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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (II de II)

Estamos em 1868, em Lisboa. A época não é das mais propícias ao florescimento das artes, o que ninguém deve estranhar, porquanto impera um gosto acentuadamente provincial nos costumes, nos trajos, no jornalismo, nos interiores das casas, no teatro, na literatura, em toda a vida citadina. 

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.

Não interessa averiguar se este gosto é bom ou mau. Os vindouros que se deem, querendo, a esse trabalho crítico, aliás desprovido, quanto a nós, senão de significado, pelo menos de eficácia. O que dá encanto e razão de ser às modas e aos estilos de vida social, é justamente aquilo que melhor distingue as épocas umas das outras:  quase sempre; os traços mais exorbitantes, os pormenores mais caricatos. 

Quem sabe se no século XX, por exemplo (aí por 1946) as lisboetas elegantes não se atreverão a exibir uma indumentária mais aparentemente ridícula do que esta, em uso nos nossos salões e avenidas?... Todas as épocas têm os seus grotescos, as suas manias, os seus telhados de vidro. E é isso mesmo que lhes confere, meu caro leitor, nitidez, graça, distinção. 

Panorama n.° 30, 1946

Mas íamos dizendo que estamos em 1868  exactamente no dia 13 de Março. Como densa e escura núvem que de súbito cobrisse uma paisagem primaveril, acaba de espalhar-se pela cidade a notícia da morte de Nogueira da Silva. O leitor não ignora, decerto, de quem se trata, nem quanto o país fica devendo ao fino espírito, ao poderoso talento e à infatigável capacidade de trabalho do malogrado artista que esse nome usou:  nem mais nem menos do que centenas de admiráveis desenhos e gravuras em madeira.

Sim, muitas centenas! Paisagens, retratos, composições livres, ilustrações, caricaturas, cópias rigorosas (e quantas de inestimável valor documental!) de monumentos arquitectónicos, de esculturas, de peças de ourivesaria, de tábuas e azulejos dispersos pelo país - tudo atraía e impressionava a sensibilidade plástica de Nogueira da Silva, e era por ele interpretado ou transposto para o papel e a madeira com uma destreza inexcedível e uma graça inimitável.

Panorama n.° 30, 1946

Merecia a pena que alguém, algum dia, preenchesse os lazeres de umas férias com o benemérito labor de contar e classificar esses trabalhos, insertos na "Revista Popular", no "Jornal para rir", nas "Celebridades contemporâneas" e, principalmente, nos numerosos volumes do "Archivo pittoresco".

Claro está que nem todos os desenhos e gravuras do ilustrador das Obras completas de Nicolau Tolentino têm o mesmo interesse, a mesma altura.

Panorama n.° 30, 1946

Deve mesmo dizer-se, por respeito à verdade e à sua memória, que as produções de Nogueira da Silva são de irregularíssima qualidade. Nem todos os géneros se quadravam à sua vocação e ao seu temperamento. 

Na interpretação da figura, por exemplo (e particularmente no retrato) foi, por vezes, deplorável. No entanto, não era por gosto de contrariar-se nem por doentia atracção abísmica que o artista insistia nesse cultivo; - era, sem nenhuma dúvida, por mera necessidade, por obrigação profissional. 

Panorama n.° 30, 1946

Aqui temos um traço bem distinto da personalidade de Nogueira da Silva: num país em que são raros os artistas profissionais, e sobretudo na sua época, ele nada tinha de amador. Quem sabe, mesmo, se não terá sido o primeiro desenhista português verdadeiramente profissional  menos livre do que nenhum outro de satisfazer os imperativos do seu temperamento, mais vítima da fatalidade de ser "pau para toda a obra?"

A infelicidade obstinou-se em perseguir e ensombrar a sua estrela, que tinha brilho bastante para resplandecer no pardo firmamento da arte nacional. Quase não houve revez que não o afligisse, injustiça que não o ofendesse, miséria que não o ameaçasse.

Panorama n.° 30, 1946

Desde a incompreensão paterna à quase cegueira, desde a fome ao vexame de ser acusado de curandeiro, Nogueira da Silva conheceu e suportou, com um estoicismo exemplar, as maiores adversidades - inclusivê a de ter prestado as melhores provas num concurso para a regência da cadeira de Desenho da Escola Politécnica, e ficar aguardando ein vão (por razões que nunca se chegaram a apurar) a decisão do juri...

A arte venceu, mais uma vez, mas também mais uma vez saíu mal-ferida da batalha. As mutilações que sofreu esta forte e singular personalidade, são. bem notórias e confrangedoras. No entanto, cabe ao laborioso artista o mérito de ter reformado e desenvolvido, entre nós, a gravura em madeira, até então só apreciàvelmente cultivada por Manuel Maria Bordalo Pinheiro e José Maria Batista Coelho.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

É aí, repetimos, que se encontra o maior número de trabalhos de Nogueira da Silva, atestando, além da espantosa multiplicidade do seus recμrsos técnicos, a penetrante acuidade do seu espírito de observação e o afinado gosto do seu humorismo  virtudes às quais não foi estranha a influência dos mais famosos desenhadores e gravadores franceses contemporâneos, sobretudo de Gavarni. 

Panorama n.° 30, 1946

Como ilustrador, julgamos possível e justo que algum cronista do próximo século (aí por volta do ano de 1942...) afirme que o volume das Obras completas de Nicolau Tolentino é "uma das raras edições portuguesas do século XIX que, não sendo classificável como livro de arte  por excesso de tiragem e modéstia de materiais  é, todavia, um espécime perfeito de livro ilustrado. Pois onde se vê, como nele, uma harmonia tão grande entre o espírito do autor e dp ilustrador da sua obra?" 

— "Nogueira da: Silva não ilustrou mais nenhum livro. Sete anos depois, morreu. Faz de conta que tivemos dezenas de Nogueiras da Silva. Vale lá a pena recordar o seu nome?"


Panorama n.° 30, 1946

Como caricaturista, Francisco Augusto (iamo-nos esquecendo de dizer que eram estes os seus prenomes) foi dos mais engraçados que desde sempre se contam na história da arte nacional. O "D. Quichote" do século XIX e muitas das caricaturas que publicou  acompanhadas de biografias, crónicas e legendas humorísticas da sua autoria  nas "Celebridades contemporâneas", no "Jornal para rir", no "Archivo pittoresco" e noutros periódicos da época, deram brado e fizeram escola. 

A ironia do seu traço, apontada aos ridículos da baixa burguesia, aos narizes-de-cera, às vaidades balofas, era por vezes contundente, mas nunca grosseiramente ofensiva. É que o seu humor provinha menos de ressentimentos, do que de uma visão mais evoluída, ·mais urbana dos homens e das coisas.

Panorama n.° 30, 1946

Nogueira da Silva foi um artista da cidade. Por isso lhe repugnava, mais do que tudo, o "arrivismo", o recem-chegadismo provinciano. E afinal, feitas bem as contas, talvez tenha sido essa pecha da vida portuguesa — tão evidentemente acentuada no seu tempo — a causa fundamental das suas vicissitudes.


(Conforme com o original).

CARLOS QUEIROZ (1)


(1) Panorama n.° 30, 1946

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda

Aportando, na Outra-banda, á praia chamada forno do tijolo, por n'ella haver uma fabrica d'este producto, e ganhando o cume da montanha que a domina quasi perpendicularmente, acha-se o viajante n'um logar, conhecido pelo nome de Pragal, d'onde descobre o mais rico e variado panorama.

Lisboa, Vista panorâmica desde Pragal de Cima, ed. Passaporte, 123.
Imagem: Delcampe

Não falta que ver e admirar d'ahi.

Obras da natureza e dos homens, isto é, paizagens amenas e agrestes , serras, planícies, mar, vasto ceo, cidade e monumentos historicos; tudo em larga cópia se lhe desenrola aos olhos maravilhados.

Lissabon, vista tomada de Palença, 1830
Imagem: Mundo do Livro, (Mundo do Livro no Facebook)

Pela esquerda, a barra e o Oceano perdendo-se no infinito dos ecos; á direita, Seixal, Barreiro, e Alcochete, transpirando vagarmente por entre os vapores de longínquos horisontes; a seus pés, a vastidão do Tejo, de cuja superficie, banhada pelos raios de um sol sem rival, parece sair e mover-se luz; na frente, surgindo da aguas prateadas do tranquillo rio, a vistosa, a pittoresca, a invejada Lisboa;

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

ao lado d'esta, desdobrando-se até á barra, uma cumiada de montanhas, onde, por entre o matiz dos campos, se ve o colossal palacio d'Ajuda,

Vista do Tejo e do palácio da Ajuda, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

o famoso templo dos Jeronimos e a elegante torre de Belem, fallando-nos de riquezas e glorias passadas; para além de tudo , e tudo dominando, a magestosa Cintra, erguendo-se sobre as nuvens, indecisa e vaporosa, como para nos accelerar a cobiça d 'irmos de perto contemplar a maravilha do seu aspecto.

Lisboa, Vista panorâmica de Belém desde Pragal, ed. Passaporte, 124.

Eis a fecunda perspectiva, que do Pragal a vista abraça, e de que a gravura representa uma parte, Lisboa.

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quando o leitor estiver triste aconselhàmol-o a que vá para o Pragal, e se sente no mesmo logar d'onde tirámos o desenho, e cremos que, ao desafogar os olhos e espraiar os sentidos por tão vasto e ma rico panorama, o coração se lhe alliviará. (1)

A ponte sem tabuleiro, c. 1965.
Imagem: Estação Chronográphica


(1) Silva, Nogueira da, Archivo Pittoresco, 2.° Anno, Julho, 1858, págs 4 - 5.

domingo, 15 de junho de 2014

Fonte da Pipa e seu caminho

"A obra desta fonte e seu caminho, se fez por ordem de sua magestade, à custa do povo desta vila e seu termo, por tributo que se lhes impôs nos açougues desta vila e seu termo de três reis em cada arratel de carne para pagamento da dita obra na era de 1736".

Fonte da Pipa, construída em 1736.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Cais da Fonte da Pipa (Olho de Boi), gravura, Pierre Eugène Aubert, 1820.
Lisboa, vista tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Acordarão os ditos oficiais e homens bons que nenhum homem solteiro de qualquer estado e condição que seja, não esteja quedo na Fonte da Pipa nem passeie no caminho dela, sob pena de duzentos reis [de multa] e da cadeia, a metade para o Concelho, e a outra para quem acusar" [édito do Senado da Câmara, c. 1750].

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Digno feito de ser no mundo eterno
grande no tempo antigo e no moderno
Camões — canto 8, estrofe 35
C.M.A. 10-6-1880

Pedra de armas de D. João V.

Já se acha concluída a grande reparação da estrada da Fonte da Pipa: tendo a respectiva camara municipal d'Almada recebido para a mesma obra, no dia 17 de novembro ultimo dos srs. Domingos Affonso [Quinta da Arealva] 200$000 réis; E. Prince Son & Companhia 100$000 réis e Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [Quinta do Olho de Boi] 60$000 réis.

Almada, Miradouro do Jardim do Castelo, ed. Manil.
Imagem: Delcampe

Além destes donativos, os srs. Affondo e Price emprestaram desde o começo da obra até à sua conclusão, os seus carros, bois e trabalhadores para a remoção de terra e pedra para o concerto da estrada.

Reparação da estrada da Fonte da Pipa, 1882- 1883.

Fonte da Pipa — Almada, Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Cavalheiros como estes, honram sempre o munícipio a que pertencem, e as suas obras são dignas de ficarem registadas. (1)

Miradouro Boca do Vento, Olho de Boi e Fonte da Pipa, ed. Manil, 3010 D.
Imagem: Delcampe


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

sábado, 31 de maio de 2014

O rei moço

Por 1858 D. Pedro V frequentava muito a casa de Alexandre Herculano [...]

Alexandre Herculano (1810-1877)
Imagem: Wikimedia Commons

D. Pedro V perguntava — usamos do termo, vulgar nas nossas províncias — a miude a casa da Ajuda. A voz de Stentor do creado acudia, cá de dentro, bradando: — Quem é?

A um submisso: — Faz favor — abria estrepitosamente, dava com El-Rei, e ficava varado!

D. Pedro V perguntava:

— O sr. Herculano está?

O creado, mudo, curvava-se até ao chão, n'uma vénia affirmativa. O monarcha seguia pelo corredor, levantava o fecho e dizia:

— Dá licença? Seja Deus n'esta casa.

Herculano recebia-o como estava; ás vezes, em trajo frasqueiro. Também lh'o censuraram. Queriam, provavelmente, que dissesse ao principe:

— Espere Vossa Magestade, que eu vou pôr casaca e lenço branco.

Não tinha esse mau gosto. D. Pedro V entrava. A conversação prolongava-se. Umas vezes tratavam de coisas graves, e outras de mais espairecidas, anecdotas politicas do dia, lettras, artes. El-Rei recitava versos, que lhe haviam agradado e tomara de cór, com a sua memoria bragantina.

De tudo tínhamos nós noticia depois, porque D. Pedro ficava só com Alexandre Herculano.

D. Pedro V estava então na adolescência. Parece-me agora vel-o. Sempre com a sua farda e a sua espada, como hoje trazem os militares. Alto, distinctissimo, sereno, parecia envolvel-o um nimbo refulgente de bondade! As pupillas nadando no esmalte das scleroticas. Cútis finissima, na transparência da pelle contavam-se-lhe as veias azuladas. Cabello loiro acendrado, caindo em natural desalinho sobre a testa e as fontes. Bocca graciosamente recortada, e vermelha. O beiço inferior um pouco grosso, mas não belfo, como o dos Braganças. A sua expressão habitual era meditativa. Quando sorria, a primavera ridente da mocidade varria as nuvens, que, não raro, toldavam o coração do principe.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

D. Pedro V vinha dos esplendores do Paço. O piso suave das alcatifas, a curvatura dos fâmulos — grandes e pequenos, o ambiente morno das lisonjas, ainda dos mais honestos, todos os thuribulos, cujo incenso vicia o ar e entontece a cabeça, haviam de exercer no Rei a sua acção mórbida. Advertido, pela lição dos livros, caracter recto e razão solida, fugia d'elles? Talvez.

A pé e só, saía das Necessidades. Entrava no zambujal da Tapada, então bravia, como a caça de pello e de penna, que abundava por aquelles covões e chapadas. Os moinhos, tão pittorescos, uns agrupados, outros, aqui e além, pelos cimos flexuosos da serra, viravam as aspas brancas ao norte largo, girando, girando, para moer o trigo, que havia de alimentar o povo. Esses moinhos tinham servido de fortalezas para sacudir o despotismo, e firmar na cabeça de sua mãe a coroa liberal, que elle herdara. E o príncipe passava, aspirando a aragem acre e salubre. Vinha visitar o homem, que, traçando os annaes da pátria, desenhara a figura de seus avós. O Rei identificava-se com a natureza e tornava-se humano. Os copados zambujeiros, ramalhando, varriam-lhe do espirito os bálsamos palacianos. Só, e distante do sólio como rei, sentia-se maior como homem! N'aquella hora breve, solitária e folgada, vivia séculos na historia! O pensamento, ás vezes, é fardo acabrunhador, como disse o malfadado Millevoye. É preciso sacudil-o [...]

Acertava, ou talvez fosse propositadamente, vir o rei n 'alguns sabbados. As quatro, em ponto, levantava-se para sair. Sabia que n'esses dias, a essa hora, Herculano contava, á mesa, com os seus amigos. Seguindo pelo corredor, reparando na porta da casa de jantar, e fitando em Herculano um olhar significativo, disse-lhe, uma vez:

— Este officio de rei tem coisas bem desagradáveis!

Naturalmente os seus desejos seriam entrar, elle, moço, intelligente, amante das lettras, e tomar parte na convivência de rapazes que, na maioria, eram a flor dos talentos de Portugal!

Correu tempo. D. Pedro V casou. O noivado foi breve, porém luminoso, porque se amavam e entendiam aquellas duas almas!

Um dia veio a nuvem, súbita e temerosa!

Se a purpura se conservava sobre os hombros, o lucto da viuvez cobriu-lhe o coração até á morte! Nem os negócios públicos, nem o Curso Superior, que fundara com tanto gosto, lhe tiravam do peito aquella nódoa!

Rainha D. Estefânia, Karl Ferdinand Sohn, 1860.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Para distrahir os irmãos, fez a viagem ao Alemtejo. Viagem fatal!

N'um dia de inverno — tenebroso dia — o bronze, ululante nas torres dos templos da cidade, e o canhão, ribombando nas fortalezas, annunciaram a morte do Rei á cidade consternada! A dor foi sincera e violenta, a ponto de romper em tumultos!

"Ao despotismo da morte respondeu a anarchia da dor!" disse José Estevão.

O préstito fúnebre, sem apparatos nem pompas, foi o mais tocante e imponente que se tem dado em Portugal. Nem uma carruagem! Das Necessidades a S. Vicente, duas renques de povo, firmes e circumspectas, como se fossem alas de militares disciplinados!

A morte de D. Pedro V tomou proporções de catastrophe nacional. O povo tinha a intuição do poder intellectual, do saber, da rectidão de caracter e da bondade do príncipe. Amava o e respeitava-o; sabia que no throno estava o seu amigo e protector.

Os políticos — politicos de todas as cores não andavam de boa avença com elle. A um óbice que o monarcha lhes puzesse, murmuravam, quando nos jornaes não declaravam:

— Governo pessoal, governo pessoal!

Os politicos pelam-se por elle, mas quando o rei se torna instrumento passivo dos seus desígnios e ambições. D. Pedro V não era para isso. Estava alli um homem. Como supremo magistrado do paiz, conhecia as suas obrigações; não exorbitava d'ellas, porém não admittia que lh'as invadissem. Tinha o sentimento da justiça e da moralidade em grau elevado, e via o caminho que isto ia levando. Não concedia nada, que fosse além do legitimo, nem pedia coisa alguma aos ministros. Que os reis também pedem!

Esta rigidez não se amoldava aos meneios e voltas da politica. A morte, ás vezes, é resgatadora de infelizes. Elle, cora o seu caracter, contra a onda das coisas, n'esta terra que havia de ser, senão um desgraçado! Morreu a tempo. Não poude ver as lagrimas que provocou a sua morte; mas sabia que era amado.

Para os que o conheceram, a figura de D. Pedro V tem o que quer que seja de phantastico. A sua belleza, o seu valor á cabeceira dos pobresinhos moribundos; o dia das núpcias; o véu da noiva e os botões da laranjeira, envoltos já nos crepes e nos goivos do sepulcro; a Rainha morta; elle, no Paço, com os irmãos, e a morte a pairar em roda dos Infantes! o Príncipe herdeiro, coração bondoso, intelligencia viva, porém tão juvenil ainda, tão inexperiente dos homens, das coisas, da politica, por esses mares fora; o paiz; o futuro; as primeiras arremettidas da febre, com que se teve ainda de pé; as visões, prologo da agonia; aquella figura apollinea, refulgente, envolta n'uma nuvem densa; o baquear na terra!...

[...] uma das referências unanimemente mencionada pelos autores, é a provável data da construção do Palácio Real do Alfeite, em 1758, por D. Pedro III, filho de D. João V e marido de D. Maria I.

Real quinta e residência do Alfeite, 1851.
Imagem: António Silva Tullio, A Semana.

Já no decorrer do século XIX, o Palácio Real do Alfeite foi, novamente, objecto de uma intervenção de remodelação e restauro, merecedora de registo pela sua magnitude, extensão e visão, transformando um edifício humilde, rudimentar, sem  ornatos, num imóvel arquitectónicamente equilibrado, esteticamente agradável, simples mas de linguagem imponente.

Esta intervenção esteve a cargo do arquitecto da Casa Real Joaquim Possidónio da Silva, realizada por ordem de D. Pedro V, e define exteriormente a actual configuração do palácio.

D. Pedro V (n. 1837 m. 1861), de seu nome completo Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Bragança, Bourbon e Saxe Coburgo Gotha, cognominado O Esperançoso, O Bem-Amado ou O Muito Amado, foi Rei de
Portugal de 1853 a 1861.

"Em 1857, D. Pedro V fez grandes melhoramentos na quinta e mandou construir um novo palácio, mais confortável e de traça mais elegante – que ainda se mantém – para substituir o antigo".
in Mendes, José Agostinho de Sousa, A Quinta do Alfeite, Revista da Armada, 135, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1982.


Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

"No local do palácio sempre ali existiu um edifício com uma ponte de cais e acesso, que foi reformulado em 1837, com melhores condições para albergar a Família Real, mas as instalações que hoje conhecemos resultam da transformação mandada fazer por D. Pedro V, em 1857, de acordo com um desenho do arquitecto Possidónio da Silva".

in Matos, Semedo de, 150 Anos da chegada a Portugal da Rainha Dona Estefânia, Revista da Armada, 422, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 2008.

Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
Imagem: Delcampe

"[…] D. Pedro V fez importantes obras na quinta do Alfeite e construiu um novo palácio. As salas são elegantes e bem mobiladas, a escadaria magnífica, as pinturas dos tectos são deveras artísticas e a quinta tem bellezas naturaes, existindo […] por vezes Suas Magestades vão de visita ao Alfeite, repousam alguns momentos no palácio, merendam na quinta, embarcando depois no magnifico cães junto do palácio".

in O Paço Real do Alfeite, Illustração Portugueza, Empreza do Jornal O Século, Lisboa, Outubro 1905.

Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
Imagem: Delcampe

[…] Sua Magestade El-Rei o Senhor D. Pedro V acaba de mandar construir n’aquella quinta uma nova residência, mais confortável e elegante do que o antigo real casarão, escoltado de pontales, que lá havia. È architecto da obra, o da casa real, Joaquim Possidónio Narciso da Silva” [...]

in Alfeite, Archivo Pitoresco, vol. I, Typ. de Castro Irmão, Lisboa, 1858.

"A aristocracia desse tempo era pouco instruída, de mentalidade antiquada, muito arreigada às suas prerrogativas e ambições pessoas e ignorante do progresso realizado além fronteiras com o advento da nova era industrial. D. Pedro V dotado de viva inteligência e de notável formação moral e intelectual era muito estudioso, metódico e possuidor de invulgares qualidades de trabalho" […]
in Revista de Marinha, 390, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1950.

"D’entre as quintas mais notáveis do termo d’Almada, faremos unicamente menção das duas que pertencem á família real: a do Alfeite, que é da coroa, com jardim e grande matta abundante de caça, e agora aformoseada com un lindo palácio de campo, no gosto inglez, mandado edificar por el-rei o Senhor D. Pedro V […]"

in Barbosa, Inácio de Vilhena, As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que teem Brasão d’Armas, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1860.


Bibliografia: Pereira, Susana Maria Lopes Quaresma e, O palácio real do Alfeite: da fundação à contemporaneidade, século XVIII-XX: percursos e funcionalidades, 2009, Universidade de Lisboa.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

E pelas mesmas ruas, por onde elle passava, a cavallo, todos os dias, adolescente e confiado no porvir, o saimento muito vagaroso, por entre o povo todo de negro, n'uma tarde fria, húmida, sinistra, pela via dolorosa ; longa . . . longa .. . que não tinha fim!...

E n'este turbilhão de bailada allemã, que, ainda hoje, nós vemos passar D. Pedro V! [...]

Alexandre Herculano, Rebello da Silva, Sant'Anna e Vasconcellos, e eu, seguimos das Necessidades até S. Vicente.

Funeral de D. Pedro V, novembro 1861.
The Illustrated London News, gravura do esquisso de P. Anstell, 1862.
Imagem: Real Arquivo Digital no Facebook

Caia a noite, quando o Rei, no seu grande esquife, todo coberto de crepes, entrou o âmbito da egreja.

Foi a primeira vez que vi Alexandre Herculano chorar como uma creança! [...] (1) 


Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay

D. Pedro V nasceu a 16 de setembro de 1837.

Ascendeu ao trono em 1853, tinha 16 anos.

Casou em 1858 com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, que faleceria no ano seguinte.

Em 1855 presidiu à inauguração do primeiro telégrafo eléctrico no país.

Inaugurou o caminho de ferro entre Lisboa e Carregado em 1856.

Criou e subsidiou o Curso Superior de Letras em 1859.

Fundou hospitais e outras instituições, entre os quais, correspondendo a um pedido de sua esposa entretanto falecida, o Hospital de Dona Estefânia.

Em 3 de setembro 1861, inaugurou os trabalhos de construção do Palácio de Cristal do Porto.

D. Pedro V faleceu a 11 de novembro de 1861, tinha 24 anos.

O Palácio de Cristal do Porto foi destruído em 1951.

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. II, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa.

Leitura adicional:
Vilhena
, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. I, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Suplemento I e II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.

domingo, 16 de março de 2014

O castelo, a igreja, a vila e a cerca

"... em 1374, D. Fernando prorrogou por mais um ano o prazo para serem terminados os muros da cerca... Nos séculos XVI-XVII a cerca desenvolvia-se já desde o castelo, passando pelas traseiras das casas da Rua Direita até à 'Praça Velha'..." (1)

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.


Configuração do castelo de Almada. (2)

Planta do castelo de Almada em 1772.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes.


Almeida por Almada.

O erro sistemático do esboço de Page, ou do desenho de Stanfield, associado à data tardia de publicação das reproduções, tende a deslocar, ou a misturar e confundir, eventos e análises da Guerra Penínsular e das Guerras Liberais. (3)

Lisbonne , vue du fort d'Almeida [sic] .  
Hugo, Abel, France militaire, Histoire des armées françaises de terre et de mer, de 1792 à 1837, Paris, Delloye, 1838, 5 vols.

O fumo que sai das chaminés, os mastros do navio a vapor, o Mar da Palha, os braços do Tejo. Lisboa mais bela, talvez, que Napoles ou Constantinopla.

Vue de la rade et de la ville de Lisbonne
Imagem: Le Monde illustré, 1858, M. de Bérard.

Realidade, fantasia, que faz viajar e sonhar.

Lisbonne
Imagem: L'Illustration, Journal Universel, 1860, Anastasi.

Imagens com castelo e casario que descrevem ou inspiram poemas românticos.

Lisbon view from the south bank of the Tagus
Trousset encyclopedia, 1886
Imagem: Byron, George Gordon, Childe Harold's Pilgrimage..., London, John Murray, 1869 (detalhe).

(1) PEREIRA DE SOUSA , R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

(2) Arquivo Nacional Torre do Tombo.

(3) Almada bélica e bucólica no século XIX.