terça-feira, 8 de abril de 2014

Lazareto de Lisboa, em 1897

À medida que nos aproximavamos, iam-se tornando cada vez mais distintas as feições do lendario monstro, besuntado a ocre, mórbidamente reclinado sobre as verdejantes colinas onde outrora existiu a fortaleza de S. Sebastião, da Torre Velha, monstro hoje escasso de forças, mercê dos repetidos ataques de que tem sido alvo, sem de todo o derrubarem, espantalho dos viajantes, dizem, e terror do comércio, que não poucas vezes, e ainda em época que não vai longe, quando as barbas do vizinho fumegam, por todos considerado seguro baluarte erigido na margem sul do Tejo para defender o país das invasões epidémicas. (1)


(1) Frazão, António, Branco e Negro Semanário Ilustrado, n° 60 2° Ano, Lisboa, António Maria Pereira (Livraria AMP), 1896 - 1898.
Fonte: Hemeroteca Digital 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Atravesse a Caparica no Transpraia

Atravesse a Caparica no Transpraia
Imagem: 20agetravel portugal

O Transpraia é um comboio turístico que [desde 29 de Junho de 1960] liga a praia da Costa da Caparica à Fonte da Telha, num trajeto de cerca de 9 km à beira do Atlântico num percurso que compreende 4 estações e 15 apeadeiros...

Transpraia, inaugurado em 29 de Junho de 1960
Imagem: Transpraia

Tendo inicialmente sido apenas um trator a puxar carruagens sobre um estrado de madeira para transportar as pessoas para a praia, a fragilidade da madeira não foi impedimento para Casimiro que, apesar dos estrados terem partido, continuou com o seu projeto.

Costa da Caparica, Caminhos da Praia, ed. Passaporte, 12
Imagem: Fundação Portimagem

Com uma bitola de 60 cm, o trilho tem um percurso de via única, com algumas agulhetas e duplicações de linha para cruzamentos e pontos de manobra, tendo sido utilizado o sistema de montagem Decauville.

Costa da Caparica, década de 1970
Imagem: ed. desc.

As pequenas locomotivas movidas a gasóleo puxam composições constituídas por quatro carruagens do tipo imperial, de acesso aberto pelos estribos laterais a sete bancos de quatro lugares corridos.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

As praias da costa foram desbravadas com o tempo e com a ajuda do Transpraia que, de Junho a Setembro das 09:00 às 20:00, foi dando a conhecer a beleza natural da Costa do Sol, e das novas praias, tendo lá chegado antes de qualquer outro.

Costa da Caparica, Ed. Zav, 1103
Imagem: Delcampe

No Verão de 2007 o programa Polis transferiu o Transpraia para a Praia Nova, o que afastou muitos clientes, campistas que o utilizavam para vir à cidade e especialmente idosos que têm dificuldade de caminhar na areia até ao novo terminal.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 94
Imagem: Restos de Colecção

A publicidade foi ao longo do tempo uma fonte de rendimento do Transpraia, que foi alegrando e colorindo as carruagens, hoje em dia, encontra-se bastante reduzida pela falta de visibilidade a que o Polis o votou.

Publicidade no Transpraia
Imagem: Transpraia

Os três comboios que fazem as viagens do Transpraia continuam a fazer a primeira viagem às 09:00 da manhã a partir da Praia Nova e a última viagem às 19:30 a partir da Fonte da Telha.

... E aguardam por si!... (1)



(1) Transpraia

domingo, 6 de abril de 2014

Na esplanada do forte de Cacilhas

Durante o reinado de D. Pedro II, entre 1668 e 1706, foram construídos os fortes da Foz, da Trafaria e da Fonte da Pipa.

No mesmo período foi também reedificado o Forte de Santa Luzia, em Cacilhas.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710

Em 1711 o Forte de Santa Luzia, assim como outros na margem sul do Tejo, encontrava-se artilhado.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710 (detalhe)

A gravura de 1793 mostra a esplanada do forte, elevada e com parapeito, sobre o Pontaleto, um cabedelo rochoso que ainda não se encontrava coberto pelo cais.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



Na sequência da batalha da Cova da Piedade em 1833, depois de ocupado pelas forças liberais, fizeram-se tiros de peça sobre os miguelistas em fuga para Lisboa.

Carta hydrographica do littoral de Cacilhas, 1838
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



A carta de 1838 mostra seis canhoeiras na esplanada de artilharia, no entanto podem-se admitir outras configurações que tenham evoluído ao longo do tempo.

Carta hydrographica do littoral de Cacilhas, 1838 (detalhe)
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Forte de Santa Luzia foi desartilhado entre 1833 e 1873.

No ano de 1844 servia de alojamento a oficiais reformados.

Em 1884, por influência do deputado pelo círculo de Almada, Jaime Artur  da Costa Pinto, foi demolida a esplanada do forte.

Notícia do jornal O Século em 2 de Março de 1884
Imagem: Antigos Alunos Emídio Navarro

Em 1912 já se encontra no local a casa de pasto Fonte da Alegria propriedade do espanhol J. Alvarez.


Hispano-Suiza de D. José Anadia em Cacilhas de partida para Sevilha, em 1912
lmagem: Restos de Colecção

No Largo do Costa Pinto, em Cacilhas na zona do pontal, José Pinto Gonçalves possuía o estabelecimento comercial Casa Beira Alta, localizado no prédio onde residia.

Casa da Beira Alta de José Pinto Gonçalves, Mercearia, Fanqueiro e Retrozeiro
Largo Costa Pinto, Cacilhas
Imagem: Boletim O Pharol

Em 1934 José Pinto Gonçalves e o sócio, Joaquim Mendes, adquirem a casa de pasto de J. Alvarez e renovam o espaço.

Fonte da Alegria
Imagem: Casario do Ginjal

Anos mais tarde a Fonte da Alegria daria origem à Cervejaria Farol, no mesmo local, na antiga esplanada do Forte de Cacilhas.

Cervejaria Farol (detalhe)
Imagem: Fundação Portimagem


Bibliografia:

Pereira de Sousa, R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

Boletim O Pharol n° 20, O Farol, Associação de Cidadania de Cacilhas

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Entre Cacilhas e Almada junto ao Tejo

... e isto já não é o Ginjal, o fim da muralha e a vereda de terra batida já pertencem à Fonte da Pipa... esta pedra é o Tramoceiro... naquela muralha fica a fonte... e ali, onde vês os barcos encostados, já é o Olho de Boi.

— Tramoceiro!?...

— Sim, Tramoceiro ou Tremoceiro, é a mesma coisa, é esta pedra junto à prôa da canoa... e, se um gajo não se põe a pau ainda embica ali...

— E o Tramoceiro caíu lá de cima?

— Duvido, as pedras aqui não caem, atiram-se!

— Como sabes isso tudo?

— Sei lá, foi assim que me ensinaram, foi assim que aprendi!

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A menina do mirante

O mirante onde ela estava é aquele que fica no fim da praia de Cacilhas, no sítio onde se tomam os banhos, lá mesmo em cima das ribas. 

O mirante assenta numa construção antiga que vem pelas ribas abaixo, a modo de configuração de torre, e parece o resto de uma muralha mourista, ali esquecida pelo tempo. (1)

(1) Andrade Ferreira, José Maria de, Revista contemporanea de Portugal e Brazil, n° 4, Vol. III, 1861
Fonte: Hemeroteca Digital 


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Caparica, 1923

Do outro o mar azul metendo-se, num jorro enorme, pela ampla barra de Lisboa, deslumbrante e majestosa. De onde isto é esplêndido é acolá do alto do convento dos Capuchos. (1)

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Da horrível Trafaria à Caparica gastam-se dezoito minutos num carrinho pela estrada através do pinheiral plantado há pouco. 

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112
Imagem: Delcampe

Os pinheiros são mansos, anainhos e inocentes: — os pinheiros novos são como bichos novos e têm o mesmo encanto. 

Ao lado esquerdo desdobra-se o grande morro vermelho a esboroar, e ao outro lado o terreno extenso e plano rasgado de valas encharcadas. De repente uma curva, algumas casotas cobertas de colmo — Caparica. 

Cabanas junto ao mar, Falcão Trigoso, óleo sobre madeira, 1925
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Primitivamente isto foi um grupo de barracas que os pescadores aqui ergueram neste esplêndido sítio de pesca, à boca da barra, a dois passos do grande consumidor. Têm um ar ainda mais humilde que os palheiros de Mira ou Costa Nova. 

Quatro tábuas e um tecto de colmo negro com remendos deitados cada ano: alguns reluzem e conservam ainda as espigas debulhadas do painço.

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

No imenso areal o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas para o céu. 

Praia do Sol, Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe

Trabalham seis companhas em catorze barcos. Já trabalharam oito. Cada barco emprega vinte e um homens, contando dez que ficam em terra. 

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins
Imagem: Delcampe

Usam quatro remos: um grande de cada lado e dois pequenos, servindo os maiores para aguentar o barco quando as águas puxam e se vai ao mar a risco. 

A cada remo grande agarram-se três homens e dois aos mais pequenos. O espadilheiro guia o barco com outro remo – a espadilha. Quando há muito peixe fazem-se três lanços cada dia, e trabalha-se todo o ano se o mar deixa. A rede é a de arrasto para a terra.

O barco sai ao mar deixando um cabo nas mãos dos dez homens que ficam no areal, e vai-o largando pouco e pouco — cinquenta e tantas cordas de dezoito braças cada uma. 

Quando o arrais acha que se deve largar a rede, diz: — Em nome da Senhora da Conceição, rede ao mar! – E larga-se o calão, em seguida o alar, depois o saco, e por fim o outro alar e o calão, trazendo-se a corda para a terra. Abica, salta a tripulação e com os homens de terra arrastam a rede. 

Apanha-se sardinha, carapau, e às vezes, em lanços de sorte, e quando menos se espera, a corvina, alguma raia, pargo e linguado. 

Costa da Caparica, Pescadores arrastando o seu barco, ed. Passaporte, 371
Imagem: Delcampe

Uma grande extensão de areal, só areia e mar, barcos como crescentes encalhados e alguns pescadores remendando as redes. 

Costa da Caparica, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n
Imagem: Delcampe

Nem um penedo. Areia e céu, mar e céu. Dum lado o formidável paredão vermelho, a pique, desmaiando pouco e pouco, até entrar pelo mar dentro todo roxo, no cabo Espichel. 

Assombro de luz e cor. Amplidão. As casotas da Caparica aos pés, o mar ilimitado em frente, ao fundo e à direita a linha recortada da serra de Sintra com as casinhas de Cascais e Oeiras no primeiro plano esparsas num verde-amarelado... 

E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel... 

Mas fecho os olhos – abro os olhos... Imensa vida azul – jorros sobre jorros magnéticos. Todo o azul estremece e vem até mim em constante vibração.

Costa da Caparica, ed. desc.

Quem sai da obscuridade para a luz é que repara e estaca de assombro diante deste ser, tão vivo que estonteia... (2)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Raul Brandão, idem

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Ginjal não é para raparigas solteiras

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal


... no Ginjal nem tudo era pitoresco e divertido. 

As minhas tias e a meia dúzia de raparigas solteiras não gostavam de morar no cais. 

Queixavam-se elas de que viver debruçadas naquela muralha só lhes trazia tristeza e infelicidade.

Por  aquele caminho só passavam operários, trabalhadores braçais e tripulantes das fragatas e dos rebocadores, que vinham carregar a mercadoria para os grandes navios.

Tudo gente que mourejava nos armazéns e nas fábricas, velhos e jovens andrajosos, muitos deles descalços, que alugavam a força de trabalho aos proprietários das firmas.

No dizer das moças casadoiras, aqueles homens não haviam sido talhados para elas lhes darem atenção.

E os anos passavam e o cais continuava embruxado. Nada alterava a vida das mulheres que não perdiam a esperança de casar.

Repetiam as tias que viver ali era como se fossem condenadas ao degredo, a um viver sem futuro, que nada mais pudesse existir para lá do sustento e dos carinhos do papá e da mamã.

Quando, certa tarde, apareceu no Ginjal o amanuense da Câmara Municipal, José Carlos de Melo, solteirão de quarenta anos, a tirar o chapéu à tia mais nova, semeou o pânico nas três filhas do Zé Correia.

Mas a Ema enveredou por uma atitude de soberba, evitando o pretendente mal ele aparecia à esquina do cais.

Tantas partidas destas lhe fez que espicaçou a curiosidade da irmã mais velha, Julieta de seu nome, que resolveu aproveitar, prantando-se à janela todas as tardes. 

E foi deste modo que o Zé Melo entrou para a família.

Quanto às outras duas, a Ema e a Eugénia, não lhes apareceu outra oportunidade de casamento. 

Ficaram para sempre, e só, tias — e assim envelheceram e morreram, coitadinhas. (1)

Taxi Diver, Acrílico s/ tela, Carlos Farinha, 2013
Imagem: Carlos Farinha



(1) Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.