sexta-feira, 9 de maio de 2014

Avenida Gomes Neto

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc., avenida Gomes Netto no tempo da monarquia
Imagem: Delcampe

Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é necessario anotar rapidamente [...]

Entre essas figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso pratico.

Não raro o encontravam em mangas de camisa no seu escriptorio.

Escrevia em largos quartos de papel e depois dizia: — Ponham-lhe lá a gramatica!

— Acabou já velho e amoroso, fazendo todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que depois ia distribuir de coupé por casa das amantes, pescada aqui, pescada alli... (1)

José António Gomes Neto
Imagem: Hemeroteca Digital

Dia 17 do mês corrente, surpreendeu-nos a noticia, por Lisboa, em fóra, rapidamenta propalada, do falecimento do muito conhecido e muito respeitado homem-de-negocios, e riquissimo proprietário, que foi Antonio José Gomes Netto.

Homem dotado de grande actividade, tornou-se uma figura de destaque no nosso meio comercial.

Era natural de Ovar, onde nasceu por 1836.

Os seus principios de vida foram um modesto emprego de caixeiro na empresa de navegação, agencia de Chambica & Gonçalves, no Caes do Sodré.

Inteligente, pertinaz, laborioso-da situação mais humilde guindou-se a uma condição altíssima, possuidor duma avultada fortuna e credôr da consideração e estima dos seus concidadãos e consocios.

Por um acurado esforço e sagacidade, supria falta de estudos classicos que não obteve. em parte de muitas empresas e companhias onde ocupava sempre logar proeminente, todas elas relevantemente conceituadas no espirito publico.

Foi presidente da Companhia das Lezirias, administradôr da Empresa Nacional de Navegação e director do Banco de Portugal.

Para se ser político na mais alta significação do têrmo é necessário ter uma vida completamente limpa de empregos e sinecuras dependentes do Estado.

Não é infelizmente assim em Portugal.

Aqui são raros os homens da política que não comem de companhias e de fartos empregos do Estado.

Não há companhia ou banco onde se não acoitem, recebendo ordenados d'essas companhias, d'esses bancos e dos cofres do Estado n'um impudor que passa todas as marcas da immoralidade.

[Cargos desempenhados por António José Gomes Neto:]

  • Presidente da Assembleia Geral do banco da Economia Portugueza;
  • Vice-Presidente da Assembleia Geral do banco Commercial de Lisboa;
  • Membro do Conselho Fiscal da Companhia dos Phosphoros;
  • Presidente da Assemblea geral da Companhia de Seguros Portugal;
  • Vice presidente do banco Lisboa & Açores;
  • Director do Banco de Portugal;
  • Presidente da Assembléa Geral da Companhia Commercial Angola;
  • Presidente da nova Companhia Ascensores mechanicos Lisboa;
  • Presidente da Companhia de Estamparia de Alcântara;
  • Presidente da Companhia Fabril Lisbonense;
  • Presidente da Sociedade Portugueza de Seguros;
  • Presidente da Companhia de Seguros Universal;
  • Vice-presidente da Companhia de Seguros Tagus;
  • Vogal do conselho Fiscal da Companhia Portugueza de Carvão;
  • Vogal do Conselho Fiscal do Mercado da Praça da Figueira;
  • Director da Empresa Nacional de Navegação;
  • Vogal do Conselho Fiscal da Companhia do Congo Portuguez.

in Notas Verbais que cita informação publicada no Jornal "O Liberal", de 10 de novembro de 1909

Desempenhou com proficiencia o cargo de vereadôr da Camara Municipal de Lisboa e teve por vezes assento na Camara dos Deputados.

Gomes Netto
Gomes Netto vs. Costa Pinto
por Raphael Bordallo Pinheiro
Revista Pontos nos ii
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Costa Pinto

Ultimamente, apezar de velho e rico, nunca renegou o seu amigo de sempre um trabalho denodado e indefesso.

Enviuvara, ha pouco tempo, de D. Rosa Maria Gomes Netto.

Aos parentes e amigos, e especialmente aos seus filhos que lhe assistiram piedosamente nos ultimos momentos daqui enviamos a expressão das nossas mais sentidas condolencias.

Sem duvida, a noticia do falecimento de Antonio Gomes Netto causou no nosso meio uma funda sensação de pesar.

A casa do extinto, deixaram cartões de pesames personalidades de grande representação social.

Tambem, a familia do falecido, fôram remetidos telegramas do sentimento de alguns chefes politicos do venerando Presidente da Republica Portuguésa.

É que, na verdade, Antonio José Gomes Netto, impunhasse, pelos seus dotes de caracter e inteligencia, á consíderação de todos. (2)

Mandado construir por iniciativa de António José Gomes Netto, foi projectado pelo arq. Jorge Pereira Leite [...]

[... o] edifício [onde residia Gomes Neto] recebeu, ex-aequo com outro imóvel, uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não foi muito bem aceite, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano [...] (3)

Lisboa, avenida da Liberdade, Ferreira da Cunha, década de 1930
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

António José Gomes Neto, deputado por Almada tanto serviu o partido Regenerador como o Progressista.

Adaptou-se sem dificuldades de maior à queda da monarquia manteve-se nas funções de director do Banco de Portugal desde 1879 até ao fim dos seus dias.

Cédula de mil réis com a inscriçáo "República" e assinatura do director Gomes Netto
Imagem: invaluable


(1) Brandão, Raul, Memórias, Vol. I, Porto, Renascença Portuguesa, 1919

(2) O Ocidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1278, 30 Jun. 1914

(3) Câmara Municipal de Lisboa Edifício de Habitação na Avenida da Liberdade, 262-264

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Costa no século XIX

"Deverá o velho morrer sozinho, irmãos? Deverá o velho morrer sozinho?

Não haverá homens na cristandade, para reunir em volta de seu trono?

Não haverá mãos esquerdas para agarrar a espada dos heróis que partiram [...]"

O autor, padre Hughes, foi um galês que em 1860 ofereceu os seus serviços ao Patriarca de Lisboa para evangelizar a então totalmente negligenciada costa de Caparica, a sul do Tejo.

Não só encorajou e inspirou os moradores, como lhes construiu a igreja e, também, realizou um grande trabalho social com a plantação de eucaliptos e pinheiros ao longo de quilômetros de areal, livrando assim a região da febre dos pântanos. (1)

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Refira-se que a Costa de Caparica só começou a ser ocupada a partir de finais do século XVIII.

Era então um lugar inóspito e desabrigado onde dominavam terrenos pantanosos e dunas com escassa vegetação rasteira sem outra protecção contra a inclemência do Verão.

Era também um lugar isolado pelos vastos pinhais (do conde de Arcos) que o separavam da Trafaria (então principal porto de pesca da zona) e do Monte de Caparica, tendo por isso proporcionado abrigo a salteadores e piratas.

Foram pescadores de origem algarvia e de Ílhavo que começaram por se fixar na Costa apenas durante os meses de Outubro a Dezembro, construindo para o efeito choupanas de junco e colmo, que incendiavam ao partir.

As primeiras companhas de pesca a fixar-se com carácter definitivo fazem-no em 1770.

Instituíram a figura do "Cofre dos Quinhões", organização de carácter mutualista e assistêncial que provia à protecção e alimentação dos órfãos e das viúvas, ao pagamento dos ordenados na ausência de faina e ainda à construção e/ou beneficiação de edifícios de interesse comum: vedação do cemitério, construção da igreja e do poço de água doce que abastecia a população.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

Numa descrição do local de 1896, a Costa continua a ser uma zona de "grandes pântanos, outrora cobertos de juncos e hoje quase totalmente cultivados de vinhas e arvoredos".

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902
Imagem: IGeoE

O centro da povoação situava-se no areal, onde havia o conjunto de “várias barracas de colmo, da origem primitiva, salpicadas agora de grande número de brancas e singelas casinhas”.

Hoje [1978] não há rivalidade entre as famílias daquelas duas regiões, mas resta a Rua dos Pescadores, sinal da antiga fronteira.

Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), 1978, Almada, Câmara Municipal de Almada, 316 págs.

A norte está a igreja, "abaixo da rocha, ao norte do pântano, destaca-se o pequeno cemitério, ao fundo do vasto areal, sempre cortado por médos ondulantes de uma finíssima areia, espraia-se na extensão de 3 léguas o oceano Atlântico".

Existiam nesta data 8 companhas de pesca, que lançavam as redes entre o mar da Laje e a Fonte da Telha, numa distância de 2 léguas.

Em 1824 existia uma única casa de alvenaria em toda a povoação, possivelmente construída por volta de 1820, pelo seu proprietário, mestre de redes José dos Santos.

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

A esta casa ficou ligada a lenda da presença do rei D. João VI que, após aqui ter comido uma caldeirada, mandou colocar na fachada a sua coroa de armas.

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

Vários incêndios ao longo dos tempos deflagraram na povoação [...]
Em 1840, o grande fogo, denominado da Quinquilharia [do quinquilheira], devorou 98 barracas;

em 1864, outro fogo, rememorado como o da Rosa do Cheché, reduziu a cinzas 55 choupanas;

em 1884, um terceiro sinistro ficou na história da região como o Fogo do Costa Pinto, pelos grandes benefícios que por essa altura foram recebidos do honrado deputado por este círculo, tendo ardido ainda desta última vez 60 barracas.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

Convém citar aqui o nome completo desse cidadão: Jaime Artur da Costa Pinto (1846-1909), conhecido nestas paragens como o Pai dos Pobres, pela sua entrega total ao bem comum.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Correia, Romeu, Op. Cit.
A partir de 1884, devido à intervenção do deputado às Cortes, pelo círculo de Almada, Jaime Artur da Costa Pinto, a Costa de Caparica vai ser sujeita à construção de uma primeira urbanização, de 54 casas de alvenaria e um arruamento (Rua Jaime Artur Costa Pinto).

Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Almanach Illustrado do Correio da Europa

Oito anos antes a igreja tinha sido reedificada em "pedra e cal" por acção de um "brasileiro" residente [João Inácio Alfama, ou João Inácio da Costa].

Costa da Caparica, ed. Lif, 04, Igreja da Nossa Senhora da Conceição, 1945
Imagem: Delcampe

Em 1882 foi aberta a vala de esgoto e iniciaram-se as florestações, numa tentativa de melhorar as más condições ambientais que ainda persistiam.

No nº. 1 do jornal A Realeza, de 2 Setembro de 1882, é publicado o artigo "Direcção do pântano do Juncal e fixação das dunas e arborização dos terrenos da Trafaria e Costa de Caparica, onde se pretendia efectuar a arborização em pinheiros e eucaliptos numa área de 1500 hectares para prender as dunas ou areias moventes da Caparica, vale da Trafaria e pântano do Juncal da Costa".

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112, década de 1930
Imagem: Delcampe

Considerava-se ser esta a melhor acção para terminar com a vasta extensão pantanosa que rodeava a povoação, provocando frequentemente epidemias e paludismo.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960
Imagem: Delcampe, Oliveira

Por iniciativa do padre Bailie Hughes, de origem americana [sic], foi criada logo em 1876 uma sala de aulas feminina para o ensino primário e mais tarde, o Colégio do Menino Jesus, para rapazes e que existiu até 1901. (2)

Costa da Caparica, um piquenique familiar, em segundo plano a igreja e o Colégio do Menino Jesus, década de 1900
Imagem: Arlindo Pereira


(1) The TABLET

(2) Programa POLIS — Plano Estratégico da Costa de [sic] Caparica, 4. 2. 1. Nota Histórica, sobre texto de Correia, António, com citações de Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896


Leitura adicional: Costa da Caparica 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Déjà vu

Da lazarenta Cacilhas à piscosa Sesimbra são seis léguas por uma estrada atravessada de barrancos, que o tráfego do peixe arruinou. (1)

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Se ao menos Brandão tivesse visto Cacilhas com as cores que Monet deu a outros lugares,

Honfleur, Farol do hospício, Honfleur, Oscar-Claude Monet, 1864
Imagem: WikiPaintings

recriados, acrescentados de singeleza,

Cacilhas, Charles Chusseau-Flaviens, c. 1900/1919
Imagem: George Eastman House

como se fossem pela primeira vez descobertos,

Honfleur, Arrastando o barco para terra, Oscar-Claude Monet, 1864
Imagem: WikiPaintings

serenos lugares de passeio, tornados limpos, frequentáveis, sociais...

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

ou, que poderia também encontrá-la em movimentos, mais ou menos, equivalentes, os macchiaioli italianos,

Piazzetta di Settignano, Telemaco Signorini, c. 1880
Imagem: Wikipédia

descobriria que as sombras também têm cor,

Chafariz de Cacilhas, Artur Leitão Bárcia, fotografia anterior a 1945
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

e que ela não se define nas vistas, nem nos objectos,

Port en Bessin, Le Castel, Paul Signac, 1884
Imagem: Normandy Impressionist Festival 2013

nem nos naturalistas portugueses,

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



nem com aromas, nem em poemas, nem noutras artes que exprimem palavras e pensamentos,

Sarner, Eric, (argumento), Prado, Miguelanxo, (desenhos), Carta de Lisboa, Meribérica/Líber, 1998
Imagem: Casario do Ginjal

mesmo que um fim da tarde seja a impressão do sol nascente.

A primeira exposição impressionista teve lugar em Paris, em abril de 1874, no estúdio do fotógrafo Nadar.

As obras aí expostos, como a "Impressão, sol nascente" de Jean-Claude Monet, não teriam sido aceites no Salão de Paris promovido anualmente pela Academia das Belas Artes.

Foi depois da crítica, depreciativa e jocosa, "A exibição dos impressionistas", assinada por Louis Leroy no Le Charivari, que o movimento começou a afirmar-se.

Impressão, sol nascente, Oscar-Claude Monet, óleo s/ tela, 1872
Imagem: Wikipédia


(1) Brandão, Raul, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Escondidinho Boca de Vento

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


Escondidinho Boca de Vento
Cervejas e Refrigerantes
Mariscos e Comidas
Rua do Registo Cívil, 17
Almada



sexta-feira, 2 de maio de 2014

O cerco castelhano de 1384

Fernão Lopes
Excertos publicados da Crónica de el-rei D. João I:

  1. O cerco castelhano de 1384
  2. O Meijão Frio
  3. A ribeira do arrabalde descontra Coina

Vendo que passar não podia por azo da frota, chegou e mandou dizer aos de Almada, que lhe dessem a villa, e que fossem seus, que lhes faria por ello mercês. 

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Os do logar responderam entre outras razões, que elles eram portuguezes, e não entendiam fazer mudança, mas como Lisboa fizesse, que assim fariam elles.

Almada, O interior do castelo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 7, década de 1900
Imagem: Delcampe

Estando d'esta guisa, a cabo de três ou quatro dias, que Diogo Lopes* chegou, sabendo el-rei parte de sua vinda mandou de noite encubertamente passar em galés e bateis e naus muitas gentes e besteiros e cavallos, e duas galés d'ellas foram a Margueira, que é um porto acerca da villa, e estiveram quedas.

Vista panorâmica da Margueira, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Duas ou trés galés passaram toda a noite aquelles que el-rei mandou, e foram aportar ao cabo de Martim Affonso, acima da Mutela da Ribeira.

Vista panorâmica da Mutela, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Quando foi manhã a gente dos castellãos se foi a estrada que vem de Coina para o logar, e as escuitas que tinha a villa, foram-lhe dar novas de sua vinda d'elles.

A manhã era muito nevosa, e sahiram homens de cavallo e de pé, e Diogo Lopes, e seus filhos com elles, e eram na villa por bons e comunaes até oitenta de cavallo, gente de pé, e os besteiros quatrocentos e cincoenta.

Os castellãos seriam quatrocentos de cavallo e muitos besteiros e peões, e ao topar que fizeram uns com outros, cahiram dos inimigos entre de pé e de cavallo quarenta, e dos portuguezes sete.

Massano, Pedro, A Batalha — 14 de Agosto de 1385, Lisboa, Gradiva, 2014
Imagem: Central Comics (detalhe)

Uma cillada que os castellãos tinham entre a villa e onde aportaram sobreveiu dar em elles, e morrendo de uma parte e da outra, foi preso Diogo Lopes, e fugiram os filhos em cima de seus cavallos para um castello que se chama Cezimbra, que são d'ahi três léguas, que mantinha voz do Mestre, e foi mais preso Afonso Gallo, recebedor da villa, e outros com elles, e d'elles fugiram para Cezimbra.

Castelo de Sesimbra, dito dos mouros, Cazellas, finais do século XIX
Imagem: Sesimbra identidade e memória

Os castellãos que eram muitos, combateram logo Almada, e não lhe podendo então fazer cousa que muito damno lhe fizesse, pozeram cerco sobre ella de socego, desde então a tiveram cercada.

Diogo Lopes foi trazido a el-rei de Castella e tinham-o preso no arraial, havendo d'elle mui grão queixume.


* Diogo Lopes Pacheco, um dos responsáveis pela morte de Inês de Castro, já octagenário, teria regressado de castela para servir o Mestre. Com ele vieram os seus três filhos e trinta homens. 

(1) Lopes, Fernão, Chronica de el-rei D. João I, Vol. I, Cap. CXVII, Lisboa, Escriptorio, Bibliotheca de clássicos portugueses, 1897-1898.

O Meijão Frio

Fernão Lopes
Excertos publicados da Crónica de el-rei D. João I:

  1. O cerco castelhano de 1384
  2. O Meijão Frio
  3. A ribeira do arrabalde descontra Coina

E vendo o Mestre a desegualança da frota e as grandes avantagens que el-rei tinha em similhante feito, começou cessar em este comenos, havendo já acerca de dois mezes que a villa d'Almada era cercada desde aquelle dia que Diogo Lopes foi preso como dissemos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Na villa havia assaz de gente que a podesse defender doutros estrangeiros que se acolheram a ella, que se vinham lançar com o Mestre, e não poderam por azo da frota, e d'elles tinham mantimentos de pão e vinho e carnes e doutras cousas pêra seis mezes, mas não havia outra agua, salvo d'uma pequena cisterna, e sobre esta foi posta grande guarda, dando a cada pessoa cada dia uma canada, mais não.

Rua do Castelo, Entrada do Jardim, Almada, ed. desc., década de 1900
Imagem: Fundação Portimagem

E não embargando isso, os da villa sairam fora a esperar os castellaos em certos passos, os quaes iam á forragem pelo termo, e a Gezimbra, matavam d'elles, e feriam em tanto, que já não ouzavam de ir, senão muitos juntos.

E assim esperavam os que iam nos bateis a Arrentela e assim a roubar, de guisa que um dia mataram mais de trinta em uma lama, querendo-se acolher aos bateis não sabendo o porto.

Esta saida e tornada, quando queriam era por a porta da Barroca, que chamam Mejão frio*, que é contra o mar, e sendo muitas vezes combatida, e não lhe podendo fazer cousa de que nojo recebesse, mandou el-rei que lhe fizessem uma cava sob a terra, a qual começaram de longe, que ia direita a uma alta torre que está sobre a porta do castello, pêra a poerem em campo, e com fogo a derribar, segundo se costuma.

Almada, Miradouro (detalhe), J Lemos, 07, década de 1950
Imagem: Delcampe

El-rei houve grande menencoria quando isso soube, e por seu corpo passou á dita villa com parte de suas gentes e capitães, pêra a fazer combater á sua vontade. 

E mandou que lhe fizessem no campanário da egreja de Santiago, que é perto do dito castello, um cadafacens forte de mandeira, d onde elle visse toda a villa como se combatia.

Igreja de S. Tiago, Branco e Negro Semanário Ilustrado, 1897
Imagem: Hemeroteca Digital 

Os da villa sentindo que el-rei estava n'aquelle cadafacens, como quer que d'elle não haviam combate, salvo das setas, ordenaram de lhe tirar um tiro.

Massano, Pedro, A Batalha — 14 de Agosto de 1385, Lisboa, Gradiva, 2014
Imagem: Central Comics (detalhe)

Em esto faleceu a agua da cisterna, e foi-lhe forçado tornar a beber outra muito davorrecer s. que jazia na alcáçova, que chovera na alcáçova, na qual as mulheres ante que fosse cercada lavavam as roupas infundidas e os trapos dos meninos, a qual era muito verde e muito suja, e jaziam em ella bestas mortas, e cães e gatos, que era nojosa cousa de ver. (1)

Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos se defendem,
Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem,
Digno feito de ser no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno. (2)

* "A Crónica de D. João I destaca a região de Almada, em termos militares e geoestratégicos, como sendo um espaço privilegiado para a protecção e defesa de Lisboa, quando os Almadenses decidiram adoptar a causa da revolução, em 1 de Janeiro de 1384. No que concerne à toponímia local, a crónica de Fernão Lopes faz menção a alguns dos mais antigos topónimos do termo de Almada, tais como Cacilhas, Margueira, Meijão Frio ( actualmente desconhecido ), Barroca ( actual barroca ou escadinhas de acesso à praia das lavadeiras no Ginjal ) e Sovereda ( actual Sobreda ). Segundo a crónica, a " Vila " de Almada correspondia apenas ao espaço do castelo ou da fortificação, destacando-se a torre ( junto a uma porta ) e as muralhas com uma ou duas portas: a porta da vila ( orientada para o povoado ) e um postigo ( provavelmente correspondente à porta da traição ). No interior, existia nesta época a igreja de Santa Maria do Castelo e outras casas. Fora do recinto da fortaleza localizava-se, a pouca distância, a Igreja de Santiago, talvez a mais antiga sede de paróquia e/ou freguesia de Almada."
in Solares de Portugal 


José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa) faz remontar Mesão ao latim mansione, e Frio, não ao latim frigidu-, mas ao germânico frithu, «paz», argumentando que não «faria sentido que um estabelecimento de protecção e de bom acolher do viajante fosse, de princípio, "casa fria"».
A. de Almeida Fernandes (Toponímia Portuguesa, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1999, págs. 422/423) refuta esta hipótese:
«[...] o que o topónimo significa era albergue rudimentar sem lar aceso, "frio": o viandante é que teria de prover contra isso no abrigo. Além disso, não consta que o vocábulo germânico tivesse sido usado entre nós fora da antroponímia: isto é, foi-o nesta somente, como elemento de composição.
[...] O próprio carácter rudimentar do "mesão" no caso se atesta no sentido que assumiu "meijão" (outra forma do top., Meijão Frio bem provado), como arribana em pastagens na serra de Arga, etc. E, de resto, casa de paz é que uma albergaria não poderia, em geral, ser, acolhendo gente de toda a casta, boa e má. Até por aqui cinca a ideia do autor [Machado], de "casa de paz" em vez de "casa fria". Isto não quer dizer que um "mesão frio" não evoluísse a albergaria notável: assim Albergaria-a-Velha tem essa origem [...]. Compreende-se.»
in Ciberdúvidas


(1) Lopes, Fernão, Chronica de el-rei D. João I, Vol. II, Caps. CXXXV, CXXXVI, CXXXVII, Lisboa, Escriptorio, Bibliotheca de clássicos portugueses, 1897-1898.

(2) Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto VIII, Estância 35, Lisboa, Antonio Gõçaluez impressor, 1572

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Palença de Baixo

A melhor notícia de que dispomos desta fortaleza [fortim da Banática] é devida ao conde dos Arcos [D. José Manuel de Noronha e Menezes de Alarcão] que atribui a construção ao mandado de D. João III [que reinou de 1521 a 1577] e a localiza não na actual Banática mas sim em Palença de Baixo...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Duarte Joaquim Vieira Junior refere que "onde está a fábrica de tijolo — hoje é fábrica de guano — existiu em tempos um fortim que foi construído no reinado de D. João III, e do qual ainda hoje há vestígios, existindo os paióis de pólvora, que foram feitos sob a rocha, para o lado de leste, e que ainda no tempo de D. Miguel foi este artilhado e guarnecido até 1833 pelas tropas do usurpador".

A informação é confusa quanto ao local... (1)

Lissabon, vista tomada de Palença, 1830
Imagem: Mundo do Livro, (Mundo do Livro no Facebook)

O portinho de Palença de Baixo é um pequeno varadouro com a praia de areia, situado a poente da Arrábida.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Junto da praia, sobre um terrapleno murado, fica a quinta de S. Lourenço...

É topónimo que designou além da quinta o varadouro...

A quinta foi propriedade dos condes da Cunha, cujo brasão se pode observar sobre o portal de entrada, em fins do século XVII e manteve-se na posse destes até ao século XIX.

Segundo informação de Rui Manuel Mesquita Mendes, Palença, em Almada, já é mencionada em documentos da primeira metade do século XV e a família Cunha já vive na sua Quinta no início do século XVI.

D. Catarina da Cunha fundou em 1522 um morgado com obrigação de missas numa Capela da Sé de Lisboa pagas por um "Casal em Almada, junto à sua Quinta de Palença".

Foi uma das mais vastas propriedades do concelho. (2)

Casa e capela da quinta de S. Lourenço
Imagem: SIPA

Exemplo notável de integração na paisagem (encosta S. do Rio Tejo), dominando visualmente a cidade e o estuário do rio; o envolvimento do lado S. está hoje totalmente adulterado pela perturbação visual do complexo industrial da Tagol. (3)

Instalaram-se em Almada nos finais do século XIX cinco fábricas, entre as quais se destaca a Fábrica de Cerâmica de Palença, localizada na praia do mesmo nome e em laboração desde 1884.

Utilizava um forno contínuo e quatro intermitentes alimentados a carvão mineral e explorava barreiros locais.

Cais da Fábrica de Palença, ed. desc.
Imagem: Portimagem

Para além da cerâmica comum, produzia também materiais de construção, como tijolo e telha marselha.

Ocupando mais de uma centena de operários, a fábrica manteve a sua actividade até aos anos setenta do século XX. (4)

Telha marselha da Fábrica de Palença


(1) Pereira de Sousa, R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

(2) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs. 

(3) SIPA

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.