sábado, 5 de março de 2016

O retiro de um velho romântico

Cansado das mocadas que entre si distribuía a turba sertaneja, que em procissão, às vezes, recorria à minha agulha de sutura, procurei regressar à Arte consoladora [...] (1)

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar.

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos "Maias" [Tomás de Alencar — o que motivou que Bulhão Pato escrevesse as sátiras "O Grande Maia"  em 1888 e "Lázaro Cônsul" em 1889], 

Eça de Queiroz "In memoriam" (excerto), organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha.
Imagem: Internet Archive

e digo compôs porque depois de conversado e convivido, Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares.

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés.

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Amimado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Real Palácio da Ajuda, ed. Tabacaria Costa, 901, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também [1847-1848], que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1847-1848:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do "Se coras, não conto". É que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só.

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas "Memórias", apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas.

Assim, o autor da "Historia de Portugal", que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; — "o mestre já conhece esta" — Herculano esfregava as mãos e dizia: — "conte, conte, as experimentadas são as melhores." Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas.

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista [Wenceslau] Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!" — Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. Duma vez, estava um "clergiman" a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas.

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bu- lhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: — "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?" — Pato saiu á pressa da igreja.

Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral [agosto de 1850], denominada já nesse tempo "lei das rolhas". E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara.

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: — Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato. E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes.

Dahi, as figuras das suas "Memorias", pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista. 

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

A agudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia. 

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e "souteneur" de uma senhora da sociedade.

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa.

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: — "O bom filho a casa torna..." — Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e diz-me com os olhos brilhantes: — "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: — "Traição!" — É demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: — "Venha! Temos pescada do alto." — Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinha um gosto de pederneira [muito mineral], vinho já cantado por Gil Vicente e Camões [Convite que fez Camões em Goa a alguns Fidalgos]:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta ,
E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: — "Vocês comem, mas nem palavra." — Eu um dia respondi: — "A commoção embarga-me a voz!" — ao que outro replicou: — "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas..."

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo. Augusto Gil, Manuel Monteiro. Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: "Cacei hoje uma gallinhola!" — E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação. Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) Paulo Braga, João Barreira, o Escritor, o Professor e o Artista, Jornal da Régua, 27 de Dezembro de 1936
cf. Catarina Fernandes Barreira
(2) Dr. João Barreira, O retiro de um velho romântico

quinta-feira, 3 de março de 2016

Mais lindas que a luz do sol

Fedelha, rabejou pela areia, a mastigar broa e peixe, endureceu para mil inclemências. 

Aspecto do bairro piscatório da Costa da Caparica (detalhe), 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Nos verdes anos, fora delgadinha como junco, uma trança a roçagar pela anca, seios duros que a impediam de debruçar-se, no enxergão.

Branquinhas, avaramente atafulhadas nos panos das saias, às suas pernas nem o rabo do olho do Bernardino lá trepara.

Vivia-se sob junco e colmo, tornavam-se fastios quando o peixe não andava de través, mas nem por isso a praia deixava de possuir moças mais lindas que a luz do sol...

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla (detalhe), 1922.
Imagem: CINE-PT CINEMA PORTUGUËS

Vira-te ao norte
eu estou viradinha ao sul...


Pelas rodas do S. Pedro, fogachos crepitavam noite adiante — e os olhos dos rapazes mordiam-nas de desejos...

o luxo das raparigas: 
saia branca e barra azul.

Então, um homem valia tanto como uma mulher: quando a possuía, ia tão inteirinho como ela...

Casamento aprazado tinha que se lhe dissesse. Não era qualquer catraio que suportava tão sério encargo. Se um rapaz "arreava" o dinheiro nas mãos da conversada, todo o mundo os considerava unidos para a vida e para a morte e só não se "amanhavam" os parvos...

Havia, então, um dia escolhido — o mais lindo na vida de uma rapariga de Caparica! — em que os dois abalavam cedinho para a Trafaria, metiam-se no vapor e iam fazer compras a Belém:

1 — cama
1 — colchão
1 — cobertor
1 — mala
6 — toalhas e...


uma peça de pano cru para lençóis, travesseiros e almofadas.

Era o dia mais feliz na vida de uma rapariga de Caparica! Nunca os olhos se mostravam tão brilhantes, a boca tão levada a sorrisos.

Recebia da casa paterna os arranjos de cozinha: fogareiro, tachos e talheres, e só mais tarde, quantas e quantas vezes já com filhos a gatinhar, o casal se metia a segunda despesa:

1 — lavatório
1 — mesa
6 — cadeiras de pinho.


E, assim, as moças casavam, enchiam-se de filhos, e punham-se umas caras de velhas...

A Praia do Sol, O mercado, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 109.
Imagem: Delcampe

Rapariga nã te cases
logra-te da boa-vida!


A boa-vida era ajudar a mãe em toda a lida caseira, calcorrear para a venda com a canastra à cabeça e pegar nos irmãos que so-bejam dos braços maternos!...

Eu já vi uma casada
chorando de arrepindida!


"É mentira! Chora-se por outros motivos: arrepindimento, não. O mar alguma vez já se arrepindeu de tar com a areia?! A áugua que escorre da rocha nã quis alguma vez esse caminho!? O corvo já pensou em trocar as suas penas negras par as brancas, da gaivota!?"

Pescadores e Varinas, Manuel Ribeiro de Pavia.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Também a ti Palmira nunca chorou de arrependida.

Somos varinas
vamos à praia... 


"Digo eu que o destino de cada um é coisa tão rigorosa pró rico como pró pobre... Tanto faz que uma alma chore baba e ranho, como não. A coisa tá só em cada um de nós poder adevinhá-lo... Atão é que se evitam muitas asneiras e desgostos! ..."

Costa da Caparica, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins, década de 1930.
Imagem: Fundação Portimagem

Os nossos homens
vêm cansados
vêm arribados
do alto mar... (1)



(1) Romeu Correia, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

El Heraldo de Madrid

Às duas da tarde, aguentado um sol que emanava chispas, que era capaz, pela sua intensidade, de levantar erupções na pele, aproximei-me da estação de onde partem os Vapores Lisbonenses no Cais do Sodré.

Embarque na ponte dos Vapores Lisbonenses, fotografia de Joshua Benoliel (1873-1972).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já embarcado, recordava-me de sensações análogas de júbilo dos sentidos, experimentadas ao atravessar em semelhantes barcos o porto de Havana ou a baía de Nova York. Transportava-me mentalmente sobretudo às paragens de Cuba, de luz tão intensa, tão tremendamente intensa, que deslumbra e cega. Lisboa tem um céu de Cuba, um céu dos trópicos.

Parte-se do Cais do Sodré e atravessa-se o Tejo, o rio Tejo, que ao desembocar no oceano forma o radiante porto de Lisboa. Conforme vamos avançando no vaporzinho vou descobrindo as belezas sem par desta capital.

Adamastor, cruzador da Armada Real Portuguesa.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Passo junto aos navios de guerra amarrados no porto, os pequenos, porém gentis e novos cruzadores que se chamam D. Carlos, D. Amélia S. Gabriel, a canhoeira Pátria, feita pela subscrição dos portugueses no Brasil quando do ultimato de Inglaterra com motivo no conflito colonial em África, o torpedeiro Tejo, que é um interessante modelo no seu género.

Dom Carlos I, cruzador da Armada Real Portuguesa
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Passo pelo meio de navios mercantes de diferentes nacionalidades, e nenhum de Espanha. Neste porto não se vê mais que raramente a nossa bandeira, não obstante sermos vizinhos e cantar-se a cada momento em Espanha e Portugal a necessidade de comunicação de almas e interesses.

À medida que o vaporzinho se distancia de Lisboa, a cidade toda inteira aparece a meus olhos, fica um pouco na sombra comparada com a luz que nos banha e nos inunda. E como fica na sombra, posso observá-la melhor mais consciente e a meu gosto.

Vejo a Praça do Comércio, vulgarmente conhecida com o nome de Terreiro do Paço. Foi construída depois do tremor de terra de 1755. É quadrada, ampla, vastissina, plantada de árvores e cheia de edifícios com aparência monumental, a Bolsa, o Tribunal de Cassação, a Casa dos Correios. 

Praça do Comércio vista do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Ao centro destaca-se a estátua equestre do Rei D. José I, e, abaixo da estátua, um medalhão com o busto do Marquês de Pombal. Há que esperar que algum dia a história  realize um acto de justiça e o símbolo régio desça e o grande estadista Pombal suba às altura, alturas dignas de sua fama e seus serviços à pátria.

Panorâmica da praça do Comércio e encosta do Castelo de São Jorge.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Desde o Tejo descobre-se bem a magnificência do arco da rua Augusta, e logo, por muito que a vista penetre pelo largo do Terreiro do Paço, os olhos não acertam em distinguir contornos e proporções. É um dédalo confuso de ruas, de grandes artérias, pelas quais desemboca na Praça do Comércio, e no porto, toda a vida da cidade.

Eu diria que vejo de um observatório marítimo, posto que está muito alto, Praça de D. Pedro ou Rossio, com o seu Teatro D. Maria, ainda que não mentisse, não poderia jurá-lo. O vaporzinho foi-se distanciando tanto, que tudo são massas confusas, indistintas, indeterminadas. Parecem-me os edifícios públicos, as igrejas e as casas, como se fossem matronas vestidas de branco e purpura, envoltas em seus panos esculturais, que se assomam para nos ver melhor por cima da varanda do porto.

E as matronas, ao assomarem-se, adotam posturas de deusas, avançam a passo, enviam-nos beijos, como se quisessem reter-nos, a fim que não abandonássemos a cidade formosa...

O vaporzinho chegou à outra margem do Tejo. 

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Amarra junto à costa, e num instante desembarcam todos os passageiros. Estamos em Cacilhas. É um lugar de casas muito brancas, limpo e puro, sem luxo; porém com todo o encanto de uma praia meridional bem ensolarada. Uma aglomerado de cocheiros disputa a honra de nos levar do pequeno lugar até acima, ao castelo de Almada ou ao palácio do Alfeite, ou à Cova da Piedade.

Começa um regateio curioso, e brigam entre si os cocheiros, porque todos nos querem conquistar. Por fim escolho um coche, e depois de arreados os cavalinhos pelo seu condutor, começam a subida da ingreme encosta.

Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Acima, no castelo de Almada o panorama é maravilhoso. Volto a distinguir os cruzadores, o torpedeiro e a canhoeira. Desde o castelo parecem muito mais pequenos do que realmente são. porém não me entretenho a fazer considerações sobre a frota de Portugal, porque recordo que no meu país andamos pouco mais ou menos pelo mesmo em matéria de esquadra.

Navios de guerra ingleses no Rio Tejo, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com a diferença que a nós nada nos protege as "costas", mesmo com os interesses que costuma cobrar a Inglaterra. (1)


(1) Luis Morote, El Heraldo de Madrid, 16/08/1904

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As meninas da Torre

À volta do leito do enfermo, não faltam os parentes — os sobrinhos o Rafael e o Nuno — ou os amigos que costumam acorrer ás alegres refeições. D. Maria Isabel Bernaud, que estivera de joelhos a chorar e orar, ergue-se cambaleante. Não pode mais. Aquela comédia da serenidade, quando o seu coração estala de dor, é mais forte do que as suas forças. 

A casa no Largo da Torre onde viveu Bulhão Pato, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

O médico, o dr. Pinto, empunha já a seringa. O doente, muito rouqueja. A injecção é por assim dizer um pró-forma ou destino de consciência. Mas, num subito clarão da sua portentosa natureza, o doente exclama, como se a sua voz viesse já de além tumulo:

— Ainda senti a picada!

Foram as suas ultimas palavras. D. Maria Isabel é empolgada pelos braços carinhosos dos amigos, principalmente os do afilhado, o António Maria Povas, a quem mais tarde deixará todos os bens do casal sem filhos.

D. Isabel Maria Bernaud.
Imagem: Hemeroteca Digital

Naquela madrugada de 24 de Agosto de 1912 já não se descerraram as janelas do prédio do lugar da Torre, a cerca de 200 ou 300 metros do Monte de Caparica. Também os olhos do autor de "O patilhão vermelho" ali escrito, e de "Sob os ciprestes", ali também gerado, não voltarão a abrir-se, a perscrutar a luz da vida. A da morte nunca lhe interessou. Não sendo religioso, nem acreditando na vida eterna, Bulhão Pato costumava comentar com ironia, ao apontar com a bengala a terra que o havia de comer:

—  O general Hugo de Lacerda julga que vai para o Céu. Mas eu tenho a certeza de que fico aqui.

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Essa fraca ortodoxia não o impediria nunca de ser amigo do sr. prior do Monte. rev. padre José Joaquim Marques, que á hora a que hoje se almoça, lá ia jantar, bastantes vezes, muitas mais, tomar café, á sobremesa.

Discutiam religião? Se discutiam, não só nunca houve progresso no catolicismo de Bulhão Pato, que não ia á missa, mas, ainda as conversas não decorriam em termos de ser entendidas pelas pequenas.

As pequenas de então estão agora aqui na nossa frente, com a sua roda de anos bem puxados. Andam á volta dos 70 e Ramada Curto podia tê-las conhecido, quando escreveu "As meninas da Fonte da Bica".

São uma página de literatura já feita. A dificuldade estaria em pegar-lhes sem as destruir no que elas têm de vulnerávelmente espiritual e simples.

As meninas da Torre são três, e são solteiras (os homens empatam muito, dizem elas, que têm imenso que fazer, na sua qualidade de mestras das primeiras letras).

Des glaneuses dit aussi Les glaneuses, Jean-François Millet (1814-1875).
Imagem: profondeurdechamps

—  Hoje, somos aqui, as unicas que conhemos o sr. Pato! dizem com simplicidade e um tudo nada de saudade.

Saudade, e como não hão-de ter saudades as meninas da Torre, cada urna delas com o seu caracter, a sua maneira, de ser, a sua humilde e recatada pobreza?

Só duas delas, porém, se resolvem a fazer evocações. A mana mais velha, a D. Laura da Conceição, viveu trinta e tantos anos com uns parentes ricos em Lisboa. Quase não privou com o sr. Pato. Hoje é a "dona da casa", a que trata o seu governo, distante, hierática e silenciosa, ficando-se muda e impenetrável, enquanto as manas mais novas, D. Carolina de Jesus, miudinha, um pouco estonteada, fala ou ouve falar a outra mana, a Isaura Augusta, a mais desenvolta, talvez a mais intelectualmente vigorosa.

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Filhas e um mestre de obras, o que construira a casa onde havia de morar Bulhão Pato, quando o escritor para ali foi em 1890, mesmo na casa ao lado, foram elas, com os pais, as únicas admitidas a sua convivência.

Bulhão Pato que era muito bondoso, muito, tinha os seus paradoxos: não gostava de crianças, porque eram barulhentas, mas, chamava as filhas do sr. Marques para a sua beira; amava o silêricio e tinha sempre á sua roda á barulho de uma alegre e palradora convivência, médicos e escritores, sobretudo.

Tudo, porém, finalizara naquele colapso cardiaco. Bulhão Pato acabava de morrer, faz hoje precisamente quarenta e quatro anos. Os seus restos mortais jazem num mausoleu do cemiteriozinho do Monte, esquecidos dos homens e da criada do afilhado Povas que, morrendo sem filhos, lhe deixou o que herdara do padrinho.

—  Estamos a vê-lo, ao sr. Pato, muito fino, muito educado, um pouco baixo e de barbas muito brancas, com uma manta alentejana pelos ombros: "vamos a ver se ainda deito este Janeiro fora!" Costumava passear por aí, com a sua bengalinha mas, sendo muito sociável, não admitia certas liberdades...

Só duas das meninas da Torre se deixaram fotografar, D. Carolina de Jesus e D. Isaura Augusta, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

Quem conta isto é a menina Carolina de Jesus que se ri:

—  Vinha muito por aí o dr. João Barreira. Ficava ás semanas e viamo-lo, através da janela, pendurado além, nas grades do jardim, a esticar-se, como se quisesse ficar mais alto. Tinha uns olhos de pássaro tonto que nos assustavam. Ali ao lado, havia um celeiro. Ás vezes, o caseiro da sr.a condessa dos Arcos ia para lá tocar harmónica. Como doido, o dr. João Barreira desatáva ás voltas, com as mãos nos ouvidos e aqueles olhos, a gritar, "que é isto, que é isto?" Este tocador de harmónio [?] era o mesmo que um dia, cumprimentando o sr. Pato, lhe estendeu a mão e a quem o escritor admoestou serenamente: "que é isso, rapaz, estende a mão só aos que forem teus iguais".

Professor João Barreira (1866-1961).
Imagem: ARTIS

— Apesar disso — acrescenta a mana Isaura Augusta —  o sr. Pato era muito bondoso, muito. Acudia pelas criadas, obrigava-as a ir cedo para a cama, que não queria excessos de trabalho lá em casa.

Depois, a propósito de criadas, vem a história da Elisa. Bulhão Pato. além da cozinheira e do criado, tinha sempre uma "criadinha fina", uma rapariga de serviços de fora que pudesse acompanhar D. Maria Isabel.

— O sr. Pato gostava de ter caras jovens e bonitas á sua roda. Mas a história da Elisa é muito triste. Um dia, vieram dizer ao escritor que ela andava de amores com uma visita da casa, o jornalista, sr. Urbano de Castro. Viam-nos juntos em Lisboa, nas folgas da Elisa...

O sr. Pato chamou-a, ralhou-lhe tanto, tanto, que ele, segundo diziam, era um trovão quando se zangava, que a rapariga, envergonhada, matou-se com um desinfectante com que andava a tratar-se...

O sr. Pato chorou e fez-lhe uns versos. Havia uma quadra que dizia assim:
Senti bater o caixão
Quando te foste enterrar
Era tarde de Verão
O Sol morria no mar.
Fora uma amiga da casa, a D. Elvira Bastos — elucida a outra mana — quem levara a novidade lá a casa. Nunca mais ali se pronunciou o seu nome.

— E Urbano de Castro?

— Bem, continuou a ir lá a casa. Havia as relações das senhoras...

D. Carolina de Jesus suspende o "crochet" e dobra a folha impressa de onde o estava a copiar. Já não vê e não há luz eléctrica lá em casa. Uma das manas vai acender o candeeirinho de petróleo (desculpe, somos pobres... não repare, esta sala é a das aulas...).

A mana continua:

— O sr. Pato gostava da boa mesa e que lhe gabassem o "roast-beef" mas mal provava os petiscos. Dizia sempre: "não tenho que comer!" E a senhora protestava: "Oh! Raimundo, que cisma a tua!" D. Isabel tratava-o por tu. Ele, falando com a esposa, dizia sempre "você".

Mas, enfim, se o sr. Pato não comia muito, bebia bastante e sempre bebidas finas. Fumava muito e levantava-se cedo, para trabalhar cedo. Cedo também se deitava.

— Mesmo assim, tinha uma intensa vida de sociedade... Devia ser rico...

—  Não sabiamos de onde lhe vinham os rendimentos. Rico, rico, porém, não seria, porque lhe vinham duas vezes por semana, ás quintas e domingos, grandes cestas de fruta e legumes, oferecidos pela familia Pinto Basto, da sua quinta aqui de perto, que está hoje nas mãos dos Quintelas. Mas com o não ser rico não deixava de ser muito esmoler, o sr. Pato. A casa aqui ao lado. estava mais que modestamente mobilada.

O mais importante eram, no escritório, os livros, um retrato do escritor, pintado por Lupi e que está hoje no, Museu de Arte Contemporanea e um outro de Alexandre Herculano (1810-1877), a quem era muito dedicado, mas que não nos lembra ver por cá. Devia já ter morrido.

—  Em que passava o tempo o escritor?

—  Se não escrevia, conversava sobre as suas viagens, falava de livros, fazia "pic-nics" na Quinta da Estrela ou caçava nos juncais de Caparica. Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, saia para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

O Joaquim da Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa. para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. 

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui, do Porto Brandão, é que partiam os barquinhos movidos por meio de remos....

—  Não falava de política, em derrubar o Governo...

—  Fechava-se com os amigos no escritório; como podiamos nós, adivinhar do que falavam em voz baixa? Alegria naquela casa não faltava. O sr. Pato até gostava de armar as suas festas. Muitas vezes, porque não lhe chegavam os dois andares que ocupava, estendia-se por casa dos vizinhos. E era ver, no Santo António e S. João, as fogueiras, as festas e bailaricos que armavam no terreirinho fronteiro á casa do sr. Pato. O povo passava e juntava-se, saltando também a fogueira. E o sr. Pato gostava.

—  Deu o nome a muitos "pratos" e petiscos...

— Possivelmente, eram os amigos que lhos davam. Nunca demos conta de que o sr. Pato fosse á cozinha ensinar a fazer ameijoas, bacalhau, perdizes ou ostras — e o que ele gostava destas! — com o seu nome ou não...

As meninas da Torre leram Bulhão Pato. O escritor estimava-as e a uma delas quis ensinar francês, ao que o pai, o mestre de obras, patrióticamente se opôs. Hoje, no seu casarão desconfortável e antigo, vivem da saudade de tanta coisa vivida, da mágua de se terem debruçado á beira de um grande mundo espiritual, do qual não recolheram o melhor do seu sabor.

Timidas, fiéis a Deus e á memória dos que amaram, assim as fomos achar, perturbando-as com a ideia de falar para um jornal e deixar-se fotografar, assim de chitas vestidas.

— Que vergonha! — disseram, a tapar o rosto com as mãos.

Mas, daqui a pouco, as meninas da Torre dobrarão esta folha de jornal, irão juntá-la a mil ninharias do seu património espiritual, já esquecidas do seu amigo, sr. Pato, vinte e dois anos seu vizinho na Torre.

O poeta no seu gabinete de trabalho, segundo fotografia publicada em 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Depois, empunharão a cartilha e, nos seus bancos em fila, as meninas da Torre, as mestras e as alunas voltarão a dizer em coro: Um á e um i faz ai... Um d e um ó faz... dó! (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato

A evocação de Bulhão Pato (1829-1912)

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Quando Bulhão Pato veio para a Torre de Caparica em 1890 já eu por cá andava, á roda dos 33 de idade, e o poeta com os seus 60 já cumpridos em boa graça. Que homem! Que figura!

D. Francisco recorda que seu avô, D. José Maria Carlos de Noronha e Castilho, foi governador militar desta região.

"Eu pertenço um pouco a Almada, e aqui hei-de morrer, com a minha modestia e aquilo a que chamam a minha originalidade. A verdade é que vivo entre livros e recordações".

— Bulhão Pato...

— Naquele tempo convivia-se, e, fosse qual fosse a idade, fazia-se o possível para se ser rapaz. Bulhão Pato, que fora muito de Herculano, em cuja casa da Ajuda viveu ai por 1847-48, faz agora um século — imagine! — casa para onde depois foi viver Garrett, veio para a Torre já com a sua obra literária afamada.

 Palácio d'Ajuda, c. 1900. À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Ele principiara a "Paquita" em 1851 mas veio aqui acabá-la. A casa de Pato era maneirinha; o poeta pontificava em familia. Vinham — eu era mais novo do que eles — Urbano de Castro, que tinha uma casa em Costas de [do] Cão, o meu parente D. João da Camara, o Zacarias de Assa [d'Aça], o Henrique Lopes de Mendonça.

D. João da Câmara (1852-1908).
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi a estes que Bulhão Pato leu os ultimos versos da "Paquita"; eu não assisti. João Barreira, que era médico na freguesia, relacionou-se por essa época. Lembro-me destes homens. 

E apareciam também o grande João de Deus, Rangel de Lima e Marcelino Mesquita, ás vezes. Um grande companheiro de Bulhão Pato, foi o Eduardo Ferreira Pinto Basto, mas este era só para passear. Outro: o Teodoro Ferreira Pinto.

E volta ao poeta do "Livro do Monte".

— Era uma pessoa admirável. Trabalhava quando para tal sentia disposição. Não tinha horas formais. Passeava muito a pé por essas quintas, e imagino que, quando sózinho, compunha, a andar, versos ou tecia memórias.

Descendia dos Pereiras Patos Moniz, de Alcochete, e dos Alvares de Bulhão Eu tenho muitos anos de vida, corri algum mundo em Portugal e lá fora; dei-me com belos espiritos. Pois nunca encontrei melhor cavaqueador, mais fino e travesso. Era um gosto ouvi-lo. Nunca o ouvi falar de politica, e mesmo de polémicas literárias pouco dele discorria.

Lembra-se do "Lázaro Consul", resposta a uma suposta alusão do Eça, nos "Maias"? Eu nunca escutei nada da sua boca a este respeito... D. Francisco de Noronha lembra que Bulhão Pato tinha, apesar de romantico uma certa veia sarcástica. "De quem ele gostava muito era do Eduardo Schwalbach, que ás vezes aparecia, e pernoitava mesmo na casa da Torre. O Eduardo também vinha por minha casa. Era da minha idade, pouco mais, muito mais novo que o Pato. Tinha muita graça..."

Eduardo Schwalbach (1860-1946).
Imagem: Livreiro Monasticon

O fidalgo de Almada — que é ribatejano, da raia da Beira Baixa — esclarece-nos que Bulhão Pato nunca abandonou Lisboa, ao contrário do que se supõe. Ia lá quase todas as semanas. Almoçava então numa casa de pasto da Travessa dos Remolares, com o António Covas [Tovas], seu afilhado, deambulava pelo Rossio e Chiado, e regressava á tarde. E evoca:

— O poeta era muito de patuscadas inocentes e campestres, e de caçadas, mais inocentes ainda. Eu ás vezes aparecia. Ora uma vez...

— Mas o senhor deve saber...

— Diga... diga...

— Vem nos livros. O Bulhão Pato enviou urna vez ao Urbano de Castro um presente de urna pescada, com pimentos, que era de se lhes tirar o chapeu. Logo Urbano de Castro replicou por um bilhetinho:
Tem boa pinta a pescada,
são famosos, os pimentos...
A mana, muito obrigada,
envia os seus cumprimentos.

No Monte de Caparica,
termo e concelho de Almada,
há um Pato — coisa rica —
um Pato que dá pescada.
— Isto são recordações de velho. Eu não era ainda deste mundo, mas sei: Uma das primeiras poesias de Bulhão Pato foi a famosa "Se coras, não conto...", mais tarde reunida num livro de poesias. E ele ás vezes repetia, com saudades dos seus dezoito anos. A poesia é de 1847! Isto é: há um século...

E continua:

— Outro que era muito de Bulhão Pato, posto que não intimo, era o Manuel de Arriaga. Um irmão, mais novo deste, chamado Miguel, tinha em Almada uma quinta no Vale das Flores, Bulhão Pato ia por lá. E Manuel de Arriaga, quando foi eleito presidente da Republica, logo foi visitar o poeta de "Sob [os] Ciprestes", à casa da Torre, onde; agora vamos, pôr uma lápide.

Olhe, por coincidência: o actual presidente da Camara de Almada, o Luís Arriaga [de Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada (1947-1951)], é sobrinho de Manuel de Arriaga, filho de uma irmã deste, D. Maria Adelaide Sofia, se bem me recordo. Isto é o meu tempo de rapaz a desfiar...

O Manuel de Arriaga a mim tratava-me por "Francisquinho". Está aqui nas dedicatórias dos livros.

E conclui:

— Por tudo isto eu associo-me á ideia da lápide, da qual tive a iniciativa em Setembro de 1912. Ainda bem que vocês, rapazes, com o Luís de Arriaga tomaram isto a peito. Eu não posso talvez lá ir. As minhas pernas vergam, e como a memória está fresca, receio emocionar-me.

D. Francisco de Noronha, com a sua barbicha, a sua mão em concha, porque o ouvido já o atraiçoa, a sua camisa gomada sem colarinho, o seu olhar azul pisco, a sua andaina de andar na horta, com uns "sobrinhítos" que tem em casa, o seu chapeu rustico cozido a cordeis, o seu abraço muito largo, "do tamanho do mundo" — mostra-nos os seus formosos e poeirentos livros de boa biblioteca clássica, a par de livros de Antero e de tomos de transcendente filosofia. Vai-nos conduzindo ao portal, onde uma cadela céguinha faz as honras de porteira.

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas.

— Pois no domingo eu estarei com o Bulhão Pato. Aonde não sei. E se o virem — façam-lhe lembranças minhas... Há cem anos: "Se coras, não conto".

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: Pintar a Óleo

O descerramento da lápida

O descerramento da lápida efectua-se amanhã, ás 17 horas, no prédio onde morreu Bulhão Pato, faz agora 36 anos. O elogio literário do poeta será feito pelo professor dr. João Barreira, já octogenário, um dos raros sobreviventes do grupo que mais conviveu com o poeta na Torre da Caparica, de 1890 a 1912. 

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

Assistem representantes da familia de Bulhão Pato e de outras que foram do convivio do poeta os vereadores de Almada, um vereador da Camara Municipal de Lisboa, autoridades de Setubal e do concelho.

Norberto de Araújo discursa, tendo ao seu lado direito, a 11ª Condessa dos Arcos, D. Maria do Carmo Giraldes Barba Noronha e Brito, e ao seu lado esquerdo, o médico e historiador de Arte – Professor Dr. João Barreira, que fez o discurso evocativo, D. Margarida Bulhão Pato, sobrinha do Poeta, o Comandante Sá Linhares, Presidente da Câmara Municipal de Almada e o jornalista e director do jornal «A Voz», Pedro Correia Marques.
in Norberto Araújo (1889-1952)

Serão lidas palavras do dr. Julio Dantas, traçando o perfil de Bulhão Pato, e usará da palavra o presidente da Camara de Almada, comandante Arriaga de Sá Linhares.

Podem aproveitar-se camionetas de Cacilhas à Torre, das 15 e 40 e 16 e 25. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1948

Artigo relacionado:
Largo Gil Vicente


Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Se coras, não conto

Chapelle anglaise à Lisbonne, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?


Palais d'Ajuda, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:

Quai de Sodre, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.


Palais de Necessidades, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.


Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvil-o não has de córar.


Vue de S. Pedro d`Alcantara, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Promenade Publique, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Place du Commerce prise du Tage, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Interieur de l`Eglise de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Tour de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração. (1)



(1) Bulhão Pato, janeiro de 1847