segunda-feira, 14 de julho de 2014

Manuel de Sousa Coutinho

Manuel de Sousa Coutinho (1555 — 1632), frei Luis de Sousa (1613 — 1632)

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticisrno e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.
Imagem: eBay

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez.

Inutil portanto recordal-o.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu.

D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convencerêim o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Cinema português — Frei Luis de Sousa — Video 1


Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjüges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.


Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado. N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

"Accrescentou que fôra elle quem alli o mandára"
Imagem: Hemeroteca Digital

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo ; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-bia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, onde veiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol". (1)
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.

(1) Sabugosa, Conde de, Almada pelo conde de SabugosaSerões: revista mensal ilustrada, n° 2, Lisboa, 1905.
Fonte: Hemeroteca Digital 

Leitura relacionada: 
Garret, Almeida, Frei Luís de Sousa ; Um auto de Gil-Vicente, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão, 1900.
Sousa, Frei Luis de, Annaes de el rei D. João III, Lisboa, Alexandre Herculano, Typ. da Sociedade propagadora dos conhecimentos uteis, 1844.

Artigo relacionado: 
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Almada de Francisco Inácio Lopes

Francisco Inácio (Ignacio) Lopes (1806 — 1893)

Aos 21 anos licenciou-se pela escola médica de Lisboa, tendo logo evidenciado a sua rara habilidade para o exercício da profissão, que imediatamente iniciou na terra da sua naturalidade [Almada], o que levou a Câmara, com o apoio da opinião pública, a nomeá-lo médico do partido do município, em junho de 1830 [...]

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830
Por decreto de 19 do corrente mes

Cirurgião Mór das Fortalezas e Baterias ao Sul do Tejo, sem vencimento algum, o Cirurgião do partido da Camara da Villa de Almada
Francisco Ignacio Lopes.

in Gazeta de Lisboa, n.° 131, 4 de junho de 1833.
[...] em 1850, aquando das eleições municipais, foi eleito vereador, e a Câmara em breve, o elegeu Presidente.

Por duas vezes e em épocas diferentes foi o dr. Francisco Inácio Lopes presidente da Câmara Municipal de Almada, onde realizou uma obra notabilíssima.

Vue de la rade et de la ville de Lisbonne
Imagem: Le Monde illustré, 1858, M. de Bérard.

Funda o Serviço de Socorros de Incêndios em 1850; manda construir poços em Vale de Rosal e Romeira; reedifica o chafariz da Fonte Santa; restaura o caminho novo para a Costa de Caparica, a calçada da Fonte da Pipa,

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

a calçada da Trafaria, as estradas da Amendoeira, da Mutela e do Pombal, e promove muitas outras obras, entre as quais o cais de embarque e desembarque em Porto Brandão.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Contribui também para a construção da Capela do Cemitério; da Praça e Casa do Açougue; da Casa para a "Bomba", e, em 1860, voltando a ser presidente da Edilidade, promoveu a iluminação pública de Cacilhas e de Almada (luz de azeite).

Lisbonne
Imagem: L'Illustration, Journal Universel, 1860, Anastasi.

Finalmente, como último empreeendimento, manda construir o Grande Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Foi deputado às corte pelo círculo de Almada, vindo a ser reeleito três vezes até 15 de Janeiro de 1868 e, no ano de 1880, é novamente eleito procurador à Junta Geral do Distrito, o mesmo acontecendo no ano de 1886. (1)

Dr. Francisco Inácio Lopes.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada
O resultado das eleições supplementares para deputados foi quasi todo favoravel ao ministério; apenas três candidaturas da oposição puderam vingar, e por pequena maioria: foram ellas as dos srs. Francisco Ignacio Lopes (cirurgião) [...]

in Diário do Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1860


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Mais informação:
Occidente n° 541, 1 de janeiro de 1894

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

[...] nenhum carreiro desta vila assim como do seu termo passe com o seu carro carregado, nem vazio pela calçada de Mutella e São Simão, salvo quando fizerem tão notaveis atolleiros que não possão hir por outra parte  [...]

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

[...] quem tiver vinhas e herdades que entestarem nos caminhos do concelho que fação as testadas dos seus valados e cortem os seus silvados e mattos de maneira que os caminhos sejam livres e dezempachados [...]

[...] os caminhos do concelho, e nos vallados das ditas havia muntos mattos silvados de maneira que tapão os caminhos e o sujão de maneira que não podem andar neles [...] (1)


A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A situação de Portugal nesta epocha [1807] era bem lastimosa; não havia estradas; o estado dos caminhos, em geral, mau ou pésssimo, tinha-se tornado perigoso pelo rigoroso inverno; chuvas copiosas, tresbordo de rios e ribeiras, grandes innundações haviam assolado o paiz, tornando difficil, penosa e arriscada a marcha das tropas; (2)

Carta militar das principaes estradas de Portugal (detalhe), Lourenço Homem da Cunha de Eça, 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 A cituação e a commodidade que offerece o porto de Cassilhas de toda a hora se encontrar maré, condição unica que não acha nos outros portos da margem esquerda do Tejo

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

fariam da Villa de Almada hum ponto mais interessante para a circulação do commércio interior do Alentejo do que Mouta ou mesmo Aldea Gallega, 

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa  (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

se as estradas fossem melhores, ou antes se houvessem estradas de comunicação, pois que passado o recinto da Villa, os caminhos para toda a parte são pessimos, não offerecem senão estorvo ao transporte, por serem antes trilhos do que estradas reais. (3)

Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no Diccionario Chorographico publicado em 1878, Agostinho Rodrigues de Andrade estabelece uma classificação das diferentes vias.

Assim, são de primeira ordem as estradas reais (de primeira e segunda classe), enquanto nas de segunda ordem inclui os caminhos municipais e vicinais.

No concelho de Almada este autor identifica estradas de segunda ordem que ligam a vila a Sesimbra à Trafaria e esta à Costa. 

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Já no Seixal, apenas refere a estrada que liga a povoação a Sesimbra passando pela Arrentela.

Companhia de laníficios da Arrentela, desenho Nogueira da Silva, gravura João Pedroso,  1858.
Referências: Lugares do concelho do Seixal, Restos de colecção 
Imagem: Hemeroteca Digital

Embora se concentre na freguesia de Caparica, a obra de Vieira Júnior, datada de 1897, refere diversas vias de comunicação, designando estradas reais e distritais. azinhagas e caminhos. sem no entanto as caracterizar.

Identifica como real a já referida estrada para a Trafaria, passando pelos lugares de Casas Velhas, Torrinha, Costas de Cão, Cova, Pêra e Valle de Meirinho.

Referindo as estradas distritais, o autor salienta a que atravessa a Chameca vinda do Arieiro como: "sendo esta o melhor lanço de estrada que existe em todo o concelho de AImada", de onde também parte a estrada para a Costa.

A caminho da Costa da Caparica, João José Penha Lopes, 1921.
Imagem:Arquivo Municipal de Lisboa

No lugar da Torre entroncam as estradas que conduzem a Almada, à Charneca, ao Porto Brandão e à Trafaria.

No vale da Sobreda passa, segundo o mesmo texto, um caminho que conduz à estrada real, passando em Casas Velhas. 

De Murfacém saem para a Trafaria "dois caminhos principaes, a estrada velha e o moderno accrescente da estrada districtal".

Por último, são ainda registadas duas azinhagas, uma "que do Salgado vae á Seixeira, Silveira, Urraca, e Ginjal (Monte), até ao Bicheiro pela estrada real" e outra "de Poçolos ao sitio das Casas Velhas, pelo caminho a da 'Formiga',  se volta ao 'Monte' propriamente dito". (4)


Em 1862, a rede de estradas existente e projectada é classificada em 1.ª classe, estradas reais (com origem directa ou indirecta — travessias fluviais p. ex. — em Lisboa), 2.ª classe, estradas distritais, e estradas municipais, estas últimas geridas pelos munícipios.


Estudo, construção, reparação e conservação das
estradas ordinárias, Escola do Exército, 1897 — 1898

Com a abolição da monarquia em 1910, as estradas Reais foram renomeadas estradas nacionais.


Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Em 1913, as estradas distritais foram também renomeadas estradas nacionais. (5)


(1) Posturas da Câmara Municipal de Almada, 1750, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(2) Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

(3) AHMOP, Memoria Económica da Vila d'Almada, e seu Termo, 1835, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(5) Fonte: Wikipédia


Referências:

Andrade, Agostinho Rodrigues de, Dicionário corográfico do reino de Portugal, Coimbra, Imp. da Universidade, 1878, 254 págs.

Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Liberato Teles

Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1843 — 1902)

É um illustrado funccionarío das obras publicas, conductor de 1.a classe do quadro auxiliar do corpo de engenheria civil sr. Francisco Liberato Telles de Castro da Silva, [...] prestando assim homenagem a um cavalheiro muito apreciavel pelos seus dotes de technico, de artista e de erudito, tres qualidades que reunidas formam um caracter deveras distincto.

Francisco Liberato Telles de Castro e Silva.
Imagem: Hemeroteca Digital

Como technico tem publicado varios estudos interessantes sobre diversas especialidades do seu conhecimento.

Data de 1873 o seu primeiro livro intitulado "Guia do empreiteiro". pequeno volume contendo formulas, tabellas, indicaçäo de processos de contstrucção, traçados de estradas, series de preços, etc; a clareza com queãistá escripto e a rnaneira por que o assunpto está tratado tomam este livro muito util e efficaz aos empreiteiros, mormente os de estradas.

Embora iniciada assim, por um livrinho de valor, a serie dos seus estudos, Liberato Telles só dezoito annos depois publicou o novo trabalho intitulado "Duas palavras sobre pavimentos", que é um tratado completo sobre processos antitigos e modemos usados no revestimento dos pavimentos, c no qual sob a forma de livro o auctor publicou os seus preciosos apontamentos profissionaes, enriquecendo-os de curiosas notas históricas. 

Demanda este trabalho muita atenção na regularização da superfície a calçar nivelando-se muito bem, em seguida fixar-se-ão os moldes dos desenhos a produzir, partindo dos centros para os lados; a posição do molde é determinada por meio de esquadria, ou por outra, determinado o eixo da rua, passeio, etc., fixar-se-á nos extremos um cordel indicando-o, e deste modo para o lado se levantarão perpendiculares e só por meio delas se poderão assentar convenientemente os moldes.

Assentes estes, começar-se-ão a encher os vazios com pedra de dimensões iguais às da calçada com pedra miúda, encostando-as de encontro aos moldes, preparando-se muito bem a pedra para poder produzir esse fim — cheios os vazios tiram-se os moldes e calcetam-se com pedra de outra cor o espaço por eles ocupado, empregando-se todos os cuidados na execução, obtendo-se assim bonitos desenhos…

in  Teles, Liberato, Duas palavras sobre pavimentos, Lisboa, Typographia da Companhia Nacional Editora, 1896, 272 págs.

No anno passado sahiram do prélo a primeira e segunda edicão do primeiro estudo sobre Construcção Civil intitulado "Arte de Dourar", collecção de processos, enriquecida de varias notas interessantes acerca de alguns artistas douradores portuguezes.

Agora no corrente anno, opulentou ,o sr. Liberato Telles a nossa bíbliograiàliia tecbnica, industrial e artistitica com uma obra de grande tomo e importancia, à qual a imprensa do pais se tem referido lisongeiramente e que, fazendo parte da serie "A decoração na construcçao civil", se intitula "Pintura simples", epigraphe modesta que occulta um riquíssimo peculio de processos artisticos de factura pictural.

Pintura simples, Liberato Telles.
Imagem: Alfarrabista Roma

Adorna-o egualmente um interessante esboço historico da pintura, em que se delinem as épocas, tratando os pintores mais. notaveis de cada uma d'ellas, das ditferentes escolas e dos seus característicos, terminando com alguns traços biogaphícos dos principaes pintores portugueses. 

O texto principal da obrae assaz substancioso e util, pois trata detidamente das tintas, technica dos tons, dos oleos, das essencias, dos secantes, das gommas, das massas, das collas e dos vernizes usados na construcçäo civil, no interior e no exterior; segue-se a enumeração dos differentes generos de pintura e a reproducção dos variadissimos processos e termina por um album artisticarnente lithograpliado a cores com amostras das madeiras e marmores mais usualmente imitados.

Não sou Pintor como todos sabem, nem tenho a pretensão de passar por entendido no assunto como ficam sabendo; conheço apenas de pintura o que devem conhecer todos aqueles que seguiram a minha profissão.

in Teles, Liberato, Pintura Simples, A Decoração na Construção Civil, Lisboa, Typographia do Commercio, 1898, 1º vol 233 págs, 2º vol 252 págs.

Se a par d'estas obras publicadas e que tanto honram o seu auctor e abonam as suas faculdades de technico e tratadista nas especialidades, nós quizessemos tambem referirmo-nos às muitas obras de construcção civil que tem dirigido, muito teriamos a dizer, pois se lhe deve a cuidada e intelligente direcção de trabalhos importantes, taes como a transformação do velho pardieiro de Arroyos n'um hospital digno de vista; o alteamento do tecto da sala da Junta Consultiva de Obras Publicas, traballho em que se levantaram as asnas sem tocar no madeiramento; os grandes melhoramentos feitos no Lazareto, obras que dirigiu com notavel proliciencia, merecendo os mais decididos. louvores do engenheiro Cecilio da Costa.

Mas a obra que lhe foi querida por excellencia é a do ambamento interno do edificio da Madre de Deus, em Xabregas, onde o seu bom gosto e são criterio soube multiplicar-se em_carinhosos cuidados, forniando d`aquelIe historico edificio, verdadeiro escrinio de preciosidades, um incomparavel museu de antigos azuleios poriuguezes alli sabiamente collocados. obedecendo a methodica e artística distribuição. 

Ainda por ultimo são obra de direcção sua aquellas enormes abobadas que se estão fazendo no quartel dos marinheiros em Alcantara para sobre ellas assentar a respectivra parada.

Seria na verdade fastidioso querer deixar aqui uma mais Ionga enumeração das obras em que a actividade d'este distincto constructor se tem evidenciado, porque essa lista ficaria sempre muito longe da verdade.

Fallando assim um pouco pormenorisadamente dos trabalhos de Liberato Telles, não quizemos de modo algum. eximir-nos a fallar da vida do homem, accrescendo que o nosso periodico sempre prestou especial cuidado ás biograpliías dos seus retratados. 

Assim, sabemos que Liberato Telles é natural de Cacilhas, onde viu a luz do dia em 21 de janeiro de 1843. 

Pontaleto de Cacilhas, espólio do duque de Palmela, 1885.
Imagem: Delcampe

Seus paes, Francisco Liberato a Silva que foi 2.° commandante da guarda municipal, e D Maurícia Tellesde Castro da Silva, destinaram-o á carreira militar, onde a sua familia conta nomes illustres, frequentando para isso o Collegio Militar, cujo curso não completou, attrahido por outros estudos, como a economia politica, destinando-se à carreira diplomatica. 

Pela morte do conde do Lavradio que prometera protegel-o ne nova carreira, teve Liberato Telles que voltar para outros assumptosa sua actividade intelligente, trabalhando nas obras da fortificacão de Lisboa, e iniciando os seus estudos topográphicos, alcançando em 1863 o logar de aspirante a conductor, sendo collocado no districto de Santarem, onde em trabalhos importantes se conservou até 21 de dezembro de 1877, em que foi transferido para na direcção das obras publicas do districto de Lisboa.

Desde então para cá, Liberato Telles nunca deixou de affirmar os seus dotes de conductor illustrado, merecendo de mais em mais o dcsvanecedor apreço que todos que o conhecem lhe tributam, e ao qual nós juntamos tambem o nosso quinhão.  (1)
Os anuários comerciais de 1885 e 1888, no âmbito do levantamento de exitências de máquinas a vapor, referem a fábrica de britagem de pedra de Liberato Telles, na zona da Lapa, em Cacilhas.

Trituração de Pedras Liberato Telles & Companhia (Lapa, Cacilhas, 1885),
Docas A. J. Sampaio (Lapa, Cacilhas, 1888, 1896),
Fábrica de Britar Pedra Liberato Teles de Liberato Pinto (Cacilhas, 1888).


in A produção social da solidariedade operária: o caso de estudo da Península de Setúbal (1890-1930)

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Para concluir a revista d'este numero, reproduziremos uma noticia que vem avivar-nos a saudosa lembrança de Liberato Telles, ha pouco fallecido. 

Este distinctissimo conductor de obras publicas, ultimamente agraciado com a promoção ao honroso cargo de conductor principal, organizara uma monographia interessante, como outras que elle deu à estampa, ácerca do edificio e egreja do antigo convento de S Paulo, em Almada, cujas obras de restauração foram, durante bastante tempo, dirigidas por aquclle illustre e benemerito funccionario.

Esta memoria, porém, infelizmente ficou manuscripta, e foi pelo auctor offerecida e enderessada ao conselho superior dos monumentos nacionaes, acompanhada de um magnifico album contendo photographias das fachadas, planta e corte do edificio, onde repousam entre outras, as ossadas de fr. Francisco Foreiro, qualificador do Santo Officio, e confessar de D. Joäo lll, que alli falleceu em 1581, e de D. Alvaro Abranches da Camara, um dos mais valorosos campeões da independencia, em 1640, e heroe das luctas com os hollandezes no Brazil. 

O fallecido Liberato Telles, cujo dedicado amor pelas cousas nacionaes e pelos assumptos artisticos e archeologicos era bem conhecido, pedia que o antigo convento de S. Paulo, theatro do pungente drama da vida de fr. Luiz de Sousa, fosse considerado monumento nacional.

Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva.

Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.

ver artigo relacionado:  Almada em 1897

Ainda ha pouco, um dos nossos mais illustres investigadores, que tantos e tão relevantes serviços tem prestado à historia da arte nacional, o sr. dr. Sousa Viterbo, chamara sobre este ediñcio antiquissimo as attenções dos estudiosos, na sua interessantisstma Memoria, publicada na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias, intitulada: D. Manuel de Sousa Coutinho (fr. Luiz de Sousa) e sua mulher D. Magdalena Tavares de Vilhena (op. de 60 pg. — 1902).

Liberato Telles publicara tambem em 1901, no Boletim da Associação dos Conductores de Obras publicas, e depois em bella separata, a sua exceIente memoria acerca do antigo mosteiro e egreja da Madre de Deus, monographia acompanhada de um precioso album de illustrações de B. Ceia.

Relevante serviço prestariam por certo o Conselho Superior dos Monumentos, ou a referida Associação, publicando a memoria acerca do convento de S. Paulo. (2)



A Decoração na Construção Civil, Liberato Telles.
Imagem: Alfarrabista Roma


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 716, novembro, 1898.

(2) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 862, dezembro, 1902


Bibliografia de Liberato Teles:


Teles, Liberato, Duas palavras sobre pavimentos, Lisboa, Typographia da Companhia Nacional Editora, 1896, 272 págs.

Teles, Liberato, Pintura Simples, A Decoração na Construção Civil, Lisboa, Typographia do Commercio, 1898, 1º vol 233 págs, 2º vol 252 págs.

Teles, Liberato, Mosteiro e egreja da Madre de Deus, Lisboa, Imp. Moderna, 1899, .

Teles, Liberato, A arte de dourar, Lisboa, Typographia do Commercio, 1900, 3.a edição revista e aumentada, 108 págs.


Outras referências: O Paço de Cintra, Lisboa, Imprensa Nacional 1903.

sábado, 5 de julho de 2014

O visconde da Piedade

George Rose Sartorius (1790 — 1885)

[...] em 1832 George Rose Sartorius foi contratado pelos liberais portugueses para comandar as poucas forças navais de que D. Pedro IV dispunha, na luta contra a marinha de guerra portuguesa, então nas mãos do governo de D. Miguel. 

George Rose Sartorius
Imagem: Hemeroteca Digital

Nessas funções comandou a esquadra que transportou dos Açores os 7 500 Bravos do Mindelo, designação pela qual ficaram conhecidos os homens que constituíam a força que protagonizou o Desembarque do Mindelo.

Desembarque das tropas Liberais no Mindelo em 1832 (detalhe).
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

Foi substituído nessas funções por sir Charles Napier [em junho de 1833].

Após a sua passagem pela Marinha de D. Pedro IV, Sartorius estabeleceu relações profundas com Portugal, adquirindo propriedade no país e aí residindo durante períodos alargados.

Foi assim que em 1835, na sequência da extinção das ordens religiosas, adquiriu em hasta pública a Quinta dos Frades, em Almada, propriedade que originaria o título visconde da Piedade que lhe foi concedido em 1836.

Aliás, Sartorius aparece na lista dos 20 maiores compradores dos bens nacionais, essencialmente bens monásticos, alienados após a vitória liberal.
Os vinte principais compradores dos bens nacionais foram: José Bento Araújo, Domingos José Almeida Lima, Manuel José Oliveira, Conde de Vila Real, Manuel Joaquim Jorge, José Ferreira Pinto Basto, Visconde de Reguengo, João Oliveira, Luís Teixeira Sampaio, Duque de Palmela, Conde de Linhares, Conde de Lumiares, Jerónimo Almeida Brandão Sousa, João Deus Cunha, António Lamas, Domingos Luís Batalha, António Cunha Pessoa, George Rose Sartorius, João António Gomes Castro, Joaquim Manuel Namorado.

A partir do constitucionalismo, como assinala Oliveira Martins, surgiu uma classe separada, "a família dos políticos. A família dos políticos, que entre si jogam a sorte do país, como os soldados jogavam a túnica de Cristo. E essa família dos políticos é o apanágio indispensável do sistema constitucional em todos os países como o nosso, atrasados, pobres e fracos. A política é um modo de vida de alguns; não é uma parcela da vida de todos..."

in Centro de Estudos do Pensamento Político, A família dos políticos

A ligação a Portugal será mantida por toda a vida, tendo o velho almirante colaborado com as autoridades portuguesas na construção e aquisição em Londres de diversos navios, entre os quais a primeira Sagres da Armada Portuguesa, lançada à água em Junho de 1858, 

Corveta Sagres, Massarelos, rio Douro.
Imagem: Navios e Navegadores

e a corveta mista Bartolomeu Dias, 

Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Sabóia, 1862, óleo, João Pedroso.
Imagem: As corvetas mistas na obra de João Pedroso, Revista da Armada

projectado como clipper para a marinha mercante inglesa, mas adquirido ainda no estaleiro e adaptado a navio de guerra antes de, em Janeiro de 1858, ser lançado ao Tamisa, também sob a supervisão de Sartorius.

George Sartorius foi também um talentoso aguarelista.

Belem Castle Tagus, aguarela, George Rose Sartorius.
Imagem: AskART

Recebeu o título de visconde da Piedade por decreto de 1 de dezembro de 1836, visconde de Mindelo por decreto de 8 de Julho de 1845 e o de conde de Penha Firme por decreto de 19 de Agosto de 1853, todos por D. Maria II. (1)



A Quinta dos Frades, onde está hoje o Museu da Cidade, é referenciada desde o século XIV, quando em 1378 Pedro Afonso Mealha, na sequência de um processo de emparcelamento de pequenas propriedades, por sua morte, deixa a propriedade à administração dos frades predicantes da Ordem de S. Domingos.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

São estes religiosos que, entre 1380 — 1446, constroem o edifício sede da quinta, provavelmente próxima da actual localização do Museu.

Vulgarmente a propriedade passou a ser designada por Quinta dos Frades.

Em 1835, a partir da extinção das ordens religiosas, foi vendida em hasta pública ao almirante inglês George Rose Sartorius (que, entre outros títulos, recebeu o de Visconde da Piedade em 1836).

Em 1876 passa a ser propriedade de Custódio José Teixeira.

No final do século XIX a propriedade pertencia a José Ferreira Jorge Júnior, que constitui herdeiros dois sobrinhos da mulher, um dos quais, Mário Pereira Lage, é casado com a poetisa Florbela Espanca, que terá aqui vivido algumas temporadas.

No primeiro quartel do século XX a casa foi local de encontro regular de republicanos, tendo no seu exterior decorrido touradas e concertos da Banda [de música da Sociedade] Filarmónica União Artística Piedense.

Com a morte de Ferreira Jorge a quinta começa a ser retalhada à medida do crescimento urbano da cidade.

Os seus últimos proprietários particulares foram a família Barral, ligados à indústria corticeira com a fábrica Corsul.

Do primitivo edifício da Quinta restam apenas alguns vestígios arqueológicos do século XVII, XVIII: tanques, suportes em cantaria, pias e pavimentos de lajedo e tijoleira, postos a descoberto durante as obras de reabilitação da casa para instalação do Museu da Cidade, e que poderão ser vistos pelos visitantes.

O edifício principal teve várias intervenções nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX que alteraram a sua estrutura original. (2)

A morte de S. Domingos, painel do retábulo da coroação da Virgem, Fra Angelico, 1434 — 35.
Imagem: ricardocosta.com

A antiga Quinta dos Frades resultou do emparcelamento, efectuado entre 1361 e 1371, de um conjunto de quintas de pequena dimensão entre o Centro Sul e o Pragal, propriedade do funcionário régio Pedro Afonso Mealha.

Em 1378, Pedro Mealha doa os seus bens à Virgem Maria com a condição de serem administrados pelos frades franciscanos da Ordem dos Pregadores de Lisboa, passando a propriedade a ser conhecida por "Quinta dos Frades".

A construção da casa conventual, e sede administrativa de toda a propriedade, inicia-se em 1380 e demorará cerca de 60 anos a ser concluída.

Em 1834, após a vitória Liberal e consequente extinção das ordens religiosas, a Quinta é vendida em hasta pública, ao Almirante George Rose Sartorius, aliado das tropas liberais.

Entre 1935 e 1940, a parte norte da propriedade é expropriada para construção do Bairro das Casas Económicas do Pombal e acessos. (3)


(1) Wikipédia
(2) Museu da Cidade — História e Arquitectura
(3) Almadadigital

Informação relacionada:
Mosteiro de São Domingos de Lisboa
Título das capelas e fazendas de Pedro Afonso Mealha e outros pertencentes à Quinta de Muela

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

[...] escrevemos que bastam os dedos de duas mãos para enumerar os homens que, nos últimos cem anos, se interessaram com proveito sobre as coisas de Almada. Passamos a citá-los: Duarte Joaquim Vieira Júnior, D. Francisco de Melo e Noronha, Frazão de Vasconcelos, José Carlos de Melo, Luís de Queirós, João Luís da Cruz, Conde dos Arcos, Norberto de Araújo e António Correia. (1) 

Edifício sede da Incrível Almadense — Sede da colectividade situada na avenida Gomes Neto (actual av. Heliodoro Salgado), fazia esquina com a actual rua Carvalho Serra,  em 1898. 

Edifício sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Castanheira, Alexandre, Romeu Correia, Memória Viva de Almada

A Incrível Almadense antes de se transferir para a actual av. Heliodoro Salgado, esteve no local onde está a Associação de de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro (frente ao actual edificio-sede da Academia Almadense, mas por poucas meses do ano de 1893, em conjunto com a Associação dos Artistas Almadenses.

António Henriques afirma que a Incrivel Almadense depois de ter estado no edificio-sede que a estampa ilustra, foi para o local onde veio a estar o Hospital da Misericórdia (hoje, Hospital Distrital de Almada), em 1895. 

No primeira andar, viveu de 1938 a 1959, ano em faleceu com 75 anos, o publicista almadense José Carlos de Melo. 

No mesmo lugar o seu sobrinho Romeu Correia iniciou-se na escrita teatral.

in Castanheira, Alexandre, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992, 147 págs.

Breve preâmbulo 

11
Figuras não nascidas no concelho de Almada:

 
Gil Vicente 
13
Fernão Mendes Pinto 
14
Francisco de Andrada 
(Um documento de António Baião)
16
Frei Luís de Sousa 
19
Frei Francisco Foreiro 
21
D. Francisco Manuel de Melo 
21
Marquesa de Alorna 

 
23
Anacleto da Silva Moraes 
23
Padre José Agostinho de Macedo 
24
Manuel Maria Barbosa du Bocage 
25
José Lourenço de Carvalho 
27
Raimundo Bulhão Pato 
29
António e Francisco de Andrade 
31
D. Francisco de Melo e Noronha 
34
Manuel Fevereiro 
37
Bartolomeu Constantino 
43
Guilherme Coração 
44
Jerónimo Louro 
(Maestro Taborda)
45
Alfredo Simões Pimenta 
46
Francisco José da Silva 
(Origem da Incrível Almadense)
48
Caetano de Sousa 
("Palavras Necessárias" de Bento Gonçalves)
50
Alfredo Torres 
(Maestro Amadeu Stoffel)
58
Norberto de Araújo 
60
João Luís da Cruz 
61
José Augusto do Amaral Frazão de Vasconcelos 
63
Conde dos Arcos 
63
Mário Domingues 
65
Jorge Barbosa
66
Comandante Conceição Silva 
66
Augusto Luís "Agulhas"
68
José Correia Pires
70
Augusto Amado de Aguilar
71
Sebastião Lopes
73
Mário Bento 
74
Francisco Rodrigues Soares 
74
Carlos Soares 
75
Mário Mota 
75
Hortênsia Neves de Sousa 
75
Hélio Vieira Quartin
76
Fonseca Lobo 
76
Henrique Mota
77
Eurico da Fonseca 
77
Padre Manuel Marques
79
Gil Antunes 
81
Joly Braga Santos
83
Raul Pereira de Sousa 
84
Júlio Pomar 
86
Álvaro Pereira de Sousa 
87
Martins Lopes 
87
Maria de Lourdes Costa Arthur 
88
Joaquim Braga 
90
Mariano Calado 
91
Manuel Lourenço Soares 
Sociedade Recreativa União Pragalense, 
Sociedade Filarmónica Primeiro de Julho de 1890 (Fonte Santa), 
Sociedade Marítima do Porto Brandão, 
Real Fanfarra da Sobreda, 
Filarmónica do Monte de Caparica
Sociedade Recreativa Musical Trafariense
93
Manuel Cargaleiro 
(Oferta de pintores catalães)
99
João Mangualde Boquinhas 
102
Sérgio Só 
102
Luís dos Santos Castro Lobo 
103
Jorge Norvick 
104
Maria José Pinto Achando 
104
José Bronze
106
Francisco Bronze 
106
Sá Caetano
106
Luís Suarez
107
Maria Rosa Colaço
107
Alfredo Canana 
110
Rogério Ferreira de Carvalho 
110
Álvaro José Sobreiras 
111
Victor Aparício 
111
Cláudio Renato Marques Teixeira 
111
Almerinda Pinheiro Cardoso M. Teixeira
111
Victor Ferreira 
(Manifesto)
112
H. Mourato 
(Eduardo Olímpio e Emanuel Félix)
114
Pedro Henrique Santos e Sousa
115
Ainda algumas considerações
117
170 anos de jornalismo 
118
Diário da «Gazeta de Almada»
122
Freguesias através dos tempos 
128

Naturais de Almada:
 
 
Século XVI 
 
D. Leonor Mascarenhas 
(Origem do topónimo ALMADA)
133
Lourenço Pires de Távora 
134
Diogo Paiva de Andrada
 
135
Século XVII 
 
Frei Silvestre de Almada 
139
Manuel Gomes Galhano de Lourosa 
139
Frei Manuel da Assunção 
140
Frei Plácido da Silveira
140
Padre Inácio Garcez Ferreira 
140
Padre José António da Veiga
141
Frei Gerardo de S. José 
141
Frei José Tomás Borges
 
142
Século XVIII
 
José António Xavier Coutinho
145
António José de Sousa Pinto 
(Origem do topónimo TRAFARIA)

145
Século XIX
 
Padre Francisco Recreio
149
António Adelino Amaro da Silva 
149
Francisco Inácio Lopes 
151
José Elias Garcia 
(23 de Julho de 1833) 
(Uma carta do Rei D. Miguel)
154
Eduardo Tavares 
160
Henrique Pinto
161
Francisco Liberato da Silva Teles [Francisco Liberato Telles de Castro e Silva]
162
Duarte Joaquim Vieira Júnior 
162
Oliveira Feijão 
(Origem do topónimo CACILHAS)
163
José Maria de Oliveira 
(Fundação dos Bombeiros V. de Cacilhas)
(Fundação da Academia Almadense)
164
Francisco Soares Moita 
168
Emília Pomar de Sousa Machado 
168
Columbano Bordalo Pinheiro 
170
Maria da Fonseca Diniz  
172
Marcos da Assunção 
(Proclamação da República em Almada)
172
Alberto Bramão 
(Origem do topónimo COVA DA PIEDADE)
176
José Carlos Lírio 
(1894: a crise da Incrível)
(Um texto de "Gandaia")
176
João Black 
(Hino revolucionário de "A Batalha")
182 
Luís de Queirós 
(José Leite de Vasconcelos) 
(Jordão de Freitas) 
(Lenda da conquista de Almada aos mouros)
186
José Carlos de Melo 
 
 
191
José António Gonçalves 
(Regentes da Banda da Incrível Almadense) 
(Fundação da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense») 
(Fundação do Clube Recreativo Piedense)
194
Augusto Ricardo 
196
Jaime Amorim Ferreira 
196
Leonardo de Castro Freire 
200
João Flautim 
200
Paulo Jorge do Amaral Frazão
201
Manuel Parada 
(Proclamação da República em Almada) 
(Miguel Bombarda)
(Capitão Leitão)
(Bernardino Machado) 
(Ainda o 23 de Julho de 1833)
201
José Alaiz 
(4 de Outubro de 1910)
200
Leonel Duarte Ferreira 
(Maestro Joaquim Fernandes Fão)
210 
Amadeu do Vale 
 
214
Século XX
 
José Martins Vieira 
(Cândido de Oliveira) 
(Fundação do Clube Recreativo "José Avelino")
217
Augusto Sant'Ana d'Araújo 
220
Ercília Costa 
(Sobre a Costa de Caparica) 
(Maestro Hermínío do Nascimento) 
(Mestre António Pinheiro)
221
Jaime Ferreira Dias 
(A velha Charneca de Caparica) 
(Amílcar Ramada Curto) 
(Afonso de Bourbon e Meneses)
225
José Vieira 
234
Leonor de Eça 
235
António Correia 
(Porto Brandão, sua origem)
236
António Manuel da Costa Quinta
239
Hilário Ferreira 
254
Alberto de Araújo 
Textos de Mário Díonísio, 
Rodrigues Lapa, 
Cândido de Oliveira, 
D. Francisco de Melo e Noronha,
José Carlos Pinto Gonçalves
255
Felizardo S. Artur
264
José Carlos Pinto Gonçalves 
268
Joaquim Coelho 
(Salão de Festas da Academia Almadense) 
(Maria Helena das Neves Coelho)
268
José Gomes Pedro
273
António Henriques 
280
Américo Ferreira 
281
Ramiro Ferrão 
284
Toni 
287
Fernando Barão 
(Cidade de Almada — O Meu Sonho de Menino)
288
Alexandre Castanheira 
289
José Zagalo e Melo
290
José Silva Pinto 
291
Álvaro Pina
292
Raquel Zagalo 
295
Louro Artur
296
Carlos Pinto
296
Frederico Mendes
297
Francisco Simões
298
Alguns documentos e uma biografia [Romeu Correia]
300



(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.