terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os festejos de 24 de julho de 1874

Para ampliar a commemoração histórica, que se comprehende no capitulo antecedente, darei em seguida o programma da primeira grande commissão organisada em Lisboa para os festejos de 24 de julho e a relação d'esses festejos, relativa a 1874, e copiada de Diário de Noticias n.° 3:037, do dito anno. 

Sede do Diário de Noticias, fundado em 1864, na antiga rua dos Calafates no edifício da Typographia Universal in Edição comemorativa do cincoentenário do Diario de Notícias
Imagem: Hemeroteca Digital

Á falta de informação mais minuciosa e completa, quando menos far-se-ha idéa do modo como o povo liberal relembra tamanho facto histórico, e aqui ficará tal registo.

Programma dos festejos do dia 24 de julho, anniversario da entrada do exercito libertador em Lisboa

1.° No dia 23 de julho, celebrar-se-ha na egreja dos Martyres, pelas 11 horas da manhã, uma missa commemorativa, por aquelles portuguezes que succumbiram nas lactas politicas, travadas no paiz, e que terminaram em 1834.

2.° Ao romper da aurora no dia 24 de julho, subirão ao ar 6 girandolas de foguetes em cada uma das freguezias da captal, içando-se a bandeira nacional por essa occasião nas torres das respectivas egrejas.

Estandarte Liberal, Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Imagem: Wikipédia

3.° A uma hora da tarde haverá um solemne Te-Deum na egreja de Santa Justa e Rufina (S. Domingos) findo o qual, a grande commissào encamínhar-se-ha ao tumulo do duque da Terceira, e sobre elle deporá uma coroa.

4.° Convidar-se-hão as philarmonicas de Lisboa para ao romper do dia 24, tocarem o hymno nacional na praça de D. Pedro, junto da estatua, percorrerem as ruas da cidade, e fixarem-se nas primeiras praças e largos mais importantes, durante a noite.

5.° O passeio do Rocio será gratuitamente franquiado nessa noite, onde tocarão 3 bandas de musica.

Illuminação do Passeio Publico, litografia A. S. Castro, 1851.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

6.° Dar-se-ha no dia 24 um jantar aos presos das cadeias civis de Lisboa.

7.° Serão convidados todos os habitantes da capital a illuminarem exteriormente as suas casas na noite de 24 de julho.

8.° Solicitar-se-ha da empresa dos theatros espectáculos gratuitos na mesma noite.

Antigo Circo Price, demolido para a abertura da avenida da Liberdade, desenho do natural por Casellas in O Occidente 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

9.° Pedir-se ha ao governo de sua magestade que declare de grande gala o dia 24 de julho para sempre.

10.° O ex.mo duque de Loulé, presidente da grande commissão eleita em reunião popular de 14 do corrente mez, será encarregado de dar conhecimento do presente programma a sua magestade el-rei, significando-lhe o desejo que a commissâo tem de que o chefe augusto do Estado e e toda a família real assistam ás solemnidades religiosas dos dias 23 e 24 de julho.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

11.° Rogar-se-ha ao em.mo patriarcha, que presida aos actos religiosos dos dias 23 e 24.

12.° Serão convidados pela imprensa o ministério, os membros do corpo legislativo, os veteranos da liberdade, os ajudantes do imperador e do duque da Terceira, os tribunaes, a imprensa, a ex.a camara municipal de Lisboa, todas as auctoridades, as corporações e as associações, para assistirem ás solemnidades dos dias 23 e 24, ou fazerem-se n'ellas representar.

13.° A commissão dará conhecimento d'este programma aos ex.o presidente do conselho de ministros e ministro do reino.

Lisboa, 17 de julho de 1872. — João António dos Santos e Silva, Joaquim Possidonio Narciso da Silva, José Ribeiro da Cunha, João Manuel Gonçalves, António de Nascimento Rozendo, Visconde dos Olivaes, Manuel José Mendes, Manuel Patricio Alvares, José Baptista d'Andrade.

Palacete Ribeiro da Cunha, em estilo neomourisco desenhado por Carlos Affonso, 1877.
Imagem: Olhai Lisboa

Começaram e terminaram os festejos commemorativoa de 24 de julho mais concorridos e mais brilhantes que nunca, sem que occorressem desordens, nem desaguisados em tão numerosos ajuntamentos como os que se viram; nem que cousa alguma viesse empanar-lhes o vivo esplendor.

O povo demonstrou, nas suas manifestações espontâneas, pacificas e enthusiasticas, que ama a liberdade e a deseja manter: e um povo assim, é digno d'ella. Registaremos aqui, pois, mais esta pagina de affirmação aos sentimentos liberaes que tão enraizados estão na capital, como em todo o reino.

Apesar de se haver combinado que só se lançariam ao ar foguetes quando desse a salva no castello de S. Jorge, durante a noite de 23 para 24, e em diversos pontos da cidade, se ouviram vivas á liberdade e o estalar amiudado, e quasi sem interrupção, do fogo festival, principalmente no Rocio, onde alguns grupos queimaram fogo de sala.

Ao romper da aurora, deu o castello a salva costumada e de todos os largos e praças subiram aos ares girandolas sem conta, tocando as philarmonicas em algumas praças e por diíterentes ruas, e as bandas regimentaes ás portas dos respectivos quartéis.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Muito antes de nascer o dia, já estavam na praça de D. Pedro IV, e em volta do monumento, onde tinham accendido os fogachos de gaz, milhares e milhares de pessoas. Tinham vindo alli, para a alvorada as musicas de infanteria 11 e de caçadores 6, depois vieram a dos bombeiros e da viuva Roxo.

Inauguração da estátua de D Pedro IV em 1870.
Imagem: Wikipédia

A sociedade Recreio Artístico, que tinha concedido um baile campestre a favor dos veteranos da liberdade, aliás muito concorrido, cumpriu o que promettera. Foi tocar a alvorada para o campo de Sant'Anna, onde vimos reunidas mais de 1:000 pessoas.

Acabado o toque a sociedade seguiu para o Rocio, executando hymnos nacionaes, acompanhando a aquella multidão, onde se notavam muitos veteranos.

No caes de Sodré e Corpo Santo, fizeram a alvorada a banda de ex alumnos da casa pia e a philarmonica Seixalense e outra, que percorreram todo o Aterro, comprimentando-se, e eram também seguidas de numeroso povo, que dava vivas e lançava foguetes.

Pode-se dizer que, pelo movimento das ruas, uma parte importante da população viera saudar jubilosa o despontar do dia em que se commemorava uma grande data.

Desde as oito horas da manhã até ás 11 distribuiu-se, em varias freguezias, bodo aos pobres, constando de pão, carne, arroz, toucinho e esmolas de 100, 200 e 500 réis ; e notaremos os das commissôes voluntariamente organisadas em S. Paulo, S. João da Praça, Mercês, S. José, Pena, Esperança, calçada de Santa Anna, Anjos e Soccorro.

N'esta ultima freguezia havia duas commissôes. Na Encarnação havia também duas, uma da freguezia que deu esmola de 1:000 réis a 41 veteranos e outra na Rua dos Calafates. Os bodos foram distribuidos na presença das respectivas commissôes, por damas ou por meninas, tocando durante o acto as philarmonicas, que obsequiosamente se prestaram a isso.

Em algumas freguezias a abundância dos donativos deu logar a augmentar o bodo. Durante a distribuição do bodo na rua dos Calafates tocou uma orchestra, composta de professores e organisada por influencia de um dos membros da commissão.

Eram quasi três horas da tarde quando chegou á ponte dos vapores do Terreiro do Paço, a bordo do Lusitano a grande commissão de Almada com a camara municipal d'aquelle concelho, e muitos cidadãos liberaes que a acompanhavam. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na ponte esperavam estes cidadãos a grande commissão de Lisboa, representada pelo seu presidente e muitos de seus membros, vereadores do municipio de Lisboa, veteranos da liberdade, e outras pessoas, levando a bandeira da commissão lisbonense o vogal Francisco de Almeida e da associação dos veteranos o sr. Silva, empregado na alfandega e fundador da mesma associação.

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António da Silva, o veterano da bandeira, fundador da associação.
Imagem: Archive.org

Logo que a commissão desembarcou, subiram ao ar algumas girandolas de foguetes, tanto de bordo do "Lusitano", como da praça, onde se tinham agglomerado milhares de pessoas. 

As duas commissôes, levando na frente duas philarmonicas a dos bombeiros e Primeiro de Dezembro e logo após as bandeiras indicadas, seguiram pela rua do Ouro em direcção do Rocio, onde pararam para fazer continencia á estatua do imperador D. Pedro IV.

D'ahi seguiram para a egreja de Santa Justa, entre os repetidos vivas á liberdade, e aos veteranos, que se soltavam durante o transito.

Os veteranos, parte uniformisados, parte á paizana, mas todos sob a direcção do seu presidente, não seriam menos de 200.

O vasto templo de Santa Justa, preparado para o Te-Deum pela solicitude dos procuradores e andador da irmandade do Santíssimo, sob a direcção do sr. Rosa Araújo, ostentava as suas melhores e sumptuosas galas, com superabundância de armações de custo, numero admirável de luzes e profusão de flores naturaes.

No throno e nos altares viam-se mais de 700 lumes. O templo estava completamente cheio. Vimos alli representadas todas as classes.

A imprensa também teve a condigna representação, achando-se alguns jornalistas juntos com a grande commissão, e outros no corpo da egreja.

As associações operarias e algumas escolas egualmente tinham alli delegados seus, como o grémio popular, que era representado pelo seu presidente o sr. Silva e Albuquerque.

A commissão da Pena mandou áquella solemne ceremonia as 33 meninas, que vestira de manhã, e que, durante o acto, estiveram de velas accesas e com ramos de perpetuas e laço azul e branco.

Por volta das três horas e meia chegaram, um após outro, el-rei D. Luiz e D. Fernando, os quaes foram recebidos, á porta da egreja, pelo ministério, membros da grande commissâo e veteranos, com as respectivas bandeiras, arcebispo de Mytelene, collegiada, irmandade do Santíssimo, altos funccionarios militares e civis.

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

El-rei trajava o uniforme de general. Sua magestade a rainha não pôde concorrer a Lisboa por incommodo de saúde. Logo que suas magestades tomaram assento nas cadeiras de espaldar, que lhes estavam proparadas no altar-mór, lado do Evangelho, debaixo de riquíssimo docel, entoou o Te-Deum o sr. arcebispo a grande instrumental.

D. Luis I (1838-1889), rei de Portugal de 1861 a 1889.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Em frente da egreja, fazia a guarda de honra uma força de 100 homens da municipal, com capitão e dois subalternos e a musica.

A policia do largo e das ruas circumvisinhas era feita por uma força de cavallaria municipal commandada por um subalterno e guardas civis.

A entrada e saida de el-rei estalaram muitas girandolas de foguetes. O Te-Deum que era o de Marcos de Portugal, sob a regência do sr. Monteiro de Almeida, com 21 vozes e 42 instrumentistas, terminou ás 4 horas e 20 minutos.

Depois da ceremonia religiosa, el-rei dirigiu-se, em carruagem que o conduzira ao arsenal da marinha, onde o esperava o estado maior, e ahi montou a cavallo para a revista.

El-rei D. Fernando voltou para as Necessidades e em seguida regressou a Cintra, d'onde viera de propósito na véspera.

As quatro e meia, sua magestade o generalissimo do exercito, saía do arsenal em direcção á praça do Commercio, montando um soberbo cavallo baio e era seguido por um luzido estado maior, do qual faziam parte os ajudantes de campo, generaes (Jaula e D. Luiz de Mascarenhas; coronéis Folque e Cunha, e officiaes ás ordens, D. Francisco de Almeida, D. Manuel de Mello e Vito Moreira, e dos generaes Barreiros, Palmeirim, barão de Rio Zêzere, Mancos de Faria, Luiz Maldonado, Moraes Rego, Tavares de Almeida e Castello Branco e respectivos ajudantes de campo.

A divisão achava-se formada na praça do Commercio. O aspecto de todos os corpos em parada e o quadro que offerecia toda a divisão formada em columnas era deveras brilhante. Ao entrar elrei na praça as tropas apresentaram armas e as bandas tocaram o hymno real.

Finda a revista o generalissimo tomou pela rua do Oiro, seguido por toda a divisão para fazer a continência á estatua do imperador. El-rei e o seu estado maior collocaram-se sob as tribunas que se levantaram no theatro de D. Maria, para ver o desfilar de todas as tropas.

Na tribuna do centro não havia pessoa alguma da família real, e nas lateraes viam-se o ministério, parte do corpo diplomático estrangeiro, camará municipal, a grande commissão dos festejos, muitas damas, etc.

A força da guarda municipal que estivera ás portas do templo de S. Domingos, veio postar se em linha em frente de el rei, abrindo assim largo caminho para o desfilar das tropas.

A divisão passou em continência, como dissemos ; a artilheria e infanteria em columnas de divisões e a cavallaria a três. A marcha na continência em geral foi boa, havendo apenas um incidente que alterou o bom andamento da artilheria, por lhe ter caído uma parelha de muares na rua do Oiro.

Algumas divisões de caçadores e infanteria não tinham sufficiente espaço para estenderem bem em linha, indo algumas filas á rectaguarda por causa da grande massa de povo que se agglomerava em todos os pontos.

A divisão retirou pela rua Augusta e alguns corpos não seguiram para quartéis pelo itinerário indicado, por ter o sr. general commandante ordenado, á ultima hora, que seguissem o que lhes fosse mais conveniente.

A divisão compunha-se do regimento de artilheria n.° 1, com 6 metralhadoras, 36 canhões Krupps e 6 pecas de montanha, uma brigada de cavallaria com 6 esquadrões, commandada pelo sr. infante D. Augusto, levando ás suas ordens os srs. D. João de Mello e visconde de Seisal, e duas brigadas de infanteria.

A força de toda a divisão era de 5:210 praças, 567 cavallos, 388 muares e 48 bocas de fogo. Artilheria n.° 1 levava 510 homens, lanceiros da rainha 280 cavallos, e cavallaria n.° 4, 287; caçadores n.° 2, 430 homens; caçadores n.° 5, 578; infanteria n.° 1, 590; infanteria n.° 2, 600; infanteria n.° 5, 680; infanteria n.° 7, 625 e infanteria n.° 16, 630.

D. Carlos I em visita ao regimento de Lanceiros 2, foto de Joshua Benoliel, 1907.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Estes corpos não apresentaram maior força por terem alguns destacamentos e grande numero de praças licenciadas.

O estado de asseio de todos os corpos, e a maneira como elles se apresentaram em parada, magnificamente armados e equipados, satisfez todos os espectadores e até os mais escrupulosos em cousas militares.

A força de artilheria ia imponente. Quarenta e oito bocas de fogo, como as que nós apresentámos, é força respeitável em qualquer parte da Europa.

A cavallaria ia toda bem montada e em força quasi completa. Parte do corpo diplomático estrangeiro finda a passagem das tropas foi felicitar o sr. ministro da guerra pela maneira brilhante como se apresentou a divisão.

Os corpos da guarnição de Belém chegaram á noite a quartéis, e a banda de caçadores da rainha, depois da parada, marchou em seguida para Queluz, indo em char-á-bancs a expensas de sua magestade.

Os navios durante o dia estiveram embandeirados em arco.

Lisboa — Vista do Tejo, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram-se, em todo o dia, innumeros homens com perpetuas ao peito, assim como muitas damas com ramos de egual flor.

Ao pôr do sol salvou o castello e lançaram-se mais girandolas.

A concorrência que fora extraordinária aos actos públicos do dia, e que se tornara notável á tarde, por occasião da revista e continência militares, tornou-se assombrosa á noite.

Não nos lembra vêr, em época alguma do anno, nas occasiões festivas, que dâo movimento ás massas populares, a affluencia d'este anno ás ruas de Lisboa.

A illuminação foi geral e deslumbrante em muitas partes.

A mais vistosa de todas era a da praça de D. Pedro, que se compunha de quatro grandes pyramides com 1:200 bicos de gaz, terminando com fachos, que illuminavam perfeitamente a praça e a estatua.

As pyramides pela frente e rectaguarda, estavam ligadas por festões, que tinham no centro duas estrellas, que também lançavam bastante luz por muitos bicos de gaz.

O edifício do theatro de D. Maria e os demais em volta da praça viam-se egualmente illuminados. Eram do mesmo modo brilhantes as illuminaçôes das rua dos Calafates, que, desde a travessa da Queimada até á rua das Salgadeiras, tinha um sem numero de bandeiras nas janellas e cruzando a rua bandeiras, festões, lustres e balões; a do largo do Camões, que tinha illuminação em volta do monumento com 200 lumes de gaz, afora os da estrella central; as do Corpo Santo que tinha dois arcos; cães do Sodré e Aterro, que tinha outros dois. onde se lia a data de "23 de julho de 1833", bandeiras, festões, mastros com escudos e estandartes.

Theatro D Maria II, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior João Pedrozo (gravura), 1863.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Ali a illuminação era a balões em prodigiosa quantidade. Em outros largos e praças havia illuminações mais ou menos vistosas. A estação dos vapores Burnay, no Aterro, tinha grande numero de lanternas de cores, na frente da barraca. Seria difficil enumerar todos os edifícios particulares, além dos públicos, que apresentaram as suas fachadas illuminadas com lanternas ou gaz.

Entre outros, notaremos todos os hotéis do Chiado, sobresaindo o "Gibraltar", que hoje está no palácio Ouguella; os escriptorios da "Correspondência de Portugal" e de outras redacções; todo o edifício da Typographia Universal e escriptorios do "Diário de Noticias" e "Diário Popular"; companhia de vapores e outras; confeitaria na rampa de Santos; fabrica de gelo dos srs. Ferreira & C.a; as casas de vários cônsules e ministros estrangeiros, etc.

O Terreiro do Paço estava segundo o costume, mas em frente do caes das Columnas fundeara o vapor "Lynce", que illuminou graciosamente e durante a noite queimou alguns fogos de bengala.

O castello de S. Jorge exterior e interiormente tinha bonita illuminaçâo.

Nos coretos erguidos nos differentes pontos notámos: Caes do Sodré, philarmonicas Verdi, da Ponte Nova, e Capricho, do Barreiro; Corpo Santo, ex-alumnos da casa-pia; Ribeira Nova, Seixalense;
praça de D. Luiz, defronte da fabrica, fanfarra de curiosos; fim do Aterro, banda da guarda municipal; rua dos Calafates, philarmonica 24 Julho; rua do Currião, Timbre dos Artistas; largo do Camões, Alumnos de Minerva; Campo de Sant'Anna e largo do Tabellião, Recreio Artístico; largo da rua dos Canos, Xabreguense; largo da Esperança e Caes de Santarém, também philarmonicas; e no Rocio as bandas de infanteria de caçadores 6, e por vezes varias philarmonicas, sendo ali mais permanentes as Primeiro de Dezembro, de Aldeia Gallega, e dos bombeiros, que levava muitas figuras e apresentou-se bem uniformisada.


Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Repetimos: o modo como correram os festejos de 24, fazem o maior elogio do povo lisbonense. É agradável deixar isto registado. E cabe-nos, com egual satisfação, mencionar que, na ordem e organisação da commemoraçào solemne, pertence bom quinhão de louvor á boa vontade e ao zelo da grande commissão, e especialmente á sua commissão executiva.


(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Esboços e recordações, Lisboa, Typographia Universal, 1875, 246 págs.

Leitura relacionada:
Maria Isabel da Conceição João, Memória e Império, Comemorações em Portugal (1180-1960), Lisboa, Universidade Aberta, 1999
O dia de hontem na Piedade

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

1876, um eremita

O reverendo padre Hughes é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Igreja do Corpo Santo, fachada principal, Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Hughes fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

O rio Tejo e a igreja de São Paulo, no Largo do Corpo Santo, Francesco Rocchini, finais do século XIX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

S. Paulo tinha por habitação uma caverna anteriormente habitada por um moedeiro falso do tempo da rainha Cleópatra, tinha a pura fonte cristalina brotando do seu rochedo, óptimas tâmaras para a sua sobremesa, e meio pão, o qual, segundo se lê em S. Jerónimo e em S. Atanásio, era trazido fresco ao santo eremita, em cada manhã, por um corvo.

Por ocasião da visita piedosa de Santo António [Santo Antão] a S. Paulo, o corvo, vendo que havia uma boca a mais no santo deserto, começou a apresentar-se em cada dia com um pão inteiro suspenso do bico.

S. Paulo vestia uma túnica feita de folhas de palmeira, a qual veio a ser herdada como relíquia por Santo António no dia em que S. Paulo expirou, aos 112 anos de idade, havendo comido com resignação e fervor todos os meios pães que sucessivamente lhe haviam sido levados pelo corvo.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Não é de presumir que, além da água da Fonte da Pipa, o reverendo Hughes tenha enctontrado na Outra Banda os elementos da vida retirada e contemplativa que S. Paulo gozou na Tebaida. 

Para o efeito dos alimentos e do vestuário o reverendo Hughes ter-se-á visto obrigado, talvez, a substituir o corvo por um padeiro e a palmeira por um algibebe, o que todavia não obsta a que ele esteja do mesmo modo livre, como S. Paulo, dos furores de Décio, o tirano.

Graças à Fonte da Pipa e aos seus respectivos cabos de polícia, os dias do eremita Hughes tão serenos e pacíficos têm decorrido na Outra Banda que o ilustre sacerdote resolveu atravessar as águas do Tejo e vir por meio de práticas na igreja de S. Paulo convidar a acompanhá-lo às doçuras do ermo os cristãos da banda de cá, que não quisessem prestar a cerviz ao alfanje do bárbaro imperador Décio Pereira de Melo.

Fontes Pereira de Melo, por Raphael Bordallo Pinheiro.


O reverendo Hughes determinou subir, pois, na  semana passada ao púlpito da igreja de S. Paulo e começar a série das suas práticas tendentes a convencer os cristãos dos perigos que deles correm no meio da vida mundanal, e bem assim dos santos prazeres que os esperam na paz dos cenóbios, se eles se resolverem a ir à Outra Banda e entregarem-se à penitência, ao jejum e ao burro de Cacilhas, desviado pelo reverendo Hughes da carreira da Cova da Piedade para a da terra da Promissão.

Sabe-se quanto os nossos templos modernos estão longe do frio desconforto das primitivas catacumbas, das criptas e das cavernas sepulcrais em que os primeiros cristãos se refugiavam para escaparem à perseguição dos Governos, para celebrarem as belas cerimónias do culto primitivo e para enterrarem os seus mortos santificados pelo martírio.

A Igreja tem sido verdadeiramente incansável nos últimos tempos em atrair a piedade ou em a conservar por meio das sucessivas comodidades e dos prestígios espectaculosos.

Há os órgãos, em que por ocasião dos santos sacrifícios se tocam os trechos sentimentais de Verdi e de Bellini. As epistolas de S. Paulo e o evangelho de S. Mateus acompanham-se, para recreio aos fiéis, com os suspiros de Margarida Gautier e com a romança de Armand Duval. As palavras da confissão casam-se com o cancã da "Bela Helena", e a hóstia sagrada eleva-se ao som da ária "Rien n'est sacré pour un sapeur".

Além disso há os tapetes, há as jarras da Índia, há as almofadas de veludo, os belos quadros de virgens louras, de simpáticos santos romanescos, como S. Francisco Xavier, de fidalgo perfil e fino bigode, de Nossa Senhora de la Salette, representada de pequenina touca encanudada, saia curta e avental guarnecido de pompons, como as travessas "soubrettes" de Molière.

Temos as devoções de recreio em comboio expresso a preços reduzidos para Notre-Dame de Lourdes, milagre e jantar por cinco francos, de carne ou de jejum, vinho à parte.

Há, mais em moda, ainda, recentemente, as piedosas romagens a S. Dinis, que tem uns poucos de corpos, um na igreja de Paris, um na de Ratisbona, um julgado autêntico por Leão IX, um mandado ter como genuíno por Inocêncio III, e outros, entre os quais pretendem alguns arqueólogos que se achará o do deus Baco, chamado Dionisius, de cujo culto cristianizado na Gália proveio a legenda de S. Dinis.

Os conventos pela sua parte abandonaram também a confeccção dos milagres e das tradições maravilhosas e tremendas para empregarem todos os esforços da sua química na especialidade dos mais saborosos e estomacais licores : o dos Beneditinos, o Kermann, o Chartreuse, e outros.

A Semana Santa, destinada a comemorar o lance mais dramático e mais sublime da história de Jesus, converteu-se num pretexto de viagens ã Andaluzia, às famosas touradas em que Sevilha reúne os primeiros espadas e os primeiros aficionados ao "boi de morte", e à celebre feira em que o velho salero revive um momento, sorrindo sob o véu mourisco, ao vago rufo longínquo de históricos pandeiros.

Em Lisboa o mesmo tempo é um abismo de amêndoas, de "bons-bons fondantes", de "croquettes ã la vanille", de rebuçados de ovos, e de outras doçuras com que a Confeitaria Italiana e os bufetes de Baltresqui celebram a Paixão.

Os livros da oração e da missa converteram-se em obras-primas de tipografia e de cartonagem, de tão altos preços que não permitem que ninguém reze com decência por menos de duas libras.

As igrejas são, como os clubes, o prazo dado à reunião por categorias das diferentes classes sociais.

No Loreto, à missa da 1 hora, reúne-se a burguesia frequentadora do Passeio do Rossio e dos bailes do Clube.

A nobreza de "l'ancien régirne" vai à Graça, aos Anjos e ao convento de Santos, onde na penúltima sexta-feira da Quaresma há procissão de senhoras, com rifa e chá.

No convento da Encarnação, pelo oitavado do Corpo de Deus, há igualmente rifa, chá e recepção à noite.

Lisboa, portal do convento da Encarnação,
Alfredo Roque Gameiro, 1925.
Imagem: www.roquegameiro.org

A alta finança tem procurado pôr em moda com as suas novenas Santa Isabel e a Lapa.

A aristocracia oficial, a nobreza militante, a fina flor da moda, não vai senão aos Inglesinhos e a S. Luís dos Franceses.

Os devotos escolhem nestes quatro círculos a missa que convém à sua educação, ao seu nascimento, à sua fortuna e à ordem das relações que cada um deseja cultivar.

Com a religião em tal estado é realmente preciso ser-se bem indiferente aos atractivos do luxo, da elegância, da moda, da convivência e da boa companhia para se não ser um firme e fiel católico!

Ter uma religião fácil, elegante, alegre, ao abrigo de toda a perturbação, mantida pela Carta, vigiada pela polícia, defendida pela guarda municipal; ter ao mesmo tempo uma porta aberta para a sociedade, para a consideração, para a estima pública, para os altos cargos do Governo, para as finas festas e para os belos salões escolhidos, e outra, porta aberta para o céu, para Deus, para a bem-aventurança; estar provido de orações e de indulgências para cada pecado, de sorte que se pode, ao fim de cada ano de vida, receber carta de limpeza para urna eternidade de promissão; ser, graças à confissão, tantas vezes delinquente quantas vezes amnistiado; olhar em volta de si, na humanidade, ver milhares de milhões de almas perdidas por falta de padres, de indulgências plenárias, e de bulas pontifícias, e ponderar que o Inferno tem muito em que se entreter para queimar competentemente os outros, enquanto nós estivermos consoladinhos, na comedidade celestial, como assinantes antigos do Paraíso, binoculando dos nossos "fauteuils" as trágicas visagens carbonizadas dos bárbaros e dos hereges rechinando  no fogo eterno!... 

Que mais pode exigir ao mundo e ao céu, ao tempo é à eternidade, o profundo e imenso egoísmo do homem?

O programa do mais humilde e obscuro beato deixa a perder de vista os sonhos mais excessivos em gozo de Nero e de Sardanagalo — uns pobres diabos a quem ali o sineiro das Mercês, uma vez na eternidade, terá o direito de torcer uma orelha a troco de um simples padre-nosso!

O clero porém continua a recear que todas estas vantagens não cheguem para preencher a aspiração dos entes bem formados, e todos os dias continua ainda a acrescentar tanto quanto pode os interesses e os atractivos do culto.

Assim, quando o reverendo Hughes se apresentou, acolheu-o o mais vivo e simpático alvoroço. Um enorme êxito estava destinado a saudar a sua aparição na Igreja de. S. Paulo. Ele não tocava órgão de uma maneira sensivelmente arrebatadora; ele não possuía absolutamente para a execução dos sagrados motetes a fina voz preciosa dos antigos mutilados das reais capelas; ele finalmente não tinha à primeira vista nenhum dos belos talentos em que se fundam as reputações de sacristia.

Igreja do Corpo Santo, altar-mor,
Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Todavia a sua origem irlandesa havia-o dotado com a especialidade impagável da pronúncia dos ingleses de farsa, e não poderiam deixar de produzir o mais alegre efeito nas consciências as suas piedosas aplicações do "Amor Londrino" a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

Efectivamente à primeira prática do reverendo Hughes a Igreja de S. Paulo teve uma casa cheia, e nunca a palavra de Deus foi escutada nos templos cristãos com mais patente manifestação de alegria.

Estátua de Girolamo Savonarola (1452 - 1498) em Ferrara, Italia, por Enrico Pazzi, 1872.
Imagem: Flickr

Somente como um espectador interrompesse a ilimitada satisfação do auditório com uma tosse importuna, um padre português que assistia à prática descarregou algumas bengaladas no fiel cristão constipado.

Daqui, tumulto e desordem. Fervem os canelões e os murros, os chapéus-de-sol floreteiam no ar cruzando-se em golpes às cabeças, os homens praguejam, as mulheres gritam, as crianças choram, o reverendo Hughes desce amedrontado do púlpito, e os fiéis, que tinham ido ao templo pedir as unções da fé, acham mais urgente ir pedir tintura de arnica na botica ao lado.

Então a mesa da confraria de S. Paulo protesta contra as práticas do padre Hughes, comentadas à bordoada pela galeria. O Sr. Patriarca de Lisboa [Inácio do Nascimento Morais Cardoso, 11º Cardeal-Patriarca de Lisboa, 1871 - 1883] intervém, e eis o que Sua Eminência resolve:

"Sendo o catolicismo a religião do Estado, o Sr. Cardeal-Patriarca, autorizando a pregar o reverendo Hughes, declara que, com a intervenção da força armada, fará manter na igreja de S. Paulo o respeito devido à palavra de Deus."

Inácio do Nascimento Morais Cardoso,
11° Cardeal Patriarca de Lisboa, entre 1871 e 1883.
Imagem: Wikipédia

O caso do reverendo Hughes não teria grande importância, nem nós o haveríamos referido nestas páginas, se ele não houvesse dado origem a esta  declaração do Sr. Patriarca, publicada na maior parte dos jornais de Lisboa, sem todavia haver suscitado nem da parte da imprensa nem da parte do Parlamento os comentários que merece.

As palavras do Sr. Patriarca passaram despercebidas, certamente porque se não viu que elas encerram a ameaça de um acto de natureza inteiramente análogo ao da carnificina de Saint-Bartheliemy.

Carlos IX dizia: "A missa, ou a morte!" — o Sr. Cardeal-Patriarca diz: — "O sermão, ou a força armada!"

Há uma leve diferença nos vocábulos, mas o sentido jurídico das duas frases é absolutamente o mesmo. Por mais arcaica, por mais obsoleta, por mais absurda que pareça a cominação do Sr. Patriarca, ela é no entanto a consequência lógica da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal mantida em pleno século XIX pela Carta Constitucional da monarquia.

As palavras do Sr. Patriarca provam patentemente que dentro da lei portuguesa um príncipe da Igreja está no pleno direito de decretar a Saint-Barthelemy.

O facto é de tal maneira expressivo e flagrante que, se em Portugal houvesse um Parlamento dotado de algum simples respeito pelo senso comum, bastaría enunciar aas palavras proferidas pelo Sr. Cardeal-Patriarca para que pelo voto unânime dos legisladores fosse de uma vez para sempre riscado da Carta o artigo sexto.

Enquanto ao clero católico não compreendemos qual é definitivamente a sua opinião acerca da intervenção da força nas relações do homem com Deus. Na Alemanha, quando Bismarck submete o clero católico à inteira vontade do Governo do império, o clero apela para as garantias espirituais, distingue os poderes, declara-se fora da lei civil, e os mais ardentes ultramontanos refugiam-se no principio de Cavour, e pedem em brados de justiça Igreja livre no Estado livre.

Em Portugal o mesmo clero perfilha a opinião do chanceler do império, ri com ele dos invioláves direitos da consciência, e pede a força armada para sustentar um sermão!

O clero, representado nas pessoas dos seus chefes mais augustos e mais conspícuos, não vê que se combate a si próprio e se dilacera a si próprio. No meio da crise suscitada pela ameaça do Sr. Patriarca o procedimento sublimemente filosófico do reverendo Hughes é superior a todo o elogio.

As suas meditações de eremita haviam-no instigado a vir da Outra Banda ensinar o caminho do aprisco a algumas ovelhas tresmalhadas pelo Aterro. As ovelhas não quiseram ouvi-lo e preferiram furar os olhos umas das outras com as ponteiras dos guarda-sóis.

O Sr, Patriarca ofereceu-se-lhe para mandar degolar pela polícia o rebanho inquieto.

O bom homem, que vinha como pastor e não vinha como magarefe, recusou a oferta, e a única coisa que fez vendo que lhe saíra o gado mosqueiro, foi cumprimentá-lo de longe, dirigindo-se à ponte dos vapores, sacudir o pó dos seus sapatos com o lenço destinado a receber no púlpito de S. Paulo o catarro da sua eloquência, e regressar para CaciIhas.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Se alguma das andorinhas do nosso telhado se quiser encarregar de levar estas linhas à Tebaida do reverendo Hughes, pedimos a sua reverência que olhe de lá para a janela da nossa água-furtada, de onde lhe enviaremos as saudações mais simpáticas. (1)

Aforamento terreno com edificado,
Diário Illustrado, 9 de abril 1882.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

Artigos relacionados:
A costa no século XIX

Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Galeria da Cova do Vapor

Memórias Coletivas da Cova do Vapor integra-se no âmbito do projeto Casa do Vapor que visa a valorização da Cova do Vapor, assim como a sua divulgação, através da memória subjacente à imagem, que se procura simultaneamente salvaguardar [...]

clique para aceder às imagens

Esta plataforma online consiste basicamente numa base de dados ilustrada, que permita apresentar a um público extenso, os resultados deste trabalho. O site é uma ferramenta aberta, ou seja, que contempla a sua atualização e desenvolvimento. (1)


(1) Memórias Coletivas da Cova do Vapor

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O morro do moinho

Bem perto das Margueiras, existiam terras de cultivo, que garantiam a sustentabilidade dos ocupantes do espaço.

Vista poente de Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante séculos, o trigo, o milho, a cevada e outros cereais, chegavam ao morro sobranceiro ao Tejo, onde os moinhos aí existentes cumpriam a sua função de fornecer aos habitantes a farinha, tão necessária à confecção do pão e de outros alimentos de uso quotidiano [...]

Vista nascente de Almada e Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Para facilitar a ligação entre o cais de Cacilhas e a Margueira existia um túnel, que passava por baixo do morro, logo a seguir à Lapa.

Junto à Lapa, encostado ao morro, existia um mirante, que se destacava pela sua altura a par do morro, cuja existência alimentou durante muitos anos a imaginação popular [...]

Detalhe da torre e mirante (arquvivo "O Século", Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono), 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No início dos anos 50 instalou-se aí a fábrica de Manilhas do senhor Patraquim, na sequência do qual foi derrubado o muro existente que delimitava a propriedade e impedia o seu livre acesso, e abriu espaço à instalação de famílias no morro do Moinho.

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Este local era conhecido de forma carinhosa por ilha do Papagaio Cinzento [...]

Construções no morro do moinho, c. 1950.
Imagem: Bildarchiv Foto Marburg

Como se torna evidente as habitações eram bastante modestas, sem electricidade, água canalizada e saneamento. 

Porém, no núcleo do moinho, algumas delas estavam acabadas com algum esmero, onde não faltava um pátio de entrada, perfeitamente delimitado com gradeamentos de madeira e passadiço do mesmo material até à porta de entrada das casas, onde pontificavam caramanchões e outras plantas ornamentais [...]

O abastecimento de água era feito através de chafarizes públicos. Inicialmente os habitantes do núcleo norte, desciam a encosta e recolhiam-na num chafariz existente no início do Beco do Bom Sucesso, os habitantes do núcleo do moinho transportavam-na do chafariz que também abastecia a Vila Brandão.

Chafariz de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna,
roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Mas no início dos anos sessenta a CMA com trabalho voluntário dos moradores levou a água ate à "Rocha", designação também dada à quinta da "Margueira Velha", onde foram implantados dois chafarizes, um no cimo do caminho por onde se acedia ao morro através do então Largo Costa Pinto que servia o núcleo norte e outro junto ao moinho, a poente, que servia esse núcleo.

Miúdos do Moinho, fotografia de Hélio Quartim, 1976.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Por esta altura foram também construídos balneários públicos com duas ou três cabinas de duche (água fria), um luxo [...]

Demolição de algumas barracas no morro de Cacilhas, c. 1970.
Imagem: Lurdes B. Ferreira

Porém, a centralidade da "Rocha" era, e ainda hoje é, o seu moinho de vento. Ao tempo deste relato era habitado pelo sr. João (João do moinho).

Solteirão, com várias namoradas, recriminado por isso pela sua "velha" mãe quando o visitava. (1)


(1) Farol, O, Associação de Cidadania de Cacilhas, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013, 248 págs.

Artigos relacionados:
O torreão e a Lapa
O incendio da fabrica da Margueira
A menina do mirante




Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A bruxa de Cezimbra


Ella outra vez:

Devem recordar-se os nossos leitores d'uma celebre bruxa de Cezimbra, uma tal Maria da Burra, que figurou em tempo nas columnas do nosso jornal a proposito de umas gentilezas que praticou.

Cezimbra, desenho do natural por Casellas [gravura de Alberto], in O Occidente, n° 208, 1 de outubro 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

Cá a temos outra vez. A bruxa de Cezimbra introduziu-se pacatamente na casa de uma viuva rica do Caramujo, que tem uma filha, e convenceu aquella senhora de que tinha o demonio na sua residencia.

O demonio em casa! Caso sério, que dá muito que pensar a um cerebro enfermiço. Ora, parece, que realmente a senhora viuva não tem o mais claro juizo, porque acreditou as palavras da intrujona, acceitando os serviços desta.

A Maria da Burra disse-lhe que se prestaria a pôr péla porta fora o demo, servindo-se para isso tão sómente dos seus exorcismos, bem como a livraria em toda a parte das tentações do tal pontudo sujeito.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

O caso deu-se ha dois annos, tantos quantos ha que a bruxa se tornou a companheira inseparavel da viuva. Pudera! E uma investida inesperada de Belzebuth não seria obra? 

A espertalhona anda no luxo, vive á grande, porque, emfim, ha toda a razão para isso:—Sempre é menina que tem poder contra Satanaz!

O que se chama em linguagem de "bruxa" e calão da gente réles — "um governo de vida a custa dos tolos". 

Parece, no entanto, que a mulher que alcançara o bem estar por meio das suas especulações se devia dar por satisfeita. Mas qual historia; aquillo é de sangue.

Ha mezes, querendo alargar a sua importancia e dar-se ares de bruxa de primeira ordem, fez relações com a mulher de um tanoeiro tambem do Caramujo.

O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Flores, Alexandre M.,
Almada antiga e moderna
,
Freguesia da Cova da Piedade

Aquella mulher tinha filhas e filhos, sendo um destes um rapaz irrequieto, que deu com as suas leviandades alguns desgostos á família. 

A doutora da bruxa, que para tudo tem remedio, deu logo o seu conselho: — "Casemos o rapaz".

E assim como deu o conselho, egualmente se encarregou de arranjar noiva.

Madam Mim, Gyanax, 2014.
Imagem: DeviantArt

Fez as relações do rapaz com a viuva sua protectora, protegeu os amores da filha desta com o filho do tanoeiro, e por fim de tal modo dispoz as cousas que a menina fugiu de casa da mãe para a casa do namorado. Como consequencia, o casamento.

Ha perto do dois mezes que casaram na egreja de S. Thiago de Almada. A lua de mel, porém, parece ter sido curta, porque viviam um pouco desgostosos.

Em uma das noites da semana passada, cerca da meia noite, o rapaz acordou e achou-se só. Sua mulher deixara-o com o seu travesseiro.

Levantou-se, e, em resultado de desconfiança atrazada, ou por presentimento, foi encontrar a esposa em casa da Maria da Burra. Entretinham se as duas no mais inocente dos passatempos. A bruxa deitava as cartas. A outra seguia com anciedade o resultado d'aquella manobra feita pela bruxa.

O rapaz caiu ali como o espectro de Banquo na tragedia de Shakespeare. A esposa imprudente desmaiou; a bruxa fez uma carantonha de metter medo ao demo.

Madam Mim, The Sword in the Stone, Classic Disney, 1963.
Imagem: fanpop

Como, porém, a scena tivesse de ser um pouco mais real do que a que os nossos leitores teem visto no "Macbeth", não tardou em irromper o cachação, indo pelos ares as cartas, e fugindo a mulher do iracundo para casa de sua mãe, mas sem umas pulseiras e uns brincos de ouro, que desappareceram por artes de berliques e berloques. 

Madam Mim, The Sword in the Stone, Classic Disney, 1963.
Imagem: Tumblr

A bruxa fez o casamento e lá o desmanchou. É o — "coso e descoso para não estar ocioso". E, acrescenta o nosso informador — uma paga da bruxa aos beneficios que lhe tem feito a sua protectora! (1)


(1) Diário Illustrado, 6 de outubro 1884

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O pântano

DESSECAÇÃO DO PÂNTANO DO JUNCAL, FIXAÇÃO DAS DUNAS E ARBORIZAÇÃO DOS TERRENOS DA TRAFARIA E COSTA DE CAPARICA

Em virtude dos esforços do sr. Jayme da Costa Pinto esclarecido e zeloso representante às cortes pelo círculo de Almada trata-se de realizar, como já dissemos, este importante melhoramento de há muito reclamado.

De um relatório do senhor Henrique de Mendia, com grande senso scientifico e profundo conhecimento do assumpto, vamos extrahir alguns dados interessantes relativos a esses trabalhos.


Os terrenos a que nos referimos, occupam uma superficie de 1,800 hectares e constituem as dunas ou areias, moventes de Caparica, Valle de Trafaria e pantano do Juncal, o beneficio projectado é orçado em pouco mais de 58 contos ds réis. 

As dunas da costa de Caparica são constituídas par um trato de areias moveis limitadas pela Torre do Bugio, onde tem a sua menor largura, margem esquerda o Tejo, até próximo da povoaço da Trafaria, recurvando-se com a linha da costa banhada pelo oceano, estende-se para sul até ás proximidades da lagoa de Albufeira, tendo por limite para o interior das terras a base da escarpa e uns terrenos mal cultivados denominados a Charneca.

Costa da Caparica, ponte de madeira sobre a vala, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Não nos podemos eximir á satisfação do desejo de transcrever aqui as palavras eloquentes com que o sr. Henrique de Mendia descreve as condições de existencia na povoação da Costa:

"Não se descreve, diz o illustrado agrônomo, porque difficilmente se imagina o árido e desolador aspecto d'estes incultos areaes formados por uma infinidade de dunas de mediana altura em extremo moveis nos logares mais desguarnecidos da pobre é dispersa vegetação rasteira, que n'outros pontos existe com proveito e castigados por um sol ardente que se reffecte e espelha de continuo na silica brilhante.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
(sondada e rectificada a margem sul em 1879)

É esta a paisagem que o viajante descobre á entrada do nosso primeiro porto e da nossa primeira cidade, e é n'este meio que existe uma povoação de muitas almas, acossada pelas areias que procuram de continuo atacar-lhe as trincheiras rudemente defendidas, sem uma estrada regular, que a ponha em eommunicação com os logares populosos, tendo no mar o seu quasi exclusivo sustento, procurado á custa de heroicos esforços tantas vezes impotentes e nas exhalações deletérias dos pantanos do Juncal o germen constante das febres paludosas de que annualmente enfermam familias inteiras.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Bem triste povoado e desgraçados habitantes que teem por unico abrigo a choupaqa de colmo, mais pobre do que  a cubata de negro, sem que ao menos encontrem na organisação d'este as forças indispensaveis para reagir e lutar contra os miasmas exhalados pelas águas estagnadas e putridas que os prostam ás vezes tão repentinamente como se um accidente os accommettera de imprevisto."

O sr. Henrique de Mendia considera a arborisação das dunas cuja supercie se avalia em cerca de 1,400 hectares como o unico meio de melhorar as más condições d'aquelle trato de terreno.

Trafaria — Valla e estrada da Costa.
Delcampe

Como a verba mais importante n'este revestimento dé terrenos é o transporte do matto para cobrir as sementeiras, lembrou-se o illustre agronomo de substituir o transporte do matto dos Pinhaes do Conde dos Arcos e Caparica cuja verba não seria inferior a 2$400 rs. por hectare de sementeira pelo transporte fluvial da Matta da Machada e de Valle de Zebro á Trafaria, ficando assim o custo médio da carrada por 630 rs. em vez de 2$400 réis e portanto o hectare por 50$400 réis, verba á qual adicionando-se outras despesas, guarda do terreno, etc se eleva apenas a 66$000 réis.

A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Calculando o terreno a cobrir êm 900 hectares em consequencia de se deixar 500 hectares para logradouro dá povoaçao, facha de resguardo, zona invadida pelo oceano, etc. a importancia total do revestimento das dunas, sem duvida um dos mais urgentes e uteis melhoramentos do nosso porto, fica em 52:800$000. Ao sr. Henrique de Mendia cabem bem merecidos encomios pelo modo intelligente e economico como indica a realisação d'esse melhoramento.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

O valle areiado da Trafaria passa próximo de Murfacem, toca na costa do Cão e estende-se além de Pera, mede 2 kilometros de extensão sobre 300 metros de largura media, o que dá 80 hectares de superficie. As obras indicadas são, além da sementeira, uma boa e bem construida sebe de defesa na linha de incidência dos ventos reinantes o alguns abrigos internos de mais ligeira construcção entrecrusadas de espaço a espaço, orçadas importancia de réis 3:600$000.

Uma superfície de 30 a 40 hectares, que rodeia a povoação da costa e fica encravada entre as dunas da costa de Caparica e a Charneca é constituida por terrenos alagados, conhecidos pelo nome de Juncal, denomipação proveniente da abundância de juncos, que ali crescem. 

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1940 (?).
Imagem: Delcampe - Oliveira

Esse pântano alimenta-se das águas pluviaes e do oceano; que por vezes irrompe atravez das areias, depositando ali as suas águas, que ali fjcam represadas por falta de escoantes, em consequencia do nivel do terreno ser inferior ao do oceano. Esta mistura e estagnação produzem miasmas deleterios, ainda mesmo no inverno.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Para combater estas condições são indicadas as vallas profundas e bem orientadas e uma plantação bem dirigida do encalyptus globolus, arvore de grande poder esgotante e de efficasissimas propriedades hygienicas, estas arvores serão no numero de 39,990 o as vallas occuparão 2,000 metros correnles. 

Costa da Caparica, acesso à Via-Rápida,década de 1960.
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

A despeza total para a dessecação e plantação do pântano do Juncal, incluindo o ordenado do guarda no 1.° anno, está calculada em 2:586$900 réis.


(1) Artigo original de Gervásio Lobato publicado no Diário de Notícias e republicado em A Realeza, de Duarte Joaquim Vieira Júnior, edição 1 de de 2 de setembro de 1882, e no Diário de Belém, edição de 3 de outubro de 1882.

Artigos relacionados:
O Juncal
A costa no século XIX
Mata do Estado e Quinta de Santo António


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Material vegetal da Margem Sul do Tejo: da Costa de Caparica até ao Seixal