![]() |
Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842. Imagem: LMT no Facebook |
O lançamento de uma publicação semanal, propagadora de conhecimentos uteis, terá mesmo sido o objetivo que
"O louvável fim da Associação, que se propõe publicar este periódico [O Panorama], compreende-se em poucas palavras: ensinar o Povo, para que elle seja menos acelerado ou menos violento em suas opiniões e oferecer-lhe a instrução por modo que ella possa chegar ao seu intendimento [sic] e a sua bolsa; isto é, fácil e barata." (1)
![]() |
Vista de parte de Lisboa tomada do alto d'Almada, 1841. Imagem: Hemeroteca Digital |
Quantas vezes fallar-mos de Lisboa, hade ser com elogios! — Dirá alguem, que não viu esta formosa capital, que o amor nacional nos faz exagerados — mas, para testemunhas não equivocas da verdade, ahi estão esses escriptores estrangeiros, apaixonados por suas terras e orgulhosos como eram , que pondo mil defeitos no pobre Portugal, não podaram resistir á convicção, e descreveram Lisboa, por sua posição e porto, como a rainha entre as cidades da Europa, que gozam a preeminencia de cabeças de seus respectivos estados.
![]() |
Panorama de Lisboa, Edward Gennys Fanshawe, 1856. Imagem: Royal Museums Greenwich |
Link [Heinrich Friedrich], com a sua má lingua, que entretido a colher plantas, olhava pouco para os costumes da nação e por isso mentiu tão superficial e descaradamente; o inglez Murphy [James Cavanah], pessoa de rasão mais imparcial, todo embevecido em obras d'arte, por sua profissão d'architecto; Châtelet [Louis Marie Florent Du,], Kinsey [Rev. William Morgan,] e outros confessaram quanto era bella e magestosa a séde da monarchia portugueza.
![]() |
Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827. Imagem: Cabral Moncada Leilões |
Das eminencias, que a circumdam, são deleitosas e variadas as vistas que offerece ao espectador; transportai-vos porem á margem meridional do Tejo, e dos outeiros, que a guarnecem , olhai para a nossa cidade, e desfructareis novas e interessantes perspectivas.
A predilecção que os habitantes de Lisboa manifestam pelos passeios á outra-banda, talvez se fundamente no regozijo que infunde n'alma o delicioso aspecto da nobre povoação, onde por horas deixaram seus lares domesticos.
Em alto fragoso está assentada a villa de Almada; podemos dizer que a edificaram em cima d'um penedo. Como sentinella avançada olha respeitosa e vigilante para a sua capital, que na margem do norte se dilata com belleza e magestade.
![]() |
Lisbonne , vue du fort d'Almeida [sic] . Hugo, Abel, France militaire, Histoire des armées françaises de terre et de mer, de 1792 à 1837, Paris, Delloye, 1838, 5 vols. |
Ao redor d'Almada ficam precipicios, mas daquellas alturas tamhem se avista a foz do Tejo; e em frente desde o bairro de Belem até o convento de Santos-o-Velho; se estende Lisboa com a sua compacta população: dalli, apenas ladeando no ponto que occupa o espectador avista os togares d'Amora, d'Arrentella os paços d'Azeitão, a eminencia de Palmella; o Seixal, o Barreiro, terras quasi exclusivamente de pescadores; Lavradio, acreditada por seus generosos vinhos; Aldêa-gallega, sitio de frequentíssimo transito, Alcochete e outras; e tambem se divisa o castello da piscosa Cezimbra, como lhe chamou Camões.
Almada, com o seu castello no sitio mais elevado, foi (ao que dizem alguns) fundada pelos inglezes, que entraram o Tejo na armada do norte de Guilherme, o da longa espada que tanto auxiliou D. Affonso Henriques na tomada de Lisboa: contam que este nosso ínclito monarcha doára este districto aos que desistindo da cruzada á Palestina, a que se destinavam, preferiram ficar em nossas terras referem mais que estes primeiros povoadores lhe pozeram o nome de Vimadel [Monarchia Lusitana, tomo 3.°, livro 10, cap. 27], que em sua lingua significava povoação de muitos; porém que, possuindo-a de novo os mouros, foi tirada do domínio destes por um cavaleiro, do appellido de Almada descendente dos primeiros que com esta denominação de sua familia fixou o da povoação.
![]() |
Guilherme, o da longa espada (William Duke of Normandy), detalhe da tapeçaria de Bayeux, c. 1070. Imagem: Wikipedia |
Ha quem diga que um arabe, por nome Almadéz ou Almadão a fundára: porém nestas controversias d'etymologias, de ordinario ou vagas ou falsas, não queremos entrar e deixamos a escolha ao arbitrio dos leitores, em quanto não houver quem as assente de forma incontestavel.
Sabemos que D. Sancho 1.° deu foral á Villa d'Almada, e fez della doação aos cavalleiros da ordem militar de S. Tiago em 1187, e que D. Diniz a encorporou na Corôa, dando em troca á dita ordem as villas de Almodovar, e Ourique com os castellos de Marachique e Aljesur.
— As suas duas parochias, a de N. S.a d'Assumpção, vulgo Santa Maria do Castello, e de Santiago, são de remota data: a casa da Misericordia fundou-se n'um hospital instituido pela infanta D. Beatriz mai d'elrei D. Manuel.
Os seus arredores são cobertos de quintas e fazendas rendosas, onde se cultivam os generos, que fazem a abastança do nosso paiz: familias nobres e ricas ahi tinham e muitas, conservam hoje apraziveis vivendas.
![]() |
Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883. Imagem: Veritas leilões |
Dos mananciaes nas visinhanças de Almada faz menção o Dr. Francisco da Fonseca Henriques no seu Aquilegio medicinal, e diz que a agua da fonte do Alfeite, chamada a biquinha, era excellente, usada contra os achaques de dor de pedra, e areias da bexiga.
A Fonte da Pipa, que de Lisboa se está vendo, é notavel pela bondade e abundancia das aguas, de que se refazem os navios para suas viagens; e tem contigua uma pequena praia, como a fez a natureza, sem artificio algum, mas que é uma especie de portinho, capaz de conter dezoito lanchas.
![]() |
Almada, Olho de Boi, Fonte da Pipa, 2015. Imagem: Pedro Ramos |
O logar de Cacilhas assente á beira d'agua , numa quebrada entre os outeiros, pela qual se prolonga para o interior, é como um porto d'Almada, com seu caes de segura cantaria, principalmente frequentado dos barcos e pessoas, que transitam de uma para a outra margem.
![]() |
Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846 Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*] |
Se deixarmos a villa no alto, e caminharmos á esquerda depois do desembarque, iremos dar á Cova da Piedade onde ha uma ermida, em que houve noutros tempos um pequeno recolhimento; o rocio adjacente foi celebre pelas festas que se faziam em repetidas romarias, e agora ainda mais o é depois da memoravel batalha do dia 23 de Julho de 1833.
![]() |
Frontespício do Compromisso da
Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade sita na ermida de S.Simão
de Mutela termo de Almada. Ordenada no ano de 1606. Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes |
No districto d'Almada fica a Torre-velha, ou de S. Sebastião de Caparica assim apellidada dos nomes de um lugarejo proximo, e do fundador, elrei D. Sebastião: está fronteira á outra torre de S. Vicente de Belem, fechando esta garganta, que é das mais estreitas paragens do rio; como encerram a foz as outras fortalezas, de S. Jultão, e de S. Lourenço ou do Bugio. Póde jogar artilharia ao lume d'agua, mas não é defensasel do lado da terra, por isso que lhe fica sobranceira uma altura muito visinha.
![]() |
A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837. Imagem: Fortificações da foz do Tejo |
No termo da villa ha muitos lugares; alguns bastante apraziveis pelas quintas de que são cercados: por duas especiaes circumtancias mencionaremos dois delles.
— O lugar da Amora, em sitio desafrontado e ameno, tem uma freguezia do orago de N. S.a do Monte Sião; dizem os P.es Carvalho e Fr. Agostinho de St.a Maria ser a unica desta invocação que ha nos paizes catholicos da Europa. A aldeia de Payo Pires, que erradamente chamam de Pai Pires, deve o nome ao seu donatario, o esforçado D. Payo Pires [ou Peres] Correa, que libertou o Algarve do jugo mourisco, e tem honrada memoria em nossas antigas chronicas.
![]() |
Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852 Imagem: MNAC (museu do Chiado) |
Em Almada nasceu, residiu por muito tempo, e morreu o erudito Diogo de Payva d'Andrade, sobrinho, auctor do poema epico em verso latino, Chauleidos: de quem diz o P.e Antonio dos Reis, em um dos epigrammas do "Enthusiasmo poetico", que "extrahindo os sons da tuba altisonante, e cantando, infundira espanto ao rochedo d'Almada." Cantantem pavilans extimuit Almadica rupes. (2)
(1) O Panorama, Ficha Histórica, Hemeroteca Digital
(2) O Panorama, n° 204, vol. I, Lisboa, Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 27 de março de 1841.
Bibliografia estrangeira referida:
Link, Heinrich Friedrich, Voyage en Portugal, Paris, Dentu..., 1808
Murphy, James Cavanah, Travels in Portugal... 1789-1790: with plates, London, A. Strahan, 1795
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 1, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 2, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Kinsey, Rev. William Morgan, Portugal Illustrated, London, Treuttel, Würtz, and Richter..., 1828
2 comentários:
Excelente artigo, com enorme e interessante trabalho de pesquisa. Obrigada por estas lições de história.
Um prazer Falésia Caparicana, nunca é demais "Propagar Conhecimentos Úteis"...
Enviar um comentário