terça-feira, 20 de maio de 2014

Cartas das vitórias liberais

8 de julho de 1832 — Desembarque do Exército Libertador na Praia de Mindello


9 de julho de 1832 — Entrada do Exército Libertador na Cidade do Porto


5 de julho de 1833 — Tomada da Esquadra Miguelista


23 de julho de 1833 — Derrota dos Miguelistas em Cacilhas


24 de julho de 1833 — Entrada do Exército Libertador em Lisboa


18 de agosto de 1833 — Desalojamento dos Rebeldes das Linhas do Porto


10 de outubro de 1833 — Desalojamento dos rebeldes do sítio de Campo Grande


23 de maio de 1834 — Convenção de Évora Monte (1)



(1) Biblioteca Nacional de Portugal, Cartas de jogar (detalhe), litografia Manuel Luiz, 1835

Leitura adicional: O Portal da História, Cronologia do Liberalismo


domingo, 18 de maio de 2014

Alcipe

Marquesa d'Alorna, Franz Joseph Pitschmann, Viena, 1780
Imagem: Wikipédia

Tomando posse da sua casa, foi viver por algum tempo na Quinta de Almeirim, e n'outra em Almada, 

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

onde practicava toda a liberalidade e todo o bem que n'outro tempo fizera em Almeirim, soccorrendo agora dalli particularmente os habitantes pobres de Cassilhas, que por isso lhe chamavam a Màe de Cassilhas, demonstrando e agradecendo os benefícios que delia recebiam.

Muitas vezes dizia ella, que presava mais este titulo do que os outros que tinha, ou poderiam dar-lhe, porque deste lhe resultava maior gloria. (1)

O Tejo, que algum dia, se eu cantava,
Erguido sobre as ondas m'escutava,
Hoje nem se enternece,
E ao som dos meus gemidos adormece.

Escarpas na margem sul do Tejo.
O Pintor Eduardo Leite ladeado de duas crianças, João Alves de Sá, 1926
Imagem: Palácio do Correio Velho

"Na sua quinta d'Almeirim costumava meu pae residir uma grande parte do anno, especialmente no inverno, recreando-se com a Musica e a Poesia, a que era muito aífeiçoado; e quando se aproximavam os calores do Estio, passava á outra quinta d'AImada, onde se entretinha com a Astronomia, sciencia de que possuia não vulgares conhecimentos." (2)

Inflamma o peito com paixões sublimes:
Té que em fim, transportado e fervoroso,
Extático apercebe a Divindade;
E no mundo, feliz, os gostos prova
Que a angélicas essências só competem.

Estes sào os sagrados sentimentos
De tua alma elevada, ó Pae amado!
Teus pensamentos e paixões ditosas
Assim suavemente modificas.


D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750 - 1839), Marquesa de Alorna, conhecida como Alcipe nos meios literários, era filha de D. João de Almeida Portugal, conde de Assumar, e avó de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, Marquês de Fronteira.

[A Quinta do Conde era uma] quinta de grande dimensão localizada entre Almada e os Caranguejais, de limites mal conhecidos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Em 1811 quando se construiu o reduto que teve o nome de Forte do Conde, o lugar da construção, perto da escola Frei Luís de Sousa, era terreno da Quinta do Conde.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

No mesmo lugar se construiu a parte de linha de defesa de Almada e Cacilhas que teve o nome de "frente da Quinta do Conde".

O conde em causa é um dos condes de Assumar, muito provavelmente D. João de Almeida Portugal [...] Provedor da Misericórdia entre 1796 e 1802.

Mais a Norte desta propriedade, contígua a casas e quintal da Misericórdia, na Rua Direita, existiu uma propriedade que no século XIX era designada por Quinta do Conde. 

Almada, Vista parcial, ed. J. Lemos, 31 (detalhe)

Esta quinta pertencia ao Marquês de Fronteira [...] (3)

Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira


(1) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. I e II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(2) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. III e IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(n. do ed.) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. V e VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional: Biografia de Alcipe, Fundação das casas de Fronteira e Alorna

quarta-feira, 14 de maio de 2014

António Avelino Amaro da Silva

De António Adelino [sic] Amaro da Silva pouco se conhece nos dias de hoje.

Pouca memória têm os homens!... (1)

António Avelino Amaro da Silva teria nascido em meados da década de 1820, possivelmente em Lisboa.

Era filho de António Silva, natural de Adão Lobo, Cadaval, nascido a 31 de julho de 1801 e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, que teriam casado em 1821, ou pouco antes.

António Silva, seu pai, conhecido por "Silva das barbas brancas", era o veterano que transportava a bandeira nos cortejos comemorativos do 24 de julho de 1834, evocando a entrada do Duque da Terceira e das forças liberais na cidade de Lisboa.

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910, usada pelos Liberais
Imagem: Wikipédia

Este  veterano possuía a medalha das Campanhas da Liberdade (instituída em 1861) com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, e a Torre e Espada que lhe fora concedida pela Junta Governativa do Porto, em 1846.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Teria tido catorze filhos, dos quais se conhecem, para além de António Avelino Amaro da Silva, Francisco Emygdio da Silva, primeiro taquígrafo da camara dos deputados, e Christiano Gerardo da Silva, professor de musica e artista.

António Silva, pai, morreu em 1879, com 79 anos.

António Avelino Amaro da Silva, agrimensor, piloto examinado pela Escola Naval Portuguesa.

Terá permanecido no Império do Brasil, durante o reinado de D. Pedro II, onde terá exercido engenharia civil, na região de Valença no Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

A partir  de 1852  o seu nome é por diversas vezes referido na imprensa periódica do Rio de Janeiro relativamente a actos pessoais, legais e administrativos ou, mais frequentemente, em listas de passageiros de diversos navios, registos das muitas viagens que fez entre Portugal e Brasil. *

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Em 1859 publica no Correio Mercantil o anúncio do seu casamento e estabelece nova residência.

Valença
Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:
Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino. no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.
Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.


Em 1863 publicou o romance histórico "O Caramujo", que descreve com notável realismo os acontecimentos de 23 de julho de 1833, a batalha da Cova da Piedade, assim como outros factos, eventos e aspetos da vida dessa época no concelho de Almada.

Capa do livro Amaro da Silva, António Avelino, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

Alguns autores colocam-no como testemunha presencial batalha da Cova da Piedade, o que é no entanto pouco provável, pois teria pouco mais de dez anos à altura dos factos.

António Silva, seu pai, então com 32 anos, poderia ter participado na batalha da Cova da Piedade ou, ter recolhido a acurada informação de outros membros da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Em 1877 encontramos Antonio Avelino Amaro da Silva, acompanhado de uma filha, na lista de passageiros do paquete Cotopaxi na viagem Rio de Janeiro — Lisboa.

Poderia ter sido esta a viagem do regresso definitivo a Portugal.

Anúncio da Pacific Steam Navigation Company, Diário Illustrado, 28 de março de 1877
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A notícia do óbito de António Avelino Amaro da Silva refere a posse da Torre e Espada concedida pela Junta Governativa do Porto em 1846 que, provavelmente, teria sido aquela concedida a seu pai.

Faleceu na sua casa, em Carnide, no ano de 1889.

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil.

Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho.

Também já é fallecido [à data da publicação do livro de Pedro Wenceslau de Brito, 1908].

Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar.

Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade.

Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza.

Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (2)

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal. 

Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro. 

Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...] (3)

Fallecimentos
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil.
O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846.
Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal. (4)



(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

(2) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

(3) Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

(4) Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889

Hemeroteca Digital Brasileira

Leitura adicional: Costa Leite, Joaquim da, O transporte de emigrantes: da vela ao vapor na rota do Brasil, de 1851 a 1914




O SILVA DAS BARBAS BRANCAS  (*)

[Excertos do artigo que retrata António Silva, pai de António Avelino Amaro da Silva, escrito em 1879. As notas em itálico são da edição de 1908.]


.
António da Silva, o veterano da bandeira
Imagem: Archive.org

I

Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa ;

e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporânea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade ;

Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias dúplices lançava para fora do fino peitilho da camisa aquellas alvíssimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos;

é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.

Esta commemoraçao deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se ; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros;

II

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval ;

e veio para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Embarque da família real para o Brasil no cais de Belém, gravura, Henry L'Évêque
Imagem: Wikipédia

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno António e entrega-lo ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notável, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminência dos factos contemporâneos, Fernandes Thomás, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclítos varões, o 24 de agosto de 1820.

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se nuns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramo-lo já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudas fainas da caserna.

Tinham-no intimado para assentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental, mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia desse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época ; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario ;

III

É geralmente sabido, que os dois primeiros quartéis do século XIX foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporânea numa serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, ódios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho ;

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz ; uma época de combates, de lutas terríveis e homéricas, que parecia ser impossível emprehenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem: porque a 1820 succedia 1824; a esta data seguia-se 1828; depois vinha 1829 e 1834; depois 1836, 1837, 1838, 1840, 1844, 1846.


V

Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro ;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses beneméritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho de 1879, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva, primeiro tachygrapho da camara dos deputados;

Já falleceu. Era um santo homem.
Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão.
O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entrega'-lo aos pães para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário.
Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho !

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil ;

Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho.
Também já é fallecido [à data da publicação do livro, em 1908. Falecera em 1889].
Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar.
Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade.
Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado oíRcial miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza.
Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado.

e Christiano Gerardo da Silva, professor de musica e distincto artista.

Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros.
Está retirado da vida artistica.
E' proprietário em Lisboa.
Vive, edoso e doente.

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Tropas aplicam vergastadas a um popular durante a Patuleia
Imagem: Wikipédia

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850.

Preparava-se a regeneração.

Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava :

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes !


23 de julho, 1879.

O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descrere no tomo n as exéquias solemnes celebradas na parochiai egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja esuva um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus.

Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota :

"Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda assim pôde realizar a quantia de 15$500 réis" .

 (*) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

domingo, 11 de maio de 2014

Largo do Costa Pinto

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente.

Um regabofe.

Da iluminação da Avenida diz-se: — Dos Restauradores para cima dirige o Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o... (1)


Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Registrando o desastre que reduziu à miséria os pescadores da Costa de Caparica, não podíamos deixar de inserir o retrato do infatigavel e benemerito deputado por Almada, Jayme Arthur da Costa Pinto, a quem se deve a iniciativa dos soccorros tendentes a minorar o infortunio d'aquelles infelizes.

O digno representante do circulo d'Almada é natural de Lisboa.

Arrojado, emprehendedor e honesto como poucos, e tendo meios de fortuna que o tornam independente, entregou-se a vida politica, e ja por tres vezes tem representado em côrtes o circulo d'Almada.

É, ha uns poucos de annos, secretario da junta geral do districto de Lisboa, eleito pelo circulo do Barreiro, Seixal e Cezimbra, e tem ali tomado parte em quasi todas as discussões, prestando os maiores serviços ao districto de Lisboa e muito especialmente ao seu circulo.

Como deputado é incansavel, e nao ha memoria de quem tenha prestado mais relevantes serviços aos seus eleitores.

A elle se attribue a extincção do  grande pantano da Trafaria e as obras que ali se estão fazendo e que vão transformar n'um vasto parque de pinheiros aquella paragem.

Foi tambem por sua iniciativa que se destruiu o famoso forte de Cacilhas, transformando-se n'uma vasta praça aquelle montão de ruinas.

Notícia do jornal O Século em 2 de Março de 1884
Imagem: Antigos Alunos Emídio Navarro

No grande incendio que ainda ha pouco houve n'uma fabrica de cortiça na Margueira, o sr. Costa Pinto foi um dos primeiros a comparecer prestando valiosissimos serviços.

O sr. ministro do reino Thomaz Ribeiro quiz por essa occasiào agracial-o com a medalha de prata que s. ex.a recusou.

Jayme Pinto, durante a ultima legislatura, tomou larga parte na discussão do imposto do sal, defendendo energicamente os interesses dos pescadores e das classes pobres.

Ultimamente, o governo teve de ceder, n'esta questão. ao judicioso e acertado alvitre do illustre representante, que pediu a extincção do imposto do pescado na sardinha e no carapau, em troca do imposto do sal.

Jayme Authur da Costa Pinto foi um dos directores da Exposição Agricola que ultimamente se realisou na Tapada da Ajuda, e um dos que mais contribuiram para o seu exito brilhante.

É editor de uma publicacao agricola, redigida pelo conselheiro João de Andrade Corvo, e fundou em Lisboa a Empreza Industrial e Commercial Agricola, para a venda de machinismos e adubos que ainda hoje existe.

Taes são os traços priucipaes da vida d`este trabalhador honesto, a quem os habitantes da Costa de Caparica tanto devem. (2)

No dia 23 de Outubro de 1892, realizaram-se eleições para deputados.

Apresentaram-se dois candidatos monárquicos: António José Batista, apoiado pelos Progressistas, e Jaime Artur da Costa Pinto, proposto pelo Governo, através do administrador do concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira e apoiado pelos conservadores da cidade, ligados ao Partido Regenerador, a que se juntou o Progressista António Rodrigues Manitto.

Os Republicanos mais radicais não aceitavam apoiar António José Batista por este ser monárquico.

Assim, juntaram-se aos seus correligionários do resto do país, numa tentativa de luta contra os vícios eleitorais instituídos.

Convocaram uma assembleia democrática para o dia 28 de Setembro, na qual elegeram uma comissão com a incumbência de elaborar o Manifesto dos Abstencionistas, que dirigiram a todo o país.

Os ânimos agitavam-se na cidade, uma vez que o candidato governamental era apoiado pelo administrador do Concelho Maurício Carlos Martins de Oliveira, homem muito contestado, face aos incidentes verificados na cidade aquando do Ultimatum Inglês.

Assim, durante a campanha eleitoral de 1892, António José Batista aproveitou a animosidade existente e utilizou aqueles acontecimentos contra o seu opositor.

O resultado, tal como todo o processo eleitoral do círculo, foi amplamente contestado, pois o presidente da Mesa Eleitoral de Alcácer do Sal fora substituído, no momento das eleições, por um homem da confiança do administrador do concelho.

Alcácer do Sal, ed. Martins/Martins & Silva, 139, década de 1900
Imagem: Delcampe

Foram ainda colocados, por detrás da Mesa, dois homens com sacos contendo votos com o nome de Jaime Artur da Costa Pinto, que entregavam a todos os eleitores na altura da votação.

Estes eram obrigados a introduzir o boletim na urna ou a trocá-lo na presença da Mesa.

Poucos tiveram coragem de efectuar a troca.

A própria urna fora feita na véspera das eleições, com fundo facilmente violável e depositada durante a noite, com os votos do dia anterior, numa casa junto à Igreja.

António José Batista comunicou ao Rei estes acontecimentos, assim como a permanência de dois homens (um dos quais era vogal da Mesa) na Igreja, durante a noite, para poderem trocar os votos já introduzidos na urna.

O Rei prometeu fazer justiça e remeteu o caso ao Ministro do Reino, que não tomou quaisquer providências.

No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, as autoridades prenderam os dois indivíduos, escondidos na Igreja desde a véspera, mas a burla já estava feita e o administrador do concelho, longe de remeter os prevaricadores ao tribunal, mandou-os para casa, sem qualquer admoestação.

in Vamos viajar no Tempo, Políticos Setubalenses


Em Cascais, inaugurou-se, na tarde de 5 deste mês [setembro de 1954], um monumento a Jaime Artur da Costa Pinto, que foi deputado da Nação e presidente [, desde 1890,] da Cámara Municipal daquela formosa vila e estância turística.

Nascido em Lisboa em 1846, faleceu nesta mesma cidade no dia 10 de Janeiro de 1909.

Foi um homem de coração generoso e um espírito de largas iniciativas.

Deputado em várias legislaturas pelos círculos de Almada, Barreiro, Lisboa, Mafra, Seixal e Sesimbra, nunca, através da sua acção, procurou servir os seus interesses pessoais, mas, sempre, os problemas locais e as obras de assistência.

Gomes Netto
Gomes Netto vs. Costa Pinto
por Raphael Bordallo Pinheiro
Revista Pontos nos ii
104
107
109
112
159

Costa Pinto

Foi provedor do Asilo da Ajuda e da Real Casa Pia de Lisboa.

Como presidente do Municipio de Almada, conseguiu a extinção do pantano da Trafaria e a fixação das dunas, com a plantação de pinhais.

Ao longo de 19 anos, como presidente da Camara Municipal de Cascais [SIPA], realizou obra igualmente notável.

Cascais, Praça D. Luís e Edifício Municipal, ed. J Vianna, 19, c. 1885
Imagem: Real Villa de Cascaes no Facebook

O homem de coraçao manifestou-se em muitas obras: no bairro dos pescadores da Costa da Caparica e na sua qualidade  de sócio fundador da Associaçao Protectora das Crianças.

Cascais, entre outros melhoramentos, deve-lhe a construção da Escola-Monumento D. Luis I.

O seu testamento foi escrito em Cascais, na sua casa da Rua da Alfarrobeira, "tendo por tecto a copa das árvores que ha cerca de trinta anos com as minhas mãos plantei, e as quais são para mim velhos amigos que nunca me deram desgostos, mas sim refrigério e gozo".

Esse homem, bondoso e de espirito empreendedor, (fundou também a Companhia Promotora da Agricultura Portuguesa), foi amigo pessoal de L. Mendonça e Costa, primeiro proprietário e director da Gazeta dos Caminhos de Ferro. (3) 

Companhia Real Promotora da Agricultura Portuguesa, título de uma acção
Imagem: HWPH



(1) Brandão, Raul, Memórias, Vol. I, Porto, Renascença Portuguesa, 1919

(2) Almanach Illustrado do Correio da Europa, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1278, 30 Jun. 1914

(3) Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1602, 16 de setembro de 1954

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Avenida Gomes Neto

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc., avenida Gomes Netto no tempo da monarquia
Imagem: Delcampe

Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é necessario anotar rapidamente [...]

Entre essas figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso pratico.

Não raro o encontravam em mangas de camisa no seu escriptorio.

Escrevia em largos quartos de papel e depois dizia: — Ponham-lhe lá a gramatica!

— Acabou já velho e amoroso, fazendo todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que depois ia distribuir de coupé por casa das amantes, pescada aqui, pescada alli... (1)

José António Gomes Neto
Imagem: Hemeroteca Digital

Dia 17 do mês corrente, surpreendeu-nos a noticia, por Lisboa, em fóra, rapidamenta propalada, do falecimento do muito conhecido e muito respeitado homem-de-negocios, e riquissimo proprietário, que foi Antonio José Gomes Netto.

Homem dotado de grande actividade, tornou-se uma figura de destaque no nosso meio comercial.

Era natural de Ovar, onde nasceu por 1836.

Os seus principios de vida foram um modesto emprego de caixeiro na empresa de navegação, agencia de Chambica & Gonçalves, no Caes do Sodré.

Inteligente, pertinaz, laborioso-da situação mais humilde guindou-se a uma condição altíssima, possuidor duma avultada fortuna e credôr da consideração e estima dos seus concidadãos e consocios.

Por um acurado esforço e sagacidade, supria falta de estudos classicos que não obteve. em parte de muitas empresas e companhias onde ocupava sempre logar proeminente, todas elas relevantemente conceituadas no espirito publico.

Foi presidente da Companhia das Lezirias, administradôr da Empresa Nacional de Navegação e director do Banco de Portugal.

Para se ser político na mais alta significação do têrmo é necessário ter uma vida completamente limpa de empregos e sinecuras dependentes do Estado.

Não é infelizmente assim em Portugal.

Aqui são raros os homens da política que não comem de companhias e de fartos empregos do Estado.

Não há companhia ou banco onde se não acoitem, recebendo ordenados d'essas companhias, d'esses bancos e dos cofres do Estado n'um impudor que passa todas as marcas da immoralidade.

[Cargos desempenhados por António José Gomes Neto:]

  • Presidente da Assembleia Geral do banco da Economia Portugueza;
  • Vice-Presidente da Assembleia Geral do banco Commercial de Lisboa;
  • Membro do Conselho Fiscal da Companhia dos Phosphoros;
  • Presidente da Assemblea geral da Companhia de Seguros Portugal;
  • Vice presidente do banco Lisboa & Açores;
  • Director do Banco de Portugal;
  • Presidente da Assembléa Geral da Companhia Commercial Angola;
  • Presidente da nova Companhia Ascensores mechanicos Lisboa;
  • Presidente da Companhia de Estamparia de Alcântara;
  • Presidente da Companhia Fabril Lisbonense;
  • Presidente da Sociedade Portugueza de Seguros;
  • Presidente da Companhia de Seguros Universal;
  • Vice-presidente da Companhia de Seguros Tagus;
  • Vogal do conselho Fiscal da Companhia Portugueza de Carvão;
  • Vogal do Conselho Fiscal do Mercado da Praça da Figueira;
  • Director da Empresa Nacional de Navegação;
  • Vogal do Conselho Fiscal da Companhia do Congo Portuguez.

in Notas Verbais que cita informação publicada no Jornal "O Liberal", de 10 de novembro de 1909

Desempenhou com proficiencia o cargo de vereadôr da Camara Municipal de Lisboa e teve por vezes assento na Camara dos Deputados.

Gomes Netto
Gomes Netto vs. Costa Pinto
por Raphael Bordallo Pinheiro
Revista Pontos nos ii
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Costa Pinto

Ultimamente, apezar de velho e rico, nunca renegou o seu amigo de sempre um trabalho denodado e indefesso.

Enviuvara, ha pouco tempo, de D. Rosa Maria Gomes Netto.

Aos parentes e amigos, e especialmente aos seus filhos que lhe assistiram piedosamente nos ultimos momentos daqui enviamos a expressão das nossas mais sentidas condolencias.

Sem duvida, a noticia do falecimento de Antonio Gomes Netto causou no nosso meio uma funda sensação de pesar.

A casa do extinto, deixaram cartões de pesames personalidades de grande representação social.

Tambem, a familia do falecido, fôram remetidos telegramas do sentimento de alguns chefes politicos do venerando Presidente da Republica Portuguésa.

É que, na verdade, Antonio José Gomes Netto, impunhasse, pelos seus dotes de caracter e inteligencia, á consíderação de todos. (2)

Mandado construir por iniciativa de António José Gomes Netto, foi projectado pelo arq. Jorge Pereira Leite [...]

[... o] edifício [onde residia Gomes Neto] recebeu, ex-aequo com outro imóvel, uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não foi muito bem aceite, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano [...] (3)

Lisboa, avenida da Liberdade, Ferreira da Cunha, década de 1930
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

António José Gomes Neto, deputado por Almada tanto serviu o partido Regenerador como o Progressista.

Adaptou-se sem dificuldades de maior à queda da monarquia manteve-se nas funções de director do Banco de Portugal desde 1879 até ao fim dos seus dias.

Cédula de mil réis com a inscriçáo "República" e assinatura do director Gomes Netto
Imagem: invaluable


(1) Brandão, Raul, Memórias, Vol. I, Porto, Renascença Portuguesa, 1919

(2) O Ocidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1278, 30 Jun. 1914

(3) Câmara Municipal de Lisboa Edifício de Habitação na Avenida da Liberdade, 262-264

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Costa no século XIX

"Deverá o velho morrer sozinho, irmãos? Deverá o velho morrer sozinho?

Não haverá homens na cristandade, para reunir em volta de seu trono?

Não haverá mãos esquerdas para agarrar a espada dos heróis que partiram [...]"

O autor, padre Hughes, foi um galês que em 1860 ofereceu os seus serviços ao Patriarca de Lisboa para evangelizar a então totalmente negligenciada costa de Caparica, a sul do Tejo.

Não só encorajou e inspirou os moradores, como lhes construiu a igreja e, também, realizou um grande trabalho social com a plantação de eucaliptos e pinheiros ao longo de quilômetros de areal, livrando assim a região da febre dos pântanos. (1)

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Refira-se que a Costa de Caparica só começou a ser ocupada a partir de finais do século XVIII.

Era então um lugar inóspito e desabrigado onde dominavam terrenos pantanosos e dunas com escassa vegetação rasteira sem outra protecção contra a inclemência do Verão.

Era também um lugar isolado pelos vastos pinhais (do conde de Arcos) que o separavam da Trafaria (então principal porto de pesca da zona) e do Monte de Caparica, tendo por isso proporcionado abrigo a salteadores e piratas.

Foram pescadores de origem algarvia e de Ílhavo que começaram por se fixar na Costa apenas durante os meses de Outubro a Dezembro, construindo para o efeito choupanas de junco e colmo, que incendiavam ao partir.

As primeiras companhas de pesca a fixar-se com carácter definitivo fazem-no em 1770.

Instituíram a figura do "Cofre dos Quinhões", organização de carácter mutualista e assistêncial que provia à protecção e alimentação dos órfãos e das viúvas, ao pagamento dos ordenados na ausência de faina e ainda à construção e/ou beneficiação de edifícios de interesse comum: vedação do cemitério, construção da igreja e do poço de água doce que abastecia a população.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

Numa descrição do local de 1896, a Costa continua a ser uma zona de "grandes pântanos, outrora cobertos de juncos e hoje quase totalmente cultivados de vinhas e arvoredos".

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902
Imagem: IGeoE

O centro da povoação situava-se no areal, onde havia o conjunto de “várias barracas de colmo, da origem primitiva, salpicadas agora de grande número de brancas e singelas casinhas”.

Hoje [1978] não há rivalidade entre as famílias daquelas duas regiões, mas resta a Rua dos Pescadores, sinal da antiga fronteira.

Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), 1978, Almada, Câmara Municipal de Almada, 316 págs.

A norte está a igreja, "abaixo da rocha, ao norte do pântano, destaca-se o pequeno cemitério, ao fundo do vasto areal, sempre cortado por médos ondulantes de uma finíssima areia, espraia-se na extensão de 3 léguas o oceano Atlântico".

Existiam nesta data 8 companhas de pesca, que lançavam as redes entre o mar da Laje e a Fonte da Telha, numa distância de 2 léguas.

Em 1824 existia uma única casa de alvenaria em toda a povoação, possivelmente construída por volta de 1820, pelo seu proprietário, mestre de redes José dos Santos.

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

A esta casa ficou ligada a lenda da presença do rei D. João VI que, após aqui ter comido uma caldeirada, mandou colocar na fachada a sua coroa de armas.

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

Vários incêndios ao longo dos tempos deflagraram na povoação [...]
Em 1840, o grande fogo, denominado da Quinquilharia [do quinquilheira], devorou 98 barracas;

em 1864, outro fogo, rememorado como o da Rosa do Cheché, reduziu a cinzas 55 choupanas;

em 1884, um terceiro sinistro ficou na história da região como o Fogo do Costa Pinto, pelos grandes benefícios que por essa altura foram recebidos do honrado deputado por este círculo, tendo ardido ainda desta última vez 60 barracas.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

Convém citar aqui o nome completo desse cidadão: Jaime Artur da Costa Pinto (1846-1909), conhecido nestas paragens como o Pai dos Pobres, pela sua entrega total ao bem comum.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Correia, Romeu, Op. Cit.
A partir de 1884, devido à intervenção do deputado às Cortes, pelo círculo de Almada, Jaime Artur da Costa Pinto, a Costa de Caparica vai ser sujeita à construção de uma primeira urbanização, de 54 casas de alvenaria e um arruamento (Rua Jaime Artur Costa Pinto).

Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Almanach Illustrado do Correio da Europa

Oito anos antes a igreja tinha sido reedificada em "pedra e cal" por acção de um "brasileiro" residente [João Inácio Alfama, ou João Inácio da Costa].

Costa da Caparica, ed. Lif, 04, Igreja da Nossa Senhora da Conceição, 1945
Imagem: Delcampe

Em 1882 foi aberta a vala de esgoto e iniciaram-se as florestações, numa tentativa de melhorar as más condições ambientais que ainda persistiam.

No nº. 1 do jornal A Realeza, de 2 Setembro de 1882, é publicado o artigo "Direcção do pântano do Juncal e fixação das dunas e arborização dos terrenos da Trafaria e Costa de Caparica, onde se pretendia efectuar a arborização em pinheiros e eucaliptos numa área de 1500 hectares para prender as dunas ou areias moventes da Caparica, vale da Trafaria e pântano do Juncal da Costa".

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112, década de 1930
Imagem: Delcampe

Considerava-se ser esta a melhor acção para terminar com a vasta extensão pantanosa que rodeava a povoação, provocando frequentemente epidemias e paludismo.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960
Imagem: Delcampe, Oliveira

Por iniciativa do padre Bailie Hughes, de origem americana [sic], foi criada logo em 1876 uma sala de aulas feminina para o ensino primário e mais tarde, o Colégio do Menino Jesus, para rapazes e que existiu até 1901. (2)

Costa da Caparica, um piquenique familiar, em segundo plano a igreja e o Colégio do Menino Jesus, década de 1900
Imagem: Arlindo Pereira


(1) The TABLET

(2) Programa POLIS — Plano Estratégico da Costa de [sic] Caparica, 4. 2. 1. Nota Histórica, sobre texto de Correia, António, com citações de Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896


Leitura adicional: Costa da Caparica