quarta-feira, 21 de maio de 2014

Batalha da Cova da Piedade — 23 de julho de 1833

Um forte destacamento de infantaria e três esquadrões de cavalaria cruzaram o Tejo para Almada sob o comando de Telles Jordão [...] (1)

Bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830,
Bandeira de D. João V, usada pelos Miguelistas ou Absolutistas.
Imagem: Wikipédia

O duque viera sempre a marchas forçadas e quando Telles Jordão menos o pensava, estava elle proximo da Cova da Piedade.

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Restava reforçar bem os flancos, e esperar o inimigo na Cova com o grosso da tropas.

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Este plano bem sustentado tornava crítica a posição do duque, que não tinha para oppôr aos 5.000 homens de tropas folgadas de Telles Jordão mais do que 1.500, 

Estátua do Duque da Terceira.
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

compostos dos pequenos corpos de infantaria 3 e 6,

Soldado de infantaria de linha, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

caçadores 2 e 3,

1° sargento do batalhão de caçadores n° 7, 1830.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

poucas dezenas de academicos com duas pequenas peças às costas de machos, e 17 lanceiros inglezes, tão bem montados como costumam apparecer os mouros na Praça do Salitre;

e toda esta tropa quasi descalça, queimada pelo intenso sol de julho, e ralada de fadiga pelas não interrompidas marchas forçadas.

Desembarque das tropas Liberais no Mindelo em 1832 (detalhe).
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

Mas o pequeno número e o estado destas tropas ignorava-o Telles Jordão; 

pensava que sobre elle vinha todo o poder do mundo, e uma nuvem de lanceiros, arma desconhecida delle e dos seus.

Lanceiro, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Quem muito concorrera para esta falsa idéa fôra o Cavadas da Amora, interceptando correspondencias, e fazendo espalhar mentiras pelas populações da Outra-banda.

Montava Telles Jordão a cavallo, quando os insignilicantes piquetes realistas das estradas lateraes recolhiam à Piedade diante, das pequenas columnas que o duque por ali mandára. e uma força consideraval de todas as armas batia em retirada pela estrada de Corroios;

de sorte que n'um momento se viu Telles Jordao encurralado na Cova. e atacado turiosamente pelos flancos e pela frente.

— Avança a cavallaria! gritou elle. 

Oficial do Regimento de Cavalaria n° 6, 1833.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

E immediatamenta abalaram os 200 cavallos.

Ergueu-se logo aos ares uma nuvem de poeira. no meio da qual a cavallaria investiu com os 17 lanceiros. que começavam a golpear por aquella agglomeração de tropas;

Charge of the Polish uhlans at the city of Poznań, Uprising 1831
Imagem: Wikipédia

mas sendo estes em numero tão diminuto, resistiram um momento e retiraram, ficando alguns feridos. mas sem perderem um só homem.

Viu-se entao apparecerem como dois reductos de logo, os quadrados de caçadores 2 e 3. contra os quaes toi embalar o impeto da cavallaria miguelista.

Aqui foi o grande o horror da peleja, e os quadrados soffrerarn alguma perda;

mas repeliram por fim a furiosa carga, apezar dos grandes brados de Telles Jordão. que nao podendo desenvolver toda a sua forca em tão estreito local, e estando na idéa, bem como os seus officiaes, de que o inimigo que tinham diante era apenas as avançadas de um poderoso exercito, perdera a serenidade de espirito indispensavel a um general nas occasióes de perigo.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Continuando o vivo logo dos liberaes a dizimar cruelmente aquelle acervo de inimigos, isto e a absoluta carencia de ordens apropriadas e rapidas trouxe a confusão. e relaxou-see até mesmo a disciplina.

Cada official comecou a dar a sua ordem, e as tropas a dividir-se pelas quintas, casas e valas do Caramujo, d'onde faziam fogo.

Comtudo, mesmo assim os realistas sustentavam o combate, e ainda depois de alguns tiros de artilheria e descargas de fusilaria mandou Telles Jordão dar uma segunda carga de cavalaria;

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

foi porém esta mais infeliz do que a primeira, porque grande parte dos cavalleiros foram aprisionados ou se entregaram, assim como quasi toda a artilharia.

Immediatamente se introduziu o panico na divisão, e principiou a desorganizar-se.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Uns renderam-se, outros fugiram para o interior da Outra-Banda, e para o castello d'Almada, que se entregou no dia seguinte às 7 horas da manhã, e o resto começou a retirar sobre Mutella.

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn Lt. Col. Batty, Engrav. William Miller,1830

Ora, proximo d'esta povoacão, justamente d'onde parte a estrada para Almada, havia uma cortadura com artilheria.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Ahi fez Telles Jordao alguma resistencia;

mas sendo vencido. tomou pela estrada tora com o grosso da columna em direcção a Cacilhas, sempre perseguido pelas tropas do duque, que o não deixavam resfolegar um só instante.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847


(1) Napier, Admiral Charles, An account of the war in Portugal between Don Pedro and Don Miguel, London, T. & W. Boone, 1836

(2) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original,
páginas n.° 113. 114. 115 e 116, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs. citado em Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Leitura relacionada:  
Lovell, Benjamin Badcock, Rough leaves from a journal kept in Spain and Portugal, during the years 1832, 1833, & 1834, London, R. Bentley, 1835

Referências: Uniformes e Organização Militar, Colecção de postais de Ribeiro Arthur, General Ribeiro Arthur militar e artista

terça-feira, 20 de maio de 2014

Cartas das vitórias liberais

8 de julho de 1832 — Desembarque do Exército Libertador na Praia de Mindello


9 de julho de 1832 — Entrada do Exército Libertador na Cidade do Porto


5 de julho de 1833 — Tomada da Esquadra Miguelista


23 de julho de 1833 — Derrota dos Miguelistas em Cacilhas


24 de julho de 1833 — Entrada do Exército Libertador em Lisboa


18 de agosto de 1833 — Desalojamento dos Rebeldes das Linhas do Porto


10 de outubro de 1833 — Desalojamento dos rebeldes do sítio de Campo Grande


23 de maio de 1834 — Convenção de Évora Monte (1)



(1) Biblioteca Nacional de Portugal, Cartas de jogar (detalhe), litografia Manuel Luiz, 1835

Leitura adicional: O Portal da História, Cronologia do Liberalismo


domingo, 18 de maio de 2014

Alcipe

Marquesa d'Alorna, Franz Joseph Pitschmann, Viena, 1780
Imagem: Wikipédia

Tomando posse da sua casa, foi viver por algum tempo na Quinta de Almeirim, e n'outra em Almada, 

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

onde practicava toda a liberalidade e todo o bem que n'outro tempo fizera em Almeirim, soccorrendo agora dalli particularmente os habitantes pobres de Cassilhas, que por isso lhe chamavam a Màe de Cassilhas, demonstrando e agradecendo os benefícios que delia recebiam.

Muitas vezes dizia ella, que presava mais este titulo do que os outros que tinha, ou poderiam dar-lhe, porque deste lhe resultava maior gloria. (1)

O Tejo, que algum dia, se eu cantava,
Erguido sobre as ondas m'escutava,
Hoje nem se enternece,
E ao som dos meus gemidos adormece.

Escarpas na margem sul do Tejo.
O Pintor Eduardo Leite ladeado de duas crianças, João Alves de Sá, 1926
Imagem: Palácio do Correio Velho

"Na sua quinta d'Almeirim costumava meu pae residir uma grande parte do anno, especialmente no inverno, recreando-se com a Musica e a Poesia, a que era muito aífeiçoado; e quando se aproximavam os calores do Estio, passava á outra quinta d'AImada, onde se entretinha com a Astronomia, sciencia de que possuia não vulgares conhecimentos." (2)

Inflamma o peito com paixões sublimes:
Té que em fim, transportado e fervoroso,
Extático apercebe a Divindade;
E no mundo, feliz, os gostos prova
Que a angélicas essências só competem.

Estes sào os sagrados sentimentos
De tua alma elevada, ó Pae amado!
Teus pensamentos e paixões ditosas
Assim suavemente modificas.


D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750 - 1839), Marquesa de Alorna, conhecida como Alcipe nos meios literários, era filha de D. João de Almeida Portugal, conde de Assumar, e avó de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, Marquês de Fronteira.

[A Quinta do Conde era uma] quinta de grande dimensão localizada entre Almada e os Caranguejais, de limites mal conhecidos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Em 1811 quando se construiu o reduto que teve o nome de Forte do Conde, o lugar da construção, perto da escola Frei Luís de Sousa, era terreno da Quinta do Conde.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

No mesmo lugar se construiu a parte de linha de defesa de Almada e Cacilhas que teve o nome de "frente da Quinta do Conde".

O conde em causa é um dos condes de Assumar, muito provavelmente D. João de Almeida Portugal [...] Provedor da Misericórdia entre 1796 e 1802.

Mais a Norte desta propriedade, contígua a casas e quintal da Misericórdia, na Rua Direita, existiu uma propriedade que no século XIX era designada por Quinta do Conde. 

Almada, Vista parcial, ed. J. Lemos, 31 (detalhe)

Esta quinta pertencia ao Marquês de Fronteira [...] (3)

Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira


(1) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. I e II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(2) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. III e IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(n. do ed.) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. V e VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional: Biografia de Alcipe, Fundação das casas de Fronteira e Alorna

quarta-feira, 14 de maio de 2014

António Avelino Amaro da Silva

De António Adelino [sic] Amaro da Silva pouco se conhece nos dias de hoje.

Pouca memória têm os homens!... (1)

António Avelino Amaro da Silva teria nascido em meados da década de 1820, possivelmente em Lisboa.

Era filho de António Silva, natural de Adão Lobo, Cadaval, nascido a 31 de julho de 1801 e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, que teriam casado em 1821, ou pouco antes.

António Silva, seu pai, conhecido por "Silva das barbas brancas", era o veterano que transportava a bandeira nos cortejos comemorativos do 24 de julho de 1834, evocando a entrada do Duque da Terceira e das forças liberais na cidade de Lisboa.

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910, usada pelos Liberais
Imagem: Wikipédia

Este  veterano possuía a medalha das Campanhas da Liberdade (instituída em 1861) com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, e a Torre e Espada que lhe fora concedida pela Junta Governativa do Porto, em 1846.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Teria tido catorze filhos, dos quais se conhecem, para além de António Avelino Amaro da Silva, Francisco Emygdio da Silva, primeiro taquígrafo da camara dos deputados, e Christiano Gerardo da Silva, professor de musica e artista.

António Silva, pai, morreu em 1879, com 79 anos.

António Avelino Amaro da Silva, agrimensor, piloto examinado pela Escola Naval Portuguesa.

Terá permanecido no Império do Brasil, durante o reinado de D. Pedro II, onde terá exercido engenharia civil, na região de Valença no Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

A partir  de 1852  o seu nome é por diversas vezes referido na imprensa periódica do Rio de Janeiro relativamente a actos pessoais, legais e administrativos ou, mais frequentemente, em listas de passageiros de diversos navios, registos das muitas viagens que fez entre Portugal e Brasil. *

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Em 1859 publica no Correio Mercantil o anúncio do seu casamento e estabelece nova residência.

Valença
Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:
Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino. no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.
Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.


Em 1863 publicou o romance histórico "O Caramujo", que descreve com notável realismo os acontecimentos de 23 de julho de 1833, a batalha da Cova da Piedade, assim como outros factos, eventos e aspetos da vida dessa época no concelho de Almada.

Capa do livro Amaro da Silva, António Avelino, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

Alguns autores colocam-no como testemunha presencial batalha da Cova da Piedade, o que é no entanto pouco provável, pois teria pouco mais de dez anos à altura dos factos.

António Silva, seu pai, então com 32 anos, poderia ter participado na batalha da Cova da Piedade ou, ter recolhido a acurada informação de outros membros da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Em 1877 encontramos Antonio Avelino Amaro da Silva, acompanhado de uma filha, na lista de passageiros do paquete Cotopaxi na viagem Rio de Janeiro — Lisboa.

Poderia ter sido esta a viagem do regresso definitivo a Portugal.

Anúncio da Pacific Steam Navigation Company, Diário Illustrado, 28 de março de 1877
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A notícia do óbito de António Avelino Amaro da Silva refere a posse da Torre e Espada concedida pela Junta Governativa do Porto em 1846 que, provavelmente, teria sido aquela concedida a seu pai.

Faleceu na sua casa, em Carnide, no ano de 1889.

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil.

Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho.

Também já é fallecido [à data da publicação do livro de Pedro Wenceslau de Brito, 1908].

Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar.

Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade.

Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza.

Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (2)

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal. 

Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro. 

Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...] (3)

Fallecimentos
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil.
O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846.
Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal. (4)



(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

(2) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

(3) Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

(4) Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889

Hemeroteca Digital Brasileira

Leitura adicional: Costa Leite, Joaquim da, O transporte de emigrantes: da vela ao vapor na rota do Brasil, de 1851 a 1914




O SILVA DAS BARBAS BRANCAS  (*)

[Excertos do artigo que retrata António Silva, pai de António Avelino Amaro da Silva, escrito em 1879. As notas em itálico são da edição de 1908.]


.
António da Silva, o veterano da bandeira
Imagem: Archive.org

I

Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa ;

e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporânea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade ;

Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias dúplices lançava para fora do fino peitilho da camisa aquellas alvíssimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos;

é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.

Esta commemoraçao deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se ; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros;

II

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval ;

e veio para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Embarque da família real para o Brasil no cais de Belém, gravura, Henry L'Évêque
Imagem: Wikipédia

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno António e entrega-lo ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notável, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminência dos factos contemporâneos, Fernandes Thomás, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclítos varões, o 24 de agosto de 1820.

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se nuns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramo-lo já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudas fainas da caserna.

Tinham-no intimado para assentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental, mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia desse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época ; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario ;

III

É geralmente sabido, que os dois primeiros quartéis do século XIX foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporânea numa serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, ódios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho ;

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz ; uma época de combates, de lutas terríveis e homéricas, que parecia ser impossível emprehenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem: porque a 1820 succedia 1824; a esta data seguia-se 1828; depois vinha 1829 e 1834; depois 1836, 1837, 1838, 1840, 1844, 1846.


V

Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro ;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses beneméritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho de 1879, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva, primeiro tachygrapho da camara dos deputados;

Já falleceu. Era um santo homem.
Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão.
O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entrega'-lo aos pães para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário.
Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho !

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil ;

Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho.
Também já é fallecido [à data da publicação do livro, em 1908. Falecera em 1889].
Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar.
Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade.
Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado oíRcial miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza.
Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado.

e Christiano Gerardo da Silva, professor de musica e distincto artista.

Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros.
Está retirado da vida artistica.
E' proprietário em Lisboa.
Vive, edoso e doente.

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Tropas aplicam vergastadas a um popular durante a Patuleia
Imagem: Wikipédia

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850.

Preparava-se a regeneração.

Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava :

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes !


23 de julho, 1879.

O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descrere no tomo n as exéquias solemnes celebradas na parochiai egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja esuva um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus.

Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota :

"Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda assim pôde realizar a quantia de 15$500 réis" .

 (*) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

domingo, 11 de maio de 2014

Largo do Costa Pinto

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente.

Um regabofe.

Da iluminação da Avenida diz-se: — Dos Restauradores para cima dirige o Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o... (1)


Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Registrando o desastre que reduziu à miséria os pescadores da Costa de Caparica, não podíamos deixar de inserir o retrato do infatigavel e benemerito deputado por Almada, Jayme Arthur da Costa Pinto, a quem se deve a iniciativa dos soccorros tendentes a minorar o infortunio d'aquelles infelizes.

O digno representante do circulo d'Almada é natural de Lisboa.

Arrojado, emprehendedor e honesto como poucos, e tendo meios de fortuna que o tornam independente, entregou-se a vida politica, e ja por tres vezes tem representado em côrtes o circulo d'Almada.

É, ha uns poucos de annos, secretario da junta geral do districto de Lisboa, eleito pelo circulo do Barreiro, Seixal e Cezimbra, e tem ali tomado parte em quasi todas as discussões, prestando os maiores serviços ao districto de Lisboa e muito especialmente ao seu circulo.

Como deputado é incansavel, e nao ha memoria de quem tenha prestado mais relevantes serviços aos seus eleitores.

A elle se attribue a extincção do  grande pantano da Trafaria e as obras que ali se estão fazendo e que vão transformar n'um vasto parque de pinheiros aquella paragem.

Foi tambem por sua iniciativa que se destruiu o famoso forte de Cacilhas, transformando-se n'uma vasta praça aquelle montão de ruinas.

Notícia do jornal O Século em 2 de Março de 1884
Imagem: Antigos Alunos Emídio Navarro

No grande incendio que ainda ha pouco houve n'uma fabrica de cortiça na Margueira, o sr. Costa Pinto foi um dos primeiros a comparecer prestando valiosissimos serviços.

O sr. ministro do reino Thomaz Ribeiro quiz por essa occasiào agracial-o com a medalha de prata que s. ex.a recusou.

Jayme Pinto, durante a ultima legislatura, tomou larga parte na discussão do imposto do sal, defendendo energicamente os interesses dos pescadores e das classes pobres.

Ultimamente, o governo teve de ceder, n'esta questão. ao judicioso e acertado alvitre do illustre representante, que pediu a extincção do imposto do pescado na sardinha e no carapau, em troca do imposto do sal.

Jayme Authur da Costa Pinto foi um dos directores da Exposição Agricola que ultimamente se realisou na Tapada da Ajuda, e um dos que mais contribuiram para o seu exito brilhante.

É editor de uma publicacao agricola, redigida pelo conselheiro João de Andrade Corvo, e fundou em Lisboa a Empreza Industrial e Commercial Agricola, para a venda de machinismos e adubos que ainda hoje existe.

Taes são os traços priucipaes da vida d`este trabalhador honesto, a quem os habitantes da Costa de Caparica tanto devem. (2)

No dia 23 de Outubro de 1892, realizaram-se eleições para deputados.

Apresentaram-se dois candidatos monárquicos: António José Batista, apoiado pelos Progressistas, e Jaime Artur da Costa Pinto, proposto pelo Governo, através do administrador do concelho, Maurício Carlos Martins de Oliveira e apoiado pelos conservadores da cidade, ligados ao Partido Regenerador, a que se juntou o Progressista António Rodrigues Manitto.

Os Republicanos mais radicais não aceitavam apoiar António José Batista por este ser monárquico.

Assim, juntaram-se aos seus correligionários do resto do país, numa tentativa de luta contra os vícios eleitorais instituídos.

Convocaram uma assembleia democrática para o dia 28 de Setembro, na qual elegeram uma comissão com a incumbência de elaborar o Manifesto dos Abstencionistas, que dirigiram a todo o país.

Os ânimos agitavam-se na cidade, uma vez que o candidato governamental era apoiado pelo administrador do Concelho Maurício Carlos Martins de Oliveira, homem muito contestado, face aos incidentes verificados na cidade aquando do Ultimatum Inglês.

Assim, durante a campanha eleitoral de 1892, António José Batista aproveitou a animosidade existente e utilizou aqueles acontecimentos contra o seu opositor.

O resultado, tal como todo o processo eleitoral do círculo, foi amplamente contestado, pois o presidente da Mesa Eleitoral de Alcácer do Sal fora substituído, no momento das eleições, por um homem da confiança do administrador do concelho.

Alcácer do Sal, ed. Martins/Martins & Silva, 139, década de 1900
Imagem: Delcampe

Foram ainda colocados, por detrás da Mesa, dois homens com sacos contendo votos com o nome de Jaime Artur da Costa Pinto, que entregavam a todos os eleitores na altura da votação.

Estes eram obrigados a introduzir o boletim na urna ou a trocá-lo na presença da Mesa.

Poucos tiveram coragem de efectuar a troca.

A própria urna fora feita na véspera das eleições, com fundo facilmente violável e depositada durante a noite, com os votos do dia anterior, numa casa junto à Igreja.

António José Batista comunicou ao Rei estes acontecimentos, assim como a permanência de dois homens (um dos quais era vogal da Mesa) na Igreja, durante a noite, para poderem trocar os votos já introduzidos na urna.

O Rei prometeu fazer justiça e remeteu o caso ao Ministro do Reino, que não tomou quaisquer providências.

No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, as autoridades prenderam os dois indivíduos, escondidos na Igreja desde a véspera, mas a burla já estava feita e o administrador do concelho, longe de remeter os prevaricadores ao tribunal, mandou-os para casa, sem qualquer admoestação.

in Vamos viajar no Tempo, Políticos Setubalenses


Em Cascais, inaugurou-se, na tarde de 5 deste mês [setembro de 1954], um monumento a Jaime Artur da Costa Pinto, que foi deputado da Nação e presidente [, desde 1890,] da Cámara Municipal daquela formosa vila e estância turística.

Nascido em Lisboa em 1846, faleceu nesta mesma cidade no dia 10 de Janeiro de 1909.

Foi um homem de coração generoso e um espírito de largas iniciativas.

Deputado em várias legislaturas pelos círculos de Almada, Barreiro, Lisboa, Mafra, Seixal e Sesimbra, nunca, através da sua acção, procurou servir os seus interesses pessoais, mas, sempre, os problemas locais e as obras de assistência.

Gomes Netto
Gomes Netto vs. Costa Pinto
por Raphael Bordallo Pinheiro
Revista Pontos nos ii
104
107
109
112
159

Costa Pinto

Foi provedor do Asilo da Ajuda e da Real Casa Pia de Lisboa.

Como presidente do Municipio de Almada, conseguiu a extinção do pantano da Trafaria e a fixação das dunas, com a plantação de pinhais.

Ao longo de 19 anos, como presidente da Camara Municipal de Cascais [SIPA], realizou obra igualmente notável.

Cascais, Praça D. Luís e Edifício Municipal, ed. J Vianna, 19, c. 1885
Imagem: Real Villa de Cascaes no Facebook

O homem de coraçao manifestou-se em muitas obras: no bairro dos pescadores da Costa da Caparica e na sua qualidade  de sócio fundador da Associaçao Protectora das Crianças.

Cascais, entre outros melhoramentos, deve-lhe a construção da Escola-Monumento D. Luis I.

O seu testamento foi escrito em Cascais, na sua casa da Rua da Alfarrobeira, "tendo por tecto a copa das árvores que ha cerca de trinta anos com as minhas mãos plantei, e as quais são para mim velhos amigos que nunca me deram desgostos, mas sim refrigério e gozo".

Esse homem, bondoso e de espirito empreendedor, (fundou também a Companhia Promotora da Agricultura Portuguesa), foi amigo pessoal de L. Mendonça e Costa, primeiro proprietário e director da Gazeta dos Caminhos de Ferro. (3) 

Companhia Real Promotora da Agricultura Portuguesa, título de uma acção
Imagem: HWPH



(1) Brandão, Raul, Memórias, Vol. I, Porto, Renascença Portuguesa, 1919

(2) Almanach Illustrado do Correio da Europa, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1278, 30 Jun. 1914

(3) Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1602, 16 de setembro de 1954