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sábado, 5 de março de 2016

O retiro de um velho romântico

Cansado das mocadas que entre si distribuía a turba sertaneja, que em procissão, às vezes, recorria à minha agulha de sutura, procurei regressar à Arte consoladora [...] (1)

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar.

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos "Maias" [Tomás de Alencar — o que motivou que Bulhão Pato escrevesse as sátiras "O Grande Maia"  em 1888 e "Lázaro Cônsul" em 1889], 

Eça de Queiroz "In memoriam" (excerto), organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha.
Imagem: Internet Archive

e digo compôs porque depois de conversado e convivido, Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares.

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés.

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Amimado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Real Palácio da Ajuda, ed. Tabacaria Costa, 901, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também [1847-1848], que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1847-1848:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do "Se coras, não conto". É que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só.

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas "Memórias", apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas.

Assim, o autor da "Historia de Portugal", que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; — "o mestre já conhece esta" — Herculano esfregava as mãos e dizia: — "conte, conte, as experimentadas são as melhores." Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas.

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista [Wenceslau] Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!" — Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. Duma vez, estava um "clergiman" a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas.

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bu- lhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: — "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?" — Pato saiu á pressa da igreja.

Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral [agosto de 1850], denominada já nesse tempo "lei das rolhas". E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara.

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: — Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato. E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes.

Dahi, as figuras das suas "Memorias", pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista. 

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

A agudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia. 

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e "souteneur" de uma senhora da sociedade.

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa.

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: — "O bom filho a casa torna..." — Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e diz-me com os olhos brilhantes: — "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: — "Traição!" — É demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: — "Venha! Temos pescada do alto." — Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinha um gosto de pederneira [muito mineral], vinho já cantado por Gil Vicente e Camões [Convite que fez Camões em Goa a alguns Fidalgos]:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta ,
E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: — "Vocês comem, mas nem palavra." — Eu um dia respondi: — "A commoção embarga-me a voz!" — ao que outro replicou: — "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas..."

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo. Augusto Gil, Manuel Monteiro. Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: "Cacei hoje uma gallinhola!" — E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação. Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) Paulo Braga, João Barreira, o Escritor, o Professor e o Artista, Jornal da Régua, 27 de Dezembro de 1936
cf. Catarina Fernandes Barreira
(2) Dr. João Barreira, O retiro de um velho romântico

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As meninas da Torre

À volta do leito do enfermo, não faltam os parentes — os sobrinhos o Rafael e o Nuno — ou os amigos que costumam acorrer ás alegres refeições. D. Maria Isabel Bernaud, que estivera de joelhos a chorar e orar, ergue-se cambaleante. Não pode mais. Aquela comédia da serenidade, quando o seu coração estala de dor, é mais forte do que as suas forças. 

A casa no Largo da Torre onde viveu Bulhão Pato, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

O médico, o dr. Pinto, empunha já a seringa. O doente, muito rouqueja. A injecção é por assim dizer um pró-forma ou destino de consciência. Mas, num subito clarão da sua portentosa natureza, o doente exclama, como se a sua voz viesse já de além tumulo:

— Ainda senti a picada!

Foram as suas ultimas palavras. D. Maria Isabel é empolgada pelos braços carinhosos dos amigos, principalmente os do afilhado, o António Maria Povas, a quem mais tarde deixará todos os bens do casal sem filhos.

D. Isabel Maria Bernaud.
Imagem: Hemeroteca Digital

Naquela madrugada de 24 de Agosto de 1912 já não se descerraram as janelas do prédio do lugar da Torre, a cerca de 200 ou 300 metros do Monte de Caparica. Também os olhos do autor de "O patilhão vermelho" ali escrito, e de "Sob os ciprestes", ali também gerado, não voltarão a abrir-se, a perscrutar a luz da vida. A da morte nunca lhe interessou. Não sendo religioso, nem acreditando na vida eterna, Bulhão Pato costumava comentar com ironia, ao apontar com a bengala a terra que o havia de comer:

—  O general Hugo de Lacerda julga que vai para o Céu. Mas eu tenho a certeza de que fico aqui.

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Essa fraca ortodoxia não o impediria nunca de ser amigo do sr. prior do Monte. rev. padre José Joaquim Marques, que á hora a que hoje se almoça, lá ia jantar, bastantes vezes, muitas mais, tomar café, á sobremesa.

Discutiam religião? Se discutiam, não só nunca houve progresso no catolicismo de Bulhão Pato, que não ia á missa, mas, ainda as conversas não decorriam em termos de ser entendidas pelas pequenas.

As pequenas de então estão agora aqui na nossa frente, com a sua roda de anos bem puxados. Andam á volta dos 70 e Ramada Curto podia tê-las conhecido, quando escreveu "As meninas da Fonte da Bica".

São uma página de literatura já feita. A dificuldade estaria em pegar-lhes sem as destruir no que elas têm de vulnerávelmente espiritual e simples.

As meninas da Torre são três, e são solteiras (os homens empatam muito, dizem elas, que têm imenso que fazer, na sua qualidade de mestras das primeiras letras).

Des glaneuses dit aussi Les glaneuses, Jean-François Millet (1814-1875).
Imagem: profondeurdechamps

—  Hoje, somos aqui, as unicas que conhemos o sr. Pato! dizem com simplicidade e um tudo nada de saudade.

Saudade, e como não hão-de ter saudades as meninas da Torre, cada urna delas com o seu caracter, a sua maneira, de ser, a sua humilde e recatada pobreza?

Só duas delas, porém, se resolvem a fazer evocações. A mana mais velha, a D. Laura da Conceição, viveu trinta e tantos anos com uns parentes ricos em Lisboa. Quase não privou com o sr. Pato. Hoje é a "dona da casa", a que trata o seu governo, distante, hierática e silenciosa, ficando-se muda e impenetrável, enquanto as manas mais novas, D. Carolina de Jesus, miudinha, um pouco estonteada, fala ou ouve falar a outra mana, a Isaura Augusta, a mais desenvolta, talvez a mais intelectualmente vigorosa.

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Filhas e um mestre de obras, o que construira a casa onde havia de morar Bulhão Pato, quando o escritor para ali foi em 1890, mesmo na casa ao lado, foram elas, com os pais, as únicas admitidas a sua convivência.

Bulhão Pato que era muito bondoso, muito, tinha os seus paradoxos: não gostava de crianças, porque eram barulhentas, mas, chamava as filhas do sr. Marques para a sua beira; amava o silêricio e tinha sempre á sua roda á barulho de uma alegre e palradora convivência, médicos e escritores, sobretudo.

Tudo, porém, finalizara naquele colapso cardiaco. Bulhão Pato acabava de morrer, faz hoje precisamente quarenta e quatro anos. Os seus restos mortais jazem num mausoleu do cemiteriozinho do Monte, esquecidos dos homens e da criada do afilhado Povas que, morrendo sem filhos, lhe deixou o que herdara do padrinho.

—  Estamos a vê-lo, ao sr. Pato, muito fino, muito educado, um pouco baixo e de barbas muito brancas, com uma manta alentejana pelos ombros: "vamos a ver se ainda deito este Janeiro fora!" Costumava passear por aí, com a sua bengalinha mas, sendo muito sociável, não admitia certas liberdades...

Só duas das meninas da Torre se deixaram fotografar, D. Carolina de Jesus e D. Isaura Augusta, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

Quem conta isto é a menina Carolina de Jesus que se ri:

—  Vinha muito por aí o dr. João Barreira. Ficava ás semanas e viamo-lo, através da janela, pendurado além, nas grades do jardim, a esticar-se, como se quisesse ficar mais alto. Tinha uns olhos de pássaro tonto que nos assustavam. Ali ao lado, havia um celeiro. Ás vezes, o caseiro da sr.a condessa dos Arcos ia para lá tocar harmónica. Como doido, o dr. João Barreira desatáva ás voltas, com as mãos nos ouvidos e aqueles olhos, a gritar, "que é isto, que é isto?" Este tocador de harmónio [?] era o mesmo que um dia, cumprimentando o sr. Pato, lhe estendeu a mão e a quem o escritor admoestou serenamente: "que é isso, rapaz, estende a mão só aos que forem teus iguais".

Professor João Barreira (1866-1961).
Imagem: ARTIS

— Apesar disso — acrescenta a mana Isaura Augusta —  o sr. Pato era muito bondoso, muito. Acudia pelas criadas, obrigava-as a ir cedo para a cama, que não queria excessos de trabalho lá em casa.

Depois, a propósito de criadas, vem a história da Elisa. Bulhão Pato. além da cozinheira e do criado, tinha sempre uma "criadinha fina", uma rapariga de serviços de fora que pudesse acompanhar D. Maria Isabel.

— O sr. Pato gostava de ter caras jovens e bonitas á sua roda. Mas a história da Elisa é muito triste. Um dia, vieram dizer ao escritor que ela andava de amores com uma visita da casa, o jornalista, sr. Urbano de Castro. Viam-nos juntos em Lisboa, nas folgas da Elisa...

O sr. Pato chamou-a, ralhou-lhe tanto, tanto, que ele, segundo diziam, era um trovão quando se zangava, que a rapariga, envergonhada, matou-se com um desinfectante com que andava a tratar-se...

O sr. Pato chorou e fez-lhe uns versos. Havia uma quadra que dizia assim:
Senti bater o caixão
Quando te foste enterrar
Era tarde de Verão
O Sol morria no mar.
Fora uma amiga da casa, a D. Elvira Bastos — elucida a outra mana — quem levara a novidade lá a casa. Nunca mais ali se pronunciou o seu nome.

— E Urbano de Castro?

— Bem, continuou a ir lá a casa. Havia as relações das senhoras...

D. Carolina de Jesus suspende o "crochet" e dobra a folha impressa de onde o estava a copiar. Já não vê e não há luz eléctrica lá em casa. Uma das manas vai acender o candeeirinho de petróleo (desculpe, somos pobres... não repare, esta sala é a das aulas...).

A mana continua:

— O sr. Pato gostava da boa mesa e que lhe gabassem o "roast-beef" mas mal provava os petiscos. Dizia sempre: "não tenho que comer!" E a senhora protestava: "Oh! Raimundo, que cisma a tua!" D. Isabel tratava-o por tu. Ele, falando com a esposa, dizia sempre "você".

Mas, enfim, se o sr. Pato não comia muito, bebia bastante e sempre bebidas finas. Fumava muito e levantava-se cedo, para trabalhar cedo. Cedo também se deitava.

— Mesmo assim, tinha uma intensa vida de sociedade... Devia ser rico...

—  Não sabiamos de onde lhe vinham os rendimentos. Rico, rico, porém, não seria, porque lhe vinham duas vezes por semana, ás quintas e domingos, grandes cestas de fruta e legumes, oferecidos pela familia Pinto Basto, da sua quinta aqui de perto, que está hoje nas mãos dos Quintelas. Mas com o não ser rico não deixava de ser muito esmoler, o sr. Pato. A casa aqui ao lado. estava mais que modestamente mobilada.

O mais importante eram, no escritório, os livros, um retrato do escritor, pintado por Lupi e que está hoje no, Museu de Arte Contemporanea e um outro de Alexandre Herculano (1810-1877), a quem era muito dedicado, mas que não nos lembra ver por cá. Devia já ter morrido.

—  Em que passava o tempo o escritor?

—  Se não escrevia, conversava sobre as suas viagens, falava de livros, fazia "pic-nics" na Quinta da Estrela ou caçava nos juncais de Caparica. Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, saia para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

O Joaquim da Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa. para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. 

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui, do Porto Brandão, é que partiam os barquinhos movidos por meio de remos....

—  Não falava de política, em derrubar o Governo...

—  Fechava-se com os amigos no escritório; como podiamos nós, adivinhar do que falavam em voz baixa? Alegria naquela casa não faltava. O sr. Pato até gostava de armar as suas festas. Muitas vezes, porque não lhe chegavam os dois andares que ocupava, estendia-se por casa dos vizinhos. E era ver, no Santo António e S. João, as fogueiras, as festas e bailaricos que armavam no terreirinho fronteiro á casa do sr. Pato. O povo passava e juntava-se, saltando também a fogueira. E o sr. Pato gostava.

—  Deu o nome a muitos "pratos" e petiscos...

— Possivelmente, eram os amigos que lhos davam. Nunca demos conta de que o sr. Pato fosse á cozinha ensinar a fazer ameijoas, bacalhau, perdizes ou ostras — e o que ele gostava destas! — com o seu nome ou não...

As meninas da Torre leram Bulhão Pato. O escritor estimava-as e a uma delas quis ensinar francês, ao que o pai, o mestre de obras, patrióticamente se opôs. Hoje, no seu casarão desconfortável e antigo, vivem da saudade de tanta coisa vivida, da mágua de se terem debruçado á beira de um grande mundo espiritual, do qual não recolheram o melhor do seu sabor.

Timidas, fiéis a Deus e á memória dos que amaram, assim as fomos achar, perturbando-as com a ideia de falar para um jornal e deixar-se fotografar, assim de chitas vestidas.

— Que vergonha! — disseram, a tapar o rosto com as mãos.

Mas, daqui a pouco, as meninas da Torre dobrarão esta folha de jornal, irão juntá-la a mil ninharias do seu património espiritual, já esquecidas do seu amigo, sr. Pato, vinte e dois anos seu vizinho na Torre.

O poeta no seu gabinete de trabalho, segundo fotografia publicada em 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Depois, empunharão a cartilha e, nos seus bancos em fila, as meninas da Torre, as mestras e as alunas voltarão a dizer em coro: Um á e um i faz ai... Um d e um ó faz... dó! (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato

A evocação de Bulhão Pato (1829-1912)

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Quando Bulhão Pato veio para a Torre de Caparica em 1890 já eu por cá andava, á roda dos 33 de idade, e o poeta com os seus 60 já cumpridos em boa graça. Que homem! Que figura!

D. Francisco recorda que seu avô, D. José Maria Carlos de Noronha e Castilho, foi governador militar desta região.

"Eu pertenço um pouco a Almada, e aqui hei-de morrer, com a minha modestia e aquilo a que chamam a minha originalidade. A verdade é que vivo entre livros e recordações".

— Bulhão Pato...

— Naquele tempo convivia-se, e, fosse qual fosse a idade, fazia-se o possível para se ser rapaz. Bulhão Pato, que fora muito de Herculano, em cuja casa da Ajuda viveu ai por 1847-48, faz agora um século — imagine! — casa para onde depois foi viver Garrett, veio para a Torre já com a sua obra literária afamada.

 Palácio d'Ajuda, c. 1900. À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Ele principiara a "Paquita" em 1851 mas veio aqui acabá-la. A casa de Pato era maneirinha; o poeta pontificava em familia. Vinham — eu era mais novo do que eles — Urbano de Castro, que tinha uma casa em Costas de [do] Cão, o meu parente D. João da Camara, o Zacarias de Assa [d'Aça], o Henrique Lopes de Mendonça.

D. João da Câmara (1852-1908).
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi a estes que Bulhão Pato leu os ultimos versos da "Paquita"; eu não assisti. João Barreira, que era médico na freguesia, relacionou-se por essa época. Lembro-me destes homens. 

E apareciam também o grande João de Deus, Rangel de Lima e Marcelino Mesquita, ás vezes. Um grande companheiro de Bulhão Pato, foi o Eduardo Ferreira Pinto Basto, mas este era só para passear. Outro: o Teodoro Ferreira Pinto.

E volta ao poeta do "Livro do Monte".

— Era uma pessoa admirável. Trabalhava quando para tal sentia disposição. Não tinha horas formais. Passeava muito a pé por essas quintas, e imagino que, quando sózinho, compunha, a andar, versos ou tecia memórias.

Descendia dos Pereiras Patos Moniz, de Alcochete, e dos Alvares de Bulhão Eu tenho muitos anos de vida, corri algum mundo em Portugal e lá fora; dei-me com belos espiritos. Pois nunca encontrei melhor cavaqueador, mais fino e travesso. Era um gosto ouvi-lo. Nunca o ouvi falar de politica, e mesmo de polémicas literárias pouco dele discorria.

Lembra-se do "Lázaro Consul", resposta a uma suposta alusão do Eça, nos "Maias"? Eu nunca escutei nada da sua boca a este respeito... D. Francisco de Noronha lembra que Bulhão Pato tinha, apesar de romantico uma certa veia sarcástica. "De quem ele gostava muito era do Eduardo Schwalbach, que ás vezes aparecia, e pernoitava mesmo na casa da Torre. O Eduardo também vinha por minha casa. Era da minha idade, pouco mais, muito mais novo que o Pato. Tinha muita graça..."

Eduardo Schwalbach (1860-1946).
Imagem: Livreiro Monasticon

O fidalgo de Almada — que é ribatejano, da raia da Beira Baixa — esclarece-nos que Bulhão Pato nunca abandonou Lisboa, ao contrário do que se supõe. Ia lá quase todas as semanas. Almoçava então numa casa de pasto da Travessa dos Remolares, com o António Covas [Tovas], seu afilhado, deambulava pelo Rossio e Chiado, e regressava á tarde. E evoca:

— O poeta era muito de patuscadas inocentes e campestres, e de caçadas, mais inocentes ainda. Eu ás vezes aparecia. Ora uma vez...

— Mas o senhor deve saber...

— Diga... diga...

— Vem nos livros. O Bulhão Pato enviou urna vez ao Urbano de Castro um presente de urna pescada, com pimentos, que era de se lhes tirar o chapeu. Logo Urbano de Castro replicou por um bilhetinho:
Tem boa pinta a pescada,
são famosos, os pimentos...
A mana, muito obrigada,
envia os seus cumprimentos.

No Monte de Caparica,
termo e concelho de Almada,
há um Pato — coisa rica —
um Pato que dá pescada.
— Isto são recordações de velho. Eu não era ainda deste mundo, mas sei: Uma das primeiras poesias de Bulhão Pato foi a famosa "Se coras, não conto...", mais tarde reunida num livro de poesias. E ele ás vezes repetia, com saudades dos seus dezoito anos. A poesia é de 1847! Isto é: há um século...

E continua:

— Outro que era muito de Bulhão Pato, posto que não intimo, era o Manuel de Arriaga. Um irmão, mais novo deste, chamado Miguel, tinha em Almada uma quinta no Vale das Flores, Bulhão Pato ia por lá. E Manuel de Arriaga, quando foi eleito presidente da Republica, logo foi visitar o poeta de "Sob [os] Ciprestes", à casa da Torre, onde; agora vamos, pôr uma lápide.

Olhe, por coincidência: o actual presidente da Camara de Almada, o Luís Arriaga [de Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada (1947-1951)], é sobrinho de Manuel de Arriaga, filho de uma irmã deste, D. Maria Adelaide Sofia, se bem me recordo. Isto é o meu tempo de rapaz a desfiar...

O Manuel de Arriaga a mim tratava-me por "Francisquinho". Está aqui nas dedicatórias dos livros.

E conclui:

— Por tudo isto eu associo-me á ideia da lápide, da qual tive a iniciativa em Setembro de 1912. Ainda bem que vocês, rapazes, com o Luís de Arriaga tomaram isto a peito. Eu não posso talvez lá ir. As minhas pernas vergam, e como a memória está fresca, receio emocionar-me.

D. Francisco de Noronha, com a sua barbicha, a sua mão em concha, porque o ouvido já o atraiçoa, a sua camisa gomada sem colarinho, o seu olhar azul pisco, a sua andaina de andar na horta, com uns "sobrinhítos" que tem em casa, o seu chapeu rustico cozido a cordeis, o seu abraço muito largo, "do tamanho do mundo" — mostra-nos os seus formosos e poeirentos livros de boa biblioteca clássica, a par de livros de Antero e de tomos de transcendente filosofia. Vai-nos conduzindo ao portal, onde uma cadela céguinha faz as honras de porteira.

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas.

— Pois no domingo eu estarei com o Bulhão Pato. Aonde não sei. E se o virem — façam-lhe lembranças minhas... Há cem anos: "Se coras, não conto".

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: Pintar a Óleo

O descerramento da lápida

O descerramento da lápida efectua-se amanhã, ás 17 horas, no prédio onde morreu Bulhão Pato, faz agora 36 anos. O elogio literário do poeta será feito pelo professor dr. João Barreira, já octogenário, um dos raros sobreviventes do grupo que mais conviveu com o poeta na Torre da Caparica, de 1890 a 1912. 

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

Assistem representantes da familia de Bulhão Pato e de outras que foram do convivio do poeta os vereadores de Almada, um vereador da Camara Municipal de Lisboa, autoridades de Setubal e do concelho.

Norberto de Araújo discursa, tendo ao seu lado direito, a 11ª Condessa dos Arcos, D. Maria do Carmo Giraldes Barba Noronha e Brito, e ao seu lado esquerdo, o médico e historiador de Arte – Professor Dr. João Barreira, que fez o discurso evocativo, D. Margarida Bulhão Pato, sobrinha do Poeta, o Comandante Sá Linhares, Presidente da Câmara Municipal de Almada e o jornalista e director do jornal «A Voz», Pedro Correia Marques.
in Norberto Araújo (1889-1952)

Serão lidas palavras do dr. Julio Dantas, traçando o perfil de Bulhão Pato, e usará da palavra o presidente da Camara de Almada, comandante Arriaga de Sá Linhares.

Podem aproveitar-se camionetas de Cacilhas à Torre, das 15 e 40 e 16 e 25. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1948

Artigo relacionado:
Largo Gil Vicente


Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Casa do Monte

A Bulhão Pato (1829 - 1912)

Precisando que a boa natureza viva lhe refrescasse o sangue, que as doces harmonias campesinas lhe acalmassem os nervos, um dia partiu para o Monte, ali defronte, ao pé de Caparica.

Familia pequena, elle e a irmã velhinha. Como nunca jogara o ganha-perde da politica nem o das finanças, bastou-lhe um bote para mudar a casa.

Fragata, Higino Mendonça, dedicada a Bulhão Pato, 1895.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Essa mudança valeu-nos uma nova revelação do seu talento, as ultimas poesias didacticas.

Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital

A casa do poeta fica mesmo em frente da bifurcação da estrada da Trafaria com a do Lazareto. Por um lado é perto o mar, por outro, mais perto ainda, o Tejo.

A casa de Bulhão Pato no Monte de Caparica.
Imagem:Hemeroteca Digital

A paizagem vulgar d'aquelles sitios: vinhas em volta, pinheiros ao longe. No caminho do Lazareto, a cem metros do Monte, umas ruinas pittorescas: a Casa das Bruxas, na sombra dos grandes ulmetros, onde os rouxinoes cantam na primavera.

Á hora em que o orvalho sobe mansinho no ar socegado, fazendo tremer os contornos longinquos, Bulhâo Pato, madrugador, pega da espingarda e elle ahi vae por esses montes atraz das perdizes, por esses pinhaes á espera das gallinholas.

E, vá por onde for, a natureza é bella sempre.

Por uma d'estas permutaçóes faceis a poetas, as mulheres que o saudam teem o perfume das rosas; sorriem-lhe, como labios frescos de mulheres, as papoilas de entre o trigo.

Caparica, Alto da Chibata ao Outeiro dos Capuchos (?), década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

O valle, mais abaixo, abre-se como um leque, de que o Tejo fulgurante fosse as varetas de prata; o panno parece pintado por um chinez paciente, o recorte fino dos montes da outra margem, o arvoredo até, com aquella nitidez que dão ás linhas os raios quasi horisontaes do sol nascente.

Costa da Caparica, Bairro de Santo António e Foz do Tejo, ed. Passaporte, 2, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

E o abrigo nas tardes chuvosas na barraca do homem do mar ou na choça do rachador de lenha? Ouvem-se perto os clarins da ventania e ao longe as ondas rufando no areal da Costa e nos cachopos da barra. (1)

Logo entradas de outono, as águas, desabando,
Tinham fartado o chão. Veiu tempo mais brando;
Depois dias de sol... (2)


Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) Câmara, João da, A Semana de Lisboa, 31 de dezembro de 1893
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Temporaes, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Outras referências:
Efemérides
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (4/18), o veterano da bandeira


FOLHETIM
O VETERANO DA BANDEIRA

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.