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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O edifício da União Eléctrica Portuguesa

O antigo edifício da União Eléctrica Portuguesa, projectado pelo Arquitecto Francisco Keil do Amaral, surgiu da necessidade que a Companhia Nacional de Electricidade tinha de estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Entrada Conjunto Pormenor.
Arquivo Municipal de Lisboa

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo que integrava a subestação tinha um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. No entanto, era ainda neste local que se situavam todos os serviços de apoio ao transporte de energia.

Em termos da evolução histórica da zona a intervir, pode-se claramente distinguir quatro fases, todas elas temporalmente situadas no século XX.

A fase inicial, realizada entre 1930 e 1940, traduziu-se num pequeno edifício residencial, de autor desconhecido, característico da arquitectura do regime de então. 

Almada, geradora eléctrica, localizada no Campo de S. Paulo, ed. desc., década de 1930.
Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

A segunda fase foi já protagonizada pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, em 1940. O edifício em forma de L e a sua torre vertical ficaram acabados em 1945 e tinham como fim alojar os escritórios da União Eléctrica Portuguesa.

Almada, rua Bernardo Francisco da Costa, ed. desc., década de 1960.

Com o passar do tempo foi necessário expandir os escritórios e criar armazéns, tendo-se assim dado início à terceira fase. Grande parte desta inter- venção constava já do projecto original de Keil, ao qual foi apenas necessário acrescentar a casa do Guarda e a conexão com o edifício pré-existente.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Escada Fachada.
Arquivo Municipal de Lisboa

A quarta e última fase consistiu numa série de adições necessárias de re- alizar, tal como o novo volume em betão que servia para estacionamento. Na construção e no acabamento da obra de Keil foram usadas paredes duplas de tijolo, rebocadas com argamassa de cimento e areia ao traço de 1x4 e pintadas com “aquella”. Ao nível dos pavimentos, foram colocados mosaicos de “marmorite” e de cimento com óxido de ferro.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Sala de vendas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Adicionalmente, nesta obra usou-se ainda um vasto conjunto de materiais, nomeadamente socos de cantaria bujardada provenientes de Sesimbra, caixilharias de pinho pintadas a esmalte, com uma vidraça mecaniza- da nacional de 4mm, e ainda telha “marselha”, em lugar da tradicional telha “lusa”. (1)


(1) Reabilitação da antiga subestação da união eléctrica portuguesa, em Almada (abstract)

Mais informação:


terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

Artigos relacionados:
Almada em 1960
O centro cívico

domingo, 24 de abril de 2016

Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Costa da Caparica, Meia Lua, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Costa da Caparica, Almada, Passaporte,  53, Pôr de Sol e barcos pesqueiros.
Imagem: Delcampe

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

No areal da Costa da Caparica.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Costa da Caparica, Meia Lua, Artur Pastor.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador! (1)


(1) Almeida Garrett, Folhas caídas, 1853

sábado, 6 de fevereiro de 2016

La Paloma

Mãe e filha vieram de Peniche e viviam ali num barracão, paredes meias com a fábrica, talvez uma dezena de operárias, encamadas naquele exíguo pardieiro, como sardinhas em lata [...] (1)

Cais do Ginjal (detalhe), Julio Diniz, década de 1960.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Agora, o apito da fábrica de conservas berrou duas, três vezes, e prolongou-se indefinidamente. Estão a chamar mulheres! exclamaram todos. No rio, aproximava-se um alegre cortejo fluvial. Um gasolina rebocava um buque na direcção do cais e o tombadilho da embarcação vinha berrante de varinas. Um tecto branco de gaivotas sobrevoava o barco, com estridentes pios de gula.

Cais do Ginjal. Embarcações na praia das lavadeiras, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

A miudagem pulou de gáudio. Vestiram-se os que a briga atrasara. Chico Trinta botou aviso: 
— Cada um par seu lado! Nada de ajuntamentos!

Outros rapazes, mais espigados surdiram da garganta da rocha. Chegavam também as primeiras mulheres ao chamamento sôfrego da fábrica. Próximo de terra, o gasolina singrou numa elegante curva e o homem do linguete soltou o cabo de reboque deixando vir o buque a navegar para o cais.

Cais do Ginjal e fábrica La Paloma, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já o gasolina se afasta, veloz, ante as chalaças dos poucos tripulantes, que não poupam as varinas.
— Ó lindeza! Logo vou lá bater ao ferrolho, ouviste?
— Olha, bate com os cornos!...
Perde-se a réplica, mas há ainda novos gracejos.

A embarcação aborda a terra e saltam os tripulantes. As varinas trazem as canastras. Os marítimos encamisados de flanelas berrantes arrastam saveiros de borracha, de canos a roçagar pelas virilhas. Pessoal gingão, metediço e reinadio. Num voltar de braços, as mulheres estendem a lona na canastra e botam-nas à cabeça.

Ti Maria Lancha, capataza veterana, deu o primeiro berro — a primeira ordem:
— Ó gente, vamos ao sal!
Três estivadores despiram as calças e arregaçaram as ceroulas acima das coxas. Calças, casacos e saveiros foram unidos em froixa, que se acomodou num forro da vela.

Abre-se o porão duas portas pesadonas, que tombaram, uma para bombordo e outra para estibordo e a sardinha, um chão de prata, brilhou para o cais, atiçando a gula das gaivotas e do rapazio.

Alfredo ouviu que o chamavam. Na escadaria da fábrica, enxergou a mãe debruçada, com o braço a acenar.
— Senhora!?
— Vai pra Almada, não ouves!? Eu fico na fábrica a trabalhar! O teu pai larga às cinco e quer-te ver ao pé de casa!...
Já vou...

La Paloma, conservas de peixe, anúncio de 1947.
Imagem: Elisabete Gonçalves, Memórias do Ginjal.

As fabricantas, apressadas, iam entrando. E, quando alguma parava e impedia caminho, sofria empurrões e apupos:
— Sobe, Gracinda! Deixa, que o teu rapaz não entra em casa com as mãos a abanar!

A mulher de Leonel não gostou da piada... mas só lhes resmungou a resposta sob os tectos fabris.

Outras e outras se seguiram, escada acima: raparigada nova, de seios a tremelicarem sob as blusas; mulheres gastas, de mau passadio, roto e trajar sem cuidados; e ainda uma cauda molengona de velhas rugosas e ossudas.

Sumidas as últimas entre umbrais, o apito cessou de berrar, enfim. Sobre o cais, numa pressa, concluiu-se a moira, canastras de sal vazadas no porão, juntamente com baldes de água arrancados ao rio.

Depois, um dos homens veio para a muralha, outro ficou no tombadilho e o terceiro alojou-se no porão, mergulhando as pernas no peixe.

Ti Maria Lancha, a capataza, ainda não parou de berrar:
— Vamos a isto, ó gente! Ai, que estamos desgraçadas! Quem não pode, arreia!

Descarga e lavagem do peixe, ed. Martins/Martins & Silva, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É uma velha alta, seca, tez acobreada por muitos sóis, e a sua boca desdentada treme, sobre o queixo, ao peso de muitas pragas:
— Ó Rita, tu hoje andas na avenida ou quê? Por esse andar, temos buque inté à noite!

O Zé Lula, um apanhador de cabazes, de nariz arrebitado, olhos à china, tem as pernas mergulhadas no mar de peixe do porão. As suas mãos não param: mergulham os catitas de verga e retiram-nos pejados de sardinha, a escorrer de moira.

Arremessado o cesto, este viaja, num curto voo, até às mãos do camarada do tombadilho. É posse que só dura um novo balanço, pois o cesto logo sobe em voo mais longo, até que o terceiro apanhador, que mãos! o capta com perícia de malabarista.

A borda do cais está uma barrica de pé. Sobre o tampo, as varinas, uma a uma, assentam canastras, que recebem peixe. Canastra cheia canastra à cabeça. Outra varina toma a vez...
— Então, Emilia, o teu homem já voltou à estiva? Isso voltou ele... Aquilo foi trambolhão maldito, pancada ruim...

As mulheres sucedem-se. Num vaivém fatigante, o trajecto da muralha ao primeiro andar da fábrica é calcorriado com frenesi. Na lama do caminho ficam moldados os pés, muitos pés: largos, sapudos, dedos espalmados, quase primitivos.

A Varina, Ilustração Portugueza, 2.aSérie n.a 339, 19 de agosto de 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Canastra à cabeça, tronco vertical, um braço amparando a carga e o outro aos sacões balanceados da correria.

Quadris bailões, safam, em passadas curtas, as pernas raiadas de varizes. Escorre a moira pelas roupas — e o ar, ao secá-las, deixa manchas brancas de sal.

A boca, num ricto doloroso, cospe baba e dichotes aos metediços.
— Arreda, lingrinhas!...
Os olhos encovados da capataza não perdem as manobras do rapazio.

Ela bem os topa, sorrateiros, um aqui,outro acolá, gancheta de arame rapinando o peixe das canastras.
— Ó Irene, dá uma porrada nesse canalha!
Três, quatro sardinhas são apanhadas do chão, e o fedelho esgueira-se para novo couto.

O guarda-fiscal desafivela o cinturão e aguarda nova oportunidade...
— Arraúl, quantas?
— Quase um quarteirão! E tu, pá?
— Ela por ela...

Chico Trinta a todos ultrapassa na colheita. Para cima de um cento! E quase sem se ralar e expor...

Albaneco morde-se de inveja. Ele não pode ver a varina fazer o jeito ao companheiro... Barafusta, intromete-se, torna-se abelhudo e embirrante.

Maria do Carmo é a mais linda rapariga da descarga; mas, para todos, e só a Carmo. Carita oval, olhos negros, cintura de cabaça e perna airosa. Todo o rapazio a nota à chegada e à partida: "Ainda não está a Carmo..." ou: "A Carmo já abalou..."

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Quando calha também, Ti Maria Lancha não a poupa de responsos, o que faz a varinita perder a estribeira... Arremeda, resmunga — e vinga-se logo, inclinando a canastra...
— Apanha, Chico!...

Varinas e pessoal do cais namoravam-se sempre. O peixe os punha frente a frente, a meter braços à descarga, a enleá-los naquele clima franco e rude. 

Cedo os catraios volviam olhos de admiração para as mulheres da descarga: decoravam-lhes os nomes, ofereciam-lhes os seus préstimos e sorrisos.

Sophia Loren, Agnès Varda, 1956.
Imagem: Pinterest

Assim nasciam simpatias, amizades que o tempo arraigaria no sangue, ao calor de uma certeza:

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, 1954.
Imagem: almanaque silva

— "Não há mulher prà ajudar um homem como uma varina!" (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Leitura adicional:
Les conserves de sardines à l’huile, ou le luxe français sur les grandes tables du monde

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mina de água do Pombal

Por decisão da Senhora presidente da Câmara Municipal de Almada, e na linha da sua preocupação para com a investigação, restauro e preservação do património deste concelho, mandou esta proceder ao desaterro de uma estrutura na zona do Pombal cujas origens remontam à idade Média, constituída por mina de águas, tanque e respectivos acessos, datando seguramente do século XIII, e aterrado por razões que se prendem com a urbanização do local, na década de sessenta deste século.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Dado o interesse manifestado pelas populações relativamente ao conjunto patrimonial em referência, a Junta de Freguesia da Cova da Piedade decidiu divulgar as poucas informações disponíveis sobre o local, proporcionando aos interessados elementos de caracter histórico por forma a melhor poderem avaliar o interesse deste núcleo no contexto da vida social e económica da região ao longo dos séculos.

Alfeite, vista Geral tomada da Quinta do Pombal (detalhe), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

O conjunto em referência cumpriu durante séculos a dupla finalidade de abastecer de água a população das zonas próximas, e desedentar o gado das redondezas, fazendo-se o acesso por uma rampa empedrada a basalto.

Cova da Piedade, fonte Medieval do Pombal.
Imagem: Flickr

Tudo indica que seriam frequentes os litígios entre os seus utilizadores, acentuando-se os conflitos de tal modo que em 1392, uma sentença repartiu a água entre a Albergaria ou Casa dos Gafos de Cacilhas, que aí tinham uma propriedade, e outros proprietários das redondezas. 

A partir da referida sentença, a utilização da mina e do tanque passou a ser de uso público e, naturalmente, por esse motivo foi encimado pelas armas de Portugal.

Bandeira pessoal de D. João I com a sua divisa "Pour bien".
Imagem: Wikipédia

A atestar a antiguidade do escudo de armas está à disposição das quinas em cruz. Este, quando do aterro a que já fizemos referência, foi retirado do seu lugar de origem e posto a salvo no Convento dos Capuchos, por iniciativa do eminente investigador da história local, arqueólogo e homem de cultura Dr. Mário Bento, para quem Almada tem uma dívida de gratidão.

De resto, deve-se a esta personalidade a recolha da cantaria da entrada monumental da antiga quinta das Rosas do Pombal, recolhida igualmente nos Capuchos, e infelizmente em péssimas condições de conservação.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Na primeira metade do século XX, já a água da mina do Pombal não era de boa qualidade para consumo e deixou de ser utilizada para esse fim, procedendo a Câmara Municipal de Almada à colocação de um chafariz no cimo da rampa de acesso, ligado à rede pública de abastecimento. 

No século XIV, o sítio compreendia uma extensa área que ia desde a referida mina de água, até à actual Rua de Vera Cruz, compreendendo o actual bairro de Na Senhora da Piedade e a quinta do Pombal que ali existia.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

Em 1390 a Casa dos Gafos de Cacilhas possuia aí uma propriedade que, por confrontar em toda a volta com caminhos públicos e por dela constar parcelamento por vários aforamentos supomos que abrangia grande parte da área citada.

Os aforamentos mais antigos, e mais interessantes, da Albergaria de S. Lázaro, no Pombal são: 

Em 1393, um casal de "herdade de pão e vinho" que trazia um tal Marcos, escudeiro;

Em 1409, um bacelo que entestava com "caminho público de Pombal para Alvalade", a actual Ramalha;

Em 1539, um cerrado ( junto da mina), aforado a Frutos de Gois, irmão do cronista Damião de Gois, e avô do 19 senhor do morgado de Mutela, Luís de Gois Perdigão de Mendonça;

Em 1539, uma quinta e cerrado, aforados ao adail Diogo Fernandes. Este,coincide em nome e cargo com aquele de que fala Gaspar Correia nas "Lendas da India"."mandou Diogo Fernandes , homem cavaleiro, a que deu o cargo de adail, com doze de cavalo... e com mil piães que passasse à terra firme".

Ainda em 1539, refira-se que uma das propriedades de Albergaria neste sítio confrontava com um morgado de Vasco Lourenço.

Em 1555, uma sentença proferida contra Francisco de Sousa Tavares e sua mulher D. Maria da Silva, obrigava estes a pagarem ao prior e aos beneficiados das igrejas de Almada foro, "por um olival, certas geiras, tudo junto, contíguo e cerrado", que partia do norte com olival e do leste com estradas públicas, tudo isto no Pombal.

José Carlos de Melo.

Finalmente, o último proprietário [anterior à familia Theotónio Pereira] da chamada quinta do Pombal foi o notável publicista almadense, José Carlos de Melo: que aí nasceu em 1885. (1)


(1) Policarpo, António Manuel Neves, Mina de água do Pombal, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1993

Artigos relacionados:

Rosas do Pombal
José Carlos de Melo


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Galeria da Cova do Vapor

Memórias Coletivas da Cova do Vapor integra-se no âmbito do projeto Casa do Vapor que visa a valorização da Cova do Vapor, assim como a sua divulgação, através da memória subjacente à imagem, que se procura simultaneamente salvaguardar [...]

clique para aceder às imagens

Esta plataforma online consiste basicamente numa base de dados ilustrada, que permita apresentar a um público extenso, os resultados deste trabalho. O site é uma ferramenta aberta, ou seja, que contempla a sua atualização e desenvolvimento. (1)


(1) Memórias Coletivas da Cova do Vapor

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O pântano

DESSECAÇÃO DO PÂNTANO DO JUNCAL, FIXAÇÃO DAS DUNAS E ARBORIZAÇÃO DOS TERRENOS DA TRAFARIA E COSTA DE CAPARICA

Em virtude dos esforços do sr. Jayme da Costa Pinto esclarecido e zeloso representante às cortes pelo círculo de Almada trata-se de realizar, como já dissemos, este importante melhoramento de há muito reclamado.

De um relatório do senhor Henrique de Mendia, com grande senso scientifico e profundo conhecimento do assumpto, vamos extrahir alguns dados interessantes relativos a esses trabalhos.


Os terrenos a que nos referimos, occupam uma superficie de 1,800 hectares e constituem as dunas ou areias, moventes de Caparica, Valle de Trafaria e pantano do Juncal, o beneficio projectado é orçado em pouco mais de 58 contos ds réis. 

As dunas da costa de Caparica são constituídas par um trato de areias moveis limitadas pela Torre do Bugio, onde tem a sua menor largura, margem esquerda o Tejo, até próximo da povoaço da Trafaria, recurvando-se com a linha da costa banhada pelo oceano, estende-se para sul até ás proximidades da lagoa de Albufeira, tendo por limite para o interior das terras a base da escarpa e uns terrenos mal cultivados denominados a Charneca.

Costa da Caparica, ponte de madeira sobre a vala, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Não nos podemos eximir á satisfação do desejo de transcrever aqui as palavras eloquentes com que o sr. Henrique de Mendia descreve as condições de existencia na povoação da Costa:

"Não se descreve, diz o illustrado agrônomo, porque difficilmente se imagina o árido e desolador aspecto d'estes incultos areaes formados por uma infinidade de dunas de mediana altura em extremo moveis nos logares mais desguarnecidos da pobre é dispersa vegetação rasteira, que n'outros pontos existe com proveito e castigados por um sol ardente que se reffecte e espelha de continuo na silica brilhante.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
(sondada e rectificada a margem sul em 1879)

É esta a paisagem que o viajante descobre á entrada do nosso primeiro porto e da nossa primeira cidade, e é n'este meio que existe uma povoação de muitas almas, acossada pelas areias que procuram de continuo atacar-lhe as trincheiras rudemente defendidas, sem uma estrada regular, que a ponha em eommunicação com os logares populosos, tendo no mar o seu quasi exclusivo sustento, procurado á custa de heroicos esforços tantas vezes impotentes e nas exhalações deletérias dos pantanos do Juncal o germen constante das febres paludosas de que annualmente enfermam familias inteiras.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Bem triste povoado e desgraçados habitantes que teem por unico abrigo a choupaqa de colmo, mais pobre do que  a cubata de negro, sem que ao menos encontrem na organisação d'este as forças indispensaveis para reagir e lutar contra os miasmas exhalados pelas águas estagnadas e putridas que os prostam ás vezes tão repentinamente como se um accidente os accommettera de imprevisto."

O sr. Henrique de Mendia considera a arborisação das dunas cuja supercie se avalia em cerca de 1,400 hectares como o unico meio de melhorar as más condições d'aquelle trato de terreno.

Trafaria — Valla e estrada da Costa.
Delcampe

Como a verba mais importante n'este revestimento dé terrenos é o transporte do matto para cobrir as sementeiras, lembrou-se o illustre agronomo de substituir o transporte do matto dos Pinhaes do Conde dos Arcos e Caparica cuja verba não seria inferior a 2$400 rs. por hectare de sementeira pelo transporte fluvial da Matta da Machada e de Valle de Zebro á Trafaria, ficando assim o custo médio da carrada por 630 rs. em vez de 2$400 réis e portanto o hectare por 50$400 réis, verba á qual adicionando-se outras despesas, guarda do terreno, etc se eleva apenas a 66$000 réis.

A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Calculando o terreno a cobrir êm 900 hectares em consequencia de se deixar 500 hectares para logradouro dá povoaçao, facha de resguardo, zona invadida pelo oceano, etc. a importancia total do revestimento das dunas, sem duvida um dos mais urgentes e uteis melhoramentos do nosso porto, fica em 52:800$000. Ao sr. Henrique de Mendia cabem bem merecidos encomios pelo modo intelligente e economico como indica a realisação d'esse melhoramento.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

O valle areiado da Trafaria passa próximo de Murfacem, toca na costa do Cão e estende-se além de Pera, mede 2 kilometros de extensão sobre 300 metros de largura media, o que dá 80 hectares de superficie. As obras indicadas são, além da sementeira, uma boa e bem construida sebe de defesa na linha de incidência dos ventos reinantes o alguns abrigos internos de mais ligeira construcção entrecrusadas de espaço a espaço, orçadas importancia de réis 3:600$000.

Uma superfície de 30 a 40 hectares, que rodeia a povoação da costa e fica encravada entre as dunas da costa de Caparica e a Charneca é constituida por terrenos alagados, conhecidos pelo nome de Juncal, denomipação proveniente da abundância de juncos, que ali crescem. 

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1940 (?).
Imagem: Delcampe - Oliveira

Esse pântano alimenta-se das águas pluviaes e do oceano; que por vezes irrompe atravez das areias, depositando ali as suas águas, que ali fjcam represadas por falta de escoantes, em consequencia do nivel do terreno ser inferior ao do oceano. Esta mistura e estagnação produzem miasmas deleterios, ainda mesmo no inverno.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Para combater estas condições são indicadas as vallas profundas e bem orientadas e uma plantação bem dirigida do encalyptus globolus, arvore de grande poder esgotante e de efficasissimas propriedades hygienicas, estas arvores serão no numero de 39,990 o as vallas occuparão 2,000 metros correnles. 

Costa da Caparica, acesso à Via-Rápida,década de 1960.
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

A despeza total para a dessecação e plantação do pântano do Juncal, incluindo o ordenado do guarda no 1.° anno, está calculada em 2:586$900 réis.


(1) Artigo original de Gervásio Lobato publicado no Diário de Notícias e republicado em A Realeza, de Duarte Joaquim Vieira Júnior, edição 1 de de 2 de setembro de 1882, e no Diário de Belém, edição de 3 de outubro de 1882.

Artigos relacionados:
O Juncal
A costa no século XIX
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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Largo Gil Vicente

No último quartel do século XIX construiu-se a nova estrada Cacilhas - Trafaria que aproveitou parte das antigas azinhagas. A sul de Almada abriu-se um troço inteiramente novo desde onde é hoje a praça Gil Vicente [...] (1)

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

D. Francisco de Melo e Noronha (1863 - 1953)... muito respeitado nesta sua terra de adopção, onde residia em casa própria, no fim da Estrada Nova [...]

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Correia, Romeu,
Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

A sua residência, conhecida pela Casa do Gato, foi adequada, respeitando a sua vontade, a um liceu. (2)

Almada, Casa do Gato, posteriormente Externato Liceal de Almada (Externato do Gato), década de 1960.
Imagem: Casario do Ginjal

A partir de Julho de 1947 a CMA começou a vender, em hasta pública, os lotes resultantes da expropriação da Quinta do Conde [de Assumar, provavelmente D. João de Almeida Portugal], uma das propriedades sobre as quais incidia o PPUA [Plano Parcial de Urbanização de Almada, aprovado em abril de 1947]. 
Figueirinhas — Nome do sítio que abrangia as terras onde estão hoje o Largo de Gil Vicente, o princípio da Avenida D. Afonso Henriques e o princípio das ruas D. Sancho I e Bernardo Francisco da Costa.
O topónimo está em desuso e mesmo completamente esquecido.

Em 1665 o Conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, arrendou ao Capitão-Mor Álvaro Pereira de Carvalho, uma propriedade no sítio "aonde chamam as figueirinhas" que contactava "da banda do Sul com a estrada pública que vem da Mutela para Cacilhas... e do Norte com a estrada que vem de S. Sebastião para Cacilhas".

in PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Almada, rua D Sancho I, em segundo plano figuram a "Casa do Gato" e a ainda área rural, década de 1950.
Imagem: almaDalmada

As verbas resultantes da venda de lotes e as receitas da água (desde 1945) foram aplicadas nas amortizações dos empréstimos e na implementação das obras de urbanização [...]

Entrada da Av. Afonso Henriques, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 172.

O PUCA [Plano de Urbanização do Concelho de Almada, entregue por Étiènne de Gröer em setembro de 1946] e o PPUA previam o desenvolvimento urbanístico de Almada para sul, em torno de uma avenida central, designada por Rua I (actual Avenida Afonso Henriques) e construída paralelamente ao antigo eixo de ligação a Cacilhas (a chamada estrada nova).

Fotografia de António Homem Christo,
in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

Entre as duas vias desenvolver-se-ia o novo centro cívico da vila, comercial, administrativo e religioso [...]

Praça Gil Vicente, vista parcial e início da Estrada Nova, década de 1950.Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Embora a JAE tivesse assumido a construção da avenida central da zona nova de Almada, que constituía um troço da "estrada turística", e tivesse desenvolvido a sua ligação alternativa a Cacilhas, aquela nunca foi construída, nem as projectadas circulares. 

Almada, Praça Gil Vicente,ed. Postalfoto, 12, década de 1960.
Imagem: Delcampe

A ideia da cidade-jardim foi-se perdendo a partir da aplicação da legislação que reintroduziu a lógica do primado do loteamento particular, em oposição à urbanização planeada e executada pelos municípios da época de Duarte Pacheco. (3)

Almada, Praça de Gil Vicente e fonte luminosa, Ed. da Comissão Municipal de Turismo de Almada, 2, c. 1970.
Imagem: Postais Ilustrados


(1) PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(3) Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.