmente apetrechada com equipamentos desportivos, lúdicos e culturais, que também, seguramente, não são imagem de Portugal dos anos 30, como não é igualmente representativa das tendências urbanísticas impostas pelo Estado-Novo.

Casino, Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1934.
Imagem: Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

Efectivamente, só na década seguinte se realizaram em Portugal alguns Planos de Urbanização de algumas estâncias de férias do litoral, cujos programas são quase exclusivamente a habitação unifamiliar, o hotel, o mercado e a igreja, não tendo contudo um caracter tão abrangente no território como o Plano da Costa da Caparica de Cassiano Branco.

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Refira-se uma vez mais que os limites deste plano não são claros mas, referenciando a extensão da Arriba Fóssil, quase que podemos afirmar que ele se estende desde a Costa da Caparica até à zona da Fonte-da-Telha.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

São propostas registadas em planta que apresentam uma estrutura viária disciplinada e hierarquizada em função de pequenas rotundas ou praças, à qual corresponde também uma hierarquização do programa.

Costa da Caparica, ed. Gama Freixo.
Imagem: Delcampe

Prevalece um cenário de Cidade-Jardim muitas vezes associado à intenção de preservação e aproveitamento do património vegetal pré-existente.

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

A cidade jardim é um modelo de cidade concebido por Ebenezer Howard, no final do Séc. XIX, consistindo em uma comunidade autónoma cercada por um cinturão verde num meio-termo entre campo e cidade.

San Alfonso del Mar Crystal Lagoon, Algarrobo, Chile.
Imagem: Mail Online

A ideia era aproveitar as vantagens do campo eliminando as desvantagens da grande cidade, mas nem sempre pode ser um sinónimo de eco-cidade. (1)

Costa da Caparica, vista aérea, c. 1980.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard


(1) Rufino, A. M. A. C. P, Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade, Lisboa, , 2014

Artigos relacionados:
Costa da Caparica — urbanismos
A ponte

Informação relacionada:
Arquivo RTP: Vida & Obra de Cassiano Branco

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Largo Gil Vicente

No último quartel do século XIX construiu-se a nova estrada Cacilhas - Trafaria que aproveitou parte das antigas azinhagas. A sul de Almada abriu-se um troço inteiramente novo desde onde é hoje a praça Gil Vicente [...] (1)

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

D. Francisco de Melo e Noronha (1863 - 1953)... muito respeitado nesta sua terra de adopção, onde residia em casa própria, no fim da Estrada Nova [...]

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Correia, Romeu,
Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

A sua residência, conhecida pela Casa do Gato, foi adequada, respeitando a sua vontade, a um liceu. (2)

Almada, Casa do Gato, posteriormente Externato Liceal de Almada (Externato do Gato), década de 1960.
Imagem: Casario do Ginjal

A partir de Julho de 1947 a CMA começou a vender, em hasta pública, os lotes resultantes da expropriação da Quinta do Conde [de Assumar, provavelmente D. João de Almeida Portugal], uma das propriedades sobre as quais incidia o PPUA [Plano Parcial de Urbanização de Almada, aprovado em abril de 1947]. 
Figueirinhas — Nome do sítio que abrangia as terras onde estão hoje o Largo de Gil Vicente, o princípio da Avenida D. Afonso Henriques e o princípio das ruas D. Sancho I e Bernardo Francisco da Costa.
O topónimo está em desuso e mesmo completamente esquecido.

Em 1665 o Conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, arrendou ao Capitão-Mor Álvaro Pereira de Carvalho, uma propriedade no sítio "aonde chamam as figueirinhas" que contactava "da banda do Sul com a estrada pública que vem da Mutela para Cacilhas... e do Norte com a estrada que vem de S. Sebastião para Cacilhas".

in PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Almada, rua D Sancho I, em segundo plano figuram a "Casa do Gato" e a ainda área rural, década de 1950.
Imagem: almaDalmada

As verbas resultantes da venda de lotes e as receitas da água (desde 1945) foram aplicadas nas amortizações dos empréstimos e na implementação das obras de urbanização [...]

Entrada da Av. Afonso Henriques, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 172.

O PUCA [Plano de Urbanização do Concelho de Almada, entregue por Étiènne de Gröer em setembro de 1946] e o PPUA previam o desenvolvimento urbanístico de Almada para sul, em torno de uma avenida central, designada por Rua I (actual Avenida Afonso Henriques) e construída paralelamente ao antigo eixo de ligação a Cacilhas (a chamada estrada nova).

Fotografia de António Homem Christo,
in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

Entre as duas vias desenvolver-se-ia o novo centro cívico da vila, comercial, administrativo e religioso [...]

Praça Gil Vicente, vista parcial e início da Estrada Nova, década de 1950.Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Embora a JAE tivesse assumido a construção da avenida central da zona nova de Almada, que constituía um troço da "estrada turística", e tivesse desenvolvido a sua ligação alternativa a Cacilhas, aquela nunca foi construída, nem as projectadas circulares. 

Almada, Praça Gil Vicente,ed. Postalfoto, 12, década de 1960.
Imagem: Delcampe

A ideia da cidade-jardim foi-se perdendo a partir da aplicação da legislação que reintroduziu a lógica do primado do loteamento particular, em oposição à urbanização planeada e executada pelos municípios da época de Duarte Pacheco. (3)

Almada, Praça de Gil Vicente e fonte luminosa, Ed. da Comissão Municipal de Turismo de Almada, 2, c. 1970.
Imagem: Postais Ilustrados


(1) PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(3) Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Praça da Renovação

Além do mercado Municipal na sua forma mais antiga, observa-se parte da Estrada Nova, denominada de rua Bernardo Francisco da Costa. A Estrada Nova era, então, o principal trajecto pedestre que as pessoas faziam no regresso à vila, provenientes de Cacilhas. 

Almada, vista poente do novo mercado construído em terrenos dexanexados à então zona rural, 1933.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Este caminho e a calçada da Pedreira (actual rua Elias Garcia) eram até meados dos anos 30, praticamente isentos de propriedades urbanas, sendo apenas circundados por imóveis rústicos.

Almada, vista sul do mercado, da Estrada Nova, a actual rua Bernardo Francisco da Costa e, ao fundo, próximo do "Prédio Queimado", o palácio do Marquês de Fronteira, que o havia herdado da Marquesa da Alorna, sua avó, década de 1930 ou 1940.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Além da praça, a estampa [abaixo] ilustra, à direita, o edifí­cio da Pensão Barros, o Tribunal em construção e diversas propriedades que nos anos 40, pertenciam ao Casal dos Ser­ras (onde hoje, se situam a rua Fernão Lopes, rua de Oli­vença e parte da avenida D. Afonso Henriques [...] (1)

Almada, rotunda da Praça da Renovação e acessos em construção, c. 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

De facto com o Plano de Urbanização desenvolvido por De Gröer [1946], Almada viu o seu crescimento seguir de forma relativamente mais organizada e segundo um planeamento definido.

Almada, Pensão Barros, rua de Olivença, c. 1950.
Imagem: Maria do Céu Ramos

Contudo, foi na década de 50, com o arquitecto Rafael Botelho em conjunto com a Câmara Municipal e a convite do arquitecto Faria da Costa que surgiu o Gabinete de Urbanização a Câmara Municipal de Almada. 

Almada, Avenida D Afonso Henriques, ed. J. Lemos, 18, década de 1950.
Imagem: Nuno Machado

Neste seguimento, Almada passou a seguir um desenvolvimento de vários estudos urbanísticos, nomeadamente Planos Parciais de urbanização. (2)

Almada, avenida D. Nuno Álvares Pereira, fotografia Julio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Foi um acontecimento de relevo para a vida de Almada a inauguração do
 

Café Central

ALMADA que, dia após dia e, em ritmo acelerado, se transfigura e se embeleza, acaba de ser dotada com mais um melhoramento que em muito a valorizará: o novo "Café Central", pertença do conceituado construtor civil sr. João Morgado e situado numa das principais artérias do burgo, Praça da Renovação, "é mais uma pedra que acaba de ser colocada no já grande e imenso plano de melhoramentos locais", levados a cabo pela iniciativa particular, para uma Almada moderna e cosmopolita [...]


in Voz do Tejo, edição de 9 de junho de 1956, citado em almaDalmada

Em Almada havia dois Cafés, lado a lado, separados apenas pela entrada do prédio de três andares, (onde se instalaram nos baixos), e por uma tabacaria que dava para aquela praça.

Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, 29, década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Um, o maior, era o Central, o outro era o Dragão Vermelho, o tal que eu mais frequentava.

Os referidos Cafés tinham no exterior e á sua frente esplanadas contíguas, voltadas para a Praça da Renovação, onde, especialmente à noite, a tomar cafés e, aos domingos de manhã, a beber um Martini, caía toda a gente semi-chique, tigela e meia-tigela. Chique não havia, ou, se havia, não se notava nem nada dava a entender.

Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Imagem: almaDalmada

O Central, embora frequentado pela maioria da populaça, por ser mais amplo e ter alguns refúgios recatados, era o preferido dos chamados intelectuais. Ali escrevia desalmadamente Romeu Correia, despontava Fernando Pernes, que havia um dia ir para a Casa de Serralves, no Porto, e advogados, como o Herculano Pires da esquerda moderada e o Luís Álvaro, uma ave nocturna muito minha amiga, da direita também moderada.

Os dois moderados de sinal contrário, por todas as razões e mais esta, mantinham-se em guerra intestina e odiavam-se figadalmente.

Rotary Club de Almada

Luís Álvaro era dos Rotários, o que na altura dava bastante penacho, e sempre pôs uma bola preta em Herculano para que este dentro deles não conseguisse pôr um só dedo dum qualquer pé. Este e outros rejeitados, cheios de despeito recalcado, haviam de vir a criar os Lions de Almada, não por amor aos ceguinhos, mas como adequada retaliação.

Lions Clube Almada Tejo

O Dr. Luís Álvaro, cerca de vinte anos mais velho que eu, era um jovem companheirão, muito observador e crítico mordaz, com quem me fartei de divertir. Ficávamo-nos umas vezes por Almada a tagarelar e deslocavam-nos algumas até ao Muxito mordiscar um pouco de ambiente nocturno a ouvir, ao vivo, um pouco de música dançável, às vezes com uns fadinhos pelo meio, muito bem cantados pela Saudade dos Santos.


Nas amenas noites de Verão íamos tomar um cafezinho numa qualquer esplanada da já insuportável Caparica, onde a Dona Ausenda, uma matrona livre de compromissos, não sei se solteirona, viuvona ou outra ona qualquer, a ele se atirava descaradamente e ele dela, pelo menos em público, cortesmente fugia a sete, ou mais, pés. Algo me diz que ela era uma das suas consulentes "habituées", daquelas que o iam ver frequentemente ao consultório, como quem ritualmente se vai benzer à bruxa.

O advogado Luís Álvaro vivia e tinha o seu escritório no coração de Almada, bem junto ao jardim e ao novo Tribunal.

Fotografia de António Homem Christo,
in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

Conhecia meio mundo, muito mais por dentro do que por fora, e ia-me contando, sem nunca quebrar o sagrado sigilo profissional, engraçadíssimas histórias, muitas delas muito podres, de toda aquela gente de casca muito fina e interior muito grosso de quem ele, de ginjeira, conhecia muito melhor o tenro e escondido miolo do que a dura e bem visível casca. Ríamo-nos os dois, com muito gosto, à custa das graças envenenadas de um e das tretas não menos venenosas do outro, e vice-versa.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

Ao Dragão ia gente como eu, ou até pior; iam, por exemplo, os irmãos do trio Odemira e vários fadistas e cançonetistas baratos e muito mal cotados; também iam algumas senhoras acompanhadas dos seus maridos a quem, com todo o empenho, notoriamente punham os palitos, para não estar para aqui, em frente de toda a gente, a dizer cornos.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Na Praça da Renovação, hoje abrilescamente designada por Praça das Forças Armadas, havia uma papelaria, uma outra tabacaria, onde eu comprava o “Janeiro”, uma farmácia, um oculista, a Calhandra, (que era um snack-bar), o Stand Mirco, os Correios e, que me lembre,

Praça da Renovação, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 173.

pouco ou nada mais. (1)


(1) Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1985, 189 págs.
(2) Almeida, Gonçalo, Miguel Pires de, Densidade e Forma Urbana..., Densificação como valor de projecto e estratégia de desenvolvimento urbano, Lisboa, Faculdade de Arquitectura de Lisboa, 2011
(3) Isolino de Almeida Braga