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sábado, 26 de dezembro de 2015

Embrechados (4 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Embrechados no Seminário de Almada, antigo Convento de S. Paulo.
Imagem: Alexandra Lopes

Agora um drama verdadeiro. 

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticismo e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez. Inutil portanto recordal-o.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu. D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convenceram o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. 

Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. 

Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. 

E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjuges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. 

E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.

Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. 

Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". 

E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? 

Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado.

N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? 

Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. 

E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. 

A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-hia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, ondeveiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol".
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.
Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

Annos depois, diz-se, esteve ali também o Duque de Bragança, mas com o intuito de ás occultas vir entender-se com os conjurados que em 1640 o acclamaram Rei com o nome de D. João IV. (1)

(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Cartografias


Portugueses e Holandeses, séculos XVI e XVII

À excepção do mapa de Pedro Teixeira Albernaz, a configuração do litoral nas cartas terrestres é muito simplificada, quando comparada com as cartas nauticas. Isso não impediu Álvares Seco de marcar, aliás pouco criteriosamente, três cachopos arredondados a bloquear a entrada do Tejo, sem que o mesmo tivesse acontecido na barra de Setúbal. Privilegia-se, no entanto, a representação dos povoados, em número considerável e de importância expressivamente figurada nos originais, assim como dos cursos de água.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561.
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

Estranha-se, por isso, o pormenor com que Pedro Teixeira desenhou a costa portuguesa um século depois, o que levanta a suspeita de este mapa se ter baseado em levantamentos pormenorizados do litoral do País. Teria sido ele o responsável por estes levantamentos? Ter-se-ia servido de informações recolhidas por terceiros e, neste caso, quais?

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

Ele teve com certeza acesso aos anteriores trabalhos cartográñcos do seu irmao, João Teixeira, sobre a costa portuguesa (e terá participado neles?). Mas, em certas características do litoral, as configurações da regiao de Lisboa dos irmãos Teixeira não se assemelham [...]

Descripcion del reyno de Portugal (detalhe), Pedro Teixeira, 1662
Imagem: Biblioteca Nacional de España

Os mapas que forneciam aos pilotos indicacões para a entrada nos principais portos portugueses ou, de um modo geral, as cartas da costa de Portugal são inicialmente, e do que hoje se conhece através dos roteiros dos nossos cosmógrafos-mores, cópias umas das outras.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642,
reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mais grosseiras (como as de Mariz Carneiro, 1642 e edições sucessivas) ou mais artísticas (como as de Luís Serrão Pimentel, 1673), elas nem por isso são mais rigorosas e substancialmente diferentes entre si, e das publicadas por Lucas Waghenaer em finais de Quinhentos (embora os roteiros não sejam coincidentes, como pudemos comprovar comparando os textos portugueses com a tradução por nós promovida destes dois atlas holandeses, ainda não divulgada).

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

Por várias razões, suspeita-se que tivessem existido cartas portuguesas manuscritas anteriores sobre as costas do País, não estando verdadeiramente provado que a proveniência das que perduraram até aos nossos dias se deva àquele holandês [...]

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

A Carta Pormenorízada da Costa de Portugal desde o Cabo Fínísterra até ao Cabo de S. Vicente (Pascaart Van de Kust Van Portugal, Van C. de Fmisterre tot aen C. de S. Vincente), incluída num atlas de 1680 de Jean Van Keulen, nada mais nos parece ser do que uma versão das duas cartas correspondentes de Waghenaer. (1)

Nieuwe Paskaart van de Kust van Portugal Beginnende 3 a 4 Myl Benoorde C Roxent tot aen C de S Vincente, Johannes Van Keulen, 1685.
Imagem: BLR


Franceses, Espanhóis e Portugueses, séculos XVIII e XIX

Jean Nicolas Bellin (1703-1772) foi o primeiro engenheiro hidrógrafo da marinha francesa, isto é, um especialista em cartas náuticas (por oposição a "geógrafo", que se ocupava das terrestres) e director, desde 1721, do Dépost des Cartes et Plans de la Marine, criado no ano anterior. Foi nessa qualidade que preparou a segunda edição de Le Neptune François, saída em 1753. A esta seguir-se-iam várias outras edições durante todo o século XVIII.

No Neptune foi também incluída uma carta da região de Lisboa, para além de uma carta geral da costa portuguesa com a espanhola adjacente, que são reproduzidas noutros atlas do século XVIII, franceses e ingleses.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Com o título Plan du Port de Lisbonne et des Costes Voisines. Dressée au Depost des Cartes Plans et Journaux de la Marine Par ordre de M. de Machault Garde des Sceaux de France Ministre et Secretaire d’Etat aiant le Departem.t de la Marine, Par M. Bellin Ingr. de la Marine 1756, esta carta é idêntica à incluída em edições posteriores de L’Hydrographie; na primeira edição do Petit Atlas Maritime existe um mapa apenas da barra de Lisboa.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Talvez se possa dizer que as imagens de Portugal apresentadas nestes atlas são as que circulavam por toda a Europa no século XVIII.

Nos meados do século XVIII nem Espanha nem Portugal dispunham ainda de cartas hidrográficas suficientemente rigorosas que permitissem a segurança da navegação costeira. Em 1783, o Ministro da Marinha [de Espanha], D. Antonio Valdés encarrega D. Vicente Tofiño de San Miguel de colmatar essa lacuna [...]
Em 1787 ficou concluído um atlas, conhecido pelo início do título da primeira das 15 cartas, Carta Esférica de las Costas de España (...), datada de 1786 [...]

O segundo volume da primeira edição do atlas, publicado em 1789, continha 30 cartas, tendo por título Atlas Maritimo de España. As cartas da costa portuguesa são a número 8, Costas de Galicia y Portugal, e a 9, Carta Esférica desde C.o S.N Vicente hasta C.o Ortegal, estando datadas de 1788.

Atlas Maritimo de España, Vincente Tofiño de San Miguel (1732 - 1795),
Lopez, ed. 1804 - 1818, 1787.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nas primeiras décadas do século XIX o atlas de Tofiño continuava a ser imprescindível. O seu reconhecimento está patente nas numerosas cópias realizadas em Inglaterra, Alemanha, França e mesmo nos Estados Unidos, embora o rigor das cartas relativas a Portugal seja muito menor do que o das restantes, por Tofiño ter sido impedido de realizar operações em terra. É isso que explica que, em Portugal, seja Franzini o verdadeiro precursor da moderna Cartografia náutica [...]

Quaisquer que sejam as mais antigas fontes de Franzini, escritas e cartográficas, a referência a Pimentel revela um olhar atento à evolução dos conhecimentos sobre a costa portuguesa que Francisco António de Ciera e Tofiño fizeram avançar no fim do século XVIII, após mais de um século de grande estagnação. Durante todo o século XVIII as imagens difundidas do litoral português foram estrangeiras, como as J. N. Bellin, a que fizemos referência [...]

A carta geral da costa portuguesa foi publicada em duas folhas numa escala próxima de 1:600 000. A sua parte norte, com o título em inglês, Chart of the Coast of Portugal from Cape Silleiro to Huelba Bar (...), chega até Peniche, um pouco a norte de Lisboa; a folha sul, a Carta Reduzida da Costa de Portugal Desde Cabo Silleiro athé Á Barra de Huelba (...), completa o resto da costa portuguesa. Desta carta geral, e do roteiro que a acompanha, conhecem-se versões em francês, datadas respectivamente de 1816 e 1822.

Plano hydrográfico do Porto de Lisboa e costa adjacente até ao cabo da Roca,
Marino Miguel Franzini, 1806.
Imagem: GEAEM Instituto Geográfico do Exército

Além desta carta, Franzini publicou 10 mapas de portos, incluídos na Carta Geral que Comprehende os Planos das Principaes Barras da Costa de Portugal Aqual se Refere a Carta Reduzida da Mesma Costa (...), de que se vão analisar os referentes à barra de Lisboa e de Setúbal, com os títulos Plano Que comprehende huma parte do Rio Tejo e a Barra de Lisboa [...]

Carta geral que comprehende os planos das principaes barras da costa de Portugal aqual se refere a carta reduzida da mesma costa,
Marino Miguel Franzini, 1811.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No que se refere aos antigos mapas de Portugal Continental esse inventário está provavelmente incompleto e os estudos, dispersos e escassos, contemplam também quase exclusivamente os séculos XVI e XVII [...]

Perante este panorama pareceu-nos útil proceder a uma pesquisa mais ou menos sistemática da produção cartográfica, disponível em arquivos portugueses (que, na realidade, está dispersa por arquivos desorganizados), sobre o litoral de Portugal Continental, em particular da região de Lisboa, tentando comparar as cartas portuguesas com as que circulavam noutros países.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561.
Imagem: Wikimedia Commons

Entre os autores nacionais inventariados, cujos mapas representam com algum pormenor as barras do Tejo e do Sado, são de citar os de A. Mariz Carneiro (Regimento de Pilotos, 1642), João Teixeira Albernaz (Atlas Universal, 1630, e Atlas das Costas de Portugal, 1648), Luís Serrão Pimentel (Prática da Arte de Navegar, 1673), e Marino Miguel Franzini (Carta Reduzida da Costa de Portugal e Planos das Principais Barras, 1811), para além de se destacarem as cartas terrestres de Fernando Álvaro Seco (Mapa de Portugal, edições de 1561 e 1565) e de Pedro Teixeira Albernaz (Descrição do Reino de Portugal, 1662). (2)




(1) Dias, Maria Helena; Alegria, Maria Fernanda, Lisboa na Produção Cartográfica Portuguesa e Holandesa dos Séculos XVII, 1994, Edições Cosmos e Cooperativa Penélope, Lisboa
(2) Dias, Maria Helena; Alegria, Maria Fernanda, Quatro séculos de imagens do litoral português..., 2000, Revista Stvdia

Artigo relacionado:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda


Tema:
Cartografia


Informação adicional:
Waghenaer
, Lucas Janszoon, Thresoor der zeevaert...
Pimentel, Luis Serrão, A arte de navegar

Tofiño de San Miguel, Vincente, Atlas Maritimo de España