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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Ode marítima (perto do outro lado do rio)

Lisboa. Vista panorâmica (8049 ed. desc.).
Delcampe

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui há uns momentos!
Histeria das sensações — ora estas, ora as opostas!
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe
As coisas de acordo com esta emoção — o marulho das águas,
O marulho leve das águas do rio de encontro aos cais...,
A vela passando perto do outro lado do rio,
Os montes longínquos, dum azul japonês,
As casas de Almada,
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... (1)
.  

Vista de Lisboa e Tejo (ed. desc.).
Delcampe


(1) Álvaro de Campos, Ode marítima, 1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)

O registro dos tipos sociais se tornará efetivamente um tema para artistas portugueses somente a partir de inícios do século XIX, difundindo-se pelo viés "pitoresco" da literatura de viagem. E, nesse sentido, mostra-se semelhante ao caso brasileiro. 

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Admite-se que a primeira publicação a trazer estampas de tipos portugueses seja Travels in Portugal, do irlandês James Murphy, publicado em Londres em 1795

A portuguese merchant and his wife and maid servant, Travels in Portugal... 1789, 1790, James Cavanagh Murphy.
Biblioteca Nacional de Portugal

Segue-se a esta publicação o surgimento de uma coletânea de gravuras de fatura portuguesa em 1806, atribuída a Manuel Godinho, abridor de registros de santos e “estampinhas” devotas. Era aluno de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), gravador especializado na Itália e criador da Aula de Gravura da Imprensa Régia.

Quer bote?
O barqueiro, Manuel Godinho, 1809.
O Mundo do Livro

As coleções de costumes de Lisboa  de Godinho totalizavam 70 estampas gravadas a buril que seriam republicadas com acréscimos em 1809, 1819 e 1826 com títulos como Ruas de Lisboa ou Povo de Lisboa.

Os demais exemplos relativos ao século XIX surgidos durante a pesquisa são prioritariamente estrangeiros.

De 1809, por exemplo, datam as têmperas do francês Félix Zacharie Doumet (1761-1818), atualmente no acervo do Museu da Cidade, que bem estariam por merecer um estudo comparativo com as aquarelas de Debret. 

La conversation portugaise ou le temps perdu, Zacharie Félix Doumet.
ComJeitoeArte

Do mesmo ano, data a publicação de Sketches of  the country, character and costume in Portugal and Spain de William Bradford, editado em Londres, que comporta quinze gravuras de tipos portugueses.

Aqueduct of Alcantara.
Sketches of the Country, character, and Costume, William Bradford, 1808/1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

O mais famoso desses conjuntos seria o de autoria do francês Henri L’Evêque (1769-1832), intitulado Costume  of   Portugal (Londres, 1814), publicação dedicada a Antonio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca (1754-1817).

L’Evêque era um típico viajante, que fazia render seu talento aplicando-o a novos assuntos destinados ao mercado internacional.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

Foi responsável pelo desenho que deu origem à famosa gravura de Francesco Bartolozzi (1725-1815) que representa a partida do príncipe regente d.João para o Brasil. (1) 


(1) Valéria Piccoli, O tipo popular e o pitoresco

*
*     *

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800, apontamentos gráficos e notas descritivas comparadas com a publicação de Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Momento de cenário amplo do Tejo e Lisboa distante. Figuras, apresentação de tipos e costumes num mesmo espaço.

Distinguem-se parte da muralha e do parapeito da esplanada do forte de Santa Luzia. As construções estão sitas sobre um alfaque rochoso, o Pontaleto. Sentado junto à parede do armazém um mariola, espera um frete ou um recado.

À esquerda, um personagem de manto e sobrecapa, cobre a cabeça com um bicorne. Sentado num pequeno muro, está ligeiramente reclinado. Escreve ou desenha, talvez, num pequeno caderno que não mostra. Será um observador conhecido, um passante distinto, nós mesmos, ou L`Évêque, o autor.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Perto deste, os burriqueiros. O garoto e o asno teimoso que não se levanta. O outro, mais velho, acena aos clientes garantindo a albarda mais macia, a manta mais limpa, a cadeirinha para as senhoras... "Quer bote?! Quer bote?!" Ouvem-se os barqueiros. "Merca a laranja da china!" Apregoa a vendedeira, que negoceia com o homem vestido à moda, inglês, talvez, que não desmonta o burro para não se sujar no areal que crê imundo.

Em Lisboa e nos arredores usam-se muito os burros...

Ladies riding on asses, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... à voz sagrada da religião, o coração do rico abre-se sem cessar à piedade, e o do pobre ao reconhecimento.

A poor woman, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

A baía espaçosa que forma o Tejo junto a Lisboa, e as costas vizinhas à foz deste belo rio, são tão ricas em peixe...

The fishwoman, La marchande de poisson, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... os condutores destes barcos são, na maioria, originários da pequena província do Algarve, que é renomeada pelos excelentes homens de mar que fornece.

The waterman, Le batelier, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Cães, sempre muitos destes animais, por toda a parte. A mulher, com a trouxa, ou cesta, debaixo do braço, recebe as ultimas recomendações da religiosa, sua ama. O tanoeiro sentado junto aos barris que o cliente há-de vir buscar, interrompe uma das jovens mulheres, talvez sua familiar. A outra conversa com o marido, ou irmão. Ao pedinte cego, o garoto que o acompanha desparasita-lhe os cabelos. Dois moços de fretes, galegos, aguardam. O barqueiro da pequena muleta impacienta-se.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... a grande afluência de estrangeiros que o comércio trouxe a Lisboa, desde há uma vintena de anos, produziu uma mudança muito sensível no vestuário das damas.

A young woman wrapped-up in her great coat, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Um elegante da classe do povo. Enverga um chapéu de três pontas, para se dar um ar de militar, tem um cigarro na boca, e embrulha-se num grande capote com mangas ["josésinho"], que traz durante todas as estações.

A petty beau, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... outros percorrem a cidade, conduzidos por uma criança, ou guiados por um cão inteligente e fiel.

The blind man, L'aveugle, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... são, na sua maior parte, naturais da Galiza (galegos) que vêm para Lisboa para fazer o trabalho de carregadores e de moços de recados, aproximadamente do mesmo modo que fazem os irlandeses em Londres e os saboianos em Paris.

The street-porter, Le porte-faix, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

O moço de estribaria segura as rédeas dos equídeos que, talvez, virão a acasalar. Dois cavalheiros, um com botas de montar, burgueses, talvez nobres, estão junto ao cavalo malhado. Atrás deste, um soldado de cavalaria da recém creada, por decreto do príncipe regente de 10 de dezembro de 1801, Guarda Real de Polícia sob o comando do exilado francês Conde de Novion. À direita os calafates, impermeabilizam os botes com estopa e bréu que fervilha no caldeirão da imagem seguinte.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Duas mulheres na praia, uma delas com uma criança, se forem lavadeiras, interromperam o trabalho na charca próxima à passagem do frade mendicante. Um bote é arrastado pelo areal, vai sair para Lisboa com o comerciante à proa e o soldado de pé. Mais ao lado está uma falua, com o seu mastro frontal tirado a vante e a quilha reforçada por quebra-mar.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... elas entregam-vos a roupa com uma brancura resplandecente, absolutamente desembaraçada de toda a espécie de nódoas, e perfumada com este odor suave que só a boa lavagem pode dar.

The washerwoman, La lavandière, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Os portugueses, sobretudo esses das últimas classes, têm uma veneração muito particular por Santo António, que nasceu em Lisboa, e que é conhecido pelo resto da catolicidade sob o nome de Santo António de Pádua.

The mendicant friar, Le frère queteur, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal


Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)

Foi a recente publicação do professor Alexandre Flores, A via fluvial do Tejo entre Almada e Lisboa..., na qual a aguarela é parcialmente reproduzida, que nos chamou a atenção para a sua existência, e para a exposição de grata memória.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Reprodução fotográfica dos estúdios U. Antunes, colecção de Alexandre Flores

A aguarela, que descreveríamos como "Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque", foi apresentada ao público na exposição integrada nas Festas da Cidade de Lisboa de junho de 1978 e é referenciada, sem reprodução de imagem, no catálogo de 1979 dessa exposição, O povo de Lisboa", tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, da autoria de Irisalva Moita, então conservadora-chefe dos Museus Municipais de Lisboa.  

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O que se sabe então sobre Henry L'Évéque? Retenhamos o essencial da informação disponbilizada por Agostinho Araújo. Nascido em Genebra, no ano de 1768, debutou no desenho documental, como muitos outros aspirantes à arte da pintura, ilustrando a expedição de Horace-Bénédict de Saussure (1740-1799) ao Monte Branco.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Informa-nos o citado autor que L'Évéque "se especializou na pintura sobre esmalte", o que a nosso ver o aproximou da indústria relojoeira, de reconhecida tradição suíça, corporação da qual viria a receber apoios, nomeadamente através do relojoeiro Henrique de Sales, distribuidor das suas obras no Rio de Janeiro no período de fixação da corte portuguesa no Brasil.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A sua passagem a Portugal situa-se entre o inicio do século e meados de 1811, tendo presenciado momentos determinantes da história contemporânea, nomeadamente a partida da corte para o Brasil e o conflito peninsular, episódios a que dedicada espaço de relevo na obra produzida em território nacional.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

De Portugal passaria a Inglaterra onde com os seus parceiros editores pode ampliar a difusão da sua obra gráfica. Evocando inadaptação ao clima londrino, que dizia "inconveniente para a sua saúde", solicita com persistência, apoio do Príncipe Regente para passar ao Rio de Janeiro, oferecendo-se para fazer "vistas do Brasil, retratos em miniatura, ou em esmalte, ou a aguarela, ou para gravura", numa síntese oportuna feita na primeira pessoa que ilustra os seus interesses e competências em fase já madura da vida.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Deste período britânico deve pertencer a sua ascensão a "esmaltista da corte da princesa Carlota de Gales", aspecto a ter em consideração sobre esta outra fase Igualmente pouco conhecida da sua carreira.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Gorada a oportunidade de uma aventura nos trópicos junto da corte portuguesa, que não lhe concederia o solicitado apoio, terminaria os seus dias em Roma como pintor de paisagens, onde viria a falecer em 1832. (1)


(1) Miguel de Faria, Henry L'Eveque e outros reporteres, III. Dados biográficos, 2015

Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

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O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Panorama das Margens do Tejo: o Tramoceiro

Pequena rocha de forma curiosa sugerindo um tremoço, que ficava entre o extremo do Ginjal e a Fonte da Pipa, na margem do rio. Só era acessível a pé enxuto na maré vazia e era pesqueiro muito apreciado dos pescadores à linha.

Vistas Stereoscopicas de Lisboa, Panorama das Margens do Tejo.
Delcampe

Um aterro efectuado em 1981, encobriu-a por completo. A expressão pode derivar de tremoço através da forma antiga e popular "tramoço". (1)


 (1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003

Artigos relacionados:
O Tramoceiro

sábado, 1 de dezembro de 2018

Praia das Lavadeiras (de passagem...)

Quando o bom tempo e o ciclo das marés o permitiam, a praia era transformada num imenso estendal de roupa branca, tão imaculada como os castelos de espuma que, arrastados pelas ondas, se dispersavam na areia.

Lavadeiras junto ao Rio Tejo (detalhe), Garcia Nunes.
Arquivo Municipal de Lisboa

Tratava-se da "Praia das Lavadeiras", conhecida desde tempos muito recuados pelo povo de Almada e frequentada por gerações de mulhers que ali acorriam por falta de alternativas próximas e acessíveis... (1)


(1) António Neves Policarpo, Mulheres na história da água..., SMAS de Almada, 2003

Artigos relacionados:
A praia das lavadeiras no Ginjal
La Paloma
O sr. Moreira da fábrica de conservas A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sugestões para um passeio a Almada

O relêvo de Lisboa permite que existam, espalhados pela cidade, alguns miradoiros. Integrados, por assim, dizer, no casario, sentimo-nos levados antes pelo sentido e gôsto da orientação e localização. A vizinhança dos prédios distrai-nos, a cidade apresenta-se-nos, pela proximidade, mais como um aglomerado humano que como um conjunto, mais ou menos estético, de edificações. A visão é, por todos os aspectos, parcial e reduzida.

Vista aérea de Lisboa e do Tejo em 1941.

Mas existe um ponto que pela sua especial situação é o único miradoiro sôbre Lisboa. E o espectáculo dali não é só panorâmico, é também histórico. Podem apreciar-se os estratos da formação da capital: primeiro a parte ribeirinha, a mais antiga &mdash que Lisboa nasceu com o mar; depois as épocas vão desfilando, concretizando-se em diferentes manchas de côr e aspecto; lá para o fundo, quási a adivinhar-se já, a parte moderna, as novas veias que de há cêrca de quinze anos se vem enriquecendo. 

Acompanhando o colear da fita maravilhosa do Tejo, Lisboa estende-se, indolente; indolente só em aparência, porque até n6s chega, aqui, à outra margem, o incessante rodilhar dos guindastes nos cais.

Almada, Vista Parcial (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Delcampe, Bosspostcard

Pelo rio, veleiros e vapores não param. Cargueiros fundeados lembram a guerra distante: ali um da Cruz Vermelha Internacional, mais perto outro, da frota mercante da Suíça, país que tem Lisboa por principal pôrto ele mar... e mais, e mais...

Lá ao longe, envôlta em bruma e beleza, a serra de Sintra.

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Pois êste ponto da margem esquerda do Tejo, de onde Lisboa melhor se pode compreender e admirar, é Almada. E se Almada é, pois, pela sua natural situação geográfica, o único miradoiro sôbre lisboa, é lógico que para ela se voltem as atenções do turismo.


Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Delcampe, Bosspostcard

No fundo do problema - não tendo permitido até hoje a realização de qualquer obra de vulto — está a falta de água. Falta de água, drama de uma terra encostada a um dos grandes caudais da Europa. Mas a questão está a solucionar-se e dentro de alguns meses a água, trazida de longe, percorrerá a vila, subirá às habitações, revivificará os jardins.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
O Pharol

Por outro lado, a vila é suja e pobre. O primeiro aspecto parece poder resolver-se com a água, com uns quilos de argamassa a rebocar faltas pelos prédios, e com umas latas de tinta ou de lusitana cal; porém, o nível de vida da população, (na maioria operariado das emprêsas fabris marginais), não lhe permite êstes gastos, embora relativamente pequenos, nem os próprios senhorios estão em condições de cumprir posturas que os obriguem a dispendiosas e freqüentes beneficiações nas suas propriedades.  A uns e a outros terá, decerto, de ir o auxílio do Estado.

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel,
Mário Novais, 1946.
Fundação Calouste Gulbenkian
Há pequenos pormenores, porém, que são de fácil e importante remedeio. Dois exemplos: um pequeno quadrado de terreno, com um máximo de três portas nos seus quatro lados, merece a pomposa designação de Largo e, para mais, Largo de Fernão Mendes Pinto... Se não existisse qualquer letreiro, (dado que o podemos considerar como parte integrante da rua que o gera), notar-se-ia menos; mas a impressão é tanto mais penível, quanto ela nos atesta ingrata homenagem ao delicioso autor da "Peregrinarão".

Perto desse «largo» existe um prédio, de dois andares, de miserável aparência; reparando depois melhor, vemos não ser um prédio, mas a sua fachada somente. O prédio foi demolido, a fachada ficou servindo de muro. Ora, quero crer que se abatessem essa fachada e vendessem a alvenaria, o produto da venda cobriria as despesas a fazer com a construção de um simples e caiado muro.

Vejamos, agora, algumas possibilidades turísticas e de arranjo estético. Existe um pequeno miradoiro, gracioso quanto à arquitectura, ao qual falta uma pequena latada, se bem que tenha o travejamento para ela. E quero ver ainda nessa falta o problema da água. Mas uma só varanda não basta. A esplanada do Castelo... Já que falamos em Castelo, é justo perguntar que Castelo é êsse que, conquanto exista nos indicativos quilométricos da estrada e esteja ligado à história da Fundação de Portugal, por mais que o busquemos, se não distingue? Talvez que seja essa arte da guerra moderna, a camuflagem, que o esconde aos olhos dos profanos!... Urge restaurá-lo, para que as paredes que ainda restam dêle se nos não apresentem como as ruinas de um velho palheiro.

No miradouro de Almada, 5/X/1946.
Delcampe

Pois ia-vos falando da esplanada do Castelo: não seria justificável a construção, aqui, de um novo miradoiro, já que o sítio é alto?

Bastante acima do nível do Tejo, encravada na montanha que ali é áspera, há uma edificação, que não sei se teria feito parte do Castelo e que hoje pertence à Câmara de Almada. Aí, uma nova varanda, talvez a mais bela, deveria ser aberta. O Município tinha pensado já em a aproveitar para restaurante, ou mesmo pousada. É um caso merecedor de estudo, tanto mais que ainda não está na zona que as leis militares indicam como pertencendo à influência do Forte.

Almada, jornal "O Século" edição especial, 1940.

Um rochedo, a quinze ou vinte metros da margem, se estivesse ligado a esta por uma estreita ponte e possuísse condições artificiais de segurança, deveria transformar-se num local magnífico para os amadores de pesca à linha. 

Pequenas-grandes coisas a fazer... Mas tantas outras havia, que o espaço não nos deixa sugerir!

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Além, sôbre Lisboa, as sombras vão-se alargando e estendendo, vão ganhando uma tonalidade violeta; dentro em pouco, aqui e ali acender-se-ão as primeiras luzes e, mais tarde, ainda há-de Lisboa cintilar em milhares de janelas, em clarões que sobem das avenidas e das praças. Abaixo de mim, um barquito a remos faz singela cabotagem, transportando barris.

DC3 da TAP sobtre Lisboa, década de 1950.

No forte, lá no alto no mais alto de tudo que nos rodeia desenha-se nitidamente contra o azul do céu uma sentinela que vigia. Sôbre tôdas as coisas paira a recordação das chamas que consumiram o palácio de Manuel de Sousa Coutinho. (1)


(1) Panorama, revista portuguesa de arte e turismo, n.º 17, Outubro 1943

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Filipe II, Almada, 26 de junho de 1581

A las Infantas mis hijas

Não pude escrever-vos segunda-feira passada; para hoje não aconteça o mesmo, faço-o antes de cuidar de outras coisas [...]

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun [Georgio Braúnio], Frans Hogenberg, 1572.
Prosimetron

Jantámos muito tarde, para deixar passar, com a maré que sobe e desce de seis em seis horas, alguns edifícios. Meu sobrinho e eu jantámos enquanto navegavamos; as galés pararam enquanto os outros jantavam: a nossa ia na frente, e haviam dez atrás dela: tudo o que faz a capitã fazem as outras também. Foram erguidas tendas, que as cobriam inteiramente por causa do sol. 

Pelos lados, podíamos ver o rio ou o mar com as margens; em alguns sítios, a largura do rio era de duas ou três léguas, de maneira que dificilmente se podia perceber uma ou outra margem.

Assim viemos até perto de Lisboa, onde o rio tem uma légua de largura; parámos na cidade e perto de mais de cem navios de todos os tipos, alguns dos quais tinham chegado pouco antes de lugares diferentes.

Medalha de Filipe I e de seus filhos, c. 1583.
Museu Arqueológico Nacional de Madrid.
Poderes concorrentes na entrada régia de 1581

De lá, vimos tudo o que chega ao rio sobre uma distância de mais ou menos uma légua, assim como o meu palácio, e reconhecemos tudo muito bem. Havia uma multidão por todos os lugares.

Fomos de seguida mais abaixo de Lisboa, onde atravessámos o rio para chegar a Almada, onde tenho uma casa muito bonita, embora pequena: de todas as janelas se vê o rio e Lisboa, e frequentemente os navios e mesmo as galeras.

Filipe II como rei de Portugal, Alonso Sanchez Coello, 1580.
Flickr

De uma sala alta, na qual escrevo, vemos, através de uma janela, quase toda Lisboa na sua extensão; deste lado, o rio tem pouco mais de meia légua de largura.

Lisabona, Cascale, Betheleem, Braun & Hogenberg, c. 1575.
Fortalezas.org

Por outra janela vemos Belém e São Julião com uma grande parte baixa do rio, assim como todos os navios que entram ou saem [...] (1)


(1) Lettres de Philippe II à ses filles les infantes Isabelle et Catherine, écrites pendant son voyage en Portugal

Mais informação:
National Geographic