segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Lisboa monumental em 1906

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Os governos que teem sempre a construir, por essas terras e vilórias, edifícios pequenos para escolas, créches, etc., deveriam fazer executar de quando em quando algum d'estes projectosinhos sahidos das provas escoláres, e que o respectivo jury, reforçado por elementos das letras, todos os annos levasse á atenção das obras publicas e municípios [...].(1)

Fialho de Almeida, 1857 — 1911.
Imagem: ciberduvidas

Mas se é certa a teimosia dos commerciantes, por bronca, faz suspeitar que por trás d'ella alguma tramoia a Companhia Real fomenta e move, não menos descabida parece a ancia que tem os engenheiros da Sul e Sueste em querer construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á alfandega, sem primeiro trazerem a linha de Cacilhas ou Almada, seu prolongamento logico ou natural.

Pois verdadeiramente se antolha que a pressa grande deva ser completar quanto antes a linha ferrea entresonhada, vazar as mercadoria d'embarque em caes fonteiros a Lisboa, pôr n'esses caes navios acostáveis desembarcando artigos que se destinam ao interior das terras d'além rio — dar pretexto emfim a que a nossa capital real outra margem se desdobre, e uma nova cidade, abrangendo desde o pontal de Cacilhas á Trafaria, lentamente alastre á beira d'agua, primeiro em armazens e fabricas e officinas, logo com casarias e ruas moradias, trepando as lombas dos morros, pinchando aos cimos, quando a afluencia de gente que necessariamente o caminho de ferro trará consigo, se juntar ess'outra que a mudança do Arsenal de marinha e officinas subsidiares, e ainda a da Escola Naval, sua consequencia immediata num futuro mais ou menos proximo certo virão concentrar na margem esquerda, frente á capital.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

E tudo isto daria já para a nova cidade uma migração muito importante, que sommada com a vizinhança das villas e logares que enxameiam no aro d'entre Trafaria e Cacilhas póde determinar robustamento o inicio do faubúr novo, da outra grande Lisboa de forjas e martelos, a Lisboa fabril, erriçada de chaminés e fumos londrinos, mirando ameaçadoramente, dou outro lado da agua, a cidade-côrte, em seus volvos d'orgia, seus arquejos de gaz e de festanga — do outro lado d'agua, em cujo espelho o labyrintho dos steamers, ao mugir cavo das sereias, encheria de grandeza o porto formidavel.

Acumular portanto na outra margem a Lisboa commercial e fabril, de grande labuta e grande trafego; ir para essa margem empurrando, á formiga, muitas industrias que por Alcantara e Poço do Bispo funccionam no meio de bairros por ellas infectados; desobstruir por uma gradual e lenta transferencia, a beira-mar de Lisboa velha, dos hangares barracões e feios depositos de mercadorias que ali se ajuntam, vedando ao lisboeta de gemma a margem do seu Tejo: tudo isto significa um desiderato maravilhoso para a belleza da terra e methodisação hygienica da industria, ajudando o desenvolvimento rapido d'uma cidade que com pretensões a chave do Atlantico e paraiso de touristes, ainda não poude sahir das virtudes prohibitivas e velharias confusas de qualquer terra hespanhola ou brazileira.

Só quando a "Lisboa da outra banda" tomasse desenvolvimento uniforme de cidade, e as duas lisboas, direita e esquerda, desenroladas polas duas margens do rio, proclamassem a urgencia da sua homogenisação n'um todo idilico, é que a ideia da ponte ou pontes monumentais de 9:000 contos (que já começa a endoidar bestuntos da puericia mandante, amiga de exibicionismo) deveria ser posta a amadurar, conjunctamente coma do projecto de estação fluvial sul e sueste, cujas obras, a contrario do que oiço, não parecem por agora tão urgentes como a conclusão da via ferrea até Cacilhas ou Almada.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Varios, e em epocas differentes, desde 1880 para cá, teem sido os projectos de pontes sonhados para ligar a capital com amargem esquerda do Tejo.

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferro-viaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária. A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhasou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial.
Quanto mais présto essa via concluida, mais cedo começará, frente a Lisboa o centro de crystalização da nova cidade commercial e fabril que tanto urge.

D'ahi se o Arsenal de marinha sae, como pretendem, do seu forte edifício pombalino, deixará disponivel um cazarão enormissimo onde em qualquer canto os engenheiros do Sul e Sueste pódem talhar estação avóndo , e em ponto centrico, correndo-se por diante do edifício desde o Terreiro do Paço, cmo alguem ja propoz, uma arcada que alargue o transito da rua do Arsenal para peões, sem ser necessario recorrer a qualquer construcção moderna especial.

Fotografia aérea, destaca-se o Arsenal de Marinha, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não são das menos desagradaveis coisas da enseada maritima de Lisboa, essas montanha pardas da Outra Banda, sem arvores nem casas, e de cujas vertentes a cada passo esbarrondam terras contra o mar.

De ha muito, n'outro pais, essa margem sinistra estaria embelecida e arborizada, cortando-se nas gredas soltas, tratos de terra plana onde correr caes e fazer installações, cintando de muralhões o resto, e escalonando até ao cimo as terras altas, para as encher de zigue-zagues de estradas, entresachados de residencias de campo ou grandes fabricas.

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A cordilheira nua, com meia duzia de cazebres branquejando no amarello ruim das gredas soltas, tem uma apparencia de Africa maldita que ignobilisa o panorama, encarióca a cidade, dando dos instinctos paysagistas do luso uma ideia das mais frigidas para o conceito d'europeu civilizado que elle se dá ares de merecer. (2)


(1) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental I, Lisboa, 29 outubro 1906

(2) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

sábado, 6 de setembro de 2014

Torre e Fonte Santa

No reinado de D. João III foi donatário de uma propriedade chamada "Torre d'el Rei" o fidalgo D. João da Silva de Meneses.

Admitimos que esta torre d'el Rei seja aquela que existiu no lugar dito da Torre ou sua proximidade imediata. 

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), detalhe, Francisco de Holanda, 1571.
Na imagem a Torre d'el Rei (Torre, Torre de Caparica) sobre a arriba, acima da Torre Velha, frente à torre de Belém
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Porque nada mais há no Concelho ou no seu antigo termo, com o nome de torre (no singular) remontando ao Século XVI, admitiremos que esta Torre d'el Rei é aquela que os topónimos Torre e Torrinha e a gravura do Século XVI indicam.

O sítio da Torre é aquele ocupado pelo Largo da Torre, no cruzamento da estrada Monte da Caparica — Trafaria com a estrada Fonte Santa — Casas Velhas e onde termina a antiga azinhaga Torre — Fonte Santa, hoje Rua Carvalho Araújo.

Torre de Caparica, casa onde residiu Bulhão Pato, construção de finais do século XIX.
Imagem: ed. desc.

0 nome do sitio provém da existencia de uma torre medieval que nos aparece em gravuras dos Séculos XVI e XVII.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

A sua funçao era provavelmente a de atalaia. A torre abateu em consequência do terramoto de 1755.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Segundo o Conde dos Arcos a Quinta da Torre, aquela que se situava a sul do Largo, era totalmente limitada por caminhos públicos que a separavam das vizinhas Quintas, da Torrinha, Outeiro, Possolos e Formiga.

Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

[Torrinha] Quinta entre o lugar da Torre e Costas do Cão. Um dos seus proprietários, João António Gonçalves (1835-1906), foi vice-presidente da Câmara Municipal de Almada.Informação relacionada: ISSUU - Al-Madan Online 14 by Al-Madan

A Quinta do Outeiro, fica na encosta de Pera sobre o Vale de Marinhos, a poente do cemitério da freguesia de Caparica.


[Possolos] Quinta entre o Rafael e a Caneira, às Casas Velhas.
A Quinta de Possolos pertenceu a D. Álvaro Abranches da Câmara e aos descendentes, Condes de Valadares.
No século XIX era propriedade de Rafael Alves da Cunha que foi em Almada presidente da vereação.

A Quinta da Formiga situa-se entre o Monte de Caparica e as Casas Velhas, do lado norte da actual rua Alfredo da Cunha.
Tem entrada por um portão do século XVIII e uma casa ampla a que se ligavam adega e lagares antigos e curiosos.
Em 1833 a quinta pertencia a Miguel Martinho Manuel Ricaldes da Silva Azevedo que era Tenente da 1.a Companhia do Batalhão Nacional da Vila de Almada e seu termo.
Era pois um liberal, embora fosse afilhado de D. Miguel [...]

Do lado Norte do Largo da Torre o novo proprietário da Quinta que está entre a Rua Carvalho Araújo e a Rua dos Trabalhadores Rurais colocou na fachada uma inscrição chamando-lhe "Quinta da Torre”, nome que nunca teve.

O Conde dos Arcos, D. José de Alarcão, proprietário então da verdadeira e única Quinta da Torre, mandou apor nesta uns azulejos com a inscrição "Quinta da Torre, 1570".

D. José Manuel de Noronha e Brito de Meneses de Alarcão, 12° Conde dos Arcos.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

[Fonte Santa] Pequeno aglomerado urbano a meio caminho entre o Largo da Torre e o Porto Brandão, cujo centro é o Largo Carlos da Maia na confluência da azinhaga que vem da Cruz da Granja.

O nome aparece com frequencia no plural "Fontes Santas", entre os Séculos XV e XVIII. o que denuncia a existência de mais que uma fonte e não apenas aquela que abastecia o fontenário público que parece ser construção do século XVIII e foi reconstruído pela Câmara Municipal em 1874.

Na encosta que margina a azinhaga para a Cruz da Granja captou-se água em fins do Século XIX para abastecer o lazareto obra do famoso engenheiro almadense Liberato Teles.

Todo o vale desde a Quinta da Torre ao Porto Brandão era abundante de água.

Junto ao Largo da Torre existe um antigo poço e frente à ermida de S. Tomás de Aquino descobriram-se duas cisternas quando se libertou a ermida, que se encontrava soterrada até ao nivel da verga da porta.

A ermida e obra atribuida ao Século XVI e tem portal e alguns elementos que se podem considerar manuelinos mas o facto de ser constituida por dois pequenos corpos semelhantes a morábitos e as cisternas parecerem ser construção árabe faz-nos suspeitar que sejam mais antigos os seus fundamentos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, 2003.
Imagem: Almada, Toponímia e História

A ermida pertenceu aos Condes dos Arcos que naturalmente lhe introduziram os elementos manuelinos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, década de 1970.
Imagem: Divagando sobre Caparica

Quando se pôs a descoberto a fachada e se escavou o adro fronteiro, das cisternas libertou-se água em grande abundância sendo necessário encaminha-la por uma vala para um esgoto de águas pluviais.

Deve salientar-se que entre o Largo Carlos da Maia e o Porto Brandão fica a Quinta da Azenha, assim chamada por nela certamente ter funcionado um engenho desse tipo.

A Ermida de São Tomás de Aquino foi classificada de interesse concelhio em 1996.O pedido de classificação datava de 1982, mas atravessara um confuso processo burocrático.(1)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado: Ermida de S. Tomás de Aquino

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ermida de S. Tomás de Aquino

Entre as mais ilustres famílias da Corte que em Caparica tinham casa contavam-se a dos Condes dos Arcos de Valdevez e as dos Condes de S. Miguel.

Os Noronhas eram os que mais predilecção tinham pelo sitio, segundo se pode concluir dos registos paroquiais. Alguns lá nasceram e foram baptizados. A Senhora Condessa D. Maria do Carmo mantém ainda essas tradição. trocando durante meses, as comodidades da sua casa de Lisboa pelas poucas que lhe oferece a de Caparica.

Armas de Noronha chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Assistiam na sua Quinta da Torre, bem diferente do que é hoje. Nas dependencias e na torre medieval que deu o nome à quinta e depois ao lugar e que residiam seus senhores e não nas actuais habitações.

A Estrada Nova que liga a Torre à Fonte Santa (ou Fontes Santas como também se lê em antigos escritos) não fora ainda aberta. 

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, 2014.
Imagem: Google Maps

As terras que vieram a ficar de um e outro lado dessa estrada constituíam um todo. 

Eram limitadas ao sul pelo largo, ao nascente pela Estrada Velha, ao poente pelo estreito caminho que as separa da quinta da Torre até à Torrinha e Costas de [do] Cão, e ao norte por terras de diversos, foreiras ao morgadio dos Noronhas.

Pela beleza da tapada de ulmeiros seculares, de jardins guarnecidos de buxo à antiga portuguesa, de hortas a que não faltava a nora tradicional, que ainda conhecemos e formava, para fora do actual Largo Bulhão Pato, uma meia-laranja, estas terras eram o melhor atractivo dos seus possuidores. 

Para tanques enormes. forrados de azulejos policromos, a água caia, em repuxo, de formosa coluna de mármore. Restos desta coluna, de capitéis e de outras pedras trabalhadas, que se conservam. documentam a importancia das antigas construções.

Quase oculta na tapada existia uma ermidinha da invocação de S. Tomás de Aquino de que restam apenas ruínas quase soterradas à beira da Estrada Nova.

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, 2012.
Imagem: AMO-TE CAPARICA no Facebook

Os Botelhos tinham a sua casa no Casal do Conde, entre o Monte e a Urraca, próximo da quinta e residência de Francisco Canelas, nosso velho amigo.

O titulo de Conde de S. Miguel evoca uma das mais heróicas figuras do declínio do nosso Império do Oriente — o grande Nuno Álvares Botelho, pois foi concedida, em memória dos altos serviços que prestou ao Pais, a seu filho Francisco Botelho.

Armas de Távora chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Nuno Álvares Botelho. partiu para a India em 1623. Capitão-general das armadas de alto bordo, bateu as armadas de Inglaterra e de Holanda, que desafiou por um cartel que ficou célebre. Foi governador da India e morreu em Malaca após ter imposto a paz ao sultão de Achem.

Era tal o prestígio deste herói que Filipe III, então rei de Portugal. ao dar os pêsames à viúva, lhe mandou dizer que, a não trazer luto pela rainha da Polónia, o havia de põr por Nuno Alvares Botelho.

O luxo na corte de D. João V.
Quadros da Historia de Portugal, Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

No dia 18 do corrente se celebraram em Caparica os esposórios de D. Tomás de Noronha, quinto Conde dos Arcos,

com a Senhora D. Antónia Xavier de Lencastre, filha de Tomás Botelho de Távora, terceiro Conde de S. Miguel, e gentil-homem da Câmara que foi do Senhor Infante D. António.

No mesmo dia se celebram os de D. Marcos de Noronha, filho primogénito do mesmo Conde D. Tomaz e de sua primeira mulher a Senhora D. Madalena de Castro, com a Senhora D. Maria Xavier de Lencastre, filha do mesmo Conde de S. Miguel, cujo filho primogénito Álvaro José Botelho de Távora, se recebeu juntamente no mesmo dia com a Senhora D. Luísa de Noronha, filha do mesmo Conde dos Arcos D. Tomaz de Noronha.

in Gazeta de Lisboa, 29 de novembro de 1731
Era domingo e dia maravilhoso de Outono. Grande parte da faustosa corte de D. Ioão V, vestia de gala e atravessava o Tejo com destino ao Porto Brandão, onde os barcos vararam na pequena praia. Cavaleiros, acompanhando berlindas e liteiras, formaram luzido cortejo que subiu à Fonte Santa e dai à Torre.

Estrada Fonte Santa — Porto Brandão, década de 1960.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O senhor da Quinta da Torre. que era então o 5.° Conde dos Arcos. D. Tomaz de Noronha e Brito, nascido e baptizado em Caparica, viúvo da Condessa D. Madalena Bruna de Castro, filha dos Condes de Assumar, ajustara passer as segundas núpcias com D. Antónia Xavier de Lencastre, filha dos 3.° Condes de S. Miguel, Tomás Iosê Botelho e D. Iuliana de Lencastre (Unhão).

Seu filho e herdeiro D. Marcos Iosé de Noronha e Brito, de dezanove anos, capitão de cavalos. que veio a ser o 6.° Conde dos Arcos e Vice-Rei do Brasil, estava noivo de D. Maria Xavier de Lencastre. de vinte e um anos, filha dos já referidos 3.° Condes de S. Miguel.

Ainda um terceiro casamento se aprazara para esse dia entre as duas ilustres casas: o de D. Luisa do Pilar Noronha. de treze anos de idade, respectivamente filha e irmã dos dois mencionados D. Tomás e D. Marcos. com Álvaro Iosé Xavier Botelho de Távora, de vinte e três anos, filho herdeiro dos 3.° Condes de S. Miguel.

O primeiro casamento a celebrar-se foi o de Álvaro Iosé Xavier Botelho de Távora, filho herdeiro dos 3.° Condes de S. Miguel. Com D. Luísa de Pilar de Noronha. filhas dos 5.° Condes dos Arcos.

O cortejo saiu da Casa da Torre em direcção à ermidinha de S. Tomás de Aquino (hoje quase soterrada e em ruínas) onde se encontrava o cura da freguesia. o ilustrado padre lose António da Veiga (natural de Caparica) que presidiu à cerimónia.

Os très pares de noivos e convidados. seguiram depois para a residência do Conde de S. Miguel, que era entre o Monte e a Urraca.

Nesta ermidinha. quase desconhecida. baptizaram-se e casaram grandes vultos da nobre fidalguia portuguesa. (1)

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, década de 1970.
Imagem: Divagando sobre Caparica


(1) Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Artigo relacionado: Torre e Fonte Santa

Informação relacionada: SIPA

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa

Da Fortaleza de Belém e S. Gião e baluartes

Capítulo IIII

Com o mesmo cuidado e providência que a cidade de Lisboa deve ser fortalecida de novo castelo e de muros e torres e portas e baluartes e de bastiães, ao modo das fortalezas modernas, que hoje se costumam por toda a cristandade.

E se possível for cercada toda de novo e forte muro, inda que os velhos que lhe fez el rei D. Fernando, sejam a seu modo honestamente fortes pela boa argamassa e entulhos que tem (que foi a melhor obra que nenhum rei fez hoje em Lisboa depois das igrejas).


Assim mesmo deve ser fortalecida, acabada e reparada a fortaleza de Belém e a de S. Gião [Julião], pois que tem tanto custado sem estar bem acabada.

E isto com alguns baluartes fortes que lhe respondam da outra banda da Trafaria e da área da Adiça.


Um defronte da torre de Belém: onde está a Torre Velha.

E o outro defronte de Santa Catarina de Ribamar que é a mais segura Fortaleza de Lisboa ali onde acabam os montes de Almada e começa a área da ponta da Trafaria ou Cachopos.


Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Ou se possíver for havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meio da cabeça onde rebenta o mar dos Cachopos, que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual podendo ser seria coisa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ela pode fazer dano alguma hora.

E estes tais baluartes haviam de ser rasos e baixos e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido muito delgado e forte que é muito mais seguro.


Digo do embasamento ou do pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz os quais baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desenho ainda que a forma seja pequena por não caber num livro maior. (1)

Lembrança do bastião dos Cachopos, Op. Cit..
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo


(1) Souza, Maria Luiza Zanatta de, Um novo olhar sobre "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa" ( Francisco de Hollanda 1571), São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2011.

Museu de Bombeiros

Antigo quartel, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1960 (?).
Imagem: ed. desc.

O antigo e legítimo desejo de os bombeiros possuírem no Concelho de Almada um museu que mostrasse a sua evolução ao longo dos tempos e que fosse um local onde toda a sua história iconográfica fosse objecto de visualização e de estudo, até agora, por vários motivos, não tem passado de uma repetida promessa.

O garbo da formatura, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011

[Francisco Inácio Lopes.] Funda o Serviço de Socorros de Incêndios em 1850 [...] só muito mais tarde aparecem os Bombeiros Voluntários de Cacilhas (15/01/1891) e as corporações de Almada (26/08/1913) e Trafaria (25/06/1931).
Cremos tratar-se de uma primitiva brigada de bombeiros municipais.

in Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

15 de janeiro de 1891 — A Associação de Beneficência Serviço Voluntário de Incêndios, com sede em Cacilhas, no Concelho de Almada, foi fundada oficialmente nesta data na barbearia de Guilherme Silva, no Largo do Poço, onde foi assinada a acta inicial.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foram os seus fundadores os seguintes cacilhenses: António Augusto Figueiredo Feio, António Thomaz de Carvalho Serra, Thomaz Wenceslau de Carvalho Serra, Guilherme Silva, Thomaz da Costa, Wenceslau Francisco da Silva, Raymundo Francisco da Silva, Guilherme Augusto Paiva, Avelino Emydio de Queiroz, Artur José Evaristo, Paulo Sauchner, Diogo António da Silva Reis, Júlio César da Silva, João Baptista da Silva, João Augusto dos Reis, José Henrique Correia, Augusto José de Melo Júnior, José Júlio Teixeira de Almeida.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1920 — 1930.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Resolvido, o pequeno de quatro anos montado na sua bicicleta: — O meu pai é bombeiro!
Sabendo a resposta que se seguiria, perguntei: — E tu, também és bombeiro?

Viaturas, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 1958.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Pausou, encheu o peito de ar e respondeu: — ... não, mas um dia vou ser.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Pedalando com firmeza, afastou-se. Dias mais tarde voltou à carga: — Os bombeiros vão tocar hoje à noite na festa!

Ambulâncias, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1970.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Desta vez não quis fazer perguntas: — Não sabia que os bombeiros tinham fanfarra.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, década de 1980.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

— Os carros!... Os carros é que vão tocar.
Respondeu impaciente com a minha ignorância. Afinal que percebo eu de bombeiros.

Auto Transporte de Pessoal n° 3, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Autocarro Magirus Deutz, dito Tarolas e Pandeiretas", motor arrefecido a ar.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

Neste momento, o museu dos bombeiros que está patente ao público resume-se a uma sala do 1.º andar do quartel em Cacilhas, onde estão expostos alguns objectos e relíquias de um passado glorioso, mas cujas condições de conservação, iluminação e arranjo exposicional não são as mais adequadas, situação que seria ultrapassada com a existência de um espaço bem organizado noutro local. (1) 

Clarim antigo, Bombeiros Voluntários de Cacilhas.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011


(1) Neto, Victor M., Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011, Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011, 224 págs.

Informação relacionada: Bombeiros Voluntários de Cacilhas: equipamentos museulógicos

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Nossa Senhora da Piedade

Cova da Piedade, igreja Nossa Senhora da Piedade, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

No século XIV há várias referências em Almada, desde pelo menos 1366, ao sítio de S. Simão na Mutela, lugar pelo qual era conhecida a actual Cova da Piedade, contudo esta referência pode ter sido apenas uma imagem, nicho ou cruzeiro.

Em 1402, regista-se a primeira referência que conhecemos da Ermida de S. Simão, que confrontava então com uma Quinta dos Padres de S. Domingos de Lisboa, [Quinta dos Frades] actual Museu da Cidade.

Em 1553, numa Visitação da Ordem de S. Tiago, temos a primeira descrição conhecida da ermida, a qual tinha uma orientação e possivelmente localização diferentes da actual Igreja da Piedade.

Em 1574, toma posse da ermida um ermitão, por nome Frei Fernando, o qual adquire novas imagens para a Ermida de S. Simão e nela manda fazer obras com esmolas dos fiéis.

Entre 1582 e 1595, a Casa de S. Simão da Mutela serviu de pequeno cenóbio religioso de irmãos da Ordem Terceira de São Francisco provenientes do Convento de Santa Catarina de Vale Mourol de Santarém, os quais aqui ficaram até se mudarem para uma nova casa, no Vale dos Cardais em Lisboa, depois Convento de Jesus.

Entre as imagens mais antigas, hoje existentes no espólio da Igreja da Piedade, a mais antiga de todas é a de um Cristo arcaico, imagem popular talvez datada do século XVI, as restantes são já, presumivelmente do século seguinte, nomeadamente as esculturas de Nossa Senhora da Piedade, a de Santo António de Lisboa e a do Cristo crucificado, esculpido em madeira brasileira (recentemente restaurada), havendo também duas pinturas seiscentistas, uma representando a Virgem da Piedade e a outra o Evangelista São Mateus.

Tudo indica pois que, ou por devoção do ermitão, como relatam as memórias setecentistas, ou por influência franciscana, o culto de Nossa Senhora da Piedade, devoção profundamente franciscana, e marcadamente pós-conciliar, tenha sido introduzido na Casa de São Simão de Almada no fim do século XVI, de tal modo que já em 1606, devotos de Lisboa decidem aqui erigir uma Irmandade de N. Sr.ª da Piedade, cujo Compromisso tem entre os seus signatários o mesmo Fr. Fernando.

Frontespício do Compromisso da Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade sita na ermida de S.Simão de Mutela termo de Almada.
Ordenada no ano de 1606.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

O Compromisso de 1606 fala da devoção à imagem que estava na Ermida de S. Simão da Mutela, mas também refere uma Igreja de S. Simão, não sendo clara a localização de ambas.

Talvez a segunda estivesse então a ser de novo edificada, pois os relatos do século XVIII dizem que "segundo a tradição passado algum tempo sonhou o Ermitão com huma Senhora da Piedade, e fazendo diligencia pela Imagem, com que tinha sonhado, a fora achar em huma casa da Sé de Lisboa, [hoje Basílica de Santa Maria] e pedindo-a se lhe deu; 

Nossa Senhora da Piedade, escultura do século XVII.
Imagem: Paróquia da Cova da Piedade

e trazendo-a para a Ermida de S. Simão, ahi começara a Senhora a fazer muitos milagres, e com esmolas, que concorrerão se fez o Recolhimento com o nome da Piedade".

De facto o referido Compromisso também determina aos seus irmãos que colhessem esmolas para erigir uma nova Capela de abóbada e arco de pedraria, para aí alojarem condignamente a imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Em 1609, um novo ermitão, Pe. Jorge Freire, já aparece como Ermitão da Ermida de S. Simão e N. Sr.ª da Piedade.

Em 1616, funda-se de facto o Recolhimento de Nossa Senhora da Piedade para senhoras Beatas, e em 1620 constroem-se casas para os romeiros e para a irmandade.

A partir da segunda metade do século XVII perdem-se as referências de uma igreja e de uma ermida separadas e as descrições do século XVIII (Dicionário Geográfico) falam de várias edificações e de ermitães, mas são inconclusivas quanto a datas…. a certeza porém que, após o Terramoto, a igreja foi reedificada entre 1762 e 1764, sendo a partir dessa data conhecida apenas como Igreja de N S da Piedade! (1)

Mouth of the River Tagus (detail), page from Gentleman's Magazine, Jan 1756.
Imagem: UNIVERSITY ARCHIVES

Estes e outros elementos sobre a Nossa Senhora da Piedade podem ser encontrados no Centro de Documentação de Instituições Religiosas e da Família.
Este serviço, inaugurado em 4 de Novembro de 2012 e integrado no Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro (Cova da Piedade), instituição actualmente dirigida pelo Pe. José Pinheiro, pároco da Cova da Piedade, tem por finalidade apoiar as paróquias e outras instituições sociais do concelho de Almada (tendo para esse fim o acordo do Sr. D. Gilberto, Bispo de Setúbal, e um protocolo com a respectiva Comissão Diocesana de Arte Sacra) no inventário, conservação e digitalização do seu espólio arquivístico e bibliográfico.
É um trabalho feito, na sua larga maioria, por uma equipa de voluntários, da qual faço parte, embora com o apoio de profissionais especializados, coordenados pela Dr.ª Alexandra Figueiredo.
Já se encontram digitalizados a totalidade do espólio conhecido das Paróquias de Cova da Piedade e Monte de Caparica, assim como do Jornal de Almada, e encontra-se neste momento em tratamento e vias de digitalização o espólio do Seminário de Almada e da Paróquia de Almada. Outras se seguirão.
Este espaço está situado na Quinta da Ramalha, Cova da Piedade, antiga propriedade rústica também recentemente restaurada, dotada de uma magnífica capela com origens no século XV e reedificada no século XVII.
Fica aqui o convite para uma visita para conhecerem um pouco da nossa história e património. (2)

Adro da igreja Nossa Senhora da Piedade, 1962.
Imagem: AMVC

No da 18 do corrente, véspera da sua festividade annual, se cantará huma solemne Missa, por múzica vocal e instrumental, pela conservação da Precioza Vida de Sua Magestade o Senhor D. Miguel I, Augusto Protector Prepétuo da mesma Real Irmandade, finda a qual se fará a inauguração das Reaes Armas no frontespício da Real Capella do Apostollo S. Simão, onde a mencionada Irmandade se acha erecta (...) pelas Mercês que o Mesmo Augusto Senhor foi servido liberalizar a esta irmandade declarando-Se seu Protector Perpétuo, e concedendo á mesma, e á Capella, em que se acha erecta, o título, Honras e Privilégios de Reaes.

in Gazeta de Lisboa, 18 de agosto de 1830 (3)


Bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830,
Bandeira de D. João V, usada pelos Miguelistas ou Absolutistas.
Imagem: Wikipédia


(1) Rui Manuel Mesquita Mendes, 19 de abril de 2014
(2) Idem

(3) Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.

Artigo relacionado: S. Simão das Barrocas

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Terras da Costa

Era num juncal sáfaro e ruim. 

Com o céu imundo de nuvens a noite adensava-se. O vento e o marulho do oceano fundiam-se num rosnar cavo e profundo. À distância choupanas de colmo, negras e escorridas, figuravam, pelo cair da tarde, guedelhas, lanuça de maltês.

Pequenas hortas denunciavam a presença de gente em tão ermas paragens. 

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Ali, uma mulher talhava regos, abrindo e vedando caminho à serpente de água preciosa, que um homem, balde a balde, içava do poço.

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Por vezes, suspendiam a tarefa, e olhavam para as nuvens negras, tão negras de esperança: Chove? Não chove? Deus permita que chova! (1)

A Praia do Sol, Uma vista parcial, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 108, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Os "agricultores das Terras da Costa" são um grupo de pequenos e médios agricultores dispersos por pequenas parcelas (sempre inferiores a 1 ha.) ao longo da planície litoral — ocupando cerca de 186 ha. — inserida entre faixa costeira da Caparica e a arriba fóssil que nela desemboca [...]

Os agricultores locais são na sua maioria descendentes de um núcleo original de famílias povoadoras (no final do século XVIII) do local hoje conhecido como Costa de Caparica, famílias oriundas do Algarve e da região de Aveiro e — supostamente — originalmente dedicadas à actividade piscatória.

Especula-se sobre a origem da agricultura nas Terras da Costa, se terá surgido como complemento à actividade piscatória (e portanto realizada pelas mesmas famílias) ou como actividade independente da mesma (hipoteticamente por pessoas oriundas da Trafaria).

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

[...] a planície das Terras da Costa, junto com os terrenos que a limitam a Sul, terão sido mesmo das últimas áreas a serem povoadas em termos concelhios.

Este facto dever-se-á às mínimas condições de habitabilidade alí verificadas até sensivelmente ao século XVIII, altura em que populações de pescadores terão começado a povoar permanentemente as zonas dunares e pós-dunares.

[...] durante o século XVI deu-se o chamado “grande aterro”, ou seja, o período posterior a uma "pequena idade do gelo" que terminara no século XV, que implicou a subida do nível do mar e consequente açoreamento das grandes barras e entradas de mar ao longo das orlas costeiras, o que alterou significativamente a paisagem local, fomentando bancos de areia e areais na zona posterior ao depósito de vertentes da arriba.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Por outro lado, o terremoto de 1755, para além de provocar inúmeros estragos e perdas, terá ainda implicado um movimento geológico de elevação (emersão) e estabilização da planície litoral onde hoje encontramos a frente de praias, a zona dunar e as Terras da Costa.

Costa ocidental da península de Setúbal, fotografia satélite.

Isto terá permitido a ocupação e utilização de terrenos até então inexistentes – a orla costeira entre a Trafaria e a Lagoa de Albufeira, onde nascerão a Costa de Caparica e, para o interior e Sul, as Terras da Costa.

Em termos gerais, o povoamento da margem sul do Tejo é já antigo: vestígios arqueológicos na chamada Ponta do Cabedelo (ao lado do actual Convento dos Capuchos) evidenciam uma ocupação humana desde o período do paleolítico e indústrias do paleolítico quaternário.

Costa da Caparica, Descida do Cabedelo, ed. desc., década de 1920.
Imagem: Delcampe

[...] as primeiras notícias de povoamento permanente na “Costa do Pescado” datam aproximadamente de 1770, quando alguns grupos de pescadores – que até então migravam sazonalmente do Norte (região de Ílhavo) e Sul (Algarve) em direcção aos extensos areais e alí pernoitavam durante as suas campanhas de pesca – lá se fixaram.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Parece terem sido os ilhavenses os que também primeiro ali passaram a viver com carácter permanente; os algarvios regressavam ao Algarve quando acabava a safra.

Ainda em 1770, esta praia era habitada todo o ano por um número muito reduzido de pessoas, e só no ano seguinte ali se fixaram os primeiros "mestres de pesca", dois ilhavenses Joaquim Pedro e José Rapaz e dois algarvios José Gonçalves Bexiga e Romualdo dos Santos — (...) com as suas companhas."

in Oliveira, Ernesto Veiga de, Galhano, Fernando, Pereira, Benjamim, Construções Primitivas em Portugal, Lisboa, Centro de Estudos de Etnologia — Instituto de Alta Cultura, 1969.

Uma constatação frequente nas Terras da Costa é a de que a agricultura lá praticada terá surgido a partir dessa época, por necessidade de subsistência e complementando a actividade pesqueira nos seus períodos de menor produtividade.

Será portanto nesta época que se terá iniciado o progressivo desbravamento de extensos juncais que cresciam nas zonas pantanosas que se formavam entre a arriba e as dunas zonas resultadas da acumulação de águas pluviais e de marés vivas nas diversas depressões dunares.

[...] outro tipo de acções intervieram na constituição da paisagem local, nomeadamente iniciativas individuais e colectivas dos habitantes e trabalhadores locais, que, consoante as suas necessidades e conveniências, foram moldando detalhadamente o seu espaço envolvente, processo contínuo ainda hoje em curso: desde o desvio de cursos de água à terraplanagem de parcelas à plantação de árvores e arbustos...

[...] podemos enumerar os acontecimentos promovidos pelas entidades oficiais que terão sido fundamentais neste processo de "construção paisagística" das Terras da Costa:

Algures durante o século XVIII, D. João V terá ordenado a plantação de pinhais imediatamente a sul da área que nos ocupa, na agora chamada Mata dos Medos, de forma a fixar os medos de areias que invadiam progressivamente a área litoral em direcção à área posterior da arriba (nesta secção já com uma altura pouco elevada), ganhando assim solo produtivo.

Em 1867, a Junta de Melhoramentos Interna terá promovido a construção de valas de drenagem entre a Trafaria e as Terras da Costa, com eclusas de portas automáticas - de forma a melhor aproveitar o escoamento de águas e as marés para eliminar as áreas pantanosas que se acumulavam mais perto da arriba.

[v. Wikipédia: Junta Geral]

Neste contexto, realiza-se em 1883 um termo de contrato entre o Ministério de Obras Públicas, Comércio e Indústria e a Câmara Municipal de Almada para a compra pelo Estado de "(...) todos os terrenos municipais comprehendidos entre a Trafaria até ao extremo do Concelho em toda a parte do littoral, exceptuados tão somente: os comprehendidos dentro das povoações uma superfície de duzentos metros de cada lado Norte e Sul da povoação da Costa, que fica destinada para novas edificações; e uma facha de areias movediças, tendo de comprimento a extensão que vae da Capella de Nossa Senhora da Conceição, na povoação da Costa, até à Fonte da Telha, e de largura a distancia de quatrocentos metros contados à linha de praiamar de águas vivas; facha que fica reservada para os serviços de pesca."

Esta aquisição visava prolongar os trabalhos iniciados em 1867 e inseridos, provavelmente, em campanhas de higiene pública e de ordenamento do território nacional: "(...) tendo sido reconhecida a necessidade de dessecamento do pantano da Costa n’aquelle Concelho e da arborização dos areiaes da Trafaria e Costa de Caparica para os fins de remover as causas da insalubridade d’aquella região e de crear ali uma extensa matta para protecção das margens do rio e barra e para impedir o augmento dos açoriamentos (...)."

A propriedade estatal destes terrenos ainda se mantém parcialmente no dia de hoje (sob gestão do Instituto de Conservação da Natureza), e é sobre o que resta dessa propriedade que alguns dos agricultores que ocupam este trabalho habitam e trabalham...

Ainda na sequência destas campanhas, procede-se em 1929 à demarcação por parte do Ministério de Agricultura dos terrenos estatais – definidos no termo de compra de 1883 (ver citação acima) o que permitiu o levantamento das áreas que pertenciam tanto ao Estado como à Câmara Municipal de Almada como ainda a proprietários privados (donos de terrenos precisamente fora da jurisdicção decidida no termo de compra de 1883).

Já nos anos 50 do século XX verifica-se o melhoramento do caminho que ligava a povoação da Costa de Caparica à já referida Descida das Vacas, atravessando precisamente os terrenos adquiridos anteriormente pelo Estado.

Este caminho – hoje Estrada Florestal – foi construído pelos Serviços Florestais locais com mão-de-obra local (alguns dos que então participaram na infraestruturação rodoviária ainda hoje vivem), tendo sido macadamizada entre 1956 e 1957.

Neste mesmo ano, e na sequência deste empreendimento, será construída a ponte sobre a Ribeira do Rego.

Estes empreendimentos revelar-se-ão fundamentais em termos de comunicação e transporte de pessoas e mercadorias, assim como do próprio trabalho dos Serviços Florestais locais em termos de fiscalização e manutenção das áreas arborizadas.

Sensivelmente na mesma época, ter-se-á promovido uma complexa operação de fixação das dunas da faixa litoral a sul da Costa de Caparica, paralelas à já referida Estrada Florestal – um empreendimento motivado pelas mesmas razões que as campanhas realizadas no século anterior: impedir o avanço da zona dunar e ordenar o espaço interior.

Esta fixação, na qual participaram activamente os habitantes locais (proporcionando força humana e animal), consistiu essencialmente na plantação ordenada de acácias ao longo das dunas, árvores exóticas que se adaptaram perfeitamente ao clima eminentemente marítimo e ao solo arenoso, manifestando uma alta capacidade de colonização, marcando a paisagem que hoje observamos.

Costa da Caparica, Uma Rua da Mata, ed. Passaporte, 27, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em termos concelhios, este desenvolvimento traduziu-se numa reorganização política e administrativa, onde a original freguesia da Caparica foi sucessivamente seccionada para dar lugar ao nascimento da freguesia da Trafaria (nos anos 20 do século XX) e da freguesia da Costa de Caparica (muito mais recentemente, em 1949). Neste contexto, a vila de Almada foi elevada a cidade em 1973, enquanto que a Trafaria e a Costa de Caparica foram elevadas a vila em 1985).

Na Costa de Caparica, este período caracterizou-se pela construção sucessiva da bairros inteiros, desde o Bairro de Santo António (entre a Costa de Caparica e Trafaria) nos anos 30 até ao Bairro do Campo da Bola (nos anos 70 do século XX, no seguimento das expropriações efectuadas aquando da construção da Ponte Salazar) e o Bairro dos Pescadores, inaugurado ainda nos anos 60 na sequência de investimentos vários efectuados pelas instituições locais e nacionais para a melhoria de condições de trabalho e habitação dos pescadores locais.

Tendo sido decretada "estância de turismo" em 1925, a Costa de Caparica rapidamente se transformou num dos mais importantes lugares de veraneio da região de Lisboa.

Costa da Caparica, vista geral, década de 1980 — 1990.

[...] Em relação à prática agrária propriamente dita, a recolha por nós efectuada permitiu-nos não só elaborar uma caracterização da realidade local actual mas também incorporar a través de testemunhos vários elementos de práticas “antigas”, isto é, escolhas e metodologias que pelas mais variadas razões foram caindo em desuso.

[...] Assim, em termos gerais, o que se verificava até sensivelmente a primeira metade do século XX nas Terras da Costa era uma agricultura realizada em "maceira", isto é, nas áreas dunares – que invadiam a plataforma litoral.

Este tipo de cultura é tido como oriundo da região centro e norte do país (Póvoa de Varzim, inicialmente, e posteriormente a região da Ílhavo, onde ainda se encontrarão vestígios dessa prática (facto que constitui um argumento a favor da ideia da origem piscatória dos primeiros agricultores locais) [...] e caracterizava-se por esse aproveitamento das zonas dunares através de uma horticultura intensiva, beneficiada pelo solo (obviamente) arenoso, pela protecção e abrigo das dunas e pelo aproveitamento de matéria orgânica específica para adubação...

[...] registamos nas Terras da Costa várias estratégias de desenvolvimento de empresas agrícolas.

O formato tradicional, ainda recorrente, são estruturas sócio-económicas de tipo familiar, perpetuadas em processos de transmissão, onde o núcleo familiar se organiza fundamentalmente em redor da produção agrícola, complementando tarefas de produção, transporte e venda das colheitas.

Vários núcleos habitacionais apresentam actualmente este formato; outros no entanto resultam de evoluções similares, onde alguns elementos da família partilham residência mas não participam na lavoura, optando por empregos na área dos serviços ou construção civil na Costa de Caparica, Almada ou Lisboa.

Nestes casos, verifica-se o desenvolvimento de núcleos habitacionais complexos onde coabitam famílias alargadas (ou várias famílias nucleares) de descendência comum, onde apenas um grupo restrito se dedica à exploração das parcelas.

Assim, e dado que estamos a falar de pequenos e médios agricultores, existem nas Terras da Costa muitos casos de empresas de carácter unipessoal ou familiar - onde marido, mulher e eventualmente filhos trabalham em equipa na exploração agrícola.

No entanto, no caso das gerações mais jovens o interesse pela actividade agrícola não é tão generalizado, preferindo aquelas a continuação da formação escolar ou o emprego noutras áreas. Este tipo de factores, que produzem um “desequilíbrio” em termos de manutenção de força de trabalho, obrigam a recorrer a mão de obra assalariada mais ou menos permanentemente. 

Noutras palavras, aqueles que não conseguem "dar conta do recado" em termos de "braços" são obrigados a recorrer a estratégias alternativas, que passam por essa contratação de mão de obra ou acordos de entreajuda entre a vizinhança ou amizades.

É neste contexto que vemos muitos cidadãos oriundos de países estrangeiros, desde as ex colónias portuguesas à Europa de Leste à procura de trabalho (mais ou menos ocasional) nas Terras da Costa, mesmo apesar das eventuais dificuldades de comunicação (sempre ultrapassadas).

Por outro lado, também é neste contexto que se verificam alguns fenómenos de associação (na maior parte das vezes informal) entre agricultores de forma a melhor explorar as parcelas agrícolas, suprindo carências pontuais e correspondendo a eventuais conveniências.

[...] a construção da Ponte Salazar permitiu um escoamento mais eficaz dos produtos locais para o grande mercado consumidor lisboeta; neste sentido, se há três ou quatro décadas colocar hortaliça fresca de manhã, por exemplo no Mercado da Ribeira ou no Martim Moniz, implicava um empreendimento que começava à meia noite do dia anterior, hoje em dia pode ser feito em apenas uma hora...

Antes, o transporte era feito com tracção animal até Porto Brandão e Trafaria — e mais recentemente Cacilhas — apanhando-se depois o barco (que evoluiu do batel a vela ao barco de vapor e, finalmente, ao cacilheiro) que fazia regularmente a travessia do rio Tejo. Conta-se que, naqueles tempos, o tempo era escasso para percorrer o trajecto entre a chegada do barco a Lisboa e a hora de fecho do abastecimento do mercado, pelo que frequentemente se desenvolviam correrias e galopadas pelas ruas da Baixa lisboeta, de forma a não transformar a viagem num empreendimento em vão...

Relatos por nós recolhidos situam a chegada do primeiro tractor às Terras da Costa por volta dos anos 30 ou 40 do século XX; na região da Caparica existiriam poucos (embora já desde o início do século), pertencentes ora ao Sindicato Agrícola ora a particulares com algum poder de compra.

Eram alugados pontualmente para realizar trabalhos mais pesados; hoje em dia a maior parte dos agricultores possui tractor, essencial para lavoura, sementeira, etc.

A utilização de técnicas de adubação tradicionais, como a estrumação (cavalo ou vaca), a queima, a utilização de pescado miúdo (petinga, etc.) – que se espalhava sobre a terra e se deixava secar, sendo posteriormente "enterrado" — ou o "arejamento" (dar a volta à terra, enterrando a camada exposta), embora persistam em alguns casos, foram complementadas ou substituídas por aplicações químicas, modificando precisamente a capacidade de controlo do agricultor sobre a sua terra e o seu produto.

Há algumas décadas, este tipo de fertilização era muito frequente, dada a abundância de peixes e espécies marinhas na costa da Caparica, e consequentes excedentes resultados da faina piscatória, que os agricultores adquiriam por um preço simbólico ou até a troco de hortaliça ou de graça.

Por outro lado, a abundância de gado vacum e de espécies equinas — instrumentalizados na lavoura — permitia acumular estrume suficiente para aplicar sobre as parcelas.

A progressiva mecanização da prática agrária, no entanto, tornou cada vez mais desnecessária (dum ponto de vista economicista) a existência de espécies animais nas Terras da Costa, reduzindo-as na actualidade a "mínimos".

Em relação à "manutenção" das culturas, encontra-se generalizado o uso de pesticidas (contra ácaros, etc.), fungicidas (míldio) e herbicidas, produtos de empresas multinacionais como a Bayer, Monsanto, Zéneca ou a Agroevo (Schering) aplicados manualmente durante o crescimento das culturas — processo resumido pelos agricultores locais no verbo "sulfatar". (2)




(1) Correia, Romeu, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950.

(2) Blanes, Ruy de Llera, Caracterização Sócio-Cultural dos Agricultores das Terras da Costa, Lisboa, 2003.

Artigos relacionados:
A costa no século XIX
Caparica, 1923


Leitura adicional:
Cultura Avieira
, Folhas Informativas: Os palheiros da Costa...
Noutra Costa da Caparica