terça-feira, 10 de julho de 2018

Contos rápidos: uma passeata...

Até que finalmente tinha chegado o desejado dia dos annos da Marianna, em que segundo promettera o primo Alfredo, iriam todos passear até á Outra Banda. 

Recordação de uma "pandiguinha" na tapada do Alfeite em 28 de Setembro de 1913.
Casa Comum

Desde as quatro da manhã que em casa dos Rochas, andava tudo n'uma debadoira, pois cheirava a pandega, e demais a mais, pandega paga pelo primo, rapaz com algum vintem, que estava para casar  com a Piedade, irmã da Marianna.

O pae das raparigas, o sr. Rocha, um amanuense encravado do ministerio do Reino, a quem o magro ordenado mal chegava para sustentar aquella tropa fandanga de seis pessoas, elle, mulher e quatro filhas, exultava de contente n'aquelle dia, não só por poupar o jantar em casa; como também lhe cheirar a comer de borla e tirar o seu ventresinho de miseria. 

A D. Pulcheria senhora já quarentona e mãe de raparigada, essa tombem não cabia dentro da pelle, com o contentamento que sentia, e agourando de antemão um dia bem passado fóra de casa. 

Ás seis horas chegou o Alfredo, todo dandy, de fato claro, Panamá de palha posto á mosqueteiro, e saboreando um carmelita aromatico, que deixava nos ares um aroma deliciosissimo.

As Rochas estavam esperando impacientes, todas aprumadas e mais firmes do que o seu apelido, na casinha de fóra, por isso foi um delírio quando a campainha telintou alegremente.

— Ora graças!... disse a D. Pulcheria que foi quem abriu a porta, emquanto o Rocha pae escovava o côco e as filhas ensaiavam caretas ao espelho. 

Julguei que não chegava hoje!... O seu relogio está muito atrasado! 

— Ora essa?... Está pelo tiro, que o accertei hontem, voltou o Alfredo puchando pela cebolla e mostrando-a á futura sogra. 

— Então é o de cá, que está adiantado, voltou a Annita cofiando o penteado na testa. 

O Alfredo foi-se chegando para o pé, da Piedade e apertou-lhe a mão ternamente, emquanto o pae Rocha, já de bengala empunhada e chapéo na cabeça, dizia:

— Bem, então não ha tempo a perder. Vamos andando a ver se apanhamos o vapor das seis e meia.

Embarque na ponte dos Vapores Lisbonenses, fotografia de Joshua Benoliel (1873-1972).
Arquivo Municipal de Lisboa

Eram sete e meia quando o alegre bando desembarcou em Cacilhas.

O Alfredo sempre agarrado ao braço da Piedade, propôz para irem ao Alfeite vêr a quinta, mas primeiro seria conveniente almoçarem em qualquer parte.

Acceite o convite com todo o contentamento, dirigiram-se a uma casa de pasto onde almoçaram regaladamente bife, ovos estrellados, vinho etc.

Se nós agora fossemos de burricos até ao Joaquim dos melões? alvitrou o Rocha pae.

Cá por mim antes queria ir á Cova da Piedade, disse o Alfredo olhando sorrateiramente para a prima, que se poz vermelha como um tomate.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Nada, nada vamos nos burros dar um passeio maior, retorquiram em côro as outras irmãs.

Alugaram-se burros e começaram a montar, mas o Alfredo e a prima deixavam-se ficar para traz, cochichando em voz baixa.

— Então vocês não veem nos burros? perguntou a D. Pulcheria já quando os jumentos se punham em marcha.

Grupos de arraial, Alfredo Roque Gameiro, J. Novaes Jr., c 1900.
Internet Archive

Não mamã! respondeu a Piedade batendo as palmas. Vão andando, vão andando, que eu e o primo vamos em cavallo... 

E foram.  (1)


(1) O Zé, successor do Jornal "O Xuão", 13 de dezembro de 1910

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