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sábado, 11 de maio de 2019

Caramujo Revisited (2018)

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.  (1)

Praia do Alfeite, aguarela, António Ramalho, 1881.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

"Nasci, fui criada, namorei e casei no Caramujo", diz D. Berta, 89 anos, 66 dos quais no antigo bairro industrial. Os pais, vindos do interior, conheceram-se em Lisboa e mudaram-se para ali, onde abriram uma taberna. Depois de casar, Berta seguiu-lhes os passos. "Ficava em frente à fábrica das farinhas. Ainda lá está", recorda a antiga comerciante, que servia refeições à base de sopa e peixe frito.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Delcampe - Oliveira

D. Berta frequentou a escola primária no Alfeite, aprendeu a nadar na praia da Mutela e lavou roupa nos tanques da Romeira. Vai desfiando um rol de figuras do bairro: os aguadeiros Manuel e António, o "maneta" — "que não tinha um braço e vendia água com um carrinho de mão" — a "Beatriz bêbeda" ou o Martins, cujo estabelecimento ficava onde é hoje o restaurante Tia Bé, no Caramujo.

Romeira, Tanque das Lavadeiras, Martins & Silva, década de 1900.
Noticias Magazine, 4 de fevereiro de 2018

À lista junta o senhor Jerónimo — o cliernte que lhe levava os bilhetinhos de Álvaro, o namorado, com quem está casada há 64 anos. "Era uma zona de muito movimento."

A chaminé da moagem, que apitava à hora do almoço e da saída, causava desassossego e o barulho era constante. "Quando a fábrica parava para fazer limpeza era um silêncio!..."

No Cais do Caramujo, as fragatas descarregavam o carvão para as vagonetas que seguiam pelos carris até perto da chaminé da fábrica e que hoje ainda atravessam a rua.

Descarga de carvão no cais do Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
ZONA Magazine

Rosa, a filha de Berta, lembra-se de a água vir até perto das casas e de tudo ser desembarcado ali: trigo, cevada, louças de barro e carvão de pedra. O bairro apenas parava ao domingo, dia de visitar os amigos ou de deixar o assado numa das padarias do bairro, que cedia os fornos à vizinhança.

Há 23 anos, D. Berta trespassou o negócio e saiu do Caramujo. Não gosta de voltar ao bairro. "Era uma coisa digna de se ver e agora não há nada ali."

Também Hélia Santos, de 59 anos, que nasceu e ali viveu até ao início dos anos 1990, evita voltar.

"As recordações agradáveis já não existem." O pai era guarda-fiscal e chegou ao Caramujo em 1953. Mais tarde mudaria de posto mas continuou a viver ali. "A entrada principal do Alfeite ficava perto e de manhã e à tarde as ruas enchiam-se de militares. E havia também uns carros pretos, de Estado, que traziam os oficiais."

Caramujo, vista docais e do posto da Guarda Fiscal (o edifício mais alto), Leslie Howard, década de 1930.
ZONA Magazine

Das fábricas, lembra-se do mar de gente que enchia a rua às cinco da tarde: as condições de vida eram modestas, com várias famílias a partilhar a mesma casa e a maioria regressava do trabalho a pé. Hélia recorda-se do convívio entre vizinhos, com conversas na rua ou à janela. As padarias abriam à tarde para garantir que quem saía do trabalho levava pão fresco para casa.

Hélia soma ainda às memórias as fragatas vindas do Ribatejo, que chegavam no verão ao cais do Caramujo carregadas de melão, e as carroças que, depois de vazias, levavam os miúdos do bairro a passear. As idas à "cooperativa" também eram uma constante.

Fundada por corticeiros, em 1893, a Cooperativa de Consumo Piedense chegou a ser considerada a mais importante da Península Ibérica. Ser sócio implicava ter dinheiro para pagar as quotas e dava um certo estatuto [...]

Passear com António Policarpo pelo bairro é receber uma aula de história. O pai veio trabalhar para a construção naval e António, com 15 nos, também foi para o Alfeite — e é um interessado pelo passado do local.  O ponto de encontro, do outro lado da estrada que passa junto ao Hospital Particular de Almada, revela-se fonte infindável de informação.

Vista do Arsenal do Alfeite, Caramujo e Mutela, Mario Novais, década de 1930.
flickr

"A ponte do Caramujo passava por cima de uma linha de água e ficava aqui, quase ao lado do restaurante", explica enquanto mostra uma imagem antiga. A ponte, construída em 1890 [de facto a existência de uma ponte neste local é anterior a 1890], foi demolida em 1939 aquando da instalação do saneamento.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Ali perto, a ameaçar ruína, está o edifício onde, no início da década de 1860, foi fundada a Sociedade Filarmónica Caramujense — a que mais tarde um grupo de cidadãos próximos da maçonaria e do movimento republicano mudaria o nome para Sociedade Filarmónica União Piedense (SFUAP), que existe até hoje. 

"A população vinha de outros pontos do país para trabalhar nas vinhas — a Quinta da Romeira tinha vinha e a região era afamada — mas chegou a filoxera e foi a indústria corticeira que veio salvar a situação", recorda António. 

Trabalhadores da Fábrica H. Bucknall & Sons. no Caramujo, década de 1920.
Alexandre M. Flores, Almada na História da Indústria Corticeira e do Movimento Operário (1860-1930), ed. CMA 2003

Um pouco mais à frente, lembra que antes da moagem existiam ali moinhos de maré — pelo menos desde o século XVI — e, ao virar da esquina, junto ao Tejo, conta histórias de contrabando nas barbas da guarda fiscal. 

E junta-lhes histórias dos "assaltos", os encontros entre rapazes e raparigas à socapa dos mais conservadores. «As moças eram supervigi-adas, mas juntavam-se quatro ou cinco em casa de quem tivesse pais mais permissivos e onde houvesse gira-discos, as meninas faziam bo-los e estavam feitas as condições para um "assalto".

Orlando Pedroso era uma presença popular nesses "assaltos" que animavam a Cova da Piedade nos anos 196O. Afinal, era ele o "dono da música"! O pai — o "Pedroso das telefonias" — tinha-lhe cedido um can"to do estabelecimento onde Orlando vendia discos.

Tanoeiros.
Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Orlando descende de uma linhagem de tanoeiros. O bisavô tinha a sua oficina no Caramujo e, no livro Almada Antiga e Moderna, de Alexandre M. Flores, é possível ver a cópia do contrato de arrendamento assinado a 1 de janeiro de 1887 pelo mestre tanoeiro António Pedro: a renda — 36 mil réis anuais — deveria ser paga adiantada "do Natal ao São João".

O bulício era uma constante. "A decadência começou só nos anos 1970 e acentuou-se a partir de então", diz Orlando. "Nos anos 1960, lembro-me dos operários da Mundet [Bucknall] e da Rank[in] que carregavam fardos de cortiça com mais de sessenta quilos às costas!"

Vista panorâmica da "praia pequena" á saída do trabalho na Rankin & Sons
Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade... 1990

Mas o Caramujo também oferecia oportunidades de lazer: "Pescava-se enguias. Era a chamada pesca ao guizo: tínhamos uma linha com uma chumbada, uma tabuinha com um guizo que tocava quando o peixe picava", recorda o bisneto do mestre tanoeiro, que lembra ainda as sessões de cinema na SFUAP, "o cinema do piolho" [...] (2)


(1) Lisbon Revisited (1923), Álvaro de Campos, in "Poemas" (Citador)
(2) Há nova vida no bairro fantasma, Noticias Magazine, 4 de fevereiro de 2018 (ou pressreader)

Artigos relacionados:
Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan
Cova da Piedade em 1890, a ponte do Caramujo
Almada Virtual Museum (pesquisa: caramujo)

Tema:
Caramujo

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pelas praias do Caramujo

A íntima amisade, que contrahi com a Illustre Pessoa, que aqui serve de Heróe; o passeio, a musica, o divertimento de colher pelas praias do Caramujo, termo de Almada, differentes qualidades de mariscos, e finalmente a pesca nunca interrompida, fizerâo em mim tal impressão, que me determinei a celebrar este ultima diverlimento , a que sempre fui propenso; e porque era, e he aquelle, que alli mais cultivão as Illustres Famílias , que a éste sitio concorrem no tempo dos banhos. 

APDG, Sketches of portuguese life, manners, costume and character, Banhos no Tejo, 1826.
Imagem: Internet Archive

No dia 10 de Setembro de 1826, quando eu contava 27 annos de idade, estando todos, como costumávamos, applicados ao nosso divertido exercício, passeando no largo com grande prazer, appareceo de repente Belmiro, debaixo de cujo nome se intitula o Heróe da acção, acompanhado de outro amigo nosso, trazendo por huma corda huma masseira velha, ou gamella de amassar pão, muito rota por todos os lados. 

O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade

Todos perguntarão, porque trazia tal cousa; e elle respondeo, que era para nella hirmos pescar. Todos estimámos, principalmente eu, tal descoberta de vaso, para duplicarmos nosso regosijo nesta tarde. 

Logo, convocando elle alguns amigos, comigo começou a concertalla do modo, que melhor foi possível; nella metemos as redes e vogámos para o mar, elle, e eu sómente, porque ninguem mais se atreveu a acompanhar-nos.

Muitas pessoas, principalmente huma Senhora, sua filha, e mais familia nos dissuadíão de tentar o rio naquelle vaso pequeno e velho; mas desprezados estes avisos, e confiados em saber bem nadar, comettemos nossa viagem.

Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: ZONA Magazine

Estando porem já muito distantes de terra, repentinamente sobreveio tão horrivel tempestade, que á vista de todos fez voltar o barquinho comnosco, que, privados de ver a terra por causa do aguaceiro, com relâmpagos, raios, trovões, pedra, etc. nos custou tomar a praia apesar das nossas forças em nadar.

Em fim chegámos á praia, e mandámos soltar hum bote, que estava prezo a hum cáes de pedra, para trazer a canoa, e as redes, que ficárão no largo, as, quaes trouxerão peixe, de que se fez huma merenda esplendida, como nunca tivemos, o que bem se pôde inferir pelos successos, que lhe antecederão, que posto sejão debuxados com tosco pincel, forão brilhantes [...]

Praia do Caramujo, Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Do Caramujo expõe-se o sítio ameno;
E como delle gosâo pelo Estio
Innocentes, maritimos prazeres
Diversas personagens d'outras terras.
No designio Belmiro entra da pesca
C'os illustres vizinhos, que consentem,
E do dvertimento não desmentem [...]

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Do nosso antigo Tejo, ha na aurea margem,
Hum lugar mui ameno, delicioso,
Caramujo de séculos remotos
Pelos seus habitantes nomeado:
Dous altos montes sobem a seus lados,
Que parecem tocar do Ceo as nuvens.
Hum agradável prado mui risonho,
Onde assiste a formosa Primavera,
Torna seu local bello, e aprazível [...]

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

"Tudo o que Vénus diz, verdade he pura,
"Formosa Filha tua, grande Jove;
"Lá do Tejo nas margens, nas raízes
"Dos montes, que de base a Almada servem
"O Caramujo existe socegado.
"He maritimo porto, alli altares,
"E templos dedicados mil eu lenho,
"Onde o licôr divino nunca falta,
"Que com festividades me consagrão;
"Alli á Pesca entrega-se Belmiro [...]

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Belmiro se prepara com Phylinto;
Fileno vai também lançar as redes:
Já he visto o batel frágil nas ondas.
Difficutdades muitas se presentão.
Que pelos argonautas são vencidas.
A rede se prepara, que na barca
Já recolhida fôra, e só lhe falta
Remar bem para o largo com grão força [...]

Cais do Caramujo, pontão de madeira, década de 1970.
Imagem: Fernando Cruz

"Ó Deos do mar profundo, tu me escula,
"Mais que disse, dizer nâo pôde Vénus;
"Do Caramujo sou Patrono eterno;
"Eu requeiro o que implora a bella Deosa:
"Juno he prejura; Belmiro innocente;
"Juramento a verdade não precisa. [...] (1)


(1) Francisco António Martins Bastos, A pesca, Lisboa, Impressão Regia, 1831

Leitura relacionada:
Francisco António Martins Bastos na Biblioteca Nacional de Portugal 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bombeiros Voluntários do Caramujo

Já está definitamente organisada a companhia dos bombeiros voluntarios do Caramujo. Assim o communicou á Camara Municipal d 'Almada uma commissão nomeada para tal effeito.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

Existe desde alguns meses a associação dos bombeiros voluntarios de Almada, que n'aquella localidade estabeleceu esse philantropico serviço. Tem aquella associação feito successivos exercicios no Alfeite com a bomba ali existente, e deseja augmentar os seus socios para poder realisar com mais vantagem os serviços a que se destina. 

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Algumas divergencias, cremos nós havidas na associação, o que são sempre para lastimar, deram logar a que se creasse outra sociedade de bombeiros voluntarios no Caramujo. Parece-nos existir inquieta rivalidade d'esta com aquella sociedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Mas esse sentimento deve ser substituido pelo da confraternidade sincera, se o desejo da nova sociedade, como o da mais antiga, é unica e simplesmente, como deve ser, o de servir a causa da humanidade e da sociedade. Rivalisar só no amor do bem. Fraternidade no exercicio do mesmo apostolado.

Bombeiro em Lisboa,
Typos Costumes Portugueses n.° 41,  João Palhares c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Exclusão absoluta das paixões pequenas, e ávante. (1)
Simbologia dos Bombeiros Voluntário d'Almada, 1882.
Imagem: bombeiros-portugal.net

Do sr. presidente d'esta associação recebemos a seguinte carta a que gostosamente damos publicidade fazendo sinceros votos para que a associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo se torne digna pela sua seriedade e pelos seus bons servi ços, da consideração publica.

Eis a carta a que nos referimos:

"Sr. redactor.

A associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo, acha-se penhoradissima para com v ., pela noticia inserida no Bombeiro de 15 de junho proximo passado.

Emquanto ás divergencias havidas na associação dos bombeiros voluntarios d 'Almada é na verdade para lastimar que as houvesse, porém d'ellas emanou esta associação que soube á custa de mil sacrificios e prívações e estabelecer no curto espaço de 60 dias a 1.a estação no concelho a que pertence, tencionando no dia 20 fazer a inauguração com a sua machina.

Bomba a vapor Jauck n.° 1.
Consome esta machiina 1500 litros d'agua por miuuto, e o jacto alcança a distancia de 60 metros...
Imagem: O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282

Sendo effectivamente os socios d'esta associaçãto desprovidos de paixões mesquinhas, trabalhando apenas em prol da humanidade, veem os mesmos demonstrar publicamente que nenhuma rivalidade existe entre esta corporação e os bombeiros voluntarios d'Almada; por isso pedimos á redacção a publicação do presente officio pelo que nos consideramos summamente agradecidos.

Lisboa 11 de julho de 1882.

Sr. redactor do Bombeiro Portuguez.


O presidente, José Maria Subtil d'Andrade" (2)

Piedade, D. Carlos de Bragança 1885.
Imagem: ComJeitoeArte

No dia 23 do passado a Associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo abriu a sua primeira estação, na rua de S. Thiago, em Almada, tendo o material necessario para o serviço do incendios. (3)


(1) O Bombeiro Portuguez n.° 6, 15 de junho de 1882
(2) O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1882
(3) O Bombeiro Portuguez n.° 9, 1 de agosto de 1882

Artigos relacionados:
O incendio da fabrica da Margueira
Museu de Bombeiros

Mais informação
Hemeroteca Digital de Lisboa: O Bombeiro Portuguez

[Abaixo publicamos algumas referências cordialmente elaboradas pelo professor Alexandre Magno Flores, relativas à efémera associação dos Bombeiros Voluntários do Caramujo e ao material contido nesta mensagem:]

Para quem estiver interessado em aprofundar a história dos «Bombeiros Voluntários do Caramujo», aconselhamos também a consulta de trabalhos sobre a mesma temática, publicados há vários anos. Registamos, por exemplo, os seguintes títulos: «Bombeiros Voluntários do Caramujo (...)», da autoria de Manuel Lourenço Soares, in "Jornal de Almada", n.º 1687, 25 de Dezembro de 1983, páginas 17 e 18 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico -II. Freguesia de Cacilhas, CMA, 1987, página 108 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico - III. Freguesia da Cova da Piedade, CMA, 1990, páginas 73, 84, 85 e 94 // «Bombeiros do Concelho de Almada (século XIX)», (separata revista e actualizada da publicação periódica «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, páginas 113-150), da autoria de Alexandre M. Flores, Edição dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2007, páginas 18,19,20,21,22,38,39. Em relação às imagens reproduzidas no texto do «Almada Virtual Museum», importa referir que a foto da "Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo"(de Maria Conceição Toscano) , nos foi cedida pelo por Mário Faria de Carvalho, bisneto do industrial e benemérito António José Gomes, para reprodução no livro «António José Gomes: o Homem e o Industrial (1847-1909)», editado pela Junta de Freguesia da Cova da Piedade, em 1991, na página 30. Quanto à reprodução do «símbolo dos Bombeiros Voluntários de Almada», a imagem foi plagiada por alguém e a colocou no «bombeiro-Portugal.net.», a partir da referida revista cultural «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, na página 120 // ou a partir do livro, atrás citado, «Bombeiros do Concelho de Almada», 2007, na página 19.

domingo, 4 de março de 2018

A povoação do Caramujo na década 1900

Povoação na freguezia de S. Thiago e concelho dc Almada, districto de Lisboa. É contigua ao pittoresco logar da Cova da Piedade. Graças á sua situação sobre o Tejo, que lhe permitte fáceis communicaçòes com os navios mercantes que veem ao porto de Lisboa, teve em tempos o Caramujo grande commercio de vinhos para o Brazil e África.

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Hoje restam apenas algumas casas das que se entregavam a esse commercio, taes como as das firmas Valladares, Figueiredo, Paiva, etc. Em consequência d’esse embarque dos vinhos, era aqui numerosa a classe dos tanoeiros, mas esta industria está hoje decahida.

Tanoeiros.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Pelo contrario, o desenvolvimento industrial é importante. Existem no Caramujo varias fabricas para a preparação da cortiça, taes como as da Companhia Ingleza, Villarinho & Sobrinho, Rankin & Son’s, e outros pequenos estabecimentos de rolheiros e quadradores de cortiça.

Rankin & Son’s na Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, ant. a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa Rankin & Son’s

Uma das melhores fabricas de moagem em Portugal está aqui estabelecida é a da firma A. J. Gomes & Commandita, successora da viuva de Manuel José Gomes & Filhos.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Toda construida em cimento armado, acha-se dotada dos apparelhos mais modernos e aperfeiçoados. O edificio é dividido em andares, em cada um dos quaes se faz uma operação distincta da moagem, tudo automatica e mechanicamente.

Cilindros verticais em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

A illuminação é electrica, e tão importante estabelecimento póde considerar-se um verdadeiro modelo no seu genero. 

Planchisters em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

Em 25 de março dc 1903 realisou a Academia de Estudos Livres uma excursão a esta fabrica, publicando-se por essa occasião na imprensa jornalistica varias descripções interessantes, entre as quaes se póde indicar a do Diário de 29 do mesmo mez e anno [v. Tesis Doctoral - Fábrica de Molienda "António José Gomes", Primer edificio de hormigón en Portugal La revitalización de espacios degradados - Micro y macro dificultades de una tecnología - Samuel Roda Fernandes - Anexos]

Tem est. tel. e post. permutando malas com Almada e Lisboa. (1)


(1)  Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906

Pesquisas relacionadas:
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caramujo
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: cacilhas
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caparica

Referências:
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cais da farinha

Estas fábricas estão situadas na rua Direita do Caramujo, occupando uma área de 800 metros quadrados, approximadamente, isto é, tomam o quarteirão inteiro que fica entre a travessa da Praia e o beco do Paiva.

A primeira foi fundada, em 1864, por Manuel José Gomes, e que hoje [1897] era aproveitada para depósito de trigos, escriptório e habitação do proprietário, morando ali actualmente sua irmã a Sr.a D. Magdalena Rita Gomes; casa das bombas e mais material estando tudo na melhor ordem, depósito de madeiras e casa de despejos.

A segunda foi fundada em 1872, e tinha dois pavimentos. No rez-do-cão estavam installadas as antigas machinas e promptas para entrarem em elaboração quando fosse necessário; no 1.° andar apenas trabalhava um par de mós, e no 2.° andar havia o depósito de trigo, que era levado para a fábrica nova por meio de elevador.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864 e 1872.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A terceira foi construída em 1889, e tinha seis pavimentos: no rez-do-chão era a casa das maquinas; no primeiro pavimento havia compressores e triruradores, no segundo parafuzos e nóras, no terceiro reformas e dois "sasseurs", no quarto planchistas de systema moderno e peneiros, no quinto peneiraçãoo e no sexto acabamento de noras. 

Almanach Commercial, Viúva de Manoel José Gomes & Filhos,1889.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

No segundo pavimento também havia reparação de trigo e espalhadora. no terceiro bandejas e despertadores. no quarto crivos de tirar semente, peneiros para trigo e duas taráras, no quinto peneiração de trigo e um quarto para receber o pó do mesmo trigo.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 
Nesta foto conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas a unidade fabril inicial num complexo moageiro: de sul para norte vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica primitiva; separado destes por um vão, alargamento posterior, de 1872 (onde em 1897 ainda funcionavam a máquina e as mós antigas); por último, o edifício principal, construído por volta de 1889 [...]

in Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Como acima dissemos, estas fábricas estao installadas na rua Direita do Caramujo, tendo trazeiras para o rio, onde está construída uma grande doca para recolher as embarcações que se empregam na carga e na descarga dos trigos, farinhas e mais materiaes.

Na mesma rua e em frente das fábricas está installada a casa das caldeiras, que por baixo da rua e por meio d'um cano, passa o vapor que faz funccionar todo o machinismo das fábricas; assim como também por baixo da mesma rua passa um outro cano que communica mm o rio, e d'onde é tirada a água por meio d'uma machina que tambem está ali installada.

Do lado da casa das caldeiras estão tambem as oocheiras e armazém de vinhos do Sr. António Cruz Paiva.

O edificio da nova fábrica foi construido (em 1889) junto ao da antiga, ficando muito superiora este, e em condições de muita segurança.

Tinha grande número de janellas que deitavam para a frente, para o beco do Paiva e para o lado da antiga fábrica, mas tanta estas como aquellas, eram resguardadas por portas de ferro, para assim, quando se desse qualquer sinistro, evitar que um ou outro edificio fosse atacado.

No beco do Paiva está installada a officina de serralheria e no primeiro andar era o deposito do pó que recebia da fábrica nova por umas calhas, zincadas exteriormente.

D'este andar para a fábrica. havia uma ponte para passagem do pessoal, tendo as competentes portas de ferro.

A nova fabrica tinha, do lado da frente, uma parede mestra, a altura de todo o edificio, para resguardo da casa da machina e mais dependencias.

Um violento incêndio, em 10 de Junho de 1897, destruiu grande parte daquelas instalações fabris da moagem, deixando apenas as fachadas e as paredes mestras.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca, Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

O acontecimento deplorável alarmara, logo de manhã, toda a população das terras da margem sul do Tejo. Um clarão rebentou subitamente, aiongou-se e cobriu o horizonte desde o Caramujo a Cacilhas, dando para quem estava em Lisboa a impressão de que tudo ali se encontrava em chammas.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Felizmente a sinistro não attingiu tão grandes proporções, mas ainda assim há a registar-se um desastre enorme, pois o fogo destruiu duas importantes fabricas e sem a rapidez e energia dos soccorros muito maiores seriam os prejuizos.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os prejuizos são calculados em 300 contos de réis. Dos edificios só ficaram as paredes, pois todo o machinismo está deteriorado, não só pelo fogo como também pela água. A casa da machina da nova fábrica, e que estava resguardada por uma parede mestra, sofireu enormes prejuizos occasionados pela água.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Também soffreram bastantes perdas alguns moradores que, receando que o fogo se communicasse, começaram a deitar para a rua as mobilias, e foram elles: Manuel Mathias, com taberna na mesma rua, sem seguro; V. António dos Santos Mendes, idem, com seguro na Bonança; Guilhermina da Conceição, moradora no 1.° andar da mesma rua, n.° 19; D. Joaquina do Carmo, viúva, proprietária do prédio 21 e 22, que tem seguro na Fidelidade, mas não tem no seguro a mobília.

Os armazéns do sr. Paiva também soffreram prejuizos no telhado. (1)



(1) A Vanguarda, Lisboa, 11 de junho 1897, citado em Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs..

Leitura adicional:

Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

António José Gomes (1847-1909), a fábrica e a casa

Estas fábricas estão situadas na rua Direita do Caramujo, occupando uma área de 800 metros quadrados, approximadamente, isto é, tomam o quarteirão inteiro que fica entre a travessa da Praia e o beco do Paiva.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

A primeira foi fundada, em 1864, por Manuel José Gomes, e que hoje [1897] era aproveitada para depósito de trigos, escriptório e habitação do proprietário, morando ali actualmente sua irmã a Sr.a D. Magdalena Rita Gomes; casa das bombas e mais material estando tudo na melhor ordem, depósito de madeiras e casa de despejos.

A segunda foi fundada em 1872, e tinha dois pavimentos. No rez-do-chão estavam installadas as antigas machinas e promptas para entrarem em elaboração quando fosse necessário; no 1.° andar apenas trabalhava um par de mós, e no 2.° andar havia o depósito de trigo, que era levado para a fábrica nova por meio de elevador.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864 e 1872.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A terceira foi construída em 1889, e tinha seis pavimentos: no rez-do-chão era a casa das maquinas; no primeiro pavimento havia compressores e triruradores, no segundo parafuzos e nóras, no terceiro reformas e dois "sasseurs", no quarto planchistas de systema moderno e peneiros, no quinto peneiração e no sexto acabamento de noras. 

No segundo pavimento também havia reparação de trigo e espalhadora. no terceiro bandejas e despertadores. no quarto crivos de tirar semente, peneiros para trigo e duas taráras, no quinto peneiração de trigo e um quarto para receber o pó do mesmo trigo.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Nesta foto conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas a unidade fabril inicial num complexo moageiro: de sul para norte vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica primitiva; separado destes por um vão, alargamento posterior, de 1872 (onde em 1897 ainda funcionavam a máquina e as mós antigas); por último, o edifício principal, construído por volta de 1889 [...]
cf. Toscano A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Como acima dissemos, estas fábricas estao installadas na rua Direita do Caramujo, tendo trazeiras para o rio, onde está construída uma grande doca para recolher as embarcações que se empregam na carga e na descarga dos trigos, farinhas e mais materiaes.

Na mesma rua e em frente das fábricas está installada a casa das caldeiras, que por baixo da rua e por meio d'um cano, passa o vapor que faz funccionar todo o machinismo das fábricas; assim como também por baixo da mesma rua passa um outro cano que communica com o rio, e d'onde é tirada a água por meio d'uma machina que tambem está ali installada.

Do lado da casa das caldeiras estão tambem as cocheiras e armazém de vinhos do Sr. António Cruz Paiva.

O edificio da nova fábrica foi construido (em 1889) junto ao da antiga, ficando muito superiora este, e em condições de muita segurança.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca, Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Tinha grande número de janellas que deitavam para a frente, para o beco do Paiva e para o lado da antiga fábrica, mas tanta estas como aquellas, eram resguardadas por portas de ferro, para assim, quando se desse qualquer sinistro, evitar que um ou outro edificio fosse atacado.

No beco do Paiva está installada a officina de serralheria e no primeiro andar era o deposito do pó que recebia da fábrica nova por umas calhas, zincadas exteriormente.

D'este andar para a fábrica. havia uma ponte para passagem do pessoal, tendo as competentes portas de ferro.

A nova fabrica tinha, do lado da frente, uma parede mestra, a altura de todo o edificio, para resguardo da casa da machina e mais dependencias.

Um violento incêndio, em 10 de Junho de 1897, destruiu grande parte daquelas instalações fabris da moagem, deixando apenas as fachadas e as paredes mestras.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

O acontecimento deplorável alarmara, logo de manhã, toda a população das terras da margem sul do Tejo. Um clarão rebentou subitamente, aiongou-se e cobriu o horizonte desde o Caramujo a Cacilhas, dando para quem estava em Lisboa a impressão de que tudo ali se encontrava em chammas.

Felizmente a sinistro não attingiu tão grandes proporções, mas ainda assim há a registar-se um desastre enorme, pois o fogo destruiu duas importantes fabricas e sem a rapidez e energia dos soccorros muito maiores seriam os prejuizos.

Os prejuizos são calculados em 300 contos de réis. Dos edificios só ficaram as paredes, pois todo o machinismo está deteriorado, não só pelo fogo como também pela água. A casa da machina da nova fábrica, e que estava resguardada por uma parede mestra, sofireu enormes prejuizos occasionados pela água.

Também soffreram bastantes perdas alguns moradores que, receando que o fogo se communicasse, começaram a deitar para a rua as mobilias, e foram elles: Manuel Mathias, com taberna na mesma rua, sem seguro; V. António dos Santos Mendes, idem, com seguro na Bonança; Guilhermina da Conceição, moradora no 1.° andar da mesma rua, n.° 19; D. Joaquina do Carmo, viúva, proprietária do prédio 21 e 22, que tem seguro na Fidelidade, mas não tem no seguro a mobília.

Os armazéns do sr. Paiva também soffreram prejuizos no telhado. (1)


[...] desconhecemos quem desenhou a nova fábrica do Caramujo, construida após o violento incêndio de quinta-feira 10 de Junho de 1897.


Fachada da fábrica, virada ao cais, Moagem de trigo fundada em 1865 e reformada em 1898.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

Arquitectonieamente, o projecto do edificio responde à satisfação das funções da unidade moageira que António Gomes instalou em 1898 

Fachada principal da fábrica, virada à rua Direita do Caramujo, A. J. Gomes & Comandita sucessores da Viuva de M. J. Gomes, Lda.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

e ainda hoje labora, noventa anos depois...

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A dois anos do final de Oitocentos, a fábrica do Caramujo, confrontando na margem oposta do Tejo os pólos geográficos da industrialização de Lisboa, Alcântara e Xabregas, enriquecia pela vertente da tecnologia, também construtiva, a história industrial portuguesa — como sinal dos tempos, a indústria fabril moderna cumpria uma função. Era uma reacção contra o atraso. contra a dependência externa e a apatia económica.

Fábrica Gomes, Caramujo, c 1900.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

No âmbito industrial, a unidade fabril da Cova da Piedade integrava-se no grupo das que possuíam "todos os aperfeiçoamentos" que a indústria da moagem exige, como as fábricas de Sacavém, Caramujo, Xabregas e muitas outras", e cuja modernidade de processos e apetrechamento tecnológico havia feito diminuir a importância e o número dos antigos moinhos e azenhas.

Almanach Commercial,
Viúva de Manoel José Gomes & Filhos,1889.
Imagem: Alexandre Flores, Op. Cit.

Uma década após a entrada em laboração da nova fábrica de António Gomes, "a indústria de moagem (estava) estabelecida entre nós em condições de perfeição fabril iguais às dos melhores centros de produção no estrangeiro, tendo progredido extraordinariamente desde a lei protectora de 1889". (2)

A memória de António José Gomes, esclarecido industrial moageiro que muito contribuiu para o desenvolvimento e modernização da Cova da Piedade, é ainda hoje uma referência para a freguesia, aqui celebrada através da conservação da sua casa de habitação.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

O palacete, possivelmente erguido entre finais do século XIX e inícios do século XX, em terrenos da antiga Quinta da Piedade, uma das famosas "sete quintas" do Alfeite, abrindo a sua fachada para o largo principal da vila e para a sua igreja matriz, marca com a sua linguagem eclética, própria da burguesia em ascensão, a urbanidade contemporânea.

O estilo eclético e erudito do projeto, de influência francesa (Beaux-Arts), está bem patente na linguagem neoclássica dos elementos decorativos do exterior, com frontaria ritmada por pilastras e silhares rusticados ao nível do piso térreo conjugando-se com estruturas em vidro e ferro de feição Arte Nova, estas funcionando já como sinal de modernidade e do espírito progressista burguês, celebrado igualmente nas alegorias do Comércio e da Indústria que rematam o edifício.

Cova da Piedade Palacete de António José Gomes.
Imagem: Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909)...

No interior, cuja decoração “excessiva” contrasta com a relativa sobriedade dos exteriores, destacam-se sobretudo as marcenarias, os estuques, as pinturas românticas e os vitrais revivalistas.

À esquerda da fachada principal ergue-se o volume da cocheira, também aberto para o jardim contíguo à fachada posterior, cercado por muro e gradeamento em ferro forjado e aberto por portão de cantaria rusticada, que delimita ainda um pavilhão para criação de animais e uma garagem.

Cova da Piedade. Alçados do “Chalet” Jorge Taylor, das cocheiras e do Palácio António José Gomes.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes

Pertencia à propriedade uma nora de ferro de desenho requintado, hoje situada em terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade e classificada como de interesse municipal, que abastecia de água a quinta de António José Gomes.

A classificação do Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, reflete os critérios constantes do artigo 17.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, relativos ao interesse do bem como testemunho notável de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua conceção arquitetónica e urbanística, e à sua extensão e ao que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva.

A zona especial de proteção (ZEP) tem em consideração a envolvente urbana do imóvel, particularmente os espaços públicos e o edificado mais antigo, bem como a totalidade dos quarteirões que integram a área original da propriedade e a nora de ferro que lhe pertencia, e que constitui elemento evocador do passado rural deste território, e a sua fixação visa assegurar a integridade e as características fundamentais do seu enquadramento, as perspetivas de contemplação e os pontos de vista.

Cova da Piedade, Palacete António José Gomes. Vista geral de fachadas posteriores e campos fronteiros.
Imagem: Direção Geral do Património Cultural

Procedeu-se à audiência dos interessados, na modalidade de consulta pública, nos termos gerais e de acordo com o previsto no artigo 26.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, e no artigo 45.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro.

Foi promovida a audiência prévia da Câmara Municipal de Almada. 
Assim: 
Sob proposta dos serviços competentes, nos termos do disposto no artigo 15.º, no n.º 1 do artigo 18.º, no n.º 2 do artigo 28.º e no n.º 2 do artigo 43.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, conju- gado com o disposto no n.º 2 do artigo 30.º e no n.º 1 do artigo 48.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro, e no uso competências conferidas pelo n.º 11 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 86-A/2011, de 12 de julho, manda o Governo, pelo Secretário de Estado da Cultura, o seguinte:

Artigo 1.º 

Classificação
É classificado como monumento de interesse público o Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, no Largo 5 de Outubro, 34 a 38, Cova da Piedade, freguesia de Cova da Piedade, concelho de Almada, distrito de Setúbal, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Artigo 2.º 

Zona especial de proteção
É fixada a zona especial de proteção do monumento referido no artigo anterior, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Cova da Piedade, Palacete de António José Gomes.
  Assinalam-se o Monumento de Interesse Público (MIP): Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem e a Zona Especial de Proteção.
Imagem: Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

9 de setembro de 2013. — O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. (3)


(1) A Vanguarda, Lisboa, 11 de junho 1897, cit. em Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
(2) Carlos Antero Ferreira, Betão: a idade da descoberta, Lisboa, Passado Presente, 1989, cit. em Alexandre Floes, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.(3) Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

Tema:
Cova da Piedade

Bibliografia adicional:
Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
Maria da Conceição Toscano, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.

Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.Maria José Pinto, Palácio Gomes: pequena monografia, revista al-madam N.º 4 (IIª Série), Almada, Centro de Arqueologia de Almada, Outubro 1995

Informação adicional:
Direção Geral do Património Cultural: Palacete de António José Gomes
Direção Geral do Património Cultural: Nora de ferro
Diário da República, 2.ª série — N.º 123 — 27 de junho de 2012 (inclui a planta com a delimitação e a ZGP que esteve em vigor até ser fixada a ZEP)

Outras leituras:
Nuno Pinheiro no Facebook: Edifícios António José Gomes
Coysas , Loysas, Tralhas Velhas... : Palácio da Viúva Gomes
ruin'arte: Chalet na Cova da Piedade
De regresso ao séc. XIX, Câmara Municipal de Almada