sábado, 17 de abril de 2021

Gregório, do Cacilhense...

Gregório
Revista Stadium n° 345, 1949
Cacilhas, a vila da outra margem do Tejo, que amorosamente fita Lisboa. O alfacinha que por ela nutre particular admiração e estima, não se furta o grato prazer de a visitar da quando em vez, animando-lhe buliçosamente as ruas e retiros nos domingo e dias feriados.

No recuado ano de 1930, nas ruas menos concorridas, sobre o basalto, a miudagem que rondava pelos 13 anos, dava largaa à inontida fúria pela bola, disputando interminavelmente desafios que, geralmente, só findavam devido à intervenção dosprogenitores da policia ou da guarda republicana.

Entre os pequenitos Gregório Gonçalves dos Santos nascido em 26-1-1917, distinguia-se pela vivacidade endiabrada, pelo fôlego inexgostavel, pela indiferença com que sacrificava a biqueira das botas... até que o pai resolveu não as deixar ao alcance do azougado garoto... que jogava descalço, então, sacrificava os dedos dos pês à alegria de jogar com uma bola de borracha ou de trapo... embora, depois, ao chegar a casa, o pai jogasse com ele de maneire diferente...

O número de miúdos cresceu de tal forma que chegou um dia em que resolverem, multo simplesmente, fundar um clube. Apareceram vários nomes, mas só um deles mereceu aprovação unanime, pelo seu simbolismo: "Cacilhense".

Criado o clube, faltava uns bola de coiro, igual ou parecida com as dos jogadores de verdade. Qual a solução?

Todo o dinheiro obtido pelaa dádiva dos pais ou dos amigos era empregado na compra de rebuçaods,— daqueles que tinham concurso dos emblemas dos principais clubes. E, assim, foi resolvIdo tão magno problema!

Teve, porém, efémera duração o grupo. Na ano seguinte, já com os miúdos na idade de 14 a 15 anos, novo clube surgiu em substituicão do primeiro o "Bombense".

Os jogos passaram a realizar-se no Campo do Ginásio Clube do Sul, com bola de cautechu, pagando cada miúdo dez tostões para o aluguer. Claro que, os desafios não tinham hora certa de duração.

Aos 16 anos, Gregório, ingressava no Ginásio, proprietário do campo onde começara a revelar a sua intuição futebolística, participando em vários desafios... já a valer, mas com carácter particular. Alinhava também, visto que não assinara ficha, no Pedreirenee F. C. hoje fusionado com o Atlético Clube de Almada e no União Piedense, hoje Clube Desportivo da Cova Piedade, entre outros. (1)


(1) Stadium n.° 345, 13 de julho de 1949

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Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Clube Recreativo José Avelino

quinta-feira, 25 de março de 2021

Canhoneira Chaimite em construção

Na tarde luminosa e azul de domingo, após a entrega ao Estado do esbelto Adamastor, em o claro Tejo, sulcado ainda de mil embarcações em festa; bandeiras vibrando na porcelana do ar, a alegria dos hymnos, o clamor enthusiastico de milhares de vivas, realisou-se a visita aos estaleiros dos srs. Parry & Sons, no Ginjal, onde está a construir a canhoneira Chaimite, que, apenas prompta será pela Commissão de Subscripção Nacional entregue ao Estado, como o foram as duas lanchas d'aço e ferro, Diogo Cão e Pedro Annaya, por egual sahidas d'este magnifico estabelecimento que muito honra a industria nacional.

Medalhão da fundição do hélice da canhoeira Chaimite em 1897
Museu de Marinha

O Branco e Negro publica alguns aspectos desta ceremonia, bem como da canhoneira, que é destinada á policia e fiscalisação na costa de Moçambique, e, sobretudo, a estabelecer communicações entre as esquadrilhas do serviço fluvial e as capitaes dos districtos de Lourenço Marques e da Zambezia.

As dimensões da canhoneira são as seguintes: comprimento entre as perpendiculares, 40m,84; bocca extrema, 8 metros; pontal do porão, 3m,15 ; immersor á ré, 2 metros. A velocidade é de 11 nós por hora.

O material empregado na construcção é o aço da melhor qualidade. O casco é dividido em compartimentos estanques por meio de anteparos solidamente construidos.

O tombadilho e castello são de fórma abahulada (tartle back). Nos paioes póde receber mantimentos para 20 praças durante 60 dias, aguada para 40 dias e combustivel para 12. Em dois paioes independentes póde transportar 25 tonelladas de carga.

A canhoneira é construida segundo os ultimos planos de construcção naval, em navios da sua categoria.

Oficiais da antiga canhoneira Chaimite que operou em Moçambique em 1915
Museu de Marinha

Avante terá um solido gaviete e um aparelho para fundear boias, movido pelo cabrestante a vapor, para serviço de balisagem dos portos. No alojamento á ré, além dos camarotes para o commandante, immediato e machinista, tem um camarote com dois beliches e sophás na camara.

Em tempo de guerra póde servir com grande vantagem como auxiliar das esquadrilhas fluviaes.

O armamento do navio é composto de duas peças de tiro rapido Hotchkiss de 47 millimetros, com escudo de protecção, montadas em reductos centraes, que em occasião de combate são fechados por chapas de abrigo, e de duas metralhadoras de Nordenfeldt de 11 millimetros, installadas no convez, mas que, em caso de necessidade, podem ser transportadas para os cestos de gavea dos mastros.

Tem dois jogos de machinas de alta e baixa pressão, de cylindros invertidos, de acção directa, verticaes, com condensador de superficie e dois helices, tendo uma caldeira multibular e sendo o condensador commum ás duas machinas. A força é de 480 cavallos. Cada jogo de machinas é constituido para trabalhar independente.

Canhoneira Chaimite na Ilustração Portugueza n° 539, 19 de junho de 1916
(note-se a bandeira republicana redesenhada na imagem)
Hemeroteca Digital

O seu deslocamento é de 340 toneladas e a velocidade de e 11 nós por hora. (1)


(1) Branco e Negro n° 73, 22 de agosto de 1897

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Canhoneira Chaimite aumentada ao efectivo
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

Canhoneira Chaimite aumentada ao efectivo

Construída nos Estaleiros “Parry & Son”, em Cacilhas, a canhoneira Chaimite foi aumentada ao efetivo dos navios da Armada no dia 15 de novembro de 1898. Foi o primeiro navio de aço da Marinha Portuguesa construído em Portugal, através dos planos elaborados sob direção do Comandante Eugénio Andrea.

Lançamento à água da canhoneira Chaimite no estaleiro de Parry & Son em 3 de Agosto de 1898.
Museu de Marinha

O surgimento do Ultimato Britânico em 1890 levou a que fosse necessário garantir uma Marinha capaz de proteger os interesses de Portugal em terra e no mar. Com a assinatura da Grande Subscrição Nacional no mesmo ano, foi possível, através das verbas reunidas, adquirir parcialmente a canhoneira Chaimite e o cruzador Adamastor.

H. Parry & Son.
Restos de Colecção

Em janeiro de 1889 a Canhoneira Chaimite partiu rumo à província ultramarina de Moçambique onde chegou a 20 de abril. A sua atividade operacional iniciou-se quando serviu a Esquadrilha do Zambeze até agosto de 1900 e, após esse empenhamento, participou na missão de levantamento hidrográfico nas baías do Mossuril e de Lourenço Marques, na missão de balizagem do Chinde e Quelimane, e ainda esteve envolvida na repressão à escravatura na área de Angoche, em paralelo com outras operações militares na costa moçambicana.

Em 1915, durante os confrontos em África, serviu de apoio ao cruzador Adamastor nas operações do Rovuma, rio que separa Moçambique, antiga colónia portuguesa, da Tanzânia, antiga colónia alemã.


A canhoneira Chaimite marcou um avanço, não só na construção naval portuguesa, mas igualmente na introdução de novas tecnologias a bordo, com destaque para o gerador elétrico, para iluminação e alimentação de um projetor. A 20 de maio de 1920 foi abatida ao efetivo dos navios da Armada. (1)


(1) Comissão Cultural de Marinha

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H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

terça-feira, 2 de março de 2021

Almaraz e Cacilhas, vestígios arqueológicos de actividades portuárias

Vista parcial, do lado direito, da colina do Almaraz, Almada, voltada para o estuário do Tejo...
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. ... 2004

Almada

Posição geográfica: Margem esquerda do Tejo, na parte vestibular do estuário.
Coordenadas geográficas: N. 38 ° 41’ W. 9 ° 09’
Localização: Morro sobranceiro ao Tejo
Contexto geomorfológico: Insere-se no Esquema 2 de N. Flemming apresentado no II Capítulo e na Fig.13. Observou-se continuidade na posição de litoralidade.


Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...

Fontes antigas: São abundantes as referências ao ouro extraído das areias do Tejo emautores antigos tais como os poetas Catulo (XXIX, 20), Juvenal (III, 54-55), Silicio Italico (Punicorum, XVI, 560), Lucano (Pharsalia, VII, 755). Relativamente a época posterior, lembramos a conhecida relação entre o topónimo árabe Al-madan com o significadode "a Mina" e a tradição ligada à exploração de ouro no Tejo (Cardoso, 1995, p. 53).
Fontes cartográficas: João Teixeira (1648) — Descripção dos Portos Marítimos do Reino de Portugal, reproduzido em Cortesão e Mota (1987, vol. IV, Estampa 510 A).

Vestígios arqueológicos e actividades portuárias

Almaraz:

O esporão rochoso de Almaraz tem fornecido documentos arqueológicos que confirmam o povoamento do local durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

No caso do povoado de Almaraz datável da Idade do Ferro, registaram-se testemunhos de importações directas de produtos de fabrico mediterrânico, com origem no Mediterrâneo Oriental e datáveis do século VII a.C. (Cardoso, 1995, p. 47).

Essas importações de formas e técnicas poderão ter produzido fenómenos de aculturação como certas produções cerâmicas locais deinspiração oriental parecem sugerir a J. L. Cardoso (1995, p. 49).

Entre os artefactos de importação presentes em Almaraz figuram as cerâmicas de verniz vermelho, ânforas fenícias, pithoi decorados com bandas pintadas e cerâmicas cinzentas (Cardoso, 1995).

Cacilhas:

O achado subaquático, durante operações de dragagens fluviais, de umaespada pistiliforme datável do Bronze Final e a relação desse artefacto com “um comércio trans-regional, atlântico-mediterrânico”surgem em paralelo com uma eventual interpretação como objecto votivo relacionável com um ritual dedicado a divindades aquáticas (Cardoso,1995, p. 42).

As escavações na parte ribeirinha de Cacilhas levadas a cabo por Luís de Barros puseram a descoberto uma estrutura em pedra interpretável como um cais com evidências de contacto prolongado com a água, e associada a materiais pré-romanos (séculosVII-VI a.C.)18 e a tanques de salga.

É igualmente no sopé do esporão de Almaraz que continuou a fazer-se a travessia do Tejo em época romana, verificando-se continuidade nesta utilização desse ponto até à actualidade (Alarcão, 1992b, apud Cardoso, 1995, p. 45).

Cacilhas apresenta um complexo industrial de salga de peixe da época romana(século I a.C. — meados do século I d.C.).

A área das cetariae revelou sete níveis de ocupação, incluindo uma reutilização durante a época islâmica e registando-se ocupações posteriores relacionadas com a expansão urbana de Cacilhas (século XVI-século XIX) (Barros, 1982). Cerâmicas de importação: sigillata itálica e sud-gálica, cerâmica de paredes finas (Cardoso, 1995).

Utilização do litoral

A ocupação do morro de Almaraz denuncia contactos antigos com rotas marítimas longínquas através de um ponto de contacto com a navegação situado na área actualmente correspondente a Cacilhas. Terão operado em conjunto, constituindo um pólo de difusão e de escoamento quer de sal, quer de produtos mineiros, além de produtos agrícolas e agro-pecuários.

Almada insere-se num contexto geográfico especialmente privilegiado pela presença do estuário do Tejo na sua parte mais propícia à instalação de indústrias directamenterelacionadas com o meio marinho: salicultura, unidades fabris de transformação de pescadoe olarias com produção de contentores destinados aos preparados piscícolas durante a época romana.

Almada aparece referida em 1640 como uma vila:

"A la otra parte de Lisboa, distancia de una legua que la anchura do Tajo occupa, yaze la villa de Almada, comarca de Setubal, en lugar alto con 450 vezinos, 2 Parroquias y un convento de frayles" (Biblioteca Nacionalde Paris, Manuscrits espagnols, códice 324, fol. 31, apud Serrão, 1994, p. 198). (1)


O foral de Lisboa de 1179 e o foral de Almada de 1190, que privilegiam as tripulações das embarcações com foros de cavaleiros, são documentos reveladores da importância que, já naprimeira dinastia, era atribuída ao porto de Lisboa, embora a primeira referência explícita ao"porto de Lisboa" só tenha ocorrido em 1305, na época de D. Dinis.

No século XIV, a descrição que Fernão Lopes faz deste porto, embora aparentemente anterior a instalações portuárias construídas, e de relevo, não deixa dúvidas acerca da capacidade navegável da parte vestibulardo estuário do Tejo:

"carregavam de Sacavem e ponta de Montijo, sessenta a setenta navios de cadalogar, carregando sal e vinhos"(Fernão Lopes, apud Ramos, 1994, p. 724), embora, por ausência de cais adequados, fosse natural que se recorresse aos ancestrais serviços de embarcaçõesde transbordo, pois "por a gramde espessura de mujtos navios que assi jaziam ante a cidade, como dizemos, hiam ante as barcas Dalmadaa aportar a Santos, que he hum gramde espaço da çidade,nom podemdo marear perantrelles” (Fernão Lopes, apudRamos, 1994, p. 724). (2)


(1) Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...
(2) Idem


Mais informação:
Ana Olaio, O povoado da Quinta do Almaraz... 2018
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. até à Chegada dos Romanos: um Ensaio de História Regional... 2004
Luis Barros, João Cardoso, Fenícios na margem sul do Tejo... 1993
ResearchGate (search)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Flor de Amendoeira, Marina Algarvia, Idalécia Cabrita Costa (1929-2010)

Carta manuscrita de Idalécia Cabrita Costa a Maria Lamas, datada de 3 de Maio de 1972. Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio E-28, caixa 6, referência 1.237. Idalécia Costa publicou, com o pseudónimo de Marina Algarvia, os seguintes livros: Treze Dias com Flor de Amendoeira (1968); O Gato da Quinta Azul (1974); O Sol (1978); O Gato de Caça e o Gato de Raça (1980); A Formiga Ladina (1985); Saltarico e o Copinho de Prata (1985); O Rato e o Rouxinol (1986); O Coelhinho e o Pico (1990) e As Aventuras da Patinha Mimi (1992).

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Idalécia Cabrita Costa, que assina as suas cartas como Maria Carlota, escreve a Maria Lamas, que se encontra em S. Mamede de Infesta, a expor-lhe os seus problemas e a agradecer o encontro entre ambas:

Os meus agradecimentos pela entrevista em meu poder desde sábado e que li num fôlego, tão desejosa estava dela e tanto me interessou. Creio muito breve poder informar a Senhora Dona Maria Lamas da data da sua publicação e, se ainda se encontrar em S. Mamede, eu própria terei o cuidado de providenciar para que V. Ex.a a receba aí.

Idalécia Costa
Gentes de Almada no Facebook

Não posso deixar de me sentir cada vez mais grata pela maneira como me vem tratando e pela possibilidade que me oferece de podermos conversar, se eu quiser. Pois como poderei não querer estar com a Senhora Dona Maria Lamas? Como poderei não desejar escutá-la sobre o jornalismo, a mulher, a criança...? Nunca ousaria, sim, pedi-lo. Porquê? Por tudo: a minha insignificância, a admiração e respeito que o nome «Maria Lamas» me infunde, o receio de não saber corresponder, o medo de pessoalmente desagradar...

É verdade, por tudo.

Pode agora a Senhora Dona Maria Lamas adivinhar o que terei sentido por me dizer "sinto desejo de conversar consigo e pressinto que vamos ter muitas coisas a dizer uma à outra, acerca...". Sinceramente, Senhora Dona Maria Lamas, esperava muito da sua bondade, mas tanto não. 

Vou esperar – ansiosa mas sem pressa, será quando a Senhora Dona Maria Lamas puder – a sua chamada, mas quero já dizer que a mulher e a criança são temas que me interessam profundamente e que, no meu jornalismo modesto e amador, tenho referido muitas vezes, mais no «Jornal do Algarve» do que em «República». 

Igual acontece com o livro infantil, género literário em que dei grande colaboração (grande em presenças porque escrevi bastante, não em qualidade) à «República dos Miúdos», entre 1950 e 1960, com os pseudónimos de Flor de Amendoeira e Marina Algarvia. Também com este último pseudónimo publiquei um livro de contos para crianças, mas um livro sem "história", ou antes com uma história muito triste: dois anos e meio após a sua publicação, o editor vendeu-o sem me dar conhecimento, ao quilo, a um livreiro de Lisboa.
  
Tomei-lhe já muito tempo, Senhora Dona Maria Lamas e peço me desculpe, mas senti que tinha de falar um bocadinho de mim para que, sabendo V. Excelência o meu pouco ou nenhum merecimento no campo das letras, não faça de mim uma ideia que a minha presença destrua. 

Muito obrigada pela paciência com que me leu e os meus cumprimentos de profundo respeito e gratidão.


Maria Carlota

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Luiz Gonzaga Pereira, Almada e o Tejo em 1809

Nasceu Luiz Gonzaga Pereira cm Lisboa, na Freguezia de S.to Estevão, em 21 de junho de 1796; era um dos trinta filhos de Joaquim Manoel Pereira, praça do regimento de Beça, onde prestou serviço até 1773, sendo nesse ano nomeado, por provisão régia, mestre da officina de aprestes de artilheria do Arsenal Real do Exercito, cargo que ocupou até 3 de março dc 1823, dia em que faleceu com 90 anos de idade, e 75 de serviço.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 27.
Montanha da Villa de Almada, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Casou em terceiras nupcias com Maria Barbara de Bulhões Diniz, de quem teve, entre outros filhos, Luiz Gonzaga Pereira.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Este casou em 1815 com Maria Antunes, de quem teve 12 filhos. Ainda muito novo já mostrava vocação para o desenho, como se vê pelos exemplares coligidos numa obra, a que adiante faremos referência, feitos com 13 anos de idade a bordo da náu Vasco da Gama, a qual fazia parte da esquadra do Estreito, que nos anos dc 1809 e 1810 cruzava nas aguas do sul de Hespanha e de Portugal, e do norte dc África [...]  (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

NAU VASCO DA GAMA (1792-1822)

Nau de 80 peças construída no Arsenal de Marinha por Torcato José Clavina e António José de Oliveira, foi lançada à água em 15 de Dezembro de 1792, juntamente com a fragata Ulisses e o brigue Palhaço.


Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 21.
Cabo da Roca, e Serra de Cintra, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

As suas dimensões eram de 55,20 metros de quilha, 14,55 de boca e 11,52 de pontal. Com urna guarnição de 663 homens, armava com 28 peças de calibre 36, 32 de 24e 16 de 12. Participou nas Esquadras do Canal de 1793 e 1794.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 24.
Torre do Bogio, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Ficou em Lisboa durante a ocupação francesa por não se encontrar ainda em condições de navegar quando da chegada dos franceses.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 25.
Trafaria, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A sua artilharia foi transferida para a Martim de Freitas. Durante a ocupação francesa serviu de de-pósito aos produtos e materiais saqueados pelos franceses, nomeadamente a prata das igrejas, conventos e capelas de Lisboa.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 23.
Torre de S. Jião, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Tomou parte nas Campanhas do Rio da Prata e de Montevideu em 1816. Ficou no Brasil depois da independência em 1822 [...]  (2)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 30.
[Mutela, Caramujo], Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Coligidos em um outro livro ou album, que tem por titulo "Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa".

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 31.
Alfeite, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Teve principio em 1809, o qual pertenceu ao sr, José Joaquim d'Ascenção Valdez, e hoje é do auctor desta noticia, encontram-se 130 desenhos, quasi todos aguarelados, dos quaes os 34 primeiros representam vistas de vazios sitios do Mediterraneo, das costas de Portugal, e da Bahia do Tejo até ao Barreiro (?); os 93 imediatos são vistas de aspectos de Lisboa, e de edifícios e locaes da cidade; e os 3 ultimos são copias de assumptos de Loanda. 

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 32.
Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Pela numeração das estampas reconhece-se que o album está incompleto. Quando começou a fazer estes desenhos tinha Gonzaga Pereira 13 anos de edade [...] (3)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 33.
Bahia do Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


(1) Prefácio de A. Vieira da Silva, Monumentos Sacros de Lisboa em 1833...
(2) Revista da Armada n.° 413, novembro de 2007
(3) Prefácio de A. Vieira da Silva, idem

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O edifício da União Eléctrica Portuguesa

O antigo edifício da União Eléctrica Portuguesa, projectado pelo Arquitecto Francisco Keil do Amaral, surgiu da necessidade que a Companhia Nacional de Electricidade tinha de estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Entrada Conjunto Pormenor.
Arquivo Municipal de Lisboa

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo que integrava a subestação tinha um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. No entanto, era ainda neste local que se situavam todos os serviços de apoio ao transporte de energia.

Em termos da evolução histórica da zona a intervir, pode-se claramente distinguir quatro fases, todas elas temporalmente situadas no século XX.

A fase inicial, realizada entre 1930 e 1940, traduziu-se num pequeno edifício residencial, de autor desconhecido, característico da arquitectura do regime de então. 

Almada, geradora eléctrica, localizada no Campo de S. Paulo, ed. desc., década de 1930.
Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

A segunda fase foi já protagonizada pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, em 1940. O edifício em forma de L e a sua torre vertical ficaram acabados em 1945 e tinham como fim alojar os escritórios da União Eléctrica Portuguesa.

Almada, rua Bernardo Francisco da Costa, ed. desc., década de 1950.

Com o passar do tempo foi necessário expandir os escritórios e criar armazéns, tendo-se assim dado início à terceira fase. Grande parte desta inter- venção constava já do projecto original de Keil, ao qual foi apenas necessário acrescentar a casa do Guarda e a conexão com o edifício pré-existente.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Escada Fachada.
Arquivo Municipal de Lisboa

A quarta e última fase consistiu numa série de adições necessárias de re- alizar, tal como o novo volume em betão que servia para estacionamento. Na construção e no acabamento da obra de Keil foram usadas paredes duplas de tijolo, rebocadas com argamassa de cimento e areia ao traço de 1x4 e pintadas com “aquella”. Ao nível dos pavimentos, foram colocados mosaicos de “marmorite” e de cimento com óxido de ferro.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Sala de vendas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Adicionalmente, nesta obra usou-se ainda um vasto conjunto de materiais, nomeadamente socos de cantaria bujardada provenientes de Sesimbra, caixilharias de pinho pintadas a esmalte, com uma vidraça mecaniza- da nacional de 4mm, e ainda telha “marselha”, em lugar da tradicional telha “lusa”. (1)


(1) Reabilitação da antiga subestação da união eléctrica portuguesa, em Almada (abstract)

Mais informação: