terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

Artigos relacionados:
Almada em 1960
O centro cívico

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Alfeite para escola liberal

Apareceram em alguns jornaes noticias ácerca da proposta de compra ao Estado do palacio do Alfeite, por um grupo de cidadãos liberacs de que fazem parte os srs. Tomaz da Fonseca, deputado e diretor das escolas normaes, Ferreira do Amaral, engenheiro, Francisco Grandela, comerciante, etc.

Recordação de uma "pandiguinha" na tapada do Alfeite em 28 de Setembro de 1913.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

As mesmas noticias dizem que sobre este assunto, os interessados tem tido varias conferencias com o sr. ministro do fomento e que a oferta é de cem contos por esta propriedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Como ilucidação cabe fazer aqui a breve historia desta propriedade, uma das mais rendosas que pertencia á corôa desde 1834.

Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa, já esta propriedade existia com a denominação de Penha. D. Afonso doou-a então aos inglêses, que o ajudaram na conquista.

D. Sancho I fez passar esta propriedade aos cavaleiros da Ordem de S. Tiago, até que, no reinado de D. Diniz, foi encorporada nos bens da corta dando em troca áquela ordem as vilas de Almodovar c Ourique, e os castelos de Monchique e Aljesur.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

D. Fernando I incluiu a Penha nos bens com que dotou sua mulher D. Leonor Teles, a qual, depois da morte do marido, os doou ao celebre judeu David Negro, almoxarife das alfandegas do reino.

Este judeu, seguindo o partido da rainha viuva, acompanhou-a na fuga para Alemquer, a isso obrigada pela revolta em favor do Mestre de Aviz.

Por este facto David Negro foi declarado traidor á patria e sequestrado-lhes todos os seus bens.

D. João I, ainda regente, doou a Penha ao seu companheiro de armas, o condestavel D. Nuno Alvares Pereira.

Pomar do Antelmo, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

A mulher de David Negro, porém, sabendo desta doação, tentou embargal-a em nome dos filhos, e disto se originou uma demanda, que durou nove anos, terminando por urna composição, em que ela ficou com os bens de Almada, que compreendiam a Penha e o condestavel com os de Lisboa.

Mais tarde, conforme a tradição, D. Nuno Alvares Pereira comprou aos herdeiros de David Negro, aquela propriedade para a reunir a outras que possuia da outra banda do Tejo, até que, em 28 de julho de 1404, doou estes e outros bens que tinha á Ordem dc Santa Maria do Carmo. Foi depois desta doação que a propriedade da Penha passou a denominar-se do Alfeite.

Paisagem na Real Quinta do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Passam-se mais de dois seculos em que a propriedade do Alfeite sofreu varias alternativas e, só em 1697, parece que a adquiriu D. Pedro II, de Gerardo Huguer Marcem, que então estava de posse dela, e a incorporou na Casa do Infamado.

No reinado dc D. João V, o infante D. Francisco, a quem pertencia esta Casa, instituida por D. João IV, reuniu-lhe a quinta da Romeira, comprada, em 1707, ao conde de Tarouca, e mais outra que comprou ao desembargador Antonio da Maia Aranha.

Lavadeiras na Romeira, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

D. Maria I aumentou os bens do Infantado com mais propriedades que lhes juntou, e D. Miguel, no 1.° de julho de 1833, arrematou a quinta da Piedade, que se ligava com as do Alfeite, e que depois passou á posse de Pompeu Dias Torres, negociante em Lisboa, que por sua vez a vendeu ao moageiro Antonio José Gomes, sendo hoje dos seus herdeiros.

A propriedade do Alfeite, com os seus palacios, compôe-se do Outeiro, Quintinha, Antelmo e Bomba, pertencendo-lhe tambem a vinha do Pagador, a Lagôa de Albufeira, os pinhaes de Corrolos e do Cabral, os moinhos do Gaivão, Passagem, Capitão e Torre. 

Em 1851 debateu-se na Camara dos Pares a questão do arrendamento da propriedade do Alfeite ao conde de Tomar — Costa Cabral — então presidente do conselho. Esse arrendamento era por 99 anos e por 2:500$000 réis anuaes. A quinta do Alfeite era naquele tempo um onus para a casa real, bem ao contrario do que hoje acontece, pois só a venda da arda extraida dos seus areiaes para as construç8es dc Lisboa e seu termo, constitue um rendimento importantissimo.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

A questão a este respeito ventilada na camara alta foi das mais escandalosas, entre os partidarios de Costa Cabral e os adversarios á frente dos quaes se encontrava o marechal Saldanha. A ultima sessão em que este assunto foi debatido e em que o conde de Tomar pronunciou o seu ultimo discurso parlamentar, tomando a propria defesa, realisou-se em 22 de março de 1851. O parlamento foi encerrado e poucos dias depois iniciava o duque de Saldanha o movimento revolucionario conhecido pela Regeneração, que importou a queda do governo dc Costa Cabral e a este se exilar para o estrangeiro. 

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em 1857 D. Pedro V fez grandes melhoramentos na quinta do Alfeite, e mandou construir o novo palacio mais elegante e confortavel do que o antigo, que cahira em ruinas, assim como no Antelmo, pertensa da mesma propriedade, que foi restaurada. 

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

Nos ultimos tempos, o palacio do Alfeite era utilisado pelo sr. infante D. Afonso e pela rainha sr.a D. Amelia, que ali ia passar alguns dias, no outono.

Alfeite (ao tempo) lugar da freguesia da Nossa Senhora da Piedade.
Imagem: Delcampe

A proposta que aparece agora para a compra desta propriedade, não deixa de fazer lembrar a que em 1851, o conde de Tomar tentou para o seu arrendamento, por 2:500$000 réis, talvez menos da quarta parte do rendimento só da areia que de ali se extrae anualmente. (1)


(1) Occidente n.° 1203, 30 de maio de 1912

Tema: Alfeite

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Palacete de António José Gomes (monumento classificado)

A memória de António José Gomes, esclarecido industrial moageiro que muito contribuiu para o desenvolvimento e modernização da Cova da Piedade, é ainda hoje uma referência para a freguesia, aqui celebrada através da conservação da sua casa de habitação.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

O palacete, possivelmente erguido entre finais do século XIX e inícios do século XX, em terrenos da antiga Quinta da Piedade, uma das famosas "sete quintas" do Alfeite, abrindo a sua fachada para o largo principal da vila e para a sua igreja matriz, marca com a sua linguagem eclética, própria da burguesia em ascensão, a urbanidade contemporânea.

Cova da Piedade Palacete de António José Gomes.
Imagem: Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909)...

O estilo eclético e erudito do projeto, de influência francesa (Beaux-Arts), está bem patente na linguagem neoclássica dos elementos decorativos do exterior, com frontaria ritmada por pilastras e silhares rusticados ao nível do piso térreo conjugando-se com estruturas em vidro e ferro de feição Arte Nova, estas funcionando já como sinal de modernidade e do espírito progressista burguês, celebrado igualmente nas alegorias do Comércio e da Indústria que rematam o edifício.

Cova da Piedade. Palacete António José Gomes. esculturas alegóricas ao Comércio e à Indústria.
Imagem: Nuno Pinheiro

No interior, cuja decoração “excessiva” contrasta com a relativa sobriedade dos exteriores, destacam-se sobretudo as marcenarias, os estuques, as pinturas românticas e os vitrais revivalistas.

Cova da Piedade, Palacete António José Gomes, pormenor do tecto do salão principal.
Imagem: Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909)...

À esquerda da fachada principal ergue-se o volume da cocheira, também aberto para o jardim contíguo à fachada posterior, cercado por muro e gradeamento em ferro forjado e aberto por portão de cantaria rusticada, que delimita ainda um pavilhão para criação de animais e uma garagem.

Cova da Piedade. Alçados do “Chalet” Jorge Taylor, das cocheiras e do Palácio António José Gomes.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes

Pertencia à propriedade uma nora de ferro de desenho requintado, hoje situada em terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade e classificada como de interesse municipal, que abastecia de água a quinta de António José Gomes.

Nora de ferro situada nos terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade.
Imagem: Direção Geral do Património Cultural

A classificação do Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, reflete os critérios constantes do artigo 17.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, relativos ao interesse do bem como testemunho notável de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua conceção arquitetónica e urbanística, e à sua extensão e ao que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva.

Cova da Piedade, Palacete António José Gomes. Vista geral de fachadas posteriores e campos fronteiros.
Imagem: Direção Geral do Património Cultural

A zona especial de proteção (ZEP) tem em consideração a envolvente urbana do imóvel, particularmente os espaços públicos e o edificado mais antigo, bem como a totalidade dos quarteirões que integram a área original da propriedade e a nora de ferro que lhe pertencia, e que constitui elemento evocador do passado rural deste território, e a sua fixação visa assegurar a integridade e as características fundamentais do seu enquadramento, as perspetivas de contemplação e os pontos de vista.

Cova da Piedade, Palacete de António José Gomes.
  Assinalam-se o Monumento de Interesse Público (MIP): Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem e a Zona Especial de Proteção.
Imagem: Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

Procedeu-se à audiência dos interessados, na modalidade de consulta pública, nos termos gerais e de acordo com o previsto no artigo 26.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, e no artigo 45.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro.

Foi promovida a audiência prévia da Câmara Municipal de Almada. 
Assim: 
Sob proposta dos serviços competentes, nos termos do disposto no artigo 15.º, no n.º 1 do artigo 18.º, no n.º 2 do artigo 28.º e no n.º 2 do artigo 43.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, conju- gado com o disposto no n.º 2 do artigo 30.º e no n.º 1 do artigo 48.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro, e no uso competências conferidas pelo n.º 11 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 86-A/2011, de 12 de julho, manda o Governo, pelo Secretário de Estado da Cultura, o seguinte:

Artigo 1.º 

Classificação É classificado como monumento de interesse público o Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, no Largo 5 de Outubro, 34 a 38, Cova da Piedade, freguesia de Cova da Piedade, concelho de Almada, distrito de Setúbal, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.

Artigo 2.º 

Zona especial de proteção É fixada a zona especial de proteção do monumento referido no artigo anterior, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.

9 de setembro de 2013. — O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. (1)


(1) Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

Tema:
Cova da Piedade

Informação adicional:
Direção Geral do Património Cultural: Palacete de António José Gomes
Direção Geral do Património Cultural: Nora de ferro
Diário da República, 2.ª série — N.º 123 — 27 de junho de 2012 (inclui a planta com a delimitação e a ZGP que esteve em vigor até ser fixada a ZEP)

Bibliografia adicional:
Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.Maria José Pinto, Palácio Gomes: pequena monografia, revista al-madam N.º 4 (IIª Série), Almada, Centro de Arqueologia de Almada, Outubro 1995

Outras leituras:
Nuno Pinheiro no Facebook: Edifícios António José Gomes
Coysas , Loysas, Tralhas Velhas... : Palácio da Viúva Gomes
ruin'arte: Chalet na Cova da Piedade
De regresso ao séc. XIX, Câmara Municipal de Almada

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Fortes, esbeltas e um pouco ariscas

Nunca encontraram, á hora do desembarque, as mulheres dos figos? 

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Veem, ainda fusque fusque, da Outra banda, no primeiro bote de carreira, com os seus grandes cestos. Apparecem no caes de Cacilhas de noite ainda, e vão ellas próprias muitas vezes accordar os barqueiros e avisal-os de que já se avista a manhã.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

São, em geral, raparigas fortes, esbeltas; um pouco ariscas, como dizem, os saloios, da terra que é secca e solta.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Debalde os barqueiros se estafam em finezas e lhes juram emquanto remam que depois de acabar a lua são ellas a estrella d'alva: nem lhes dão um sorriso, nem um figo.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Essa mesma rebeldia os seduz, e ainda mais porfiam em as alcançar, esperando-as sem somno á hora em que ellas voltam da Sobreda, do Monte, de Caparica, de Valmourellos. (1)


(1) JuIio César Machado, Lisboa na rua
cf. Alberto Pimentel, A Estremadura portuguesa, Volume II, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1908, 539 págs.

domingo, 14 de maio de 2017

Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)

1558 - fundação e construção do convento com invocação a Nossa Senhora da Piedade, integrado na Ordem dos Franciscanos Arrábidos, ordenada por D. Lourenço Pires de Távora (1510-1573), da família nobre dos Távora, 4º senhor da Casa e Morgado da Caparica, nascido em Almada, homem de armas e diplomata ao serviço de Portugal, que passa a ser seu padroeiro; 

Mapa de Portugal, Mosteiro da deceda, Convento dos capuchos Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

a construção é de linhas simples, com as celas nos sobrados e as restantes dependências na parte inferior, nas traseiras da igreja; construção de uma ermida, na cerca do convento, de invocação ao Apóstolo São Pedro, para as orações particulares dos religiosos; a comunidade religiosa é protegida pelos padroeiros do convento, donos das quintas da região e pelo próprio rei D. Sebastião que concede aos freires o privilégio de se abastecerem de lenha dos seus pinhais de Caparica;

1560 - o papa Pio IV concede ao altar-mor as mesmas indulgências de que usufruíam as igrejas de São Gregório de Roma e de São Sebastião de extra-muros da mesma cidade;

1573 - falecimento do instituidor do convento que, cinco semanas antes da sua morte, se tinha recolhido nele; A lápide da sepultura da capela-mor tem a inscrição "SEPULTURA DE LOURENÇO PIRES DE / TAVORA DO CONSELHO DO ESTADO DEL- / REI D. SEBASTIAO O I DESTE NOME INS- / TITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA. / FALECEU DE IDADE DE 63 ANOS A / 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573 / AVENDO CINCO SEMANAS Q. DESCANSAVA / EM SUA CASA DE MUITOS SERVIÇOS Q. FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GUER- / RA E NA ASIA AFRICA E EUROPA".

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1618 - renovação dos dormitórios;

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

1630 - obras de ampliação e beneficiação com re-edificação do imóvel, provavelmente incluindo a fachada principal, com acrescento do coro-alto e do nártex com uma serliana e que, para além do símbolo dos Franciscanos e das armas dos Távoras, passa a ter duas janelas laterais e, ao centro, um nicho; revestimento do nártex com azulejos e feitura do púlpito da igreja, da responsabilidade do Provincial Frei Lourenço da Madre Deus;

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

1755, 01 novembro - terramoto causa grave destruição do convento, à exceção da frontaria;

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Séc. 18 - é padroeiro do convento José Menezes Távora;

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1778 - data inscrita no painel de azulejos do portal de acesso ao jardim sobrelevado da cerca;

1779 - os frades passam a assegurar uma "escola de ler, escrever e contar" onde afluem jovens das aldeias vizinhas;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

1834 - extinção das Ordens religiosas e sequente declínio do convento e desaparecimento dos azulejos do nártex; residem, então, no convento, apenas 9 frades, passando a tutela para a responsabilidade do Juiz do Povo da Freguesia; supressão do convento devido ao baixo número de frades residentes e a ter sido considerado inútil;

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1872 - nacionalização dos bens do convento;

Sécs. 19 - 20 - sofre longas vicissitudes que levam à ruína da ermida de São Pedro juntamente com o convento, ficando apenas alguns vestígios, que possibilitam o posterior levantamento das paredes deste, no mesmo local; é ocupado, ao longo dos anos, por pastores e agricultores da região com pastagens nas imediações, tendo passado por várias transmissões;

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1925 - desaparecimento dos azulejos da igreja;

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1950 - compra de toda a parte rústica e urbana da propriedade do antigo convento dos Capuchos, pela Câmara Municipal de Almada ao então proprietário Virgílio Alves Xavier;

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

1952 - data das imagens do interior da igreja e da talha dourada do altar, oferecidos pelo Dr. João Couto, então Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga;

Caparica,, Convento dos Capuchos, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1952, 18 outubro - regresso das ossadas do instituidor e padroeiro do convento e seu sepultamento à entrada da capela-mor;

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

1960 - 1970, décadas - construções nos jardins, época de imagens de santos e outras obras expostas, resultado de ofertas provenientes de monumentos demolidos de Almada e Lisboa, tendo algumas obras sido realizadas por mestre de obras e pedreiros;

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

1982 - data inscrita sobre um dos arcos do miradouro recente, possivelmente assinalando a sua construção;

1984 - elaboração de um convénio entre o Museu Municipal de Almada e o Centro de Arqueologia de Almada; início da fase de estruturação e instalação no convento do Museu Municipal de Almada;

2000, 13 maio - assinatura do auto de consignação que marca o início das obras de restauro, consolidação e ampliação do convento;

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

2000 - início da requalificação do convento pela Câmara Municipal de Almada. (1)


(1) Albertina Belo, SIPA, 2001

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Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nas arribas do mar (faíscas de fogo morto)

Por todo este almaraz ao terreno ondulando, 
Tal como ondula o mar, quando o tempo está brando. 
Nos contrastes de luz, no variado matiz, 
Nenhum lhe dá de rosto em volta do paiz.

The Praҫa do Comércio Lisbon, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

As folhas dos trigaes, vinhedos e pomares, 
Pendendo para o mar á beira dos algares.

Val de Flores, Rosal, a fecunda Sobreda, 
Conservando a azinhaga e a sombria vereda.

As "Villas de Azeitão", o medo de Albufeira, 
A Charneca, formando uma enorme clareira 
Cingida de pinhaes. No gracioso recorte, 
Cintra, no seu perfil, campeando sobre o norte.

A Arrábida domina ufana o Sado e Tejo. 
Não tem outra rival por todo esse Alemtejo.

Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

O Atlântico á barra. O rio, a desaguar, 
Funde na vaga azul a tinta verde-mar.

Seja em que ponto for é relancear a vista; 
Sempre, no vasto quadro, uma nota imprevista.

Pescadores no Tejo, Fishermen at work off the mouth of the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Rompe um formoso dia. O mar azul e manso. 
Vem as redes á Costa, e com soberbo lanço.

De toda a povoação, e remotos casaes, 
As recovas lá vão a travez dos juncaes.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

E a trepar a ladeira, — a saia coruscante, 
A cestinha á cabeça, o lenço fluctuante, 
— Correm, com seus pregões, á venda, as raparigas, 
Pregoes que têm um tom de jovenis cantigas!

Cae a noite. O farol, as frechas rutilantes, 
Atira pelo oceano e guia os navegantes.

Vista do Tejo e do Forte de S. Lourenço, Bugio Castle, the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Accendem-se também Bugio e Sam Julião. 
A cidade illumina, e reflecte o clarão 
No Tejo que lá vae, na veia crystallina, 
Levando, a scintillar, o véo da tremulina. (1)


(1)  Bulhão Pato, Faíscas de fogo morto, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciências, 1908

Artigo homónimo:
Nas arribas do mar (cf. Bulhão Pato, Memórias, Vol. III, Lisboa, 1894)

Artigo relacionado:
John Cleveley Junior e o Tejo, 1775

sábado, 1 de abril de 2017

Laura, a duquesa d'Abrantes

Fazia já calor, e os campos dos arredores ofereciam uma vista encantadora. Alegrava-me plenamente com esta bela natureza, e todos os dias ia passear em "gôndola" pelo Tejo, fosse para ir a Almada, ou para subir a Sacavém, ou, mesmo ainda, para aproveitar a brisa ao fim da tarde e ir em "calèche" até Pedrosa, a uma charmosa quinta que possuía neste lugar a duquesa do Cadaval [...] (1)

Panorâmica da Lisboa ribeirinha antes do Terramoto de 1755,
tomada a partir dos jardins do palácio do Marquês de Abrantes (onde hoje se encontra a embaixada de França).
Imagem: Museu de Lisboa

Pude sair. O meu marido reservou o escaler e fomos pela água a Almada, no outro lado do Tejo.

Estava fraca, estonteada, como que saída de uma longa doença. Este passeio recuperou-me. Entretanto não pude comer mais do que uma laranja em todo o dia e, durante vários dias, foi-me impossível cheirar uma flor.

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Almada, de que falei, é uma grande vila situada sobre a margem do Alemtejo, sobre o lado do sul.

É lá que vários habitantes têm as quintas. As colinas, que as envolvem, sáo retalhadas pelas flores mais belas. A convolvulus tricolor cobre a terra com as suas belas flores [bons-dias, bela-manhã] em rasgos de azul-celeste rivalizando com o belo céu do país.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

A igreja de Almada merece ser vista, e é um fim de passeio tão mais agradável que revemos sempre com um novo charme Lisboa e os seus ricos arredores.

Era em Almada que se davam no verão as corridas de touros. Há um circo por detrás da praça do Rocio, mas as gentes de Lisboa preferiam ir ver os touros a Almada do que a esse sítio fechado, e eles tinham razão. De resto, o melhor teria sido de não ter ido de todo, porque as corridas de touros em Portugal não são mais do que uma má paródia às de Espanha.

Os touros são boleados. Metem-lhes bolas de marfim ou de osso, grandes como uma maçã, na ponta dos cornos, e desta maneira o homem que os combate corre menos perigo.

Esta medida foi ordenada desde que o filho do conde dos Arcos foi morto por um touro ao combatê-lo. O touro apanhou-o de surpresa, quando o infeliz jovem se retornava para falar ao rei.

A morte do Conde dos Arcos, aguarela de Alfredo Roque Gameiro.
O marquês de Marialva vingando a sua morte do seu filho na ultima corrida real de Salvaterra de Magos.
Imagem: issuu

Acontecem sempre os acidentes apesar disso, e eu fui testemunha de uma infelicidade no primeiro dia que fui a Almada. Um homem apresenta-se para combater o touro. O animal tinha o sentido da sua força, mas sabendo que esta estava neutralizada no uso dos seus cornos, não tenta sómente se servir dela. Fundiu-se sobre o homem, e com o focinho fendeu-lhe o externo. O infeliz grita vomitando goles de sangue e expira antes de ser transportado para fora do circo.

Amo Almada. Amo sobretudo a sua igreja, situada sobre uma altura...

Laure Permon (Junot) (1784-1838), duchesse d'Abrantes.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

É principalmente ao fim da tarde que se deve ir a Almada.

Almada c. 1810, Pierre Eugène Aubert  (assina 'Aubert fils' c. 1815 e 'Aubert père' a partir de 1840), segundo
Lisbon from Fort Almeida [sic],
Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington

Deve-se partir de Lisboa ao pôr-do-sol. Vê-se ainda os cimos das colinas dourados pelos seus ultimos raios. Depois eles enfraquecem. O céu fica mais escuro, o vento arrefece e levanta-se [...] (2)


(1) Alber Savine, Le Portugal il y a cent ans..., Paris, Louis-Michaud, 1912
(2) Idem

Leitura relacionada:
Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

Bibliografia relacionada:
Laure Junot (1784-1838), duchesse d'Abrantès...