sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo


MELAMPIGO



Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe;

mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante.

Quasi todas as tardes ajuntava elle em sua casa umas vinte a trinta pessoas; e estas reuniões da — sociedade de Pedro Marques de Faria — como lhe chamavam na Outra Banda, prolongavam-se pela noite adiante, quando o tempo não estava sereno; porque, quando o estava, iam de ordinário passar a noite á praia do Caramujo, Arealva, ou á Fonte da Pipa, que eram os sitios predilectos.

Havia entre os socios muitas pessoas que tocavam diversos instrumentos, e que formavam uma pequena orchestra regida pelo bom velho, que como todos os regentes de orchestras, tocava rebeca.

Não era o que hoje se chama uma philarmonica, era mais e menos que isto, porque não havia orchestra regular, e em vez de trechos de operas cantavam-se modinhas, recitava-se poesia acompanhada á viola ou guitarra, e jogava-se, sem ser a dinheiro, o assalto, o gamão, as damas e o bilhar.

Tambem havia ás vezes sombrinhas, e n'esses dias era a casa visitada por pessoas das mais importantes da terra. O mesmo Antão Diniz, posto que velho e achacado, vinha então com a familia, e outras vezes só, ou com alguns dos seus rapazes, como elle chamava a Franco, Gomes, e Botelho, a saber as novidades de Lisboa.

Ia lá tambem mestre Jeronymo — o decano dos tanoeiros, e seus filhos — os mais alentados mocetões dos sitios, e outras pessoas, e toda esta gente se divertia com uma certa seriedade, o que era peculiar á mocidade portugueza d'aquelles tempos, em que não se sabia que coisa eram troças, em que não havia periodicos que publicassem nos folhetins, noticiarios e correspondencias coisas torpes sobre a honra das familias; em que a auctoridade era respeitada e os representantes dos poderes constituídos; em que nenhum grande sabio se atreveria a alludir em uma reunião publica menos respeitosamente ao chefe politico da sua nação, nem nenhum deputado a dar pateadas estrondosas a uma dama na platéa de um theatro e a atirar-lhe osculos diante do seu rei.

Pois, apesar da falta de civilisação d'aquelle tempo, apesar da mocidade não saber o que eram os seus direitos politicos e civis; apesar de não haver jornaes que vomitassem injurias sobre senhoras de alta jerarchia e de grandes virtudes, que na vespera tinham matado a fome ao seu proximo com a sopa economica, e que no mesmo momento do insulto subsidiavam asylos onde se mantinha e educava a infancia desvalida e os orphãos victimas da peste;

apesar da mocidade não ter ainda chegado á grande ventura de ir votar, para a representarem nos comicios legislativos, em homens que foram metter nas garras dos negociantes flamengos ilhas importantes adquiridas pelos amigos portuguezes na Oceania:

essa mocidade, apesar de tão ignorante, tinha ao menos aquella pobre virtude de ser bem creada, e no meio de tantas facecias e do ridiculo das truanices, a que o divertimento das sombrinhas se prestava, não duvidava tocar, conversar, rir e tripudiar diante de homens da velha tempera de Antão Diniz, e de Jeronymo, o tanoeiro, o homem mais respeitavel d`aquella digna classe de homens sobrios, forçosos e honrados, que eram a gloria dos pitorescos sitios da Outra Banda, e que o maldicto oïdium tukery dispersou, esmagou e aniquilou.

Feliz epoca, e feliz mocidade que não discutias em aulas publicas se Homero tinha tido sempre um olho cégo ou dois, nem philosophias de historia, coisa mui superlativa, porque, como dizia um bom velho parlamentar — por fim de contas não ha nada como tudo o mais é historia!

Era pois a época em que florescia em Almada a sociedade de Pedro Marques de Faria, e era vespera de S. João do anno de 1831.

Havia grande reboliço em todas as povoações da Outra Banda, aonde affluia muita gente de Lisboa para ver as fogueiras, os fogos de artificio, e assistir ás mais diversões que duram toda aquella noite e os dois dias seguintes, porque este sancto e muito festejado n'aquellas terras.

Tomava grande parte n'estes folguedos Pedro Marques de Faria e os rapazes da sua sociedade; e assim logo de manhã cedo via-se na enlameada rua da Judiaria grande numero de burros á porta da casa de Marques, e d'ella saía o ancião vestido como os velhos de entrudo á Luiz XV, com grande luneta e caraça de monstruoso nariz, os filhos de Jeronymo de pastorinhos, Espanta-maridos de gallego, e todos os mais de mouros, guerreiros antigos e pescadores.

A cavalgada dirigia-se a Cacilhas, onde se lhe reuniam alguns pandegos capitaneados pelo Papa-fina, barbeiro de Lisboa.

Quasi todos iam tocando rebecas, guitarras, cavaquinhos, flautas e adufes, e ao som d'esta musica percorriam as povoações, visitando as casas dos moradores ricos, até irem dar á Ramalha, de lá á venda da tia Libania na Piedade, depois ao Caramujo, onde se apeavam, e dançavam defronte das janellas de Antão Diniz;

partindo d'ali para Almada, e descendo á Fonte da Pipa, onde tinha logar um grande jantar, ao ar livre, n'aquelle quintalinho á esquerda da pequena ponte, no sopé da eminencia coroada pelo castello da villa.

Cais da Fonte da Pipa (Olho de Boi), gravura, Pierre Eugène Aubert, 1820.
Lisboa, vista tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Doces recordações da juventude! Fonte da Pipa! Nayade querida, inexgotavel manancial de purissimas aguas! Que Deus te abençôe como eu te bem-disse quando mitigando a sede, espargia ao longe olhares saudosos, invejando as gaivotas as suas azas para me embalar no espaço, e me deslizar por sobre as vagas do formoso Tejo, n'uma d'aquellas manhãs em que o astro do dia, toucado de delgadas nuvens, ordena ao sul que sopre brandamente, e imprime a seus raios um colorido prateado!

Perto da noite toda aquella mocidade voltava em numero de quasi 60 pessoas, a percorrer os arredores da villa até principiarem as fogueiras, que se saltavam, e onde se queimavam alcachofras no meio de risos e descantes; dividindo-se e subdividindo-se a turba pelas casas, em que se brincava o resto da noite.

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal.

No rocio de Almada havia um coreto de musica, d'onde partiam para as casas compridas grinaldas de louro e murta, entremeadas de lanternas para a illuminação á noite; e faziam-se ali n'essa tarde cavalhadas, para o que se lançava de uma janella a outra, em todo o comprimento da praça, uma grande corda, em que se penduravam panellas de barro cheias de agua de cheiro ou de ratos, balõezinhos contendo pardaes ou lagartixas, casaes de pombos, de rolas, e outros objectos.

Uma duzia de mascarados a cavallo em rocinantes tentavam, cada um por sua vez, na corrida a galope, desprender da corda e enfiar nas lanças de que vinham armados estes premios d'aquelle jogo; mas quasi sempre se quebravam as panellas, se rasgavam os balõesinhos, e voavam os pardaes, os pombos e as rolas, caindo os ratos, a agua de cheiro ou as lagartixas por toda a praça, o que dava logar a grandes risadas, chufas e applausos.

Durava isto por muito tempo, e todos se mostravam mui satisfeitos.

Á noite illuminava-se todo o Rocio, queimava-se um fogo de vistas, e appareciam novamente a dança dos pausinhos e outras, tudo com muitamusica e arruido.

Na tarde do dia seguinte corriam-se touros em S. Paulo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esta funcção não concorria Pedro Marques que a detestava; mas ia lá Espanta-maridos, e quasi toda a sociedade de Pedro Marques.

E quem ia tambem era Antão Diniz com sua familia, porque desde que estivera em Montevideu, muito em rapaz, tinha tomado o gosto pelas tauromachias, e n'estes espectaculos costumava sair um tanto do seu serio, gritando, batendo com a bengala, e dando a sua opinião em voz alta como grande amador e enthusiasta do divertimento.

Por isso estava elle n'um dos melhores camarotes da praça com D. Francisca á direita, Mathilde á esquerda, e Felizarda em pé atrás d'eIles, que ainda n'esse tempo os criados se não sentavam em publico na presença de seus amos. Se Mathilde era formosa, e todos o confessavam, muito mais o mostrava n'esse dia, e a tal ponto que era o enlevo de todas as vistas.

Luiz Franco, como sem incommodar não podia fazer companhia a Diniz no mesmo camarote, occupava o immediato da esquerda com os Batalhas da Arreinella, e no outro da direita via-se Botelho com Domingos Alfonso da Arealva e João Chrysostomo.

Usavam as senhoras n'essa epoca enfeites de flores artificiaes no cabello, que muito bem lhes ficavam, e Mathilde não se subtraía a esse preceito da moda;

mas em vez de muitas como as outras damas, apresentou-se apenas com uma pequena flor vermelha em tudo similhante á cravina que lhe offerecera Franco no passeio á Arealva e ella acceitara.

Não escapou isto a Botelho, que ralado de ciumes não se pode conter que não dissesse a Chrysostomo que muito mal estava a Mathilde aquelle singelo enfeite.

Quanto a Espanta-maridos esse representava de neto [a auto­ri­dade na arena que, seguido pelos pajens, abre as corte­sias, i.e. apre­sen­ta os inter­ve­ni­en­tes], e entrou na praça fazendo as venias usuaes do seu papel;

demorando-se n'estes cumprimentos diante do camarote de Antão Diniz onde estava a sua Felizarda, perante quem perdeu os estribos e esteve para ir ao chão por fazer filistrias com o cavallo.

A corrida era de sete touros todos bravissimos, e passou-se sem novidade a dos primeiros seis.

Restava o setimo que se dizia ser o mais bravo, e que seria picado por um cavalleiro que se havia de apresentar de mascara, e de quem só sabia mo nome os directores da funcção, que guardavam a este respeito grande segredo.

Eram n'esse tempo os combates de touros muito da moda entre a fidalguia portugueza, porque el-rei era muito dado a este divertimento, e elle mesmo toureava como os melhores toureiros de profissão; por isso os jovens fidalgos para lhe agradarem davam de vez em quando corridas de touros, em que faziam de cavalleiros, capinhas e homens de forcado.

Em consequencia, annunciando-se um cavalleiro, que havia de tourear mascarado para não ser conhecido, todos se perdiam em conjecturas ácerca de quem seria, chegando-se a fazer algumas muito despropositadas, e as mais razoaveis eram de que algum grande fidalgo tinha tido este devaneio, mas que naturalmente se daria a conhecer se saísse airoso do combate.

Toureiro mascarado, anúncio ou ingresso relativo a corrida de touros na praça do Campo de Sant'Ana, 1881.
Imagem: Fórum Touradas

Esta novidade concorreu muito para se apinhar a praça de gente a mais não caber, e Antão Diniz, que participava da geral curiosidade, depois de ter feito perguntas todas baldadas a este respeito, dizia a D. Francisca:

— Que será feito de Gomes? Se aqui-estivesse já saberiamos quem é o cavalleiro, porque n'estas coisas anda sempre bem informado.
— Ainda o não vi esta tarde, respondeu D. Francisca, e admirada estou, porque sua mãe D. Rosa veio ao espectaculo, e lá está defronte n'um camarote só com a criada, e porque elle nos tem acompanhado sempre nas festas.

Palavras não eram ditas que entra pela praça o cavalleiro desconhecido montado n`um soberbo alazão, e com dois capinhas aos lados.

Levantou-se logo um borborinho de satisfação, que terminou em palmas quando o viram fazer os cumprimentos do estylo com todo o garbo e mestria; não escapando aos observadores a circumstancia e elle ter feito curvar os joelhos ao cavallo, inclinando-se todo na, sella em signal de grande respeito e submissão, quando passou em frente dos camarotes de D. Rosa e de Antão Diniz, detendo-se algum tempo diante d'este ultimo como que contemplando, segundo parecia, a bella Mathilde.

Trajava o desconhecido, calção de seda côr de canella, que ou fosse acaso ou proposito, era a mesma côr do vestido de Mathilde, com muitos enfeites amarellos, jaleco azul claro, mascara de setim preto, e gorro vermelho matizado de malmequeres.

Concluídos os cumprimentos e tendo-se postado diante da porta do curro, saltou o touro com grande furia, e todos viram que trazia o dorso manchado de sangue, por ter sido espicaçado pelos campinos, a recommendação do proprio cavalleiro, com o fim de o tomar mais raivoso.

Era o touro claro, e arremetteu direito ao cavalleiro. Este desviando o cavallo evitou a marrada de frente; mas quando na corrida ia enterrar a farpa, o cavallo afocinhou, e o touro apanhando o cavalleiro pelas pernas, arrancou-o da sella e deu com elle em terra, levando-lhe toda a parte trazeira dos calções e mais roupas sob-postas, deixando-o n'um estado indecente.

Fez-lhe exactamente aquella mesma operação que os Ammonitas fizeram aos embaixadores de el-rei David, rasgando-lhes os vestidos pela banda de traz, de sorte que não podiam ser vistos sem uma grande vergonha.

Para logo se converteu a sympathia em desprezo no animo do publico, e resoaram na praça grandes apupos.

O cavalleiro levantou-se lestamente sem parecer que soffrera com a pancada; mas para maior desgraça tinha-lhe caido a mascara e todos o reconheceram.

E quem havia de ser? Gomes. Ouviu-se então um agudo grito de afflicção, que partia de um camarote: era D. Rosa, mãe de Gomes, que tinha desmaiado.

Era o caso que sendo Gomes costumado a ir tourear com os fidalgos, e sabendo da paixão de Diniz por este divertimento, tinha imaginado conquistar n'aquelle dia uma grande preponderancia no animo de Diniz, e por consequencia os affectos de sua filha: feliz ou infelizmente saiu mal do intento.

Mas o populacho era inexoravel e gritava com grande algazarra — fóra! fóra porco! fóra porco!

Ainda Diniz e outros, condoidos do infortunio de Gomes, lhe bradaram – Animo! Torna a picar!

Mesmo assim! Mesmo assim! Gomes tinha perdido a cabeça, e tomando uma grande capa que Espanta-maridos lhe offerecia, fugiu confuso e envergonhado, e ninguem mais o pôde ver durante muitos dias.

Almada em Portugal, a multidão descontente tendo maltratado os toureiros, estes largaram sobre ela os touros, Le Pellerin, n° 1807, 1911.
Imagem: Delcampe

Assim acabou aquella tourada no meio de grandes risadas e comentários; e á noite em casa de Pedro Marques, elle que não era affeiçoado a Gomes, fél-o figurar nas sombrinhas debaixo do nome de — Toureador Melampigo [mit. gr. homem com as nádegas negras] — porque se reconheceu, quando o touro lhe rasgou os vestidos, que tinha de commum com o Hercules da fabula a qualidade de ser muito cabelludo na parte posterior do corpo.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

Sem comentários: