Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847 |
Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.
Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.
Alfeite, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1891 Imagem: Museu Municipal de Coimbra, colecção Telo de Morais |
Desconhecem-se por quanto tempo estas instalações se mantiveram na posse da família após a morte de António José Sampaio, tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.
Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.
Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931 Imagem: Museu José Malhoa |
Vista geral da Mutela, Mário Novais, década de 1930 Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian |
O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.
Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958 Imagem: IGeoE |
Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (1)
Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade |
- Estaleiro e oficina do Peres
- Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
- Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
- Muralha da Luíza da água
- Cais da fábrica Ramos (cortiça)
- Cais do Martins (vinhos)
- Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
- Fábrica da farinha
- Clínica António Elvas
- Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
- Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
- Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
- Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
- Ferraria do Chouffer em brasa
- Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
- Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
- Cavalariça do André
- Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
- Esplanada do liberdade
- Estaleiro do Chico Cavaco
- Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
- Ferraria do Fialho
- Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
- Estaleiro do Joaquim Picadeiro
- Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
- Largo da Mutela
- Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
- Taberna do Adelino Baeta
- Taberna da Emília da Praia
(1) Grupo parlamentar do PCP, Deputados do, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.
Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)
Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.
O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.
O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.
O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…
Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.
Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.
João Pinto Ramalhadeiro (*)
(*) Artigos do jornal João Semana Fragateiros de Ovar
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