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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Almada, reportagem fotográfica Paulo Guedes, c. 1903

Paulo Emílio Guedes (1886-1947), nasceu em Mondim de Basto da Beira a 23 de Março de 1886 e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1947.

Papelaria e tipografia Paulo Guedes & Saraiva, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foi fotógrafo de imagens que posteriormente editava em postais ilustrados através da sua firma "Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva", em 1912 já tinha publicado cerca de mil novecentos postais diferentes.

Os agrupamentos temáticos abrangem panorâmicas de Lisboa, aspectos de rua, feiras, jardins, tipos populares, interiores e exteriores de edificios, acontecimentos sociais e festividades religiosas. Sem nunca ter abandonado a actividade de fotógrafo, trabalhou nos últimos anos da vida como livreiro. (1)

Paulo Emílio Guedes & Saraiva, verso de Bilhete Postal Ilustrado, UPU, década de 1900.
Imagem: Nazaré em Postal Ilustrado

Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva, Aurea 80, Portugal - Lisboa

Grande empresa editora de B.P.I.´s de grande qualidade e de predomínio fototipico. Como F. A. Martins , utilizou e cedeu clichés de e a outros editores, tendo editado para a província , por encomenda e com clichés de fotógrafos locais.

Conhecem-se-lhe varias colecções editadas , com numeração geral em romano ou em árabe pela ordem crescente e com sub numeração por localidade ou sub-colecções temáticas. A sua colecção geral intitula-se "Portugal " em que sobressaíram reportagens da situação politica e da vida portuguesa. Subdividiu-se em varias sub-colecções ou colecções temáticas.

A edição relativa ao concelho de Almada compreende, que seja do nosso conhecimento, os postais numerados de DCCLXXXV a DCCCVI da colecção geral:

  • 01 Chegada do vapor a Cacilhas
  • Almada, Chegada do vapor a Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 01, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 02 Um desembarque em Cacilhas
  • Almada, Um desembarque em Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 02, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 03 Pharol de Cacilhas
  • Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 04 Chafariz de Cacilhas
  • Almada, Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 04, década de 1900.
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cacilhas, Almada, ... 1987

  • 05 Largo do poço em Cacilhas
  • Almada,  Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 05, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 06 Uma das muralhas do castelo
  • Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

  • 07 O interior do castelo
  • Almada, O interior do castelo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 7, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 08 Uma das peças do castelo
  • Almada, Uma das peças do castelo,  ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 1, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 09 Lado sul (vista panorâmica com o n° 10)
  • Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 10 Lado norte (vista panorâmica com o n° 09)
  • Almada, Lado Norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 10, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 11 Camara Municipal
  • Almada, Camara Municipal,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
    Imagem: Delacampe

  • 12 Bocca do vento
  • Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 13 Jardim da Cova da Piedade
  • Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 14 Uma Burricada
  • [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 15 Caramujo
  • Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 16 Romeira

  • Almada,  Romeira, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 16, década de 1900
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cova da Piedade, Almada, ... 1990

  • 17 Largo Lago da Quinta Real do Alfeite
  • Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 18 Palácio Real do Alfeite
  • Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 19 Praia do Alfeite
  • Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 20 Cacilhas
  • Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 21 Ginjal
  • Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 22 n. id.
  • 23 Typos de catraeiros
  • Typos de Catraeiros,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 23, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

A extinção da Papelaria Guedes herdeira da firma Paulo Emilio Guedes ocorreu antes de 1922. (2)


(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Vicente Sousa, Neto Jacob, Portugal no 1º quartel do século XX documentado pelo bilhete postal ilustrado...,
Bragança, Câmara Municipal, 1985, cf. Nazaré em Postal Ilustrado

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Caldeirada à Pescador

Publicar de novo O Espreitador na Romaria do nosso, José Daniel Rodrigues da Costa, tem por objectivo celebrar o facto de termos ultrapassado as 100.000 visitas.

Recrutas portugueses da província da Estremadura, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com determinação, idêntica à dos recrutas da imagem, durante os ultimos 25 meses, nas 328 publicações que fizemos, referenciámos informação em milhares de documentos e imagens e estabelecemos ligações a essas fontes de conhecimento.

Nesse percurso, quantas vezes as imagens nos contavam uma história diferente do texto que acompanharam. Ou quantas vezes o nome dado aos excertos foi antagónico ao do documento completo. Todos esses documentos são histórias várias vezes contadas e, todos eles, com mais histórias por contar.

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Assim, enviamos o nosso reconhecimento aos autores e proprietários dos documentos e imagens aqui apresentados, e também a todos aqueles que a este projecto facilitam, colaboram, discutem ou simplesmente visitam.

Por ora, vamos dar lugar à ironia e comicidade de um autor, neoclássico, onde não se esperam as subtilidades e doçuras do romantismo ainda distante.

ooOoo

Vindo á notícia do nosso bom Espreitador as infelicidades de uma romaria, que se fez com certo rancho de senhoras ao sítio da Costa, a rogos de um dos concorrentes se propôs descrever a mesma função, e os seus acasos, que não deixam de merecer a atenção das gargalhadas.

Jozé Daniel Rodrigues da Costa, (1757-1832).
Imagem: Tertúlia Bibliófila

Foi a cinco deste mez [agosto de 1802], que cinco sujeitos da Fábrica Moderna convieram em fazer uma função de romaria ao sítio da Costa, por quererem tirar o ventre de miséria de peixe:

e onde se poderia pilhar mais fresco, do que ali ao tirar da rede? Oh gostosa caldeirada, ferve, e toma o gosto dos temperos, até que estas barrigas se vão cevar no teu portentoso molho! Esperem os pargos, detenham-se os robalos, não apareçam por ora os gorazes, nem os congros, em quanto estes cinco viajantes se não põem a caminho para os tirar do lanço!

A leiteira e o pescador [ou peixeiro], c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia premeditado sairão estes cinco individuos com duas famílias de senhoras, umas assim, outras assado; porém todas de modernismo, á excepção de duas tias muito velhas, que serviam de preladas aquela comunidade.

Pelas seis horas da manhã embarcou o rancho no Cais da Pedra com excessivo contentamento, e de alforje somente um cruzado novo de pão. Cantaram-se modinhas pelo mar, houve muitas risadas; porém todos em jejum para poderem abranger a grandeza da caldeirada.

Lugar de atracagem em Belém, c. 1824.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chegaram a Cacilhas, oh que lindeza de terra pelas providencias, que tem para o comodo das senhoras! Apenas o rancho saltou no cais, saltarão também no rancho vinte e dois garotos de grande marca, oferecendo burros às senhoras.

Um se esmerava em dizer que o seu era de albardinha; outro dando um murro no companheiro, se adiantava a inculcar o seu, porque tinha cadeirinha: acolá vinha um banazola meio bêbado, oferecendo um macho de albarda: aqui vinha uma mulher com muitos cumprimentos, manifestando ao rancho um machinho de sella, que apenas o apanhou justo, também logo pediu um bocadinho de tabaco para a sua caixa, porque estava sem elle; e o resto da rapaziada aos bofetões, e cambalhotas uns aos outros, com seu sanguinho nos queixos, pela emulação de "o meu burro é bom, o teu não presta".

Já todos tinham cavalgaduras, quando o círio da pescaria se organizou, e se pôz a caminho: forte festa, forte alegria, e forte jantar de peixe se espera. Tantas eram as senhoras, tantas foram as quedas, que se deram.

Senhoras que passeiam montadas sobre burricos, c. 1814.
Imagem: Google Books

Um dos Tafuis, que levava uma garrafinha de mostarda n'algibeira para despertar o apetite da caldeirada, infelizmente, quando uma senhora caiu, elle descendo-se com mais brevidade, para lhe acudir, tal jeito deu, que fez a garrafa em farinha, e aqui temos dentro d'algibeira nada menos que outra caldeirada, que consta de bocados de vidro, um lenço branco finíssimo ensopado em mostarda, ou forro da casaca perdido, e uma caixa de rapé quebrada, da qual o retrato não tinha custado pouco.

Cavalheiro de Lisboa, c. 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Que grandeza d'alma não é precisa a um destes, para não fazer caso de semelhante desastre! O que lhe dava alguma consolação era saber que a senhora, sua apaixonada tudo lhe havia de levar em conta.

Dama da classe média de Lisboa, c. 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Continuou tudo em sossego depois desta mixórdia, quando a poucos paços o machinho de sella, que era manhoso, se pôs aos couces de forma que sacudiu o cavalheiro, abrindo-lhe a cabeça na esquina de uma pedra.

Oh desgraça, que tiraste de inquietar esta paz de espíritos!

Chovem lenços a aperrar a cabeça do enfermo, elle branco como a cal da parede, esforça-se por não se mostrar maricas; uma das tais velhas limpa-lhe o rosto, a outra pergunta-lhe se doe no peito; mas elle de que mais se queixa é dos quadris, e de toda aquela parte: a apaixonada com as lagrimas nos olhos, maldiz a hora, em que lembrou a romaria.

Saindo de Cacilhas com oito rapazes pelo caminho, não tinham um só, que fosse buscar uma gota d'agua, porque é o costume desaparecerem, e só permitirem a graça da sua estimável companhia, quando a mesa se põe.

Aqui temos já um festeiro a pé, que nunca mais montou no macho, por lhe tomar medo e uma das velhas sacrificando-se a ir de penitência, com tanto que elle fosse a cavallo: o certo é que ele, e ela foram aos poucos.

Elegante do povo, Henri l'Evêque, c. 1814.
Imagem: Google Books

Chegou o rancho á Costa, e dado à costa com fome do tamanho de todo aquele areal.


Traje feminino nas cidades portuguesas, c. 1828.
Imagem: Internet Archive

Eis que negras, e condensadas nuvens enlutam a atmosfera; aparece um relâmpago, dizendo pela voz de um horroroso trovão: "não há peixe porque em quanto eu me demorar por este sítio, não tem licença os peixinhos, para virem fóra d'água".

Com efeito falou o trovãozinho pela boca de Júpiter; porque o mar encapelado, e negro, relâmpagos sucessivos, trovões amiudados, e água a cântaros, fazia tudo uma caldeirada, que se não podia tragar.

Pescador e sua familia [Pedrouços], Marianne Baillie, c. 1823.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ofereciam-se grandes interesses aos pescadores, mas nem assim os brutos se moviam a ir botar a rede.

Bellas Artes, 16, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

Desenganado pois o rancho, de que não havia com que matar a fome, já corria às barracas daquele sítio, onde não acharam mais que duas postas de bacalhau muito encortiçado, e quatro cebolas cozidas: parece que o diabo de propósito lhes tinha preparado aquele banquete.

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

As meninas lá se acomodaram com o pão do alforje, porém uma das velhinhas entrando com o bacalhau de volta, tanto rilhou, tanto rilhou nele, que dos únicos quatro dentes, que tinha na boca, um que estava já como badalo de sino, veio a terra.

Velha camponesa de Sintra, c. 1823.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os rapazes dos burros, que lhes cheirou a função a pão seco, por não deixarem saudades, se despedirão em silêncio, e vieram para Cacilhas esperar o rancho.

Desconsoladamente votou o rancho das senhoras em marchar logo daquelas praias, e pondo-se tudo outra vez a caminho com caras de Monges d'Arrábida, se até ali as tinham de anjinhos de presépio, chegarão a Cacilhas pingando:

Traje feminino habitual em Portugal, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e naquele lugar, com carapaus fritos, que foi o que se achou, puseram uma rolha na boca á fome.

Houve suas descomposturas com a dona do machinho, e mais palavra, menos palavra, afretou-se uma falua para ser transportado o rancho para Lisboa. Vinham aquelas almas capazes de se pedir para ellas; porque vinham ensopadas, agoniadas, esfaimadas, enxovalhadas, zangadas, e tudo o mais, que aqui se lhes poder ajuntar, que acabe em adas.

Saltarão para dentro da falua: foi o arrais o braceiro das senhoras, que ainda com ser grosseiro, tem occasiões, em que o interesse lhe ensina a politica. Chamou a companha; porém mal sucedido, porque cada um vinha por sua vez: ora desviava a falua do cais, ora tornava ao cais, e afretando a embarcação a este rancho, por suas moças de pau, queria fazer carreira.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada * : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



Gritava o arrais: lá vem o senhor capitão; deem lá a mão ao senhor capitão, venha cá, senhor capitão, venha cá comigo.

E tal algazarra se fez, que duas horas e meia durou o embarque, e completou-se o chamado frete com algumas quarenta pessoas dentro.

Ora em quanto a embarcação veio terra terra, vinham as senhoras do rancho nas suas glórias; mas tanto que se levantarão os pauzinhos, e se lhes dependurarão os estandartes, eis a embarcação fazendo bordos, eis as balhadeiras a saltarem de crespas, e a botarem borrifos para dentro com cada sopapo, que era uma consolação.

As meninas carregando na falua pela parte oposta, para ver se a endireitavam: as duas tias velhas já com cara de icterícia, dizendo lá comsigo: negregada festa.

A cada balanço chamava-se por quantos santos tem a folhinha.

O que metia mais compaixão era a tia desdentada a vomitar os carapaus fritos de Cacilhas; mas consolavam-na dizendo-lhe que isto livrava de uma doença: ao que ela respondia que antes queria ver-se achacada toda a vida, do que achar-se naqueles lances.

E afinal, nesta confusão de misérias, chegou tudo a salvo ao Cais da Pedra.

A View of the PRAÇA DO COMMERCIO at LISBON, taken from the Tagus : the original Drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foram para casa, quasi como a pau, e corda, e dois meses a fio se falou na função a todos, que as visitavam.

Mulher transportada ao hospital, Henri l'Evêque, c. 1814.
Imagem: Google Books

Quem quiser talhar outra festa semelhante, aqui lhe achará o risco. (1)


(1) José daniel Rodrigues da Costa,  O espreitador do mundo novo: obra critica, moral, e divertida, Lisboa, Officina de J. F. M. de Campos, 1819 [1.a edição, 1802]

Leitura relacionada:
Humor impresso: cultura e política em "O Espreitador do Mundo Novo"


Outros trabalhos do autor:
Internet Archive

domingo, 19 de junho de 2016

Crescimento do largo de Cacilhas

Durante a década de 1860, após várias tentativas desastrosas de estabelecimento de carreiras de vapores subsidiadas pelo Estado, a Empresa de Vapores Lisbonenses [empresa de Guilherme Burnay, depois Parceria de Vapores Lisbonenses] conseguiu assegurar o funcionamento de algumas carreiras em barcos a vapor para o transporte de passageiros e mercadorias de Lisboa para Paço de Arcos, Belém e Cacilhas.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A firma dominou os transportes fluviais a vapor no Tejo em toda a segunda metade do século, assegurando a exclusividade no transporte para Cacilhas.

A partir daqui as pessoas deslocavam-se para Almada e outras povoações em burros ou trens especialmente fretados para o efeito, os "chars-à-bancs" [charabans, pop.].


Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva, 19, c. 1900.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nas primeiras décadas do século XX o aumento da população da margem esquerda e o estabelecimento das ligações rodoviárias com o Sul forçaram a um alargamento do cais de Cacilhas a partir de Novembro de 1928, o que permitiu uma atracagem mais frequente dos barcos de diversas empresas que faziam a travessia do Tejo.

A partir de 1925 começaram a estabelecer-se carreiras regulares entre Cacilhas e diversas localidades do Sul do país, o que levou as autoridades marítimas a iniciar o referido alargamento do cais, de forma a permitir o estacionamento dos veículos das empresas que iam tomando as concessões dessas carreiras.

Largo de Cacilhas, 1.a Volta a Portugal a Cavalo, 10 de outubro de 1925.
Imagem: Luís Bayó Veiga, Cacilhas - Imagens d' antigamente, 2011, Junta de Freguesia de Cacilhas, 55 págs.

A intensificação do trânsito rodoviário de ligação ao Sul começou, em meados dos anos 30 [...]

Autocarro da Seixalense no largo de Cacilhas em 1931. No letreiro: Cacilhas-Seixal e vice-versa.
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Scribe, 2013

As obras, no entanto, prolongaram-se até 1933, e durante este período os numerosos auto-cars foram forçados a utilizar apenas a parte antiga do largo, pois a falta de pavimentação do acrescento transformava-o num lodaçal. (1)

Cacilhas, chegada dos concorrentes da prova dos 10 mil quilómetros, organizada pelo Automóvel Clube da Alemanha, 1931.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Por esse tempo, Cacilhas parecia uma cobra a mudar de pele. A praia e a rampa onde os barcos de pequeno calado encontravam abrigo, a uma pequena parcela de muralha, o primeiro aterro. Os trens e as carroças foram rendidos pelas camionetes e os taxis, relegando as bestas de tracção para outras tarefas [...] (2)

Pontaleto de Cacilhas, década de 1940.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Em 1949 a Autocarros do Sul fundiu-se com a Transportadora Beira-Rio, do Seixal, e constituiu a Empresa de Transportes Beira-Rio, L.da.

A Autocarros do Sul, com sede em Cacilhas foi integrada na Transportes Beira-Rio, Lda. que havia sido constituída em 1943 em Paio Pires, por José Vicente Moreira e Joaquim Ferreira dos Santos.

No mesmo ano o dono da Autocarros do Sul (João Carneiro Zagalo e Melo) vai adquiri-la e mudar a sede para Cacilhas.

Essa empresa é que chegará pela mão da família Zagalo a 1968 e constituirá a Transul ( juntamente com a Piedense).

José Luis Covita
A partir de 1945 passaram a existir apenas duas empresas de transporte de passageiros entre as povoações do concelho de Almada: a Empresa de Camionagem Piedense, L.da, que assegurava as ligações de toda a zona norte do concelho, de Cacilhas à Costa da Caparica, e a Autocarros do Sul Empresa de Transportes Beira-Rio, L.da, com a concessão de todo o eixo de saída para o Sul, englobando a Cova da Piedade, Laranjeiro, Sobreda, Seixal e Paio Pires.

Cacilhas, largo do Costa Pinto, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A aceleração da urbanização da zona de Almada, a partir de 1947, e a intensificação do tráfego rodoviário para o Sul do país fizeram com que o Largo de Cacilhas se revelasse novamente insuficiente para a movimentação cada vez maior de autocarros.

Cacilhas, Lisboa vista de Cacilhas, ed. Postalfoto, 468, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Em 1950 efectuou-se um novo e decisivo alargamento do largo para a sua dimensão actual [2000], transformando-se num dos maiores centros rodoviários do país [...] (3)


(1) Jorge de Sousa Rodrigues, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.
(2) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(3) Jorge de Sousa Rodrigues, idem


Referências;
José Luis Gonçalves Covita, História da Camionagem no Concelho de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1995

Artigos relacionados:
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Na esplanada do forte de Cacilhas

Largo do Costa Pinto
A calheta de Cacilhas