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sexta-feira, 1 de maio de 2015

O pequeno operário

In Memoriam: Jaime Ferreira Dias (1903 - 1932)

O meu coração está cheio de sepulturas. Entre as que me despertam maiores saüdades está a do nosso querido Jaime Ferreira Dias. Nunca conheci quem o excedesse em bondade, simplicidade, em candura. E rarissimos serão os que poderemos comparar com êle na gentileza da vida tão limpida e, ao mesmo tempo, tão infortunada. Militante dos ideais socialistas, Jaime Ferreira Dias foi um socialista que se impunha ao respeito de todos pela sua coerência, pela sua probidade, pelo seu sincero idelismo, foi, numa palavra, um socialista digno desse nome. Proferindo estas palavras de inteira justiça, perpassam-me pelo espírito algumas cartas que dele guardo e em que a grandeza da sua alma se reflectia como num puro cristal. (1)

Jaime Ferreira Dias entre os seus: D.a Helena Reis Ferreira Dias e as filhas Maria Otília e Maria Gabriela.
Imagem: Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

Gente desapossada da terra, onde trabalharam pais e avós (que eram poucos por estes sitios) e ainda homens, mulheres e crianças de campos longinquos, como Charneca, Sobreda e até Fernão Ferro. que todas as madrugadas iniciavam uma marcha forçada e caminho da fábrica, distanciada uma légua, e, quantas vezes, duas e até três. No regresso (havia ainda o regresso, com o corpo já moido de fadiga), outro tanto seria palmilhado, o que perfazia, por vezes, dez, vinte e trinta quilómetros diários para obter o aluguer da força de trabalho.

Ao recordarmos Jaime Ferreira Dias, a criança que nunca foi menino, o pequeno operário arrancado à paisagem rústica, mas a quem um golpe de adversidade, em contrapartida, dá a possibilidade de se cultivar, melhor compreendemos e sentimos quanto o peso da ignorância paralisa ou ergue barreiras a tantos dos seus antigos irmãos de classe. Mas tentamos esboçar a sua figura, uma das mais limpidas, generosas e fraternas de quantas viveram na margem esquerda do Tejo.

Nasceu na Charneca de Caparica a 26 de Maio de 1903. Filho do operário corticeiro Alfredo Ferreira Dias, ainda garoto empregou-se na fábrica onde seu pai trabalhava, no Caramujo, da firma Henry Bucknall & Sons, Ltd. Caminhava todas as manhãs muitos quilómetros para ser pontual no iocal do trabalho. Ele e o pai, munidos do saco com o almoço, faziam aquela jornada de manhã e à tarde. Em épocas de invernia tornava-se um inferno aquela caminhada de dois pobres e solitários trabalhadores.

Aos doze anos, devido a ter sido atingido por uma das máquinas daquela fábrica, viu-se privado do braço direito. Regressado do Hospital ao Caramujo, o então gerente da casa Bucknall, Sr. David Ferguson [sic, David Fergusson (?-1930)], resolveu manda-lo educar, pagando do seu bolso o preço dos estudos.

Cedo as faculdades de inteligência de Jaime Ferreira Dias começaram a demonstrar tendência para as lutas de emancipação da classe operária. Ingressando por esse tempo nas fileiras do Partido Socialista Português [partido fundado em 1875 e suprimido em 1933, realizou ainda uma conferência em 1933], o seu dinamismo tornou-se notado, conquistando a estima e a admiração dos dirigentes deste partido, entre os quais se contavam o advogado e dramaturgo Ramada Curto e o jornalista e escritor Bourbon e Meneses. É surpreendente a actividade literária do nosso blcgrafado: contos, poesias, crónicas, artigos doutrinários, polémicas, traduções, criticas literárias e teatrais, textos ao sabor do quotidiano. A defesa das crianças, dos humilhados e ofendidos, dos "escravos da gleba" —esta uma frase tantas vezes repetida por Jaime Ferreira Dias! — inundou a Imprensa nos poucos anos que lhe restavam para viver [...]

Faleceu no Hospital de S. Marta, a 14 de Novembro de 1932, apenas com 29 anos de idade. Deixou mulher, D. Helena Reis Dias, e duas filhinhas de tenra idade. O seu corpo veio para Almada, seguido por densa multidão. Gente de todas as tendências e classes quisera prestar assim a última homenagem a Jaime Ferreira Dias. A banda da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense esperou o corpo, em Cacilhas, para o acompanhar ao cemitério de S. Paulo.

À beira do coval falaram Bourbon e Meneses, Ramada Curto, José Augusto Machado, que representava os inválidos do Comércio, e José Alaiz. Foram lidas duas mensagens: uma de D. Francisco de Melo e Noronha e outra do Clube Columbófilo "Os Voadores" [...]

Jaime Ferreira Dias escreveu entre outros opúsculos: Os Escravos da Gleba, Duas Uniões Vitoriosas, sendo este uma peça teatral em 1 acto.

Teatro, Duas Uniões Victoriosas, Jaime Ferreira Dias, 1931.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

Traduziu, e Bourbon e Meneses prefaciou, o livro de Paul Lafarge Porque crê em Deus a Burguesia.

Amante do movimento associativo almadense, era sócio honorário do União Piedade Futebol Clube e do Clube Columbófilo "Os Voadores".

Jaime Ferreira Dias foi uma personalidade com destaque na vida cultural e associativa de Almada.
Foi sócio e dirigente da Sociedade Filarmómica União Artística Piedense e da Cooperativa Piedense.
Foi igualmente sócio honorário do União Piedade Futebol Clube e do Clube Columbófilo “Os Voadores”.
Foi ainda um dos fundadores da Associação de Classe dos Empregados no Comércio e Indústria de Almada (1931) [...]

A sua actividade literária distribui-se pelo conto, poesia, crónica, artigos doutrinários, polémicas, traduções, críticas literárias e teatrais.
Publicou os folhetos de crítica social Escravos da Gleba, [1928] (existente na Biblioteca/Arquivo de História Social, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa - PT/AHS/PQ1170-B0140) e A Mulher: escrava do lar e das convenções sociais, Lisboa, Biblioteca de Educação Social, 1929, 24 p. (existente no Centro de Informação & Documentação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e no Arquivo Histórico Social).

Publicou a peça de teatro Duas Uniões Victoriosas, peça em 1 acto que foi representada pela primeira vez, no teatro Garrett, na Cova da Piedade, a 24 de Maio de 1931.

Cova da Piedade, Cine-Teatro da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial


in Arquivo Histórico-Social / Projecto MOSCA (disponível ocasionalmente)

Segue uma longa lista (pelo punho do próprio) da sua colaboracão na Imprensa:

Em O TRABALHO
001.° A Ideia em Marcha
002.° Lei que se deturpa
003.° Os descrentes
004.° À Mocidadez (O campo — soneto)
005.° A Luta de Classes
006.° Aos Escravos da Gleba
007.° Processos de Luta
008.° Os sem Trabalho
009.° A Humanidade deles
010.° lniquidades Sociais (Soneto)
011.° À Mocidade de Almada
012.° Colaboracionismo
013.° A Coerencia da História
014.° O Natal
015.° A Todos Os Escravos (Um soneto)
016.° A Expressão dum Fracasso
017.° A Actividade Socialista (Uma página)
018.° A Uma Tese
019.° O Problema Emancipador
020.° Ex-Homens
021.° Emigrantes
022.° A Educação Operária
023.° Um Grande Vulto de Socialista Antero de Quental
024.° Gruta de Trogloditas
025.° A XI Conferencia lntemacional do Trabalho
026.° Os sem trabalho
027.° A Fome
028.° Bodos
029.° A Linha Comungante (Novela)
030.° A Crise

58 colunas de prosa em O TRABALHO

Em O VEGETARIANO - 1927
015.° O Alvorecer (Soneto)
016.° A Angústia de Mãe (Soneto)
017.° Contradiçóes Absurdas (com gravura)
019.° ldílio-versos, com gravura
020.° A Inocência (Soneto)
022.° Sonho e flores (Soneto)
023.° A vida do campo e a febre do êxodo
024.° Vozes da Natureza (Soneto)

Em O VEGETARIANO - 1928
025.° Ao cair da tard - (Soneto)
026.° Na Relva - (Soneto)
027.° O Sobreiro
028.° Um filho (Soneto)
029.° Resposta a D. Francisco de Melo e Noronha
030.° lnvernando

Em O ECO-TELEGRAFO POSTAL
001.° Processos de Luta transcripção d'O TRABALHO
002.° A Humanidade burguesa
003.° Bendita a Rebeldia - Soneto
004.° Os Escravos da Gleba - Soneto
005.° Carteiro da Aldeia - Novela
006.° Pai? — ... Incógnito - Novela

Em A VOZ DE ALMADA
001.° As Contradicões da Igreja

Em O LIBERTADOR
001.° Ao sr. Ministro do Trabalho

Em A MOCIDADE
001.° Vária colaboração

Em A ACADEMIA jornal comemorativo do 32.° aniv.
001.° Saudações - Soneto

Em A NOVA ARCÁDIA
001.° A Inocência - Soneto

Em O CONTRUCTOR CIVIL - Porto
001.° Bom Caminho» (Mais artigos que se perderam com os jornais).

Em A VOZ DO OPERÁRIO - V. N. de Gaia
001.° A Voz do Operário

Em O VEGETARIANO - 1926
001.° Encantos da Natureza - Costa de Caparica
002.° Maio - Soneto
003.° Espectáculos Deshumanos
004.° A tua imagem - Poesia
005.° Caramujo
006.° A Cidade Massiça e a Cidade ideal (c/grav.)
007.° Lavadeiras- - Soneto
008.° A Pena de Morte
009.° Bendita a Rebeldia - Soneto
010.° As vindimas (com gravura)
011.° Os Escravos da Gleba - Soneto
012.° Os Estupificantes (c/ estudo em gesso, grav.)
013.° A Miséria - Soneto

Em a REPÚBLICA SOCIAL - 1927
267.° A Todos os Escravos
267.° Coisas do Momento» - Soneto 269.° O perigo da Indiferença
277.° Caricatural esboço duma grande cidade
277.° A Infância - Quadras
279.° O Problema Sexual na Sociedade Futura
280.° A Magia dos Soneto
280.° A Era Nova - Soneto
281.° Em Almada - O Apego à Tradição
282.° Do Apego a Tradição a Injúria Soez
282.° O Malhador - Soneto
283.° A Inocência - Soneto
284.° Eclipses
292.° Marcelino - O Pastor N.os 292/298
293.° A Minha Crença - Soneto
294.° Contrastes Desprimorosos
296.° Liberto, enfim - Soneto
300.° Necrópole Insurrecta
305.° Esboço Novelesco, Thomaz, o sacristão

Em a REPÚBLICA SOClAL - 1928
309.° Emigração
310.° A Glorlficação do Trabalhador
311.° A Esquadra lngleza no Te]o
313.° Tema de todos os dias - O LAR
317.° Nós e a Protecção Operária
320.° Trabalhadores, filiai-vos no P.S.P.
324.° Uma data, um anseio. uma esperança
326.° Compromissos...
329.° Um grito de dor
333.° Acidentes de Trabalho (2 N.os
340.° Sangue na guerla e lucidez de espírito
341.° Sejamos Mulheres - pseud. M. Rosa da Luz
346.° A Mocidade e o Socialismo
354.° A Miséria e a Doença

Em O PROTESTO - 1927
227.° Os interesses dos que trabalham
233.° A Opolência dos mortos e a miséria dos vivos; Na Relva - Soneto
234.° Preito dos Novos
235.° Vozes da Natureza - Soneto
236.° Indiferença, analfabetismo — eis o caos social 1 1/2 ››
236.° 1.° de Maio — Em Almada
237.° Alerta Mocidade
237.° Interpretação cooperativista
238.° Lei que se deturpa
240.° Em Almada — O apego a Tradição
240.° A Miséria-Soneto
241.° Desmoronamento - Soneto (Mais colaboração)
243.° Lei que se deturpa
244.° Lei que se deturpa (continuação)
247.° A Margem da Vida - Soneto
252.° O que se passa pela Itália
255.° Saibam quantos
258.° A Escravatura Moderna

Em O PROTESTO - 1928 (continuação)
275.° A Ansia do Fim
280.° Discurso (Morte de A. Dias da Silva)
281.° Os Vencidos

283.° Nem um catre no hospital
283.° Bendita a Rebeldia - Soneto
285.° As épocas e as doutrinas
290.° O Curro e a Religião
291.° No Regime dos Senhorios
291.° A Terra, o Campo, a Riqueza (com m/foto)
292.° No Regime do Salariato
293.° A Higiene
307.° Almas do outro Mundo
309.° O Estado e a Assistencia Social (Mutilado)
310.° Emigrantes — critica a Ferreira de Castro

Em O ALMANDENSE
001.° Regionalismo
002.° Uma Ponte Levadiça
003.° Municipalismo
004.° Instrução, Problema Municipalista
005.° A Margem Sul do Tejo
006.° O Flagelo da época
007.° A Margem da Morte
008.° Realismo e Democracia
009.° O Ladir dos Críticos e o Riso dos Asnos
010.° Contrastes Oportunos /
011.° A Assistência
011.° Bocage
014.° A Dor Humana
015.° Mosaicos
016.° Um Pesadelo
017.° Oratória
017.° Almas do outro Mundo
017.° Contrastes Oportunos (Resposta)
019.° Concepções ideológicas
019.° Bosquejos locais
020.° A Evolução Mecânica e a Trans. Social
021.° Cosmopolitismo ou quê?
021.° Farrapos
022.° Martirológio
023.° A Luz do Alfabeto
024.° Fraticidas
025.° Urbanismo Almandense
026.° Quadros
027.° Terra de Ninguém - Novela de Cost. Regionais
028.° Traumatismo Social
028.° Crianças
029.° Duque de Vizeu (critica teatral)
031.° A Odisseia dos Marítimos
032.° Atrraz duma Quimera
033.° O Culto da Indiferença
034.° A Escola e a Crianca

[...] Três semanas após a abertura desta escola [escola primária na antiga Cardosa do Caramujo, actual rua Tenente Valadim], as aulas tinham uma frequência de 110 alunos, lecionados pelo saudoso professor José Martins Simões. Esta obra realizou-a o esforço de alguns ardorosos sócios. A escola possuiu um estandarte próprio, que era o enlevo da garotada, e um grande benemérito desta terra, que foi António José Gomes, de tal modo perƒilhou esta obra, que vestiu mais uma centena de alunos, dando-lhes um fardamento.

Os filhos da Piedade, que hoje são homens, devem a esta escola a instrução que disfrutam! António José Gomes patrocinou a escola que aquele punhado de homens criou, e sendo exígua já a capacidade das salas da Sociedade para a regular frequência escolar, edificou aquele benemérito a escola situada na Avenida que tem o seu nome e que é a melhor de todo o concelho!

António José Gomes, década de 1890.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

Este estabelecimento de ensino, foi. pois inspirado pela iniciativa que teve o seu campo de ensaio — e que profícuo ensaio! — na Sociedade Filarmónica União Artística Piedense.


in Dias, Jaime Ferreira, citado em Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.

036.° Cooperativismo
038.° Economia Nacional — A Ind. Cort. e a Exportação da Cortiça em Bruto
039.° Crónica da Primavera 2
039.° Abril - Soneto
040.° Amor e a Sociedade


Jaime Ferreira Dias colaborou ainda por varias vezes no El Socialista, de Madrid. (2)


(1) Bourbon e Menezes citado em Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Op. Cit.

Leitura relacionada:
Flores
, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Freguesia de Caparica no século XIX

Caparica — freguezia, Exlremadura, comarca e concelho de Almada, 6 kilometros ao S. de Lisboa, 1:430 fogos. 

Em 1717 tinha 1:193 fogos.

Orago Nossa Senhora do Monte. 

Patriarchado e districto admintstrativo de Lisboa.

Situada na esquerda do Tejo, e d'ella se gosam deliciosas vistas.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É n'esta freguezia a chamada Torre Velha, ou de S. Sebastião de Caparica, que serviu de lasarêto. Fica em frente da torre de S. Vicente, de Belém.

Foi mandada edificar por el-rei D. Sebastião, pelos annos dé 1575.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

Principia a freguezia logo á entrada da barra do Tejo, que a banha na extensão de 12 kilometros, pelo N.: o Oceano lhe serve de termo pelo O., e na praia está a aldeia da Costa, d'esta freguezia.

A matriz é um bello templo, fundado nos fins do século XVI.

O terreno d'esta freguezia é em geral fertil e seu clima saudável. Antes do oidium produzia annualmente, termo médio, 6:500 pipas de bom vinho.

Na aldeia de Mofacem, d'esta freguezia ha 30 e tantas cisternas, todas magnificas e de dispendiosa construcção, obra dos árabes. 

Foram elles que deram a esta aldeia o noma de mo-hacem, que significa barbeiro.

Vè-se pois que esta povoação é muito antiga. Capa tambem é palavra arabe (que os mouros adoptaram dos persas) significa mesmo capa. (Capote é diminutivo de capa.)

Ha duas tradições sobre a etymologia de Caparica.

Uns dizem que morrendo aqui um velho, declarou no testamento que deixava a sua capa para ser vendida e com o producto da venda se fazer uma capella a Nossa Senhora do Monte. Fez isto rir bastante; mas sabidas as contas, a boa da capa estava recheiada de bellos dobrões de ouro, que chegaram de sobra para a fundação da capella.

A segunda versão (e mais verosimil) é que, sendo a Senhora do Monte, de muita devoção para estes povos limitrophes, concorreram todos para lhe fazerum esplendido manto (ou capa) pelo que a Senhora ficou d'álli em diante sendo conhecida por Nossa Senhora da Capa Rica.

Junto a Caparica está o convento de capuchos arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Távora quarto senhor de Caparica, em 1564. Elle morreu em 15 de fevereiro de 1573, e jaz na egreja do mesmo convento.

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

Este fidalgo, sendo embaixador de Portugal em Hespanha, em uma occasião que o imperador Garlos V estava zangado com elle, lhe disse : "Eu sei muito bem quantos rios e pontes tem Portugal" ao que Tavora respondeu: "Os mesmos que linha em 14 de agosto de 1385." Digna resposta de um bravo portuguez.

Caparica foi antigamente da comarca de Setúbal.

D'esta freguezia se avista a serra da Arrabida, Palmella, o mar, o Tejo, Lisboa e outras muitas povoações, montes e valles.

Antes de 1834 era o povo da freguezia que apresentava o cura, a quem davam anualmente, 1 moio de pão meiado e 5 pipas de vinho em mosto, a saber: os que tinham liuna junta de bois davam nm alqueire de pão, os que tinham duas ou mais, dois alqueires, e cada fazendeiro um pote de vinho. Andava tudo por 250$000 réis.

Além do convento dos capuchos arrabidos, ha mais n'esta freguezia um convento de frades paulistas, fundado em 1410. Este mosteiro está em um profundo valle, e era denominado, convento de Nossa Senhora, da Rosa. Na sua cêrca ha uma fonte, cuja agua dizem que cura a lepra e outras moléstias cutaneas. Foi fundador d'este convento Mendo gomes de Seabra.

Outro de frades agostinhos descalços, fundado em 1677. Este é no logar da Sobrada [Sobreda].

Ha n'esta freguezia nada menos de 24 capellas, entre publicas e particulares.

É terra muito abundante de aguas.

Tem vários portos de mar, sendo os principaes, Benatega, Porto Brandão, Paulina, Portinho da Costa e Trafaria.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Benatega é a palavra árabe ben-ataija. Significa, filho ou descendente da coroada. Vem de ben filho, ou descendente e de ataija coroada.

No logar da Costa, d'esta freguezia esteve (julgo que em 1823 ou 1824 D. João VI, hospedando-se na única casa de pedra que alli então havia (todas as mais eram cabanas da palha) 

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, 1909.
Imagem: Delcampe

e tanto gostou da caldeirada que alli lhe deram, que fez o cosinheiro (dono da casa) mestre das caldeiradas (!) com a renda de 800 réis diários emquanlo vivo.

Costa da Caparica, casa da coroa.
Imagem: almaDalmada

Também aqui esteve a sr.a D. Maria II e depois, quando rei, seu filho, o sempre chorado D. Pedro V. (1)

A Sobreda (antigamente Suvereda) está ligada com a Charneca pelos terrenos de Vale Figueira.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Lugar solitário, assente sobre alguns outeiros, que lhe fornecem ao centro o caminho principal, desigual e pedregoso, que lhe circundam a parte baixa, a que chamavam no final do século passado [XVII] Largo do Rio, em consequência da bica que em parte do ano ali corre e fornece água às lavadeiras, e do poço público que por volta de 1800 a 1830 no mesmo largo foi aberto a expensas de um cavaleiro daquele lugar, o Fidalguinho da Sobreda, Francisco de Paula Carneiro Zagalo e Melo.

E para fazermos segura ideia do que era Charneca antiga e de que então era Vale de Rosal, e a sua importância histórica, ouçamos o que em 1647 diz o Padre Baltazar Teles em sua Chronica da Companhia de Jesus em Portugal

— Tem o colégio de Santo Antão (uma das primeiras casas da companhia de Jesus em Lisboa) uma grande quinta ou para melhor dizer, uma vinha chamada Vale de Rosal, que está na banda d’além, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de Nossa Sra. Do Monte, distante do porto de Cacilhas quase uma boa légua.

O martírio dos 40, Mathaeus Greuter, gravura, 1611.
Louis de Richeome, La peinture spirituelle, Folger Shapespeare  University
Imagem:  Aspectos de devoção e iconografia dos Quarenta Mártires do Brasil...

Fica esta quinta no meio de uma grande e estendida charneca: é lugar todo à roda muito tosco, seco e estéril, cheio de silvados incultos, continuado de matos maninhos, e de areais escalvados, escondido em vales, cercado de brenhas, coberto de pinheiros bravios, de zimbros, de tojos e de outros frútices silvestres: é sítio mais acomodado para caças de monteria que para morada de gente culta, e por isso mui frequentao de corças e veados, infesto de lobos e de outros animais monteses. (2)

Afonso Costa, o Ministro da Justiça  visita a Quinta do Vale do Rosal, 1911.
Ilustração Portuguesa, n° 263 II série, Lisboa, Chaves, José Joubert
Imagem: Hemeroteca Digital



(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,

(2) Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896