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quarta-feira, 13 de junho de 2018

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (3 de 10)

Lá no castelo de Almada,
Fica a "troupe" embasbacada.

Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram a vista de fama, 
Do esplendido panorama. 
E o padre pondo-se a pé, 
E abrindo o olho baço, 
Gritava: "Lá está a Sé... 
Mais o terreiro do Paço... 
A Penha de França... o Monte... 
A Graça ao lado... e defronte,
O zimborio da Estrella... 
Ih! Jesus! que vista aquella! 
Todos, todos... "ai, que encanto!" 
O Gamboa, diz: "Oh! mana, 
Olhe o forte de Monsanto,
Onde esteve o Gungunhana... 
Que vista esta tão bella...
Lá está acolá... Palmella.
E ali assim... Belem... 
Até se vêem os omnibus! 
A egreja dos Jeronymos.

Lisboa, Panorama do Rio Tejo, Alberto Malva, 14, c. 1900.
Imagem: Delcampe

A Inglaterra não tem, jóias,
Nem a França nem a Suissa,
Uns panoramas eguaes, 
De tão completa cubiça!
Olhem para todo este rio...
Que belezas naturaes! ... 
Olha a torre do Bugio, 
E a bahia de Cascaes!"

Notem que o rapaz dos burros, 
Esta, pois que não esqueça, 
Levava ás costas, no pau, 
Enfiada uma condessa, 
Com a petisqueira... mau!

Era o farnel: Carne assada,
Com batatas, estufada,
E tres gallinhas coradas,
Que é melhor não fallar n'isso,
C'o competente chouriço,
E pescadinhas marmotas,
D'estas de rabo na bocca;
Em quatro vidros, compotas,
Porém, fructa, muito pouca;
Porque dizia o Gambôa:
"Na Outra Banda ha á toa."

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Segue o cyrio triumphal,
Para o "Joaquim dos Melões", 
Pelo sitio dos Pombal, 
Onde os nossos figurões
E o padre no seu macho, 
Começam nas libações, 
Copo cheio, copo a baixo.

O Gambôa com a pressa, 
De saltar do albardão, 
Cai, e bate co'a cabeça, 
Logo ali no meio do chão! 
O rapaz, p'ra lhe acudir, 
Por bregeiro e maganão, 
Deixa cahir a condessa, 
Ao pé do caramachão, 
E tudo desata a rir 
Na maior animação.

Logo aquella boa gente, 
Lá do "Joaquim dos Melões", 
Excellentes creaturas, 
Que são todas attenções, 
E deff'rências as mais puras, 
Que eu amo sinceramente, 
Logo todos mui afflictos, 
Acudiram ao Gambôa, 
Chapinhando-lhe a cabeça, 
Com agua-ardente bem boa.

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Limpa-lhe o padre a poeira, 
E diz com sua voz fina: 
"Deixe provar a piteira, 
Sôra Dona Carolina, 
Eu também soffri abalo... 
E ella cheira... cheira... cheira... 
Cheira que é mesmo um regalo!"

Não faço d'isto segredo, 
Em Cacilhas agregou-se, 
A este rancho decantado, 
O senhor Julio Azevedo, 
Um cavalheiro estimado, 
De bondade todo cheio, 
Em companhia também, 
Do illustre senhor Feio 
Um puro homem de bem.

A Caminho do Pic Nic...
Imagem: Delcampe

Iam os dois na charrétte 
A trote na egua baia, 
Com o Sousa e o Rodrigues, 
Para a quinta d'Atalaya. 

Mas como era o Gambôa, 
Amigo d'este quartetto. 
Lá foram todos na pandega, 
No cyrio q'rido e selecto.

Amora Avenida Marginal Lado Sul Manuel Henriques Jr 01.jpg
Imagem: Delcampe

Pouco mais de meia hora, 
Com grande jovialidade, 
Tudo foi da Piedade, 
Até ao logar d'Amora: 
E tudo na melhor ordem, 
Sem ninguém dar uma raia, 
Abancou rindo e folgando, 
Lá na quinta d'Atalaya. (1)


(1) Diário Illustrado, 10 de agosto de 1896

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886

Sabemos que D. Bertha Ortigão passara parte do outono de 1886 na Cova da Piedade em companhia de seu pai, Ramalho Ortigão.

D. Bertha Ortigão por Columbano, 7.ª Exp. do Grupo do Leão, 1887.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como referido, nas Cartas Portuguezas, pelo ilustre escritor, teria a familia nessas férias visitado amigos e descoberto lugares. Ramalho anotara as recentes novidades e, ao mesmo tempo, relembrara as memórias do tempo de seu pai a propósito da ainda bucólica e pitoresca Cova da Piedade.

D. Bertha, durante estas visitas e passeios,  registava em algumas "pochades" as imagens que, supomos, mais tarde apuraria em telas pintadas a óleo, ou talvez as aprimorasse mesmo "sur place".

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Solar da quinta de S. José em Linda-a-Velha, demolido para a construção do Estádio Nacional.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Não conhecemos estes quadros, pois no catálogo da mostra em que foram apresentados a público não consta a imagem de algum deles.

No entanto, com a esperança de que algum dia nos venham a ser revelados, aqui ficam as referências que dispomos tal como descritas no catálogo da 6.ª exposição d'arte moderna, realizada em 1887, pelo Grupo do Leão que, sem compromisso, complementamos com fotografias de nossa escolha, embora um pouco mais tardias.

ORTIGÃO (D. B.) C. dos Caetanos, n.° 30.

68 — Valle Mourellos no outomno.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

70 — Esquina da estrada do Pombal.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
72 — Rosas [da Quinta do Pombal de Paul Henri Plantier?] .
73 — Rosas.
74 — Arenques e vinho branco.
75 — Os moinhos do Pragal.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

76 — Mademoiselle.
77 — Prato decoratico.
...

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Ortigão, que escrevia sobre quase tudo, e que por este tempo era critico de arte já feito, espetava as suas "Farpas" por aqui e ali; não consta que alguma apreciação tenha feito aos quadros de D. Bertha. O que aumenta a nossa expectativa quanto aos mesmos.


Leitura relacionada: 
Sandra Leandro, Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX

Artigos Relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1882
Passagem pelo grupo do Leão

Referências internas:
Ramalho Ortigão, verão de 1886
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mina de água do Pombal

Por decisão da Senhora presidente da Câmara Municipal de Almada, e na linha da sua preocupação para com a investigação, restauro e preservação do património deste concelho, mandou esta proceder ao desaterro de uma estrutura na zona do Pombal cujas origens remontam à idade Média, constituída por mina de águas, tanque e respectivos acessos, datando seguramente do século XIII, e aterrado por razões que se prendem com a urbanização do local, na década de sessenta deste século.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Dado o interesse manifestado pelas populações relativamente ao conjunto patrimonial em referência, a Junta de Freguesia da Cova da Piedade decidiu divulgar as poucas informações disponíveis sobre o local, proporcionando aos interessados elementos de caracter histórico por forma a melhor poderem avaliar o interesse deste núcleo no contexto da vida social e económica da região ao longo dos séculos.

Alfeite, vista Geral tomada da Quinta do Pombal (detalhe), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

O conjunto em referência cumpriu durante séculos a dupla finalidade de abastecer de água a população das zonas próximas, e desedentar o gado das redondezas, fazendo-se o acesso por uma rampa empedrada a basalto.

Cova da Piedade, fonte Medieval do Pombal.
Imagem: Flickr

Tudo indica que seriam frequentes os litígios entre os seus utilizadores, acentuando-se os conflitos de tal modo que em 1392, uma sentença repartiu a água entre a Albergaria ou Casa dos Gafos de Cacilhas, que aí tinham uma propriedade, e outros proprietários das redondezas. 

A partir da referida sentença, a utilização da mina e do tanque passou a ser de uso público e, naturalmente, por esse motivo foi encimado pelas armas de Portugal.

Bandeira pessoal de D. João I com a sua divisa "Pour bien".
Imagem: Wikipédia

A atestar a antiguidade do escudo de armas está à disposição das quinas em cruz. Este, quando do aterro a que já fizemos referência, foi retirado do seu lugar de origem e posto a salvo no Convento dos Capuchos, por iniciativa do eminente investigador da história local, arqueólogo e homem de cultura Dr. Mário Bento, para quem Almada tem uma dívida de gratidão.

De resto, deve-se a esta personalidade a recolha da cantaria da entrada monumental da antiga quinta das Rosas do Pombal, recolhida igualmente nos Capuchos, e infelizmente em péssimas condições de conservação.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Na primeira metade do século XX, já a água da mina do Pombal não era de boa qualidade para consumo e deixou de ser utilizada para esse fim, procedendo a Câmara Municipal de Almada à colocação de um chafariz no cimo da rampa de acesso, ligado à rede pública de abastecimento. 

No século XIV, o sítio compreendia uma extensa área que ia desde a referida mina de água, até à actual Rua de Vera Cruz, compreendendo o actual bairro de Na Senhora da Piedade e a quinta do Pombal que ali existia.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

Em 1390 a Casa dos Gafos de Cacilhas possuia aí uma propriedade que, por confrontar em toda a volta com caminhos públicos e por dela constar parcelamento por vários aforamentos supomos que abrangia grande parte da área citada.

Os aforamentos mais antigos, e mais interessantes, da Albergaria de S. Lázaro, no Pombal são: 

Em 1393, um casal de "herdade de pão e vinho" que trazia um tal Marcos, escudeiro;

Em 1409, um bacelo que entestava com "caminho público de Pombal para Alvalade", a actual Ramalha;

Em 1539, um cerrado ( junto da mina), aforado a Frutos de Gois, irmão do cronista Damião de Gois, e avô do 19 senhor do morgado de Mutela, Luís de Gois Perdigão de Mendonça;

Em 1539, uma quinta e cerrado, aforados ao adail Diogo Fernandes. Este,coincide em nome e cargo com aquele de que fala Gaspar Correia nas "Lendas da India"."mandou Diogo Fernandes , homem cavaleiro, a que deu o cargo de adail, com doze de cavalo... e com mil piães que passasse à terra firme".

Ainda em 1539, refira-se que uma das propriedades de Albergaria neste sítio confrontava com um morgado de Vasco Lourenço.

Em 1555, uma sentença proferida contra Francisco de Sousa Tavares e sua mulher D. Maria da Silva, obrigava estes a pagarem ao prior e aos beneficiados das igrejas de Almada foro, "por um olival, certas geiras, tudo junto, contíguo e cerrado", que partia do norte com olival e do leste com estradas públicas, tudo isto no Pombal.

José Carlos de Melo.

Finalmente, o último proprietário [anterior à familia Theotónio Pereira] da chamada quinta do Pombal foi o notável publicista almadense, José Carlos de Melo: que aí nasceu em 1885. (1)


(1) Policarpo, António Manuel Neves, Mina de água do Pombal, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1993

Artigos relacionados:

Rosas do Pombal
José Carlos de Melo


sábado, 5 de julho de 2014

O visconde da Piedade

George Rose Sartorius (1790 — 1885)

[...] em 1832 George Rose Sartorius foi contratado pelos liberais portugueses para comandar as poucas forças navais de que D. Pedro IV dispunha, na luta contra a marinha de guerra portuguesa, então nas mãos do governo de D. Miguel. 

George Rose Sartorius
Imagem: Hemeroteca Digital

Nessas funções comandou a esquadra que transportou dos Açores os 7 500 Bravos do Mindelo, designação pela qual ficaram conhecidos os homens que constituíam a força que protagonizou o Desembarque do Mindelo.

Desembarque das tropas Liberais no Mindelo em 1832 (detalhe).
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

Foi substituído nessas funções por sir Charles Napier [em junho de 1833].

Após a sua passagem pela Marinha de D. Pedro IV, Sartorius estabeleceu relações profundas com Portugal, adquirindo propriedade no país e aí residindo durante períodos alargados.

Foi assim que em 1835, na sequência da extinção das ordens religiosas, adquiriu em hasta pública a Quinta dos Frades, em Almada, propriedade que originaria o título visconde da Piedade que lhe foi concedido em 1836.

Aliás, Sartorius aparece na lista dos 20 maiores compradores dos bens nacionais, essencialmente bens monásticos, alienados após a vitória liberal.
Os vinte principais compradores dos bens nacionais foram: José Bento Araújo, Domingos José Almeida Lima, Manuel José Oliveira, Conde de Vila Real, Manuel Joaquim Jorge, José Ferreira Pinto Basto, Visconde de Reguengo, João Oliveira, Luís Teixeira Sampaio, Duque de Palmela, Conde de Linhares, Conde de Lumiares, Jerónimo Almeida Brandão Sousa, João Deus Cunha, António Lamas, Domingos Luís Batalha, António Cunha Pessoa, George Rose Sartorius, João António Gomes Castro, Joaquim Manuel Namorado.

A partir do constitucionalismo, como assinala Oliveira Martins, surgiu uma classe separada, "a família dos políticos. A família dos políticos, que entre si jogam a sorte do país, como os soldados jogavam a túnica de Cristo. E essa família dos políticos é o apanágio indispensável do sistema constitucional em todos os países como o nosso, atrasados, pobres e fracos. A política é um modo de vida de alguns; não é uma parcela da vida de todos..."

in Centro de Estudos do Pensamento Político, A família dos políticos

A ligação a Portugal será mantida por toda a vida, tendo o velho almirante colaborado com as autoridades portuguesas na construção e aquisição em Londres de diversos navios, entre os quais a primeira Sagres da Armada Portuguesa, lançada à água em Junho de 1858, 

Corveta Sagres, Massarelos, rio Douro.
Imagem: Navios e Navegadores

e a corveta mista Bartolomeu Dias, 

Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Sabóia, 1862, óleo, João Pedroso.
Imagem: As corvetas mistas na obra de João Pedroso, Revista da Armada

projectado como clipper para a marinha mercante inglesa, mas adquirido ainda no estaleiro e adaptado a navio de guerra antes de, em Janeiro de 1858, ser lançado ao Tamisa, também sob a supervisão de Sartorius.

George Sartorius foi também um talentoso aguarelista.

Belem Castle Tagus, aguarela, George Rose Sartorius.
Imagem: AskART

Recebeu o título de visconde da Piedade por decreto de 1 de dezembro de 1836, visconde de Mindelo por decreto de 8 de Julho de 1845 e o de conde de Penha Firme por decreto de 19 de Agosto de 1853, todos por D. Maria II. (1)



A Quinta dos Frades, onde está hoje o Museu da Cidade, é referenciada desde o século XIV, quando em 1378 Pedro Afonso Mealha, na sequência de um processo de emparcelamento de pequenas propriedades, por sua morte, deixa a propriedade à administração dos frades predicantes da Ordem de S. Domingos.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

São estes religiosos que, entre 1380 — 1446, constroem o edifício sede da quinta, provavelmente próxima da actual localização do Museu.

Vulgarmente a propriedade passou a ser designada por Quinta dos Frades.

Em 1835, a partir da extinção das ordens religiosas, foi vendida em hasta pública ao almirante inglês George Rose Sartorius (que, entre outros títulos, recebeu o de Visconde da Piedade em 1836).

Em 1876 passa a ser propriedade de Custódio José Teixeira.

No final do século XIX a propriedade pertencia a José Ferreira Jorge Júnior, que constitui herdeiros dois sobrinhos da mulher, um dos quais, Mário Pereira Lage, é casado com a poetisa Florbela Espanca, que terá aqui vivido algumas temporadas.

No primeiro quartel do século XX a casa foi local de encontro regular de republicanos, tendo no seu exterior decorrido touradas e concertos da Banda [de música da Sociedade] Filarmónica União Artística Piedense.

Com a morte de Ferreira Jorge a quinta começa a ser retalhada à medida do crescimento urbano da cidade.

Os seus últimos proprietários particulares foram a família Barral, ligados à indústria corticeira com a fábrica Corsul.

Do primitivo edifício da Quinta restam apenas alguns vestígios arqueológicos do século XVII, XVIII: tanques, suportes em cantaria, pias e pavimentos de lajedo e tijoleira, postos a descoberto durante as obras de reabilitação da casa para instalação do Museu da Cidade, e que poderão ser vistos pelos visitantes.

O edifício principal teve várias intervenções nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX que alteraram a sua estrutura original. (2)

A morte de S. Domingos, painel do retábulo da coroação da Virgem, Fra Angelico, 1434 — 35.
Imagem: ricardocosta.com

A antiga Quinta dos Frades resultou do emparcelamento, efectuado entre 1361 e 1371, de um conjunto de quintas de pequena dimensão entre o Centro Sul e o Pragal, propriedade do funcionário régio Pedro Afonso Mealha.

Em 1378, Pedro Mealha doa os seus bens à Virgem Maria com a condição de serem administrados pelos frades franciscanos da Ordem dos Pregadores de Lisboa, passando a propriedade a ser conhecida por "Quinta dos Frades".

A construção da casa conventual, e sede administrativa de toda a propriedade, inicia-se em 1380 e demorará cerca de 60 anos a ser concluída.

Em 1834, após a vitória Liberal e consequente extinção das ordens religiosas, a Quinta é vendida em hasta pública, ao Almirante George Rose Sartorius, aliado das tropas liberais.

Entre 1935 e 1940, a parte norte da propriedade é expropriada para construção do Bairro das Casas Económicas do Pombal e acessos. (3)


(1) Wikipédia
(2) Museu da Cidade — História e Arquitectura
(3) Almadadigital

Informação relacionada:
Mosteiro de São Domingos de Lisboa
Título das capelas e fazendas de Pedro Afonso Mealha e outros pertencentes à Quinta de Muela

sábado, 21 de junho de 2014

José Carlos de Melo

José Carlos de Melo nasceu a 25 de Maio de 1886, na quinta do Pombal, cultivada por seu pai, João Carlos de Melo.

José Carlos de Melo.

Tinha mais quatro irmãos, Augusto, o primogénito, duas irmãs, Amélia e Georgina, e o mais novo, de nome Arnaldo, que fora, sem favor algum, um dos melhores músicos de filarmónica nascidos em Almada.

Rapazes e raparigas com uma instrução acima da media, pois nesse tempo a percentagem de analfabetismo cifrava-se na casa dos 80%.

Gente amistosa e convincente. a quinta do Pombal foi cedida ao longo dos anos para piqueniques e convívios de associados de colectividades da terra.

Após o exame de Instrução Primária, efectuado na escola oficial de Conde de Ferreira (a única então existente), o pequeno José Carlos de Meio ficou como ajudante do velho e prestigioso Mestre Epifânio.

Escola Primária Conde de Ferreira, Almada, instituída em 1866.
Imagem: A Magia dos Livros...

Calmo, educado, dotado de extrema paciência e competência o jovem monitor realizou uma obra deveres significativa de alfabetização nesses longínquos anos da "Belle Epóque" em que raros decifravam o alfabeto.

A 27 de Julho de 1906 ingressa como amanuense na Câmara Municipal de Almada, onde se conserva por meio século, pois só se aposenta em 1956.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

De espírito conservador, uma vez burocratizado passou a entrar na secretaria da Câmara às onze horas, já almoçado, e saía muitas vezes às onze horas ou meia-noite.

Nunca teve férias ao longo deste meio século. Parece-nos ele que nunca esteve doente...

José Carlos de Melo por Leal da Câmara.

Muito jovem, tornou-se um homem associativo, trabalhando como director nas secretarias das mais variadas colectividades de cultura e recreio associações de Socorros Mútuos bombeiros voluntários e até em clubes desportivos.

Também as Juntas de Freguesia e a Misericórdia de Almada mereceram a sua colaboração ao longo de mais de quarenta anos.

Pertenceu igualmente a muitas e variadas comissões administrativas de colectividades.

Diziam os velhos almadenses, que o admiravam e o classificavam como o "homem que não tinha inimigos", que Zé Melo, o solteirão, recolhia todas as manhãs a casa quando batia à porta o padeiro...

É impressionante a lista de colectividades e instituições que este cidadão serviu por muitas dezenas de anos:

Na Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense foi várias vezes director, e de uma só vez permaneceu 25 anos no cargo de 1° secretario (secretário pela noite dentro, alumiado a candeeiro de petróleo, acrescente-se…);

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

Nos Bombeiros Voluntários de Almada, sócio fundador (26-8-1913), fazendo parte do seu corpo activo nos anos iniciais e prestando serviço na secretaria;

Almada, rua Capitão Leitão, aspecto de ataque a incêndio, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Na Associação de Socorros Mútuos 1° de Dezembro, sócio durante meio século e director por quatro dezenas de anos, alternados;

No Ginásio Clube do Sul, sócio fundador (17-5-1920) e presidente da Direcção em 1922. (Possuía fardamento da colectividade, pagou quotas até ao dia da sua morte e usou sempre na lapela o distintivo do clube);

Na Misericórdia de Almada, secretário e por vezes dirigente ao longo de quatro dezenas de anos.

Nas Juntas de Freguesia, muitas e variadas comissões o tiveram nos seus corpos parentes.

Foi ainda secretario e colaborador de vários jornais publicados no concelho, com destaque para o Jornal de Almada (1ª série) fundado e dirigido pelo seu velho amigo Manuel Parada.

Há também outras colectividades nas terras de Almada que tiverem como sócio de toda a vida José Carlos de Melo, como a Sociedade lncrível Almadense, o União Sport Clube Almadense e o Clube Recreativo José Avelino.

Almada, Edifício do Cine Teatro Incrível Almadense, Mário Novais,1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Pertenceu igualmente a comissões disto e daquilo grupos excursionistas, iniciativas de solidariedade para acudir a cidadãos em precária situação física ou económica.

José Carlos de Melo foi das figuras mais populares e respeitadas do concelho de Almada.

Homem de honradez acima de qualquer suspeita, extremamente educado, quando atravessava as ruas da velha vila não havia ninguém que não cumprimentasse o sr. Zé Melo.

Namorou durante anos uma senhora da terra que adoeceu com gravidade. Muitos anos a namorou à beira do leito, pagando-lhe as visitas médicas e, por fim, o funeral.


Mais tarde, por volta de 1922, enamorou-se de outra senhora, esta residente no cais do Ginjal, Julieta Mercedes Correia, com quem se consorciou pelo São João de 1926. Tinha então 41 anos de idade.

Este namoro do cais para o 1° andar durou cinco anos, tantos quanto a espera para vagar uma casa em Almada, coisa que por esse tempo era também de extrema dificuldade.

Para além de todas estas múltiplas actividades, José Carlos de Melo vivia apaixonado, de tenra idade, pela história de sua terra.

Tudo que se relacionava com Almada, ele anotava, recortava, coleccionava.

Almada, edifício dos Paços do Concelho, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Durante dezenas de anos. o nosso biografado e o primo Luís de Queirós foram as pessoas que melhor conheciam Almada e seu termo.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ligado desde sempre a D. Francisco de Melo e Noronha, Manuel Parada e Raul Custódio Gomes, José Melo acalentou a esperança de colaborar numa Monografia de Almada.

Há muitos textos seus publicados no Jornal de Almada, 2a série, dirigido pelo Padre Manuel Marques, que termina com a sua assinatura, tendo por debaixo a indicação: Monografia da Almada, em preparação.

A sua morte, súblta, ocorrlda a 25 de Maio de 1960, dia em que completava 75 anos da idade, frustrou-lhe, todavia, os intentos.

Todo o seu espólio foi recolhido pelo sobrinho, Romeu Correia, autor desta série de pequenas biografias.

Romeu Correia, atrás, o segundo a contar da esquerda, praia da Margueira.
Fotografia: Mário da Cruz Fernandes, 1935.
Imagem: As Margueiras

Muitos dos seus vastos conhecimentos sobre o concelho se perderam, uma vez que não ficaram anotados.

Mas muito material seu serviu a outros compiladores, e estudiosos de Almada, uma vez que nunca negou a sua ajuda e colaboração a ninguém.

Dele disse, muito agradecido, o Conde dos Arcos (in Caparica Atrevés dos Séculos, pag. 88): "José Carlos de Melo, natural de Almada, funcionário da Câmara e bastante conhecedor da história de sua terra".

Augusto Sant'Ana d'Araújo, José Alaíz, António Correia e outros publicistas e estudiosos de Almada citam-no também com frequência.

O próprio jornalista, arquivista e bibliotecário do antigo Ministério das Obras Públicas, Albino Lapa (1898 — 1969), incumbido pelo então presidente da Camara Municipal de Almada nos anos quarenta, Comandante Sá Linhares, de realizar um inventário de livros e documentos existentes no Município teve em José Carlos de Melo o melhor colaborador, dizendo dele:
"Agora muito temos a louvar o auxilio que nos prestou o funcionário dessa Câmara José Carlos de Melo, que interessado e curioso sobre todos estes assuntos muito fez e há-de fazer que decerto amanhã a Câmara constituindo uma Biblioteca para leitura pública melhor pessoa não pode ser indicada para esse fim."

Por falecimento de seu pai, José Carlos de Meio herdou uma boa parcela de terreno da quinta do Pombal.

Uma parte fora expropriada pela Câmara de então para se edificar o bairro do Pombal, e por preço irrisório.

Cova da Piedade, vista aérea (detalhe), 1938.
Terraplanagens para a construção do Bairro das Casas Económicas (metade direita superior da fotografia).
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Quanto ao talhão restante, que incluía um prédio de 1° andar e uma adega, foi abusivamente anexado, e nele construiu a Câmara o pavilhão de Assistência aos Tuberculosos, sem sequer largar um tostão ou lembrar-se de lhe dirigir um simples obrigado.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

E assim viveu — modesto, desprendido e utilíssimo — José Carlos de Melo, investigador e publicista da maior importância para o conhecimento de Almada e seu termo. (1)


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Ver artigos relacionados:
Almada em 1897
O Ginjal não é para raparigas solteiras

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Rosas do Pombal

[...] no sítio onde hoje passa a Rua Rosas do Pombal, antes Rua do Cabral, houve uma Quinta chamada do Cabral. (1)

Carta dos Arredores de Lisboa — 1 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Era a quinta do ti Zé Guimarães, a quinta do Pombal, a quinta do ti António (mais tarde, disse-me ele, descobriu que era a quinta do Teotónio), a quinta do Plantier, um francês há muito radicado em Portugal e outras que ele me descreveu mas que, peço perdão, não tendo a mesma memória, já se me varreram os nomes. (2)

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A relojoaria da rua do Oiro foi um centro obrigado de palestra.

Passaram por lá muitos escriptores e jornalistas em evidência.

Eram certos todas as tardes, às quatro, hora a que principiavam os momentos felizes de Paulo Plantier, que se via entre a sua gente.

E começavam os tiroteios e comentários sobre artes e lettras, e escândalos, e cozinha, e política, e torpezas, e flores, e sobre o eterno tema inesgotado — a Mulher.

E era de ver o Plantier avultando entre os do grupo e enchendo o passeio com o seu casaco amplo, descaído dos lados, cabello ao vento, uma rosa vermelha e fresca na botoeira, e a rir e a carregar nos rr e a escandalisar os passantes com a sua voz sonora de barytono.

Muitos passavam ao lado, tímidos, evitando o escolho daquella espécie de Carybdes.

Ellas seguiam rez vez do grupo, um sorriso á fera logo amansada e num olhar de cubiça admirativa ás montras cheias de rosas.

Porque eram um modelo de originalidade, de graça e de bom gosto as montras do Plantier.

Concha de Vieira, P. Plantier fils, c. 1850.
Imagem: Antiquorum

Da sua quintarola da Piedade, em Cacilhas [sic], vinham todas as manhãs, braçadas de rosas que elle espalhava pelos escaparates, artísticamente, pondo aqui e ali, em sabio destaque, pedras preciosas, adereços de valor, perolas em collares nabalescos, brilhantes soltos caídos ao acaso, pingos vermelhos de rubis amortecidos na folhagem.

Alfeite, Vista Geral (tomada da Quinta do pombal), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

Um dia parou toda a gente a ver uma rosa, uma maravilha de pétalas. Uma rosa só campeava sobre as joias.


A esse phenomeno consagrou António Ennes no Correio da Noite um delicioso artigo humoristico.

Não era uma rosa, era um repolho, uma brutalidade vegetal, um aborto colossal posto sobre uma haste grossa como um varapáu.



Plantier nesse dia não saiu dos humbrais da porta a espreitar a casa dos transeuntes [...]

Podia lá suportar o desaforo da indiferença por um producto seu que cercára de cuidados, de estrumes saborosos, de vigilância paternal no seu grande viveiro da sua grande quinta da Piedade ao lado das muitas centenas de roseiras de raças por elle apuradas em enxertos e reenxertos sucessivos!

Avenida em abóboda florida de roseiras.
Imagem: Archive.org

Em contacto com gente de lettras Plantier fez-se editor de livros.

[...] entre os quaes figura a que lhe mereceu maiores disvelos, que foi por elle dirigida e em que collaboraram poetas e prosadores com curiosos conselhos em prosa e verso — O Cozinheiro dos Cozinheiros. 

Ver artigo relacionado: À Bulhão Pato

Nos ultimos annos o azedume de Plantier recrudesceu e os do grupo começaram desertando da loja. A freguezia diminuiu e apenas um ou outro se detinha a ver as rosas.

Só ellas não desertaram. (2)

Com 68 annos de edade morreu hontem de cachexia [...] Paul Henry Plantier [...]


Grande amador de rosas, possuia as melhores de Portugal na sua pittoresca quinta da Piedade, na outra margem do Tejo, quinta onde elle reunia d'antes notabilidades na arte, na sciencia, na politica, e na imprensa.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Foi um original, foi um typo, que vem a fazer falta no nosso meio... em que abunda a vulgaridade. (4)


P. Plantier Fils Lisbonne, c. 1900.
Imagem: Kaplans Auktioner


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
 
(2) Constantino, Guardador de Vacas, L(u/a)gares, 19 de setembro de 2011.

(3) Jornal do Brasil, Paul Plantier, Gente do meu tempo, 21 de maio de 1917.

(4) Jornal do Brasil, Paul Plantier, 23 de junho de 1908.



Leitura adicional: Baltet, Charles, La greffe et la taille des rosiers..., Paris, Mason, 1904.