domingo, 9 de janeiro de 2022

António Madeira, eu sou assim

À frente do Município de que é cabeça tão famosa e a ilustrar o seu passado glorioso, não faltam a Almada, iluminando-lhe os pergaminhos, autênticos testemunhos literários e picturais da grandeza da sua história.

António Madeira, EP Isto é Almada, 1964.
Fonoteca Municipal do Porto

O pincel de alguns artistas nacionais e estrangeiros e a prosa e o verso de vários dos nossos escritores e poetas seiscentistas, além dos descritivos modernos em revistas, "plaquetes" e cromos de divulgação turística, dão colorido relevo à fisionomia da vila-cidade de Cristo Rei.

António Madeira, EP Lisboa, foto António Paixão, 1962.
Fonoteca Municipal do Porto


Não esquecer que o seu cais é o de Cacilhas — o mais belo e movimentado pórtico flúvio-marítimo da margem esquerda do Tejo, aberto, ao Norte, sobre o panorama fantástico da Capital em anfiteatro, e, ao Sul, sobre a vasta paisagem compósita e policró-mica do território da península de Setúbal.



Este novo disco de António Madeira, é concerteza, mais um cartaz gritante da propaganda turística do já famoso concelho de Almada. "Isto é Almada" "Costa da Caparica" e "Fado Cacilhas" vão constituir mais um novo êxito na carreira artística do comer-ciante e cantor Almadense.

A valiosa colaboração da Comissão Municipal de Turismo Almadense, a qual muito contribuiu para esta gravação, deixa-se aqui realçada com a justiça merecida. (1)


(1) Fonoteca Municipal do Porto

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António Madeira (Fado Cacilhas), o concurso da rainha do balcão
António Madeira (Costa da Caparica), Ondéarte

António Madeira (Fado Cacilhas), o concurso da rainha do balcão

O programa radiopublicitário "Ondéarte", uma produção do dinâmico almadense Antónto Madeira, apresenta hoje pelas 20h. aos microfones de Rádio Voz da Lisbaa. na sua rubrica "Jornal Sonoro Almadense", "A coroação da rainha do balcão almadense de 1955" e das duas princesas eleitas.

Cacilhas, Ginjal Vista aérea do Grémio, c. 1960.
OBSERVADOR

No decotrer desta festa simbólica far-se-á a entrega dos prémios ás vencedoras, que foram gentilmente oferecidos por algumas casas comerciais de Almada. A reportagem fotográfica de todos os momentos deste simpático festival radiofónico esttá a cargo do artista da fotografia "Fotex" de Almada, cujos trabalhos serão expostos nas montras deste fotógrafo em Almada e também nas montras da Sapataria Madeira em Almada.

A "rainha do balcão Almadense", é uma simpática caixeirinha de drogaria e tem 19 anos de idade. As princesinhas são elas: a menina Argentina Marques Viegas, de 20 anos, empregada na Cooperativa Almadense, e a menina Maria Lucília Batalha Alves, de 15 anos, empregada de uma casa de ferragens.

Esta foi mais uma grande iniciativa de boa propaganda que Almada fica a dever ao incansavel almadense António Madeira, que é, como se sabe, o proprietátrio da já muito popular sapataria Madeira, de Almada, a qual afirma todas as quintas-feiras ao microfone do programa "Ondéarte", que os seus sapatos não fazem calos nos pés nem rugas nos calcanhares.



Quando perguntam a António Madeira se estava satisfeito com esta sua original ideia em organizar em Almada e todo o seu concelho um concurso deste género, respondeu prontamente:

Sabe, o meu unico fim em vista é fazer propaganda desta linda e risonha Vila de Almada. Nada mais pretendo!

E para terminar, dir-se-á que feliz é a terra que destes filhos tem! (1)


(1) Diário Popular, 2 de junho de 1955

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

António Madeira (Isto é Almada), o "cantor-vendedor"

No momento em que esta notícia sai a público, já se encontra à venda nas principais discotecas do País o 5.° disco de António Madeira, para a marca Parlophone, que reúne, com acompanhamento do conjunto de Jorge Machado, as composições "Isto é Almada", "Costa da Caparica", "Fado Cacilhas" e "Eu Sou Assim".

António Madeira em Almada, 1964.
almaDalmada

Como se depreende, o disco constitui um cartaz de propaganda de Almada sendo patrocinado pelo Turismo local.

António Madeira é um cantor pouco conhecidodo público porque a sua maior actividade é vender sapatos  nos três estabelecimentos de que é proprietário em Almada, o que lhe rouba tempo para se poder apresentar nas numerosas festas para que é convidado. Mas, sobre o seu valor, julgamos que fala melhor do que as nossas palavras o lançamento do seu 5.° disco comercial, proeza que muitas "vedetas" se não podem ufanar.



Muito novo, amigo da familia, António Madeira tem aspirações simples mas seguras: apresentar-se na televisão, gravar novos discos e ampliar as instalações das suas sapatarias. Porque ele gosta, efectivamente, de vender sapatos e de cantar, sem preferência de uma sobre a outra actividade, ainda que tão díspares.

Por isso, António Madeira é, bem, o "cantor-vendedor". (1)


(1) almaDalmada (imprensa/desconhecido em 1964)

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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

À margem do rio, Manuel Tavares Junior

Manuel Tavares é uma figura algo lendária, porque pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, exceto que nasceu no Couto de Cucujães (concelho de Oliveira de Azeméis), no ano de 1911, e que faleceu no ano de 1974.

Vista do Tejo e de Lisboa a partir de Almada, Manuel Tavares Junior, 1963.

... distinguiu-se como paisagista, tema em que se destacam as marinhas e a ria, e também como retratista de trechos citadinos. Das muitas exposições que realizou individualmente há que realçar as que tiveram lugar em Lisboa, no ano de 1942, em Almada (1961), Coimbra (1936).

Cista de Cacilhas (Ginjal), Manuel Tavares, 1950.
Cabral Moncada Leilões

Das mostras coletivas em que participou, os destaques vão para as ocorridas na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa (1950 e 1952), a primeira Exposição dos Artistas de Aveiro (1970), a Grande Exposição dos Artistas Portugueses (1935) e ainda exposições realizadas em Lisboa (1952, 1966 e 1974), Almada (1961), Faro (1968), Matosinhos (1953 e 1963) e Porto (1935).


Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, 1960
Cabral Moncada Leilões

Manuel Tavares está representado em diversos museus, nomeadamente no Museu Soares dos Reis (Porto), de Aveiro, de Beja, de Faro e de Matosinhos, bem como em coleções privadas, portuguesas como estrangeiras. (1)


(1) Cardoso Ferreira, Aveirense ilustre – Manuel Tavares, aguarelista de renome internacional, 2017

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À margem do mar, Manuel Tavares Junior

sábado, 30 de outubro de 2021

Canoa...

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira
Gaivota, que anda perdida
Sem encontrar companheira


Canoa afundada, Adriano Costa, 1923.
Museu de Lisboa

O vento sopra nas fragas
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango


Canoa
Conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem

Canoa
Por onde vais?
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais


Canoa de vela panda
Que vens da boca da barra
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra




Teu arrais prendeu a vela
E se adormeceu, deixa-lo
Agora muita cautela
Não vá o mar acordá-lo


Canoa
Conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem


Canoa, por onde vais?
Quando há norte pela proa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais

Canoa, por onde vais?
Quando há norte pela proa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais (1)


(1) Canoas do Tejo, Frederico de Brito, Carlos do Carmo

Informação relacionada:
Barcos miúdos de Lisboa

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Ode marítima (perto do outro lado do rio)

Lisboa. Vista panorâmica (8049 ed. desc.).
Delcampe

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui há uns momentos!
Histeria das sensações — ora estas, ora as opostas!
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe
As coisas de acordo com esta emoção — o marulho das águas,
O marulho leve das águas do rio de encontro aos cais...,
A vela passando perto do outro lado do rio,
Os montes longínquos, dum azul japonês,
As casas de Almada,
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... (1)
.  

Vista de Lisboa e Tejo (ed. desc.).
Delcampe


(1) Álvaro de Campos, Ode marítima, 1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915

domingo, 22 de agosto de 2021

Agostinheida

Contava já o heroe sette janeiros, Quando uma noite em sonhos lhe apparece O seu mentor na forma de um gigante; E, abrindo ambas as mãos, que, se as erguesse Com ellas até á lua chegaria, Mostrou-lhe n'uma um burro, e n'outra um barco, E disse, quasi em voz de uma buzina:

"Levanta-te, José, e vem servir-me; Levanta-te, José".  

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Este era o nome Com que o tinham á pressa baptisado. O heroe, abuzinado, arripiou-se, E, ainda mais que da voz, pasmou do gesto; Porém não se calou, que n'essa idade Já tinha para tudo audácia e lábia! 

E, no tom da malicia, mui pacato Responde "Quem sou eu que tão pequeno Possa ser servidor d'essa Grandeza. E muito mais sem eu saber quem sirvo".

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

"Levanta-te, José (insta o gigante) Tu podes, é meu gosto que me sirvas, E será teu proveito se o fizeres Sou Génio grande de um lugar pequeno Que é sobre o Tejo situado, em frente Da formosa cidade de Lisboa";

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

"Cacilhas é seu nome, e mui famoso Pelas grandes funcções de burricada Que no tempo em que os Zephyros campeão Dalli se fazem annualmente á Costa; Alli não estão nunca em ócio os burros, Que a diária carreira das faluas Continuamente leva, e traz, e torna Com folgazona turba cavalgante, Que deixa bons tostões nos taes folguedos:" 

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

"Para alli te encaminha, que alli devera Começar teus trabalhos, e fadigas; E d'alli partirás para Lisboa, Onde se ha de acabar tua fortuna, E nas boccas do mundo andar teu nome".  (1)

Foi tangendo os burros em que pesadamente se transportavam ao vir de Lisboa, que os barrigudos frades de S. Domingos conheceram em Cacilhas a José Agostinho de Macedo, a quem se affeiçoaram, que recolheram, e que por fim educaram como noviço nas escolas da communidade.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

O padre José Agostinho, tirado de traz dos burros, da carreira de Cacilhas á Cova da Piedade, para a carreira das lettras, foi, como se sabe, um dos mais eruditos escriptores e um dos primeiros litteratos do começo d'este século. (2)



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