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Panorâmica parcial de Almada do lado nascente, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
É percetível, em alguns casos, o cuidado de Cassiano Branco em agrupar as fotografias de acordo com os temas que abordam.
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Traseiras em ruínas do palácio dos marqueses da Fronteira, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Nestes casos, elas encontram-se coladas em cartão, e referem assuntos que vão desde a estatuária à ourivesaria, passando pela arquitetura militar e religiosa.
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Porta antiga posteriormente emparedada do palácio dos marqueses de Fronteira, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
A variedade e a heterogeneidade com que estes conjuntos se apresentam impediram a distinção dos mesmos, daí que, na sua maioria, os documentos se apresentem soltos e dispersos.
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Miradouro com vista sobre o rio Tejo em Almada tendo ao fundo parte de Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Várias cidades portuguesas estão aqui representadas. Contudo, é Lisboa que se encontra melhor testemunhada, ocupando uma percentagem considerável das fotografias da coleção de Cassiano Branco.
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Perspetiva geral de um miradouro em Almada tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Encontram-se retratados aspetos do seu quotidiano, as suas ruas, jardins e vistas panorâmicas. Este documento composto comporta também negativos, alguns em vidro.
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Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Existem ainda fotografias integradas noutras séries por se relacionar diretamente com os projetos aí considerados. (1)
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Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
À semelhança do que se passa com a coleção de fotografias, também nos postais (reproduzidos tanto por método fotográfico quanto por método fotomecânico) é notória uma tentativa de ordenamento patente nas colagens que, em alguns casos, foram efetuadas em cartão.
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Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Apesar de, tal como sucedeu com as fotografias, não se terem elaborado documentos compostos temáticos, é possível descortinar alguns temas privilegiados, como por exemplo: museus, mosteiros, gravuras antigas, postais humorísticos da II.ª Guerra Mundial, naturezas mortas, e ainda várias cidades portuguesas e estrangeiras vistas nos seus múltiplos aspetos.
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Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Merecem também destaque os postais de autor, como os de Eduardo Portugal, Coleção Passaporte, Edições Costa, J. Bárcia, Casa Sucena, entre outros. (2)
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Cruzeiro [cf. Illustração Portugueza, 1911] Arquivo Municipal de Lisboa |
A documentação, produzida e acumulada no âmbito da atividade exercida pelo arquiteto Cassiano Branco, foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1990.
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Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco. [original de Eduardo Portugal] Arquivo Municipal de Lisboa |
Encontra-se atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, que a detém, em regime de usufruto e de propriedade jurídica.
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Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Cassiano Branco, filho de Cassiano José Branco e de Maria de Assunção Viriato, nasceu em Lisboa, a 13 de agosto de 1897, na rua do Telhal, junto aos Restauradores, no começo da avenida da Liberdade, para a qual desenhou alguns dos seus projetos mais emblemáticos. Iniciou o percurso de instrução em 1903, na primária e, posteriormente, em 1912, no liceu.
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Painel de azulejos com figuras religiosas do convento de S. Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Matriculou-se, pela primeira vez, em 1919, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, tendo interrompido a frequência, para ingressar no Ensino Técnico-Industrial, provavelmente, desiludido com o ensino baseado no modelo francês, desatualizado em relação ao pensamento teórico e projetual vanguardista produzido em Itália, Reino Unido, Alemanha e União Soviética.
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Fonte do seminário de São Paulo, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Regressado de Paris, onde esteve na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels, em 1925, Cassiano Branco, iniciou o seu percurso profissional como arquiteto diplomado, no ano seguinte.(3)
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Panorâmica parcial de Almada tendo por fundo o rio Tejo, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Todavia, a sua atividade projetual começou em 1921, com uma proposta para o mercado municipal da Sertã, no qual evidenciou uma estilística de raiz clássica, reflexo da sua formação académica na Escola de Belas-Artes de Lisboa.
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Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Em 1929, Cassiano Branco recebeu a encomenda para intervir em duas salas de espetáculos: o Coliseu dos Recreios e o Éden Teatro.
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Rua Dr Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
No primeiro caso, tratou-se de um projeto de alterações a efetuar nos corredores, no palco e na cúpula.
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A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Já o trabalho a desenvolver no teatro, foi bastante mais controverso e ambicioso, mormente a ampliação desse espaço, com o duplo objetivo de tornar possível a exibição do cinema sonoro e de aumentar o número de espetadores.
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Entrada do pátio do Prior Arquivo Municipal de Lisboa |
Tendo sido, possivelmente, a obra mais emblemática de Cassiano Branco e um dos marcos na arquitetura moderna portuguesa, o projeto do Éden Teatro, apenas inaugurado a 1 de abril de 1937, foi, contudo, atribuído ao engenheiro civil Alberto Alves Gama e ao arquiteto Carlos Dias, seu colaborador, que o concluiu.
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Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Apesar dos elementos mais notáveis das alterações efetuadas ao Éden Teatro poderem ser encontrados nas duas primeiras propostas de Cassiano Branco, o arquiteto, nunca reivindicou a sua autoria, pese esta ser unânime entre os estudiosos da sua obra.
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Azulejos do Patio do Prior, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Ainda numa fase inicial da sua vasta e multifacetada trajetória, Cassiano Branco, com apenas 32 anos, apresentou, em 1930, dois dos seus projetos mais ambiciosos e vanguardistas, mas que nunca passaram do papel: o plano de urbanização da Costa da Caparica e a Cidade do Cinema Português, em Cascais.
Excluído das encomendas oficiais, a parte mais substancial da obra de Cassiano Branco, proveio de clientes particulares e de construtores civis, predominantemente, através de encomendas de prédios de rendimento, a integrar em malhas urbanas consolidadas.
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Calçada da Barroquinha Arquivo Municipal de Lisboa |
A partir de 1938, foram raros os prédios em Lisboa assinados por ele, presumivelmente, por ter estado, a partir dessa data, ocupado com os projetos do Grande Hotel do Luso e do Coliseu do Porto, para lá do trabalho que iniciara no Portugal dos Pequenitos, em 1937.
O Coliseu do Porto, com o qual Cassiano Branco encerrou a sua atividade projetual, nos anos 30, afirmou-se como uma obra de síntese, de grande maturidade estilística e de plena modernidade. Porém, após a Exposição do Mundo Português, em 1940, iniciou uma nova fase, que atravessou os anos 40, visivelmente marcada pela falta de trabalho e de quase total abandono de programas arquitetónicos de feição moderna que, no decénio anterior, haviam sido expoente máximo em Portugal.
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Perspetiva da rua da Judiaria espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Nos anos 50, a carreira de Cassiano Branco foi objeto de adversidade, ao terem-lhe recusado dois projetos, respetivamente, o do hotel Infante de Sagres, em 1950 e o de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em 1957. Ambos revelaram uma tentativa, por parte do arquiteto, de integração numa estílica moderna, objetivo, que não obstante o esforço, não foi concretizado.
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Perspectiva da rua da Judiaria em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Na década de 60, Cassiano Branco elaborou alguns projetos, em que demonstrou um último ensejo de concordância com a arquitetura de influência internacional, como a segunda proposta de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, assim como os projetos para o posto fronteiriço de Galegos, em Marvão, para o Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, para o edifício para os Correios, Telefones e Telégrafos (CTT), em Portimão, e ainda, os estudos realizados para um edifício na Rebelva, na Parede, entre outros.
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Perspetiva da rua da Judiaria com prédios nos dois lados em Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Ainda assim, nenhum do edificado projetado acabou por ser construído. Para além dos exemplos anteriores, a alternância entre um ecletismo de inspiração tradicional e de inspiração moderna, ficou mais uma vez assinalada, no último projeto de Cassiano Branco, para o concurso público do Banco de Portugal, da agência de Évora. A solução apresentada foi, mais uma vez, reprovada e constituiu um derradeiro exemplo da ambiguidade que marcou a sua obra desde 1940.
A prolixa e diversificada obra de Cassiano Branco, de grande riqueza formal, desenvolvida entre meados dos anos 20 e o final da década de 1960, consagrou-o como um dos arquitetos que, mais indelevelmente, marcou a primeira geração moderna.
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Fachada principal da igreja de São Tiago, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
Embora não tenha feito parte do grupo de pioneiros do modernismo, é inegável a sua importância na história da arquitetura portuguesa, da primeira metade do século XX, tendo sido, seguramente, um dos mais conhecidos e estudados.
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Perspectiva da rua Direita observando-se ao fundo a torre dos paços do concelho da câmara municipal de Almada, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
O contexto histórico da sua vasta e notável obra, associado à sua personalidade, é indispensável, para compreender a complexidade de um percurso, muitas vezes polémico, que, iniciado no período pré-modernista da Primeira República, tendeu a ser interpretado à luz da Modernismo e do Português Suave.
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Travessa e Igreja do Bom Sucesso, espólio Cassiano Branco. Arquivo Municipal de Lisboa |
De facto, foi possível distinguir claramente na obra de Cassiano Branco duas fases distintas. A primeira, iniciada pouco depois de concluir a sua licenciatura, perdurou até finais dos anos 30 do século XX e caraterizou-se por projetos de extrema criatividade como o hotel Vitória e o Éden Teatro, que lhe conferiram reconhecimento como um dos mais importantes arquitetos modernos a nível nacional.
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Castelo de Almada em 1666, espólio Cassiano Branco. [segundo Alain Manesson Mallet] Arquivo Municipal de Lisboa |
A segunda fase, na década de 40, revelou uma cedência ao estilo normalmente apelidado de Arquitetura do Estado Novo, impedindo-o de expressar a matriz inovadora dos primeiros anos. Cassiano Branco faleceu em Lisboa, a 24 de abril de 1970.
(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Idem
(3) Idem, ibidem
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Costa da Caparica — urbanismos
Sobre o projecto de Cassiano Branco
Mais informação:
RTP Arquivos
Costa da Caparica: de Cassiano Branco à realidade
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