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sábado, 29 de outubro de 2022

Maria da Lua (retratos do passado)

Fernanda de Castro (1900-1994)

No tempo da guerra civil, das lutas entre liberais e miguelistas, o avô materno (Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício van Odyck), partidário de D. Miguel, e o irmão daquele, o tio José Dionísio (Telles de Castro Aparício van Odyck), fiel a D. Pedro IV, haviam gasto rios de dinheiro pelas respectivas causas, vendendo aqui, hipotecando além, fanáticos, apaixonados, adorando-se como irmãos, odiando-se como adversários políticos.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Alternadamente no exílio, a caminho da América ou da Inglaterra o avô António Feliciano fizera as campanhas do Rio da Prata, o tio José Dionísio estivera em Plymouth com Palmela e daí embarcara clandestinamente para os Açores — haviam sido forçados a trocar vinho e cortiça por bolsas de libras que a mãe, a avó Ana Francisca (Telles de Castro Rolim van Odick?), lhes mandava às escondidas por emissários embuçados e fiéis.

Uma vez, contava-o com orgulho, chegara mesmo a ir a bordo, disfarçada de vendedeira de ovos, levar dinheiro ao filho mais novo, passageiro clandestino de um veleiro, que, aclamado D. Miguel, ia esconder nos nevoeiros de Londres a sua amarga desilusão.

Depois, quando tudo serenara, quando, assinada a Convenção de Évora-Monte, D. Miguel embarcara para Génova, quando, por morte de D. Pedro IV, subira ao trono D. Maria II, amnistiando os presos políticos, pondo fim às lutas fratricidas, o avô António Feliciano enterrara-se na Quinta e procurava salvar os destroços do naufrágio.

O irmão, desiludido de uma liberdade que permitia desmandos e abusos de toda a espécie, declinou honras e favores a que tinha direito e refugiou-se igualmente na velha casa familiar.

Os dois irmãos, morta a paixão política, abraçaram-se e fizeram as pazes. Trataram então de desenterrar as pratas, de vender aqui para resgatar além, de percorrer a cavalo matas e olivais, de afirmar direitos sobre velhos foros, de visitar rendeiros e feitores.

A casa, desmantelada, começou a reviver, como árvore doente a que o sacrifício dalgumas ramadas restitui o vigor. Sem tornar a ser o que fora nos tempos de oiro da avó Ana Francisca, senhora de extensas matas de cortiça, a fortuna da casa parecera equilibrar-se, permitindo à família um desafogo, um bem-estar que havia muito não conhecia.

A casa cor-de-rosa, ilustração de Manuel Lapa, 1945, para o livro de Fernanda de Castro,
Maria da Lua, história de uma casa, 3.a edição, 1960, Livraria Tavares Martins
prémio Ricardo Malheiros, 1945

Voltaram então a ter carruagem, criados, mesa posta para amigos e parentes. Depois, a morte levara a avó Ana Francisca, e a fortuna, ainda mal refeita do abalo que sofrera, não resistira a desequilíbrio provocado pelas partilhas.

O tio José Dionísio, liquidada a herança, fora viver para a Beira, one a administração das propriedades da mulher exigia a sua presença. E o avô António Feliciano, que estava longe de possuir as qualidades de administrador do irmão — a prudência, a moderação, o equilíbrio — vira-se forçado a consentir o casamento da filha com o cunhado (Francisco Liberato e Silva), trinta anos mais velho, a fim de assegurar a educação dos quatro filhos varões, que destinara à carreira das armas.

Sem deixar de lamentar a mãe, casada aos dezasseis anos com um homem de quase cinquenta que nunca deixou de tratar por «tio», a tia Emiliana admirava secretamente aquele avò autoritário que, para salvar a casa, o prestígio do nome, não hesitara em sacrificar a filha.

No íntimo do seu coração, o avô era o seu modelo, o seu conselheiro invisível. «Que faria o avô, se fosse vivo?». E o avò, do fundo do seu silêncio, do alto do seu orgulho, não deixava nunca de lhe responder.

Naquela manhã, emoldurado de talha dourada, com o seu belo fardamento de lanceiros, olhou-a com uns olhos agudos e disse-lhe: — «Na nossa família nunca ninguém vendeu nada. Não comece a menina por vender o que não tem preço: a dignidade, o orgulho...» (...)

ooOoo

A sala onde se encontravam era a mais espaçosa da casa. Tinha duas janelas de peito e duas sacadas com grades verdes e cortinas de renda nas vidraças. Um piano de cauda, de camurças gastas, ocupava um dos cantos da sala. Uma alcatifa cobria o chão e abafava o ruído dos passos. Reposteiros de seda verde, puídos e desbotados, escondiam as portas.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Sobre as mesas, as consoles, as étagères, álbuns de retratos, jarras com flores de seda, miniaturas, bibelots de Saxe. A mobilia Império, hirta e rebarbativa, alternava com esses sofás, essas cadeiras, essas mesas sem estilo que o tempo nobilita, parentes pobres da casa, adoptados pelo hábito. Numa das paredes, um fogão de sala ladeado por duas poltronas de peluche verde. Na parede oposta, um espelho com a sua moldura de talha dourada.

Sobre a chaminé, um brasão bordado a oiro e a vermelho, caprichosa mistura de dragões e de flores de lis, e dois retratos a óleo: o trisavò Marechal e o avô miguelista que, no tempo do Senhor D. Pedro IV, andara a monte e tivera de emigrar para Inglaterra.

E, finalmente, junto de uma das sacadas, o «canto da avó», com a sua poltrona de molas cansadas e a sua mesa de profundas gavetas. (1)


(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (Conceição Lamosa)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Defesa de Lisboa em 1834

D. Miguel dispunha ainda pela sua parte de todos os recursos do reino, exceptuando apenas as duas cidades de Lisboa e Porto. Por todo o paiz os membros do clero secular e regular haviam pregado uma nova cruzada contra os constitucionaes [...]

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

O elevado morro de Palmella havia sido fortificado e guarnecido com doze bocas de fogo, o que igualmente tinha succedido a Almada e Cacilhas, onde se formara uma espécie de isthmo por meio de uma linha, que corria do Pragal á Margueira, guarnecida também por vinte e duas peças de artílheria. (1)

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 1833-1834 as forças liberais, logo após a tomada de Lisboa, prevenindo-se contra um ataque à capital pelos miguelistas que continuavam em operações a sul do Tejo, estabeleceram entre o Paliarte [Palliart, quinta e convento de S. Paulo] e a Margueira uma linha fortificada continua que cortava por completo o acesso a Almada e Cacilhas.
Quando se elaborou a carta topográfica militar de 1834 representando a linha fortificada já a quinta e convento de S. Paulo pertenciam a um comerciante de nome Palliart ou Paliarte, como se indica na legenda da carta. As propriedades haviam sido vendidas em consequência da extinção das ordens religiosas. A propriedade regressou à posse da igreja em 1934, voltando então a ser designada por quinta de S. Paulo, mas o nome de Paliarte, que perdurou 100 anos, ainda é uma designação conhecida.
Segundo Fernando Mendes [A dynastia de Bragança...] a linha comportou 22 peças, artilhamento que confere aproximadamente com o constante da carta topográfica militar [Planta da linha de defensa que cobre as villas d'Almada e Cacilhas] levantada [e desenhada] pelo 2.° tenente [do Real Corpo de] engenheiro[s] Manuel Maria da Rocha em 1834: 18 peças.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

A carta é pormenorizada quanto ao traçado da linha e sua construção mas quase omissa quanto ao terreno, apenas se representando toscamente as arribas da margem e pequenos troços das azinhagas que cruzavam a linha.

A localização da linha pode no entanto fazer-se com rigor a partir do desenho que serviu de base ao plano hidrográfico do porto de Lisboa, levantado em 1845-1847.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

O flanco direito da linha assentava na encosta a norte do convento de S. Paulo; de aqui contornava a igreja e o convento de S. Paulo e descia para sueste numa frente rectilínea até a proximidade do teatro da Academia Almadense; ao cruzar a estrada para a Caparica, actual rua Capitão Leitão, formava um reduto; inflectia um pouco para leste e, junto ao local ocupado pela nova igreja de Almada apresentava um meio reduto; continuava para leste com duas frentes formando um ligeiro saliente próximo da rua Lourenço Pires de Távora, no sítio onde estivera o reduto do Conde; atravessava depois a estrada Cacilhas-Piedade pelo alto da Mutela, junto à rua Jorge de Paiva, formando um relente; dirigia-se daqui para sul e rematava na arriba com uma pequena frente olhando a Mutela.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Uma muralha isolada cortando a praia desde o sopé da arriba até ao nivel do baixa mar completava a obra protegendo o flanco. 

A esquerda da linha coincide num ponto com obra já existente: o meio reduto da Quinta do Conde que pode ter aproveitado parte do Forte do Conde. 

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Esta coincidência reforça a convicção de que os fortes do Conde e da Margueira ainda existiam em 1833 e que a última resistência séria oferecida por Teles Jordão em retirada, buscava apoio nas fortificações.

Sabe-se que nesse local, entre os dois fortes, passava a estrada Piedade-Cacilhas e Teles Jordão colocara aí artilharia. o castelo de Almada e as Linhas de Defesa estavam subordinados ao mesmo comando.

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Desconhecemos se o mapa de guarnição elaborado em 1833, com o total de 148 homens abrangia não só o castelo mas as linhas de defesa que contariam também com o reforço do Batalhão Nacional Fixo d'Almada. Em qualquer caso, a importância das linhas e o quantitativo da guarnição justificavam o comando de um tenente-coronel e a presença de um cirurgião mor.

Exerceram o comando, no período de maior perigo para os liberais dois oficiais notáveis: Amaro dos Santos Barroso (1833-34) e Adriano Mauricio Guilherme Ferreri (1834-35) e o cargo de cirurgião mor, o cirurgião civil Francisco Inácio Lopes, um almadense também notável.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela observação dos planos hidrográficos conclui-se que a linha ainda existia em 1847 e, muito provavelmente, em 1878. Desapareceu antes do fim do século. (2)


(1) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal... Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885
(2) R. H. Pereira de Sousa, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

Artigo relacionado:
Defesa de Lisboa em 1810