segunda-feira, 10 de julho de 2017

Cronologia breve da Torre Velha (3 de 3)

Torre Velha ou Fortaleza de São Sebastião de Caparica

Torre Velha, John Thomas Serres, c. 1801.
Imagem: Catarina Pires no Facebook

1801

Em 1801, terminado o infeliz conflito que ficou conhecido por "guerra das laranjas" e nos custou a perda de Olivença, encontramos de novo desactivadas as fortalezas da margem sul. As guarnições haviam sido reduzidas ao mínimo e descuradas as dotações de pólvora e munições.

A situação de abandono das fortalezas e a negligência em cuidar da defesa manteve-se até à partida de D. João VI para o Brasil. Os acontecimentos europeus pareciam não perturbar a inércia da corte e dos responsáveis. A Torre conservava as linhas gerais de 1692, apenas com a renovação da bateria baixa, aliás inacabada.

Torre Velha, corte pela falésia.
Imagem: Pedro Cid, A Torre de S. Sebastião de Caparica...

Confirma-o uma memória do marquês de La Roziere onde se indicam 4 baterias: a primeira era aquela designada em 1692 por braça baixa e ficava virada a norte; tinha sete peças de ferro calibre 24 e duas peças de bronze calibre 18 "sobre reparos de marinha quase apodrecidos". 

A segunda bateria estava na explanada imediatamente a sul, contígua e muito alta, era o espaço com parapeito compreendido entre a velha torre e a cortina nascente; tinha 6 peças de calibre 6 "sobre reparos de marinha fora de serviço".

A terceira bateria estava na explanada dita "praça alta" em 1692; tinha 5 peças de bronze de calibre 18. 

A quarta bateria era provavelmente aquela abaixo e contígua à primeira, mas não havia sido acabada; é uma das previstas no projecto de D'Alincourt.

1807 (ocupação francesa)

A situação da Torre de S. Sebastião e dos seus acrescentamentos constam do relatório do oficial francês Amaute elaborado em 6 de Dezembro de 1807, logo após a ocupação francesa: Forte da Torre Velha.

Esta fortificação é fechada por urna porta dupla [refere-se à porta de armas na cortina sul], está rodeada de um pequeno fosso do lado de terra, não foi feita senão para bater o rio; entretanto podia fazer-se aí uma vigorosa defesa, se bem que ela seja dominada por uma elevação não inferior a 150 toesas [1, 82 m...]

1810

A ideia de uma linha de defesa terrestre na margem sul não era nova — tivera-a já o conde de Lippe em 1762 — mas foram afinal os ingleses que, sob as directrizes do tenente-coronel J. Fletcher, comandante do corpo de engenheiros de Wellesley e do capitão John Jones, adjunto daquele, que executaram as linhas de defesa, nos anos de 1810-11. 

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

Duas linhas no total de 21 fortes protegiam os ingleses de um ataque por sul, cobrindo a margem do rio desde a Margueira até Alpena. Com excepção do Forte de Almada, o n.° 1 da segunda linha eram todos redutos de campanha, de construção provisória.

Estas linhas, tal como a linha de defesa próxima a nõrte de Lisboa, destinavam-se a exercer uma acção de retardamento no caso de rotura das Linhas de Torres ou de um poderoso ataque pelo Alentejo permitindo nestes casos o reembarque das tropas inglesas. 

Quanto aos franceses de Junot, não chegaram a construir qualquer linha de defesa equivalente, mas colocaram na margem esquerda um forte contingente de tropas. (1)

1813

Foi em 1813 que o lazareto foi mudado para a Torre Velha, ou de S. Sebastião, havendo então três barracas para arrecadação de fazendas, um acanhado armazém sobre a bateria do forte e mais duas pequenas casas, uma para recolher os escaleres, tendo superiormente a secretaria, e outra, chamada a da balança, onde eram pesadas as fazendas, a fim de se cobrarem as percentagens, que constituíam, os emolumentos para os empregados. 

Era em pontões que os quarentenários, sem commodidade de espécie alguma e em uma accumulação, contra a qual embalde todos reclamavam, tinham de passar o tempo da sua quarentena, sem ao menos haver um isolamento que inspirasse alguma confiança [...]

1837

O conselho de saúde, criado em 1837, representou logo ao governo sobre a impropriedade com que a Torre Velha estava servindo de lazareto, e a necessidade urgente de se construir um em logar conveniente e com todas as condições exigidas pela sciencia moderna e pela humanidade. (2)

1840

Hum occulo apontamos os nós de sobre o terraplano superior da torre de Belem, e com seu auxilio desenhamos nossa estampa, com todas as gentilesas, que d'ali podemos ver.

Vista da Torre Velha, O jovem naturalista n .° 9, 1840.

Abstemo-nos de formar a resenha de seus detalhes, por quanto, assaz escrupuloso na imitaçam dos originaes, cremos que nossa estampa falla evidentemente a intelligivel linguagem do desenho, e tanto, quanto em nossa fraquesa cabe.  Á vista do que havemos dito da posiçam d'esta torre, he facil de ver, que sua frente olha perpendicularmente ao Septemtriam ou Norte. 

Ella parece ser mui anterior á torre, sua visinha. 

O gruppo de casas que vemos á direita n'huma pequena praia tem por nome o "Lazareto" onde se depositam as carregações dos navios, que sam emprasados pelo Conselho da saude.

Lá, temos tambem huma rampa, guarnecida d'hum muro, que he o caminho para entrar-se na torre. (3)

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Em 1844 começou a construcção de dois armazéns de alvenaria em andares, destinados ás mercadorias, e uma muralha na praia para as descargas e desembarques. (4)

1864


A invasão da febre amarella em 1857 foi causa de que se fizessem algumas obras havia muito altamente reclamadas pela hygiene publica, e pelo decoro da capital; e tambem de que se planisassem outras não menos necessarias, mas que não passaram de simples projectos.

Novo lazareto da Torre Velha, Barbosa Lima, 1864.
Imagem: Novo lazareto da Torre Velha, Archuivo Pittoresco n.° 27, 1864

Entre as primeiras tem um togar distincto pela sua importantia o novo lazareto, obra gigantesca, para a qual não chegou a primeira somma de cem contos de réis votada pelas cortes. Achava-se estabelecido o antigo lazareto na Torre de S. Sebaslilio de Caparica, vulgarmente chamada Torre Velha [...] (5)

1868

Em 11 de maio de ISGS apresentou o engenheiro D. António de Almeida o ante-projecto de uma doca no lazareto, formada por um molhe de alvenaria hydraulica revestido de cantaria, tendo 100 metros de extonsão e parallelo ao cacs de terra, na direcção de Nascente a Poente, deixando ao centro uma entrada de 10 metros de largura.

Vista da enseada da Paulina e da Torre Velha, 1897.
Imagem: Branco e Negro Semanário Ilustrado



Em 1875 construiu-se na doca do Lazareto a primeira ponte-caes de madeira, cujo projecto foi elaborado pelo engenheiro Cândido de Moraes.

Enseada Paulina, cais e armazéns do Lazareto, 1897.
Imagem: Branco e Negro Semanário Ilustrado
Tinha 30 metros de comprimento por 6 de largura, partindo de um terrapleno que se conquistou com uns inuros assentes sobre a rocha, que se encontrava por fora do caes.

Esta ponte deteriorava-se rapidamente, e a doca assoreava-se, o que dava origem a repetidas reclamações do ministério do reino.

Vista da Torre Velha e do Lazareto (novo), 1897.
Imagem: Branco e Negro Semanário Ilustrado

Em 1880 construiu-se nova ponte de madeira, a qual mais tarde foi substituída por outra de estacas metallicas.

Torre Velha de Caparica, 2009.
Imagem: Wikipédia

Em 1892 estava de novo a doca por tal forma assoreada, que o ministério do reino dizia que os passageiros já não podiam ir desembarcar ao caes, o que levou a novos projectos de construcção e de reparação das pontes-caes [...] (6)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal, 1997
(2) Adolpho Loureiro, Os portos maritimos de Portugal... Vol. III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1904
(3) O jovem naturalista n .° 9, 1840
(4) Adolpho Loureiro, Idem
(5) Novo lazareto da Torre Velha, Archuivo Pittoresco n.° 27 1864
(6) Adolpho Loureiro, Idem, ibidem

Artigos relacionados:
Torre Velha por dom António
Líricas de Melodino
Defesa de Lisboa em 1810 (I)
Defesa de Lisboa em 1810 (II)
Defesa de Lisboa em 1810 (III)
Lazareto de Lisboa, em 1897

Leitura adicional:
Catarina Oliveira, IGESPAR, I.P./ Maio de 2012
Linhas de Fortificação da Margem Sul
Fortificações da foz do Tejo
À descoberta das sentinelas...
Forte de São Sebastião de Caparica (fortalezas.org)
rossio. estudos de lisboa n. 7 dez 2016
A (abandonada)Torre de São Sebastião de Caparica
Lugares Esquecidos, Torre de S. Sebastião da Caparica

Bibliografia:
Sousa, R. H. Pereira de, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Almada, 1981
Sousa, R. H. Pereira de, Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1997
Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896
Cid, Pedro, A Torre de S. Sebastião de Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II, Lisboa, Ed. Colibri, 2007

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Cronologia breve da Torre Velha (2 de 3)

Torre Velha ou Fortaleza de São Sebastião de Caparica

Torre Velha, John Thomas Serres, c. 1801.
Imagem: Catarina Pires no Facebook

1586 (domínio filipino, Torre dos Castelhanos)

Durante a dinastia filipina, novamente as questões da defesa costeira portuguesa se tornaram prementes, pelo que a Torre Velha voltaria a ser alargada e modernizada. Durante este período ficava conhecida como Torre dos Castelhanos. (1)

Na Torre velha vê-se claramente a praça baixa de artilharia. A fortaleza de madeira da Cabeça Seca não está desenhada pelo que é lícito deduzir que havia desaparecido ou estaria muito destruída.

Zee Caerte van Portugal... (detalhe), Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1590

Esta estampa faz parte de uma colecção datada de 1673, mas pelas fortalezas nela inscritas e por a fortaleza da Cabeça Seca ser ainda a construção de madeira devemos recuar a data para 1590, ou até anterior.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642, reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Estão representados o alcance útil da artilharia e as principais direcções de tiro, tanto quanto parece [] distingue-se a planta em"U" da Torre Velha. (2)

Torre de Belém (D), Castello de Almada (P), Torre Velha (Q), Forte da Trafaria (R).
Descrição e plantas da costa... (detalhe), Felippe Tersio, c.1590.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Lembro-me como se fosse hoje. Deixada a estrada de Porto Brandão, subimos um caminho de terra atravessando, não sem medo, a mole semi-derruída do Lazareto (construido em 1867) então ocupada por retornados; passá­mos grades e galgámos muros; atravessámos uma vasta zona de mata quase amazónica (sinal da humidade retida no fosso aquático que rodeava por terra a fortaleza...); passámos pela frente abaluartada feita em 1571 por Áfonso Alva­rescomo eu sabia por textos, mas que nunca viracom o seu belo portal de pedra almofadada e ponte levadiça, entrando no pátio onde estão os restos setecentistas do Palácio do Governador e as ruínas da capela de São Sebas­tião; para então, ao fim de uma larga esplanada tendo Lisboa como pano de fundo, vê-la erguer-se: a Torre.

Vista norte: Porto Brandão (A), Torre Velha (B), Porto da Torre Velha (C), Torre de Belém (O).
Descrição e plantas da costa... (detalhe), Felippe Tersio, 1590.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A primeira impressão é, devo confessá-lo, de alguma decepção. (2)

1640 (restauração da independência de Portugal)

Entregou-se o Castello da Cidade, e no mesmo dia as Torres de Belém, Cabeça Secca, Torre Velha, Santo António , e o Castello de Almada, tendo a Duqueza de Mantua a que passava as ordens, que sem resistencia se guardavam.

Mandaram os Governadores sahir do Paço a Duqueza de Mantua para o de Xabregas , onde foi acompanhada do Arcebispo de Braga, e daqui foi mandada para o Mosteiro de Santos das Commendadeiras da Ordem de Santiago.

Os Officiaes de Guerra , e Fazenda Castelhanos , foram postos em custodia competente [...]

Era o principal cuidado delRey [D. João IV] a defensa do Reyno, e assim tratou logo de nomear Generaes, e Cabos para as Províncias [...] 

 a Torre de Belém a António de Saldanha, e por seu Tenente Jacintho de Sequeira; a Torre da Cabeça Secca S. Lourenço ao Capitão Rolão, e por seu Tenente Bernardo Botelho; a Torre Velha a seu Capitão mor Ruy Lourenço de Távora; (3)

1668

A torre é um edifício simples, rectangular sobre o alto, sem traço de decoração: arqui­tectura em estado puro. Mas depois de rodeá-la e examinar as suas paredes nuas, de descobrir nos cantos ao pé do chão seteiras cruzetadas de belo traça­do quatrocentista, outras no andar de cima para tiro vertical; de ver a porta de origem — no piso superior como nas torres medievais, mas de verga recta — com um brasão liso [de Portugal] (de D. João II gasto pelo tempo ou dos Távoras, senhores de Caparica, picado por ordem de Pombal?); de galgar a larga escadaria bar­roca até ao enorme vazio interno, a que falta grande parte do piso em madeira; de observar a magnífica abóbada de berço sem uma fissura apesar dos seus 530 anos de idade — pois uma das conclusões deste trabalho foi datá-la sem erro de 1481 — e de subir a escada a um canto na parede, com frestas para ilu­minação, vigia e tiro, que conduz sem falha ao amplo terraço do alto, de onde se goza de uma vista soberba sobre a foz do Tejo, o efeito muda por completo. (4)

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1692

Um retrato muito exacto da fortificação é-nos proporcionado por uma planta d 1692. A planta mostra a torre, então já rebaixada circundada por duas cortinas com três baluartes nos ângulos e do lado oeste uma praça de artilharia, junto da antiga Torre. 

Planta da Torre Velha de Caparica, Mateus do Couto, 1692.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Todas as partes fundamentais traçadas na planta de 1692 subsistem nos nosso dias. São elas, escolhendo as mais características: A torre do século XV, já rebaixada; As cortinas leste e sul e os três baluartes; O fosso, a leste, agora entulhado; A casa do governador, a capela adossada à cortina da porta de armas e uma construção abrigando uma escada no ângulo sueste da praça de armas.

c. 1700

São partes agora desaparecidas a escadaria de acesso à praça baixa de artilharia e esta mesma praça com os respectivos paiois. O desaparecimento da bateria baixa é, por certo, mais uma vez, consequência do progressivo recuo da arriba com sucessivos aluimentos. Na cortina leste, a planta dá-nos ideia de que, pelo lado interior, o da praça de armas, se fez um alargamento em relação ao existente no século XVI, acrescentando paiois. Também pelo lado sul a cortina da porta de armas podem ter sofrido intervenção semelhante, mas aqui a evolução é menos evidente.

Configuração da entrada da Barra do Porto de Lisboa... (detalhe), c. 1700.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Este processo do rápido recuo da arriba resulta da fraca consistência do terreno, onde os calcários do terciário pouco consolidados e muito fracturados se misturam com grandes quantidades de terreno argilo-arenoso e com un espessa camada de aluvião [...]

1794

O conde de Lippe, o grande reformador do nosso exército, dedicou grande atenção às fortificações e preconizou mesmo a construção de uma linha de defesa com frente olhando para sul ao longo da linha de alturas entre Almada e a Raposeira; natural seria pois ter havido intervenção nas fortalezas marítimas a sul do Tejo, nomeadamente a Torre de S. Sebastião.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt,1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

Uma "Memória Geográfica Sobre o Reino de Portugal", publicada em Paris em 1767, informa o seguinte: "A esta torre [S. Vicente de Belém] opõe-se pelo lado sul a Torre Velha ou de S. Sebastião. Está situada sobre uma montanha e as suas baterias altas e baixas cruzam a da Torre de Belém."

Da descrição pouco se pode inferir mas é possível que a fortificação estivesse então operacional. Na última década do século XVIII a Torre sofreu obras: um ofício dirigido ao juiz de fora da vila de Almada, datado de 24 de Fevereiro de 1793 faz referência ao envio de madeiras "para as obras que se estão fazendo na Torre Velha".

Caparica Torre Velha em Porto Brandão,  Cota GEAEM 2696-2A-25A-36 1795.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Estavam pois em curso, obras na torre, o que se confirma por um relatório de Guilherme Luís António de Valleré de 9 de Setembro de 1794 dirigido ao ministro da guerra, o Duque de Lafões.

Neste relatório, muito detalhado na descrição da artilharia, munições e palamenta existentes na torre, afirma Valleré que, "com as obras que se lhe têm acrescentado é capaz de se lhe colocar na frente que defende a passagem do Tejo, a artilharia seguinte: 12 peças de calibre 36; 13 peças de calibre 24; 11 peças de calibre 18; 7 peças de calibre 12. 

Caparica Planta da Torre Velha do Porto de Lisboa, Cota GEAEM 2700-2A-25A-36 1700 1900.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No total portanto de 43 peças só nas frentes do Tejo e previa ainda mais 6 peças de calibre 6 para defesa pelo lado de terra. De acordo com o mesmo relatório de Valleré o número de peças existente era inferior ao previsto: 5 peças de ferro de calibre 24; 7 peças de bronze de calibre 18; 7 peças de bronze de calibre 12; 6 peças de ferro de calibre 6.

Havia ainda mais uma peça de bronze desmontada e inutilizada. Todas as peças estavam montadas sobre reparos de marinha, novos.


Dirigiu as obras entre 1794 e 1796 o coronel Francisco D'Alincourt que, neste último ano apresentou um projecto para ampliação da fortaleza. 

O projecto não foi executado, apenas se verificando agora a existência de algumas partes que lhe podem corresponder.

São elas: um largo parapeito junto da bateria baixa que se propunha acasamatada, com frente para oeste-noroeste, que ainda estava por acabar em 1803 e uma bateria acasamatada para 6 peças, prevista para defesa pelo lado de terra, situada no canto sudoeste da praça alta, num lugar onde a planta de 1692 representava a muralha como inacabada. 

Caparica Torre Velha em Porto Brandão, Cota GEAEM 2680-2A-25A-36 1700 1900.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Um excelente desenho a cores de 1796 assinado por D'Alincourt mostra-nos que toda a artilharia destinada a atirar sobre navios seria disposta em baterias baixas acasamatadas. No desenho observam-se 29 canhoneiras em bateria baixa e 10 em bateria alta. 

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

A perspectiva não permite observar quaisquer posições viradas a norte e noroeste pelo que a previsão de artilhamento pode ainda ser superior aquilo que é visível no desenho. (6)


(1) Catarina Oliveira, IGESPAR, I.P./ Maio de 2012
(2) R. H. Pereira de Sousa, Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal, 1997
(3) Rafael Moreira in Pedro Cid, A Torre de S. Sebastião de Caparica..., Lisboa, Ed. Colibri, 2007
(4) António Caetano de Sousa, Historia genealogica da Casa Real... Tomo VII, 1740
(5) Rafael Moreira in Pedro Cid, Idem
(6) R. H. Pereira de Sousa, Idem

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Catarina Oliveira, IGESPAR, I.P./ Maio de 2012
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A (abandonada)Torre de São Sebastião de Caparica

Bibliografia:
Sousa, R. H. Pereira de, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Almada, 1981
Sousa, R. H. Pereira de, Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1997
Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896
Cid, Pedro, A Torre de S. Sebastião de Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II, Lisboa, Ed. Colibri, 2007

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cronologia breve da Torre Velha (1 de 3)

Torre Velha ou Fortaleza de São Sebastião de Caparica

Torre Velha, John Thomas Serres, c. 1801.
Imagem: Catarina Pires no Facebook

c. 1385-1390 (D. João I)

A fortificação dos lugares marítimos começou neste Reyno mais tarde; porque como naquelle tempo havia poucas mercancias, e comércios com os Estrangeiros, não tinhão os Corsarios em que fizessem suas prezas; com tudo El Rey D. João I. começou a fortificar os portos de Lisboa, e Setuval, fazendo no Tejo ao pé da Villa de Almada a Torre Velha [atalaia]; porque não tivessem abrigo os inimigos daquella banda, assim como o não tinhão da de Lisboa. 

A mesma diligencia fez em Setuval, edificando a Torre do Outão sobre o Canal do porto [...] (1)

O Mestre de Aviz, advertido pela experiência, escolheu o sitio, aonde as duas margens do Tejo se apertavam mais, e levantou na do sul uma bateria ao lume de agua. É provável que o seu plano fosse construir outra na margem do norte, mas não chegou a realisa-lo, e D. Duarte e D. Affonso V, não se occuparam d'esta obra.

c. 1490
(D. João II)

D. João II, mais cuidadoso, augmentou o forte de D. João I com uma bateria alta, e determinou erguer na ponta fronteira de Belém a torre de S. Vicente, cuja planta riscara o chronista Garcia de Rezende, a fim de cruzar com os d'ella os fogos da Torre Velha de Caparica. (2)


Foram tam temidas no mar as caravellas de Portugal muito tempo que nenhuns navios por grandes que fossem as ousavam esperar, atee que se soube a maneira em que traziam os ditos tiros e se trouxeram depois como agora trazem geralmente em todas partes o que dantes nam era; e el-rey foy o primeyro que o enventou. E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua cava com tanta e tam grossa artelharia que defendia o porto.

E assi outra torre e baluarte de Caparica defronte de Belem em que estava muita e grande artelharia, e tinha ordenado de fazer hüa forte fortaleza onde ora está ha fermosa torre de Belem que el-rey Dom Manoel que santa gloria aja mandou fazer, pera que a fortaleza de hüa parte e a torre da outra tolhessem a entrada do rio.

A qual fortaleza eu per seu mandado debuxey e com elle ordeney aa sua vontade; e ele tinha ja dada a capitania della a Alvoro da Cunha seu estribeiro-mor e pessoa de que muito confiava; e porque el-rey logo faleceo nam ouve tempo pera se fazer. (3)

1571 (D. Sebastião, fortaleza de S. Sebastião de Caparica)

Com o mesmo cuidado e providencia que a cidade de Lisboa deve ser fortalecida de novo Castello e de Muros e Torres, e Portas e Baluartes e De Bastiães, ao modo das fortalezas modernas, que hoje se custumam por toda a cristandade. E se posivel for cercada toda de novo e forte muro: inda que os velhos que lhe fez El Rei Don fernando, sejam ao seu modo honestamente fortes pela boa argamassa e entulhos que tem (que foi a melhor obra. que nenhum Rei fez em Lisboa. depois das Igrejas).

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Assi mesmo deve ser fortalecida, repairada e acabada a fortaleza de Belém E a de São Gião pois que tem tanto custado sem estar bem acabada. 

E isto, com alguns baluartes fortes que lhe respondam da outra banda da Trafaria e da área da Adiça; hum de fronte da Torre de Belem, onde esta a torre velha e o outro de fronte de S. Caterina de Ribamar que he a mais segura fortaleza de Lisboa ali onde acabam os Montes D almada e começam a área da ponta da Trafaria ou cachopo. (4)

1572

Neste Anno de 572 se acha que se entregou a Lourenço Pires [de Távora] a fortaleza de S. Sebastião de Caparica chamada comunmente a Torre velha situada em oposição da de Belém da outra parte do Rio com o intento de ajudar a empedir a entra do porto de Lisboa aos imigos que o intentassem, tinhalhe ElRey [D. Sebastião] prometido a Capitania della desde quando se principiava, e foi o primeiro Capitam que teve logrou a pouco, mas conserva-se em sua casa que anda de juro. (5)

1580 (D. António, prior do Crato, perda da independência de Portugal)

Retrato do sitio e ordem da batalha dada entre o senhor dom António, nomeado rei de Portugal, e o duque de Alba, tenente e capitão general do rei católico dom Filipe II, diante de Lisboa por mar e por terra, num mesmo dia, 25 de agosto de 1580. Palmela 5 leguas de lisboa; Almada; Armada de dom António; galeras de sua magestade; Torre Velha que estava por dom António [...] (6)

Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quasi seguro de vencer pelo oiro todos os corações [Filipe II de Espanha], mandara ao seu ministro [D. Cristovão de Moura], que alem de alliciar para o seu serviço o comitre [oficial das galés] hespanhol Contreras, que recebia soldo a bordo das galés de Portugal (ajuste que se realisou sem custo), procurasse attrahir os governadores das fortalezas de S. Julião e de Caparica [...]

O embaixador, sempre diligente, não se demorou em o satisfazer [...] Caparica dava-lhe pouco cuidado [...]

Batalha de Alcântara (detalhe), 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O governador era um dos Tavoras, Ruy Lourenço, seu primo, e de ha muito, asseverava elle, que lhe dera a sua palavra; como porém fosse moço e inexperiente, o ministro promettia chama-lo de novo, e assegurar se da sua deslealdade á pátria, e da sua fidelidade aos interesses castelhanos. (7)


(1) Manoel Severim de Faria, Noticias de Portugal Tomo I, Lisboa, Off. A. Gomes, 1791
(2) Rebello da Silva, História de Portugal Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871 
(3) Garcia de Resende, Vida e Feitos D'El-Rey Dom João Segundo, 1545
(4) Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, Francisco de Holanda, 1571
(5) Ruy Lourenço de Tavora, Historia de varoens illustres do appellido Tavora..., 1648
(6) Portraict du sitie et ordre de La bataille donnee entre Le sr. don Antonio nommé roy de portugal et Le duc dalbe...
(7) Rebello da Silva, História de Portugal Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871

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Leitura adicional:
Catarina Oliveira, IGESPAR, I.P./ Maio de 2012
Linhas de Fortificação da Margem Sul
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Forte de São Sebastião de Caparica (fortalezas.org)
rossio. estudos de lisboa n. 7 dez 2016
A (abandonada)Torre de São Sebastião de Caparica

Bibliografia:
Sousa, R. H. Pereira de, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Almada, 1981
Sousa, R. H. Pereira de, Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1997
Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896
Cid, Pedro, A Torre de S. Sebastião de Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II, Lisboa, Ed. Colibri, 2007

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Adhesão ao governo de João Franco

Em 2 de maio de 1907, os progressistas deixaram de apoiar João Franco que, não podendo governar à inglesa, passou a fazê-lo à turca, como então se dizia [...] (1)

Retrato de João Franco (detalhe), Julio Costa, 1903.
Imagem: DuasCidades

O sr. Presidente do Conselho recebeu hontem uma commissão de habitantes do concelho de Almada, que lhe entregaram uma mensagem de inteira adhesão á obra do governo, e que o sr. Conselheiro João Franco agradeceu, profundamente reconhecido por tão importante e significativa manifestação, assegurando que o gabinete continuará cumprindo honradamente o seu dever.

O ministério de João Franco, 1906.
Imagem: Wikipédia

A commissão foi apresentada pelo illustre chefe do partido regenerador-liberal n'aquelle concelho, sr. Manuel Figueira Freire da Camara e era com posta pelos srs. Raymundo Monteiro Torres, Antonio Serra, Antonio Joaquim Alves Valladares, tenente Guilherme de Azevedo, Manuel Joaquim Ribeiro, D. Francisco de Mello e Noronha, dr. Domingos Antonio Lopes, Ricardo da Silva, Elisiário Augusto de Passos Monteiro, Antonio Augusto Teixeira da Silva, Antonio Fernandes Martins, Carlos Silva, Manuel Henriques, dr. Camacho, Epiphanio Augusto Gonçalves, Bernardino Pinto, Manuel Carlos, Luiz Augusto Correia Salgueiro e João Danino, etc. 

Essa mensagem é do seguinte teor:

"Il.mo Ex.mo Sr. Conselheiro João Franco Castello Branco, Presidente do Conselho de Ministros e Ministro do Reino.

Os habitantes do concelho de Almada, adiante assignados, pertencentes a todas as classes sociaes, veem, sem preoccupações de politica partidaria, trazer ao governo, a que V. Ex.a tão dignamente preside, a adhesão, que elle tem subido merecer, pelas suas acertadas medidas para a regeneração económica, administrativa e politica do paiz.

A Paródia, n° 173, 15 de dezembro de 1906.
Imagem: Hemeroteca Digital

Muitos o calorosos teem sido os applausos á obra consciente, honesta e bem orientada dos homens do governo, porque o paiz, cançado de promessas faceis e raramente realisadas, está hoje seguro de que o seu único pensamento é, como V. Ex.a bem disse no discurso que corre impresso: 'dar satisfação ás aspirações e interesses nacionaes e ser instrumento de civilização e progresso.'

A Paródia, n° 186, 6 de abril de 1907.
Imagem: Hemeroteca Digital

Conscientes d'isto e não devendo ficar indiffcrentes perante o movimento geral, manifestado em favor do governo, os abaixo assignados veem depor esta mensagem, simples mas sincera, nas mãos de V. Ex.a

Almada, 1 de agosto de 1907."

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Também em nome do conselho de Almada foi entregue ao chefe do governo esta outra mensagem:

"Il.mo Ex.mo Sr. Conselheiro João Franco Castello Branco, Presidente do Conselho de Ministros:

No discurso lido por El Rei na sessão solemne da abertura das cortes em 29 de setembro do ultimo anno [v. abaixo], o governo, a que V. Ex.a nobremente preside, afirmou o proposito do transferir o Arsenal de Marinha, hoje insufficientemente dotado e sem a amplitude precisa, para a margem sul do Tejo, de modo a collocal-o em condições do poder corresponder ás exigencias da moderna technica naval.

Retrato de D. Carlos I (detalhe), Roque Gameiro, 1902.
Imagem: Tribunal de Contas

Conseguido isto, que seria bastante, por si só, para honrar uma administração, o governo, que tão empenhado está em gerir bem os negocios públicos, terá satisfeito uma aspiração nacional muito instante, uma necessidade publica imperiosa, e sobejamente merecido o reconhecimento do paiz.

Com um arsenal capazmente montado, será mais viável o desenvolvimento da nossa marinha de guerra, que tanto urge pôr em estado de poder, pelo valor e pelo numero das suas unidades de combate, cooperar activa e proveitosamente na defesa das costas do reino e do nosso património colonial.

Navios da Marinha de Guerra Portugueza no alto mar, Alfredo Roque Gameiro, 1903.
(Da esq. para a dir., cruzador Vasco da Gama, cruzador D. Carlos I, torpedeiro n.°2, cruzador S. Raphael, cruzador D. Amélia, torpedeiro n.° 3, cruzador S. Gabriel, cruzador Adamastor.)
Imagem: europeana collections

Os capitaes que precisamos de dispender com as construcções e reparações navaes, reverterão em favor da economia nacional, não serão levados, como até aqui, ao estranjeiro; e muitos braços, a que a pobresa das nossas industrias particulares não pôde dar emprego, encontrarão trabalho no novo arsenal. 

Em frente da ponte do Arsenal de Marinha, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Depois, é lastimável que, alliados da Inglaterra, a primeira potencia naval do mundo, não tenhamos um molhe do armamento a que possam atracar, para se reabastecerem, os grandes Couraçados; que não disponhamos d'uma grande doca de reparação onde, navios amigos, possam refazer-se das avarias soffridas n'uma acção naval; que não tenhamos, sequer, um lugar de abrigo onde, no estado de guerra, elles possam momentaneamente acolher-se para repousarem em segurança.

E sem isso, não poderá o porto do Lisboa, posto que magnificamente situado, servir de ponto de apoio verdadeiramente util a uma esquadra, como tanto interessa á nossa propria defesa.

Estudos completos, feitos por pessoa a quem se attribue elevada competência profissional, e já entregues na secretaria do ministério da Marinha, designam os terrenos, a conquistar ao Tejo, entre Mutella e o Alfeite, n'este concelho, como ser os preferidos, tanto sob o ponto de vista technico como economico, para a installacão do arsenal. 

Futuro Arsenal de Marinha na outra margem do Tejo.
Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Ocioso será, portanto, pedir ao governo de Sua Majestade que o arsenal alli seja estabelecido.

O concelho de Almada, tão favorecido pela natureza, mas tão carecido de progressos materiaes, bem merece esse importante melhoramento, que virá augmentar consideravelmente a sua população, desenvolver o seu commercio e valorisar a propriedade. O pais ficará contando, certamente, uma cidade a mais. Elevando-se, eomo elevarão sensivelmente, os rendimentos do concelhos, poder-se-hia modificar as condições materiaes e económicas das suas povoações, que ha muito reclamam beneficios úteis e até urgentes, mas que os recursos financeiros do município não teem deixado, por muito escassos, realisar. 

A grande ponte para caminhos de ferro e peões entre as duas Lisboas do futuro.
Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Resta-nos ainda uma solicitação a faser ao governo de Sua Majestade: que seja mandado executar, com a urgência que as circumstancias reclamam, o prolongamento do caminho de ferro do Barreiro a Cacilhas, cuja necessidade é evidente.

As communicações entre Lisboa e o Barreiro, sobre serem relativamente demoradas, offerecem dificuldades, mormente em occasiõos de nevoeiro, que não apresentam, ou que são, pelo menos, consideravelmente attenuadas, para Cacilhas. Bastará considerar que, para o Barreiro, a navegação tem de fazer-se, em grande parte, por um canal.

Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva (para editor local), 19, c. 1905.
Imagem: O Pharol

É notorio, além d'isso, que a estação do Barreiro já não satisfaz ás necessidades do trafego, tendo succedido ficarem mercadorias de fácil detereoração em caes descobertos ou nas linhas de resguardo, expostas á acção do tempo. E não será fácil, sem largos sacrifícios, accommodar aquella estação ás exigências actuaes. 

Pôde, de resto, prever-se com segurança que o capital a dispender pelo Estado com a linha ferrea do Barreiro a Cacilhas terá uma remuneração largamente compensadora.

Projecto de aterro dockas e caminho de ferro que devem ser construídos na bahia formada pelas águas do Tejo Barreiro e Cacilhas (detalhe), Jayme Lorches, 1860.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

N'estas condições, os abaixo assignados, habitantes do concelho de Almada, ou n'elle possuindo interesses, ficam esperançados em que o Governo a que v. ex.a dignamente preside attenderá, por que é justa, a representação que, sem preoccupações partidárias, veem depôr nas mãos de v. ex.a

Deus guarde a v. ex.a — Almada, 1 de agosto de 1907. (2)


(1) Politipédia
(2) Diario Illustrado, quinta-feira 8 de agosto de 1907

Informação relacionada:
Governo de João Franco (1906)

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O discurso lido por El Rei [D. Carlos] na sessão solemne da abertura das cortes em 29 de setembro [de 1906]:

"Dignos Pares do Reino e Senhores Deputados da Nação Portuguesa:

No cumprimento do Meu dever de Rei Constitucional venho hoje abrir uma nova época legislativa, felicitando-Me por poder consignar perante os representantes da Nação a cordialidade das relações de Portugal com todas as outras potências.


Retrato de D. Carlos I, Roque Gameiro, 1902.
Imagem: Tribunal de Contas

Com algumas delas existem, dependendo da aprovação parlamentar, convenções e acordos de interesse recíproco sobre que oportunamente tereis de deliberar; com outras estão pendentes negociações para a realização de tratados de comércio.

Tendo sido dissolvida a Câmara dos Senhores Deputados, procedeu-se a novas eleições gerais, aprazendo-Me constatar a perfeita ordem e inteira liberdade com que foram realizadas.


Na execução do seu programa político e administrativo, cujo desenvolvimento na parte dependente do Poder Legislativo sucessivas propostas de lei irão acentuando, o Meu Governo começará por vos apresentar importantes medidas que carecem da vossa atenção e estudo. Assim, à proposta de lei aprovando o contrato provisório celebrado com a Companhia dos Tabacos de Portugal, que, pela urgência do assunto, vos será em primeiro lugar apresentada, seguir-se-ão, como bases fundamentais da regularização da administração pública, as propostas de lei sobre responsabilidade ministerial e reforma da contabilidade, procurando assegurar por esta forma a ordem moral e material nos serviços do Estado.


Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Poder Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Poder Judicial; remodelando o Juízo de Instrução Criminal, de forma a tornar eficaz a responsabilidade dos seus funcionários e instituindo o princípio da instrução contraditória; dispensando a autorização do Governo para o prosseguimento dos processos criminais contra funcionários; garantindo a liberdade de associação; e abolindo os passaportes, excepto para os emigrantes Pela pasta do Reino, na parte propriamente administrativa e política, vos serão apresentadas propostas: - reconhecendo a urgência da reforma de alguns artigos da Carta Constitucional e Actos Adicionais; estabelecendo um novo regime eleitoral, com o regresso ao sistema dos círculos uninominais, alargamento da elegibilidade aos membros das classes trabalhadoras e entrega do recenseamento e das operações eleitorais ao Judicial; remodelando o Juízo de Instrução Criminal, de forma a tornar eficaz a responsabilidade dos seus funcionários e instituindo o princípio da instrução contraditória; dispensando a autorização do Governo para o prosseguimento dos processos criminais contra funcionários; garantindo a liberdade de associação; e abolindo os passaportes, excepto para os emigrantes.


Ainda pela mesma pasta, no capítulo da instrução, a que o Meu Governo dedica o maior interesse, vos serão submetidas duas propostas de lei: - tendo uma por fim a reorganização dos serviços da instrução pública na sua parte directiva e dando ao Conselho Superior uma acção mais larga e eficaz, tanto na organização do ensino como na escolha e garantias do professorado, e à Universidade de Coimbra, às escolas superiores e ainda a outros institutos principais de ensino uma autonomia e independência não só pedagógica, mas económica; e ficando, pela outra, autorizado o Governo a mandar ao estrangeiro, para complemento da sua instrução não só os estudantes pobres que hajam dado provas distintas de capacidade e aplicação, mas também os professores primários e de algumas disciplinas do ensino secundário que se mostrem especialmente aptos para adquirirem o conhecimento e prática dos melhores processos pedagógicos.


Pela pasta da Justiça, além da lei de responsabilidade ministerial, ser-vos-à apresentada uma proposta assegurando melhor a independência do Poder Judicial, separando as duas magistraturas - Judicial e do Ministério Público - e fazendo reverter para o Estado as custas dos processos criminais em Lisboa e no Porto, com a respectiva compensação para os magistrados e empregados de justiça. Também pela mesma pasta vos serão presentes medidas reformando a lei de liberdade de imprensa, remodelando a legislação actual sobre delitos de anarquismo, e estabelecendo um processo especial para a cobrança das pequenas dívidas.


Não descura o Meu Governo o progressivo aperfeiçoamento das instituições militares, e neste sentido, pelas pastas da Guerra e da Marinha, vos apresentará uma proposta de lei para a organização do Supremo Conselho de Defesa Nacional, tendo por fim assegurar a preparação da guerra e a estabilidade das organizações militares de terra e mar.


Pela pasta da Guerra vos serão apresentadas propostas: remodelando os tabeliães de vencimentos dos oficiais do exército e da readmissão das praças de pret; reorganizando a Escola do Exército e o Curso do Estado-maior; criando um colégio para filhos dos oficiais inferiores; modificando as condições da reforma dos sargentos e sargentos-ajudantes; remodelando a lei das servidões militares; alterando provisoriamente as condições de promoção dos tenentes de artilharia; reorganizando o Campo Entrincheirado de Lisboa; e difundindo a instrução militar preparatória em todo o país.


Igualmente chamo a vossa atenção e solicitude para as importantes questões dependentes da pasta da Marinha, tanto no que respeita aos serviços propriamente marítimos, como aos problemas da administração ultramarina. Quanto aos primeiros o Meu Governo vos apresentará medidas para a organização da marinha colonial; para a instalação do Arsenal de Marinha na margem esquerda do Tejo; para a organização da defesa móvel; para a supressão das Escolas de Alunos Marinheiros, organizando, em sua substituição, a instrução profissional da marinha mercante nos departamentos marítimos e preparando o início dos trabalhos da carta hidrográfica e das cartas de pesca; e, finalmente, para a protecção e desenvolvimento, da indústria nacional da pesca.

Quanto ao Ultramar apresentar-vos-à o Meu Governo medidas de carácter geral, como é a organização administrativa das diversas províncias, com uma descentralização diferenciada; e a correlativa organização militar, em bases mais económicas e com a separação das funções que correspondem às tropas ultramarinas das que só podem competir ao exército da metrópole; e medidas de interesse e fomento especial de certas províncias e regiões, como são a organização dos serviços e melhoramentos do porto de São Vicente de Cabo Verde e as tendentes ao alargamento da irrigação agrícola no Estado da Índia e à construção do caminho-de-ferro de Quelimane.


Como fundamento imprescindível e essencial para orientar e coordenar a intervenção dos corpos legislativos nos problemas do fomento nacional, oportunamente vos será presente pela pasta das Obras Públicas o relatório económico em que, coligindo-se numerosos elementos de informação dispersos por varias repartições e serviços, pela primeira vez se procura, de uma forma geral, estudar e definir as forças naturais, industriais e de acumulação que constituem a economia do país, precisar a influência da acção directa ou indirecta do Estado e formular as conclusões que se antolhem mais conformes ao proveitoso movimento dos variados factores económicos.

Como seu complemento e natural corolário, vos serão presentes propostas actualizando a legislação sobre propriedade industrial; modificando o ensino agrícola em proveito de uma melhor difusão das noções elementares de técnica rural, por meio das cátedras ambulantes; procurando a maior utilização profissional do nosso ensino industrial; e outras moldadas no mesmo intento de fazer coincidir a legislação com as características peculiares à nossa organização económica.


Dentro da mesma convergência de propósitos, como satisfação imediata a instantes razões de conveniência pública, serão primariamente submetidas ao vosso exame propostas regulando a exportação e comércio de vinhos generosos, que o Douro tanto e tão justamente reclama; fixando o regime para exploração e administração do porto de Lisboa; e providenciando sobre classificação, conservação e reparação das estradas nacionais.

Atendendo a uma alta questão de justiça social e de utilidade pública, no seu mais largo sentido, propor-vos-à o Governo a criação de uma caixa de aposentações para as classes operárias e trabalhadoras, seguindo assim na esteira das reformas sociais iniciadas em todos os países cultos.

E atendendo também às precárias condições económicas do funcionalismo público vos apresentará uma proposta de lei extinguindo o imposto de rendimento da lei de 26 de Fevereiro de 1892 sobre vencimentos não superiores a 600$000 reis e reduzindo a metade esse imposto sobre todos os outros.

No mesmo intuito vos será presente uma proposta elevando os ordenados dos aspirantes, amanuenses e segundos oficiais das Secretarias de Estado, começando assim o Governo a realizar o seu pensamento de melhorar sucessivamente, sem ocasionar perturbações financeiras, as condições de algumas classes do funcionalismo, especialmente nos graus inferiores.

Não tendo sido aprovado ainda o orçamento para o actual ano económico, entrou em execução, como o estabelecem as leis constitucionais, o orçamento de 1904-1905, último que obteve a sanção legislativa. Ainda no cumprimento dessas leis o Meu Governo vos submeterá o orçamento para o ano económico corrente, no qual tanto as receitas como as despesas vão calculadas por forma rigorosa e exacta e se descrevem em capítulo especial, para melhor estudo do parlamento, as despesas que o Governo encontrou criadas em virtude de diplomas susceptíveis de discussão.


A conversão da Dívida Pública Interna, a reforma do contrato vigente com o Banco de Portugal, a remodelação das disposições relativas a Companhias de Seguros, a desamortização dos bens da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado, o estabelecimento de uma carreira de navegação nacional para o Brasil - são outros tantos problemas de carácter financeiro e económico para a solução dos quais o Governo vos apresentará propostas de lei.


A renovação da proposta sobre a pauta das alfândegas dará ensejo a que possa ser devidamente apreciado e resolvido um assunto que, pela sua importância, complexidade e larga incidência sobre os mais variados ramos da actividade nacional, reclama a mais acurada atenção e a mais ampla cooperação e iniciativa parlamentar.


Dignos Pares do Reino e Senhores Deputados da Nação Portuguesa:


O simples enunciado dos trabalhos e problemas que nesta sessão vão ser submetidos ao vosso estudo e aprovação marca bem a grandeza da tarefa que vos está confiada. Espero, porém, que, com o auxílio de Deus, a vossa ilustração e a própria consciência das responsabilidades que tendes para com o País vos animarão a colaborar numa obra de larga regeneração nacional que abra à nossa Pátria uma nova era de prosperidade e grandeza moral.

Está aberta a sessão."

terça-feira, 20 de junho de 2017

Pancadaria

Uma senhora de Lisboa, tendo, de ir á Piedade, alugou em Cacilhas, um cavallo. Na volta, quando chegou a Mutella desequilibrou-se e deu uma grande queda, ficando bastante contusa.

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na occasião passavam dois actores do theatro do Principe Real em um trem, e apeando-se metteram a senhora no trem, montando em seguida os dois no cavallo.

Selo dos Templários mostrando dois cavaleiros num só cavalo.
Imagem: Wikipedia

Quando chegaram a Cacilhas apparece-lhes o dono do cavallo, que depois de pequena altercação puchou por uma perna de um dos cavalleiros que bateu com as costas na calçada arrastando o companheiro na queda.

Trens de aluguer em Cacilhas, c. 1907.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

Escusado é dizer que, levantando-se irados, saltaram no espinhaço do atrevido cacilheiro, desancando-o muito soffrivelmente.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Acode, porém, um bando de burriqueiros, cada um com seu cacete, que certamente teriam feito n'um feixe as costellas dos dois actores, se não apparece o official Vidigal que auxiliado por alguns soldados do destacamento de infanteria 2, apasiguou os desordeiros. 

Almada, Camara Municipal,
ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
Imagem: Delacampe

Os actores foram recolhidos na cadeia d'Almada, onde passaram a noite. De manhã foram soltos com fiança. (1)


(1) Diario Illustrado, 22 de abril de 1883

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Alfeite visto da Piedade em 1850

Será hoje difícil saber quantos álbuns de esboços o artista terá utilizado ao longo do seu acidentado percurso criativo. Mas, certamente, que Cristino [João Cristino da Silva] trazia sempre consigo, nas suas deambulações, um pequeno álbum onde, simultaneamente, ia desenvolvendo a atenção do olhar, disciplinando a destreza da mão e registando a impressão do momento.

João Cristino Silva, auto-retrato (detalhe).
Imagem: Arcadja

Um desses álbuns de desenho terá passado do seu filho, o também pintor João Ribeiro Cristino (1858-1948), para o seu neto, o arquitecto Luís Cristino da Silva (1896-1976), cujo espólio foi doado à Fundação Calouste Gulbenkian na década de 1980, encontrando-se actualmente no fundo documental da Biblioteca de Arte. 

Alfeite visto da Piedade [sic: Val feito - visto da piadade], João Cristino da Silva, Album de desenhos, c. 1850.
Imagem: Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr

Ao longo das duas faces das 68 folhas de papel que o tempo amareleceu, o avô Cristino desenhou apontamentos a grafite e carvão da paisagem e da arquitectura dos locais – Sintra, mas também Cascais, Santarém, Leiria, Buçaco… – por onde se fez a sua vida, e dos elementos animais – burros, bois, vitelos – e vegetais que os habitavam. 

Burro cacilheiro, João Cristino da Silva, Album de desenhos, c. 1850.
Imagem: Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr

São várias as cenas de costumes numa atenção ao pitoresco que caracterizou a pintura do Romantismo nacional. (1)


(1) Álbum de Desenhos, Biblioteca de Arte Gulbenkian

Informação relacionada:
Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr