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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Tristezas não pagam dívidas

Cacilhas e Almada foram outras estâncias onde os "ruços" se aproveitaram para as folgas divertidas dos lisboetas. Cacilhas ganhou até foros de Universidade pela abundância de "bacharéis" que se estadeavam no seu largo, oferecendo-se ao apetite viajeiro da estúrdia elegante primeiro, de patuscada popular depois. A burricada perdeu com o tempo os seus pergaminhos de elegância.

Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Roque Gameiro.org

D. Fernando 1.° era amador estreme dêsse divertimento cacilheiro. Quando a política zumbia muito e os generais e os políticos fervilhavam no paço à volta da rainha, o rei preferia os burros aos cortesãos guerrilheiros e, com três ou quatro âulicos, cavalgava os jumentos da Outra-banda e ía divertir-se a Almada, à Cova da Piedade, ao Monte ou ao Alfeite.

A preferência régia impôs como moda a burricada de além-rio, e esta tornou-se um dos passeios obrigatórios de Lisboa para os seus naturais e até para os estrangeiros. Visitar então Lisboa e não andar de burro na Outra-banda, era como hoje não ir ao Jardim Zoológico ou à Estufa-fria do Parque da Avenida.

Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

O negócio dos burros cresceu: quási que se formaram emprêsas, companhias, trusts de jumentaria que alargavam a sua exploração até os confins de Caparica.

Groupe d'indigènes des déserts du Sud du Portugal faisant la promenade en âne; je suis à l'extrême droite.
— Costa da Caparica. Jour de Pâques Année 1907 —.
Delcampe

Era por isso freqüente os estrangeiros alcandorarem-se até Almada a ver a vista sôbre a cidade, e a marujada inglêsa não faltava a essas excursões de turismo obrigatório, equilibrando-se sôbre o tombadilho extravagante e movimentado das albardas mal seguras das cilhas.

Hoje a própria burricada de Cacilhas caíu em desuso. As camionetas, em vez dos ruços, é que enchem o largo e o negócio faliu inteiramente.

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
Museu da Cidade de Almada

É mais um costume popular que se arquivou no sótão das recordações, e só andam de burro os donos dos burros, até que um dia, dispensado mesmo tal auxílio, êste prestante animal se arquive numa mangedoira de museu. (1)


(1) Roque Gameiro, Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., Lisboa, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Artigo relacionado:
Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

Informação relacionada:
Roque Gameiro.org: Costumes antigos, Os / Portugal de algum dia (1931)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Adhesão ao governo de João Franco

Em 2 de maio de 1907, os progressistas deixaram de apoiar João Franco que, não podendo governar à inglesa, passou a fazê-lo à turca, como então se dizia [...] (1)

Retrato de João Franco (detalhe), Julio Costa, 1903.
Imagem: DuasCidades

O sr. Presidente do Conselho recebeu hontem uma commissão de habitantes do concelho de Almada, que lhe entregaram uma mensagem de inteira adhesão á obra do governo, e que o sr. Conselheiro João Franco agradeceu, profundamente reconhecido por tão importante e significativa manifestação, assegurando que o gabinete continuará cumprindo honradamente o seu dever.

O ministério de João Franco, 1906.
Imagem: Wikipédia

A commissão foi apresentada pelo illustre chefe do partido regenerador-liberal n'aquelle concelho, sr. Manuel Figueira Freire da Camara e era com posta pelos srs. Raymundo Monteiro Torres, Antonio Serra, Antonio Joaquim Alves Valladares, tenente Guilherme de Azevedo, Manuel Joaquim Ribeiro, D. Francisco de Mello e Noronha, dr. Domingos Antonio Lopes, Ricardo da Silva, Elisiário Augusto de Passos Monteiro, Antonio Augusto Teixeira da Silva, Antonio Fernandes Martins, Carlos Silva, Manuel Henriques, dr. Camacho, Epiphanio Augusto Gonçalves, Bernardino Pinto, Manuel Carlos, Luiz Augusto Correia Salgueiro e João Danino, etc. 

Essa mensagem é do seguinte teor:

"Il.mo Ex.mo Sr. Conselheiro João Franco Castello Branco, Presidente do Conselho de Ministros e Ministro do Reino.

Os habitantes do concelho de Almada, adiante assignados, pertencentes a todas as classes sociaes, veem, sem preoccupações de politica partidaria, trazer ao governo, a que V. Ex.a tão dignamente preside, a adhesão, que elle tem subido merecer, pelas suas acertadas medidas para a regeneração económica, administrativa e politica do paiz.

A Paródia, n° 173, 15 de dezembro de 1906.
Imagem: Hemeroteca Digital

Muitos o calorosos teem sido os applausos á obra consciente, honesta e bem orientada dos homens do governo, porque o paiz, cançado de promessas faceis e raramente realisadas, está hoje seguro de que o seu único pensamento é, como V. Ex.a bem disse no discurso que corre impresso: 'dar satisfação ás aspirações e interesses nacionaes e ser instrumento de civilização e progresso.'

A Paródia, n° 186, 6 de abril de 1907.
Imagem: Hemeroteca Digital

Conscientes d'isto e não devendo ficar indiffcrentes perante o movimento geral, manifestado em favor do governo, os abaixo assignados veem depor esta mensagem, simples mas sincera, nas mãos de V. Ex.a

Almada, 1 de agosto de 1907."

*
*   *

Também em nome do conselho de Almada foi entregue ao chefe do governo esta outra mensagem:

"Il.mo Ex.mo Sr. Conselheiro João Franco Castello Branco, Presidente do Conselho de Ministros:

No discurso lido por El Rei na sessão solemne da abertura das cortes em 29 de setembro do ultimo anno [v. abaixo], o governo, a que V. Ex.a nobremente preside, afirmou o proposito do transferir o Arsenal de Marinha, hoje insufficientemente dotado e sem a amplitude precisa, para a margem sul do Tejo, de modo a collocal-o em condições do poder corresponder ás exigencias da moderna technica naval.

Retrato de D. Carlos I (detalhe), Roque Gameiro, 1902.
Imagem: Tribunal de Contas

Conseguido isto, que seria bastante, por si só, para honrar uma administração, o governo, que tão empenhado está em gerir bem os negocios públicos, terá satisfeito uma aspiração nacional muito instante, uma necessidade publica imperiosa, e sobejamente merecido o reconhecimento do paiz.

Com um arsenal capazmente montado, será mais viável o desenvolvimento da nossa marinha de guerra, que tanto urge pôr em estado de poder, pelo valor e pelo numero das suas unidades de combate, cooperar activa e proveitosamente na defesa das costas do reino e do nosso património colonial.

Navios da Marinha de Guerra Portugueza no alto mar, Alfredo Roque Gameiro, 1903.
(Da esq. para a dir., cruzador Vasco da Gama, cruzador D. Carlos I, torpedeiro n.°2, cruzador S. Raphael, cruzador D. Amélia, torpedeiro n.° 3, cruzador S. Gabriel, cruzador Adamastor.)
Imagem: europeana collections

Os capitaes que precisamos de dispender com as construcções e reparações navaes, reverterão em favor da economia nacional, não serão levados, como até aqui, ao estranjeiro; e muitos braços, a que a pobresa das nossas industrias particulares não pôde dar emprego, encontrarão trabalho no novo arsenal. 

Em frente da ponte do Arsenal de Marinha, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Depois, é lastimável que, alliados da Inglaterra, a primeira potencia naval do mundo, não tenhamos um molhe do armamento a que possam atracar, para se reabastecerem, os grandes Couraçados; que não disponhamos d'uma grande doca de reparação onde, navios amigos, possam refazer-se das avarias soffridas n'uma acção naval; que não tenhamos, sequer, um lugar de abrigo onde, no estado de guerra, elles possam momentaneamente acolher-se para repousarem em segurança.

E sem isso, não poderá o porto do Lisboa, posto que magnificamente situado, servir de ponto de apoio verdadeiramente util a uma esquadra, como tanto interessa á nossa propria defesa.

Estudos completos, feitos por pessoa a quem se attribue elevada competência profissional, e já entregues na secretaria do ministério da Marinha, designam os terrenos, a conquistar ao Tejo, entre Mutella e o Alfeite, n'este concelho, como ser os preferidos, tanto sob o ponto de vista technico como economico, para a installacão do arsenal. 

Futuro Arsenal de Marinha na outra margem do Tejo.
Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Ocioso será, portanto, pedir ao governo de Sua Majestade que o arsenal alli seja estabelecido.

O concelho de Almada, tão favorecido pela natureza, mas tão carecido de progressos materiaes, bem merece esse importante melhoramento, que virá augmentar consideravelmente a sua população, desenvolver o seu commercio e valorisar a propriedade. O pais ficará contando, certamente, uma cidade a mais. Elevando-se, eomo elevarão sensivelmente, os rendimentos do concelhos, poder-se-hia modificar as condições materiaes e económicas das suas povoações, que ha muito reclamam beneficios úteis e até urgentes, mas que os recursos financeiros do município não teem deixado, por muito escassos, realisar. 

A grande ponte para caminhos de ferro e peões entre as duas Lisboas do futuro.
Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Resta-nos ainda uma solicitação a faser ao governo de Sua Majestade: que seja mandado executar, com a urgência que as circumstancias reclamam, o prolongamento do caminho de ferro do Barreiro a Cacilhas, cuja necessidade é evidente.

As communicações entre Lisboa e o Barreiro, sobre serem relativamente demoradas, offerecem dificuldades, mormente em occasiõos de nevoeiro, que não apresentam, ou que são, pelo menos, consideravelmente attenuadas, para Cacilhas. Bastará considerar que, para o Barreiro, a navegação tem de fazer-se, em grande parte, por um canal.

Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva (para editor local), 19, c. 1905.
Imagem: O Pharol

É notorio, além d'isso, que a estação do Barreiro já não satisfaz ás necessidades do trafego, tendo succedido ficarem mercadorias de fácil detereoração em caes descobertos ou nas linhas de resguardo, expostas á acção do tempo. E não será fácil, sem largos sacrifícios, accommodar aquella estação ás exigências actuaes. 

Pôde, de resto, prever-se com segurança que o capital a dispender pelo Estado com a linha ferrea do Barreiro a Cacilhas terá uma remuneração largamente compensadora.

Projecto de aterro dockas e caminho de ferro que devem ser construídos na bahia formada pelas águas do Tejo Barreiro e Cacilhas (detalhe), Jayme Lorches, 1860.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

N'estas condições, os abaixo assignados, habitantes do concelho de Almada, ou n'elle possuindo interesses, ficam esperançados em que o Governo a que v. ex.a dignamente preside attenderá, por que é justa, a representação que, sem preoccupações partidárias, veem depôr nas mãos de v. ex.a

Deus guarde a v. ex.a — Almada, 1 de agosto de 1907. (2)


(1) Politipédia
(2) Diario Illustrado, quinta-feira 8 de agosto de 1907

Informação relacionada:
Governo de João Franco (1906)

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O discurso lido por El Rei [D. Carlos] na sessão solemne da abertura das cortes em 29 de setembro [de 1906]:

"Dignos Pares do Reino e Senhores Deputados da Nação Portuguesa:

No cumprimento do Meu dever de Rei Constitucional venho hoje abrir uma nova época legislativa, felicitando-Me por poder consignar perante os representantes da Nação a cordialidade das relações de Portugal com todas as outras potências.


Retrato de D. Carlos I, Roque Gameiro, 1902.
Imagem: Tribunal de Contas

Com algumas delas existem, dependendo da aprovação parlamentar, convenções e acordos de interesse recíproco sobre que oportunamente tereis de deliberar; com outras estão pendentes negociações para a realização de tratados de comércio.

Tendo sido dissolvida a Câmara dos Senhores Deputados, procedeu-se a novas eleições gerais, aprazendo-Me constatar a perfeita ordem e inteira liberdade com que foram realizadas.


Na execução do seu programa político e administrativo, cujo desenvolvimento na parte dependente do Poder Legislativo sucessivas propostas de lei irão acentuando, o Meu Governo começará por vos apresentar importantes medidas que carecem da vossa atenção e estudo. Assim, à proposta de lei aprovando o contrato provisório celebrado com a Companhia dos Tabacos de Portugal, que, pela urgência do assunto, vos será em primeiro lugar apresentada, seguir-se-ão, como bases fundamentais da regularização da administração pública, as propostas de lei sobre responsabilidade ministerial e reforma da contabilidade, procurando assegurar por esta forma a ordem moral e material nos serviços do Estado.


Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Poder Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Poder Judicial; remodelando o Juízo de Instrução Criminal, de forma a tornar eficaz a responsabilidade dos seus funcionários e instituindo o princípio da instrução contraditória; dispensando a autorização do Governo para o prosseguimento dos processos criminais contra funcionários; garantindo a liberdade de associação; e abolindo os passaportes, excepto para os emigrantes Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Judicial; remodelando o Juízo de Instrução Criminal, de forma a tornar eficaz a responsabilidade dos seus funcionários e instituindo o princípio da instrução contraditória; dispensando a autorização do Governo para o prosseguimento dos processos criminais contra funcionários; garantindo a liberdade de associação; e abolindo os passaportes, excepto para os emigrantes.


Ainda pela mesma pasta, no capítulo da instrução, a que o Meu Governo dedica o maior interesse, vos serão submetidas duas propostas de lei: - tendo uma por fim a reorganização dos serviços da instrução pública na sua parte directiva e dando ao Conselho Superior uma acção mais larga e eficaz, tanto na organização do ensino como na escolha e garantias do professorado, e à Universidade de Coimbra, às escolas superiores e ainda a outros institutos principais de ensino uma autonomia e independência não só pedagógica, mas económica; e ficando, pela outra, autorizado o Governo a mandar ao estrangeiro, para complemento da sua instrução não só os estudantes pobres que hajam dado provas distintas de capacidade e aplicação, mas também os professores primários e de algumas disciplinas do ensino secundário que se mostrem especialmente aptos para adquirirem o conhecimento e prática dos melhores processos pedagógicos.


Pela pasta da Justiça, além da lei de responsabilidade ministerial, ser-vos-à apresentada uma proposta assegurando melhor a independência do Poder Judicial, separando as duas magistraturas - Judicial e do Ministério Público - e fazendo reverter para o Estado as custas dos processos criminais em Lisboa e no Porto, com a respectiva compensação para os magistrados e empregados de justiça. Também pela mesma pasta vos serão presentes medidas reformando a lei de liberdade de imprensa, remodelando a legislação actual sobre delitos de anarquismo, e estabelecendo um processo especial para a cobrança das pequenas dívidas.


Não descura o Meu Governo o progressivo aperfeiçoamento das instituições militares, e neste sentido, pelas pastas da Guerra e da Marinha, vos apresentará uma proposta de lei para a organização do Supremo Conselho de Defesa Nacional, tendo por fim assegurar a preparação da guerra e a estabilidade das organizações militares de terra e mar.


Pela pasta da Guerra vos serão apresentadas propostas: remodelando os tabeliães de vencimentos dos oficiais do exército e da readmissão das praças de pret; reorganizando a Escola do Exército e o Curso do Estado-maior; criando um colégio para filhos dos oficiais inferiores; modificando as condições da reforma dos sargentos e sargentos-ajudantes; remodelando a lei das servidões militares; alterando provisoriamente as condições de promoção dos tenentes de artilharia; reorganizando o Campo Entrincheirado de Lisboa; e difundindo a instrução militar preparatória em todo o país.


Igualmente chamo a vossa atenção e solicitude para as importantes questões dependentes da pasta da Marinha, tanto no que respeita aos serviços propriamente marítimos, como aos problemas da administração ultramarina. Quanto aos primeiros o Meu Governo vos apresentará medidas para a organização da marinha colonial; para a instalação do Arsenal de Marinha na margem esquerda do Tejo; para a organização da defesa móvel; para a supressão das Escolas de Alunos Marinheiros, organizando, em sua substituição, a instrução profissional da marinha mercante nos departamentos marítimos e preparando o início dos trabalhos da carta hidrográfica e das cartas de pesca; e, finalmente, para a protecção e desenvolvimento, da indústria nacional da pesca.

Quanto ao Ultramar apresentar-vos-à o Meu Governo medidas de carácter geral, como é a organização administrativa das diversas províncias, com uma descentralização diferenciada; e a correlativa organização militar, em bases mais económicas e com a separação das funções que correspondem às tropas ultramarinas das que só podem competir ao exército da metrópole; e medidas de interesse e fomento especial de certas províncias e regiões, como são a organização dos serviços e melhoramentos do porto de São Vicente de Cabo Verde e as tendentes ao alargamento da irrigação agrícola no Estado da Índia e à construção do caminho-de-ferro de Quelimane.


Como fundamento imprescindível e essencial para orientar e coordenar a intervenção dos corpos legislativos nos problemas do fomento nacional, oportunamente vos será presente pela pasta das Obras Públicas o relatório económico em que, coligindo-se numerosos elementos de informação dispersos por varias repartições e serviços, pela primeira vez se procura, de uma forma geral, estudar e definir as forças naturais, industriais e de acumulação que constituem a economia do país, precisar a influência da acção directa ou indirecta do Estado e formular as conclusões que se antolhem mais conformes ao proveitoso movimento dos variados factores económicos.

Como seu complemento e natural corolário, vos serão presentes propostas actualizando a legislação sobre propriedade industrial; modificando o ensino agrícola em proveito de uma melhor difusão das noções elementares de técnica rural, por meio das cátedras ambulantes; procurando a maior utilização profissional do nosso ensino industrial; e outras moldadas no mesmo intento de fazer coincidir a legislação com as características peculiares à nossa organização económica.


Dentro da mesma convergência de propósitos, como satisfação imediata a instantes razões de conveniência pública, serão primariamente submetidas ao vosso exame propostas regulando a exportação e comércio de vinhos generosos, que o Douro tanto e tão justamente reclama; fixando o regime para exploração e administração do porto de Lisboa; e providenciando sobre classificação, conservação e reparação das estradas nacionais.

Atendendo a uma alta questão de justiça social e de utilidade pública, no seu mais largo sentido, propor-vos-à o Governo a criação de uma caixa de aposentações para as classes operárias e trabalhadoras, seguindo assim na esteira das reformas sociais iniciadas em todos os países cultos.

E atendendo também às precárias condições económicas do funcionalismo público vos apresentará uma proposta de lei extinguindo o imposto de rendimento da lei de 26 de Fevereiro de 1892 sobre vencimentos não superiores a 600$000 reis e reduzindo a metade esse imposto sobre todos os outros.

No mesmo intuito vos será presente uma proposta elevando os ordenados dos aspirantes, amanuenses e segundos oficiais das Secretarias de Estado, começando assim o Governo a realizar o seu pensamento de melhorar sucessivamente, sem ocasionar perturbações financeiras, as condições de algumas classes do funcionalismo, especialmente nos graus inferiores.

Não tendo sido aprovado ainda o orçamento para o actual ano económico, entrou em execução, como o estabelecem as leis constitucionais, o orçamento de 1904-1905, último que obteve a sanção legislativa. Ainda no cumprimento dessas leis o Meu Governo vos submeterá o orçamento para o ano económico corrente, no qual tanto as receitas como as despesas vão calculadas por forma rigorosa e exacta e se descrevem em capítulo especial, para melhor estudo do parlamento, as despesas que o Governo encontrou criadas em virtude de diplomas susceptíveis de discussão.


A conversão da Dívida Pública Interna, a reforma do contrato vigente com o Banco de Portugal, a remodelação das disposições relativas a Companhias de Seguros, a desamortização dos bens da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado, o estabelecimento de uma carreira de navegação nacional para o Brasil - são outros tantos problemas de carácter financeiro e económico para a solução dos quais o Governo vos apresentará propostas de lei.


A renovação da proposta sobre a pauta das alfândegas dará ensejo a que possa ser devidamente apreciado e resolvido um assunto que, pela sua importância, complexidade e larga incidência sobre os mais variados ramos da actividade nacional, reclama a mais acurada atenção e a mais ampla cooperação e iniciativa parlamentar.


Dignos Pares do Reino e Senhores Deputados da Nação Portuguesa:


O simples enunciado dos trabalhos e problemas que nesta sessão vão ser submetidos ao vosso estudo e aprovação marca bem a grandeza da tarefa que vos está confiada. Espero, porém, que, com o auxílio de Deus, a vossa ilustração e a própria consciência das responsabilidades que tendes para com o País vos animarão a colaborar numa obra de larga regeneração nacional que abra à nossa Pátria uma nova era de prosperidade e grandeza moral.

Está aberta a sessão."

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O papá

O papá, o conhecido Vitorino Custódio, estava no apogeu do negócio: trens de aluguer na praça de Cacilhas. Os melhores veículos, os mais procurados, eram os seus. O papá vestia como um janota da época: chapéu à Mazzantini, calça justinha à perna, uma corrente de oiro, de bolso a bolso do colete, da grossura do dedo mínimo, bota de calf abotoada ao lado — sempre a rigor.

Vista panorâmica dos antigos trens de aluguer puxados por cavalos. Em 2.° plano, o marégrafo para medição de marés. Finais do séc. XIX ou início do XX. No início do séc. XX (1907), os forasteiros encontravam à saída da estação fluvial, trens ou carruagens que pelo preço de 500 a 700 réis, os transportavam a Almada, ao Alfeite e Cova da Piedade. Existiam as estalagens com trens dos cocheiros-proprietários: José Ribeiro, Narciso José, António Francisco da Silva Júnior, "Pouca Tripa", Francisco Pereira dos Santos, Domingos Manta.
in Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

O papá não guiava os trens; tinha quatro cocheiros: o Filipe, o Carvalho, o Domingos e o Severino. Em Almada, possuia uma cocheira onde guardava os carros e os animais, e onde o Américo dormia, o moço que dava as rações e lavava as viaturas [...]

Uma tarde, à hora do jantar, ainda o papá não tinha chegado, recebemos a visita de um dos nossos cocheiros: o Severino. Ouvimos da sua boca, com pasmo, que se despedia de nós, pois os seus serviços haviam sido suspensos.

Perguntámos o motivo. Ele deu aos braços, resignado: Minhas senhoras, os trens passaram de moda; agora, com a história dos automóveis americanos, tudo que seja puxado a animais vai pela água abaixo. Era a primeira vez que ouvíamos falar no prejuízo que os automóveis nos causavam

Podíamos lá supor que aquelas carripanas tão engraçadas, que uma vez por outra passavam ali pela rua, fossem a causa da tristeza do papá e da desgraça de todos nós! Que grande desgosto, ao tomarmos conhecimento da venda da primeira parelha! E quando mais tarde soubemos que a outra tinha tido o mesmo destino! Então, a nossa casa, sempre tão farta, tão feliz, transformou-se! Creio que, em toda esta fatalidade, o papá foi um fraco; não reagiu, não teve o expediente de que parecia dotado.

Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Só agora vejo bem que outro qualquer, na sua situação, ter-se-ia adaptado ao veículo que despontava, e resignado com o fatal progresso das coisas. O papá não. (1)


(1) Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992 cf. Romeu Correia

Sobre os animais que nos ajudam a viver

Embora a industrialização fosse uma realidade em vários países ocidentais, no século XIX, a mecanização dos veículos ainda não era uma prática corrente, pelo que toda a sociedade se estruturava forçosamente a partir da força animal, quer a nível dos processos agrícolas, quer no transporte de bens e pessoas.

Trens de aluguer em Cacilhas, c. 1907.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

A estes animais de tração era exigido um trabalho e um esforço muito superior às suas capacidades físicas, sendo muitas vezes mantidos em condições impróprias e tratados pelos seus proprietários com violência.

O excesso de carga, a permanência durante longos períodos de tempo a temperatu ras excessivas, a carência alimentar e hídrica por largas horas correspondiam a situações correntes no quotidiano urbano e rural [...]

As constantes inquietações com o bem-estar animal refletem-se na implementação de um conjunto de disposições destinadas a minorizar o sofrimento inerente ao trabalho quotidiano. 

Neste sentido, a Sociedade Protetora dos Animais cedeu diversos fontanários a algumas câmaras municipais, em especial na área de Lisboa e Porto, para que os animais de tração podessem saciar a sede.

Sede compassivos para com os pobres animais que vos ajudam a viver, lê-se, à esquerda da imagem, na placa aposta ao bebedouro para os animais, Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Curiosamente, após colocação destas infra-estruturas, a população com frequência furtava as torneiras e os baldes colocados nos diversos locais [...] (1)

A Sociedade Protectora dos Animais considerava maus tratos infligidos a animais não humanos os seguintes (artigo 1º, ponto 1º, Sociedade Protectora dos Animaes do Porto, 1911):
a privação de limpeza, alimentos, ar, luz e movimento em relação às leis naturais e sociais da saúde pecuária;
o trabalho excessivo sem descanso ou transporte de cargas excessivas; o obrigar a levantar os animais que caíam com chicotadas;
a exposição ao calor ou ao frio excessivo;
a aplicação de instrumentos que causassem feridas;
a utilização no trabalho de animais feridos ou famintos; 

o transporte de animais para alimentação em condições geradoras de sofrimento; 
a manutenção de animais fechados sem que possam respirar ou movimentar-se, sem comida ou água;
o depenar e esfolar animais vivos ou o seu abate através de métodos que provoquem sofrimento;
a engorda mecânica de aves;
o atiçar de animais uns contra os outros ou contra pessoas;
a exibição de animais magros em sítios públicos;
o abandono na via pública de animais domésticos feridos ou cansados;
a destruição de ninhos;
o cegar de aves canoras;
o atar aos animais objetos que os enfureçam ou causem sofrimento;
o queimar com água ou materiais inflamáveis;
o lançamento em casas de espetáculos de pombas ou outras aves;
a prática de diversões que causem ferimentos ou morte e ainda, a implementação de qualquer ação violenta que conduza a sofrimento por diversão ou maldade 


in Alexandra Amaro e Margarida Felgueiras, op. cit.


(1) Alexandra Amaro e Margarida Felgueiras, Perspetiva Histórica Sobre a Educação e o Movimento de Defesa dos Animais, Escola Superior de Educação de Coimbra, 2013

Informação adicional:

2014-08-29 | Lei (Publicação DR)

Lei 69/2014

Título: Procede à trigésima terceira alteração ao Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de setembro, criminalizando os maus tratos a animais de companhia, e à segunda alteração à Lei n.º 92/95, de 12 de setembro, sobre proteção aos animais, alargando os direitos das associações zoófilas [DR I série N.º166/XII/3 2014.08.29 (pág. 4566-4567)]

in Assembleia da República

sexta-feira, 25 de março de 2016

O dragoeiro

No Jardim Botânico da Ajuda havia um dragoeiro de tamanho desconforme, e cuja sombra era propicia aos idyllios.

Lisboa, Vista do Paço da Ajuda, Louis Lebreton, c.1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um dia a Bella Infanta abrigara-se de um aguaceiro n'aquelle asylo de Vénus com o moço inglez.

Princesa, Maria da Glória, futura rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

De súbito apparece o jardineiro. O inglez tirou do bolso uma pistola e ia a desfechar com elle quando a Infanta, n'um bom impulso, lhe teve mão. O jardineiro, nos meus primeiros tempos da Ajuda, seria homem dos seus sessenta annos, e contava o caso a toda a gente.

Vista de Lisboa — Tejo e Palácio da Ajuda, Isaías Newton (1838-1921), 1859.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett, passando o verão de 1849 na casa de Herculano, improvisou a lápis, debaixo da sombrio dragoeiro, os versos das "Folhas cahidas" que se intitulam: "Gôso e Dôr". (1)

Na tapada d'Ajuda, Arthur Loureiro, 1879.
Imagem: Hemeroteca Digital

Se estou contente, querida,
Com està immensa ternura
De que me enche o teu amor?
— Não. Ai! não; falta-me a vida,
Succumbe-me a alma a ventura:
excesso do góso é dor.

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Nào sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

Paisagem e rio Tejo, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que não ha ser bastante
Para este gosar sem fim 
Que me inunda o coração.
Tremo d'elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida — ou a razão... (2)

O Tejo visto do Alto da Ajuda, Casimir Leberthais (????-1852).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantos suspiros de amantes não terá ouvido o monstro vegetal! (3)

Dracaena draco do jardim do Paço Real d'Ajuda, 1879.
Imagem: Mãos Verdes


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907
(2) Almeida Garrett, Folhas cahidas, Lisboa, Em casa da viúva Bertrand e filhos, 1853
(3) Bulhão Pato, Idem

Informação relacionada:
Archivo Pittoresco, n.° 27, 1862

Archivo Pittoresco, n.° 28, 1862

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Moinho do Mesquitela

Designava-se por Mesquitela o moinho de maré e respectiva caldeira, situados entre a Mutela e o Caramujo.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso (editada), 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Mais precisamente, a caldeira ocupava o espaço hoje tomado pelo ultimo quarteirão do lado nascente da rua Manuel Febrero, ficando o Moinho sobre a actual avenida Aliança Povo M.F.A..

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército


A sul da caldeira ficavam as valas alimentadas pelas águas do ribeiro da Mutela (o que corre pelo vale de Mourelos) e pelas águas de maré. 

A passagem entre as valas e a caldeira era "a ponte", nome que ainda hoje é lembrado.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

Desde o século XVII, e até fins do século XVII, moinho e caldeira diziam-se dos Costas, por pertencerem aos Costas, armeiros mores do reino.
O moinho de maré só funcionava na vazante. Nas enchentes os três rodízios estavam parados, e a comporta abria com a força da água que entrava na caldeira.
A água da caldeira mantinha-se represada, aguardando o período da vazante para que os rodízios se colocassem em movimento. Abertos os acessos aos rodízios, estes giravam produzindo energia para as mós triturarem os cereais.

in Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

O moinho de maré da Mutela já existia pelo menos no século XV, com base numa carta de venda datada de 1497, de umas casas e marinhas na praia da Mutela [...]

in Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.


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Barcos dos Moinhos
Barques elles transportent des molins de l'autre côté
de l'eau les farines pour la Ville
Imagem: Souza, João de, Caderno de Todos os Barcos do Tejo, Sociedade de José Fonseca, 1785
Passaram a designar-se por Mesquitela após a atribuição em 1787 do Título de Visconde de Mesquitela ao Armeiro-Mor D. José Francisco da Costa e Sousa, que casara coma filha primogénita e herdeira do 1.° Visconde de Mesquitela.

Em 1883 o inglês Jorge Taylor, maquinista da moagem do caramujo, aforou aos Mesquitela a caldeira e terrenos vizinhos. 

Este mesmo Jorge Taylor, em 1907, fez doação de parte da propriedade ao seu patrão, António José Gomes, o industrial da moagem do Caramujo, recebendo em troca uma pensão de 10.000 réis por mês.
Quando em 1907 Jorge Taylor fez doação da propriedade, declarou na escritura que trabalhava na moagem havia mais de quarenta anos.
Sendo ele o conductor da máquina a vapor da moagem muito provávelmente desde a instalação, conclui-se que a moagem dispunha da máquina desde cerca de 1866.
A propriedade, cedida a António José Gomes, destinava-se, em parte, à construção da escola primária.

 A escola, a primeira que teve a Cova da Piedade, foi inaugura da em 1911, e tem o nome de António José Gomes, então já falecido.

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

A caldeira e o moinho estavam em 1910 na posse de Manuel de Jesus Silva que pagava 50.000 réis de foro aos herdeiros do conde de Vila Franca; depois, cerca de 1911, foram arrendados ao industrial José Alves da Silva, por nove anos.

A caldeira desapareceu, por entulhamento, cerca de 1920 e o moinho foi demolido quando se abriu a estrada de Cacilhas à Cova da Piedade [a partir de 1947]. (1)

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes



(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional:

Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.


Fernandes
, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Construção naval tradicional no lugar da Mutela

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Alfeite, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1891
Imagem: Museu Municipal de Coimbra, colecção Telo de Morais

Desconhecem-se por quanto tempo estas instalações se mantiveram na posse da família após a morte de António José Sampaio, tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.

Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.

Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931
Imagem: Museu José Malhoa

Vista geral da Mutela, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (1)

Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

  1. Estaleiro e oficina do Peres
  2. Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
  3. Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
  4. Muralha da Luíza da água
  5. Cais da fábrica Ramos (cortiça)
  6. Cais do Martins (vinhos)
  7. Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
  8. Fábrica da farinha
  9. Clínica António Elvas
  10. Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
  11. Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
  12. Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
  13. Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
  14. Ferraria do Chouffer em brasa
  15. Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
  16. Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
  17. Cavalariça do André
  18. Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
  19. Esplanada do liberdade
  20. Estaleiro do Chico Cavaco
  21. Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
  22. Ferraria do Fialho
  23. Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
  24. Estaleiro do Joaquim Picadeiro
  25. Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
  26. Largo da Mutela
  27. Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
  28. Taberna do Adelino Baeta
  29. Taberna da Emília da Praia 



(1) Grupo parlamentar do PCP, Deputados do, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.




Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.


O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.

O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.

O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…

Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.

Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro (*)


(*) Artigos do jornal João Semana Fragateiros de Ovar