Mostrar mensagens com a etiqueta 1849. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1849. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Almeida Garrett

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco [...]

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do dolce far niente, que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçarle na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

Iconografia do Romantismo, O deambulador sobre o mar de névoa (detalhe), Caspar David Friedrich, 1818.
Imagem: Wikipedia

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me

Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1)

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro!

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados [...]

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.

Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Julie ou la Nouvelle Héloïse, o primeiro beijo.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" [...]

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora [...]

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !


Almeida Garrett, Pedro Augusto Guglielmi, 1844.
Imagem: Wikipédia

O risco é inevitável; a perdição está por um fio! (2)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Artigo relacionado:
Barca Bela


Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal
Obras de Almeida Garrett em archive.org
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

sábado, 9 de abril de 2016

Em casa de Alexandre Herculano

Alexandre Herculano, quando eu fui para a sua casa [em 1847], começava a escrever o segundo volume da História de Portugal. O primeiro fôra publicado havia pouco. O "Monge de Cister" estava no prelo : succedia ao "Eurico", á "Abobada", ao "Bobo", ás "Armas por fôro de Hespanha". O auctor cumprira trinta e sete annos n'aquella primavera.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre, Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Os rapazes do cerco do Porto, se baviam corrido por cima das ondas, voltando do exilio, se marchavam rápidos pelas assomadas das serras, fraguedos e desfiladeiros, carregando o inimigo, vamos que não caminhavam devagar pela senda das letras!

Na Ajuda, hoje animada e ruidosa com a presença da corte, reinava n'aquella época o silencio e a solidão quasi completas.

Da antiga Patriarchal, ninho tépido e macio, recheiado pela mão paterna do absolutismo com o cibo apetitoso, que regalava o paladar exquisito dos filhos segundos das casas fidalgas, convertidos em recebondos, anafados e pachorrentos cónegos, da antiga Patriarchal, digo, não existia mais do que a torre.

Lisboa, Ajuda, Largo da Torre Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O bronze, que dava as horas, tinha um som redondo, sonoro; ao mesmo tempo melancólico e profundo. Dir-se-ia que denunciava saudades do passado, mas que se resignava com o presente. Saberia elle que o bronze è a voz do tempo? É possível [...]

Como o sino da Ajuda, alem de estar n'uma torre, está n'um alto, ha de ter visto muita cousa, e ha de ter muito que dizer; mas não diz nada a mais das horas e dos quartos, que o ponteiro lhe marca. Com tamanho badalo nunca vi quem badalasse menos!... Talvez que eu, algum dia, venha a badalar por elle.

A janella do quarto de trabalho deitava para o Tejo. No meio da verdura dos quintaes e das hortas resaíam as casas, que se agglomeravam pela encosta até á beira do rio. Os montes do outro lado.

Se a margem esquerda do Tejo fosse arborisada de pínheiraes, como é a do Douro, que aprasivel efifeito não produziria no animo do viajante, que já vem maravilhado com a entrada da barra de Lisboa.

A vista dilatava-se pelo espaçoso largo, descia pela encosta. ingreme, e espraiava-se pelas aguas transparentes do rio.

O gabinete de estudo era pequeno. No inverno aconchegado, agasalhado ou "confortável", como agora se diz. Na primavera e verão abria-se a grande janetla, e arejava-o a brisa fresca do mar.

Uma janella que deita para o mar desafoga os pulmões e também a alma.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre (detalhe), Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Havia n'aquelle quarto um fogãosinho, a mesa de trabalho, e uma enorme cadeira estofada e forrada de marroquim verde, cadeira como não conheço outra, obra traçada pela cabeça de um allemão, e feita de molde para as meditações dos sábios.

Eu, por mim, achava-a deliciosa para me aninhar dentro d'ella e dormir regaladíssimos somnos.

Sobre a mesa, coberta de papeis, um grande tinteiro de latão, como os das antigas secretarias e as pennas de pato — sem contar com as minhas — que eram bem raras n'esse tempo! Pelo chão, os livros, os infolios, e as notas com signaes, que eu suppunha cabalísticos [...]

A desordem, apparente, dos livros e dos infólios, a immensidade de notas, dispersas como baralhos de cartas, que se atirassem ao acaso; todo aquelle labyrintho era a ordem, a classificação mais perfeita para o grande escriptor.

Quasi pelo tacto ia pôr a mão no documento de que necessitava, fosse embora das mais exíguas dimensões.

No inverno accendia-se o fogão. Assim que o sino dava as onze da noite, fosse qual fosse o trabalho, e por mais embebido que estivesse n'elle, o dono da casa depunha a penna, conversava uns dez minutos, encamínhava-se para o seu quarto, e logo que encostava a cabeça na almofada, adormecia de um somno reparador e profundo até ás seis horas do dia seguinte.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A boa divisão do tempo, a regularidade de vida, a assiduidade no trabalho; reunidos a poderosas faculdades intellectuaes, venciam as inauditas difficuldades, que se apresentavam a cada passo diante do escriptor, que tinha de desentranhar das minas da historia, occultas nos recessos dos archívos, o oiro, que, depois de lavrado e polido, devia de ser um monumento de gloria para nacionaes, e de admiração para estrangeiros. (1)

A casa da Ajuda era, n'esse tempo, a mansão tranquilla, onde, á sombra do mestre, estudava um grande talento, Rebello da Silva, e eu balbuciava, timido, os primeiros versos.

Sim! Tranquilla e salutar!
Oh! mia casa romita e serena!...
Que saudades tenho tuas!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Levantavamo-nos um pouco depois das seis horas da manha.

O mestre sempre o primeiro. Ia dar uma vista d'olhos ao jardim. Não lhe faltava, na estufa, uma transplantação, o decote ou o enxerto de uma roseira primorosa; o ramo de flores para a mesa, arranjado pela sua mão, no que tinha dedo. Depois sentava-se á mesa e trabalhava. Ordinariamente hora e meia, até ao almoço.

Os invejosos mordazes até inventaram que Alexandre Herculano era homem áspero e brutal no trato!

Não conheci ninguém mais sincero, mais simples, e ao mesmo tempo mais amoravel, e, sem affectação, delicado [...]

Voltemos a 1847. Alexandre Herculano escrevia a Historia de Portugal, e concluia o Monge de Cister, publicado, pela primeira vez, em volume em 1848.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Almoçávamos ás oito e meia — café especial, pão saloio e a preciosa manteiga fresca, fabricada com o leite dos uberes túrgidos das anafadas e luzidias turinas, que repastavam na arribana da horta da calçada do Galvão.

Aquella horta tem destino de pertencer a homens superiores. Ha muitos annos que a cultiva José Eduardo de Magalhães Coutinho.

Depois do almoço Herculano sentava-se á banca do trabalho; Rebello da Silva descia á bibliotheca a estudar. O estudo, que foi sempre uma predilecção para elle, n'essa epocha era uma paixão desenfreada. Muitas vezes, logo sobre o jantar, a despeito das salutares advertências do mestre — que de tarde nem abria livros, nem pegava em penna — atirava-se ao trabalho.

O jantar era ás duas e meia em ponto. A toalha alvíssima. O ramo de flores, renovado todos os dias. A cosinheira excellente. Vinho branco e tinto da Arruda, puro, e em duas facetadas e magnificas garrafas de crystal de rocha, antigas, de casa dos pães de Herculano. Uma grande profusão de sobremesas, principalmente de doce de conserva, todo dirigido e muito d'elle preparado pela própria mão do dono da casa.

Dos botões das roseiras de todo o anno fazia Herculano um doce, como nunca tornei a comer. Os figos de conserva eram uma especialidade [...]

Ao Eremitério — era este o nome, que nós dávamos á casa do mestre — deviam chegar dias sacudidos e agrestes, senão tempestuosos.

Havia lá quem tivesse anchura de peito para contrastar a tormenta!

Depois de publicado o primeiro volume da Historia de Portugal alguns rumores se levantaram contra o auctor, por causa do milagre d'Ourique [...] (2)

No clarear de uma manhã de setembro que paizagem aquella, vista do alto da montanha!

A barra, o cabo, o oceano; a Arrábida ao sul; ao norte Cintra. O sol rompendo na orla do nascente, em braza, sem vibração de luz a principio, agora jogando as primeiras frechas ás cumiadas de Palmella, ferindo as ondinhas verde-claras do Tejo. A sul, escuro o céo; no remoto occidente, ainda mal desvanecidas as estrellas; na aragem, apenas sentida, o sopro indizivel e virginal da madrugada; os gallos da aurora soltando a voz crystallina pelos casaes perdidos entre as hortas e pomares.

O Jamor, nas voltas sinuosas, denunciando-se no trepido murmúrio, atravez da névoa opalina condensada sobre o valle. Ao altear do sol, refrescando o norte limpido, dezenas e dezenas de moinhos agrupados ou disseminados pelas cristas da serra, girando as suas aspas brancas e produzindo-nos a visão de que se movia toda aquella grandiosa e deslumbrante paizagem. Agora foram-se os moinhos, que tocavam de sabor alpino e agreste o ondulado e maravilhoso quadro. As fabricas deram cabo d'elles e deram-nos peor pão e mais caro!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com os nossos perdigueiros iamos levantando as bandas de perdizes, até que se refugiavam nos zambujaes da Tapada. Foi esta mandada fazer pelo marquez de Pombal para o rei D. José ter caça ao pé da porta. Não ha nada como ser rei absoluto; essa sim, essa é que é ambição de suprema grandeza! O demais, rei constitucional e presidente da republica são grandes honras, porém honras apenas, com relação ao passado. Os olhos do déspota dominavam tudo e tudo para elles era arraia miúda. Descendentes de reis, embora, não os queriam senão para copeiros, estribeiros, aurigas, moços de monte, servos humilissimos.

El-Rei D. José ama a caça? O ministro extraordinário e feroz acurva-se na sua alta estatura intellectual, e, de joelhos, espera que lhe assigne os decretos para reedificar Lisboa arrazada e para engrandecer o reino. Depois improvisa-lhe uma coitada com que sua magestade se distraia nas horas de ócio [...] 

Palácio da Ajuda e torre do relógio, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma noite bateram onze horas no sino da torre e Alexandre Herculano depoz a penna como por acto automático. Não conheci ninguém onde os hábitos tivessem maior império; talvez a disciplina a que se votou como soldado voluntário concorresse para tal. Era no inverno, noite fria, escura, mas serena. Quando entrámos na casa de jantar para tomarmos uma colher de doce e um trago de agua, como de costume, ouvimos uns gritos de afflicção, e no tremor convulsivo da voz percebemos:
"Ás armas!"
Corremos á janella do quarto de trabalho e vimos sahir do pateo do palácio uma alma do outro mundo de dimensões sobrehumanas [...]

Palácio da Ajuda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A 3 de março de 1849 fazia eu vinte annos (um dois e um zero^ que sâo um poema!) e vim na véspera á tarde até Lisboa para no dia seguinte jantar com minha mãe. 

De manhã recebi uma lembrança de Alexandre Herculano e juntamente uma carta. Entre muitas que tenho d'elle, e que hei de publicar um dia, é para mim a mais grata. As notas individuaes não se desprezam hoje, antes concorrem para os annaes da alma humana.

O papel da carta está, como eu, muito velhinho; mas as suas lettras vivas trazem-me, como se fossem de hontem, as lembranças d'esse dia:
Meu caro

Ahi vão essas poucas flôres; são as que encontrei pelo quintal inculto. Mando-as, apesar de vulgares, porque me disse que sua mãe gostava de flores. Lembrou-me que, acostumado á manteiga frescal, acharia desagradável a salgada estrangeira. Veiu tarde a lembrança para hoje; mas ainda lhe posso acudir para o almoço de amanhã. Tenha equanimidade bastante para desculpar esta offerta de saloio.

Ha n'ella um pouco de vaidade de auctor. Eu creio que essa manteiga está boa; e hoje, meu rico, tenho n'isso mais presumpção de que no mérito de escriptor.

Quando eu tinha 25 annos cultivava flores e fazia versos; depois dos 35 annos fabrico manteiga e faço prosa. Passados os 50 provavelmente não farei nem uma coisa nem outra. Serei talvez um avaro ou um caturra.

É a trilogia da vida humana, trilogia de pernas ao ar, em que a poesia está no primeiro acto, o positivo e a prosa no segundo, o chato é o semsabor no terceiro. Peores são ás vezes (as mais das vezes) os dramas do theatro em que tudo são terceiros actos da comedia humana.

O meu amigo, que está no primeiro, cheio de vida e frescor, povôe-o bem de flores e poesia. As recordações d'essa epocha é que mandam alguns perfumes e harmonias á tarde e ao crepúsculo da existência — as duas quadras da manteiga e da caturrice;

 Palácio d'Ajuda, c. 1900.
À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Até amanhã á tarde para a nossa viagem da Ajuda.

Amigo
Herculano. (3)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894
(3) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

Alguns artigos relacionados:
D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato
O dragoeiro

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras digitalizadas de Alexandre Herculano

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Almoxarifado do Alfeite em 1850

As differentes propriedades que se acham comprehendidas no Almoxarifado do Alfeite, estão situadas na peninsula ao sul do Tejo, sendo a principal formada pelo complexo das Septe Quintas, todas unidas e communicaveis por espaçosas ruas,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

confinantes pelo norte com os sitios do Caramujo, e da Piedade, 

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo poente com a estrada real do Alentejo, azinhaga do Rato, e quintas de Sancto Amaro, da Varegeira e do Rouxinol,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo sul, com os salgados do rio do Seixal, e pelo nascente com a praia; pega com este grupo o grande areial da ponta dos Corvos, que lhe pertence:

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

dous pinhais no sitio de Corroios,

Planta do Pinhal do Cabral, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Planta do Pinhal das Courellas, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

a Albufeira situada na contracosta do cabo d 'Espichel, com o terreno adjacente, que se acha demarcado, e uma courella de vinha do dominio particular de Sua Magestade a Rainha, incorporada na mais meridional das Septe Quintas, completam o numero das propriedades circumscriptas por este circulo administrativo;

Planta da Lagoa d'Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

de cada uma dellas, como se torna indispensável, faremos especial tombação. (1)


(1) Tombo do Almoxarifado do Alfeite, 1850

sexta-feira, 25 de março de 2016

O dragoeiro

No Jardim Botânico da Ajuda havia um dragoeiro de tamanho desconforme, e cuja sombra era propicia aos idyllios.

Lisboa, Vista do Paço da Ajuda, Louis Lebreton, c.1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um dia a Bella Infanta abrigara-se de um aguaceiro n'aquelle asylo de Vénus com o moço inglez.

Princesa, Maria da Glória, futura rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

De súbito apparece o jardineiro. O inglez tirou do bolso uma pistola e ia a desfechar com elle quando a Infanta, n'um bom impulso, lhe teve mão. O jardineiro, nos meus primeiros tempos da Ajuda, seria homem dos seus sessenta annos, e contava o caso a toda a gente.

Vista de Lisboa — Tejo e Palácio da Ajuda, Isaías Newton (1838-1921), 1859.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett, passando o verão de 1849 na casa de Herculano, improvisou a lápis, debaixo da sombrio dragoeiro, os versos das "Folhas cahidas" que se intitulam: "Gôso e Dôr". (1)

Na tapada d'Ajuda, Arthur Loureiro, 1879.
Imagem: Hemeroteca Digital

Se estou contente, querida,
Com està immensa ternura
De que me enche o teu amor?
— Não. Ai! não; falta-me a vida,
Succumbe-me a alma a ventura:
excesso do góso é dor.

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Nào sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

Paisagem e rio Tejo, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que não ha ser bastante
Para este gosar sem fim 
Que me inunda o coração.
Tremo d'elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida — ou a razão... (2)

O Tejo visto do Alto da Ajuda, Casimir Leberthais (????-1852).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantos suspiros de amantes não terá ouvido o monstro vegetal! (3)

Dracaena draco do jardim do Paço Real d'Ajuda, 1879.
Imagem: Mãos Verdes


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907
(2) Almeida Garrett, Folhas cahidas, Lisboa, Em casa da viúva Bertrand e filhos, 1853
(3) Bulhão Pato, Idem

Informação relacionada:
Archivo Pittoresco, n.° 27, 1862

Archivo Pittoresco, n.° 28, 1862

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lagoa de El-Rei

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposía do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos. Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V.

Mappa das vizinhanças de Lisboa (detalhe), 1842.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. Não obstante, o auctor d'estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira e do terreno adjacente, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro V matava-os na carreira, á bala, com notável pericia.

Projecto de ampliação da casa da Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas. (1)

Lagoa de Albufeira, ex Lagoa de El-Rei.
Imagem: HDBeachcam

Sua Alteza o Duque de Bragança [príncipe D. Carlos] e vários convidados foram hontem caçar na lagoa de Albufeira.

Conductor, embarcação a vapor construida em 1880.
Parceria dos Vapores Lisbonenses de Frederico Burnay.
Imagem: ALERNAVIOS

Sua Alteza embarcou ás 5 horas da manhã a bordo do vapor "Conductor" no caes de Belém. (2)


(1) Ortigão, Ramalho, As praias de Portugal; guia do bahista e do viajante, com desenhos de Emilio Pimentel, Porto, Magalhães & Moniz, 1876
(2) Diário Illustrado, 24 de dezembro 1886