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terça-feira, 15 de março de 2016

Crianças a banhos na Trafaria em 1901

Bem empregada é essa esmola feita ás crianças escrofulosas, que por conta da assistência nacional aos tuberculosos, por que tanto se interessa a Rainha Sr.a D. Amelia, vão agora todas as manhãs tomar banho á praia da Trafaria.

Princesa D. Amélia d'Orléans e Príncipe D. Carlos de Bragança (detalhe), 1886.
Imagem: Observador

É quasi uma centemna de crianças já condenadas á morte e indultadas pela caridade, que difficilmente podia achar melhor occasião de exercer-se. Prometteram-lhes a saude e ellas lá vão arribando, já com melhores cores nas faces, com alegria maior nos olhos.

Foi a praia da Trafaria a escolhida, e á hora das crianças irem receber o abraço higyenico da aguas do mar, que contraste não ha entre aquelle extenso areal, que vê as tristinhas a sofrer e a as praias garridas da outra margem, e mais além as do Occeano, cheias de alegria, dando nota do que ha mais elegante em Portugal.

O banho ás creanças escrofulosas na Trafaria, J. Christino da Silva, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

De todas elas falam muito os jornaes e até alguns se batem para ver quem melhor consegue dar novas de sensação. São "pic-nics" que se realisaram, bailes em projecto, partida de "lawn-tennis", os que entram eos que sahem, columnas em prosa compacta descrevendo "cotillons". (1)


(1) João da Camara, O banho ás crianças escrofulosas..., O Occidente, n.° 818, dezembro, 1901

sábado, 18 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte V)

Graças aos braços vigorosos do meu remador, o barco afastou-se rapidamente do Cais do Sodré, contornou alguns navios adormecidos do sono quebrado por duras jornadas de pesca e, em seguida, dirigiu-se na direção dos navios de guerra que estacionavam em águas mais abertas. A partir daí, não mais foi que uma corrida direta, sem obstáculo, sobre o Tejo, que agitava ondas pesadas sob o céu muito sombrio polvilhado de estrelas.

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Desembarcamos em silêncio. De um pequeno albergue, à beira do cais, vozes rudes se faziam ouvir, e o fumo dos fogareiros, onde assavam castanhas enviava-me o seu odor acre. Subi rapidamente o caminho.

Ela viu-me a chegar a partir do terraço onde esperava por mim, e abriu-me a porta com um ar de mistério. Uma pequena lâmpada ardia no vestíbulo. Um gato roçou-se contra mim. Ela passou-me á frente, pegou na luz e subiu umas escadas de pedra e eu segui-a. O desenho azul de um painel azulejos estendia-se ao longo da parede; o vestíbulo parecia, do primeiro andar, na claridade indecisa da pequena luz, , ruidoso e frio, afogado nas sombras das madeiras escuras. Por vezes, ela voltava-se, me enviando-me um sorriso, abafando o som de uma porta, até que chegamos ao terraço, depois de atravessar três divisões.

Aí ela parou. E, silenciosamente, ardentemente, na alegria dos obstáculos superados, ela entregava-me a sua boca como uma recompensa pela sua ousadia. Ela tinha um vestido leve através do qual a sentia toda. E foi uma verdadeira excitação, um estonteamento sem dúvida provocado, o toque sedoso deste tecido que parecia a pele de um fruto maduro. 

Então, ela dobra-se nos meus braços como um ramo bruscamente inclinado, — e, e adivinhando o meu desejo, escapou-se de um salto, ligeira, sempre como o flexível ramo, que largado, saltou sobre pressão, chicoteando no ar, depois, ela voltou, caminhando como nua, na graça toda branca do seu vestido, a passos muito pequenos brancos como para não ceder, a cabeça curvada sob o encanto esperado, pálida, desmaiada no escuro de sua mantilha.

Ela avançava e recuava, como uma gata, agarrando com as suas pequenas mãos de virgem os seus palpitantes, rodando num ritmo estranho o seu tamanho flexível de árvore jovem em seiva, oferecendo-se, contendo-se, muda e contente, a cúpula estrelada do céu e o hálito dos jardins floridos.

Era uma noite maravilhosa, uma noite de lenda. Um contra o outro, no alto do terraço, escutávamos passar sobre o sono do campo o silêncio do espaço. As estrelas estavam tão altas nos seus campos ilimitados que quase não brilhavam. Nenhum som mais se levanta, nenhuma emoção mais passa; assistimos à sombra em movimento, a noite caminhado para nos levantar, nos levar na maré serena com os ruídos perdidos, as brisas soltas e o perfume das flores.

Oh! tão longe ela me levou, essa noite de outono, tão longe agora no recuo dos anos, a outras noites parecidas, até uma parecida languidez balsâmica, uma mesma juventude de esperança... Bem que outra imagem se tenha posto a reviver no fundo da minha memória, que outros traços renovariam diante dos meus olhos o milagre da sua terna beleza, e eu me perderia uma vez mais no sonho regressado, no encantamento de memórias inesquecíveis.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, década de 1890.
Imagem: José Luis Covita

E, sem dúvida, o valor inestimável desse momento foi, que junto da bela senhora, na noite perturbada do sul, a única ideia que me tem foi ainda a da querida adorada cuja proteção, apesar das distâncias, jamais me abandonaria.

Duvidaria ela, minha companheira do acaso? Os nossos sonhos, em ambos, encontravam-se na mesma preocupação; seu amor-próprio em jogo, ela foi empurrada para as piores dúvidas e sob a calma de rainha chocava um ciúme violento. Mais inquieto do que nunca, naquele momento onde me daria tudo, ela tardava indefinidamente, tendo posto muito em jogo, ao que não ousava, por medo de um desastre, informar-se do resultada. 

Pressionada também pela expectativa do prazer, uma emoção durante muito tempo contida tremia a sua carne com imperiosamente agitada. Ela permanecia assim no impasse em que a colocava a impaciência de desejo e medo de não ter triunfado.

Então ela cerca-me com os braços, que fazem do meu pescoço uma guirlanda de beleza, e mergulhando nos meus olhos as palhetas de ouro dos seus, ela balbucia contra os meus lábios, com a voz trêmula, suplicante:

— Diz-me que a esqueceste, que me amas mais do que a ela, mais que tudo...

Senti o seu hálito, e depois o choque inflamado dos seus beijos. Encontrei-a toda à minha volta embrulhando-me, tentando arrancar-me pelo contato da sua pele nua um pensamento que não era meu.

Foi o reflexo súbito de uma luz revelada, uma tristeza imensa tristeza no fiasco das minhas vaidades, das minhas loucas concupiscências. E eu não soube fazer mais do que queixar-me para não a ferir muito.

— Porquê sempre a sonhar com a outra? Por qual maldade evocá-la aqui?
— Tu não me amas! atirou ela bruscamente.
— Porquê não querer amar senão sobre ruínas, não poder alegrar-se com o pensamento de um desastre?
— Tu não me amas!
— Não posso eu amar sem renegar-me?
— Tu não me amas. Tu não me amas! ela continuou com a voz que embargava o seu brilho, e que se tornava rouca, terrível como o grito de uma fera ferida.

De repente, parou de falar. Todo o ressentimento subiu ao seu olhar, e a chama dos seus olhos brotava nos meus com um desprezo soberbo. Caímos no silêncio.

Amá-la, este escárnio! Amá-la, enquanto que um rosto querido acordava na minha imaginação, derretia nos meus olhos o brilho dos seus caracois loiros, a ternura virginal da sua aparência, sua carne rosada plena em flor. 

Amar? Essa má perturbação à qual me levava a tempestade dos baixos pensamentos, essa febre que me pesava o meu sangue e que eu transportava como uma carga. Não! Não queria esse pesadelo, nessa noite assombrada por um querido fantasma, sob as fiéis estrelas e o grande silêncio purificador.

Subitamente, ela recompôs-se. Não queria admitir a derrota. O orgulho da sua beleza a iludia-a. Rebentou a rir e flagelou-me estas palavras:

— O que quereis vós que isso me faça que a tenhais esquecido ou não, que vós lhe pertençais ou não, já que vos vejo junto a mim, que vós esperais da minha boa vontade, que vós beijais um canto da minha mantilha como um escapulário abençoado? O passado pode ser uma mentira; o que o não é, é o momento presente, o teu braço à volta da minha cintura, é o teu lábio que toma a minha boca e testemunha, apesar de ti, o teu amor. 

Que importa o vosso silêncio, porque é de vos possuir que o meu prazer é feito! O que eu quero, é dar-me — a senhora não pede nada!

Mais uma vez ela enlaçou-me — gata amorosa que recolheu as garras; no entanto, mais uma vez ela mostrou cruel, abafando sem conseguir o seu rancor de bela ofendida, tudo na esperança de um prazer pelo qual sufocava. Ser tomada, ser tomada novamente sob o grande céu grande que derramava a taças plenas na noite de outono as loucuras perdidas...

No entanto, quando ela me levou para o seu quarto e quando atrás de mim enquanto empurrava a porta, de repente fundiu-se em lágrimas. Não! todas as promessas de alegria estavam decididamente traídas perante a memória que não tinha podido vencer em mim e pelas quais se sentia insultada.

O capitão Joaquim de Deus devia chegar no dia seguinte, toda a possibilidade de se vingar se lhe escapava, de tentar uma vez mais a força da sua dominação. Já que ela se tinha oferecido, não podia mais recusar-se. E, encontrando-se desapontada, chorava. Agora tinha que entregar apressadamente à ameaça do marido precipitando a sua derrota.

Lisboa, Ponte dos Vapores, estudo para leque, Veríssimos Amigos, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Atirada sobre a sua cama, com a cabeça enterrada na almofada, soluçava a sua raiva impotente, a neta dos Mouros...

Sentei-me na beira dessa cama, baixa como um divã, e peguei nas suas mãos e aos os seus dedos, num jogo lento, unia os meus. Dizia-lhe e coisas vagas e doces como as que dizemos às crianças que não são razoáveis.

Por vezes, também, para apaziguar um soluço marcando a minha comiseração, beijava as suas pequenas mãos nas quais as veias azuis faziam um desenho aristocrático... E pensei, entre as frases encontradas rapidamente e repetidas sem cessar, o meio de me evadir dessa casa, de deixar intacta ao valente capitão a sua pobre senhora.

Ela não falou mais, possivelmente, não ousou olhar-me. Talvez resignada, esperou-me? Eu não sei. Inquieto então de não mais a lamentar, só pensava em fugir. Tinha imensa pena se sente diante de uma mulher em lágrimas. Apesar da oferta desta beleza soberana, apesar do gesto simples que teria sido suficiente para a conquistar, eu enchia-me de acusações, só pensava à minha fraqueza culpada.

O tempo passou, enquanto eu continuava a récita dos meus propósitos afetuosos; e o tempo, após a emoção e as lágrimas, na tepidez calor da almofada, trouxe o sono à senhora.

O Pesadelo, John Henry Fuseli, 1781.
Imagem: Wikipedia

Abandonei as suas mãos. Escutei a sua respiração regular. Levantei-me. Ela ainda dormia. Então, empreendi essa coisa difícil de abrir a porta, de sair deslizando, de passar os corredores, a escada, e de chegar ao solene vestíbulo de madeira escura...

A noite estava alta, em plena glória de estrelas, em plena majestade de silêncio. As brisas sopravam passeando uma frescuras sã, fôlegos expiatórios de todas as impurezas do dia, de todas as vilanias que o meu coração se tinha enchido. E saí apressadamente.

Dificilmente voltaria ao caminho de Cacilhas que sobe na poeira amarelada ao longo dos muros altos de flores perfumadas.

Então não mais revi a bela senhora Amélia de Deus cujos olhos desfaleciam atrás da franja móvel das suas longas pestanas pretas [fim]. (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

Henri [Henry] Vignemal (1870-1941), pseudónimo de Maximilien-Henri van Ypersele de Strihou, foi um diplomata Belga, credenciado em 1894 em Berlim e em 1897 em Paris.
Em 1901 foi Secretário de Primeira Classe em Lisboa..
Filho de Joséphine Vander Nods (1846 - 1943) e Raymond van Ypersele de Strihou (1843 - 1931), diretor da plantação de cacau Ursélia Secunda, em Mayombe, participante nas atrocidades do Congo.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte IV)

A nossa separação forçada teve sobre Amelia uma influência que não demorei reconhecer. Ela acolheu-me como se algo de essencial tivesse passado entre nós; eu, imobilizado na minha lembrança, fui acordado por ela, de repente, como que por uma queimadura. E sem alegria, dizendo a verdade. Ela não fez alusão minha confiança, mas à minha fidelidade era o único ponto duvidoso, já bem comprometido, infelizmente! tinha-a humilhado e ela havia resolvido vingar-se da minha ofensiva memória.

Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Essa certeza que eu lia seus lábios, os seus gestos — como todos os movimentos de prostitutas parecendo uma permissão — traíam com uma graça delicada e móvel, infinitamente variada como a chama dos seus olhos, certeza que me gela durante todo um dia, apesar dos esforços de sua persistente ternura.

Dos muros da cidadela os soldados observavam-nos. Fomos para outro lugar para lhes escapar. Nas bermas de um caminho deserto, onde grandes aloés formavam uma sebe, sentamo-nos diante um vasto horizonte que as montanhas fechavam. Seus contornos fundidos na bruma, suas arestas moídas, não pareciam mais do que uma habilidade de paisagista, uma sombra destina-se a colocar mais verosimilhança no encanto da luz.

No entanto, o charme que me desviava não era aquele que voava das suas pequenas mãos aladas que eu sentia, sem gosto, o esfregar nas minhas; e os lábios que eu beijava também não me retinham, embora eu os sentisse como pesadas flores tropicais de aromas plenos de febre. Distraidamente, como a prazeres exaustos, deixava-me ir a esses abraços, e sem a surpresa que acompanha a conquista, eu vogava para outros sonhos.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, ed. desc., c. 1903.
Imagem: Delcampe

Sabemos o que somos, o que sabemos, para onde vamos? Na desmoralização da minha culpa, era o pernicioso charme, essa ideia do negar tudo, a imensa comédia com que representamos com entusiasmo o primeiro ato, sem duvidarmos o que será o segundo e somente o desvelar. A impressão que nos deixa o sofrimento é diminuída, pela redução da nossa personalidade e da consciência de ser algo infimo na coletividade, o átomo anônimo, desembaraça-se um pouco de nós mesmos, adormece-nos e apaga-nos... Então as crueldades não sangram mais aos nossos fracos olhos.

A habilidade desta mulher, nas veias da qual uma semente perdida do orgulhoso sangue mouro tinha ainda germinado, a capacidade de conquistar era-me um assunto de estonteamento renovado. E eu soube mostrar-me dócil às suas tentativas de sufocar em mim o fantasma da minha felicidade passada. Ela foi pouco a pouco enlaçante e imperiosa; Ela tocava os olhos como um divino instrumento de luz; quente e rampante como uma pantera amorosa, gozona e queixosa, ela amarrava a suas mãos pequenas, castas como aquelas das virgens, e desnudava os seus braços, movia as ancas com uma indecência que crispava os sentidos. Ela dizia coisas semelhantes às das quimeras de sonho; ela proferia palavras que queimavam o fundo do ser. E ela mentia tão graciosamente, que era uma alegria para os ouvidos.

Eu também, mentia ao meu coração, ao meu passado.

Este ignora bem os maus segredos, que não viveu nos artifícios da luxúria. Ele não sabe até qual ilusão da imaginação nos podem levar os nossos sentidos perturbados, — já que não há outro modo de exprimir um desejo a uma mulher que lhe dizendo: "Eu vos amo."

Ai de mim! a miragem destas palavras às quais pouco a pouco nos deixamos prender; a miragem que afasta a nossa caravana a caminho dos belos oásis onde floresce a verdade da vida na ternura serena; a miragem que corrompe, que mancha, que lança sobre os seios ofegantes e a carne em fogo os nossos mais puros sonhos, as nossas mais luminosas esperanças...

Ela dizia: — Quero ser amada por um homem que resplandeça de beleza, valente como um leão e dócil como uma criança. Eu levá-lo-ia a delícias onde ele esqueceria tudo, tudo o que não fosse eu. E quando eu lhe dissesse: "Amigo, atirai-vos ao rio para me dar uma prova do vosso amor", na pressa louca de satisfazer o meu capricho, ele dar-me-ia a angústia de não chegar a tempo de o reter!

Sapho, Opera de Gounod, esboço de Edouard Despléchin para a cena final, 1851.
Imagem: Wikipedia

Estes propósitos obscureciam porque oferecia no encandeamento do seu corpo o preço dessas loucuras, porque ela também estendia o seu lábio para nada, e no seu corpete, na evocação deste amor assustador, os seus seios abanavam num tumulto de diversão.

Doçura de se deixar convencer quando já ter resolvido ceder! Doçura desta eloquência com a qual surpreendemos todas as armadilhas, e que isso ajudamos um pouco para nelas cair mais depressa! Doçura de todas as ironias às quais a vida se queixa e em que drenamos, embora que avisados, um embriaguez apesar de tudo!...

Foi por isso um longo prazer ceder às tentativas que Amélia fez para apagar as minhas recordações e a elas substituir-se. Mas ela resistia às minhas solicitações, esquivava-se sempre com uma crueldade excitante.

Sem dúvida, ela insinuava que o meu desejo ainda não era mais que uma febre passageira, este enrugar das águas à passagem de um sopro. O que ela queria era a conquista na fúria selvagem, o vento do frenesi, todas as emoções de uma pilhagem.

Eu não estava em uníssono com estas extravagâncias e sem dúvida parecia gelado à sua boca ardente, aos seus olhos de fogo: 
— Vós não me amais, dizia ela.

Outras vezes, era de Quitéria que ela se servia para motivar a sua recusa:

— Vós não conheceis aquela besta malvada! Sempre a espionar-me, deslizando sobre os seus pés nus como um réptil através da casa.

Então, ainda, era o receio do pecado, um estonteante acordar de superstição que agitava o corpo e reabria os olhos carregados desta neta dos Mouros.

E ela dizia sempre: Não! de uma forma particularmente teimosa, olhando à sua frente as falésias avermelhadas e peladas, os pastos e bosques que levavam as suas encostas distantes em direção ao mar.

O Ville de Paris, da carreira França - Espanha – Portugal, na barra do Tejo, Louis Lebreton, c. 1850.
Imagem: do Porto e não só...

No entanto, um dia, ela parecia muita agitada. O capitão Joaquim tinha anunciado o seu regresso. A recordação das suas carícias, o efeito de suas palavras, uma fadiga de luta, e, acima de tudo, o momento vindo, sobre o qual se pode sempre contar, quando uma mulher cede por uma contradição ou necessidade de terminar, ela apareceu-me enfim desacostumada de orgulho, oferecendo a sua beleza numa tal sede de amor que se tornava suplicante.

Ah! Como poderei alguma vez contar a intensa impressão dessa noite de outono, enquanto o sol caía no mar entre as brasas das nuvens amontoadas, e que ao som da minha tornada frágil de repente frágil, como dantes nas horas melhores, a feroz voluptuosa deixa cair no meu ombro a sua cabeça soberana e apaga o seu olhar nos meus olhos perplexos?

Ela não falava. Um calor corria debaixo de sua pele; seu rosto tinha uma palidez de pérola. Um fluxo de sangue avermelhava as suas orelhas e os seus lábios, enquanto a ebriedade que subia fechava mais os seus olhos, as suas pálpebras caíam como beijos sobre o seu olhar toldado...

Do sol morrendo numa chama, aos seus lábios, um sopro de amor levantava as melancolias profundas que dormem sobre as águas da noite e das montanhas desoladas. A noite vinha numa doçura de abraço, rápido como um véu caído, enquanto que as últimas glórias do poente palpitavam nos olhos da bela Amélia. Ela colocou os braços em volta do meu pescoço, e, derramada pelos meus beijos, numa demência emocionada, ela gritou: "Eu amo-vos!"

Detalhe da muralha do forte de Almada, década de 1910.
Imagem: Delcampe

— Esta noite, às nove horas, na minha casa, atira-me ela na fuga que a punham as seis badaladas das seis horas que caíam no campanário vizinho...

— Vamos embora [continua...]! (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

terça-feira, 14 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte III)

Todos os dias ela vinha-se sentar nas vizinhanças do forte. Eu reencontrava-a, como que por necessidade, para apaziguar a desordem com que a sua ausência me deixava. Ela sorria de ser admirada, consciente da ajuda que a sua beleza dava ao quadro maravilhoso da paisagem.

Bilhete postal ilustrado, vistas e tipos, c. 1900.
Imagem: Lisboa Desaparecida

De fato, ela encarnava a essência amorosa destes dias inquietantes de outono e a promessa dos seus olhos não passava pelas intenções cuja natureza lânguida assaltava os sentidos.

— Estais triste, dizia-me ela.

Protestei; mas ela, batendo no peito, disse:

— Há qualquer coisa que me diz isso.

Seus olhos abraçavam-me convidando a lhe confiar a minha pena. Tentei apertá-la contra mim, tomar os seus lábios, gaguejando que a minha tristeza não era mais que um excesso de emoção. Mas ela afastou-se vivamente, quase cruelmente, e gritou:

— Ah! vós sabeis, eu sou a mulher do capitão Joaquim de Deus.

Então ela retomava a sua pose felina e ternurenta, enviando-me por debaixo da franja das suas pestanas o brilho dos seus olhos ardentes.

Joaquim de Deus era um capitão de longo curso que fazia, para uma companhia de navegação, um serviço regular entre Le Havre e Lisboa — profissão que lhe deixava apenas dois ou três dias por mês para passar com a sua esposa. Ela falava com orgulho desse homem, que lhe trazia durante momentos apressados uma paixão selvagem, que ameaçava estrangulá-la se algum dia ela o traísse, e que, visivelmente, ela levava nas palmas das mãos com o seu olhar lânguido...

— Se vós soubésseis como ele é belo!

Ela exaltava-se com umas lembranças quaisquer, que devante mim recordadas, tornavam-se de repente inebriantes à sua memória. Ela sentia-se crescer elogiando essa ausência.

Ela falava também da Quitéria, sua velha criada enrugada e escurecida como um macaco, que corria a pés nus pela casa, arrastando a sua preguiça suja, suas alcovitisses e os seus gritos de pássaro. Metida em casa por Joaquim, ela era, parece, uma dona ciumenta, sempre alerta, malcheirosa e malvada.

Velha camponesa, Paula Modersohn-Becker, 1903.
Imagem: Kunsthalle Hamburg

À noite ela abandonava-se aos seus propósitos familiares, desabotoava a sua vida à minha curiosidade, expunha o tédio das suas horas de solidão com belos gestos de odalisca. 

Caminhávamos lentamente neste lugar deserto, ao longo das paredes recentemente rebocadas da pequena igreja com telhado plano, janelas estreitamente gradeadas, tomando mais caminhos solitários debaixo de limoeiros e oliveiras, para chegar sempre à obsessiva magnificência do rio e de Lisboa mostrados num panorama ao qual não podíamos fugir.

Ela não via nada da magia do pôr-do-sol; ela falava, e toda a sua vida estava nas suas palavras. Também, era a hora das confidências, o momento fugitivo quando se sente a necessidade de abrir o coração, mesmo para ouvidos estranhos, este momento pálido e de arrependimento onde o céu se torna tão fino que parece morrer, onde as águas se encerram como um frio vazar de aço, onde a brisa de repente passa a fôlego funebre.

— Tudo exponho em vir aqui, perto de vós, não sei porquê, dizia-me ela. O mal que vos faço, Santa Virgem, posso crê-lo?...

Um luto parecia cair em frente sobre a cidade; as igrejas brilhantes tornavam-se parecidas a túmulos de mármore. Nos cantos verdes, poços de tênebras escavavam-se e pouco a pouco um vasto tabuleiro de xadrez de paredes brancas e sombras lilás cobria Lisboa...

Neste momento, cheio de preocupação, quase esqueci de dizer:

— Também eu, que mal eu fiz! Que criminoso eu faço!

Oh! como então ela se compôs e que interrogatório apressado, ousado, tenaz ela me fez sofrer! Os seus olhos espiavam nos meus a mentira, e eu senti-a moldável, a roupa flexível sobre as ancas, pronta a lançar-se, enquanto se encostava contra mim, excitando-me com toda a tentação da sua carne soberba.

Charme d'aimer.
Imagem: Delcampe

Então, coisa incompreensível, eu abria-me a essa estranha, a essa passageira do acaso; e isso foi uma profanação, que não me perdoo, por ter mostrado a uma curiosidade qualquer o tesouro das minhas puras alegrias, a ideal fonte da minha esperança. Uma demência de palavras levou-me a uma loucura amarga e cruel, atormentada pelos remorsos, vibrante de lamentos e desejos, durante a qual não soube qual abjeta e infindável ligação de ingratidão, também ela, continua.

Nessa noite de outubro, plena de doçura e perfumes, a evocação de um tempo apenas passado uniu-me aquela que foi a mais cara da minha vida. Sentia, ao pronunciar o seu nome, quais lamentos e qual misericórdia escorria do seu coração neste momento, e as lágrimas de seus belos olhos aprofundados na tristeza comunicavam-me uma emoção da qual a minha voz tremia.

Oh! Que esposa, que mulher, que deus algum dia fundirá a minha pobre alma a esse ponto, a convencrá de mais baixeza no meio do seu orgulhoso egoísmo? Aí via o fantasma querido a envolver-me, a levar-me nesta noite perigosa. Ouvia-o chamar-me com aquela voz que leva o silêncio das vastas paisagens, amplos horizontes, e baixo eu respondia: "Minha bem-amada! minha bem-amada!" Enquanto a senhora Amélia, como uma criatura estrangeira, me considerava um pouco interdito e quase lamentador do meu segredo revelado...

Panorâmica das duas margens do Rio Tejo tirada de Almada, Francesco Rocchini, c. 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nos dias seguintes a chuva caiu, — uma daquelas fortes chuvas que afogam dias inteiros, sujam o céu sem mais acabar a atiram a negras melancolias [continua...] (1).


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte II)

Ora, neste dia quente e suave, era ainda a mesma claridade de sonho, o mesmo corte de azul estirado. Folhas tombadas, plantas murchas, todas a languidez de outubro era mais preocupante sob o sol sempre vitorioso. O charme de declínio, uma ameaça de morte, todas essas impressões outono que despejam uma melancolia apaixonada, pareciam hoje muito passageiras, e mais como um convite a viver de novo, a dar esperança a tempos próximos e a embriagueses renováveis.

Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ela não estava na sua varanda, a Senhora Amélia de Deus. Apenas o seu gato dormia sobre o muro; e eu subi com um sentimento de abandono o caminho da cidadela .

Sobre um terraplano, lá em cima, à direita do forte, havia uma espécie de jardim público, que me tinha escapado na véspera. Pelado e vazio, sombreado de acácias e olmos de folhagem avermelhada, limitado por um lado de aloés e piteiras, e por outro de um muro branco, que o dividia do largo de uma igreja, ia até à beira do rochedo onde o parapeito de pedra o separava do vazio. 

Desci os três degraus deste jardim ressequido, onde o muro claro e o céu azul, de longe, davam ainda uma vivacidade intensa, e de repente, inclinada sobre o parapeito, no corpete rosa, a senhora Amelia.

Ao mesmo tempo que eu a observava, um pouco emocionado, surgiu uma brisa que levantou a sua mantilha e perturbou uma mecha do seu cabelo castanho. Ela deixou-se acariciar por este sopro que também enchia as velas na foz. Ela parecia docemente agitada, como o rio com o reflexo ondulado numa longa esteira, em que pretentia aumentar o fluxo. E esse fôlego e esse movimento embalavam nela um devaneio harmonioso.

No caminho, as folhas mortas estalavam. Ela virou-se, viu-me e sorriu ligeiramente. Em seguida, seu busto recolheu-se num movimento lento.

Meu Deus! Até onde irá a minha impertinência? Eu aproximo-a , e num português mestiçado de francês, muito ingênuo, asseguro-a do meu respeito. Ela sorriu com os seus olhos doces e seus dentes brancos,  com um embaraço evidente.

Ao longe, um galo canta. O apito de um vapor atira para o espaço o grito de uma criança assustada. Ela disse em voz baixa:

— Vós sois francês?
— Sim.
— Então fale na sua língua.

Então ela envolve-me num olhar que renova no fundo de mim as mais antigas emoções dos meus primeiros desejos.

Aí ficamos, banhados na brisa e no silêncio, encostados sobre o parapeito, dizendo coisas quaisquer, enquanto que o céu empalidecia e a luz fundia todos os seus reflexos de azul turquesa num fragmento súbito de malaquita.

Almada, Lado Norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 10, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

— Conhece Paris? perguntou-me.
— É de onde venho.
— Oh! O que eu quereria ver Paris!

A violência selvagem de todas as suas concupiscências traiu-se então nos seus olhos, na repentinidade da sua voz, num esgar voluntário da sua boca sensual.

— Vós não encontrareis lá nada tão bonito como isto, disse-lhe. 

Ela ria como se tratasse de uma piada. Maliciosa, sedutora, quase oferecida à tentação: 

— Os franceses são sempre educados, retorquiu.

E isso era todo o seu pensamento, desde que o seu olhar flutuava em direção do mar, onde poderiamos ver a linha cintilante que limitava o horizonte. Era por isso sómente que ela subia até este jardim, subia ao jardim, a fim de confiar seus sonhos ao mar distante, de ouvir este embalar de infinito falar-lhe de Paris...

Soaram as cinco horas no campanário da igreja, e na tarde que caía, o sino cedeu uma intimidade da qual me senti de repente desolado.

Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

... Queridos pobres olhos que, neste momento, estavam talvez afogados em lágrimas, — olhos amados que o crepúsculo enchia de ternura, e onde eu gostava de me perder, onde tentei morrer, esses olhos de amor, como eles pesavam na minha alma neste momento de perda e traição!...

Mas a sombra vinha muito rápida. Na luz alaranjada do pôr-do-sol, via-se a Torre de Belém avançar em espora no rio e todos as sinuosidades da costa a morder o espaço. A frescura fez estremecer Amélia, e nesse estremecimento, ela parecia revelar todo o seu corpo, tanto que adivinhei a beleza soberana a conquistar.

E agora que ela tinha partido, tinha sentido na minha mão a sua mão ardente colocar o seu império, que eu estava como ébrio de seu olhar, audacioso e doce, de Africana com reflexos metálicos, de escrava com sombras humidas e sensuais, ficava de coração inchado, quase virado, diante da noite, imensa noite tépida onde passavam as tremuras e o vento.

La maja desnuda, Francisco Goya, c. 1797 – 1800.
Imagem: Wikipedia

E a estranha feitiçaria exercida por essa mulher não parava de crescer.

Ela tinha as mãos finas e pequenas que abandonava em mim. Seus lábios sangravam como feridas de volúpia. E eu sentia o perfume do seu corpo subir por entre os seus seios como os odores extasiados das flores por cima das ensolaradas muralhas [continua...]. (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte I)

Como poderei jamais descrever a misteriosa doçura desses olhos que me seguiam no caminho de Cacilhas, — desses olhos de mulher, que ao mesmo tempo provocavam e desfaleciam, castanhos e reluzentes detrás da franja móvel das suas longas pestanas pretas? Como descrever o charme que tombava, neste dia de outubro quente e dourado, sobre este caminho onde eu subia solitário para uma cidadela situada no alto, afim de aí apreciar uma vista única sobre o Tejo e sobre Lisboa?

Rua do Castelo, Entrada do Jardim, Almada, ed. desc., década de 1900
Imagem: Fundação Portimagem

A senhora Amélia de Deus, da balustrada do seu terraço, explorava a estrada coberta de poeira amarela, onde entre os altos muros, no silêncio, os meus passos subiam. Ela aborrecia-se, e é por isso que era curiosa.

Quando passei, imediatamente a magia eterna do desejo amarra o seu olhar ardente à minha contente surpresa. Inconsciente, transportei-o ao fundo de mim, — seus olhos que queimavam a tez pálida, seus lábios escuros, pesados, e no seu corpete rosa, florido sobre a cabeceira das pedras, seu peito violento, soberbo...

No cimo, o íngreme bruscamente parou e abriu o encantamento do céu imenso e da água azul. Da porta desta fortaleza — uma pequena fortaleza não muito severa guardada por um soldado não muito mau — o panorama do mar da palha desenrolava-se incomparável. Sentei-me ao pé dos altos muros militares, deixando-me afundar pouco a pouco no azul límpido, no azul sonhado, imóvel e lendário, que fundia o firmamento na água.

Panorama de Lisboa, ed. A. Myre (detalhe), c. 1900.
Imagem: Delcampe

Sem uma ruga, o Tejo, nessa baía que ele descreve a par de Lisboa, dormia sob o fino céu. Sobre ele uma "écharpe" com estrias lumimosas flutuava docemente, e nos seus vincos caíam cintilas de sol, carícias de azul. Mecanicamente, eu olhava o triângulo de velas brancas e a sua silhueta derramada que tremia demoradamente na água. 

Uma embriaguez de silêncio e luz entorpecia-me assim como esses barcos distantes que pareciam ancorados para sempre na serenidade... Hora esquisita afundada fora da realidade no sonho mais amável! E não sei a quem devo, este momento extraordinário, ao profundo encantamento da paisagem ou ao olhar divino da senhora que atravessava algumas tênebras inconfessadas do meu ser.

Contornando o flanco esquerdo da cidadela, cheguei a um terraço que dominava a pique uma centena de metros de rochedo, abaixo dos quais se encontrava o rio. Aí, foi uma maravilha renovada para o olhar que podeia abraçar ao mesmo tempo a cidade de Lisboa agrupada sobre as suas colinas e o Tejo alargado confundindo-se com o mar, e toda a luz do poente que invadia a foz. 

Abaixo, baixas e revestidas de videiras, as casas alinham-se ao longo da água. O seu vozeiral sobe na solidão do rochedo, e é a vida que vem perturbar a poesia luminosa de paz. Da cidade também, acima do rio, acorre o ruído — o apito de vapor, o tumulto dos cais, o gemido surdo de mil trabalhos dispersos. Inútil, triste barulho àquela hora, quando a sombra se inclina, ou o espelho infinito do mar se alonga em mil facetas, onde o sol parte num fluxo de ouro que derrama sobre a água em deboche real...

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

Ao descer do alto, um tanto apressado, — o barco para Lisboa apitou no pontão — no seu terraço, revi a senhora Amélia que, com o mesmo olhar apaixonado, olhava o tombar do dia no seu sonho perturbador. E não sei porquê, ao passar, como se já nos conhecêssemos, cumprimentei-a.

Ela tinha uma muito simples alma de criança. E a sua vida também era a coisa menos complicada do mundo. Ela punha-se irrefletidamente à janela, aquecendo-se ao sol, conversando com Quitéria, sua velha criada, ou com as vizinhas, por muito tempo, incansavelmente​​, coisas muito triviais. Ela saía pouco, mas, atrás das persianas baixas ou no terraço, nunca deixava de participar na vida de fora. 

Ela tocava música, bebia chocolate, arejava, vagava sem rumo pelas salas frias de sua casa. Então, complacentemente, deixava cair num espelho o seu olhar estranho, doce e selvagem, onde estavam as recordações da antiga Lusitânia. E para a noite, na fadiga de sua longa preguiça fadiga ou numa obsessão da sua solidão, esticava-se como uma fera selvagem abandonando-se aos desejos ferozes de volúpia ardente que carregavam através das suas veias algumas últimas gotas de sangue mouro.

La maja vestida, Francisco Goya, 1803.
Imagem: Wikipedia

Que fascínio soberano exercia ela sobre mim, e para obedecer a qual império regressei no dia seguinte a Cacilhas? Seu olhar tinha sobrecarregado o meu sangue de uma febre inconcebível. Eu carregava o seu peso como a impressão de uma queimadura. E isso, para mim, era uma fraqueza culpada, pois apenas tinha esquecido o desgosto de uma separação recente, e prometido a uma mulher, bem amada, de não mais viver, a partir de então, que do sentimento que trazia [continua...]. (1)

(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901

In Memoriam: Henry Bailey Maria Hughes (1833 — 1887)

Costa da Caparica, Manhã na praia da Caparica, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Ao norte lá está a egreja, simples e singella, como são também os costumes d’aquella boa gente hospitaleira, e ao lado da capella, mas mais para nor-noroeste., o chamado convento, onde está aula, mandado construir em 1870 pelo reverendo padre Hughes [...]

Costa da Caparica, em segundo plano o Colégio do Menino Jesus e a igreja, década de 1900.
Imagem: Arlindo Pereira

Estava então na Costa o reverendo padre Hughes, e o Tio Alfama, que pelos modos lhe pesavam na consciência uns certos e determinados peccaditos, procurou este ver o sacerdote para que o ouvisse de confissão.

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

É então desde essa data que aquelle homem começa a derramar sobre a povoação da Costa benefícios sem número. (1)

O reverendo padre Hughes  é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Huggs fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

in Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

Conquanto Costa de Caparica seja a mais nova Freguesia do concelho de Almada [em 1973], pode e deve-se orgulhar de ter sido das primeiras terras de Caparica a ter uma escola primária. Pois ela apareceu em 1876, mercê da iniciativa do Reverendo Padre Henrique Bailie Hughes.

[...] Ramalho Ortigão, em um dos seus livros [As Farpas, A Religião e a Arte], embora a ele se faça larga referência, não nos diz que o Padre Hughes e não Huggs, como ele escreveu, com o castigo que lhe foi imposto, deu motivo a que fosse o principal obreiro da instrução primária em Costa de Caparica.
Então tivemos notícias dele no Colégio Dominicano de Lisboa, onde, depois de completar o curso que estudou, se tornou professor.

Durante esta parte da sua carreira diz-se que objectou a ordenação de um candidato a padre argumentando publicamente em resposta à questão da capacidade deste durante o serviço.

Com isto criou inimigos, e estando em perigo de vida, encondeu-se entre a população marítima de Lisboa, trabalhando com grande esforço na salvação destes, por quem era muito amado.

in The TABLET: The Island Recluse

Junto do local onde se encontra a actual Igreja, que nesse tempo se dizia Capela, existiu um vasto edifício Casa de Repouso (?) ou Convívio para reunião e meditação dos habitantes dos conventos que existiam em Caparica, edifício esse que mais tarde passou a ser escola primária e centro religioso — e nunca convento, como o povo erradamente lhe chamou, e ainda hoje é conhecido o local.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O Padre Hughes, foi pelo seu dinamismo. o fundador do Colégio do Menino Jesus, cuja imagem se encontrava à entrada da escola, e da qual existe imagem igual mas de tamanho reduzido na igreja da Costa de Caparica, a que o povo chama o Menino Jesus da Praia por ter na mão uma rede a que os pescadores chamam ganha-pão ou chalavar, como ainda hoje se usa em determinadas pescarias.

Menino Jesus, madeira policromada, José Risueño, séc. XVIII.
Imagem: V&A

Desse colégio que existiu até 1901, foram seus professores, José Reis, Pedro Nolasco de Oliveira, José Lima, Francisco e António Calderon. Conquanto se diga que outros foram lá também professores, a verdade é que só estes figuram na Relação do Colégio do Menino Jesus da Costa de Caparica.

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim como também é possível que outros padres tivessem lá passado como directores da escola, mas a Relação apenas nos fala além do padre Hughes, dos Reverendos Padres António Rodrigues de Campos e Patricio Russuel [Patrick Bernard Russell ou Patricio Bernardo Russell], além do Irmão Laico Frei Martinho José Nogueira.

Esta escola, que era apenas para rapazes, chegou a ter em aula mais de meia centena, o que era muito para a época.

Costa da Caparica, crianças filhas de pescadores, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Até à data, que se saiba, ainda não se conseguiu localizar onde se encontram enterrados os restos daquele que foi o pioneiro da instrução primária em Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Areal, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)
Hughes, Henry Bailey (1833 — 1887), padre católico romano; nascido em Caernarvon [hoje Caernarfon, país de Gales] em 1833, onde o seu pai, Howell Hughes, foi cura e depois reitor de Trefriw (1833 — 1839), e de Rhoscolyn, Anglesey (1839 — 1848).

Henry Bailey Hughes entrou para a Igreja Católica Romana, quando tinha cerca de dezesseis anos.

Estudou no Colégio Dominicano de Lisboa e, depois de entrar no sacerdócio, viajou em missionário na Europa, África e Estados Unidos. 

De regresso ao País de Gales, viveu por uns tempos na ilha de S. Tudwal, ao largo da costa Caernarvonshire, tendo pregado em Llyn e outros lugares de Caernarvonshire.

Escreveu hinos galeses e baladas. Faleceu a 16 de dezembro de 1887.

in Welsh Biography Online

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

Dele apenas existe um ou outro apontamento dispersos em livros ou jornais e a recordação do povo com que ele passou à história: — o Monge da Costa! (2)

Costa da Caparica, pescadores octogenários, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.

(2) Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Artigo relacionado:
A costa no século XIX


Leitura adicional:
The TABLET: Et Cietera
The TABLET: The Island Recluse