domingo, 4 de março de 2018

A povoação do Caramujo na década 1900

Povoação na freguezia de S. Thiago e concelho dc Almada, districto de Lisboa. É contigua ao pittoresco logar da Cova da Piedade. Graças á sua situação sobre o Tejo, que lhe permitte fáceis communicaçòes com os navios mercantes que veem ao porto de Lisboa, teve em tempos o Caramujo grande commercio de vinhos para o Brazil e África.

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Hoje restam apenas algumas casas das que se entregavam a esse commercio, taes como as das firmas Valladares, Figueiredo, Paiva, etc. Em consequência d’esse embarque dos vinhos, era aqui numerosa a classe dos tanoeiros, mas esta industria está hoje decahida.

Tanoeiros.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Pelo contrario, o desenvolvimento industrial é importante. Existem no Caramujo varias fabricas para a preparação da cortiça, taes como as da Companhia Ingleza, Villarinho & Sobrinho, Rankin & Son’s, e outros pequenos estabecimentos de rolheiros e quadradores de cortiça.

Rankin & Son’s na Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, ant. a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa Rankin & Son’s

Uma das melhores fabricas de moagem em Portugal está aqui estabelecida é a da firma A. J. Gomes & Commandita, successora da viuva de Manuel José Gomes & Filhos.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Toda construida em cimento armado, acha-se dotada dos apparelhos mais modernos e aperfeiçoados. O edificio é dividido em andares, em cada um dos quaes se faz uma operação distincta da moagem, tudo automatica e mechanicamente.

Cilindros verticais em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

A illuminação é electrica, e tão importante estabelecimento póde considerar-se um verdadeiro modelo no seu genero. 

Planchisters em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

Em 25 de março dc 1903 realisou a Academia de Estudos Livres uma excursão a esta fabrica, publicando-se por essa occasião na imprensa jornalistica varias descripções interessantes, entre as quaes se póde indicar a do Diário de 29 do mesmo mez e anno [v. Tesis Doctoral - Fábrica de Molienda "António José Gomes", Primer edificio de hormigón en Portugal La revitalización de espacios degradados - Micro y macro dificultades de una tecnología - Samuel Roda Fernandes - Anexos]

Tem est. tel. e post. permutando malas com Almada e Lisboa. (1)


(1)  Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906

Pesquisas relacionadas:
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caramujo
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: cacilhas
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caparica

Referências:
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A SFUAP e a PIDE

A SFUAP (Sociedade Filarmónica União Artística Piedense) é uma Sociedade de largas tradições populares na Cova da Piedade. Tem cerca de 80 anos de existência [est. 1889], é a mais velha colectividade de Almada e a sua banda, com quarenta elementos, a sua biblioteca e o seu grupo cénico, (além da sala de cinema) sempre foram motivo de orgulho da terra pois muitos contribuíram para manter o espírito popular e de união entre os piedenses. 

Cova da Piedade, a sede da SFUAP em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Daí que a Sociedade tenha cerca de 6000 sócios. Teatro, música, leitura, bailes, futebol (no Clube Desportivo), festas populares e mais tarde cinema, foram sempre actividades que "animaram" o povo da Cova da Piedade.

Até que... em 1960, a Sociedade vê-se a braços com alguns problemas, O número de sócios é cada vez maior, e as instalações vão-se tornando cada vez mais pequenas para comportar tantos sócios, principalmente na altura das festas.

Começa-se assim a pensar no alargamento das instalações da Sociedade. Mas para isso é preciso "muito dinheiro" e só a Câmara de Almada poderia ajudar.

Mas para isso era preciso ter influências lá dentro. Por isso, nesse ano, os sócios resolveram eleger para presidente da Assembleia Geral da Sociedade, o presidente da Junta de Freguesia, Mário Pinto, homem rico, segundo se diz, pois é genro dum grande corticeiro da Cova da Piedade e com "conhecimentos" na Câmara de Almada.


Cova da Piedade, a Junta da Freguesia em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Instalado o "amigo" Pinto dentro da Sociedade, este resolve convidar o seu particular "amigo" Orlando Soares — funcionário da PIDE, para a Direcção da Sociedade, apresentando-o aos sócios como uma pessoa com muitas influências" e capaz de dar à Sociedade a ajuda desejada.

E assim temos a "Pide" a tomar conta dos destinos desta agremiação popular. Aos poucos vão entrando para a Direcção, os outros comparsas da camarilha do OrlandoDiamantino Xavier, José Maria (um caixeiro viajante), Anselmo (presidente da Comissão de Festas da Nossa Senhora da Piedade),e outros indivíduos (por agora não sabemos o nome deles, em breve poder-se-á informar) jk 

Ingenuamente, o povo da Cova da Piedade tinha-se deixado levar.

Cova da Piedade Largo 5 de Outubro Mercado 02

Em breve vao-se sentir os efeitos da política de tal dírecção: 

— o teatro vai morrendo (não se pode gastar o dinheiro da Sociedade com teatros)
— os bons livros da Biblioteca vao desaparecendo (o ano passado foi queimada a história da Filosofia de Bertrand Russel, publicada em fascículos e a "Vértice") 
— os bailes, antigamente autênticos pretextos para uma boa convivência, tornam-se agora no dizer do povo, numa verdadeira "xungaria" 
— a banda de música quase que deixa de existir 
— o cinema torna-se um foco de mentalização "pro-americana" — filmes de terror e cow-boys a 2$50 por sessão 

O pior ainda é que a Sociedade serve de coio à PIDE, como agente de repressão do povo da Cova da Piedade - a ordem de prisão do Sr. Sim-sim, funcionário do Arsenal do Alfeite, foi redigida por Orlando Soares na Sede da Sociedade. 

Quando se fez uma campanha para a compra de uma ambulância a oferecer para a guerra de Angola, estava o amigo Orlando a querer utilizar os fundos da Sociedade para dar uma contribuiçao e se nao o fez, foi devido à oposição de alguns dos sócios honestos que tiveram conhecimento disso e o impediram.

No entanto nao se chegou a saber se desviou ou nao algum dinheiro da Sociedade. E muito mais coisas que resta ainda averiguar. Por fim eram os ficheiros dos sóciosquase todos os homens da Piedade são sócios da SFUAPque serviam à PIDE para efectuar as suas prisõesServiço facilitado!

Uma telefonadela para o amigo OrlandoOuve lá, fulano, conheces o tipo X? Onde é que ele mora? Onde trabalha?E no outro dia de manhã, às 6 horas, à porta desse amigo, ou à porta do empregolá estava um Volkswagen verde com três pides para o ir buscar Foi assim que sucedeu com vários democratas presos não há muito tempo.

Então e quanto a ajudas à Sociedade, quanto ao seu alargamento? Bom, fizeram-se grandes projectos,  um deles, o projecto da nova sala de espectáculos, até custou 300 contos (só o projecto). 

Construiu-se até - para o povo ver que o amigo Orlando tinha na verdade grandes influênciasuma piscina que importou em cerca de 3500 contos, uma piscina que seria o orgulho do concelho - segundo as suas palavras.

Cova da Piedade, piscina da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, 1966.
Dimensões, em metros: comp. máx., 25; larg. máx., 21; larg. mín., 16; prof. mín., 1,20; prof. máx., 5,40; alt. máx. das pranchas de salto, 15.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O dinheiro arranjava-se com facilidade, Contraiu-se um empréstimo à Caixa Económica o dinheiro feito nas festas de Nossa Senhora da Piedade (que estava destinado à construção de uma creche) também foi emprestado, puseram-se as entradas para a piscina a 10$00, iam pedir-se uns subsídios à Câmara e o problema resolvia-se. Na verdade está quase resolvido.

Em fins do ano passado os sócios tomam conhecimento que a Sociedade iria ser penhorada pois tinha que pagar imediatamente encargos no valor de 61 contos; dinheiro que a Sociedade não possuía que os cálculos apresentados pelo Orlando Soares tinham saído furadosos sócios não acorriam à tão bela piscina. 

Evidentemente a poucos quilómetros da Costa da Caparica gastando apenas 5$00 numa ida e volta o povo da Cova da Piedade continuava a preferir a praia. E os subsídios da Camarabom, o dinheiro da Câmara nunca ninguém sabe para onde vai!não apareciam.

E depois a piscina não foi muito ao agrado dos sócios e a opinião deles também não tinha sido pedida (aliás nem os consultaram)Só uma coisa resultara na ideia de Orlando: fazer acabar com a SFUAP; tira-la das mãos do povo.

Cova da Piedade, piscina da SFUAP, 1967.

Mas alto lá, povo agora tinha aprendido com esta experiência longa de 8 anos Não se acaba com a sua Sociedade" assim com duas cantigas. 

Ao grito de alarme "A Sociedade vai ser penhorada" acorreram os sócios em massa. Estamos em fins de Dezembro 1967. A Direcção que se mantivera na Sociedade durante 8 anos tinha que apresentar o seu relatório de contas e explicar o que se passava. 

Faz-se uma Assembleia (nunca na Cova da Piedade se fez uma tão grande Assembleiaeram centenas de sócios a encher a sala de espectáculos, a exigir uma explicação). O Orlando Soares aparece mas vendo o caso mal parado desaparece e não põe mais os pés nas Assembleias que se irão seguir.

O povo exige: o julgamento da comissão-pide tem que ser completo, o problema tem que ser esclarecido, façam-se as assembleias que se fizerem. O relatório é feito, a situação torna-se clara para todos. A Direcção fez despesas insuportáveis para a Sociedade, há dinheiro que desapareceu não se sabe para onde. É evidente que os sócios tém sido espoliados.

Então o povo reage, reage fortemente como só ele sabe reagir nestas ocasiões. "Estamos a ser burlados, sim, e a culpa é nossa porque temos medo"é a voz corrente. Um sécio sobe ao palco da sala e diz em voz alta para a assistência:Meus senhores, eu não tenho medo! Quando uma direcção não é capaz de dirigir uma sociedade o melhor é ir-se embora.Apoiado! Nós também nãotemos medogrita a multidão na salaFora, fora com eles! É a apoteose final. 

A Direcção é obrigada a demitir-se, levando "em cima" um voto de desconfiança de todos os sócios. O Conselho Fiscal recusa-se a aprovar o relatório de contas (Está falseado! - afirmam os sócios entre si). 

É eleita uma nova Direcção, constituída agora por sócios que já deram garantias de seriedade noutras instituições da terra. Aliás o seu programa para já, é mesmo democrático: os problemas da sociedade serão resolvidos se todos quiserem colaborar.

Programa do 79.° Aniversário da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (23/10/1968).
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O povo começou a organizar-se. Formou-se já uma "comissão de angariação de fundos", com 15 elementos, que tém vindo a pedir dinheiro a toda a gente (batem a todas as portas). Já conseguiram arranjar mais do que é necessário para pagar a dívida mais imediata: os 61 contos de encargos. Alias as sociedades irmãs lá da terra, prontificaram-se a dar uma grande ajuda. Até as mais pequeninas, com muitos sacrifícios. É verdade, não quiseram deixar de participar neste acto de solidariedade.

A Sociedade, por um descargo de consciéncia ainda, resolveu pedir a ajuda da Câmara. Que ao menos lhes desse agua para a piscina. Mas foi uma nova ilusão. "O Senhor Presidente" informa que a Câmara não pode "fornecer agua de borla". 

Mais uma liçào que aproveitará muito ao povo. Agora todos começam a convencer-se de que só eles é que poderão e saberão construir. Começa a surgir um movimento de unidade ente as colectividades populares, não só da zona, mas de toda a margem Sul.

A SFUAP fez um apelo a todas as outras Sociedades para que a ajudem a resolver os seus problemas. Quanto ao "Orlando" parece que as coisas estao a correr mal. A sua demissão deu tal brado que segundo consta vai ser transferido para a cidade da Guarda. Atenção Guarda mais um patife para a vossa terra.

NOTAS

Acerca destes indivíduos, não consta que sejam da Pide, mas sempre se prestaram a colaborar com o Orlando e a manter-se com ele na Direcção.

Uma outra actividade dos pides: o Orlando e camarilha tém um programa de radio, chamado "Imagens Piedenses" [emitido entre 18 de Abril de 1966 e 25 de Abril de 1974] e transmitida pelos "Emissores Associados de Lisboa" aos domingos de manhã. 

A coberto deste "programa, o reporter do Orlando "metia-se em todas as realizações das colectividades do concelho para gravar conversas. Pez isto especialmente na Homenagem feita pelas colectividades da Piedade e do Laranjeiro ao escritor Ferreira de Castro.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Depois mais tarde, cem uma grande lata, informou alguns amigas que e pide o tinha abordado e lhe levara as fitas de gravação [...] (1)


(1) Casa Comum, A PIDE foi expulsa da Cova da Piedade, 1967

Artigo relacionado:
SFUAP, origens, teatro e escola

Mais informação:
Casa Comum, Relato de situação na Sociedade Filarmónica União Artistica Piedense, 1967
Diário de Lisboa, 16 de janeiro de 1968

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Euchloe tagis (borboleta tipo Piedade)

Ilustração original de Euchloe tagis publicada por Jacob Hübner na obra “Sammlung europäischer Schmetterlinge” (1796-1805) onde descreve a nova espécie para a ciência (pl. 110 figs. 565-566; © www.biodiversitylibrary.org).

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis


Os exemplares foram capturados pelo conde alemão Johan Centurius von Hoffmannsegg (entre 1797 e 1801) em "Piedade near Lisboa”, o que explica o nome específico de tagis, que significa em latim "relativo ao Tejo". (1)

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis

Esper (1805), para além de uma descrição extensa da espécie, publicou interessantes detalhes sobre o local onde foi encontrada, período de voo, flores onde se alimenta, etc. Destes detalhes destaco os seguintes:

Encontra-se na margem esquerda do Tejo, em frente a Lisboa, nos campos arenosos mas floridos, por entre as vinhas atrás de Almada, Casilhas [SIC] e Piedade.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

O período de voo começa em Fevereiro e prolonga-se até ao princípio de Abril


Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Na região de Lisboa, tal como na margem direita do Tejo, onde a P. Belia [Euchloe crameri] e a Belemia são frequentes, nunca foi vista [...]

Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Zerkowitz (1946), listou as localidades então conhecidas da distribuição da E. tagis, incluindo a "Piedade near Lisbon (type locality)" [Na bibliografia a que tive acesso este é o único registo que indica a “localidade tipo” da espécie] ... (2)


(1) tagis, Centro de Conservação das Borboletas de portugal
(2) Santos Carvalho, Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Mais informação:
Bibliography for Euchloe tagis (Biodiversity Heritage Library)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Criada para todo serviço no Teatro Desmontável

Almada, "Teatro Desmontável" do grupo de teatro de Rafael de Oliveira apresenta peça de comédia "Criada para todo serviço" de Vasco Morgado com interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Alma Flora, Maria Dulce e Artur Semedo.

Cartazes com Laura Alves e Assis Pacheco junto às viaturas dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas em 1962.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

"Durante o dia, os bilhetes encontram-se à venda na bilheteira da porta do palco" (1)

O "Teatro Desmontável" em 1962, instalado na zona da actual Praça de S. João Baptista em Almada.
Imagem: RTP Arquivos

A criada de "Criada Para Todo o Serviço" é muito especial.

Anúncio da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Além de assegurar as limpezas, tem visões e é por esta capacidade especial que é contratada pela dona da casa, uma advogada que nunca fez nada na vida e que está mais interessada naquilo que a criada consegue ver dos seus convidados, do que praticamente nos seus dotes domésticos [...] (2)

Cena da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Comédia "Criada para todo Serviço", de Barillet & Grédy, adaptada por José Andrade. Encenação de Manuel Santos Carvalho e cenografia de Pinto de Campos. 

A actriz Laura Alves no camarim do "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Maria Dulce, Maria Paula, Alma Flora e Artur Semedo. 

O público na peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Uma produção de Vasco Morgado no Teatro Monumental em 1961. (3)


(1) Noticiário Nacional, RTP Arquivos, 1962
(2) Diário de Notícias (Funchal)
(3) MatrizNet

Informação relacionada:
A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados
Companhia Rafael d’Oliveira, Artistas Associados (Instituto Camões)
Opsis (base iconográfica do teatro em Portugal)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Frei Luiz de Souza

DRAMA

Apresentado pela primeira vez em Lisboa, por uma sociedade particular, o teatro da quinta do Pinheiro em 4 de Julho de 1843.

Lugar da scena — Almada

Casa da Cerca em Almada.
Imagem: Geni

ACTO PRIMEIRO

Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa:

entre as janellas o retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.

Defronte e para a bôcca da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores.

Algumas cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior.

É no fim da tarde [...]

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Gravura Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

Magdalena so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem descahiu da leitura na meditação.

MAGDALENA, repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler

"N'aquelle ingano d'alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito..." [...]

TELMO

Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?

Que o pobre de meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois... mas amor! [...]

MAGDALENA

Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis...

Almada, Seminário [antigo Convento Dominicano de S. Paulo], ed. J. Lemos, 3, década de 1950.
Imagem:

TELMO

Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!... quatro passadas.

MAGDALENA

E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. 

(Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!... quasi que não ha vento, é uma viração que affaga... Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas — n' aquella tam bonita — venha Manuel de Sousa.

Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas!

Que elle é tam bom mareante... Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares... E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.

Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.[...]

JORGE, alto

Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para côrte e "buen-retiro" dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares lavados e graciosa vista.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Imagem: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

MAGDALENA

Deixá-los vir.

JORGE

Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro, presidente do govêrno.

Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe secular... o mais, paciencia. Peior é o vosso caso...

MAGDALENA

O meu!

JORGE

O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro governadores — e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de Lisboa — dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria. [...]

ACTO SEGUNDO

É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal.

Frei Luis de Sousa pelo Grupo Boa Vontade,na década de 1950.
Imagem: O Cine Teatro de Moçâmedes (Namibe)

Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. 

São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde.

No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.

TELMO

Menina!...

MARIA

"Menina e môça me levaram de casa de meu pae:" é o principio d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o eu.

Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é."

E não me repliques, que então altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite que dorme com socêgo. 

Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o rebate dos sinos, aquella scena toda... oh! tam grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro de egual majestade!... á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com furia infernal [...]

No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio. É alta noite [...] (1)


O retratto de meu pae, aquelle do quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem, vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito--aquelle retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se queimásse alli. [...]

TELMO

Sim é: Deus o defenda!

MARIA

Deus o defenda! amen. E elles, os tyrannos governadores ainda estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das diligências do tio Frei Jorge? 

TELMO

Ja, sim. Vão-se desvanecendo — ainda bem!— os agouros de vossa mãe... hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem. 


MARIA

Meu nobre pae! Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio? Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo! [...]

MAGDALENA

E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger...

ROMEIRO

Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

MAGDALENA

Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

ROMEIRO

Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.--Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê. [...]

MAGDALENA, aterrada

E quem vos mandou, homem?

ROMEIRO

Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

MAGDALENA

Como se chama?

ROMEIRO

O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

MAGDALENA

Mas emfim, dizei vós...

ROMEIRO

As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu... e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras. [...]

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

JORGE

Se o vireis... ainda que fôra n'outros trajes... com menos annos — pintado, digamos — conhece-lo-heis?

ROMEIRO

Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

JORGE

Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

ROMEIRO, sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João

É aquelle.

D. João de Portugal de Miguel Angelo Lupi, inspirado em Almeida Garrett.
Frei Luís de Sousa (cena XIV do 2° acto)
Imagem: MNAC

MAGDALENA, com um grito espantoso

Minha filha, minha filha, minha filha!... (em tom cavo e profundo) Estou... estás... perdidas, deshonradas... infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!... (Foge espavorida e n'este gritar.) [...]

ACTO TERCEIRO

Cena da peça Frei Luís de Sousa, no teatro Príncipe Real (posteriormente Teatro Apolo), 1909.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada:

é um casarão vasto sem ornato algum.

Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. 

Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem, e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. [...] (1)


(1) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Livraria Chardron

Artigos relacionados:
Manuel de Sousa Coutinho
Convento Dominicano de São Paulo de Almada
Embrechados (4 de 5)

Informação adicional:
Visita conventual ao Seminário Maior de Almada

domingo, 7 de janeiro de 2018

Marina Neves (1943-1965)

Marina Neves, nome artístico de Maria de Lourdes Nogueira Neves, nasceu em Lisboa a 25 de Março de 1943, foi cantora e atriz. 

Cova da Piedade Marina Neves (1963-1945).
Decca Records: Noivado, Lado a lado (A); Gosto de você meu bem, Aventura (B).
Imagem: Discos de Vinil Repetidos

Trabalhou na Emissora Nacional. A sua grande, mas curta atividade como cantora levou-a a todo o país e também a Espanha, atuou também em África (Angola e Moçambique). 

Na televisão atua essencialmente em programas de variedades, descoberta por Melo Pereira, que a leva para a RTP.  (1)

Sempre acompanhado de diversas imagens antológicas provenientes do Arquivo da RTP, há ainda lugar neste episódio para recordar três vozes que nos abandonaram precocemente: Maria Marize e Marina Neves, recordadas por Artur Garcia, e Mirene Cardinalli [ver episódio]. (2)

Como atriz, fez o filme "Uma Hora de Amor" ao lado de António Calvário. (3)


Foi uma actriz, conhecida por Uma Hora de Amor (1964) [v. abaixo], Melodias de Sempre (1960) e A TV Através dos Tempos (1964)

Faleceu em 1965. (4)

Tendo-se iniciado no Centro de Preparação dos Artistas da Rádio, no inicio dos anos 60, tornou-se particularmente notada, quando a editora Alvorada, resolveu em 1964 editar as canções do Festival desse ano, por vozes diferentes das dos criadores.

Marina Neves foi escolhida para cantar Olhos nos Olhos, e fê-lo numa colagem tão precisa à versão original de Simone de Oliveira, que foi com um misto de surpresa e de crítica que foi recebida a sua interpretação. A polémica daí resultante foi quanto bastou para que se tornasse de imediato uma cantora requisitada.


Marina Neves, jovem muito bonita e bastante simpática, tornou-se figura indispensável dos Serões para Trabalhadores , tendo feito sucesso nesses e em todos os outros espectáculos em que participou.

A sua voz e expressividade em palco tinha potencialidades que infelizmente não pode desenvolver.

Uma doença oncológica, poucos meses depois, afastá-la-ía dos palcos e tirar-lhe-ia a vida.


As canções que deixou gravadas testemunham a sua qualidade vocal, apesar de, no entanto, estarem muito aquém do que ela merecia. A sua morte, prematura, com pouco mais de 20 anos provocou na altura, uma verdadeira comoção nacional.

Tal como sempre acontece, tão forte foi a comoção, quão rápido foi o esquecimento. (5)


(1) Palco a Quem Merece
(2) Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa (episódio 7)
(3) Palco a Quem Merece
(4) IMDB
(5) in-senso: Mirene e Marina

Mais informação:
Revista Plateia n° 489, 5 de novembro de 1974:
Marina Neves, homenagem póstuma na Cova da Piedade

Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa (RTP Play)

sábado, 30 de dezembro de 2017

José Elias Garcia (1830-1891)

Nascido em Cacilhas (Almada), a 31 de Dezembro de 1830, filho de José Francisco Garcia, chefe de oficinas do Arsenal da Marinha, defensor das ideias liberais que foi perseguido e preso pelos miguelistas. Em 1833, o pai de José Elias Garcia foge da cadeia do Limoeiro, quando aguardava a condenação à morte.

José Elias Garcia.
Imagem: ANTT

Elias Garcia estuda primeiro na Escola de Comércio de Lisboa, que conclui em 1848. Mais tarde entra na Escola Politécnica de Lisboa, seguindo posteriormente para a Escola do Exército (1857). Enveredando pela carreira militar assenta praça em 31 de Agosto de 1853, como voluntário no Regimento de Granadeiros da Rainha, atingindo o posto de coronel em 27-09-1888.

Dedicando-se ao ensino, foi convidado para leccionar a cadeira de Mecânica Aplicada, na Escola do Exército. Ocupou ainda outras funções como: no Conselho Geral de Instrução Militar, Conselho Naval, presidente da Junta Departamental do Sul e da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses.

José Elias Garcia por Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foi um dos principais responsáveis pelo aparecimento de um grupo republicano cerca de 1850, fruto das consequências das revoltas que tinham eclodido na Europa em 1848 [...](1)

*
*     *

Após a aclamação de D. Miguel (26-6-1828) seguem-se seis anos de terror, com perseguições, deportações e execuções. Em 27-10-1828 é publicado o Edital da Intendência Geral da Polícia que obrigava os cidadãos a denunciar a "infame e criminosa seita maçónica" para pôr cobro ao "nefando e horroroso projeto de destruir o Altar e o Trono".

Retrato de Elias Garcia.
Imagem: ANTT

O triunfo definitivo do liberalismo (1834) e a ascenção de D. Pedro IV, Grão-Mestre da Maçonaria brasileira, marca um período de apogeu da Ordem, que só viria a terminar com a Revolução de 28 de Maio de 1926. 

No princípio do séc. XIX a Maçonaria contava com milhares de filiados, incluindo nas ilhas dos Açores e Madeira e nas antigas colónias, justificando-se, assim, uma organização federadora, ou Grande Loja.

Esta foi criada em 1802 com o nome de "Grande Oriente Lusitano" (G.O.L.), recebendo o reconhecimento da Grande Loja de Inglaterra em Maio desse ano, embora o respetivo tratado só tenha chegado a Portugal em 1803. Foi eleito primeiro Grão-Mestre o desembargador da Casa de Suplicação, Sebastião José de São Paio de Melo e Castro Lusignam. 

O G.O.L. é, assim, o tronco da Ordem maçónica no nosso país. A sua  Constituição foi aprovada em 1806. Entre 1849 e 1859 o "Grande Oriente Lusitano" denominou-se "Grande Oriente de Portugal", e a partir de 1869 "Grande Oriente Lusitano Unido", retomando a designação original em 1985. 

Desde 1826 e até meados da centúria, o G.O.L. representou a corrente conservadora da Maçonaria, ligada à ideologia política do "cartismo", tendo como Grão-Mestres Silva Carvalho e Costa Cabral.

Este comprometimento provocou várias cisões: do Marechal Saldanha, que fundou em 1828 o "Oriente do Sul", de Passos Manuel, que fundou o "Oriente do Norte" (1834), e de Elias Garcia que [iniciado na Maçonaria em 1853 com o nome simbólico de Péricles, na Loja 5 de Novembro, em Lisboa, ligada ao rito francês e subordinada à "Confederação Maçónica Portuguesa"] criou a "Federação Maçónica" (1863).

Estas cisões corresponderam às diversas correntes do liberalismo e consequen-te conquista do poder, funcionando as respetivas Lojas como células partidárias, como aconteceu com a Loja "Liberdade", fundada em Coimbra em 1863 por lentes da Universidade e intelectuais (António Aires de Gouveia, Bernardo de Albuquerque e Lourenço de Almeida e Azevedo, entre outros menos conhecidos). 

Por isso, as vicissitudes da política repercutiram-se negativamente no prestígio e coesão da Ordem Maçónica. Por seu turno, o próprio G.O.L. havia de gerar a cisão de Silva Carvalho que, com outros, constituiu o "Oriente do Rito Escocês". 

Contudo, em 1869 foi possível reconciliar os Irmãos desavindos, com a criação do "Grande Oriente Lusitano Unido", sob o Grão-Mestrado do Conde de Paraty. Desde então, e excetuando pequenas convulsões, reinou a unidade da família maçónica. Foi o período áureo da Maconaria portuguesa.

Passaram pelo Grão-Mestrado figuras tão ilustres como Elias Garcia António Augusto de Aguiar, Bernardino Machado, mais tarde presidente da República e Sebastião de Magalhães Lima.

Retrato e assinatura de Elias Garcia.
Imagem: Casario do Ginjal

Foram igualmente maçons nomes prestigiados como Mouzinho da Silveira, Alexandre Herculano, Garrett, João de Deus, o cardeal Saraiva, patriarca de Lisboa, Machado Santos, Afonso Costa, António José de Almeida, António Maria da Silva, Miguel Bombarda, Sidónio Pais, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queirós, Rafael Bordalo Pinheiro, Egas Moniz (prémio Nobel da Medicina), Teixeira de Pascoais, Jaime Cortesão e Aquilino Ribeiro. (2)

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Entrou na política, com tendências pronunciadamente democráticas, e em 1854 fundou o primeiro jornal republicano, intitulado O Trabalho; em 1858 apareceu o Futuro, jornal fundado e sustentado por um grupo a que pertencia José Elias Garcia.

Almada, um aspecto do cortejo de homenagem a Elias Garcia, 1933.
Imagem: ANTT

Neste ano ainda se não havia constituído em Portugal o Partido Republicano; José Felix Henriques Nogueira e Lopes de Mendonça não tinham conseguido formar em torno de si um grupo de acção. 

O Futuro, mais tarde, em 1862, fundiu-se com a Discussão, tomando o nome de Política Liberal; foi este um dos jornais que mais valentemente combateram contra a vinda a Portugal das irmãs de caridade e dos lazaristas franceses, sendo secundado nessa luta por José Estêvão na câmara dos deputados.

Em 1868 pertenceu ao célebre grupo do pátio do Salema, donde saiu o Partido Reformista, que foi, por assim dizer, a guarda avançada do Partido Republicano. 

Elias Garcia foi convidado para entrar no ministério presidido pelo bispo de Viseu, D. António Alves Martins, e doutra vez recebeu convite do visconde de Sá do Bandeira. Recusou essa honra, que muitas mais vezes repeliu, mesmo depois de ser eleito para o directório do Partido Republicano.

Cacilhas, um aspecto do cortejo de homenagem a Elias Garcia, 1933.
Imagem: ANTT

Em 1865 foi também redactor principal do Jornal de Lisboa, que redigiu até ao último número. 

A 12 de outubro de 1873 publicou-se o primeiro número da Democracia, jornal redigido por José Elias Garcia, inserindo um artigo editorial escrito por Latino Coelho, precedendo a exposição do programa republicano, que era o do jornal. 

Mais tarde, em 1876, organizou-se um centro republicano, devido especialmente a Elias Garcia. Não foi, porém, este o primeiro centro estabelecido no país, pois já haviam sido fundados em Coimbra, mas até à data da instituição do de Lisboa, ainda o Partido Republicano não estava definitivamente constituído.

José Elias Garcia foi deputado pela primeira vez em setembro de 1870, quando tinha ainda o seu nome ligado ao Partido Reformista, que, por ser então o mais liberal, era o que convinha aos homens que compunham a guarda avançada da democracia. 

Em 1881, depois da valente campanha do tratado de Loureço Marques, em que ele tomou parte muito activa, comparecendo nos comícios particulares que se realizaram em Lisboa contra aquele tratado, e como protesto contra o governo regenerador que iniciara o período das perseguições, foi eleito pelo círculo 95, de Lisboa, para a legislatura que começou em 2 de janeiro de 1882, e terminou pela dissolução de 24 de maio de 1884.

Tornou a ser deputado na legislatura de 15 de dezembro do referido ano de 1884 até 7 de janeiro de 1887, dia em que foi dissolvida a câmara. Também pertenceu à legislatura de 2 de abril de 1887, dissolvendo-se a Câmara em 11 de julho de 1889. Nas eleições que se seguiram, a lista republicana ficou derrotada, porque, não tendo sido atendidas as reclamações dos centros republicanos, a votação se dividiu.

Colocação da lápide na casa onde nasceu Elias Garcia em Cacilhas, 1933.
Imagem: ANTT

Com a questão inglesa e os primeiros actos do despotismo do governo regenerador, o partido republicano novamente se animou, e apesar das simpatias gerais dos candidatos do governo, escolhidos entre os africanistas de maior popularidade, a lista republicana triunfou no dia 29 do março de 1890, sendo Elias Garcia novamente eleito, juntamente com Latino Coelho e Manuel Arriaga.

Durante o tempo em que foi vereador da Câmara Municipal, prestou muitos e importantes serviços; estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, os batalhões escolares, o ensino do desenho de ornato, o canto coral das escolas e as bibliotecas populares. A primeira junta escolar que funcionou foi por ele presidida [...] 

Elias Garcia morreu pobre, porque sacrificou tudo quanto auferia pelos seus trabalhos, em proveito do seu partido, e para a sustentação da Democracia, jornal que ele fundara, e que lhe merecia a maior dedicação. 

A sua morte foi muito sentida; a imprensa unânime, de todas as cores políticas do país, consagram nas colunas dos seus jornais, indeléveis testemunhos de quanto apreciava e respeitava o carácter e merecimento de tão útil e benemérito cidadão, e lastimava a sua perda.

Estandarte da Loja Elias Garcia referente ao vintém das Escolas
Escola n° 1
Imagem: Fundação Mário Soares
O funeral foi imponentíssimo. Ali se viam incorporadas diversas associações as crianças do asilo de S. João, as escolas municipais com os respectivos professores, os alunos e o corpo docente da Escola do Exército representantes de todos os partidos políticos, da câmara municipal, da maçonaria portuguesa, bombeiros municipais, etc. 

Quatro anos depois em 21 de abril de 1895, o Grande Oriente Lusitano mandou levantar um jazigo no cemitério Oriental, para onde foram trasladados os seus restos mortais. Também foi uma manifestação imponente. O monumento é simples, tem a forma de obelisco, foi delineado por Silvestre da Silva Matos. Está levantado em terreno concedido gratuitamente pela câmara municipal, que tomou o encargo da sua conservação e reparação [...] (3)


(1) Almanaque Republicano
(2) António Arnaut, Introdução à Maçonaria
(3) Dicionário histórico

Leitura adicional:
Heliodoro Salgado, A insurreição de janeiro..., Porto, Typ. Emp. Lit. Typ., 1894
Eduardo Barros Lobo, A volta do Chiado, Lisboa, A. M. Pereira, 1902
A maçonaria em Portugal..., Edição da Ligue Anti-Maçonnique.
Luís Alves Milheiro e Abrantes Raposo, José Elias Garcia, Junta de Freguesia de Cacilhas, 2005
A República nos Concelho da Margem Sul

Mais leituras:
A Illustração Popular
Occidente 445, 1 de maio de 1891
O Tiro Civil 109, 1 de abril de 1897
lllustração portugueza 271, 1 de maio de 1911