terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Luiz Gonzaga Pereira, Almada e o Tejo em 1809

Nasceu Luiz Gonzaga Pereira cm Lisboa, na Freguezia de S.to Estevão, em 21 de junho de 1796; era um dos trinta filhos de Joaquim Manoel Pereira, praça do regimento de Beça, onde prestou serviço até 1773, sendo nesse ano nomeado, por provisão régia, mestre da officina de aprestes de artilheria do Arsenal Real do Exercito, cargo que ocupou até 3 de março dc 1823, dia em que faleceu com 90 anos de idade, e 75 de serviço.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 27.
Montanha da Villa de Almada, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Casou em terceiras nupcias com Maria Barbara de Bulhões Diniz, de quem teve, entre outros filhos, Luiz Gonzaga Pereira.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Este casou em 1815 com Maria Antunes, de quem teve 12 filhos. Ainda muito novo já mostrava vocação para o desenho, como se vê pelos exemplares coligidos numa obra, a que adiante faremos referência, feitos com 13 anos de idade a bordo da náu Vasco da Gama, a qual fazia parte da esquadra do Estreito, que nos anos dc 1809 e 1810 cruzava nas aguas do sul de Hespanha e de Portugal, e do norte dc África [...]  (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

NAU VASCO DA GAMA (1792-1822)

Nau de 80 peças construída no Arsenal de Marinha por Torcato José Clavina e António José de Oliveira, foi lançada à água em 15 de Dezembro de 1792, juntamente com a fragata Ulisses e o brigue Palhaço.


Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 21.
Cabo da Roca, e Serra de Cintra, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

As suas dimensões eram de 55,20 metros de quilha, 14,55 de boca e 11,52 de pontal. Com urna guarnição de 663 homens, armava com 28 peças de calibre 36, 32 de 24e 16 de 12. Participou nas Esquadras do Canal de 1793 e 1794.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 24.
Torre do Bogio, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Ficou em Lisboa durante a ocupação francesa por não se encontrar ainda em condições de navegar quando da chegada dos franceses.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 25.
Trafaria, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A sua artilharia foi transferida para a Martim de Freitas. Durante a ocupação francesa serviu de de-pósito aos produtos e materiais saqueados pelos franceses, nomeadamente a prata das igrejas, conventos e capelas de Lisboa.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 23.
Torre de S. Jião, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Tomou parte nas Campanhas do Rio da Prata e de Montevideu em 1816. Ficou no Brasil depois da independência em 1822 [...]  (2)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 30.
[Mutela, Caramujo], Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Coligidos em um outro livro ou album, que tem por titulo "Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa".

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 31.
Alfeite, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Teve principio em 1809, o qual pertenceu ao sr, José Joaquim d'Ascenção Valdez, e hoje é do auctor desta noticia, encontram-se 130 desenhos, quasi todos aguarelados, dos quaes os 34 primeiros representam vistas de vazios sitios do Mediterraneo, das costas de Portugal, e da Bahia do Tejo até ao Barreiro (?); os 93 imediatos são vistas de aspectos de Lisboa, e de edifícios e locaes da cidade; e os 3 ultimos são copias de assumptos de Loanda. 

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 32.
Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Pela numeração das estampas reconhece-se que o album está incompleto. Quando começou a fazer estes desenhos tinha Gonzaga Pereira 13 anos de edade [...] (3)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 33.
Bahia do Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


(1) Prefácio de A. Vieira da Silva, Monumentos Sacros de Lisboa em 1833...
(2) Revista da Armada n.° 413, novembro de 2007
(3) Prefácio de A. Vieira da Silva, idem

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O edifício da União Eléctrica Portuguesa

O antigo edifício da União Eléctrica Portuguesa, projectado pelo Arquitecto Francisco Keil do Amaral, surgiu da necessidade que a Companhia Nacional de Electricidade tinha de estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Entrada Conjunto Pormenor.
Arquivo Municipal de Lisboa

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo que integrava a subestação tinha um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. No entanto, era ainda neste local que se situavam todos os serviços de apoio ao transporte de energia.

Em termos da evolução histórica da zona a intervir, pode-se claramente distinguir quatro fases, todas elas temporalmente situadas no século XX.

A fase inicial, realizada entre 1930 e 1940, traduziu-se num pequeno edifício residencial, de autor desconhecido, característico da arquitectura do regime de então. 

Almada, geradora eléctrica, localizada no Campo de S. Paulo, ed. desc., década de 1930.
Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

A segunda fase foi já protagonizada pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, em 1940. O edifício em forma de L e a sua torre vertical ficaram acabados em 1945 e tinham como fim alojar os escritórios da União Eléctrica Portuguesa.

Almada, rua Bernardo Francisco da Costa, ed. desc., década de 1950.

Com o passar do tempo foi necessário expandir os escritórios e criar armazéns, tendo-se assim dado início à terceira fase. Grande parte desta inter- venção constava já do projecto original de Keil, ao qual foi apenas necessário acrescentar a casa do Guarda e a conexão com o edifício pré-existente.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Escada Fachada.
Arquivo Municipal de Lisboa

A quarta e última fase consistiu numa série de adições necessárias de re- alizar, tal como o novo volume em betão que servia para estacionamento. Na construção e no acabamento da obra de Keil foram usadas paredes duplas de tijolo, rebocadas com argamassa de cimento e areia ao traço de 1x4 e pintadas com “aquella”. Ao nível dos pavimentos, foram colocados mosaicos de “marmorite” e de cimento com óxido de ferro.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Sala de vendas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Adicionalmente, nesta obra usou-se ainda um vasto conjunto de materiais, nomeadamente socos de cantaria bujardada provenientes de Sesimbra, caixilharias de pinho pintadas a esmalte, com uma vidraça mecaniza- da nacional de 4mm, e ainda telha “marselha”, em lugar da tradicional telha “lusa”. (1)


(1) Reabilitação da antiga subestação da união eléctrica portuguesa, em Almada (abstract)

Mais informação:


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Almada no mapa do rio Tejo e da cidade de Lisboa em 1663 por Dirk Stoop

Chegaram esta manhã as gravuras do rio Tejo e da Cidade de Lisboa, que mediu com a sua própria mão e imprimiu por ordem do rei. My Lord agrada-se com isso, mas eu penso que deveria ter sido melhor feito se não tivesse sido um trabalho ocasional. Além disso, informei-o da tiragem sobre cetim branco, que ele logo encomendou. (1)  

Map of the river Tagus and the city of Lisbon (detail), Dirk Stoop, 1663.
British Museum

O primeiro conjunto de gravuras que Stoop produziu em 1662 após a sua chegada a Inglaterra foi uma série muito rara de oito longas vistas horizontais que mostram cada etapa da viagem de Catarina a Londres, desde a chegada de Lord Montagu ao Tejo, com a frota inglesa enviada para a transportar, até à procissão triunfal ao longo do Tamisa (Hollstein 31-8). 

Cada gravura tem textos em inglês e português, e cada um deles é dedicado a uma pessoa diferente, desde Lord Montagu (o Conde de Sandwich) e ao rei Charles, ao Mayor da Cidade de Londres.


A água-forte exibida aqui mostrada foi feita no ano seguinte e destaca-se da série anterior. A história encontra-se no diário de Pepys de 24 de Agosto de 1663 [v. acima ...]

Esta é a única impressão sobrevivente da água-forte e está impressa em cetim branco, como sugeriu Pepys. A falta de editor mostra que se tratava de uma água-forte particular não comercial. A cota de armas real dedica-a ao rei, enquanto as armas de Sandwich acima da cártula do título mostram seu papel no assunto.

Map of the river Tagus and the city of Lisbon, Dirk Stoop, 1663.
British Museum

O canto inferior esquerdo mostra o retrato de Sandwich a segurar a sua régua de medição, e o modo incompleto como o plano foca o estuário do Tejo prova que foi tirada do seu plano feito no local.

Map of the river Tagus and the city of Lisbon (detail), Dirk Stoop, 1663.
British Museum

Uma nota de rodapé de Sir Oliver Millar ao diário de Pepys (IV p.286) sugere que a fonte é um plano no diário de Sandwich, no qual ele registrou 'O restante das minhas observações do rio de Lisboa são aperfeiçoadas e impressas na minha gravura de cobre sobre a orientação de Kinges.' Evelyn regista que Sandwich também era um gravador amador ('Sculptura' p.131).


A depreciação de Pepys da água-forte como meio de impressão é uma expressão típica da preferência estética contemporânea em favor da gravura. Assim como seu desejo de vê-las impressos em seda em vez de papel. (2)


(1) The Diary of Samuel Pepys, Monday 24 August 1663

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (IV de IV)

Ás mesmas horas, pouco distante, nos paços d' Alcaçova, como o dia fôra abrasador, D. João II e alguns fidalgos e jurisconsultos passeavam n,uma esplanada, que dominava a cidade e o Tejo. 

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

Eram varios os grupos, e convergiam, como de rasão, as attenções de todos para aquelle onde estava el-rei, composto de pessoas mais distinctas pelos seus serviços e fidelidade á corôa, do que pelos seus brasões e nascimento. Ali se viam Diogo d'Azambuja, que as navegações e guerras haviam tornado manco e velho! D. Diogo d' Almeida, o amigo d'infancia do rei e tão feliz nas expedições d'Africa; Ayres da Silva e Antão de Faria, seus camareiros e privados; os doutores Ruy da Graan, depois compilador das Ordenações Manoelinas, e Diogo Pinheiro, elevado a bispo do Funchal, e alguns outros, cujos nomes as chronicas do tempo nos memoram hoje [...] 


Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

sábado, 19 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (III de IV)

No longo, obscuro e tormentoso periodo de quasi dez seculos que fórma a idade média, constantemente, se pelejou uma lucta encarniçada entre os varios elementos constitutivos da sociedade europea. 

O feudalismo, a theocracia, a democracia e a realeza, tomando va-riadas fórmas, debateram-se, triumpharam, successiva e momentaneamente uns sobre os outros, e dcsfalleceram para tornar a surgir, trium-pbar e desfallecer. 

Estas tentativas de organisação social, todas grandiosas e mais ou menos fundadas no espírito do homem e nas circunstancias do tempo, abortaram, ora pelo seu exclusivismo, ora pela extincção do proprio fundamento, ora, finalmente, porque obstavam á civilisação que do reciproco attrito de todas começava a raiar.

Áquem do facto, momentoso por si e sobre tudo pelos seus effeitos, que separa os tempos modernos dos da meia idade, a lucta continuou até hoje; mas em períodos mais vastos, mais definidos, ou antes com luz mais intensa sobre elles, que n'ol-os deixa ver mais em relevo e côres mais vivas. 

Pereceram quasi de todo já o feudalismo e a theocracia; os estremecimentos que, de quando em quando, ainda lhes senlimos são os arrancos do moribundo. Tentar dar-lhes vida é emprehender uma resurreição, o que só compete ao espírito de Deus e não ao do homem. Extinguir-lhes antes os raros bafejos d'ella que ainda conservarem: é poupar-lhes soffrimentos, é alliviar a humanidade d'esse espectaculo de receios e dôr.

Agora luctam ainda, n'um ou n'outro ponto, a realeza, que julga vigorosos os moribundos e por elles illudida, pois os sente ainda es-trebuxar por toda a parte, e a democrncia que aspira á liberdade e ao progresso. Ba de finalisar-se esta peleja, e hão de os contendores, dando um abraço de fraternidade e paz, conhecerem que está no seu amor reciproco o conseguimento da pacificação e do mais facil era-pido desenvolvimento da sociedade humana.

Ora ao sair da idade média, na segunda metade do seculo quinze, a realeza alliara·se com o povo para destruir o seu maior inimigo, aquelle que mais de perto a offuscava e affrontava.


Os dois alliados davam então no feudalismo o mais terrivel golpe, o que o prostraria no solo, e de que não mais se havia de levantar. Predominava este facto por toda a Europa.

Henrique VII na Inglaterra, Maximiliano na Atlemanha, Luiz XI na França, Fernando e lzabel na Hespanha e João nem Portugal eram os athletas reaes n'aquella peleja, em que os populares foram illudi-dos e espoliados, e de que só victoriosos e preponderantes saf ram os sceptros.

Foi D. João II dos mais terriveis contendores: o seu panegyrista, sem querer mesmo, retingir-lhe de sangue, assombreou-lhe de terror muitas paginas da Chronica.

Com sua vontade ferrea immolou sem piedade os nobres mais altivos e poderosos que receiava lhe fizessem estremecer o throno.

Atravez dos seculos e das paginas da historia, ainda hoje divisamos o pavor, que infundia na classe, por tão largo tempo, rival dos reis e oppressora dos povos, o olhar de João II.

Não devem pois maravilhar as hesitações e receios do filho do conde de Caminha. Apenas chegado a Lisboa, viu elle quanto eram justas; prenderam·n'o e conduziram-n'o a um carcere do Limoeiro, já então convertido em prisão real.

São passados quinze dias que ali jaz.

Eil'o pallido, magro e enfraquecido; sentado junto de um bofete, n'uma cadeira d'espaldar de lavor simples. Á primeira vista não parece o mesmo; desfigurou-o a tortura, esse meio hediondo e cruel que a justiça antiga empregava para descobrir a verdade. Dilacerou-Jbe os membros, rasgou-lhe as carnes, infligiu-lhe as dõres mais vivas, e conseguiu apenas ouvir ao cavalleiro reiterados protestos de innocencia.

Proximo a D. Alvaro, de joelhos, sobre um coxim de panno escuro, os cotovellos apoiados na cadeira e uma das mãos de Sotto-Maior, meigamente, apertada entre as suas, está Maria, triste, mas acariciadora, empregando todo o amor e ternura que lhe transparecem nos olhos formosissimos em confortar o cavalleiro, em lhe inspirar resignação, em distrahil-o de seus dolorosos soffrimentos do corpo e do espírito.

Não foi possível retel-a na sua casa d'Almada; penetrou no paço quasi escusamente, lançou-se aos pés do monarcha e disse-lhe que a neta de um dos mais honrados procuradores do povo, durante os tres reinados anteriores, lhe rogava ir encerrar-se na prisão com o misero cavalleiro seu noivo. Tantas foram as supplicas e as lagrimas que se apiedou o rei... é que tinha coração para os infelizes o filho de A ffonso V. 

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)


Um dos letrados da casa da Supplicação, com o seu rosto pallido e a sua garnacha escura, estava defronte dos dois amantes. 

Eram os jurisconsultos, que ajudavam e impelliam os reis na sua obra; as leis da antiga e da moderna Roma serviam-lhes de aríete para destruirem a nobreza e enthronisarem o absolutismo. 

— Senhor D. Alvaro, dizia o doutor, n'esla nobilíssima, porém mais que todas pungidora missão de administrar a justiça, jámais me hei sentido affiicto, como no caso que vos diz respeito. Foram empregados debalde todos os meios para descobrir se vós ereis ou não conspirador. João Dagualda porfia em accusar-vos como tal. As vossas relações com o duque de Vizeu e o bispo de Evora, com D. Fernando de Menezes e D. Pedro de Athaide, já todos mortos por justiça de el-rei, — e aqui o doutor fez uma profunda mesura, — e principalmente a vossa ida a Castella são as unicas provas de que tinheis o intento, que vos attribuem, de matar o senhor D. João. — e de novo curvou a fronte, — rei pelo voto dos concelhos, rei principalmente por direito divino.  

IOANNES QVARTVS PORTVGALIAE REX
Kunsthistorisches Museum

— Já a isso respondi cabalmente, doutor, disse o cavalleiro com voz desfallecida. Tinha relações com esses infelizes que Deus tem, porque eram da minha classe, porque estivera com elles nos campos de batalha, porque os encontrava todos os dias nos paços de el-rei. Fui a Caslella, porque tenho lá casa e parentes, porque negocios de familia me chamavam lá. 

— Hoje assim o creio, senhor cavalleiro; os juízes porém da Supplicação não estão conformes ainda todos, e sua alteza o senhor D. João II, outras mesuras a quem sabeis, todos estes feitos são presentes, e de cuja vontade depende sobre tudo a sentença, porque a lei e o querer de Deus; e o querer de Deus é o querer do principe, está de tal modo decidido a manter como lhe compete, o poder da corôa. e a defender este reino contra os conloios de Castella, que, sinceramente, muito vos receio pela vida.

Maria estremeceu, e o seu alvo rosto tin~iu-se d'aquella cór ama-rello-escuro que dá a melancholia profunda e prolongada ou o medo grande. A D. Alvaro não se lhe agitou um musculo, e respondeu no seu primeiro tom:

— Faça-se a vontade da Virgem Mãi de Deus!

— E depois nós os homens de justiça, continuou o doutor, não sabemos explicar aquella contumacia de João Dagualda, antigo servidor dos vossos, em accusar-vos como traidor, e cm querer mal á bclla e santa menina que ahi tendes. O haverdes-lhe fustigado as faces não é sufficiente causa para n'um homem da sua condição arreigar tama· nho odio. De provardes ou não sua calumnia suspensa vos está a vida. E como havemos declarai-a tal não o sabemos nós.
 

— Sei eu! disse Maria, — levantando·se de um salto, as faces affogueadas, os olhos faiscantes, — sei-o eu, e não o disse já, porque me vexava, porque Alvaro ordenou-me que vol-o occultasse, porque pensei que ereis mais providentes, julguei que a cegueira da justiça era em quanto á condição dos réos para a todos applicar igualmente a lei, e que lhe era facil, na sua perspicacia e rectidão, descriminar o bem do mal, o innocente do criminoso, descobrir com todos os seus immensos meios de sciencia e dinheiro aonde a verdade, aonde a calumnia! Mas enganei-me, e, visto que a vida de Alvaro depende d'essa revelação, hei de desobedecer-lhe, tudo direi a el-rei; direi por que o servo abjecto e vil me quer mal, e como sabe, que, se Alvaro morrer, eu morrerei lambem, por isso quer leval-o ao cadafalso. Mas não ha de ir. O cavalleiro e eu, — disse com voz inspirada, — temos por egide a protecção da Virgem; disseram-me que el-rei é tambem devoto da Mãi de Deus: irei fallar-lhe em seu nome, e em nome de todo o povo de Portugal; irei dizer-lhe que o sangue do innocente, espadanando-lhe para a corôa, lhe ha de marear o brilho, mostrar-lhe-hei que os direitos dos populares não se sustentam, sacrificando-lha o justo, dir-lhe-hei que a independencia portugueza tem por si o coração de todos os portuguezes, e que nada podem as ambições de Isabel, a castelhana, contra um povo forte do seu direito; dir-lhe-hei finalmente, o que tiver sobre o coração 1 Vinde pois, doutor 1 levai-me aos paços do rei de Portugal, aos paços. d'aquelle que, segundo vós dizei11~ administra n'esta nossa terra a justiça de Deus!

E radiante de enthusiasmo, de inspiração, de insania talvez, Maria travou do jurisconsulto e lêvou-o apoz si para fóra do carcere.

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

Informação relacionada:
Necrologia de José de Souza e Mello
Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Camiña

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (II de IV)

Era n'uma casa pequena e rustica d' Almada, debruçada de sobre a montanha para o mar, como velha á borda de um regato, scismando nos seus amores de rapariga.
N'um pequeno aposento, notavel só pela vista magnificente que tinha a janella, e pelo aceio que n'elle reinava, estavam sentados Maria e Alvaro em pratica affectuosa e intima e com as mãos reciprocamente dadas.

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808

Maria recebêra a educação mais esmerada d'aquella época. 

Era de uma formosura admiravel sem ser apparatosa; despercebida a distancia, maravilhava ao contemplar-se de perto. Tinha o rosto e as mãos de uma grande alvura, não d'aquelle branco do leite igual e sem brilho; mas sim do alvo resplandecente da perola, que não cança, e até regosija a vista. O cabello farto de um louro escuro, entrançado primorosamente, moldurava-lhe o rosto; as feições todas eram regularíssimas e bellas, e azues lhe brilhavam os olhos.

N'estes e em toda ella possuía a serenidade a aparente, que realça a modestia e infunde maior paixão e mais respeitosa, das mulheres do norte. Os olhos então tinham uma luz meiga de ternura e de bondade que lhe dava ares de uma santa. Julgar-se-hia por um momento que a alma lhe remontava da terra, onde nada a prendia, e se elevava ao céo e perdia nas regiões bemaventuradas dos que estão com Deus. Se então fattava a voz, sempre suavíssima, tinha a doçura da flauta, ouvida ao longe em noite de luar e a uncção quasi divina da voz juvenil da virgem enlaçada ao orgão do mosteiro.

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808

Mas quando uma aura de amor ou d'outro sentimento grande vinha agitar aquelle regato puríssimo de seu viver, desapparecia inteiramente a serenidade, os olhos scintillavam-lhe com uma luz resplandecente e vivíssima, e toda ella era amor, e paixão, e enthusiasmo e delírio! Similhavam então as suas fallas um hymno ruidoso e arrebatador, e levam-nos apoz si, inspirando-nos tudo quanto é difficil, ingente e sublime. Era o amor, a gloria, e a loucura que se personificavam n'ella para nos endoudecerem.

Agora estava Maria n'aquella sua meiga serenidade habitual, mas que tinha hoje um toque mais fundo de melancholia e tristeza.

— Tu és, Alvaro, — dizia ella meigamente — cavalleiro, nobre e filho de um grande de Hespanha e Portugal, como poderás jámais desposar-me a mim, filha do povo!... — Outr'ora, — continuou, animando-se um pouco, — tinha vaidade da minha condição, enobrecia-me o ser oriunda de populares, enlevava-me, ouvindo a meu decrepito avô repetir as orações com que elle e os outros procuradores dos povos tinham em côrtes, durante muitos annos, fulminado o orgulho, abatido o poder dos fidalgos. Hoje o amor que te consagro e esse desejo teu de o quereres santificar perante a egreja, o que cu nunca te pedi, mas que era, por certo, a maior ventura de minha vida, fazem com que me lastime de não ter nascido nobre como lu, fazem com que eu renegue as crenças de meus paes, as crenças do povo.

— Não penses tal, Maria! a verdadeira nobreza, sobre tudo nas mulheres é a da alma, é a da virtude; e n'isso és tu mais nobre que rainha alguma, tu que és uma santa.

— Santa!

— Santa sim, erguida e venerada no altar de meu coração!

— A virtude minha é só devida á generosidade e elevação tuas, Alvaro.

— Á honra propria de todo o homem honrado, talvez; e deixa-me ter d'isso orgulho, Maria. Mas, se tal não fosse, não acreditava no teu amor. Já t'o hei dito, e repito-o agora bem do intimo da alma; não creio que a mulher, amando verdadeiramente, amando ardentemente um homem, lhe possa resistir. Nas mulheres é ludo o coração, quando elle resiste ao amor é porque o não sente devéras. Da parle do homem, que tem brio, é que está, é que deve estar a sufficiente força para refrear a sua paixão e a da mulher que estremece, pois não deve querer precipital-a n'um abysmo de vergonha, não deve querer arrebatar-lhe a virtude, seu atavio principal. Quantas vezes um homem, gasto dos prazeres, simulando um sentimento que não tem, vae com palavras sonorosas e requebros estudados, desvairar o espírito, já de si ardente, de uma pobre menina e arrostal-a â perdição; é esse um vil, que a sociedade a ser justa, devia para toda a vida marcar de ignomínia!

— Dcixára-se Maria suavemente descair, ajoelhára ante o cavalleiro, e beijando a sua mão delicada, alva, quasi feminil, disse:

— Tu és bom, meu Alvaro!

— Toda a bondade que tenha de ti procede, minha esposa; redarguiu elle, tomando-lhe nas mãos a cabeça, e aos labios achegando-a com amor, ensinou-rn'a a tua doce voz, inspiram-me esses teus olhos do céo.

Um bater apressado á porta do aposento fez levantar rapidamente Maria, que foi abrir.

A menina estremeceu ao dar de rosto com sua mãe pallida e assustada.

— Que é, disse ella?

— Senhor D. Alvaro, respondeu a boa senhora com voz tremula, um cavalleiro dos ginetes de Fernão Martins de Mascarenhas diz que el-rei vos ordena o acompanheis a Lisboa.

Sotto-Maior empallideceu tambem; é que uma ordem d'aquellas a um nobre, nos primeiros annos do reinado de D. João ii podia, mui facilmente, ser uma sentença de morte.

Os tres olharam-se reciprocamente, não ousando articular um som. Sem animo, vacillante, quasi desfallecida, apoiou-se Maria a uma cadeira para não cair.

Sua mãe foi a primeira que fallou:

— Senhor D. Alvaro — disse com voz sumida — fugi! Uma grande tristeza, como terror do futuro, me ennegrece o corarão. Chegastes ha pouco, de Castella, e sabeis, que se diz por cá tramar a rainha lzabel com os nobres de Portugal contra a corôa de D. João ii. Talvez alguem, que vos queira mal, fosse calumniar-vos junto de el-rei. É tão difficil ao bom provar a sua innocencia, quanto é facil ao malvado fazer uma accusação. Livre, menos custoso será a vossa mercê convencer sua..alleza de que foi enganado, preso, nem a justiça vos dará para isso tempo. Fugi! Saí pela porta do jardim, e breve estareis fóra da villa. Tomae na Amora um cavallo, ide a Setubal e lá embarcae para Castella ou para França. Acreditae-me, senhor, não arrosteis com a sanha terrível do homem, que assassinou o duque de Vizeu.

— Julgo que tendes razão... Digo-vos em consciencia, e por alma de minha santa mãe vos affirmo, ciue jámais tramei contra o rei de Portugal!... mas esta verdade mais difficilmcnte do que em parte alguma a provarei no fundo de um carcere!... Que dizes, Maria? ha no teu coração de amante, que tantas vezes a presciencia illumina, alguma voz a aconselhar-me que me ausente da côrte?

— Não! — respondeu em tom seguro, scintillando-lhe os olhos, colorindo-se-lhe o rosto, alteando-se na sua figura esbelta. — Não! que jámais diria a um homem que é nobre, nobre d'alma, que fugisse ante a justiça da minha patria. El-rei D. João é o amigo do povo, tu nunca fizeste mal a este, elle não te fará mal a ti. Adevinha-me o coração que tens de arrostar um grande perigo. Mas vae, que o exige a honra! Contra a calumnia prevalecerá a innocencia: el-rei é justiceiro, e a Virgem será por nós!

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808asil Colônia 1750-1808

E Maria declamou isto com tal enthusiasmo no gesto, com tanto fulgor nos olhos, com tamanha paixão na voz que D. Alvaro, arrebatado, tomou-a nos braços, estreitou-a ao seu coração, beijou-a na fronte e disse-lhe, affastando-se:

— És tu, filha do povo, que ensinas ao nobre a verdadeira nobreza! Adeus! Reza por mim á Rainha do Céo!

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

Informação relacionada:
Necrologia de José de Souza e Mello
Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Camiña

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (I de IV)

Bellos arraiaes d'Almada! Sois em noites estivas, quando não sopra com violencia a ventania do norte, o regosijo d'aquellas formosas filhas da margem esquerda do Tejo. Formosas sim, que ainda as não vi tanto e em tão grande numero em outro algum logar!
 
View of Lisbon (detalhe).
Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

E ali perpassam, á palida luz das lanternas festivaes, dezenas e dezenas d'ellas; todas moças, alegres, lindas e trajadas com simples e encantadora elegancia.

São reuniões aquellas, como de familia: todos se conhecem, fallam e tratam intimamente. É vasto o salão, e sublima-lhe o tecto a abobada amplíssima do céo; ora escuro e recamado de eslrellas rutilantes, ora azul e explendidamente illuminado pelo brilho suavíssimo da lua.

Amo os arraiaes d' Almada! Gosto de ver todas aquellas raparigas, pavoneando-se ao mesmo tempo modestas e vaidosas, gosando do ar puríssimo da villa, embriagando-se no doce amor da juventude. 

Pois não sabeis, lindas, que o mesmo solo, que tão descuidadamente pizaes, foi, ha mais de tres seculos e meio, scenario de amo-res tão puros como os vossos; porém mais ardentes e mais contrriados do que são por certo os que boje tendes. 

Era por uma noite de lua cheia do mez de agosto de 1486. 

Nunca de nuvens fôra tão limpo o céo, nem tão luzido o luar; similhava uma noite dos tropicos, em que a rainha aerea brilha mais do que o sol de inverno cm terras europeas. 

N'aquelle pequeno adro do convento de S. Paulo dos dominicos de Almada batia a lua em chapa. De junto á cruz de pedra, que se le-vanta no meio, via-se ao lado a simples casa religiosa; lá ao longe a linha escura e longa das casarias de Lisboa; mais longe ainda a serra de Palmella; mais proximo um mar de prata, que scintillava e' bramia, correndo para o oceano; e, então, mui perto já, mas na frente e do outro lado, o castello d'Almada e as habitações da villa.

View of Lisbon (detalhe).
Convento de S. Paulo em Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

E era uma noite linda, e, para mais augmentar o encanto da natureza, o orgão da egreja e o cantar dos frades vinham povoar o espaço com as harmonias magestosas dos canticos sagrados.

Ha nas mesmas fórmas externas do catholicisrno uma poesia divina, que as mais das vezes dá uncção e sublimidade a tudo. 

Junlo á cruz estava sentada uma esbelta menina, vestida de branco, e preso na cabeça um véo preto que lhe descaia donairoso sobre as costas. A alvura do seu rosto quasi que excedia á do vestido; não se divisava porém se eram bcllas as feições, porque estava como occulta na penumbra do cruzeiro. De quando em quando voltava a fronte na direção da porta do templo. 

Havia alguns minutos que assim estava como em expectativa, quando saiu da igreja um moço cavalleiro, muito conhecido n'aquelles sitios, D. Alvaro de Sotto Maior; nobre de nascimento e mais nobre ainda pela gentileza do seu porte, pelo seu valor muitas vezes provado, pelos sentimentos elevados de sua alma.

— Então rezaste, Alvaro? — disse com voz melodiosa o vulto branco, levantando-se e indo para o mancebo. 

— Rezei! Sinto n'alma doce consolação, prazer ineffavel, quando ajoelho ante a imagem da Santa Virgem e lhe peço por ti, Maria; e lhe imploro que te dê felicidade junto de mim, que t'a conceda por intermedio meu. 

— Nem de ti me póde vir senão felicidade, meu Alvaro. Mas senti agora grande pena de não te acompanhar á egreja. 

— Pezou-me tambem a mim ... Que pela nave do templo havia apeuas tres ou quatro vultos de devotos, bons velhos, affeiçoados nossos; mas o côro estava cheio de frades... se te vissem entrar comigo sósinha, e a estas horas, o que diriam ámanhã por toda a villa em suas murmurações?
 
— Foi melhor assim. Eu esperei, e tu foste prostarte junto do altar illuminado da Mãe de Deus. — Já que nos roubaram a nossa imagem de tanta uncção e milagre...

— Olvida essa que te fará entristecer... a da egreja, com o seu rosto entre as luzes e as flôres, brilhava com um fulgor mysterioso que me penetrou no coração. Olha, Maria, nós os homens, moços ainda sobretudo, levados, como de roldão, entre o ruido e paixões que nos apresenta o mundo, que nos entreteem e occupam inteiramente, olvidamos um pouco, olvidamos demasiado aquella devoção, aquella fé, que a mãe e a família nos infundem em creança. Eu sou como todos. Esqueci o nome dos innumeraveis santos a que minha mãe de joelhos e mãos postas me fazia rezar á noute, esqueci aquellas orações, cujas palavras, machinalmente, repetia sem entender. Hoje apenas sei rezar á Virgem, e de todas aquellas preces só gravada em meu coração ficou a Ave Maria. 

— E essa basta se a disseres com verdadeira fé. 

— Digo. Sinto-me sempre outro, mais forte, invulneravel quasi depois de implorar o soccorro da Virgem: tento as maiores emprezas, sou temerario mesmo. Tenho inabalavel crença de que ha de chamar em meu auxilio a protecção de Deus. No céo, entre os santos, não tenho, nem quero senão a Ella; na terra, só a ti possuo, e só te quero a ti, Maria. Tu que apesar de pobre e filha do povo, és mais, vales muito mais do que essas da minha classe, que tumulluam nos salões de D. João ii; tu, que me tens guiado na quadra procellosa, que vae passando para os. da minha stirpe, que me tens affastado, com o teu amor, d'essas conspirações todas infelizes e sanguinarias dos nobres contra o poder fatal da corôa, que nos vae cerceando os privilegios, mas engrandecendo com elles a nação; tu que me ensinaste, mais pelo coração do que pela palavra, a pospôr o interesse individual e da minha classe ao hem geral da patria portugueza; tu, pois, que te abandonaste a mim de corpo e alma, que inteiramente confiaste na minha honra; tu serás minha esposa. 

— Vossa esposa! nunca! — Gritou um vulto negro que se levantou de traz do parapeito que rodeia o adro. — Nunca! pois que o filho de D. Pedro Alvaro de Sotto-Maior, visconde de Tuy e conde de Caminha, jámais deshonrará o seu nome illustre ha quatro seculos, alliando-se com a filha de um villão!... [o personagem do conto baseia-se em Alvaro de Sotomayor y Távora, 2º conde de Caminha, sobrinho de Lourenço Pires de Tavora, 1º senhor do morgado de Caparica]

— Villão ruim de sangue e sentimentos é esse que me falla! — Clamou o cavalleiro, endireitando-se para o vulto. 

— Quem vos falla, senhor D. Alvaro, é João Dagualda, escudeiro, que foi, de vosso honrado pai, que viveu vinte annos no seio da vossa família, que foi estimado por todos os vossos, e que muitas vezes por elles arriscou a vida.

— Menos quando na batalha de Touro deixou meu pae no campo estendido entre os feridos, e se passou para as bandeiras de Izabel e de Fernando; nem quando acintosameote anda a buscar ensejo de insultar e affrontar as pessoas que estimo e que respeito. 

— Enganaram vossa mercê; foi o senhor conde quem me enviou a Izabel de Castella; o senhor conde, que depois me recommendou á hora da morte, que vos advertisse da bonra do seu nome, para que o não conspurcasseis com o da família d'essa mulher, que, apesar de ser então ainda quasi infante, já amareis, com o d'essa familia que me tem calumniado, que vos tem feito esquecer a vossa verdadeira patria e os interesses, isenções e tymbes da classe a que pertenceis, d'essa família vil e refalsada... 

Ao escutar estas palavras, D. Alvaro estremeceu, levantou rapidamente uma vara flexivel, como um vime, que tinha na destra, e verberou com ella o rosto de João Dagualda. 

Travou este de um punhal que trazia no cinto; mas, vendo Sotto Maior levar a mão á espada, saltou sobre o parapeito e d'ahi para as terras contiguas, bradando: 

— Tu me pagarás, Alvaro de Caminha. 

E desappareceu.

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

A menina de branco tinha caído quasi desfallecida sobre os degráos do cruzeiro. O cavalheiro enclinou-se para ella, dizendo: 

— Perdoa, Maria!

— A Virgem sabe se não lhe perdoei já! — disse meiga, mas dolorosamente a donzella. Porém, voltemos para casa; o luar, que me parecia tão lindo ha pouco, enegrece-me agora o coração.

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

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