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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Cova da Piedade (1873-1886)

1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. (1)

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas.

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos cidadãos. (2)

Terreiro da Cova da Piedade, actual Largo 5 de Outubro.
ICMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Biblioteca Nacional de Portugal

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos.

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Biblioteca Nacional de Portugal

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos. (3)

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1874

Damos hoje á estampa a fachada do elegante hotel que ha de inaugurar-se amanhã na Cova da Piedade.

Hotel Club na Cova da Piedade, inaugurado a 31 de maio de 1874.
Hemeroteca Digital

O sitio é realmente lindissimo. Não podia o seu proprietário escolher melhor local. Defronta com o jardim publico que servirá de recreio aos visitantes. 

O hotel tem excellentes accommodações para hospedes. Conhecemos o proprietario e podemos assegurar que o tratamento será excellente.

Deve ser muito concorrido no tempo dos banhos, principalmente porque está proximo de Lisboa e offerece grandes commodidades. (4)

HOTEL CLUB
NA PIEDADE, OUTRA BANDA

DOMINGO, 31 do corrente se imaugurará o novo Hotel Club, casa de café e bilhar, estabelecido em casa apropriada e acabada de construir; reunindo ao mais esmerado aceio todas as commodidades a desejar.
Serviço de almoço, lunch e jantar por lista, e nos domingos e dias santificados jantar de meza redonda. (5)
HOTEL CLUB
NA PIEDADE, OUTRA BANDA

CONTINUA servindo todos os dias por lista.
Aos domingos e dias santificados, ha tambem jantares de meza redonda. (6)

[...] propriedade de Pompeu Dias Torres, dono do "Hotel Club" e da maior parte dos terrenos da comunidade piedense. [...] (7)

Entrada do Jardim, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

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Fez-se um jardim, que está povoado de arbustos ainda tenros. Ao meio d'elle, um coreto onde ás tardes dos domingos uma orchestra entretem os passeantes. 

Á roda do jardim edificações novas, alegres, e a poucos passos d'ali o hotel Club, que respira limpeza e aceio.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Á beira da estrada o Salão Veneziano, com os seus gelados e sorvetes e o seu champagne democrático, porque se serve aos copos, e cada copo a troco de um tostão [...] 

Os ranchos cruzam-se com vivacidade meridional; no hotel nota-se continuo fluxo o refluxo de hospedes; de toda a paisagem allumiada pelas scintillaçòes e pelos raios do nosso bello sol exhala-se um aroma de contentamento, e de bem estar; n'uma palavra, respira-se na margem de além Tejo o ar saudavel da civilisação, ar perfumado de um certo conforto, que até agora não era o distinctivo dos areiaes ardentes e das povoações tristonhas da outra banda.

Terreiro da Cova da Piedade, Rua das Salgadeiras.
ICMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes

N'um paiz, em que o gosto pelas diversões marítimas fosse um sentimento popular, profundamente gravado na imaginação e nos hábitos communs, que admiravel theatro lhes estava aberto na vasta enseada do Tejo, a qual encurvando-se largamente diante da cidade, e bordando-se em suas margens ora de vinhedos, ora de praias arenosas, ora de pinhaes, ora de logares e de villas, que na brancura do seu cáio parecem lavradas de alabastro, aproxima-se de Lisboa pelo pontal de Cacilhas, que, n'este ponto, dá á margem fronteira, entalada entre a enseada e o rio, a apparencia de um isthmo  [...]

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Fábrica de molienda António José Gomes

Com o "fora da terra" paralysou-se de todo o movimento da sociedade elegante [...]

Do Commercio do Porto
Cartas Lisbonenses, Visconde de Benalcanfor [Ricardo Augusto Pereira Guimarães] (8)

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Cacilhas está se tornando um dos passeios mais lindos para a gente de Lisboa.

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
  Casario do Ginjal



A chamada Cova da Piedade acaba de ser elegantemente ajardinada com um coreto de música no centro.

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Fundação Portimagem

No último domingo abriu-se ali um Hotel Club magnífico.

O local é encantador. Todos os domingos há música no jardim e é grande a concorrência do povo.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
ICabral Moncada Leilões

Perto da Cova da Piedade há a magnífica quinta real do Alfeite, cujas portas el-rei deu ordem para estarem abertas para os visitantes passearem. (9)

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1886

Escrevo-lhes estas linhas de uma pequena, mas bem interessante povoação, aonde vim passar o verão.

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Wikipédia

A Cova da Piedade fica ao sul do Tejo, a vinte minutos da ponte dos vapores, na estrada de Cacilhas a Cezimbra.

Da bacia da Piedade faz parte a praia do Caramujo para léste, e para oeste o lindo e fértil valle de Mourellos, todo elle um pomar, em que a bella uva trincadeira, de bagos grossos e duros como cerejas, amadurece em enormes cachos, por entre as romanzeiras, as figueiras moscatel, as macieiras e os medronheiros cobertos de fructo.

É uma terra abençoada para a producção.

N'uma estreita nesga de quinta, uma familia habilidosa e diligente vive n'um confortável commodo burguez sem outra renda além da que resulta do cuidadoso amanho da sua vinha e da sua horta [...]

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Arquivo Municipal de Lisboa

Durante a mocidade de nossos paes, a Cova da Piedade foi celebre pela casa de pasto do antigo Escoveiro, theatro de memoráveis noitadas de amor e de batota.

O pretexto da concurrencia ao Escoveiro era a sua afamada sopa de camarões e os salmonetes, que elle preparava do um modo especial, mettendo-os no forno envoltos n'um papel com manteiga, e servindo-os em sumo de limão, polvilhados de pimenta. 

Botequim de Lisboa no século XIX, Alberto de Sousa, 1924.
Museu da Cidade de Lisboa

Uma belleza! Comidos os salmonetes, armava-se a mesa do monte e muitos dos estroinas celebres da terrível Lisboa de ha trinta annos abancavam ao jogo até o outro dia pela manhã [...] 

Ainda hoje, depois de tantos annos, o prédio respectivo, á entrada da estrada de Cezimbra, sempre fechado, de frontaria apalaçada, mas ennegrecida, tem como um ar de desgraça.

Extinto o Escoveiro, veio o José [Joaquim?] dos Melões, e as merendas populares suecederam-se aos jantares e ás ceias da burguezia romântica.

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hoje, o logar é um considerável centro industrial, com uma grande officina da moagem a vapor e quatro fabricas de rolhas, no sitio do Caramujo.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Ha abastados agricultores, intelligentes e instruidos, tomando a terra a serio como Pompeu Dias Torres, que amanhece a anoitece a cavallo, e percorre quotidianamente a área de toda a sua lavoura, dirigindo em pessoa as cavas, as mondas, os varejps, as podas, as vindimas, as lagaradas, as cortimentas, todos os serviços emflm da grande lavra; 

e como Paulo Plantier, que na sua quinta do Pombal fabrica o mais especial vinho branco da região e as mais bellas rosas de todo o paiz, em rosaes de dez mil pés, cingidos de sementeiras preciosas de morangos e de melões da mais fina e delicada selecção horticola.

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Arcadja

Além d'estes elementos de actividado o de riqueza local, quasi todas as pequenas casas da população indígena da Piedade são, mais ou menos, restaurantes campestres, com a taberninha á frente, o retiro bucólico ao fundo, com a mesa de jardim debaixo do parreiral ou do aboboreiro, e o terreno para o jogo da malha ou do chinquilho, a um lado da horta. 

Porque não ha dia lindo, com céu azul, quer de verão, quer de inverno, em que uma alegre burricada ou uma cavalgada impetuosa não passe com os respectivos cavalleiros aguçados de appetite pelo ar vivo do campo, uns ávidos de coelho guizado, de fritura d'ovos e chouriço, e de salada de pimentas, outros sequiosos da frescura de um melão maduro e da espuma vermelha do vinho palhete de Santa Martha ou do S. Simão, sugado pela chupéta ao batoque do casco e decilitrado ao pé da mãi.

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

Os estudantes e os caíxeiros preferem nas excursões equestres os esgalgados o escancellados cavallos de Cacilhas, aos quaes elles se impõem o dever sagrado de tirar em duas horas de gineta as manhas de uma vida intoira de mortificação e de jejum.

Os mestres d'officios com suas mulheres, os pequenos logistas com as suas famílias, as coristas do theatro do Recreio ou da Trindade com os músicos ou com os poetas seus amigos, as costureiras e as cocottes com os seus companheiros, optam pelos burrinhos, em cujos albardôes o guarda-pó do cavalleiro, enfunado ao sopro, da brisa, e as bamboloantes botinas da dama, descobertas até o ultimo botão, são logo dopois de montar um começo auspicioso de festança. 

Burricada, Veloso Salgado.
Cabral Moncada Leilões

E na minha qualidade de paizagista eu bemdigo os que continuam a ser pela velha tradição da burricada cacilheira, porque não ha cousa que mais avivente e alegre o macadam poeirento, faiscante de sol, entre os aloés e as oliveiras alvacentas da beira das estradas, do que essas luminosas manchas movediças de guardas-sol brancos, azues e vermelhos, trespassados de sol, por baixo das quaes tremeluz em leves e fugidias pulverisações de prata, a terra solta, ferida pelo choto miudinho dos jericos. (10)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873
(2) Idem
(3) Idem, ibidem
(4) Diario Illustrado, 30 de maio de 1874
(5) Diario Illustrado, 30 e 31 de maio de 1874
(6) Diario Illustrado, 7 de junho de 1874
(7) Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 - 1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
(8) Diário Illustrado, 31 de julho de 1874
(9) Diário do Maranhão, sexta-feira, 26 de Junho de 1874
(10) Gazeta de Noticias, 7 de dezembro de 1886 

Artigos relacionados:
Os festejos de 24 de julho de 1874
Cova da Piedade elegante e encantadora em 1874
Hotel Club da Piedade

domingo, 12 de março de 2017

Festejos na Outra Banda hontem 23 de julho de 1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. 

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Imagem: Maria João Vieira Marques

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos. 

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Voltou depois a grande commissão a Almada acompanhada do povo, e dirigindo se á casa da camara ahi se levantaram novos vivas, que foram também correspondidos.

O sr. Eduardo Tavares foi novamente saudado. Em seguida marchou tudo para Cacilhas. 

O largo da Piedade está deslumbrante. Inaugurava-se ali um novo jardim com um elegante coreto, onde tocava uma nova philarmonica da localidade. 

Nas ruas de Cacilhas, Oliveira e Almada, estavam muitas casas embandeiradas, e as janellas de algumas apresentavam vistosas colchas. 

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos.

Do caes até á Fonte da Pipa, e pela rocha do Ginjal e rampa de S. Paulo estavam dispostas 150 barricas de alcatrão, que foram incendiadas ás 8 horas e meia da noite, produzindo um bonito effeito.

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas. 

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos ciadãos. (1)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Artigo relacionado:
Os festejos de 24 de julho de 1874

Mais informação:
Duque da Terceira, Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Tema:
Guerras Liberais

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

terça-feira, 2 de junho de 2015

Astúcias de namorada

Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos pendurados sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um pouco das polkas e das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo delicioso panorama do Tejo, em cujas aguas traçava a lua como que uma estrada argentea. De quando em quando enchia-se o jardim de risos, de segredinhos; a lua illuminava por entre as folhas roupas alvejantes, que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; depois pelas janellas abertas da sala saía uma bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros compassos d'uns lanceiros, os grupos dispersavam-se e engolphavam-se em turbilhão pelas portas de vidraças, e o jardim ficava de novo solitario, mas não silencioso; porque n'elle se escutava o rumorejar da brisa, o echo da musica do baile, e o murmurio do rio que gemia docemente em baixo nas fragas.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo com os fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, veio sentar-se n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade do jardim, mais proximo da orla do rochedo, e por conseguinte quasi suspenso, como um ninho de gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o que disse; não foram ambas as pessoas indispensaveis para formarem um par, não foram ambas as pessoas, que se sentaram; só o fez uma senhora de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, morena e viva, de olhos rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o ébano á luz brilhante da lua cheia.

O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil companheira lhe ter visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se podia deduzir do modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o menos espaço possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o seu braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando esta o não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia de aproveitar o favor que se lhe queria conceder.

E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de ministro, estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando ao sopro das auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores aventurosos, mil perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma flor, uma palavra, na idade feliz em que se inveja Leandro só ao pensar quantas vezes se teria accendido o pharol de Hero antes da terrivel noite, em que a morte, envolta em horrendas vagas, segundo a admiravel expressão de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em que ainda não expirára o echo dos beijos da antecedente noite.

E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma palavra qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa senhora, cujos pés desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não seria a sua, se em vez de estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante d'ella, estivesse na outra margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a nado para cair offegante e exanime junto d'esse adorado vulto. Então não seria necessario fallar; a sua pallidez, os seus olhos cheios d'amor diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, vendo-o ensopado por causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe desembaraçasse a lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a dois corações, que anciavam por se unir.

A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso meio despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva branca ainda não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com um gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, e que espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão enluvada, e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.

A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as envia aos paizes meridionaes. 

No céu d'um azul suavissimo, algumas nuvens, volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela brisa nocturna, embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, pareciam as maravilhosas rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo firmamento, em noites assim languidas e serenas. O Tejo desenrolava a sua immensa toalha liquida, prateada no centro pelo luar, e negra junto do caes, ou á sombra dos mastros dos navios immoveis nos ancoradoiros. Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á beira do rio, e pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos seus candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas. Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando ao sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, que só tem rivaes na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia fascinar quem o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do caramanchão d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos d'uma valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a voz tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez estremecer.

Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:

— Que... linda... noite!

— Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para elle sem levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão voluptuosa, que encerra um encanto irresistivel, um magnetismo fascinador... Como que parecem fluctuar na atmosphera todos os sonhos dos poetas! Sabe no que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que resvala á flor das aguas, como um cysne da noite? Pensava se seria esse o barco de Lamartine, e se levaria tambem dois amantes, que fossem murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as doces palavras que tanto nos encantam, quando o auctor do Lago as traduz na melodiosa linguagem da sua poesia.

— Ah! bem sei, respondeu o desastrado:
"Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages..."
— Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe que me acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar á lua e ao Tejo as inspirações de Lamartine.

E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do seu interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada apostrophe, e que debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.

Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, d'uma gentileza verdadeiramente notavel, d'um espirito intelligente e cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na sala, podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o conversar desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu acanhamento não tivera motivo para se revelar. 

Deslumbrada por esse esplendido conjuncto de predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do gentil moço, e a "coquette" conseguira-o em breve, mas, quando se tratára de dar o passo decisivo, manifestára-se toda a timidez do espirito virginal de Frederico. Era o seu primeiro amor, e só os tolos conseguem atravessar affoitamente essas columnas d'Hercules. Lucinda, experimentada n'essas questões, comprehendera primeiramente o embaraço do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera tambem que o devia auxiliar.

Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda mais, se me permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda fosse uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como elle tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as palpebras mesmo, abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, que afinal os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo idioma. 

Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com o receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa esplendida mulher?!

O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, assustando Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando elle para lhe fugir retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido olhar, que lhe dizia: "Ávante." O pobre rapaz, vendo assim de subito desfeitos em pó os seus planos estrategicos, preferiria um abysmo abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as palavras friamente zombeteiras de Lucinda.

At the ball, Václav Brozík (1851 - 1901), 1898.
Imagem: Wikimédia

Entretanto o baile findára, e os lisbonenses preparavam-se para atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as unicas pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás delicias do whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se embrulhar em dez mantas e de ter perdido dez "rob" consecutivos, Frederico, depois da scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a mãe de Lucinda, sabendo que era elle o unico dos cavalheiros presentes que regressava a Lisboa, reclamou sem ceremonia o auxilio do seu braço para descer a ingreme calçada.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim, Frederico viu-se obrigado a pegar no chapéu, e a seguir, supportando o peso da sua volumosa braceira, o pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe explicar durante o caminho as infernaes combinações que tinham dado em resultado a derrota memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes de jogador de whist.

As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote.

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas [...]

A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.

Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.

Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos, sulcando a agua, erguendo-se e recaindo de novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares [...] (1)




(1) Chagas, Manuel Pinheiro, Astúcias de namorada, Lisboa, Typographia Progresso, 1873