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Entrada do pátio do Prior Arquivo Municipal de Lisboa |
A título de curiosidade se transcreve parte da escritura notarial:
"...Cenifico que em 19 de Agosto de 1868 se verificou a apresentação n.° 5 no diário de três escrituras com data de 14 do presente mês celebradas a 1.a a folhas 97 a 2.a a folhas 99 e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Tabelião de Lisboa João Baptista Pereira, sendo apresentante Isidoro Sabino Ferreira, casado, actor dramático, morador na Rua das Escolas Gerais, n.° 9, freguesia de S. Vicente, Bairro de Alfama.
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Isidoro Sabino Ferreira por Joaquim Pedro de Souza, 1859. FBAUL |
E por virtude destes títulos se inscreve em seu nome e no seu com-possuidor Francisco Alves da Silva Taborda, também actor dramático, casado, morador na Rua dos Calafates n.° 76, freguesia da Encarnação, Bairro Alto, o domínio pleno sobre o prédio n.° 278 descritos a linhas 143 verso do livro terceiro."
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Actor Taborda, 1880. Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro. Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal |
Para localização do dito teatro nos dias de hoje se transcreve outra e elucidativa passagem da mencionada escritura:
"Prédio urbano (teatro) que consta de sala de espectadores com seu pátio e duas galerias, sotão e corpos contiguos de loja e primeiro andar, dependências do mesmo edifício, tendo na sala de espectáculos uma janela, outra no salão do teatro, outra no 1.° andar da casa contígua do lado do Pátio do Prior e mais duas janelas para o lado da Rua da Boca do Vento.
É situado na freguesia de São Tiago de Almada, e tem os números de policia quatro a sete para o lado do dito Pátio do Prior e números um e dois para a referida Rua da Boca de Vento.
Confronta pelo norte com o prédio de António José Alves de Bastos e com o Pátio do Prior, pelo lado sul com prédio de António Ferreirade Pinho e Rua da Boca de Vento, pelo nascente pelo dito António Ferreirade Pinho e com o dito Pátio, e pelo poente com Domingos Caetano Rodrigues.
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Calçada da Barroquinha, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Calcula-se o valor venal deste prédio com duzentos e oitenta mil réis e o seu rendimento líquido (...) em trinta mil réis.
Esta descrição foi feita à vista de três escrituras públicas, datadas de 14 do presente mês lavradas, a 1.a a folhas 97, a 2.a e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Público da Cidade de Lisboa João Baptista Pereira e da declaração suplementar assinada por Isidoro Sabino Ferreira e apresentada pelo mesmo nesta Conservatória sob o número 5 do diário em dia 19 de Agosto de 1868. As escrituras foramentregues ao apresentante e a declaração ficou retirada num maço n.° 3 do corrente ano. Fica o prédio lançado no índice supra."
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Perspetiva da rua da Judiaria em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Também a título de curíosídade se transcrevem duas passagens das Memórias do Actor Isidoro, rublicadas em 1878, em que faz referência ao celebrado Teatro de Almada:
"Caprichos da natureza!... Aínda não há dois anos, estava eu tão gordo!... Tinha uma apparencia a tal ponto clerical, que dei motivo ao seguinte caso:
Trazendo obras no theatro d'Almada, fui d'aqui (de Lisboa) n'um domingo de manhã levar a féria aos operários.
Chegado a Cacilhas,montei n'um jumento, e elle ahi marcha para Almada vergando com o meu peso!
Ao fim da calçada, apenas dobro o cotovello, d'onde se descobre a porta da egreja da Misericordia, vejo um immenso grupo de gente, que apenas me avista, se põe em movimento entrando atropeladamente para a egreja!... O sino toca apressado, dando o signal de ultima vez!...
Aproximo-me, e oiço uma estrepitosa gargalhada solta pelas pessoas que ainda estavam na rua, por não terem achado logar na egreja!...
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Perspectiva da rua Direita de Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Era eu o motor de tal gargalhada... porque vendo-me tão gordo, de chapéo de sol debaixo do braço e o chapéo da cabeça inclinado para traz, segundo o meu uso ordinario, marchando a cavallo tão pachorrentamente, como eu dizia n'um couplet da Loteria do Diabo:
E n'aquelle passo lento
Em que tanto me fiava,
Era ás costas do jumento
Que melhor eu ressonava...
Por todas estas apparencias tinham-me tomado pelo padre que se esperava para a missa, e aqui está
o motivo de todo o movimento operado á minha apparição!..." (págs. 69 e 70 da citada obra.)
Outra passagem:
"O melhor expediente que a sociedade achou foi, dar de prompto um espectaculo no theatro d'Almada, em seu benefício, composto de peças que já tinham sido dadas no seu theatro particular.
Fez a direcção os maiores sacrificios para arranjar os meios indispensáveis para preparar a partida da sociedade para o theatro d'Almada.
Realisou-se o projectado beneficio em 16 de Julho de 1848, com a comedia em tres actos, O Rachador escocez. e a comedia em um acto, A Sociedade dos 3, sendo os papeis de primeira dama desempenhados por um dos directores da sociedade o sr. José Maria da Cruz Moreira, vulgo, José Maria Alfaiate, que apesar da differença do sexo, e da falta de formosura indispensavel nas damas amorosas, no mais preenchia perfeitamente o seu lugar!...
Fazia os primeiros papeis de baixo comico, o sr. José Maria Rodrigues, conhecido nos theatros particulares d'aquella época por José Maria Carpinteiro, era tal o seu merecimento no alludido genero, que por mais de uma vez foi chamado a represenlar em theatros publicos... mas o seu acanhamento ou excessiva modestia, o deixaram ficar até hoje, amarrado ao banco...de carpinteiro!
Eu representei n'esta recita o papel de galan sério... e lá me escapei como pude...
Do resto a sociedade não houve nada de maior a notar.
Acabada a representação, foi-se a contas, e verificou-se que a receita mal tinha chegado para as luzes!...
Novos embaraços para a direcção!...
N'estas occasiões, nunca faltam amigos officiosos dando os seus pareceres sobre os acontecimentos da noite!... Os d'esta vez disseram que a falta de concorrencia, era devida ao estar o espectaculo mal annunciado... portanto que annunciassemos melhor para o dia seguinte, e teriamos uma enchente!...
A promessa era tentadora, vista as precarias circumstancias da sociedade!...
Depois de seria conferencia da sociedade, decidiu-se dar a segunda recita no dia seguinte, e para evitar a falta de que fomos accusados, mandou-se vestir com fatos apropriados, dois rapazes que tinham ido para tocar clarim na peça, e montados em jumentos correr as ruas d'Almada tocando clarim em ar de bando!...
Chegou a noite, e nem um camarote alugado!...
A direcção na esperança ainda de avisar o anuncio que o bando tinha feito de dia, mandou tocar os clarins á porta do theatro... e... nada!... Tornou a mandar tocar... e... nada!... Mandou ainda tocar, e ainda nada!
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Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Finalmente, apparece meia dusia de pessoas, que nos explicam, que a falta de espectadores que ainda n'aquella noite se notava, era devida a ter-se espalhado pela villa, quando se ouviu toques de clarim, que tinha chegado uma força a Almada, e que estava tocando a unir, para depois fazer a distribuição dos aboletados [soldados aquartelados em casas particulares] por toda a povoação!... tratou toda a gente de se fechar em casa, em vez de sair para o theatro! Imagine-se que novos embaraços, este ultimo revez acarretou sobre a pobre sociedade!...
Voltei ainda a represenlar, n'este anno de 1848, e no seguinte, sempre em beneficio d'outros, e sem mais responsabilidade, a não ser o desempenho dos meus papeis... mas sem que se desse caso algum digno de menção.
Finalmente tornei ali em 13 d'outubro de 1849, a representar A vingança, drama em cinco actos, e Os politicos do seculo XIX, comedia em um acto, originaes do sr. Adjuto Manuel da Conceição dos Reis, homem de talento, grave e sisudo, que andaria a este tempo, pelos seus quarenta e cinco annos, digno, em tudo de respeito e admiração, mas que tinha a fraquesa de querer representar os papeis de primeira dama, em todas as sociedades particulares, que organisou, sustentou e ensaiou por espaço de muitos annos!
N'esta noite, representou no drama o papel de Margarida de Santi, um papel entre tragico e o ultra-romantico... e apesar de um sem numero de circumstancias que tinha contra si, fez-se agradar n'esta noite do publico pagante d'Almada!" (págs. 142, 143, 144 e 145 da citada obra) (1)
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Isidoro Sabino Ferreira (1828-1876). HathiTrust |
Realisa-se, no dia 15 do corrente [fevereiro de 1879], no theatro de Almada, uma recita extraordinaria, em beneficio,como espectáculo seguinte: o drama em 3 actos "Scenas do Brazil", As comedias: "Um noticiarista" e o "Criado politko", a poesia: "Um artística invalido," e umas cena cómica.
Tomam parte, por obsequio o sr. Liberato da Silva e os distinctos amadores da sociedade União Dramatica. No salão do theatro toca, também por obsequio, a philarmonica União d'Artistas Cacilhense.
O espectáculo não pôde ser mais attrahente. (2)
(1) Romeu Correia, Um pátio de comédias em Almada, Movimento Cultural, ano II n.° 3, 1986
(2) Diário Illustrado, sabbado 15 de fevereiro de 1879
Leitura relacionada:
Memorias do actor Izidoro [i.e. Isidoro Sabino Ferreira] / ... Ferreira, Isidoro Sabino, 1828-1876.
Mais informação:
As Bandas de Música no distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República (1850-1910)
Este Pátio do Prior, à Boca de Vento, tem uma história de primeiro plano na memória de Almada. Chamava-se assim por as suas casas terem pertencido a D. António. Prior do Crato, que as herdara de seu pai, D.Luís, duque de Beja e irmão do rei D. João III. Este fidalgo fora donatário de Almada e, segundo a tradição, ordenara a sua construção. Após o desastre de 1580, a perda da nossa independência e o exílio de D. Amónio, as casas passaram para a posse dos Abranches, que, em vésperas da revolução de 1640, aí conspiraram e receberam o duque de Bragança, futuro D. João IV.
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ASPECTO DA ENTRADA DO PÁTIO PRIOR DO CRATO NO LUGAR DA BOCA DO VENTO - ALMADA AMRS |
No fim da primeira metade do século XIX teve aqui lugar o Teatro de Almada, muito frequentado, na época estival, pelos veraneantes que ocorriam às praias desta margem. Utilizando a sala de espeçtáculos, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, fundada em 1 de Outubrode 1848, teve neste teatro a sua primeira sede.
cf. Romeu Correia, Movimento Cultural, ano II n.° 3, Dezembro 1986
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