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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cella Nova, Senhora da Rosa de Caparica

Alferrara e Mendoliva constituíam, com o lugar de Barriga, ou Cela Nova (futuro mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica), um núcleo de eremitérios fundados em torno das vilas de Almada, Palmela e Setúbal, numa zona de forte presença santiaguista e com o apoio régio e dos mestres da Ordem. 

Nossa Senhora da Rosa com o Menino (detalhe), séc. XVI.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Sitos em território da diocese olisiponense, acabariam, todos eles, por ser anexados ao mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa, fundado nessa cidade em 1647 e posteriormente escolhido como nova sede da Província dos Paulistas. 

Com a extinção das casas de Alferrara e de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, já concluída em 1813, os cartórios de todos os eremitérios acima referidos acabariam assim por migrar para Lisboa e, após 1834, com o arquivo desta casa, viriam a transitar para a Torre do Tombo [...]

Nossa Senhora da Rosa com o Menino, séc. XV.
Imagem: Wikipédia

Filho de Mestre Joane [Fernando, regedor, a. 1433-1463 (Barriga — Cela Nova)], físico do Infante D. João, apresenta-se a si mesmo, em 1445, como "pobre Jrmjtam da Jrmjndade e companhia de Meem de sseaura pobre Ja finado".

Companheiro, pois, de Mendo Seabra, ingressou na pobre vida ainda antes de 1433, dado que, após a morte de João Fernandes, regedor da Serra de Ossa, ocorrida necessariamente antes desta data, é a ele quem o dito Mendo envia para reger o eremitério de Barriga, que este entretanto reedificara.

Sabemos que Mendo Seabra manteve, até à sua morte, o governo de Mendoliva e a supervisão sobre os eremitérios de Barriga ou Cela Nova e de Alferrara, colocando aí eremitas da sua confiança.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Na eminência da sua morte (1442), nomeara para o suceder, com os mesmos poderes, ao eremita João Eanes, a quem também o regedor de Cela Nova manifestou a sua obediência, atestada no diploma que para o efeito manda redigir em Setúbal a 29 de Setembro de 1445. 

Pelo mesmo documento, procurava ainda garantir o reconhecimento de todos os bens que lhe haviam sido anteriormente doados como pertencentes ao conjunto da comunidade. 

Para isso inclui no mesmo acto o traslado de uma anterior doação que lhe fora feita, ainda em 1442 mas já após a morte de Mendo Seabra, de chãos, casas e outros bens no dito lugar de Barriga, renunciando expressamente a todo o direito pessoal sobre os mesmos [....] (1)

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*     *

A vila de Almada encontrava-se, desde 1385, entre as terras doadas ao Condestável, com a respectiva jurisdição, mantendo, contudo, a Ordem de Santiago os seus direitos de padroado sobre as igrejas da urbe, na sequência do escambo estabelecido com o rei Dinis em 1297. 

Em Maio de 1422, Nuno Álvares Pereira doaria a vila e os respectivos direitos jurisdicionais à sua neta Isabel, futura mulher do Infante D. João, administrador do mestrado santiaguista.

Em 1527, uma visitação feita pelos oficiais da Ordem de Santiago revela a existência, neste local, de uma ermida, que aparentava obras recentes e com algum investimento ao nível dos materiais construtivos e decorativos, das pinturas, imagens e alfaias.

De nave única, embora com dois altares laterais, dispunha ainda de uma torre sineira, pia baptismal e alpendre. Anexa, refere-se a existência de uma sacristia e de estruturas de habitação para os pobres, rodeadas por uma vinha e pomar.

Apesar dos dados disponíveis confirmarem o apoio recebido posteriormente por parte de importantes membros da nobreza, nada se conhece sobre eventuais reconstruções ou ampliações do mosteiro, sabendo-se que este manteve sempre uma comunidade de pequenas dimensões.

Extinção: c. 1813, sendo as respectivas rendas anexadas ao Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa.

The environs and harbour of Lisbon (assinalam-se o mosteiro e a ribeira), Laurie & James, publ. 1812.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Vestígios materiais do eremitério medieval: A igreja do mosteiro já se encontrava em completo estado de ruína e abandono em finais do século XIX, sobrevivendo hoje apenas alguns vestígios arquitectónicos integrados em casas particulares. (2)

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional. (3)

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*     *

Notas:
Cela Nova (Termo de Almada)
Designação:
1. Barriga (termo de Almada) [Termo documentado pela primeira vez em 1414 (cf. TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 30 [antigo maço 1, nº 1] (1414.12.10, Almada). Pressupõe que o eremitério já existia nessa data, aproximando-se da data de 1410 proposta pela cronística moderna da Ordem para a fundação do eremitério (cf. Fr. Manuel de S. Caetano Damásio, Thebaida Portuguesa…, tomo I, p. 325).), é utilizado paralelamente com o de Cela Nova.]
2. Cela Nova (termo de Almada) [Assim referido por Mendo Seabra em 1442 (TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Consolação de Alferrara, maço 3, nº 17). Ao longo do período medieval, é utilizado paralelamente com o de Barriga para designar este eremitério.]
3. Vale de Grou (termo de Palmela [sic]) [O topónimo surge em duas cartas régias, de 1451 e 1455, na última referindo-se pertencer ao termo de Palmela (TT, Chancelaria de D. Afonso V, lv. 35, fl. 93v e lv. 15, fl. 183). Contudo, o topónimo pertence efectivamente ao concelho de Almada e à freguesia da Caparica, respeitando os documentos referidos ao eremita Fernando (III) que dirige o eremitério de Cela Nova entre a. 1433 e 1463 (cf. parte II, B 96).]
4. Santa Maria de Barriga (termo de Almada) [TT, Leitura Nova, Odiana, lv. 3, fls. 145v-146 (1457.03.03, Lisboa).]
5. Santa Maria da Rosa (termo de Almada) [Já aparece com a referência a Santa Maria da Rosa em 1511 - TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 35 [antigo maço 1, nº 33] (1511.06.11, Borba).] (4)


(1) João Luís Inglês Fontes, Da "Pobre vida" à congregação da serra de ossa..., 2012
(2) João Luís Inglês Fontes, Idem
(3) Arquivo Nacional Torre do Tombo
(4) João Luís Inglês Fontes, Idem, ibidem

Mais informação:
Chronica dos Erémitas da Serra de Ossa, no reyno de Portugal...
Santuario Mariano e Historia das Imagēs milagrosas de Nossa Senhora...
Chorographia moderna do reino de Portugal...
Corografia Portugueza e descripçam topografica...
Portugal antigo e moderno...

Informação relacionada:
Histórias da História da Charneca de Caparica
Mosteiro da Rosa na revista ARTIS

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Vale de Rosal e os dias 4 e 5 de outubro de 1910

A quinta de Val de Rosal, na Caparica, na margem esquerda do Tejo (arredores de Almada) foi, para os jesuítas, uma verdadeira relíquia. Foi, desde o século XVI, propriedade da irmandade até à sua expulsão em 1759 sob o reinado de D. José I. Foi aí que durante vários meses B. Inácio de Azevedo e os seus companheiros tinham preparado a sua partida para o Brasil, exercitando as virtudes heróicas que Deus iria recompensar pelo martírio.

Vale de Rosal antes de 4 de outubro de 1910.
Imagem: Internet Archive

O solo é arenoso é pouco fértil: os seus horizontes, onde se destaca o verde escuro dos pinhais, são monótonos; as brisas do entardecer espalham sobre os cumes melancólicos das colinas o eco distante das vagas que rebentam na praia. Poderíamos crer reencontrar a solidão dos antigos claustros impregrados ascetismo.

Vale de Rosal, após o assalto.
Imagem: Internet Archive

Hoje, no entanto, esta região, justamente chamada a Charneca, está pontilhada de pequenas casas rurais brancas e agradáveis escondidas nas dobras do terreno ou expostas nas encostas arredondadas das colinas.

Entre elas, a fazenda de Val de Rosal conservava, graças aos seus edifícios mais imponentes e sobretudo ás suas tradições veneráveis, uma superioridade que não se sonhoria contestar.

Vale de Rosal, após o incendio.
Imagem: Internet Archive

Não se encontravam nem belezas arquitetônicas, nem qualquer outra maravilha de arte. Mas tudo respirava piedade e recordava as virtudes heróicas dos nossos mártires.

Vale de Rosal, um corredor interior após o incendio.
Imagem: Internet Archive

A capela tinha sido cuidadosamente restaurada. O retábulo de madeira do altar-mor que representava a Assunção da Santa Virgem, era obra, acreditava-se, de um dos bem-aventurados companheiros abençoados Inácio de Azevedo.

Vale de Rosal, a capela após o incendio.
Imagem: Internet Archive

Admiravam a inspiração ingênua que nos transporta a esses tempos em que a arte cristã possuía ao mais alto nível, mesmo os artistas de talento inferior, a intuição das realidades sobrenaturais e vivas dos mistérios de Nosso Senhor e de sua Santa Mãe.

Vale de Rosal, o calvário.
Imagem: Internet Archive

Os azulejos que formavam a frente dos três altares foram a tinham a data de 1568. Tudo neste lugar abençoado merecia ter sido cconservado com veneração.

Vale de Rosal, o assalto ao calvário e derrube do cruzeiro, 5 de outubro de 1910.
Imagem: Internet Archive

Os professores do colégio de Campolide iam, no verão, passar em Val de Rosal quinze dias de férias. 

O povo das redondezas vivia, em grande parte, na mais crassa ignorância das verdades religiosas. Tal família, por exemplo, não fazia sequer baptizar os seus filhos, que cresciam sem nenhuma cultura.

Vale de Rosal, o calvário após o assalto.
Imagem: Internet Archive

Os lugares de Almada e Cacilhas, em particular, eram conhecidos pelo seu anticlericalismo e grosseiros insultos manifestados, à passagem, a qualquer eclesiástico [...] (1)


(1) Luís Gonzaga de Azevedo, Luís Gonzaga Cabral, pref., Proscrits, Tournai, Établissements Casterman, 1912

Versão portuguesa na Biblioteca Nacional de Portugal:
Luís Gonzaga de Azevedo, Luís Gonzaga Cabral, pref., Proscritos, Valladolid : Florencio de Lara, Editor, 1911-1914

Artigos relacionados:
Valderozal
A visita do sr. ministro
Freguesia de Caparica no século XIX

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Valderozal

Em o Collegio de S. Antam da cidade de Lisboa, hua quinta, ou pera melhor dizer, huma grande vinha, chamada Valderozal [Vale do Rosal], que está na banda dálem, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de nossa Senhora do Monte, distante do porto de Cafsilhas, quasi huma boa legoa:

Quinta do Vale do Rosal, 1911 in Ilustração Portuguesa, n° 263 II série.
Imagem: Hemeroteca Digital

fica esta quinta no meyo de huma grande, & estendida charneca; he o lugar todo á roda muy tosco, seco, & esteril, cheyo de sylvados incultos, côtinuado de matos maninhos & de areaes escalvados, escondido em valles, cercados de brenhas , cubertos de pinheiraes bravios, de zimbros, de tojos, & de outros frutices sylvestres:

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

he o sitio mais accommodado pera caças de monteria, que pera morada de gente culta, & por isso muy frequentado de corças, & veados, infestado de lobos, & de outros semelhantes animaes monteses.

Mas he por outra parte este deserto muy accommodado pera hum sancto retiro os homens, & contemplações com Deos; porque he muy solitario tem estradas, & caminhos muy livres, tem sahidas muy alegres, & entre ellas a principal he a que leva ao mar (que dista da quinta, pela parte do Poente, cousa de meya legoa) pera o qual se déce por humas quebradas entre algumas barrocas, que o tempo, & a corrente das agoas tem abertas.

O caminho do Cruzeiro, Quinta de Vale de Rosal.
Imagem: Histórias da História de Charneca de Caparica no Facebook

Do alto d'estas quebradas se sobe pera algumas assomadas, que tem vistas muy appraziveis, muy largas, & muy fermosas porque se descobre todo este grande valle, que começa quasi ao pé da montanha de Palmela, & se vay estendendo ate Nossa Senhora do Cabo, & dahi volta pera Caparica, & vem a fazer em roda cousa de doze, ou treze legoas;

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

alem dis­to se descobre daly muita parte da cidade de Lisboa, & se vem montes muy fermosos, como he o de S. Luis, & a serra da Arrábida, que ficam pera a parte do Sueste, & tambem se alcança pera o Noroeste a famosa serra de Sintra; & tem outras villas de longes muy saudosos.

Vems­e tambem huas grandes serranias de arèa, que aly chamam os Medos & vam quasi continuando até huma grande alagoa, chamada Albofeyra, de muita pescari­a, que está como trés legoas da quinta, pera a parte do Sul, caminho de Nossa Senhora do Cabo.

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Destas assomadas se descobrem muy largamente as muy estendidas campinas do Oceano Atlantico,que aly vem tributar suas immensas agoas naquella fermosa praya, que se vay estendendo por espaço de seis legoas da ponta da Trafaria, junto a Caparica, até o Cabo de Espichel, a que os antiguos chamaram "caput Barbaricum":

Linha de costa da Torre do Bugio ao Cabo Espichel (fotomontagem).
Observam-se as elevações moinhos do Chibata, Monte Córdova (Serra de S. Luís) e Serra da Arrábida, conforme descrito no Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa, Francisco Maria Pereira da Silva, 1857.
Imagem: AVM

& como toda aquella paragem he costa brava, o continuo bater que nella faz o rolo do mar, o quebrar das ondas encapelladas naquellas aréas s­olitarias, a largueza daquellas prayas, a solidão de todo aquelle si­tio, causa por huma parte grandes lembranças, & saudades da gloria aos contemplativos, por outra parte o continuo crecer, & baixar das marés, o rolo do mar, a resaca das ondas, a vista de muy fermosos orizentes, a largueza daquellas immensas agoas, dá grande occasiam pera discorrer na immensidade do creador, & dizer com o Propheta, Mirabiles elationes maris, mirabilis in altis Dominus [Maravilhosas são as ondas do mar; maravilhoso é o Senhor nas alturas, Salmo 92, 4].

Pera este sitio de Valderozal se veyo recolher o Padre Ignacio de Azevedo com aquelle seu esquadram de gente apostada ao martyrio:

Quarenta Mártires do Brasil, no Museu Diocesano de Arte Sacra da Catedral de Las Palmas.
Imagem: Wikipédia

há na quinta algumas casas, humas mais antigas, que já nella havia, quando os Padres a compraram, que foy no anno de 1559. outras que elles fizeram de novo, a saber, hum dormitorio com doze cellas, pera os Religiosos, huma capella muy bem traçada, muy airosa, & capás, por sy, & por suas tribunas (a qual ajudou a fazer Martim Gonçalves da Camara, escrivam da Puridade delRey Dom Sebastiam, por causa do muito que seu irmam o Padre Luis Gonçalves gostava deste sitio, como adiante veremos) (1)


(1) Telles, Balthazar, Chronica da Companhia de Iesu, na provincia de Portugal, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1647

Informação relacionada:
Quinta do Vale do Rosal

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Do Vale da Enxurrada à Foz do Rego

Das recentes dissertações que nos referem (2 de 2)

A área de estudo é limitada a norte pela linha de costa da frente ribeirinha, a este pela Vala da Enxurrada que desagua no Rio Tejo e que limita assim a área de intervenção na vila da Trafaria, bem como é limitada pela área de intervenção específica da faixa de proteção à Arriba Fóssil da Costa de Caparica (faixa de 70 metros para o interior a contar da crista da arriba, segundo a Resolução do Concelho de Ministros nº178/2008, 24 de Novembro), a sul é limitada igualmente por uma linha de água, a Ribeira da Foz do Rego e a oeste é limitada pela linha de costa na frente oceânica.

Trafaria, Valle da Enxurrada, ed. J. Quirino Rocha, 3, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Arriba Fóssil da Costa de Caparica foi classificada como área protegida segundo o Decreto-Lei nº 168/84, de 22 de Maio, pelo seu excecional valor paisagístico, geológico e geomorfológico.

Costa da Caparica, vista da Quinta de Santo António e da Mata Florestal, tomada do Alto do Robalo, década de 1930.
Imagem: ed. desc.

Para além de diversos estratos de camadas subhorizontais de rochas sedimentares, de conteúdo fossilífero e de origem flúvio-marinha, a área da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica é igualmente uma reserva botânica de elevado interesse, a Mata Nacional dos Medos, classificada segundo o Decreto-Lei nº 444/71, de 23 de Outubro.

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A paisagem protegida que compreende parte da arriba fóssil estende-se por 13 km na plataforma litoral, desde a Costa de Caparica à Lagoa de Albufeira e tem uma superfície aproximada de 1599 hectares. (1)



(1) Oliveira, Marta N. S. C., Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015

Temas:
Costa da Caparica
Trafaria

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Almada, entre o Rio e o Mar
Vídeo: cmalmada

Almada - Banhada por um Mar de histórias
Vídeo: cmalmada

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O pântano

DESSECAÇÃO DO PÂNTANO DO JUNCAL, FIXAÇÃO DAS DUNAS E ARBORIZAÇÃO DOS TERRENOS DA TRAFARIA E COSTA DE CAPARICA

Em virtude dos esforços do sr. Jayme da Costa Pinto esclarecido e zeloso representante às cortes pelo círculo de Almada trata-se de realizar, como já dissemos, este importante melhoramento de há muito reclamado.

De um relatório do senhor Henrique de Mendia, com grande senso scientifico e profundo conhecimento do assumpto, vamos extrahir alguns dados interessantes relativos a esses trabalhos.


Os terrenos a que nos referimos, occupam uma superficie de 1,800 hectares e constituem as dunas ou areias, moventes de Caparica, Valle de Trafaria e pantano do Juncal, o beneficio projectado é orçado em pouco mais de 58 contos ds réis. 

As dunas da costa de Caparica são constituídas par um trato de areias moveis limitadas pela Torre do Bugio, onde tem a sua menor largura, margem esquerda o Tejo, até próximo da povoaço da Trafaria, recurvando-se com a linha da costa banhada pelo oceano, estende-se para sul até ás proximidades da lagoa de Albufeira, tendo por limite para o interior das terras a base da escarpa e uns terrenos mal cultivados denominados a Charneca.

Costa da Caparica, ponte de madeira sobre a vala, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Não nos podemos eximir á satisfação do desejo de transcrever aqui as palavras eloquentes com que o sr. Henrique de Mendia descreve as condições de existencia na povoação da Costa:

"Não se descreve, diz o illustrado agrônomo, porque difficilmente se imagina o árido e desolador aspecto d'estes incultos areaes formados por uma infinidade de dunas de mediana altura em extremo moveis nos logares mais desguarnecidos da pobre é dispersa vegetação rasteira, que n'outros pontos existe com proveito e castigados por um sol ardente que se reffecte e espelha de continuo na silica brilhante.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
(sondada e rectificada a margem sul em 1879)

É esta a paisagem que o viajante descobre á entrada do nosso primeiro porto e da nossa primeira cidade, e é n'este meio que existe uma povoação de muitas almas, acossada pelas areias que procuram de continuo atacar-lhe as trincheiras rudemente defendidas, sem uma estrada regular, que a ponha em eommunicação com os logares populosos, tendo no mar o seu quasi exclusivo sustento, procurado á custa de heroicos esforços tantas vezes impotentes e nas exhalações deletérias dos pantanos do Juncal o germen constante das febres paludosas de que annualmente enfermam familias inteiras.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Bem triste povoado e desgraçados habitantes que teem por unico abrigo a choupaqa de colmo, mais pobre do que  a cubata de negro, sem que ao menos encontrem na organisação d'este as forças indispensaveis para reagir e lutar contra os miasmas exhalados pelas águas estagnadas e putridas que os prostam ás vezes tão repentinamente como se um accidente os accommettera de imprevisto."

O sr. Henrique de Mendia considera a arborisação das dunas cuja supercie se avalia em cerca de 1,400 hectares como o unico meio de melhorar as más condições d'aquelle trato de terreno.

Trafaria — Valla e estrada da Costa.
Delcampe

Como a verba mais importante n'este revestimento dé terrenos é o transporte do matto para cobrir as sementeiras, lembrou-se o illustre agronomo de substituir o transporte do matto dos Pinhaes do Conde dos Arcos e Caparica cuja verba não seria inferior a 2$400 rs. por hectare de sementeira pelo transporte fluvial da Matta da Machada e de Valle de Zebro á Trafaria, ficando assim o custo médio da carrada por 630 rs. em vez de 2$400 réis e portanto o hectare por 50$400 réis, verba á qual adicionando-se outras despesas, guarda do terreno, etc se eleva apenas a 66$000 réis.

A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Calculando o terreno a cobrir êm 900 hectares em consequencia de se deixar 500 hectares para logradouro dá povoaçao, facha de resguardo, zona invadida pelo oceano, etc. a importancia total do revestimento das dunas, sem duvida um dos mais urgentes e uteis melhoramentos do nosso porto, fica em 52:800$000. Ao sr. Henrique de Mendia cabem bem merecidos encomios pelo modo intelligente e economico como indica a realisação d'esse melhoramento.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

O valle areiado da Trafaria passa próximo de Murfacem, toca na costa do Cão e estende-se além de Pera, mede 2 kilometros de extensão sobre 300 metros de largura media, o que dá 80 hectares de superficie. As obras indicadas são, além da sementeira, uma boa e bem construida sebe de defesa na linha de incidência dos ventos reinantes o alguns abrigos internos de mais ligeira construcção entrecrusadas de espaço a espaço, orçadas importancia de réis 3:600$000.

Uma superfície de 30 a 40 hectares, que rodeia a povoação da costa e fica encravada entre as dunas da costa de Caparica e a Charneca é constituida por terrenos alagados, conhecidos pelo nome de Juncal, denomipação proveniente da abundância de juncos, que ali crescem. 

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1940 (?).
Imagem: Delcampe - Oliveira

Esse pântano alimenta-se das águas pluviaes e do oceano; que por vezes irrompe atravez das areias, depositando ali as suas águas, que ali fjcam represadas por falta de escoantes, em consequencia do nivel do terreno ser inferior ao do oceano. Esta mistura e estagnação produzem miasmas deleterios, ainda mesmo no inverno.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Para combater estas condições são indicadas as vallas profundas e bem orientadas e uma plantação bem dirigida do encalyptus globolus, arvore de grande poder esgotante e de efficasissimas propriedades hygienicas, estas arvores serão no numero de 39,990 o as vallas occuparão 2,000 metros correnles. 

Costa da Caparica, acesso à Via-Rápida,década de 1960.
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

A despeza total para a dessecação e plantação do pântano do Juncal, incluindo o ordenado do guarda no 1.° anno, está calculada em 2:586$900 réis.


(1) Artigo original de Gervásio Lobato publicado no Diário de Notícias e republicado em A Realeza, de Duarte Joaquim Vieira Júnior, edição 1 de de 2 de setembro de 1882, e no Diário de Belém, edição de 3 de outubro de 1882.

Artigos relacionados:
O Juncal
A costa no século XIX
Mata do Estado e Quinta de Santo António


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Material vegetal da Margem Sul do Tejo: da Costa de Caparica até ao Seixal

sábado, 11 de abril de 2015

Nossa Senhora do Cabo

Nossa Senhora do Cabo (do Espichel) — famoso santuário da Extremadora, ao S. do Tejo, na freguesia de Santa Maria do Castello da villa e concelho de Cezimbra, commarca d'Almada.

Sesimbra, Cabo Espichel, vista aérea.
Imagem: Delcampe

Fica o templo, no Cabo do Espichel, a que os romanos chamavam Promontório Barbarico [...]

Sobre um rochedo do Cabo, se vé uma ermidinha, denominada Miradouro, que, segundo a lenda, memora o sitio onde appareceu a Senhora, por isso, chamada do Cabo.

Outros, porem, affirmam que a Senhora foi achada na praia, inferior ao dito rochedo, e que apparecéra sobre uma jumentínha, que subira pela rocha, deixando n'ella impressos os vestígios das suas pegadas — que o tempo fez desapparecer, mas que os mordomos da Senhora fizeram de novo gravar. 

Chegando a este sitio vem com admiracao sobir a Sra pela rocha,
painel de azulejos do interior da Ermida da Memória.
Imagem: O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar e o modo de os dar-a-ver

Diz-se que uns velhos de Caparíca, que vinham a estes sitios cortar lenha, foram os primeiros que acharam a santa imagem da Virgem, e por isso, foi o povo de Caparica o primeiro que festejou a Senhora do Cabo, hindo todos os annos com o seu cirio, em Romaria á Senhora, no primeiro domingo de maio.

A fama dos milagres obrados pela Senhora do Cabo, em breve se propagou por estas redondezas e as offértas e esmolas, foram em tanta quantidade, que, próximo á ermidinha (edicola) primitiva, se construiu o sumptuoso templo que hoje alli admiram.

Não se destruiu a ermidinha, e juncto a ella foi construida (1671) uma fortaleza, para proteger os povos d'estes sítios, das invasões inopinadas dos castelhanos, sendo regente, o infante D. Pedro, depois rei, D. Pedro II, do nome.

Ignora-se o anno em que a Senhora appareceu, só se sabe que foi no principio do reinado de D. João I.

Em 18 de novembro de 1428, Diogo Mendes de Vasconcellos, senhor do terreno em que estavam as ermidas da Senhora, fez disto doação aos frades dominicos de Bemfica, por escriptura publica, lavrada nas notas de Affonso Martins, tabellião publico da villa de Cezimbra.

Era o doador, cavalleiro e commendador de Coimbra e Ourique.

N'esta escriptura se dá ao sitio da ermida, a denominação de "Santa Maria da Pedra de Múa" [...]

A imagem da Senhora do Cabo (a que appareceu no século XIV) é de bôa esculptura, mas tem apenas um palmo d'altura, e está em uma ambula de crystal dentro de um sacrário.

Imagem de N. Sr.a da Pedra Mua.

São muitos os cirios que de varias partes concorrem ao santuário da Senhora do Cabo.

Os giros principiaram em 1430. Os de Caparica, vão todos os annos festejar a Senhora, no primeiro domingo de maio.

À memória do amigo , José Alves Martins (Papo-Seco), o organizador do último "Círio" que saiu da Costa de Caparica para o Cabo Espichel [...]

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: Costa da Caparica no Facebook

O "Círio" tinha muita grandiosidade, e chegou a ter como juiz monarcas, e quando desembarcava em Porto Brandão ou Banática, as populações acorriam a receber os visitantes com
foguetes e música enquanto os sinos repicavam.

À frente, homens cavalgando, cavalos brancos, e vestidos com trajes romanos que anos depois. passou a ser três garotos que cantavam as "loas" (quadras alusivas ao acto) acompanhados pela música. 

Atrás do carro com os filarmónicos a seguir a berlinda (que se encontra no Museu dos Coches em Lisboa) com
a Imagem. acompanhada por carros de todo o feitio e tamanho, repletos de pessoas. e grande cavalgada com que fechava o cortejo.

O Círio de Nazaré em Belém do Pará, revista Puraqué, 1878.
Imagem: Biblioteca do Círio

Era assim, antigamente, o "Círio do Cabo", e a propósito dele, o britânico Beckford, descrevia o regresso do Marquês de Marialva, no "Cirio" em 3 de Junho de 1787, dizendo cheio de pasmo: "Vinham acompanhados o Marquez de Marialva e o filho D. josé duma multidão de músicos, poetas, toureiros, lacaios, macacos, anões e crianças de ambos os sexos fantasiosamente vestidas".

O inglês que nunca tinha visto um espectáculo daquela grandeza dizia ainda que os criados conduziam gaiolas com pássaros, lanternas, cabazes com frutos e grinaldas de flores.

Seguiam alegres e saltando com grande alegria dos garotos. os quais com as suas vestes, mais pareciam habitantes do Céu do que da Terra, levando casinhas presas aos ombros.

Diz ainda o escritor: "Alguns destes "anjinhos" de teatro eram extremamente formosos e tinham o cabelo garridamente disposto em anéis".

Todo este cortejo quando vinha da margem norte desembarcava em Porto Brandão ou Banática como iá dissemos anteriormente era na capela do lugar que ouviam a primeira missa.

No concelho de Almada, só a freguesia de Caparica fazia o Círio, mas sem a imagem.

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: ed. desc.

Mas o cortejo tinha o mesmo aparato dos de Lisboa, e contavam os velhos, que num círio, do Porto Brandão, num ano saiu, um barco catraio dos que faziam as carreiras entre Belém - Porto Brandão, em cima de uma galera puxada por seis animais, levando dentro a fílarmónica da Sociedade Marítima da localidade. (4)

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

in Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Alem dos cirios comprehendídos no giro vão todos os annos mais os seguintes, que não entram no giro — Lisboa, no 3.° domingo depois do Espirito Santo — Seixal e Arrentella, na 2.a oitava do Espirito Santo — Almada, no domingo da Trindade — Palmella, a 15 d'agosto — Azeitão e Cezimbra, no 1° domingo de setembro. 

Ao principio todas as romarias eram annuaes, e cada uma tinha uma grande tocha (cirio) que accendla durante a sua festa.

É por isso que a estas romarias se dá o nome de cirios.

São 26 os cirios que entram no giro: — Alcabideche, Carnaxide, Tojalinho, Penaferrim, Bellas, Loures, Carníde, Barcarena, Louza, Santo Antão do Tojal, Oeiras, Bemfica, Rana, S. João das Lampas, Monte Lavar, Rio de Mouro, Belém, Cascaes, Odivellas, S. Martinho de Cintra, Almargem do Bispo, Santo Estevam das Gallés, Egreja Nova, Terrugem, Fanhões, e Santa Maria e S. Miguel de Cintra.

Foi instituída a confraria da Senhora do Cabo, pouco depois da construcção do novo templo, mas os seus estatutos só foram approvados em 1672. (Pelo capitulo 2° d'estes estatutos eram excluídos da irmandade o homem que tenha raça de judeu ou de outra infesta nação, e os mulatos. Esta exclusão era imposta em quasi todas as irmandades, até ao fim do século XVIII.)

Também n'este compromisso se determina que, no sabbado posterior á Ascenção, haja na egreja do Cabo, officio de nove lições de canto e orgam, missa cantada e sermão. De tarde procissão e vésperas, e no domingo de manhan, outra procissão, antes da missa.

O capellão da Senhora do Cabo, não pôde intervir nas romarias dos cirios, por lhe ser prohibiáo pelos estatutos.

As freguezias do giro, andam á "compita", a ver qual fará a festa com mais estrondo e magnificência.

Antes de 1710 o arraial estava cercado de casas para abrigo dos romeiros, mas sem ordem nem alinhamento; mas n'esse anno, se deu o risco para o novo arraial, e em 1715, se constrairam hospedarias com dous pavimentos.

O arraial é quadrilongo, com 140 metros de comprido, pelo N., e 100 peio S. com 44 de largo. É aberto pelo E., e fecbado a O. pelo templo. Ao N. e S., estão as hospedarias e mais accommodações, lado com uma arcada geral, onde estão as lojas, podendo chegar-se por baixo d'ella à egreja, ao abrigo do sol e da chuva. Do lado do S. é a residência do capellão.

Do lado do N. ha 63 arcos e 11 escadas de pedra, 21 sobrados, com 46 janellas de frente, e 22 lojas, cada uma com sua janella.

Do lado do S. ha 47 arcos, 9 escadas, 18 sobrados, com 36 janellas, e 18 lojas, cada uma com sua janella.

Cada sobrado e loja, tem uma cosinha, com sua fornalha, uma grande meza, dous bancos e nm cabide.

O senhor d'este terreno (o já referido Diogo Mendes de Vasconcellos) foi o fundador da ermida primitiva, concorrendo para isso o povo de Caparica.


Templo da Senhora do Cabo

Em 1490 se lançou a primeira pedra n'este ediflcio, á custa dos habitantes do termo de Lisboa, e das esmolas e offertas dos fieis. Tendo-o os temporaes damnificado muito, a casa do infantado, padroeira da egreja, desde a extincçâo do ducado d'Aveiro mandou demolir a antiga ermida, e construir o grandioso templo que hoje alli se admira, concluindo-se as obras em 1707. Nos dias 7, 8 e 9 de julho d'este anno, se fez a trasladação com grande pompa, assistindo o infante D. Francisco filho de D. Pedro II, que então era o senhor da casa do infantado. Só nas festas da trasladação, gastou o infante réis 1:660$000.

[Os bens do duque d'Aveiro e seus cumplices, lhes foram tirados, formando-se com elles a casa do infantado, a favor do infante D. Pedro (depois, D. Pedro II) e dos mais Infantes filhos segundos dos nossos reis.]

É um templo magestoso, tendo na frontaria, trez portas e trez janellas que dão luz ao côro. Sobre a cimalha está a estatua da Senhora, feita de mármore branco, dentro de nm formoso nicho.

Tem duas torres, sendo a do N. para o relógio (hoje arruinado.) A do S. tem dous sinos. Á entrada da porta ha um guarda-vento, de bella madeira do Brasil, de boa esculptura. No coro ha am óptimo orgam. As paredes interiores da egreja, são revestidas de mármore branco e preto (extrahido das pedreiras da Arrábida) até à cimalha real.

Tem seis tribanas, e entre ellas, quadros representando scenas da vida da Senhora. O tecto é de abobada, tendo no centro o quadro da Assumpção da Senhora; obra de Lourenço da Canha (pae do famoso José Anastácio da Canha) pintado em 1740. Ao N. (também no tecto) estão pintadas as armas de Portugal, e ao S. as da cidade de Lisboa.

Tem altar-mór, e dez lateraes, sendo estes últimos, feitos á custa de differentes cirios. Em 20 de maio de 1780, houve aqui um desacato. Um monge, natural da Catalunha, roubou a pixide, com as sagradas formas, mas o próprio sacrílego confessou o crime e restituiu a pixide, que foi reposta no seu logar. Em 1770 foi todo o templo restaurado, por ordem de D. José I.


Foi então construida a grande janella da capella mór, fronteira á tribnna real.

As paredes interiores são revestidas de formosos azulejos, e n'elles pintados os emblemas Quasi palma, quasi oliva.

A imagem da Senhora está dentro do sacrário, em um relicário de prata sobre-doirada que foi dado pelo cirio de Lisboa, em 1680.

Tem a Senhora muitas jóias, entre ellas, um ramo de jasmins, de brilhantes, com as folhas de esmeraldas — duas corôas d'ouro, cravejadas de brilhantes: ambas estas jóias, dadas por D. José I. — Tem mais, um ramo de brilhantes e nm manto bordado a ouro, dados por D. Maria I — um manto branco, bordado a ouro, também dado por D. José I — um manto azul, bordado a ouro dado pela rainha D. Carlota Joaquina, mnlber de D. João VI — e, finalmente, um rico manto, dado em 1809, por José Anionio Queiroga e sua mulher. Alem d'estes, outros muitos objectos de muito valor, ainda que inferiores aos mencionados.

Tem o templo duas sachrístias com serventia para a capella-mór, e ambas muito aceiadas.

O templo não preciza de armação, porque os mármores que o revestem, valem mais do que os melhores cortinados.

O throno illumina-se com 60 luzes. Ha dez lustres, de seis luzes cada um: cada altar tem seis castiçaes; e o altar-mór, seis tocheiros — de maneira que nos dias de festa ha duzentas luzes no templo.

A ermida da Memoria, em que já fallei, está próxima e ao N. da egreja. Tem um adro quadrado e o interior da ermida, é lageado de pedra. O tecto é de abobada.

Ermida da Memória.
Imagem: ed. desc.

Em frente da porta, ao E., tem, perto do chão, uma pedra lavrada e apainelada, com esta inscripcão:

CONSTA POR TRADIÇÃO SER ESTE O PROPRIO LUGAR ONDE A MILAGROSA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO CABO APPARECIA, E SE MANIFESTOU AOS VENTUROSOS VELHOS HE CAPARICA E ALCABIDECHE: MOTIVO PORQUE SE FEZ AQUI ESTA ERMIDA, EM QUE PRIMEIUO FOI VENERADA, ATÉ QUE SE TRASLADOU A OUTRA MAIOR, E D'ESTA, Á MAGNIFICA EGREJA EM QUE HOJE EXISTE, NO ANNO DE 1707.

Sobre esta pedra, ha um painel, representando, do alto, sobre nuvens Nossa Senhora com o menino nos braços, e em baixo, os velhos, reclinados, em acção de dormir.

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

A ermidinha é interiormente ornada com dez quadros, em azulejo, representando a historia do apparecimento de Nossa Senhora do Cabo; tendo cada quadro uma inscripção explicativa.

Do adro d'esta ermida se descobre um magnifico panorama, tanto para terra, como para o mar.

No fundo do rochedo, por este lado, ha uma enseada, onde já tem chegado botes e canoas, com romeiros de Oeiras, Paço d'Arcos e outros logares; mas é muito perigosa.

Próximo à ermida, do lado do O. existem, as ruínas do antigo forte da Senhora do Cabo, principiado em 1672, na regência do infante D. Pedro, depois, D. Pedro II. — Foi construído quando se augmenuram as fortificações das barras do Tejo e do Sado.

Tinha as armas de Portugal, sobre o arco da poria, e por cima d'ella, a casa da guarda. Era defendido por cinco peças de calibre 24.

Ainda em 1800 existia este forte, em bom estado, porem, o tempo, o mar, e o abandono o toem arruinado, e apenas d'eile hoje restam as ruinas.

Fora do arraial, e alem das casas que ficam descriptas, ha outras edificações, que são dependências da casa da Senhora — são — a casa do fôrpo — a casa da lenha — a casa da opera (que fui construida pelo cirio de Lisboa); teve nma ordem de camarotes, mas hoje tem uma galeria geral. A caixa é espaçosa. Teve bom cenario e vestuário, mas hoje tudo está gasto e velho.

Na casa da fabrica do cirio saloio, fronteira á sacristia da egreja, ha grandes armários, onde se guardam vários objectos de copa e cosinha, e de serviço da mesa, para serviço do cirio que entra e do que sáe. Há também uma casa para os pregadores e mais padres que concorrem à festa; e um grande armazém onde se guarda a berlinda, e o carro triumphal.

São notáveis, a casa da agua, e o pharol. Antes de subir à casa da água, ha uma alameda, com cinco ruas, orladas d'arvores, e no fim d'ellas, duas mezas de pedra, com assentos em volta, também de pedra. É n'esta alameda que os romeiros passam grande parte do tempo, em banquetes, danças e descantes [...] (1)

Nossa Senhora do Cabo — No cabo de Espichel (Promontório Barbarico).

Sobre a apparição da imagem veja-se o livro: "Memoria da prodigiosa imagem da Senhora do Cabo; descripção dn triumfo com que os Festeiros, e mais Povo de Benfica, a conduzirão à sua Parrochia em 1810, para a festejarem em 1817," etc, por Frei Cláudio da Conceição — Lisboa, na Impressão Regia. Anno 1817.

O templo é uma fabrica magestosa, com trez portas e duas torres. Ao norte, e perto do templo, está a ermida da Memoria, em cujo sitio é tradição que Nossa Senhora appareceu.

A imagem tem o Menino nos braços. O manto foi bordado pela rainha D. Maria I. A ermida doou-a Diogo Mendes de Vasconcellos, em 1428, aos dominicanos de Bemfica que a habitaram e por fim a abandonaram em razão da aspereza do clima.

Depois passou a administração para a camara de Cezimbra, começando então o cyrio do termo de Lisboa, chamado dos saloios. Um dos duques de Aveiro pediu licença para ir casar ali; desde esse tempo ficou a ermida isenta de direitos parochiaes. (2)

A SAíDA DO CYRIO

PRIMEIRO ANJO

Mãe de Deus! Virgem Santíssima!
Rosa Mystica da aurora,
Estrella da madrugada,
Da terra e dos ceus Senhora!

Porto Brandão, capela da Nossa Senhora do Bom Sucesso, inaugurada em 1864.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Da egreja do nosso Monte,
Vamos, piedosos romeiros,
Levar-te ao Cabo, onde guias,
Alta noite, os marinheiros!

Que tu dás, Virgem Maria! —
Entre sorrisos e flores  —
Esperança aos desgraçados,
E perdão aos peccadores!

SEGUNDO ANJO

Um dia, sobre uma cruz,
Beijaste teu filho morto!
Conheces todas as dores,
Para todas tens conforto!

A mãe que vê nos seus braços
Um filhinho moribundo,
Se não se apéga ao teu manto,
Quem lhe ha de valer no mundo?!

Agora, mais do que nunca.
Necessita Portugal,
Que lhe protejas seus filhos,
Padroeira celestial !

Portugal, onde tens sempre
Teus floridos sanctuarios!
Portugal, ameaçado
Pelos herejes corsários!

CORO DOS ANJOS

Romeiros, avante, avante!
Na piedosa romaria.
Levamos por companheira
A Virsem Santa Maria!

Charneca de Caparica, Quinta da Regateira, local de passagem do círio, c. 1900.
Imagem: João Gabriel Isidoro

CHEGADA AO CABO

PRIMEIRO ANJO

Ó mar das aguas sem termo,
Do constante labutar!...
Só tu és fanal, Senhora,
De todo este vasto mar!

Só tu, com teu manto azul,
Morenita, morenita,
Sorrindo, as ondas acalmas!
Bemdita sejas, bemdita!

Nasce do lado do norte
Sempre o musgo no pinheiro!
Também dás norte, na terra,
Ao perdido forasteiro!

PARTIDA DO CABO

CORO DOS ANJOS

Adeus, Senhora do Cabo!
Fica-te agora em teu ermo,
Vigiando os navegantes,
Por essas aguas sem termo!

Adeus, adeus! Voltaremos
Outra vez em romaria,
Nós, teus filhos, teus escravos,
Ó Virgem Santa Maria ! (3)

in Bulhão Pato, Raimundo António de, Nossa Senhora do Cabo, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.


(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,
(2) Pimentel, Alberto, História do Culto da Nossa Senhora em Portugal, 1899, Guimarães, Libânio & C., Lisboa

Informação relacionada:
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Wikipédia
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