quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Corrida de laços

N'estes dias de verão o Tejo é lindo; o sol faisca nas suas aguas, as margens parecem reverdecer e toda essa encantadora bahia do Alfeite de areias de ouro abre-se maravilhosamente á nossa vista, deixando vêr o fundo magestoso dos pinhaes, os torcicolos dos canaes a scenographia dos montes, erguidos sob a limpidez do céo. 

A pitoresca entrada do Alfeite do lado do rio, 1913.
Imagem: Hemeroteca Digital

Pelas tardes a aragem é branda e apetece navegar no rio para ir descançar um pouco na quinta do Alfeite.

O desembarque no cais do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi um passeio que a Associação Naval realisou com os seus magnificos barcos acompanhados pelo "Alcochete" onde iam as senhoras das familias dos socios emquanto os habeis remadores conduziam velozmente as suas embarcações.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Fizeram-se as provas do programma com os seguintes resultados: outriggers foi ganho pelo Douro; inriggers pelo Rio Minho. 

Na quinta do Alfeite. A partida para a corrida dos laços, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na corrida de laços ganharam a sr.a D. Maria Madeira e o sr. Alberto Madeira na de velocidade D. Henriqueta Clinton, na mixta miss Shirely e o sr. Henrique d'Aragão.

Os divertimentos na quinta do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O passeio ao Alfeite do sócios da Associação Naval, Illustração Portugueza n.° 280, Lisboa, 3 julho 1911

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O canto dos pescadores do Tejo

Pescalio, Marino, Alcam.

O Mês de Março, natureza morta com peixes e mariscos, Josefa d'Óbidos, 1668.
Imagem: Saberes cruzados

Pescalio.

Marino, he tempo já de hirmos alçando
A pezada fateixa, e as brancas vellas
Hirmos das pardas cordas dezatando.
Já do Ceo dezertarão as Estrellas,
Mas tremólão as ondas, pulão vivas
As bogas cor de prata á tona dellas.
Não ferão hoje as oras tão esquivas,
Que colhamos a rede apanhadora,
Toda prenhe de pedras só nocivas,
Empurra tu a Lancha para fora;
Que eu de huma, e outra banda o leme engasto.
Ajuda tu, Alcão: carrega agora.
Já lhe podes metter o leme gasto:
Vamos saindo, e lá em mais altura
Accenderemos fogo ao pé do masto.
Que manhã tão gentil! Tao fresca, e pura!
Ah! Em quanto não somos sobre a costa,
Vejamos quem melhor no canto atura.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Marino.

Pelo teu gosto estou, mas sem aposta;
Canta tu lá conforme o teu dezejo,
Que eu só canto de quem minha alma gosta.

Alcam.

Pois cantem ambos, que eu a escota rejo.

Marino.

Inda que eu sobre as ondas fui creado.
Que do fruto das ondas me sustento;
Suspiro pelo campo apaixonado
Qual nossa embarcação pelo bom vento:
Só fobre o campo verde, e matizado
Com alegria os olhos apascento:
Só sobre elle he que eu vi o rosto bello,
De Filiz, porquem tanto me disvello.

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Pescalio.

Eu do campo nao quero as alegrias:
Nao quero as faces ver de neve pura.
Só quero ver das nossas margens frias.
As almas todas cheias de candura:
São melhores no mar as calmarias;
Que as virações rizonhas na espessura:
Mais que o Xerne, ou Corvina á molle Arraia,
Excede em tudo ao campo a nossa praia.

Marino.

Apascentar n'hum dia de deleite
Os olhos por hum prado verdejante;
Ver mulgir no curral o branco leite,
Dentro do grosso tarro fumegante:
Ver urdir a Pastora sem emfeite
A grinalda purpúrea , e alvejante;
Nada, nada produz tamanho gosto,
Como de Filiz ver o bello rosto.

Ai credo!, José Malhoa, 1923.
Imagem: borboletanaflor

Pescalio.

Undilia, a minha Undilia he mais formoza,
Que a Lua, e os Salmonetes encarnados:
A viração travessa, e preguiçoza
Vence no doce rizo, e nos agrados:
Por sua trança de oiro bulliçoza
Se ição loucos dezejos namorados;
Mas Undilia tao meiga como altiva,
Só tem hum Pescador; e os mais esquiva.

Marino.

Quando Filiz dezata a voz do peito
Ao tom de sua lyra torneada,
Se obferva o Cordeirinho satisfeito
C'o a relva sobre a boca pendurada:
O negrume do Ceo foge desfeito:
Perde o Sul a braveza de nodada.
Que sentirá por ella quem a adora
Com todo o excesso d'alma, auzente a chora?

Pescalio.

Huma manhã, que o vento furiozo
As Lanchas todas destroçar queria;
Que o trovão rebentando estrepitozo,
As mesmas rochas abalar fazia;
N'hum canto rogativo, e ferverozo
Rompeo Undilia a santa melodia.
Eis que morre o temporal tão carrancudo:
Mostra-fe o Ceo rizonho, o vento mudo.

Marino.

Se eu fem lezão das pedras para fóra
Arranco os caranguejos esquinados:
Se encho de mixilhões a qualquer ora
Fundos cestos de vime acugulados:
He só porque me lembro, alva Pastora,
Do influxo de teus dons acryzolados.
Sobre mim elles pódem mais por certo,
Que as Eftrellas do Olympo defcoberto.

Pescalio.

Se sendo Arrais da Lancha, eu a governo
Sem perigo das ondas espumantes:
Se eu tanto no Verão, como no Inverno
Advinho as tempestades innundantes:
Tudo devo ao poder invicto, e terno
De teus volúveis olhos faiscantes.
Por teus olhos, e face pudibunda
Se adorna o dia, o campo se fecunda.

Marino.

He tal minha paixão, e meu extremo
Por tua voz, e angélico semblante.
Que na auzencia de ti ás vezes temo
Cahir dentro nas agoas delirante.
Saudozo os braços cruzo fobre o remo.
Sobre o Ceo fito os olhos palpitante:
A pésca me enfastia, e aos outros rogo,
Que buscamos sem mais o porto logo.

Cecília, Henrique Pousão, 1882.
Imagem: Wikiwand

Pescalio.

He tal o meu amor o meu dezejo
Por teu rosto, oh Undilia appetecida,
Que se ao levar do Cáis eu te naò vejo,
Me agoiro sorte má na nossa lida.
Sem alguma esperança arrojo ao Tejo
Apoz huma outra rede entertecida.
Sem fé as dezenvolvo, porque caia
O pobre, ou rico lanço sobre a praia.

Marino.

Os dons do nosso trafego, Pastora,
Nao são dignos da tua gentileza;
Por isso de te dar nao ouzo agora
Quantos da minha conta forem preza.
Como vives no campo, os dons de Flora
Para ti só escolho por fineza,
Nao te darei maryscos, Peixes muitos:
Más ricos ramalhetes, ricos fruitos.

Pescalio.

Offertar-te nao posso os brandos véllos;
Os Cabritinhos tenros e balantes;
Nem os frutos rozados, e amarellos.
Os roxos cravos, os jafmins fragantes:
Mas posso-te offertar os peixes bellos,
Os Camarões, e as ostras gotejantes.
Os reconcavos búzios gritadores,
As conchinhas que brotao resplendores.

Marino.

Aviza-me, oh Pastora moça, e bella,
Quando a tua lavoira principia;
Quando a espiga desfolhas amarela,
Quando cuidas na cresta, e na tosquia;
Que eu hirei ajudar-te a toda ella
Sem mais premio, que a tua companhia.
Corresponde-me tu, qual te eu mereço,
Que eu do barco, e de tudo me despeço.

Cócegas, José Malhoa, 1904.
Imagem: Wikimédia

Pescalio.

Vem ver, loira Undilia, Mãe das graças,
Pular na area os peixes nadadores:
Comigo desprender as verdes naças;
Puxar pelos anzoes enganadores:
Vem alegre, não sejão tão escaças
Tuas feições c'os pobres Pescadores.
Tú mesma tirarás daquellas grutas,
Hum cestinho de amêijoas bem emxutas.

Marino.

Todo absorto de amor sincero, e grato,
Por, meu Bem tao honesto, e perigrino,
Eu juro fazer troca deste trato
Pelo trato Serrano, e Campuzino.
Antes viver com Filiz só n'hum mato,
Que com muitas no trafego marino.
Antes de Filiz huma graça pura
Que das bordas domar toda a ternura.

Pescalio.

Amar sempre esta vida Piscatoria
Por ti, oh meiga Undilia, eu firme juro.
Só c'o teu nome impresso na memoria
O norte crestador sem damno aturo.
Cantando encho os Tristões de assombro, e gloria
Em quanto corto o mar c'o remo duro.
E assim (sabe o Ceo!) talvez nao fora,
Se amara lá no campo huma Pastora.

Vista da Torre de Belém em LIsboa, Jean-Baptiste van Moer, 1868.
Imagem: Sotheby's.

Alcam.

Tendes ambos de amor mui bem cantado:
Mas vamos o aparelho já dispondo,
De forte que fiquemos pouco a nado.
Eu daqui c'o esta vara a rocha fondo:
Nelle o peixe se acolhe com o frio:


Armemos-lhe hum tresmalho de redondo.
Neste canto o bom Sável, o Safio,
O gordo Xerne abunda de maneira,
Que á mão mesmo se apanhão, muito a fio,
O ponto he, que ajudar-nos o Céo queira.


Disse. (1)


(1) Égloga [Écloga] piscatória, O canto dos pescadores do Tejo, Lisboa, na officina de António Gomes, 1811

Leitura complementar:

Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa, Égloga [Écloga] piscatória, Lisboa, officina de Simão Thadeo Ferreira, 1787
Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa TomoII, Lisboa, Regia Officina Typographica, 1789

Sobre Fr. Francisco Pedro Busse:
A parenética franciscana ao serviço da Monarquia por ocasião do nascimento de D. Maria Teresa de Bragança (1793)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Persistência da memória

Estamos a 24 de setembro de 1831. É noite. A lua em todo o seu esplendor illumina a praia do Caramujo, que se estende por detrás da longa fileira das casas que formam a povoação.

Persistência da memória, Salvador Dali 1931.
Imagem: WikiArt

Da esquerda o quadro vae terminar no agudo Pontal de Cacilhas.

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da direita vê-se a meio da praia a pequena ponte que dá facil desembarque para os armazens de vinhos;

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

mais além ainda a praia e os rochedos, depois o terreno encurva-se, e apresenta a vista, como um alvo lançol, o estabelecimento de Valle de Zebro, e mais em distancia as casinhas do Barreiro, como outros tantos pontos esbranquiçados sobre o fundo escuro do horisonte.

Memória, René Magritte, 1948.
Imagem: WikiArt

A noite está serena. O silencio é apenas interrompido pelo ruido das vagas, que magestosamente se desenrolam na areia.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Quem áquella hora e com aquelle luar escutasse o rouco marulho do patrio Tejo, facilmente imaginaria a voz de um velho acalentando uma creança.

A desintegração da persistência da memória, Salvador Dali, 1954.
Imagem: WikiArt

Mais perto percebe-se que ao rumor das aguas se reune o vozear baixo e entrecortado, que sae de um pequeno grupo de pessoas sentadas á porta do pateo da tanoaria de Jeronymo.


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Líricas de Melodino

Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666)

Em 19 de Novembro de 1644, quando tudo parecia sorrir-lhe, é preso como suposto instigador dum crime de homicídio. Um tal Francisco Cardoso tivera relações amorosas com a mulher dum criado de D. Francisco Manuel, chamado João Vicente, a quem o escritor havia despedido. Cardoso é assassinado, e dois dos criminosos declararam que tinham perpetuado o crime por mandado de D. Francisco Manuel. Preso a pedido do pai do morto, foi D. Francisco encerrado no Castelo, donde depois o transferiram para a Torre de Belém, e mais tarde para a Torre Velha, na margem esquerda do Tejo.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

O juiz dos Cavaleiros condena-o a degredo perpétuo para a Africa. Na segunda instância, é condenado a degredo, mas para a Índia e com privação duma Comenda que lhe havia sido concedida. A terceira instancia mantém o degredo, mas para o Brasil (1650).

Esta sentença só foi mandada executar em 1652, mas só passados mais três anos é que D. Francisco segue para o exílio. Era em 1655, onze anos depois da prisão [...] (1)

De consoada a uma S. P. [F. P. no original]:

Que vos hei de mandar de Caparica,
de que vós, prima, não façais esgares?
Porque de graças e benções aos pares,
disso, graças a Deus, sois vós bem rica...

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Mel e açúcar? São cousas de botica.
Coscorões? São piores que folares.
Perus? Não, que são pássaros vulgares.
Porco? Só de o dizer nojo me fica,

Mandara-vos o sol, se desta cova
m'o deixaram tomar; mas é fechada
e inda o é mais para mi a rua nova.

Pois, se há de ser de nada a consoada,
mandar-vos hei sequer, prima, esta trova,
que o mesmo vem a ser que não ser nada.

Responde a um amigo [...]:

Casinha desprezível, mal forrada,
furna lá dentro, mais que inferno escura;
fresta pequena ; grade bem segura;
porta só para entrar, logo fechada;

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

cama que é potro; mesa destroncada;
pulga que por picar faz matadura;
cão só para agourar ; rato que fura;
candeia nem co'os dedos atiçada;

grilhão, que vos assusta eternamente;
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;

sem amor, sem amigo, sem parente,
quem mais se doi de vós diz : — "Coutadinho"
Tal vida levo. Santo prol me faça. (2)

Desgraça, enveja de tudo:

Junto do manso Tejo, que corria
para o mar que nos braços o esperava,
jaz um pastor, que no semblante dava
mostras da dor que o coração cobria.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710


Falava o gesto quanto n'alma havia,
que quiçá por ser muito ela o calava;
mas, vencido do mal que o atormentava,
sem licença do mal assi dizia:

Cidade e Castelo de Bellisle [Belém, ilhéu] no rio Tejo; o palácio do rei; Lisboa está atrás deste ponto.
John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Corre alegre e soberbo, ó doce Tejo,
pois vives sem fortuna, de que esperes
que encaminhe teu passo a teu desejo.

Vás e tornas é irás como vieres.
Ditoso tu, que vês o que eu não vejo;
ditoso tu, que vás adonde queres" (3)


(1) Melo, Francisco Manuel de, O Poeta Melodino, Porto, Companhia Portuguesa Editora, 1921
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras de Francisco Manuel de Melo

sábado, 6 de fevereiro de 2016

La Paloma

Mãe e filha vieram de Peniche e viviam ali num barracão, paredes meias com a fábrica, talvez uma dezena de operárias, encamadas naquele exíguo pardieiro, como sardinhas em lata [...] (1)

Cais do Ginjal (detalhe), Julio Diniz, década de 1960.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Agora, o apito da fábrica de conservas berrou duas, três vezes, e prolongou-se indefinidamente. Estão a chamar mulheres! exclamaram todos. No rio, aproximava-se um alegre cortejo fluvial. Um gasolina rebocava um buque na direcção do cais e o tombadilho da embarcação vinha berrante de varinas. Um tecto branco de gaivotas sobrevoava o barco, com estridentes pios de gula.

Cais do Ginjal. Embarcações na praia das lavadeiras, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

A miudagem pulou de gáudio. Vestiram-se os que a briga atrasara. Chico Trinta botou aviso: 
— Cada um par seu lado! Nada de ajuntamentos!

Outros rapazes, mais espigados surdiram da garganta da rocha. Chegavam também as primeiras mulheres ao chamamento sôfrego da fábrica. Próximo de terra, o gasolina singrou numa elegante curva e o homem do linguete soltou o cabo de reboque deixando vir o buque a navegar para o cais.

Cais do Ginjal e fábrica La Paloma, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já o gasolina se afasta, veloz, ante as chalaças dos poucos tripulantes, que não poupam as varinas.
— Ó lindeza! Logo vou lá bater ao ferrolho, ouviste?
— Olha, bate com os cornos!...
Perde-se a réplica, mas há ainda novos gracejos.

A embarcação aborda a terra e saltam os tripulantes. As varinas trazem as canastras. Os marítimos encamisados de flanelas berrantes arrastam saveiros de borracha, de canos a roçagar pelas virilhas. Pessoal gingão, metediço e reinadio. Num voltar de braços, as mulheres estendem a lona na canastra e botam-nas à cabeça.

Ti Maria Lancha, capataza veterana, deu o primeiro berro — a primeira ordem:
— Ó gente, vamos ao sal!
Três estivadores despiram as calças e arregaçaram as ceroulas acima das coxas. Calças, casacos e saveiros foram unidos em froixa, que se acomodou num forro da vela.

Abre-se o porão duas portas pesadonas, que tombaram, uma para bombordo e outra para estibordo e a sardinha, um chão de prata, brilhou para o cais, atiçando a gula das gaivotas e do rapazio.

Alfredo ouviu que o chamavam. Na escadaria da fábrica, enxergou a mãe debruçada, com o braço a acenar.
— Senhora!?
— Vai pra Almada, não ouves!? Eu fico na fábrica a trabalhar! O teu pai larga às cinco e quer-te ver ao pé de casa!...
Já vou...

La Paloma, conservas de peixe, anúncio de 1947.
Imagem: Elisabete Gonçalves, Memórias do Ginjal.

As fabricantas, apressadas, iam entrando. E, quando alguma parava e impedia caminho, sofria empurrões e apupos:
— Sobe, Gracinda! Deixa, que o teu rapaz não entra em casa com as mãos a abanar!

A mulher de Leonel não gostou da piada... mas só lhes resmungou a resposta sob os tectos fabris.

Outras e outras se seguiram, escada acima: raparigada nova, de seios a tremelicarem sob as blusas; mulheres gastas, de mau passadio, roto e trajar sem cuidados; e ainda uma cauda molengona de velhas rugosas e ossudas.

Sumidas as últimas entre umbrais, o apito cessou de berrar, enfim. Sobre o cais, numa pressa, concluiu-se a moira, canastras de sal vazadas no porão, juntamente com baldes de água arrancados ao rio.

Depois, um dos homens veio para a muralha, outro ficou no tombadilho e o terceiro alojou-se no porão, mergulhando as pernas no peixe.

Ti Maria Lancha, a capataza, ainda não parou de berrar:
— Vamos a isto, ó gente! Ai, que estamos desgraçadas! Quem não pode, arreia!

Descarga e lavagem do peixe, ed. Martins/Martins & Silva, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É uma velha alta, seca, tez acobreada por muitos sóis, e a sua boca desdentada treme, sobre o queixo, ao peso de muitas pragas:
— Ó Rita, tu hoje andas na avenida ou quê? Por esse andar, temos buque inté à noite!

O Zé Lula, um apanhador de cabazes, de nariz arrebitado, olhos à china, tem as pernas mergulhadas no mar de peixe do porão. As suas mãos não param: mergulham os catitas de verga e retiram-nos pejados de sardinha, a escorrer de moira.

Arremessado o cesto, este viaja, num curto voo, até às mãos do camarada do tombadilho. É posse que só dura um novo balanço, pois o cesto logo sobe em voo mais longo, até que o terceiro apanhador, que mãos! o capta com perícia de malabarista.

A borda do cais está uma barrica de pé. Sobre o tampo, as varinas, uma a uma, assentam canastras, que recebem peixe. Canastra cheia canastra à cabeça. Outra varina toma a vez...
— Então, Emilia, o teu homem já voltou à estiva? Isso voltou ele... Aquilo foi trambolhão maldito, pancada ruim...

As mulheres sucedem-se. Num vaivém fatigante, o trajecto da muralha ao primeiro andar da fábrica é calcorriado com frenesi. Na lama do caminho ficam moldados os pés, muitos pés: largos, sapudos, dedos espalmados, quase primitivos.

A Varina, Ilustração Portugueza, 2.aSérie n.a 339, 19 de agosto de 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Canastra à cabeça, tronco vertical, um braço amparando a carga e o outro aos sacões balanceados da correria.

Quadris bailões, safam, em passadas curtas, as pernas raiadas de varizes. Escorre a moira pelas roupas — e o ar, ao secá-las, deixa manchas brancas de sal.

A boca, num ricto doloroso, cospe baba e dichotes aos metediços.
— Arreda, lingrinhas!...
Os olhos encovados da capataza não perdem as manobras do rapazio.

Ela bem os topa, sorrateiros, um aqui,outro acolá, gancheta de arame rapinando o peixe das canastras.
— Ó Irene, dá uma porrada nesse canalha!
Três, quatro sardinhas são apanhadas do chão, e o fedelho esgueira-se para novo couto.

O guarda-fiscal desafivela o cinturão e aguarda nova oportunidade...
— Arraúl, quantas?
— Quase um quarteirão! E tu, pá?
— Ela por ela...

Chico Trinta a todos ultrapassa na colheita. Para cima de um cento! E quase sem se ralar e expor...

Albaneco morde-se de inveja. Ele não pode ver a varina fazer o jeito ao companheiro... Barafusta, intromete-se, torna-se abelhudo e embirrante.

Maria do Carmo é a mais linda rapariga da descarga; mas, para todos, e só a Carmo. Carita oval, olhos negros, cintura de cabaça e perna airosa. Todo o rapazio a nota à chegada e à partida: "Ainda não está a Carmo..." ou: "A Carmo já abalou..."

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Quando calha também, Ti Maria Lancha não a poupa de responsos, o que faz a varinita perder a estribeira... Arremeda, resmunga — e vinga-se logo, inclinando a canastra...
— Apanha, Chico!...

Varinas e pessoal do cais namoravam-se sempre. O peixe os punha frente a frente, a meter braços à descarga, a enleá-los naquele clima franco e rude. 

Cedo os catraios volviam olhos de admiração para as mulheres da descarga: decoravam-lhes os nomes, ofereciam-lhes os seus préstimos e sorrisos.

Sophia Loren, Agnès Varda, 1956.
Imagem: Pinterest

Assim nasciam simpatias, amizades que o tempo arraigaria no sangue, ao calor de uma certeza:

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, 1954.
Imagem: almanaque silva

— "Não há mulher prà ajudar um homem como uma varina!" (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Leitura adicional:
Les conserves de sardines à l’huile, ou le luxe français sur les grandes tables du monde

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Nas arribas do mar

Na margem esquerda, encontra-se a modesta estação da Trafaria, ao mesmo tempo povoação de pescadores. Bulhão Pato, que habita perto d'ahi, em Caparica, dá-nos uma viva descrição de uma pesca de sardinha, cheia de pitoresco local. (1)

O poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Há dias, abrindo o jornal — "A Caça" — deparou-se-me um artigo intitulado: Législation sur la chasse. Dizia: ..."Je revois encore les dunes sauvages qui s’étendent de Trafaria à Costa, où j’ai fait ma première chasse avec Bulhão Pato; les rizières et les côtes boisées du vallon d’Apostiça, etc."

O artigo era de Sampayo Osborne, que esteve em Portugal cerca de 25 annos; rapaz muito intelligente, illustrado, da família do conde da Povoa e primo da casa Palmella.

Caçador de sangue. Um desastre varou-lhe com um tiro, em França, uma das mãos, não sei se a direita, se a esquerda. Continuou, apesar d'isso, a ser espingarda de primeira ordem e, o que é mais, ao piano primoroso artista.

Durante largo tempo bateu as tapadas e montados com os reis do throno e os reis da caça. É provável que não o torne mais a vêr. D'aqui lhe envio um cordial e saudoso aperto de mão.

Em 1859 José Augusto Sacotto Galache e eu principiámos as nossas caçadas no Juncal da Costa. Pelas arribas as perdizes saltavam aos bandos; na planura as codornizes, as narcejas e outra caça de arribação abundantíssima. Vivíamos em Buenos-Ayres [à Lapa, Lisboa].

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica,
George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Sotheby's

No inverno, noite ainda, Lourenço da Pinha estava no caes de José António Pereira [freg. de Santos-o-Velho, anterior ao aterro da Boavista, actual Beco da Galheta], com os seus três filhos: o mais velho José, o segundo João, o terceiro Francisco, este muito mocinho ainda para as fainas da travessia do Tejo, às vezes bravias. 

É piloto da Barra há já muitos annos. Lourenço da Pinha nascera em Olhão, terra de marítimos, que folgam com o esbravejar das ondas como as aves marinhas.

Moço, veio para Belem e, ora com a mão no leme e na escota, ora no punho do remo, sempre de ânimo folgazão, coartada pronta e verboso como algarvio, lá foi mareando o barco, sustentando a mulher e criando os filhos.

Torre de Belém,
Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

Morreu há bastantes annos, mas por todo o bairro de Belem e por todo este almaraz lhe relembram o nome honrado e benquisto.

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Valle de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. 

A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Sant'Anna foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.

Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. 

Lisboa, Sol Nascente,
Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Tempo sêcco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:

— Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.

Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.

Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pae ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beiramar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. 

Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça.

Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num médão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

Entrámos na povoação. Tudo choças de colmo; muitas levantadas sobre o arcaboiço de um velho barco. 

Uma casa de um só andar, com armas reais, bojudas como o abdómen do ladino e bondoso monarca D. João VI, que foi alli por mais de uma vez. De pedra a cal meia dúzia de casitas mais, quando muito. 

Íamos andando por aquele labyrintho de cubatas e à porta de um ferrador demos com uma rapariguinha dos seus dez annos, de cara insinuante, vestido de chita, meias muito brancas, socos, cabello em trança e bem tratado.

— Ó pequena, olha lá. Haverá aqui alguma casa onde se possa ficar e se coma alguma coisa?

— Pois não há, meus senhores!... É a tia Maria Rita do Adrião — acrescentou, dando à sua voz crystallina certa expressão que indicava a grandeza da personagem a quem se referia.

Levou-nos à tia Maria, e tal foi o agasalho que por mais de trinta annos frequentei aquela casa com o melhor dos meus amigos. 

A Claudina, a rapariguita que fora a nossa salvação e a nossa guia, passados tempos casou e, já mãe de filhos, depois de eu estar n'este Monte, morreu, coitada, de uma pneumonia. 

Maria Rita do Adrião vive ainda; há dois annos que veio visitar-me, na sua burrita, muito lépida, com os seus noventa e três. 

Costa da Caparica,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Teve sempre boa estrella; até na sua visita a minha casa o azar apenas lhe deu um rebate falso. Quando voltava para a Costa perdeu um objecto de certo valor, creio que um brinco, que mão piedosa achou e foi logo anunciar no Século.

Caparica, convento de Santo António,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Depois de devorarmos o jantar e pelos barqueiros mandar aviso aos nossos, sol alto ainda, sahimos até à praia. Era véspera de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa annual da terra. 

Os habitantes é que estavam descoroçoados e tristes; a sardinha, a famosa sardinha da salga, não tinha dado nada ou quase nada. Mais uns dias de escassez e lá se iam as esperanças... o pão por muito tempo! 

Mar calmo. Na crista dos médãos, homens, mulheres, rapazes, mudos, immoveis, olhos cravados na companha, que lá muito ao largo vinha regressando. 

De manhã os alcatrazes [gansos-patola], de aza fechada, cahindo do alto como raios, picavam a flor das águas, indício de  grandes negras de sardinha. Pelo cariz do tempo, o lanço devia de ter sido grande. Chegaria a salvamento ou rebentaria o sacco?!

Silêncio profundo nos de mar e nos de terra. O silêncio é signal certo de grande preoccupação de espírito nos moradores de povoações marítimas, tão vivos e loquazes.

Ao rés do mar grandes grupos moviam-se visivelmente inquietos. Com o sol, que já no ponente batia o areal, aquelas figuras pareciam tomar proporções gigantescas, cingidas de nimbos de oiro. 

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, as montanhas, o mar, as soberbas e solemnes paizagens, em vez de apoucarem o homem, engrandecem-no. 

Numa linha de fortificações ondulada de montes e crespa de píncaros, antes de romper o assalto, os ajudantes-de-ordens, cruzando-se na carreira, a dois exércitos podem afigurar-se hipogrifos phantasiados pela veia fecunda de Boiardo ou de Ariosto [in Orlando Innamorato e Orlando Furioso resp.].

A paizagem parece dar e receber, às vezes, commoções trágicas. O facto é que exerce nos espíritos acção profunda, embora ignota. Uma tempestade, nas serranias ou no oceano, improvisa heroes, como os relâmpagos das espadas e o trovão das baterias no campo da batalha.

À beira de água principiou a correr um torvelinho, levantando pyramides de areia. De repente uma lufada súbita correu violenta.

Os prodromos do furacão têm rugidos dolorosos como os do leão na entrada da febre. Daria numa tempestade? Quantos corações ficaram apavorados em tal momento!

Os barcos aproximaram-se de terra. A multidão silenciosa. A vaga alta como de mar movido ao longe, embora não arrebatada. Num ai tudo salvo ou tudo perdido!

O sacco... a montanha de prata, estava a salvamento na praia. Raros olhos ficariam enxutos vendo rebentar a alegria d'aquelle povo!

Costa da Caparica, Praia do Sol, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, disco de fogo, tocava a superfície das águas, que serenavam, passada a borrasca ephemera, permitindo que olhos humanos se cravassem no seu ocaso esplêndido.

Em breve a linha arenosa e já desmaiada, que segue até o Cabo, a bahia de Cascais, os picos de Cintra, os montes e povoações do norte, o Tejo dormente, desvaneciam-se no breve crepusculo das tardes de inverno.

O pharol do Espichel, girando as suas aspas de fogo intermittentes, parecia abrir sulcos luminosos pelo mar levemente enrugado. 

Bugio e São Julião accendiam-se. As estrellas estremeciam no firmamento límpido. Noite coroada de lumes.

Bugio e Forte de São Julião da Barra.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A aragem era um alento virgínio, e a vaga na praia um suspiro amoroso. As redes voltaram ao mar. A companha bradou a uma voz:

Bulhão Pato,
Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

— Avé, Maria puríssima! (2)



(1) Teixeira Judice, Antonio Arroyo, Notas sobre Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1894


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