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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Luiz Gonzaga Pereira, Almada e o Tejo em 1809

Nasceu Luiz Gonzaga Pereira cm Lisboa, na Freguezia de S.to Estevão, em 21 de junho de 1796; era um dos trinta filhos de Joaquim Manoel Pereira, praça do regimento de Beça, onde prestou serviço até 1773, sendo nesse ano nomeado, por provisão régia, mestre da officina de aprestes de artilheria do Arsenal Real do Exercito, cargo que ocupou até 3 de março dc 1823, dia em que faleceu com 90 anos de idade, e 75 de serviço.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 27.
Montanha da Villa de Almada, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Casou em terceiras nupcias com Maria Barbara de Bulhões Diniz, de quem teve, entre outros filhos, Luiz Gonzaga Pereira.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Este casou em 1815 com Maria Antunes, de quem teve 12 filhos. Ainda muito novo já mostrava vocação para o desenho, como se vê pelos exemplares coligidos numa obra, a que adiante faremos referência, feitos com 13 anos de idade a bordo da náu Vasco da Gama, a qual fazia parte da esquadra do Estreito, que nos anos dc 1809 e 1810 cruzava nas aguas do sul de Hespanha e de Portugal, e do norte dc África [...]  (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

NAU VASCO DA GAMA (1792-1822)

Nau de 80 peças construída no Arsenal de Marinha por Torcato José Clavina e António José de Oliveira, foi lançada à água em 15 de Dezembro de 1792, juntamente com a fragata Ulisses e o brigue Palhaço.


Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 21.
Cabo da Roca, e Serra de Cintra, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

As suas dimensões eram de 55,20 metros de quilha, 14,55 de boca e 11,52 de pontal. Com urna guarnição de 663 homens, armava com 28 peças de calibre 36, 32 de 24e 16 de 12. Participou nas Esquadras do Canal de 1793 e 1794.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 24.
Torre do Bogio, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Ficou em Lisboa durante a ocupação francesa por não se encontrar ainda em condições de navegar quando da chegada dos franceses.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 25.
Trafaria, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A sua artilharia foi transferida para a Martim de Freitas. Durante a ocupação francesa serviu de de-pósito aos produtos e materiais saqueados pelos franceses, nomeadamente a prata das igrejas, conventos e capelas de Lisboa.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 23.
Torre de S. Jião, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Tomou parte nas Campanhas do Rio da Prata e de Montevideu em 1816. Ficou no Brasil depois da independência em 1822 [...]  (2)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 30.
[Mutela, Caramujo], Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Coligidos em um outro livro ou album, que tem por titulo "Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa".

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 31.
Alfeite, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Teve principio em 1809, o qual pertenceu ao sr, José Joaquim d'Ascenção Valdez, e hoje é do auctor desta noticia, encontram-se 130 desenhos, quasi todos aguarelados, dos quaes os 34 primeiros representam vistas de vazios sitios do Mediterraneo, das costas de Portugal, e da Bahia do Tejo até ao Barreiro (?); os 93 imediatos são vistas de aspectos de Lisboa, e de edifícios e locaes da cidade; e os 3 ultimos são copias de assumptos de Loanda. 

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 32.
Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Pela numeração das estampas reconhece-se que o album está incompleto. Quando começou a fazer estes desenhos tinha Gonzaga Pereira 13 anos de edade [...] (3)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 33.
Bahia do Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


(1) Prefácio de A. Vieira da Silva, Monumentos Sacros de Lisboa em 1833...
(2) Revista da Armada n.° 413, novembro de 2007
(3) Prefácio de A. Vieira da Silva, idem

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Tristezas não pagam dívidas

Cacilhas e Almada foram outras estâncias onde os "ruços" se aproveitaram para as folgas divertidas dos lisboetas. Cacilhas ganhou até foros de Universidade pela abundância de "bacharéis" que se estadeavam no seu largo, oferecendo-se ao apetite viajeiro da estúrdia elegante primeiro, de patuscada popular depois. A burricada perdeu com o tempo os seus pergaminhos de elegância.

Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Roque Gameiro.org

D. Fernando 1.° era amador estreme dêsse divertimento cacilheiro. Quando a política zumbia muito e os generais e os políticos fervilhavam no paço à volta da rainha, o rei preferia os burros aos cortesãos guerrilheiros e, com três ou quatro âulicos, cavalgava os jumentos da Outra-banda e ía divertir-se a Almada, à Cova da Piedade, ao Monte ou ao Alfeite.

A preferência régia impôs como moda a burricada de além-rio, e esta tornou-se um dos passeios obrigatórios de Lisboa para os seus naturais e até para os estrangeiros. Visitar então Lisboa e não andar de burro na Outra-banda, era como hoje não ir ao Jardim Zoológico ou à Estufa-fria do Parque da Avenida.

Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

O negócio dos burros cresceu: quási que se formaram emprêsas, companhias, trusts de jumentaria que alargavam a sua exploração até os confins de Caparica.

Groupe d'indigènes des déserts du Sud du Portugal faisant la promenade en âne; je suis à l'extrême droite.
— Costa da Caparica. Jour de Pâques Année 1907 —.
Delcampe

Era por isso freqüente os estrangeiros alcandorarem-se até Almada a ver a vista sôbre a cidade, e a marujada inglêsa não faltava a essas excursões de turismo obrigatório, equilibrando-se sôbre o tombadilho extravagante e movimentado das albardas mal seguras das cilhas.

Hoje a própria burricada de Cacilhas caíu em desuso. As camionetas, em vez dos ruços, é que enchem o largo e o negócio faliu inteiramente.

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
Museu da Cidade de Almada

É mais um costume popular que se arquivou no sótão das recordações, e só andam de burro os donos dos burros, até que um dia, dispensado mesmo tal auxílio, êste prestante animal se arquive numa mangedoira de museu. (1)


(1) Roque Gameiro, Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., Lisboa, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Artigo relacionado:
Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

Informação relacionada:
Roque Gameiro.org: Costumes antigos, Os / Portugal de algum dia (1931)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Almada no espólio do arquitecto Cassiano Branco

Esta documentação é constituída exclusivamente fotografias a preto e branco, de dimensões variadas.

Panorâmica parcial de Almada do lado nascente, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

É percetível, em alguns casos, o cuidado de Cassiano Branco em agrupar as fotografias de acordo com os temas que abordam.

Traseiras em ruínas do palácio dos marqueses da Fronteira, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Nestes casos, elas encontram-se coladas em cartão, e referem assuntos que vão desde a estatuária à ourivesaria, passando pela arquitetura militar e religiosa.

Porta antiga posteriormente emparedada do palácio dos marqueses de Fronteira,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A variedade e a heterogeneidade com que estes conjuntos se apresentam impediram a distinção dos mesmos, daí que, na sua maioria, os documentos se apresentem soltos e dispersos. 

Miradouro com vista sobre o rio Tejo em Almada tendo ao fundo parte de Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Várias cidades portuguesas estão aqui representadas. Contudo, é Lisboa que se encontra melhor testemunhada, ocupando uma percentagem considerável das fotografias da coleção de Cassiano Branco. 

Perspetiva geral de um miradouro em Almada tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Encontram-se retratados aspetos do seu quotidiano, as suas ruas, jardins e vistas panorâmicas. Este documento composto comporta também negativos, alguns em vidro. 

Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Existem ainda fotografias integradas noutras séries por se relacionar diretamente com os projetos aí considerados. (1)

Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

À semelhança do que se passa com a coleção de fotografias, também nos postais (reproduzidos tanto por método fotográfico quanto por método fotomecânico) é notória uma tentativa de ordenamento patente nas colagens que, em alguns casos, foram efetuadas em cartão.

Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Apesar de, tal como sucedeu com as fotografias, não se terem elaborado documentos compostos temáticos, é possível descortinar alguns temas privilegiados, como por exemplo: museus, mosteiros, gravuras antigas, postais humorísticos da II.ª Guerra Mundial, naturezas mortas, e ainda várias cidades portuguesas e estrangeiras vistas nos seus múltiplos aspetos.

Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Merecem também destaque os postais de autor, como os de Eduardo Portugal, Coleção Passaporte, Edições Costa, J. Bárcia, Casa Sucena, entre outros. (2)

Cruzeiro do interior do convento de São Paulo tendo por fundo o rio Tejo e parte de Almada, espólio Cassiano Branco.
[cf. Illustração Portugueza, 1911]
Arquivo Municipal de Lisboa

A documentação, produzida e acumulada no âmbito da atividade exercida pelo arquiteto Cassiano Branco, foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1990. 

Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco.
[original de Eduardo Portugal]
Arquivo Municipal de Lisboa

Encontra-se atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, que a detém, em regime de usufruto e de propriedade jurídica.

Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Cassiano Branco, filho de Cassiano José Branco e de Maria de Assunção Viriato, nasceu em Lisboa, a 13 de agosto de 1897, na rua do Telhal, junto aos Restauradores, no começo da avenida da Liberdade, para a qual desenhou alguns dos seus projetos mais emblemáticos. Iniciou o percurso de instrução em 1903, na primária e, posteriormente, em 1912, no liceu.

Painel de azulejos com figuras religiosas do convento de S. Paulo em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Matriculou-se, pela primeira vez, em 1919, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, tendo interrompido a frequência, para ingressar no Ensino Técnico-Industrial, provavelmente, desiludido com o ensino baseado no modelo francês, desatualizado em relação ao pensamento teórico e projetual vanguardista produzido em Itália, Reino Unido, Alemanha e União Soviética.

Fonte do seminário de São Paulo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Regressado de Paris, onde esteve na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels, em 1925, Cassiano Branco, iniciou o seu percurso profissional como arquiteto diplomado, no ano seguinte.(3)

Panorâmica parcial de Almada tendo por fundo o rio Tejo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Todavia, a sua atividade projetual começou em 1921, com uma proposta para o mercado municipal da Sertã, no qual evidenciou uma estilística de raiz clássica, reflexo da sua formação académica na Escola de Belas-Artes de Lisboa. 

Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1929, Cassiano Branco recebeu a encomenda para intervir em duas salas de espetáculos: o Coliseu dos Recreios e o Éden Teatro.

Rua Dr Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

No primeiro caso, tratou-se de um projeto de alterações a efetuar nos corredores, no palco e na cúpula.

A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Já o trabalho a desenvolver no teatro, foi bastante mais controverso e ambicioso, mormente a ampliação desse espaço, com o duplo objetivo de tornar possível a exibição do cinema sonoro e de aumentar o número de espetadores.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Tendo sido, possivelmente, a obra mais emblemática de Cassiano Branco e um dos marcos na arquitetura moderna portuguesa, o projeto do Éden Teatro, apenas inaugurado a 1 de abril de 1937, foi, contudo, atribuído ao engenheiro civil Alberto Alves Gama e ao arquiteto Carlos Dias, seu colaborador, que o concluiu.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Apesar dos elementos mais notáveis das alterações efetuadas ao Éden Teatro poderem ser encontrados nas duas primeiras propostas de Cassiano Branco, o arquiteto, nunca reivindicou a sua autoria, pese esta ser unânime entre os estudiosos da sua obra.

Azulejos do Patio do Prior, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Ainda numa fase inicial da sua vasta e multifacetada trajetória, Cassiano Branco, com apenas 32 anos, apresentou, em 1930, dois dos seus projetos mais ambiciosos e vanguardistas, mas que nunca passaram do papel: o plano de urbanização da Costa da Caparica e a Cidade do Cinema Português, em Cascais. 

Excluído das encomendas oficiais, a parte mais substancial da obra de Cassiano Branco, proveio de clientes particulares e de construtores civis, predominantemente, através de encomendas de prédios de rendimento, a integrar em malhas urbanas consolidadas.

Calçada da Barroquinha do Barroquinho, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A partir de 1938, foram raros os prédios em Lisboa assinados por ele, presumivelmente, por ter estado, a partir dessa data, ocupado com os projetos do Grande Hotel do Luso e do Coliseu do Porto, para lá do trabalho que iniciara no Portugal dos Pequenitos, em 1937.

O Coliseu do Porto, com o qual Cassiano Branco encerrou a sua atividade projetual, nos anos 30, afirmou-se como uma obra de síntese, de grande maturidade estilística e de plena modernidade. Porém, após a Exposição do Mundo Português, em 1940, iniciou uma nova fase, que atravessou os anos 40, visivelmente marcada pela falta de trabalho e de quase total abandono de programas arquitetónicos de feição moderna que, no decénio anterior, haviam sido expoente máximo em Portugal.

Perspetiva da rua da Judiaria tendo por fundo o palácio de frei Luís de Sousa em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Nos anos 50, a carreira de Cassiano Branco foi objeto de adversidade, ao terem-lhe recusado dois projetos, respetivamente, o do hotel Infante de Sagres, em 1950 e o de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em 1957. Ambos revelaram uma tentativa, por parte do arquiteto, de integração numa estílica moderna, objetivo, que não obstante o esforço, não foi concretizado.

Perspectiva da rua da Judiaria em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Na década de 60, Cassiano Branco elaborou alguns projetos, em que demonstrou um último ensejo de concordância com a arquitetura de influência internacional, como a segunda proposta de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, assim como os projetos para o posto fronteiriço de Galegos, em Marvão, para o Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, para o edifício para os Correios, Telefones e Telégrafos (CTT), em Portimão, e ainda, os estudos realizados para um edifício na Rebelva, na Parede, entre outros.

Perspetiva da rua da Judiaria com prédios nos dois lados em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Ainda assim, nenhum do edificado projetado acabou por ser construído. Para além dos exemplos anteriores, a alternância entre um ecletismo de inspiração tradicional e de inspiração moderna, ficou mais uma vez assinalada, no último projeto de Cassiano Branco, para o concurso público do Banco de Portugal, da agência de Évora. A solução apresentada foi, mais uma vez, reprovada e constituiu um derradeiro exemplo da ambiguidade que marcou a sua obra desde 1940.

A prolixa e diversificada obra de Cassiano Branco, de grande riqueza formal, desenvolvida entre meados dos anos 20 e o final da década de 1960, consagrou-o como um dos arquitetos que, mais indelevelmente, marcou a primeira geração moderna.

Fachada principal da igreja de São Tiago, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Embora não tenha feito parte do grupo de pioneiros do modernismo, é inegável a sua importância na história da arquitetura portuguesa, da primeira metade do século XX, tendo sido, seguramente, um dos mais conhecidos e estudados.

Perspectiva da rua Direita observando-se ao fundo a torre dos paços do concelho da câmara municipal de Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

O contexto histórico da sua vasta e notável obra, associado à sua personalidade, é indispensável, para compreender a complexidade de um percurso, muitas vezes polémico, que, iniciado no período pré-modernista da Primeira República, tendeu a ser interpretado à luz da Modernismo e do Português Suave.

Travessa e Igreja do Bom Sucesso, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

De facto, foi possível distinguir claramente na obra de Cassiano Branco duas fases distintas. A primeira, iniciada pouco depois de concluir a sua licenciatura, perdurou até finais dos anos 30 do século XX e caraterizou-se por projetos de extrema criatividade como o hotel Vitória e o Éden Teatro, que lhe conferiram reconhecimento como um dos mais importantes arquitetos modernos a nível nacional.

Castelo de Almada em 1666, espólio Cassiano Branco.
[segundo Alain Manesson Mallet]
Arquivo Municipal de Lisboa

A segunda fase, na década de 40, revelou uma cedência ao estilo normalmente apelidado de Arquitetura do Estado Novo, impedindo-o de expressar a matriz inovadora dos primeiros anos. Cassiano Branco faleceu em Lisboa, a 24 de abril de 1970.


(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
Art Deco
A ponte
Costa da Caparica — urbanismos
Sobre o projecto de Cassiano Branco

Mais informação:
RTP Arquivos
Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade

quarta-feira, 13 de junho de 2018

terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

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O centro cívico