sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A muleta de pesca, por A. A. Baldaque da Silva

Um desenho bem simples e genuinamente portuguez: A muleta de pesca, deslisando á superficie das aguas, desfralda ao vento as ponteagudas vélas e deixa ver a seu bordo os arrojados tripulantes, ao longe descobre-se a linha da terra, e no ultimo plano accumulam-se os tons da atmosphera.

Muleta junto ao Cabo da Roca, João Pedrozo (1825-1890).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantas idéas, porém, desperta este singelo quadro a quem sobre elle attenta!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

O barco, como assumpto principal, representado no seu conjuncto pelo casco, leme, mastro, vergas, cabos e vélas, synthetisa a arte nautica, que arrancou ao engenho humano um domicilio e um meio de transporte no vasto liquido que cobre o globo, assegurando a existencia e o isolamento d'aquelles que lhe confiam as suas vidas;

o mar, elemento magestoso e profundo, repleto de mysterios e tempestades, lança no espirito de quem o contempla uma preoccupação vaga, mistura de receios e encantos, que provoca á meditação;

os pescadores, nas suas melancholicas attitudes, fazem recordar as desoladas familias, que deixaram nos lares em afervorada prece, unico amparo que lhes fortifica os animos; a terra, ao longe, aviva a saudade, conduzindo á reminiscencia do passado;

e a atmosphera limita o pensamento, não permittindo sondar o espaço indefinido, que a imaginação intenta traspassar, em poderoso vôo.

D'esta multidão de idéas associadas e impressões commoventes, resulta um amplo quadro, delineado em um sem numero de motivos, que o tornam complexo e grandioso.

Já o mar, impellido pelo vento, encrespa a superficie; monticulos de plumbeas vagas, recortadas por franjas de branca espuma, balouçam a muleta, que completamente alagam, fustigando ao mesmo tempo os tripulantes, que ensopam até á medula.

O aspecto carregado do céu atemorisa os pescadores; ouvem o ranger do apparelho, sibilando gemidos que entibiam os animos; e, ora fortalecidos pela experiencia de longos annos, ora sobresaltados pela lembrança das mães, mulheres e filhos, que ficam ao desamparo, proseguem na dura faina.

Entra a vaga com furia, destruindo a borda; rasga-se a véla grande; está o barco desmastreado; pesada nuvem despejou em catadupas a abundante agua que transportava; exgotam á força de braços energicos e possantes o liquido que faz adornar a muleta; desenrascam o mastro e a véla, e aguardam serenamente o destino que a providencia divina lhes reserva.

Mas, já descobre o céu velho, tinto de azul escuro, velado, em grande parte, pelos vapores esbranquiçados que correm suspensos no ar. Um primeiro raio do sol, e, em seguida, todo o feixe luminoso, bate em cheio no maravilhoso quadro, illuminando os tons, aquecendo as côres, e dando vida e alento aos tripulantes. 

O vento amainou; a ondulação vae diminuindo pouco a pouco de amplitude; os pescadores sacodem os encharcados fatos, e preparam o mastro e o panno. Já verdeja a collina e rescende o perfume da vegetação marginal; as mães riem para os filhos, que fazem saltar nos braços, e os pobres operarios do mar sentem nova vida invadir-lhes o endurecido organismo.

Muleta no rio Tejo, Luis Ascêncio Tomasini,  1881.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Entre os variados typos de embarcações portuguezas, possue certamente um original sabor artistico a "muleta" usada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro, para o lançamento da muito antiga rede de arrastar a reboque pelo fundo, denominada "tartaranha".

A muleta tem o fundo largo e chato; a proa, excessivamente boleada, remata em arrufado be-que; a popa, muito inclinada, recua em cima; caracteristicos estes que, juntos ao grande amassa-mento dos flancos, dão ao casco o aspecto de uma tosca naveta normanda do seculo XIII.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

O apparelho da muleta compõe-se de um mastro, muito inclinado para vante, onde iça a verga de uma véla grande triangular, latina, e de dois compridos paus, denominados batelós, deitados pela proa e pela popa, que servem para amurar e caçar as outras vélas, e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguram a rede, quando esta funcciona.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

Á ré, caça no extremo do batelós um triangulo, que iça na penna da véla grande, denominado varredoura de cima, e, por baixo, outro, a varredoura de baixo; e em estaes que vão da cabeça do mastro pai:a a roda de proa e para o batelós de vante, içam umas seis a sete pequenas vélas, chamadas toldos, muldins, varredoura e cozinheira, que, segundo o seu numero, compensam o effeito das vélas de ré, quando a embarcação se mantem atravessada, durante a pesca.

As muletas largam a rede proximo da emboccadura do Tejo, no começo da enchente, e, mareando o panno, vão caindo ao longo da costa da Trafaria e margém do sul, montando o pontal de Cacilhas e continuando a derivar pelo Mar da Palha, até terem completado o lance, recolhendo então a rede, e apanhando o peixe que vem no sacco.

Uma fragata inglesa de través frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Outras vezes, arrastam fóra da barra, desde o largo até á enseada de Entre Cabos. Este typo de embarcações vae acabando, a ponto de actualmente existirem apenas duas. Tem sido substituido pelos modernos bateis, que pescam pelo mesmo systema.

No museu de archeologia naval de París, ha um modelo reduzido da nossa muleta, que o ministerio da marinha offereceu áquelle estabelecimento; e mais dois outros modelos figuram nas collecções da escola naval, e do museu marítimo da escola industrial Pedro Nunes, de Faro.

Muleta, modelo da Escola Naval que pertenceu ao Museu de Marinha (1896).
Imagem: Internet Archive

A rede tartaranha, empregada pela muleta, consta de um sacco com malha muito miuda, alargando para o lado da bôcca, onde ligam duas bandas de rede, muito compridas e estreitas, na extremidade das quaes amarram os cabos que sustentam o apparelho dentro de agua, e que recebem o nome de alares.

O sacco tem duas costuras convergentes, prendendo a face de cima á de baixo, formando uma garganta afunilada e dois cantos triangulares, denominados beliches, onde o peixe se accumula sem poder sair, na occasião de suspender a rede. A tartaranha constitue uma variedade muito notavel das artes de arrastar, sendo em Portugal unicamente empregada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro.

Velame do bote-da-tartaranha: 1. Varredora de cima; 2. Varredora de baixo; 3. Grande; 4. Pano da vara; 5. Polaca; 6. Varredora da proa; 7. Cozinheira; 8. Cozinheira; 9. Toldo.
Imagem: Maria Lucia De Nicolò, Tartane cf. E. Curtinhal, Barcos, memórias do Tejo, Ecomuseu Municipal do Seixal 2007

Imagine-se este phantasma colossal, com o enorme ventre dilatado, a bôcca escancarada, os braços estendidos, movendo-se no abysmo oceanico, engulindo milhares de seres differentes, e esmagando, com o pesado corpo, tudo que encontra na sua devastadora digressão pelo fundo.

A acção destruidora deste gigantesco engenho do mal exerce-se sobre a vegetação submarina; sobre os ovulos e germens das mais preciosas especies, que nas plantas encontram auxilio para o seu desenvolvimento embryonario; sobre a fauna e flora, que servem de alimento ás especies novas e adultas; e sobre a propria colheita, que, na maior parte, fica inutil para qualquer applicação proveitosa.

O damno causado por estas redes, tem dado logar á promulgação de diversas medidas repressivas do seu exercicio, desde 9 de abril de 1615, data do primeiro alvará que as prohibiu por tempo de oito annos, para favorecer os pescadores do alto, da cidade de Lisboa, contra os que pescavam com as ditas redes, procurando remediar a falta de pescado, que attribuiam ao uso das tartaranhas. 

E, como a arte, na sua progressiva evolução, nem sempre dá resultados beneficos, acontece que este systema de exploração dos seres que habitam as aguas, se tornou ainda mais nocivo com o emprego da navegação a vapor no arrastamento do immenso sacco, imprimindo-lhe maior velocidade e intensidade de acção, motivo por que o decreto de 30 de julho de 1891, confirmando a previsão do velho alvará, estendeu a prohibição ao moderno arrastão, rebocado pelos vapores de pesca.

A muleta de pesca, pela sua fórma exquisita e pittoresca, e pelo gosto artistico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas, merecendo a predilecção de muitos admiradores da sua belleza, entre os quaes se contam o finado Rei D. Luiz, El-Rei D. Carlos, o almirante Páris [François Edmond Pâris (1806-1893)], Pedroso, Pinto Basto, Camacho, Vaz, Casanova, o auctor destas linhas, e o sr. R. Monleon [Rafael Monleón y Torres], de quem são os bellos desenhos que acompanham este artigo, e que representam as mais minuciosas particularidades do casco, apparelho, velame e accessorios, da muleta.

Marinha, Muleta, D. Carlos de Bragança.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Que bellas applicações se podem fazer da muleta de pesca na ourivesaria, na ceramica, na tapeçaria, e em muitas outras artes uteis e decorativas!

A fórma do seu casco dá esplendidamente, imitada em porcelana ou barro, uma admiravel terrina ou saladeira, e um elegante centro de mesa ou floreira, com especial aspecto maritimo, genuinamente portuguez. Em marmore, pôde modelar-se com ella um lindo tanque ou baptisterio, de puro estilo nautico nacional. Tem desusada e significativa applicaçáo o desenho da muleta no lavor central de um tapete, alcatifa ou cortinado. Em oiro, prata, bronze ou ferro, ou pela combinação e entrelaçamento d'estes me-taes, quantos objectos de arte se podem conseguir com a fórma ou delineamento geral da muleta de pesca?!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

Carecemos tanto de um estylo genuinamente caracteristico da nossa feição especial de povo de navegadores, cheio de tradições maritimas, perpetuadas em poemas sublimes e monumentos grandiosos, que é forçoso reunir, e methodisar em formulas praticas, os elementos simples e as concepções geraes, que devem orientar o nosso gosto artistico na composição dos productos da industria nacional. 

A arte portugueza não pôde desenvolver-se sem conseguir este desideratum.

Campolide, 16 de março de 1895 (1)


(1) A. A. Baldaque da Silva, Muleta de pesca, Arte Portugueza n.° 5, 5 de Maio de 1895

Artigo relacionado:
Jimmy Green's, a muleta do Tejo

Informação relacionada:
Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)

Maria Lucia De Nicolò, Tartane

Leitura relacionada:
Léopold Folin, Bateaux et Navires (...), Paris, J.-B. Baillière et fils, 1892

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886

Sabemos que D. Bertha Ortigão passara parte do outono de 1886 na Cova da Piedade em companhia de seu pai, Ramalho Ortigão.

D. Bertha Ortigão por Columbano, 7.ª Exp. do Grupo do Leão, 1887.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como referido, nas Cartas Portuguezas, pelo ilustre escritor, teria a familia nessas férias visitado amigos e descoberto lugares. Ramalho anotara as recentes novidades e, ao mesmo tempo, relembrara as memórias do tempo de seu pai a propósito da ainda bucólica e pitoresca Cova da Piedade.

D. Bertha, durante estas visitas e passeios,  registava em algumas "pochades" as imagens que, supomos, mais tarde apuraria em telas pintadas a óleo, ou talvez as aprimorasse mesmo "sur place".

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Solar da quinta de S. José em Linda-a-Velha, demolido para a construção do Estádio Nacional.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Não conhecemos estes quadros, pois no catálogo da mostra em que foram apresentados a público não consta a imagem de algum deles.

No entanto, com a esperança de que algum dia nos venham a ser revelados, aqui ficam as referências que dispomos tal como descritas no catálogo da 6.ª exposição d'arte moderna, realizada em 1887, pelo Grupo do Leão que, sem compromisso, complementamos com fotografias de nossa escolha, embora um pouco mais tardias.

ORTIGÃO (D. B.) C. dos Caetanos, n.° 30.

68 — Valle Mourellos no outomno.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

70 — Esquina da estrada do Pombal.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
72 — Rosas [da Quinta do Pombal de Paul Henri Plantier?] .
73 — Rosas.
74 — Arenques e vinho branco.
75 — Os moinhos do Pragal.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

76 — Mademoiselle.
77 — Prato decoratico.
...

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Ortigão, que escrevia sobre quase tudo, e que por este tempo era critico de arte já feito, espetava as suas "Farpas" por aqui e ali; não consta que alguma apreciação tenha feito aos quadros de D. Bertha. O que aumenta a nossa expectativa quanto aos mesmos.


Leitura relacionada: 
Sandra Leandro, Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX

Artigos Relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1882
Passagem pelo grupo do Leão

Referências internas:
Ramalho Ortigão, verão de 1886
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

António Ramalho na praia do Alfeite em 1881

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'um effeito geral esplendido. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

Artigo relacionado:
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

sábado, 27 de agosto de 2016

Memórias simples

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Vista de Cacilhas e do Tejo, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Além de subsistirem traços “do cais e instalações [...] com características identificáveis de final do séc. XVII e XVIII [...],” sofrendo, no entanto, "sucessivos acrescentos e alterações, particularmente após meados de oitocentos," também é verdade que no século XVIII se construíram de raiz "armazéns e cais de alvenaria. A impossibilidade de expansão para a arriba obriga à extensão do cais pela margem à medida das necessidades".

Em 1813, "parte significativa destes armazéns eram propriedade da família Paliarte [...]." Dedicava-se, como de resto a maioria dos comerciantes de vinho ali estabelecidos, à actividade exportadora. (2)

Cacilhas Ginjal Grémio Vista aérea 01 c 1960
Imagem: OBSERVADOR

Segundo os poucos testemunhos disponíveis, a actividade comercial exercida pela Sociedade Theotónio Pereira no século XIX e, ainda, na primeira metade do século XX, tinha por base uma série de produtos agrícolas já transformados, de que se destacavam, entre outros, os vinhos, as aguardentes e o azeite.

A firma que, tanto quanto se sabe, nas suas várias fases em momento algum se dedicou à produção ou sequer à transformação dos produtos que transaccionava, pelo menos em grande escala, tinha a sua sede em Lisboa, sendo possível, ou bastante provável, que até à aquisição dos armazéns localizados no Cais do Ginjal — não sendo de descartar a possibilidade de aqui ter funcionado sempre a actividade armazenista —, toda a mercadoria ficasse acondicionada em depósitos situados na zona ribeirinha de Lisboa ou nas imediações desta.

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A de qualquer modo precoce localização, na vida da empresa, dos seus armazéns no Cais Ginjal, encontra-se indirectamente documentada por se saber que quando em Agosto de 1871 foram adquiridos por Theotónio Pereira vários prédios no dito cais, dos números 12 ao 22, havia pelo menos um deles que confrontava com a propriedade da Viúva Theotónio Pereira & Filhos [...]

[...] um prédio na Rua Direita em Almada; um prédio rústico no Ginjal; um outro, também no Ginjal, descrito como rústico e urbano (composto de vinhas – parreiras – árvores de fruto, horta, com duas nascentes de água, casa para caseiro, telheiro e forno); sete prédios urbanos no Ginjal, quase todos eles armazéns com um ou dois pisos; um "domínio" principal de uma "praia denominada do baixo mar, no sítio do Ginjal" de que era "senhoria" a Câmara Municipal de Almada; um segundo "domínio" principal de "uns armazéns, casa e pátio no Ginjal" de que era "senhoria directa" a mesma Câmara Municipal [...] 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal



Das vinhas do citado prédio rústico e urbano, "uma quinta encantadora, encostada à rocha de Almada", com o seu "grande parreiral de belíssimas uvas", seguia este seu fruto "em caixas para o estrangeiro" [...]

Foi no Ginjal que nasceu de madrugada Virgínia Theotónio Pereira, a mais nova dos cinco irmãos. Na altura, e como sucedia não poucas vezes, seu pai encontrava-se num pequeno bote a pescar "ao candeio acompanhado de dois pescadores vizinhos". No fim dessa madrugada, levou para casa, entre outro pescado, um "possante congro de 15 quilos." Regressou entusiasmado pela pescaria mas "mal passou os umbrais ouviu um cué-cué de bebé nascido" [...]

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era naquela mesma casa "de fora" do Ginjal que José Correia [avô do escritor Romeu Correia], o encarregado das adegas e dos armazéns de vinhos, marcava os "pas de quatre e as quadrilhas". Juntava-se-lhes "sempre que possível o pessoal menor, depois de se assear", para dar o "seu pé de dança, que acabava sempre num galope à roda mesa da sala de jantar". (3)


(1) P.e Luís Cardoso, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.
(2) Martinez, ... ser mestre do vapor de Cacilhas, 2005
(citações de Maria Ângela Correia Luzia, A memória, a cidade e o rio, Lisboa, 1996)
(3) Martinez, idem

Leitura relacionada:
Cais do Ginjal. Da fortuna à decadência

Artigo relacionado:
O Ginjal não é para raparigas solteiras

Tema:
Ginjal

sábado, 20 de agosto de 2016

Domingos Sequeira, Cartuxa de Laveiras, Real Quinta, Trafaria e Cabo Espichel

"Seria hum estimolo muito agradavel a Sua Magestade, o ver em toda a estenção a vista da Cidade de Lisboa athe a barra, e de toda a que ofrece a Costa desde Cacilhas athe ao riba Tejo" [...] (1)

Estudo para o Panorama de Lisboa, Domingos Sequeira. Em primeiro plano vê-se a ponte sobre a ribeira de Barcarena (dos Ossos) e a igreja da Cartuxa de Laveiras, seguidos da Quinta Real de Caxias. Em segundo plano, uma grande quantidade de navios e barcos sobem o Tejo sobre o cenário da Trafaria e do Cachopo sul ou Alpeidão. Ao fundo, na linha de horizonte, distingue-se o Cabo Espichel.
Imagem: Hemeroteca Digital

Por motivos ainda hoje algo obscuros, Sequeira ingressa na Cartuxa de Laveiras (Caxias) [1798-1801]. O seu recolhimento caracteriza-se por uma assinalável actividade artística, pintando uma série de cinco telas de grande dimensão com passos da vida de S. Bruno (fundador e patrono dos Cartuxos) e de outros santos eremitas (Santo Onofre, S. Paulo e Santo Antão). O conjunto encontra-se disperso por três museus (MNAA, Museu Nacional de Soares dos Reis e Museu de Évora). (2)

Planta da Real Quinta de Caxias, J. A. de Abreu, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O insigne pintor Sequeira foi encarregado, não sabemos, ao certo, em que data, nem para que fim , da execução de uma vista panorâmica da cidade de Lisboa. Este facto é comprovado por diversos autores e por alguns documentos inéditos que dizem respeito a este trabalho. A mais antiga referência encontra-se na "Lista de alguns artistas portugueses", por D. Fr. Francisco de S. Luís, Lisboa, 1839.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Nela se lê: "Vi em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa, em que andava trabalhando".

Posteriormente, em 1843, José Maria da Silva Leal na biografia de Domingos António Sequeira. publicada no jornal de Bellas-Artes, aludia a este trabalho artístico, de que fôra, segundo êle, encarregado em 1821 e l822, nos seguintes termos: "... o panorama de Lisboa, obra já muito adiantada, e cujos desenhos se conservam no archivo das Obras-publicas". 

O nosso saudoso amigo Dr. Xavier da Costa, no seu belo livro A morte de Camões, quadro do pintor Domingos António de Sequeira. Lisboa, 1922, transcreveu as duas mencionadas passagens, sem lhes acrescentar quaisquer outros elementos novos. 

Vista da Trafaria — Saída da barca Martinho de Mello, João Pedroso, gravura
Imagem: Archivo Pittoresco, vol. X, 1867

Com a ajuda de diversos documentos que encontramos no Arquivo Hlstórico Militar podemos acrescentar alguna coisa mais sobre este assunto. Logo, pelo primeiro documento que adiante [e no topo da página], reproduzimos, se conclui que, já em 16 de Setembro de 1818, Sequeira se propunha, auxiliado pelo gravador Benjamim Comte, executar a vista panorâmica de Lisboa até à barra e de toda a costa desde Cacilhas até ao Riba-Tejo.

"[...] tomei a deliberação de comvocar o Abridor Bejami Conte. empregado no Real servisso, para me ajudar ad.a empreza, e escolhendo o luçal da Vila de Almada para dali fiqçar os pontos que ofereção a melhor optica: sendo-me precizo para este fim hu.a Barraca de Campanha, de Coronel, por ser mais reparada, e algum soldado tanto para a conduzir ao d.° sitio de Almada, como para a armar nos pontos q.e convier, e guardala, bem como hua incinuação do Governo p.a o Juiz de Fora de Almada me prestar algum socorro sendo-me nescessario para o dito fim" [...]

Domingos António Sequeira (1768-1837), auto-retrato.
Imagem: Educación Holística

Na exposição sequeirense,  realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 1939, figurou um album de desenhos de Sequeira, onde há dois relativos a este panorama de Lisboa. Por especial deferência do seu ilustre director o sr. Dr. João Couto, que, amávelmente, nos forneceu a respectiva fotografia, podemos. enriquecer este artiguelho com a reprodução de um daqueles desenhos.

Não é fácil determinar, com exactidão, o que, realmente, nele figura. Na margem esquerda parece avistar-se a Trafaria e o cabo Espichel. 

Na margem direita aparece uma elevação que não conseguimos identificar [n. do e. trata-se da elevação onde está instalado o Forte D. Luís I, ou Forte de Caxias ou Forte-prisão de Caxias].

O querido, amigo Dr. Xavier da Costa, a pág. 27, do seu trabalho Domingos António de Sequeira. Notas biográficas, Lisboa 1939, escreveu: Também D. Frei Francisco de S. Luiz viu em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa. em que andava trabalhando. 

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Dizem que era obra muito adiantada e que os esboços se conservavam, depois, no Ministério das Obras Públicas. No Museu das Janelas Verdes, existem vários desenhos, preparatórios para o referido trabalho, sabendo-se que um grande Panorama da cidade, da autoria do pintor, desapareceu no violento incêndio que, em 1863 consumiu o edificio dos Paços do Concelho da nossa capital e a parte primacial do seu conteudo.

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Como o arquivo do Ministério das Obras Públicas foi, também, destruído por outro incêndio que devorou a instalação das encornendas postais no Terreiro do Paço, em 1919. Perderam-se lamentavelmente, não só os desenhos de Sequeira para o panorama da cidade de Lisboa, que ali se encontravam, em 1843, segundo informou o jomalista Silva Leal, como o mencionado "grande panorama". (3)

(1) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(2) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(3) Henrique de Campos Ferreira Lima, Uma vista panorâmica de Lisboa da autoria do pintor Domingos António de Sequeira, Lisboa, revista Municipal, 10, 1941

Leitura adicional:
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira (anexos)
A obra gráfica de Domingos António de Sequeira no contexto da produção europeia do seu tempo

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Rainha D. Estefânia, Karl Ferdinand Sohn, 1860.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Se lá no assento ethereo, onde subiste,
Memoria desta vida se consente,
Não te esqueças de aquelle amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

E se vires que póde merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remedio, de perder-te;

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Roga a Deos que teus annos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou. (1)


(1) Obras Completas de Luiz de Camões... Tomo I, Parnaso..., Vol. 1, Sonetos, Porto, Imprensa Portugueza Editora, 1874

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pelas praias do Caramujo

A íntima amisade, que contrahi com a Illustre Pessoa, que aqui serve de Heróe; o passeio, a musica, o divertimento de colher pelas praias do Caramujo, termo de Almada, differentes qualidades de mariscos, e finalmente a pesca nunca interrompida, fizerâo em mim tal impressão, que me determinei a celebrar este ultima diverlimento , a que sempre fui propenso; e porque era, e he aquelle, que alli mais cultivão as Illustres Famílias , que a éste sitio concorrem no tempo dos banhos. 

APDG, Sketches of portuguese life, manners, costume and character, Banhos no Tejo, 1826.
Imagem: Internet Archive

No dia 10 de Setembro de 1826, quando eu contava 27 annos de idade, estando todos, como costumávamos, applicados ao nosso divertido exercício, passeando no largo com grande prazer, appareceo de repente Belmiro, debaixo de cujo nome se intitula o Heróe da acção, acompanhado de outro amigo nosso, trazendo por huma corda huma masseira velha, ou gamella de amassar pão, muito rota por todos os lados. 

O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade

Todos perguntarão, porque trazia tal cousa; e elle respondeo, que era para nella hirmos pescar. Todos estimámos, principalmente eu, tal descoberta de vaso, para duplicarmos nosso regosijo nesta tarde. 

Logo, convocando elle alguns amigos, comigo começou a concertalla do modo, que melhor foi possível; nella metemos as redes e vogámos para o mar, elle, e eu sómente, porque ninguem mais se atreveu a acompanhar-nos.

Muitas pessoas, principalmente huma Senhora, sua filha, e mais familia nos dissuadíão de tentar o rio naquelle vaso pequeno e velho; mas desprezados estes avisos, e confiados em saber bem nadar, comettemos nossa viagem.

Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: ZONA Magazine

Estando porem já muito distantes de terra, repentinamente sobreveio tão horrivel tempestade, que á vista de todos fez voltar o barquinho comnosco, que, privados de ver a terra por causa do aguaceiro, com relâmpagos, raios, trovões, pedra, etc. nos custou tomar a praia apesar das nossas forças em nadar.

Em fim chegámos á praia, e mandámos soltar hum bote, que estava prezo a hum cáes de pedra, para trazer a canoa, e as redes, que ficárão no largo, as, quaes trouxerão peixe, de que se fez huma merenda esplendida, como nunca tivemos, o que bem se pôde inferir pelos successos, que lhe antecederão, que posto sejão debuxados com tosco pincel, forão brilhantes [...]

Praia do Caramujo, Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Do Caramujo expõe-se o sítio ameno;
E como delle gosâo pelo Estio
Innocentes, maritimos prazeres
Diversas personagens d'outras terras.
No designio Belmiro entra da pesca
C'os illustres vizinhos, que consentem,
E do dvertimento não desmentem [...]

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Do nosso antigo Tejo, ha na aurea margem,
Hum lugar mui ameno, delicioso,
Caramujo de séculos remotos
Pelos seus habitantes nomeado:
Dous altos montes sobem a seus lados,
Que parecem tocar do Ceo as nuvens.
Hum agradável prado mui risonho,
Onde assiste a formosa Primavera,
Torna seu local bello, e aprazível [...]

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

"Tudo o que Vénus diz, verdade he pura,
"Formosa Filha tua, grande Jove;
"Lá do Tejo nas margens, nas raízes
"Dos montes, que de base a Almada servem
"O Caramujo existe socegado.
"He maritimo porto, alli altares,
"E templos dedicados mil eu lenho,
"Onde o licôr divino nunca falta,
"Que com festividades me consagrão;
"Alli á Pesca entrega-se Belmiro [...]

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Belmiro se prepara com Phylinto;
Fileno vai também lançar as redes:
Já he visto o batel frágil nas ondas.
Difficutdades muitas se presentão.
Que pelos argonautas são vencidas.
A rede se prepara, que na barca
Já recolhida fôra, e só lhe falta
Remar bem para o largo com grão força [...]

Cais do Caramujo, pontão de madeira, década de 1970.
Imagem: Fernando Cruz

"Ó Deos do mar profundo, tu me escula,
"Mais que disse, dizer nâo pôde Vénus;
"Do Caramujo sou Patrono eterno;
"Eu requeiro o que implora a bella Deosa:
"Juno he prejura; Belmiro innocente;
"Juramento a verdade não precisa. [...] (1)


(1) Francisco António Martins Bastos, A pesca, Lisboa, Impressão Regia, 1831

Leitura relacionada:
Francisco António Martins Bastos na Biblioteca Nacional de Portugal