segunda-feira, 29 de abril de 2019

Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan

Seja o que for que tenha provocado o ataque de Byron contra os portugueses parece ter dissipado a raiva do seu sistema, pois fez anjos dos espanhóis, no seguinte passo das suas viagens. Com contrariedade específica à troça de Byron, Dorothy Quillinan, filha de Wordsworth, determinou-se "ajudar a remover os preconceitos que fazem de Portugal uma terra a evitar". A sua permanência em Portugal em 1845 foi registada num diário. (1)

Doroty Quillinan (Dora Wordsworth) (1804-1847).
The Times

*     *
*

Tomámos novamente um barco em Belém e fomos a remos até Almada, no lado oposto do rio. Aqui deixámos os nossos barqueiros, que receberam contentes a soma que tinhamos combinado por nos trazerem tão longe, e por isso lhes demos um pouco mais, "para beber"; subimos a calçada inclinada, a qual se dirige, com belas vistas abaixo e além do rio, para a pequena vila, onde as ruas são sujas, tal como Mr. Southey [Robert Southey] descreve as de Lisboa como tendo sido meio século atrás.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Pedi para ser levada a uma venda pobre, mas de aparência limpa, e aqui fomos servidos por um belo jovem, de modos superiores à sua condição, que nos trouxe água fresca, serviu-nos vinho do barril, e pôs diante de nós laranjas, mais do que aquelas que pedimos  — laranjas com folhas verdes frescas agarradas  — trouxe-nos facas e pratos, e então, como um verdadeiro cavalheiro  — pois há cavalheiros da moda na natureza  — deixou-nos comer o nosso almoço imperturbados pela sua presença  — deixou-nos na sua loja, o seu balcão a nossa mesa, na qual, num extremo, estavam empilhadas laranjas, garrafas diversas, etc. no outro, atrás do balcão, estavam vários barris grandes de vinho, e alguns, mais pequenos, nas prateleiras acima.

A sala continha pouco mais mobília — nada, creio, excepto um pequeno banco de madeira, que o mestre tirou da parede para nos sentarmos; as paredes não tinham reboco, o telhado sem tecto, o chão de terra batida; a casa apresentava um contraste com o dono que nunca encontraria em Inglaterra.

A princípio, as laranjas não estavam incluídas na sua "conta" e, quando insistimos em pagá-las, "o total de tudo" era de cerca de três "pence" ingleses. Ele saiu para a rua para nos mostrar o caminho para o castelo e, em seguida, cortêsmente deixou-nos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto (1879-1893).
Nuno Prates, Casa dos Patudos

Fomos dentro da capela de Santiago, perto da muralha do castelo. Telhado em abóboda de aresta berço (preto e branco) muito notável. O tecto do corpo da capela pintado em painéis.

Igreja de S. Tiago.
Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1826.
  Wikimedia

Um velho soldado à porta do castelo admitiu-nos, e conduziu-nos por todo o lugar. Castelo, não sei porque assim é chamado, por ser meramente uma fortificação de terra crua [adobe] facetada com pedra. O nosso guia não estava satisfeito em nos mostrar as vistas da muralha mais elevada, e em algumas partes fez-nos andar por três alturas diferentes.

O Tejo de Lisboa a Aldea Gallega é 12 milhas de largo, e por mais tantas milhas cidade acima parece mais um refúgio nascido no mar do que um fugitivo da distante e interior montanha espanhola, de onde viajou cerca de 400 tortuosas milhas, todo o caminho desde as terras selvagens de Albarracin.

Dora Wordsworth (1804-1847) Lisbon, April 14 (1846) see Journal Vol II p. 74.
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)

As vistas desde o castelo de Almada são boas em todas as direcções: rio acima em direcção de Alhandra, mesmo devante, onde toda a cidade de Lisboa está espalhada à vossa frente, e abaixo da maré até Belém, além, e atrás da qual nascem os altos rochosos e irregulares de Cintra.

Podíamos ver as casas brancas cintilar à luz do sol. A sul está o rico vale da Piedade, de onde Sartorius toma seu título de Visconde, e onde está a sua casa convento — estranho título, estranha casa estranha e estranha história para um blue-jacket [marinheiro de guerra] inglês!

E o galante Admiral Viscount Piety tem outra propriedade conventual em Cintra. Ambas foram compradas com os fundos recebidos do governo português pelos seus serviços a Don Pedro, o subversor das instituições monásticas.

Deixámos o nosso soldado guia, dando-lhe pelo seu incómodo uma pequena gratificação com a qual ficou mais do que satisfeito. Descemos a encosta, pelo lado oposto aquele pelo qual tinhamos subido para o cais de Cacilhas, passando debaixo de muros de jardim, sobre e abaixo dos quais pendiam ramos e festões de bem cheirosas e ricamente coloridas flores de várias espécies, e através de ruas não particularmente limpas, mas não tão sujas como aquelas de Almada.

Antes de alcançarmos o cais tivemos uma multidão ruidosa de barqueiros, cada um apregoado preços  mais baixos que os outros para passagem do rio. O barulho que faziam era tão grande que não podiam escutar Mr. 's assegurar-lhes que necessitávamos de burros e não de barcos.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
O Panorama, n° 18, 1847

Por fim, quando isto foi entendido, a turbulência apenas aumentou, e realmente pensei que Mr. estava prestes a ser demolido entre barqueiros e burriqueiros, quando para minha surpresa, ele gritou para mim, "Venha, , monte este cinzento." Fui imediatamente assistida pela pessoa mais próxima, e perguntei-me por qual magia.

A tempestade foi acalmada. R montou um outro; Mr.  montou um terceiro. Forçámos o nosso caminho através da multidão, seguidos pelo nosso alto, magro, guia de olhos pretos, com o seu barrete escarlate tombando sobre o ombro direito, em direcção à vila, e então à esquerda para o vale da "Piedade". O assunto ficou então arrumado.

"Não falem mas oiçam-me. Quero três burros para nos levarem ao convento da Piedade, e darei seis vinténs cada para irem e voltarem, guia e burros esperam por nós tanto tempo quanto possa ser necessário."

Uma vez a proposta aceite pela pessoa mais próxima dele; os outros donos dos burros ficaram em paz, e pusemo-nos à estrada. Nada particularmente impressionante na aparência do vale que é rodeado de colinas suaves, algumas delas cobertas de pinheiros, sendo que em geral há uma grande procura de madeira em ambos os lados, norte e sul, do Tejo.

Passámos por dentro de um lugar que me lembrou uma aldeia inglesa, ou melhor, irlandesa, com os seus espaços verdejantes, e as suas casas franjeando o verde —  uma corrente lamacenta de água furtivamante passava-lhe através. Uma ponte muito velha e curiosa com três arcos, pequena, baixa, e circular, evidentemente romana, passava sobre a corrente para uma estalagem de aspecto inconfortável, como é costume ver-se em Stanmore com "good entertainment for man and horse" pintado em letras pretas muito grandes nas paredes lavadas de branco; aqui similarmente estava pintado "Casa de Pasto."


Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

— Passámos por várias sebes de aloés e cactos; palmeiras aqui e ali, e bonitas flores por todo o lado.  Vinte minutos de passeio trouxeram-nos ao portão do convento, que é em pedra talhada, e formoso, e sobremontado por uma cruz simples e bonita.

Muito do convento foi destruído, e a parte que resta não é formosa — um lance de pedra destaca-se, a única quebra na longa linha direita da frente. Um criado inglês dirigiu-no através do jardim, onde estava uma bonita imagem, um pequeno moinho, algo como os nossos moinhos de debulha, sombreado por um grupo de palmeiras.

Quinta dos Frades. De Paço do Desembargador d'El Rei a Museu da Cidade de Almada, António Policarpo, 2017.
Rostos

Então subimos as escadas de pedra, entrámos numa sala larga e baixa onde está uma mesa de bilhar, e onde estão pendurados retratos de santos e monges e muita relíquias curiosas de tempos passados. Voltámos à nossa direita através de uma antecâmera onde estavam pendurados mais monges e santos, e ao fim da qual está outra divisão longa e baixa, a sala de estar, com janelas nos três lados — tão bonita esta sala! uma mescla de conforto inglês com frescura portuguesa e riquezas orientais de côr e explendor.

O passatempo do almirante — o lagar de azeite — foi-nos mostrado, e também o foi o lagar de vinho, e a adega, que são as partes mais notáveis do edifício.

Apressámo-nos de volta a Cacilhas, para apanhar o vapor das três em ponto, mas felizmente chegámos um pouco atrasados

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
reprodução em colecção particular

— felizmente, porque alguns dos barqueiros barulhentos com os quais já tinhamos falado ofereceram-se para nos transportar por oito vinténs, e fizeram-no, muito agradados, no seu barco muito limpo, com a sua vela triangular, e desembarcaram-nos no "Caes do Sodre."

Passámos perto de três navios de guerra, o "Vasco da Gama," muito novo, "Ferdinando," e "Don Joao."

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
 Internet Archive

Tudo o que pagámos pelas grandes e bonitas vistas de hoje, incluindo barcos e barqueiros, burros e burriqueiros, e vinho e laranjas, foram was 5s. [shillings] 6d. [pennies]. Não tivemos problemas com algum dos homens; eles disseram uma vez a soma pela qual se comprometiam a nos levar, estavam contentes com isso, e bem agradados com os poucos pence pagos a mais. (2)


(1) Paul Buck, Lisbon: A Cultural and Literary Companion, Lisbon, Signal Books, 2002
(2) Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... London, E. Moxon, 1847

Artigos relacionados:
Francisco Inácio Lopes
O visconde da Piedade
Fragata D. Fernando II e Glória
etc.

Mais informação:
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)
Referências a Portugal em Wordsworth Trust (incl. Dora Wordsworth sketchbook)
Quillinan, Uma Família Irlandesa em Portugal
Biblioteca Nacional de Portugal
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 1
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 2

Leitura relacionada:
Robert Southey on Portugal: Travel Narrative and the Writing of History



QUILLINAN, EDWARD (1791–1851)
poet, born at Oporto on 12 Aug. 1791, was the son of Edward Quillinan, an Irishman of a good but impoverished family, who had become a prosperous wine merchant at Oporto. 
His mother, whose maiden name was Ryan, died soon after her son had been sent, in 1798, to England, to be educated at Roman catholic schools. Returning to Portugal, he entered his father's counting-house, but this distasteful employment ceased upon the French invasion under Junot in 1807, which obliged the family to seek refuge in England. After spending some time without any occupation, he entered the army as a cornet in a cavalry regiment, from which, after seeing some service at Walcheren, he passed into another regiment, stationed at Canterbury. A satirical pamphlet in verse, entitled 'The Ball Room Votaries,' involved him in a series of duels, and compelled him to exchange into the 3rd dragoon guards, with which he served through the latter portion of the Peninsular war. In 1814 he made his first serious essay in poetry by publishing 'Dunluce Castle, a Poem,' which was printed at the Lee Priory Press, 4to; and it was followed by 'Stanzas by the author of Dunluce Castle' (1814, 4to), by 'The Sacrifice of Isabel,' a more important effort (1816); and by 'Elegiac Verses' addressed to Lady Brydges in memory of her son, Grey Matthew Brydges (Lee Priory, 1817, 4to). In 1817 he married Jemima, second daughter of Sir Samuel Egerton Brydges [q.v.], and subsequently served with his regiment in Ireland. In 1819 'Dunluce Castle' attracted the notice of Thomas Hamilton (1789-1842) [q.v.], the original Morgan O'Doherty of 'Blackwood's Magazine,' who ridiculed it in a review entitled 'Poems by a Heavy Dragoon.' Quillinan deferred his rejoinder until 1821, when he attacked Wilson and Lockhart, whom he erroneously supposed to be the writers, in his 'Retort Courteous,' a satire largely consisting of passages from 'Peter's Letters to his Kinsfolk,' done into verse. The misunderstanding was dissipated through the / p.104 / friendly offices of Robert Pearse Gillies [q.v.], and all parties became good friends. In the same year Quillinan retired from the army, and settled at Spring Cottage, between Rydal and Ambleside, and thus in the immediate neighbourhood of Wordsworth, whose poetry he had long devotedly admired. Scarcely was he established there when a tragic fate overtook his wife, who died from the effects of burns, 25 May 1822, leaving two daughters. 
Wordsworth was godfather of the younger daughter, and he wrote an epitaph on Mrs. Quillinan. Distracted with grief, Quillinan fled to the continent, and afterwards lived alternately in London, Paris, Portugal, and Canterbury, until 1841, when he married Wordsworth's daughter, Dorothy (see below).  The union encountered strong opposition on Wordsworth's part, not from dislike of Quillinan, but from dread of losing his daughter's society. He eventually submitted with a good grace, and became fully reconciled to Quillinan, who proved an excellent husband and son-in-law. In 1841 Quillinan published 'The Conspirators,' a three-volume novel, embodying his recollections of military service in Spain and Portugal. In 1843 he appeared in 'Blackwood' as the defender of Wordsworth against Landor, who had attacked his poetry in an imaginary conversation with Porson, published in the magazine. Quillinan's reply was a cento of all the harsh dicta of the erratic critic respecting great poets, and the effect was to invalidate in the mass an indictment whose counts it might not have been easy to answer seriatim. Landor dismissed his remarks as ' Quill-inanities ;' Wordsworth himself is said to have regarded the defence as indiscreet. 
In 1845 the delicate health of his wife induced Quillinan to travel with her for a year in Portugal and Spain, and the excursion produced a charming book from her pen (see below). In 1846 he contributed an extremely valuable article to the ' Quarterly' on Gil Vicente, the Portuguese dramatic poet. In 1847 his second wife died, and four years later (8 July 1851) Quillinan himself died (at Loughrig Holme, Ambleside) of inflammation, occasioned by taking cold upon a fishing excursion ; he was buried in Grasmere churchyard. His latter years had been chiefly employed in translations of Camoens's ' Lusaid,' five books of which were completed, and of Herculano's 'History of Portugal.' The latter, also left imperfect, was never printed ; the 'Lusiad' was published in 1853 by John Adamson [q.v.], another translator of Camoens. 
A selection from Quillinan's original poems, principally lyrical, with a memoir, was published in the same year by William Johnston, the editor of Wordsworth. Quillinan was a sensitive, irritable, but most estimable man. ' All who know him,' says Southey, writing in 1830, 'are very much attached to him.' ' Nowhere,' says Johnston, speaking of his correspondence during his wife's hopeless illness, 'has the writer of this memoir ever seen letters more distinctly marked by manly sense, combined with almost feminine tenderness.' Matthew Arnold in his 'Stanzas in Memory of Edward Quillinan,' speaks of him as ' a man unspoil'd, sweet, generous, and humane.' As an original poet his claims are of the slenderest ; his poems would hardly have been preserved but for the regard due to his personal character and his relationship to Wordsworth. His version of the 'Lusiad,' nevertheless, though wanting his final corrections, has considerable merit, and he might have rendered important service to two countries if he had devoted his life to the translation and illustration of Portuguese literature. 
His wife, DOROTHY QUILLINAN (1804-1847), 
the second child of William Wordsworth, was born on 6 Aug, 1804. She was named after Dorothy Wordsworth, her father's sister. By way of distinguishing her from her aunt, Crabb Robinson used to call her 'Dorina.' The same writer calls her the 'joy and sunshine' of the poet, who saw in her an harmonious blending of the characteristics and lineaments of his wife and sister. 'Dora,' he wrote in 1829, 'is my housekeeper, and did she not hold the pen it would run wild in her praises.' 
She published in 1847 (2 vols, 8vo, Moxon) 'A Journal of a Few Months' Residence in Portugal, and Glimpses of the South of Spain,' dedicated to her father and mother. Wordsworth's later poems contain several allusions to Dora, and she is celebrated in particular along with Edith Southey and Sara Coleridge in 'The Triad.' She died at Rydal Mount on 9 July 1847, and was buried in Grasmere churchyard.
[cf. Dictionary of National Biography, Vol.47]

sexta-feira, 15 de março de 2019

Zé Cacilheiro

Quando eu era rapazote,
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida! ...
Manobrei, e gostei dela,
E lá m'atraquei a ela
Pro resto da minha vida!

Cacilheiro, Rio Alva.

Às vezes, numa pessoa,
A saudade não perdoa,
Faz bater o coração!
Mas tenho grande vaidade
de viver a mocidade,
Dentro desta geração!



Sou marinheiro,
Neste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo!
E navegando ...
A idade foi chegando ...
O cabelo branqueando ...
Mas o Tejo é sempre novo!

Cacilheiros na Estação Fluvial de Cacilhas no final de 1973.
Nuno Bartolomeu no Facebook

Todos moram na rua
A que chamam sempre sua,
Mas eu cá não os invejo.
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas
E a minha rua é o Tejo!

Embarcações no Tejo.
Delcampe

Certa noite de luar,
Vinha eu a navegar
E de pé, junto da proa!
Eu ouvi, ou então sonhei
Qu'os braços do Cristo-Rei,
Estavam a abraçar Lisboa!

Zé Cacilheiro José Viana, Zero Zero Zé (ordem para pagar), 1966.
As canções da minha vida

Sou marinheiro,
Neste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo!
E navegando ...
A idade foi chegando ...
O cabelo branqueando ...
Mas o Tejo é sempre novo!


No desejo de organizarmos uma colectânea de poesias olisiponenses, publicamos hoje «Cacilheiro» da autoria do Sr. Paulo Fonseca, interpretado pelo actor José Viana, na revista Zero Zero Zé — Ordem para pagar. (1)



(1) Olisipo, N.os 117/118, ANO XXX, Janeiro/Abril 1967

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Um Hino a Almada

Comemorando o 50.° aniversário da sua fundação, mandou a Academia de I. R. F. Almadense fazer, com o consentimento do autor, a pubicação deste poema, onde se exaltam as virtudes antigas e modernas do bom povo de Almada. 

Detalhe da capa do livro Um hino a Almada, Álvaro Valente, 1945.
InfoGestNet

Poema em onze cantos. Na Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense na tarde de 4 de Junho de 1944. (1)

Intróito

Canto I A Natureza. Os Monumentos

Canto II Costa do Sol

Canto III O Trabalho

Canto IV S. João da Ramalha. Popular

Canto V Origem do nome de Almada

Canto VI O cêrco de Almada

Canto VII Um Auto e dois processos

Canto VIII Restauração de Portugal

Canto IX Lutas Liberais

Canto X Vultos Ilustres

Canto XI Almada actual. Arte e espíritos


(1) InfoGestNet cf. Álvaro Valente, Um hino a Almada, Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1945

Informação relacionada:
O Pharol: Álvaro Valente, o Homem e a Obra
Livreiro Monasticon

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Almada por Barata Moura (1911-2011)

Para o diretor do Museu do Fundão, Pedro Salvado, "Barata Moura continua a ocupar uma assinalável presença no imaginário artístico regional como um pintor afetuoso da Beira e das suas gentes, como um peculiar artista emissor de afetos e detentor de uma pintura de registo de tempos, de rostos e de espaços vivenciais".

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Câmara Municipal de Almada

Realça ainda que "com um colorismo assumidamente imaginado, reproduzindo, por vezes, ingenuidades de captação, desenvolveu um entendimento muito pessoal do que era a arte e a função da sua pintura enquanto um arquivo-registo. 

Almada antiga, Paisagem com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Registos de ritmos temporais contrastantes da paisagem camponesa tradicional idealizada, onde se encontram ausentes angústias, negatividades ou interrogações e que confirmam os equilíbrios e o enraizamento das comunidades a uma arquitetura secular e a um calendário sazonal". (1)

 
O Último adeus a Barata Moura (2)

Na última 2ª feira, dia 3 de Março [de 2008], visitamos o pintor José Barata Moura. Depois de intensa pesquisa para localizar o Mestre, foi com a ajuda de amigos, que o conseguimos encontrar em Lisboa, numa casa de repouso no Restelo.

Almada antiga, Rua de Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Uma casa calma, com amplos jardins, dedicada exclusivamente para receber e cuidar de grandes e talentosos artistas, como pintores, escritores, compositores... 

Almada antiga, Casario com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Era ansiosa esta visita, tanto para nós como para o Mestre, que nos recebeu com um contentamento muito próprio, pois desde o ano de 1989, quando foi convidado para estar presente nas comemorações dos 50 anos do Arsenal, nunca mais tinha recordado com Arsenalistas a sua vivência enquanto trabalhador do Arsenal do Alfeite.

Almada antiga, Casa com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Com a bonita idade de 97 anos, mantém ainda um estado de espirito muito forte e alegre, com um "poço" cheio de histórias acumuladas durante toda uma vida dedicada à arte, não só na pintura, mas também à música, ao teatro, à dança e à rádio.

Almada antiga, Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Foi diferente aquela tarde de 2ª feira... conhecer pessoalmente o Mestre Barata Moura, é coisa que nunca mais se esquece...

O Tejo em Lisboa, Barata Moura, 1979.

Fica aqui o nosso registo e agradecimento à Adiministração da casa que acolhe o Mestre, à forma pronta e simpática como nos recebeu [...] (3)


(1) Gazeta do interior, 24 de agosto de 2016
(2) Rádio Cova da Beira, 20 de dezembro de 2011
(3) Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, 8 de março de 2008

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Os pergaminhos de Cacilhas

Era ao anoitecer e eu estava inda em Lisboa. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Circumstancia desagradavel para quem se tem demorado pelo Caramujo a saborear os ultimos sorrisos e a placida melancholia do ameno Outono d'este anno. 

Ora o Caramujo, como de certo sabem, fica na margem esquerda do Tejo de cristal; a nossa querida Lisboa fica na margem direita. Daqui se deduz, por um syllogismo incontroverso, que para se ir de Lisboa ao Caramujo tem de se atravessar o rio, e para se atravessar um rio é necessario um barco, a menos que algum Moysés condescendente não haja por bem rasgar com a sua varinha as aguas, e conceder-nos a passagem a pé enxuto, como se o nosso itinerario fosse para a Palestina.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Ora em consequencia d’esta serie de raciocinios andava eu pelos caes de Lisboa á procura não de um Moysés, mas de um bote, exactamente como Jeronymo Paturot andava por esse mundo de Christo á procura da melhor das republicas. 

Mais feliz do que Paturot, encontrei o que procurava. E verdade que o encontrei no caes do Sodré. Ora as republicas dos "caes do Sodré" são, segundo assevera o Senhor Francisco Palha, as mais anarchicas e as mais difficeis de governar.

O bote appareceu. Estava cercado de escaleres americanos, de barcos abandonados já pelos seus patrões, e que, baloiçando-se e embalando-se com o murmurio dé agua negra que lhes beijava a amurada, pareciam preparar-se para dormir á luz das estrellas e da lua, que surgia larga e vermelha, como um escudo em braza, no horisonte Oriental. 

Os remos cairam na agua, o bote deslisou silencioso, como um espirito dos humidos abysmos, por entre esse labyrintho de, mastros, e a final entrámos na esteira luminosa que a lua projectava sobre o rio.

Soprava do norte uma fresca viração encrespando levemente as ondasinhas, que se franjavam de espuma. Soltou-se a vela, O bote curvou-se graciosamente ao impulso d'essa aza branca, infunada pela brisa, e partimos.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Hemeroteca Digital

Pouco a pouco Lisboa foi fugindo de nós, involta, como fada nocturna, no seu véo de chammas. O confuso ruido que se lhe exhalava do seio foi esmorecendo com a distancia e transformando-se n'um murmurio vago, respiração immensa d'essa Babylonia, que antes desperta do que adormece com as primeiras horas da noite.

Era o rumor das carruagens, era o enxamear da turba ás portas dos theatros, era o ultimo vozear dos pregões confundindo-se nesse indisivel sussurro que vinha expirar no silencio augusto de uma noite de luar no Tejo.

O bote corria, ligeiro como um corcel generoso que sente a espora do cavaleiro, e como ele ora abaixava a cabeça, procurando afrouxar o passo, e deixando bater a vela no mastro, ora erguia garboso o collo, galgava o cume boleado de uma vagasinha que vinha, enrolando-se, quebrar no costado do barco, e deslisava de novo rapidamente na esteira espumosa branqueada pelo clarão da lua. 

Já lá ficava longe a Babylonia rumorejante, e os vultos immoveis dos navios do quadro estampavam, por um e por outro lado, a sua mastreação fina e airosa no fundo transparente da atmosphera inundada de luar.

Além Lisboa tornava-se já unicamente visivel por uma larga faxa de luz scintillante que orlava o rio. Ao seu eterno clamor succedera o murmurio flebil e queixoso das aguas.

Depois a margem fronteira foi avultando, avultando, e veio ao nosso encontro com a sua casaria branca, e silenciosa, illuminada apenas em cheio pelo clarão argenteo e melancholico da pallida rainha da noite.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*]

Cacilhas dormia á beira do rio que lhe espumava no caes; a sua tranquilidade eremitica, o silencio em que estava immersa, o alvor deslumbrante das suas casas, apenas illuminadas pelo jorro de luz, que lhe chovia do carro prateado de Diana, contrastavam de um modo notavel com tumultar de Lisboa, sua donosa visinha.

E eu, encostado na popa do bote, affastava os olhos do immenso esplendor com que a grande capital incendiava o espelho do Tejo, e ficava-me enlevado a mirar essas casinhas brancas, tão socegadas, tão mudas, todas banhadas pelo luar, agrupadas timidamente, não ousando sequer mirar-se nos crystaes do Tejo, e molhando timidamente os pés na espuma, que resaltava da vaga aos degraus lodosos do caes.

E pensava:

O que é a popularidade! Ente caprichoso que ao acaso escolhe um homem, uma aldeia, uma cidade, um reino, e o eleva ao fastigio da gloria, e o illumina, e o immortalisa, e o cinge de capellas de loiro, deixando no olvido outro homem, outra aldeia, outra cidade, outro reino, que tem titulos iguaes!

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Delcampe

Cacilhas! É quasi a incarnação da prosa. A celebridade dos jumentos atou-se fatalmente a esta aldeia ou villa, e condemnou-a para sempre a ser proscripta do dialecto poetico. Ser o cantor de Cacilhas equivale a ser o Camões da guerra do pão barato, ou o Petrarcha d’uma forçureira. Nicoláu Tolentino, querendo estampar o ultimo vergão do ridiculo nas faces d'um pobre versejador, depois de interpellar asperamente Jove por consentir que "um homem de couros baios — siga ás musas suas filhas"

Potente Jove onde estão
Os teus vingadores raios!

requer-lhe formalmente que, para se desaggravar de tamanha injuria, ordene a esse malvado que

Saia logo do Parnaso
E passe para Cacilhas. 

Aqui está como fica desacreditada uma povoação! Que tinha a pobre Cacilhas feito a Nicolau Tolentino [v. Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II], para que o maganão do poeta a escolhesse como antithese do Parnaso, e a lembrasse como o unico logar da terra capaz de receber um versejador de má morte?

"Não ajuda ao padre a cara" ilustração de Nogueira da Silva.
Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II

E comtudo a pobre vilasinha alvejava tão serena e risonha, tão banhada de poesia naquella noite em que o meu barquinho cortava as aguas phosphorescentes! Que mais bella póde ser Sorrento, reclinada á beira da sua bahia napolitana, Procida ou Castellamare debruçadas sobre as ondas azues do Mediterraneo?

E comtudo essas cidadinhas de poeticos e sonoros nomes vivem na nossa memoria perfumadas pelas grinaldas de versos, com que todos os poetas desde Virgilio até Lamartine as enramaram, e Cacilhas, a pobre Cacilhas, mal ousa intrometter-se, como rima desdenhada, no fecho d’uma decima satyrica!

Mas não! engano-me! houve um poeta que arrostou o preconceito e que deu a Cacilhas foros de nobreza tradicional. Esse poeta foi Antonio de Sousa Macedo, o embaixador de D. João IV na Inglaterra, o author das Flores d'España, o cantor da Ulyssipo.

Este Ulyssipo é um maravilhoso poema! Trata da fundação de Lisboa, segundo a acreditada versão de frei Bernardo de Brito. Ora é o caso que no tempo em que Ulysses andava ás aranhas pelo Mediterraneo, reinava em Lisboa até Santarem um poderoso rei chamado Gorgorís, que morou, segundo parece, no paço das Necessidades, e cujo exercito já n'esse tempo manobrava em Tancos. Ulysses, que era rei de Ithaca, o que vem a ser quasi o mesmo que ser rei da ilha do Fayal, andando á procura da sua ilhota do Archi pelago veio ter á foz do Tejo, engano que se parece muito com o d'um capitão de navios que, querendo ir de Lisboa a Setubal, fosse parar á Islandia. Mas d'este engano resulta muita bulha entre o tal Gorgoris e Ulysses, bulha que se acabou casando este com D. Calypso, filha d'aquelle, e fundando a cidade a que deu o seu nome, nome que, pela corrupção da linguagem se veio a transformar em Lisboa.

Ora, segundo nos informa o senhor Antonio de Sousa Macedo, não é menos digna de menção a origem dos nomes dos arredores de Lisboa. Arroyos era o nome d'um gigante que requestava uma nympha, e a nympha para fugir d’elle transformou-se n’uma fonte, que é nem mais nem menos que o chafariz, de Arroyos! De fórma que a magana da camara municipal, que nós julgavamos um modelo de pudicicia, tem um verdadeiro harem nas praças da capital, harem de nymphas que se transformaram em chafarizes!

E Cacilhas?

The Harbour of Lisbon (praia de Cacilhas), Charles Henry Seaforth (1801-c. 1854).

Cassilia, que ditosa companheira
Jupiter déra a Gorgoris famoso,
Teve d’ella a Calypso, unica herdeira 
Dos reinos que domina poderoso. 

Estes reinos eram Lisboa, Santarem, Aldeia-Gallega, e não sei se a Lourinhã. 

Amava a mãe á filha de maneira, 
Que, por saber seu fado duvidoso, 
Consulta a Chiron, sabio cuja essencia
Abonou ante nós larga experiencia.

Este Chiron, que depois de ensinar Achilles, andava naturalmente por este mundo, dando lições por casas particulares, prophetisa-lhe toda essa tramoia do Ulysses, e amnuncia-lhe que sua filha, a poderosa herdeira dos reinos de Santarem, Lisboa e Aldeia-Gallega, virá a casar com um rei não menos poderoso, que lá na Grecia governa uma ilha formidavel, ilha que não tem menos de meia legua de comprimento. Cassilia fica louca de alegria com tal notícia, e tanto que morre, mas, antes de morrer, diz assim:

No monte, que mais alto se levanta
Nas enseadas do Occéano por onde,
Movendo o Tejo a cristallina planta,
No mar as aguas não a fama esconde,
Por onde me ha-de entrar ventura tanta,
Se aos astros o successo corresponde,
Sepultem minhas cinzas, que ali quero
Dos fados esperar o bem que espero.


Vinha ella a dizer na sua que queria ser sepultada no monte d'Almada para dar fé de quem entrava a barra. Assim se fez, e de Cassilia, essa curiosa endemoninhada, que até depois de morta o era, veio, como podem suppôr, o nome de Cacilhas.

Portugal, Costumes 8, Carregando um burro, En chargeant un âne (imagem editada),
cf. Luís Bayó Veiga, Crónicas d'agora sobre Cacilhas d'outrora, vol. I.
União das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas

Já vêem que não são para despresar os pergaminhos cacilhenses, e que um poeta qualquer poderá cantar Cacilhas sem que os famigerados jumentos intervenham forçosamente nos seus versos. (1)


(1) Manuel Pinheiro Chagas, Scenas e phantasias Portuguezas, 1867

Informação relacionada:
Morte de Manuel Pinheiro Chagas, O Occidente, 15 de abril de 1895

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O grande Peixe

O grande Peixe, que entrou neste porto a semana passada, se não tem certo conhecimento da sua especie, Alguns entendem ser huma Bufalina, a que os Francezes dão o nome de "Soufleur", id est, Assoprador, outros que seja certa especie da Balea a que os Hollandezes charnam Kapeku; mas como a sua figura é differente da Balea, e de qualquer outro peixe conhecido, se espoem aqui em estampa aos curiozos som as medidas de todos os teus membros, e huma breve de descripção da sua estructura com mais certeza, que a semana passada.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710.

Tinha este Peyxe 87. palmos de comprimento, e na sua mayor grossura 43. de circunferencia, que por ser perfeitamente redondo, teria dc alto 14. e hum terço. Na parte onde acaba a barbatana do espinhaço tinha 14. de circunferencia. Desde alli hia diminoindo com figura chata até grossura de 2. palmos e meyo somente, e na parte mais delgada começava e rabo, deitado, e não ao alto como os outros peixes com 4. palmos de comprido, e 7. em circunferencia, acabando em duas pontas como os das Andorinhas com exensão de 18. palmos.

Lisabona, Ankunfft Konigs Caroli des III in Hispan zu Lissabon..., 1704.
ZVAB

A cabeça era de notavel grandeza. O rasgado da boca tinha 15. palmos , e toda a círcunferencia della 6o. Seis homens metidos em pè dentro na sua concavidade parecia occuparem puma pequena parte della; o queixo de cima acabava tomo unha de ancora, e era guarnecido em lugar de dentes dc 644. barbas, que principiavaõ com meyo palmo , e acabavaõ em dous e meyo junto ao canto da boca. As de diante occupavão 5. palmos de cada lado, e erão brancas em numero de 294. As que occupavão os dez palmos ate  junta dos queixos, erão 350. e tiravão a cor dc chumbo, como a do mesmo Peyxe.

A parte superior da concavidade da boca tinha huma especie de sedas como de Javali, quasi brancas, com hum terço dc palmo de comprimento, e no meyo huma fórma dc quilha, que continuava da ponta da boca até a goela, branca, e liza, com meyo palmo de largo , e outro tanto de grosso, mas adelgaçando no meio acabava com dous palmos de largura. A parte era liza, e da cor do mesmo Peyxe. No alto da cabeça tinha duas ventas, ou buracos por onde respirava com dous palmos e meyo de comprido. Cada hum dos olhos tinha hum palmo de diametro e contavam-se 13. entre hum, e outro.

Vista de Lisboa e fantasia da margem sul do Tejo, Martin Engelbrecht segundo Friedrich Bernhard Werner, 1750.
AbeBooks

Sobre o lombo tinha huma barbatana de palmo e meyo de alto, coai dous e tres quartos de comprido, e desta até o rabo havia 17. e meyo de distancia. Tinha nas ilhargas duas azas de 11. palmos de extensão cada huma, as quaes distavão 9. e meyo do canto da boca. Desde os queixos pela parte da barriga tinha 33. listas brancas, e entre ellas outras tantas meyas canas cor dc chumbo, com que fazião 66. as quais acabavão todas em fórma pyramidal no embigo, que se distinguia com huma concavidade de meyo palmo, e havia sete e meyo ate a via da propagação, a qual mostrava ser femea, e tinha dous palmos e meyo de comprido, e de cada parte huma mamadeira, ou teta de palmo com seu bico no meyo.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library 
Cabral Moncada Leilões

A via do excremento tinha hum palmo. A guela hum quarto de palmo de diametro , e della para a boca lhe cahião sobre o queyxo dc bayxo humas pelles como redenhos de perto de dous palmos e meyo brancas, encarnadas, e vermelhas, ou tirantes a roxo. A pelle era delgada, e tão mimosa que com pouca força, que se lhe applicava, a destazião.

Baleia de bossa, infograma publicado na Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723.

Dizem que havendo entrado neste rio discorrera por elle até sitio da Madre de Deos, donde voltára para a vizinhança de Cassilhas, e que se chegára tanto a terra, que enraiando-se entre huns grandes penedos, não pudera sahir deles, e vacando a maré, se achára em seco, e forão tão grandes os urros, que dava de se ver fóra da agua, que atemorizou os moradores naquelle destrito. (1)


(1) Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Marrare de Cacilhas, casa de pasto e hotel da villa...

Á entrada da casa de pasto vulgarmente denominada do Marrare, estabelecida na rua da Oliveira em Cacilhas, se lê em gordos caracteres, lançados sobre enorme taboleta, o seguinte:

HOTEL DE VILLE.

E por baixo deste lettreiro

CASA DE PASTO!!

A traducção não pode ser mais elegante, nem mais fiel; porém, como seja novissima, julgamos fazer grande e relevante serviço ás pessoas que frequentão aquella villa, em as prevenir de que não obstante significar Hotel de ville, o que em língua Portugueza sempre significou — "Casa da Camara"; também hoje em idioma Cacilhense significa — "Casa de Pasto do Marrare".

Chapeo de castorinho. Sobrecasaca de panno. Calça de casimira.
Bonnet de setim. Sobrecasaca de estamenho. Calça de cassineta dobrada.
Capeo de castor. Colete de sarja de seda. Casaca de panno de senhora. Casaca de cotim.

E não será isto verdadeiro progresso? Sentimos em verdade, que o erudito Barboza [Diogo Barbosa Machado] não alcançasse o nosso tempo para mencionar na interessante Bibliotheca Lusitana [publicada entre 1741 e 1758], que nos deixou, a primorosa traducçâo acima referida, o nome do distincto traductor, o seu ninho paterno, idade e nascimento. (1)


(1) Progresso da lingua franceza, O Correio das Damas, agosto de 1839

Informação relacionada:
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume I
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume II
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume III
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume IV